sexta-feira, 20 de setembro de 2019

César Felício - Todos frágeis para 2022

- Valor Econômico

Se economia limita Bolsonaro, oposição está fragmentada

Pesquisas qualitativas encomendadas pelo mercado financeiro constataram, no começo de janeiro, que o presidente teria um prazo de 24 meses, aproximadamente, para começar a gerar emprego e promover crescimento, sem trazer inflação de volta.
Esta era a tolerância dada pela maioria dos grupos de discussão antes de que se começasse a debitar na conta de Bolsonaro a responsabilidade pelo cenário econômico, independentemente da culpa ser dele ou não.

São dois anos que o presidente tem para apresentar resultados, já se passou um terço deste prazo, as perspectivas são modestas e a tensão entre Bolsonaro e o seu principal ministro deve começar a se manifestar.

Para Paulo Guedes, a data para tirar as panelas do fogo termina antes. Essencialmente o ministro precisa oferecer ao presidente liquidez, dinheiro na mão, para o governo manter a máquina em funcionamento e ter alguma narrativa a oferecer para os que passam a noite em filas no Anhangabaú procurando emprego, como mostrou a coluna de Maria Cristina Fernandes, publicada ontem. Este povo, hoje, não tem motivos para apoiar o presidente. Não é razoável pensar que Bolsonaro esperará a bomba estourar no seu colo dentro de um carro estacionado.

Na área econômica, Bolsonaro vive das expectativas que desperta nos escritórios da Faria Lima, mas não tem o capital para queimar. Concorrer à reeleição em meio a uma crise econômica, como tudo sugere ser o caso de Jair Bolsonaro em 2022, por si só não é sinônimo de morte política, desde que se conte com um colchão. Em 1998, Fernando Henrique Cardoso reelegeu-se com praticamente a mesma votação obtida quatro anos antes, em um contexto de aumento significativo do desemprego e com a economia em forte desaceleração.

A âncora cambial, contudo, reduziu a inflação naquele ano para o mais baixo índice registrado na segunda metade do século 20. O governo federal será capaz de criar alguma bolha semelhante? A conferir. Em 1998 isto foi o que bastou para contrabalançar os fatores negativos e os dois movimentos do cenário político: a união da oposição esquerdista com a aliança entre Lula e Brizola e a dissidência na base governista, representada pela saída de Ciro Gomes do PSDB. Não há nada semelhante à vista para ajudar Bolsonaro agora.

A oposição em 1998 perdeu, mesmo tendo cumprido o manual básico: fez alianças e aproveitou as divisões do governismo. É alvissareiro para Bolsonaro o fato dos seus maiores adversários levarem a disputa por protagonismo a um ponto que impede qualquer união, o que deve ficar claro já nas eleições do próximo ano. Melhor ainda para o presidente a dificuldade de seus opositores de promover a renovação.

Um contraste com o caso brasileiro pode ser visto na Argentina. Como um analista político do mercado observou, não é apenas o insucesso econômico de Mauricio Macri que explicará sua mais que provável derrota. Ela se dará também pelos méritos políticos de seus adversários.

Juan Arias - A estéril e mórbida impaciência do clã Bolsonaro

- El País

Há que se respeitar o que já foi conquistado

Às vezes, o Presidente Bolsonaro e seus filhos me lembram uma síndrome que um psiquiatra descobriu em uma criança. O pequeno não suportava esperar que um botão de rosa abrisse naturalmente suas pétalas para mostrar toda a sua beleza. De raiva, destruía o botão com suas mãos antes de dar-lhe tempo para abrir. Imagino que um dia se curaria daquela loucura, pois do contrário acabaria por destruir a si mesmo como despedaçava a rosa a qual não dava tempo de nascer.

Se alguma coisa um dia diferenciará o lulismo e o dilmismo do recém-nascido “bolsonarismo”, é que esse nasceu contra a natureza, sem respeitar o tempo de gestação. O bolsonarismo, além disso, não só é constituído de um líder, como sobre ele recai a força e a fraqueza de todo um clã familiar.

Hoje o Brasil e sua forma de Governo se parecem mais com uma dinastia imperial e uma família real, do que com uma democracia representativa. Não existe somente um presidente que organiza e cuida da nação, e sim um grupo familiar aguerrido, em cujas mãos se movimenta, querendo ou não, ainda que sabemos que quer, o ex-capitão do Exército, Jair Bolsonaro.

Às vezes chega a parecer que os que tomam as últimas decisões são seus descendentes, seus três filhos: Carlos, o vereador, Eduardo, o deputado federal, e Flávio, o senador. E é possível que também, ainda que em silêncio, sua própria esposa, Michelle, mesmo sendo notório que Bolsonaro não acredita muito na inteligência e competência das mulheres. Já defendeu que devem ganhar menos do que os homens.

Estamos, por isso, diante de uma maneira atípica de governar que mal começou seu percurso, e já se revela atropelando, impaciente, intolerante, de disse e não disse, de volta atrás de afirmações graves. Tudo isso é duplamente perigoso porque acaba sendo paralisante. Bolsonaro e a forma de governo que seu clã tenta impor, convencidos como estão e como verbalizou em público há pouco Carlos, o filho mais arrojado do clã, é que “a transformação que o Brasil quer não acontecerá por vias democráticas”. Por quais então?

Luiz Carlos Azedo - Contra-ataque da Lava-Jato

- Nas entrelinhas | Correio Braziliense

Coube ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso determinar a retomada das ações da Polícia Federal contra políticos com mandato, numa espécie de contra-ataque à ofensiva em curso contra a Operação Lava-Jato, que envolve a cúpula dos três poderes da República e o próprio Ministério Público Federal. Essa é a leitura que se faz da decisão de Barroso que autorizou buscas e apreensões nos gabinetes do líder do Governo no Senado, Fernando Bezerra (MDB-PER), e de seu filho, o deputado federal Fernando Bezerra Filho (DEM-PE). Segundo a Polícia Federal, há suspeitas de que ambos receberam, juntos, R$ 5,538 milhões em propinas de empreiteiras.

Barroso é o principal aliado da força-tarefa da Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo seu despacho, a PF reuniu “elementos de prova que indicaram o recebimento, ao menos entre 2012 e 2014, de vantagens indevidas pelos investigados, pagas por empreiteiras, em razão das funções públicas por eles exercidas”. Ainda de acordo com o despacho, há indícios de corrupção passiva, corrupção ativa, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica eleitoral por parte de pai e filho nas delações premiadas dos empresários João Lyra, Eduardo Leite e Arthur Rosal. Eles assinaram colaboração em razão da Operação Turbulência, que investigou o acidente aéreo que culminou na morte de Eduardo Campos. Os Bezerra negam as acusações.

A investigação é uma bomba na política de Pernambuco, pois há uma zona cinzenta na campanha do falecido ex-governador pernambucano e candidato a presidente da República, em 2014. Proprietário do avião, João Lyra supostamente recebia valores de Eduardo Leite, que era dono de uma factoring e de outras empresas que lavavam dinheiro de empreiteiras investigadas na Operação Lava-Jato. Arthur Rosa usava contas bancárias de seus postos de gasolina com o mesmo objetivo. Os três disseram que o senador Fernando Bezerra e o deputado Fernando Filho recebiam repasses de propinas por determinação das empresas OAS, Barbosa Mello SA, SA Paulista e Constremac.

Barroso alegou que as buscas nos endereços se justificam para “obtenção de objetos e documentos necessários à prova das infrações penais”, porém rejeitou sequestro e bloqueio de bens de Fernando Bezerra Coelho e do filho, por considerá-los medidas “apressadas”. Sua decisão acirrou as contradições entre o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Justiça, Sérgio Moro. No encontro entre ambos, Bolsonaro teria questionado o ministro: “A PF tinha razão para a busca e apreensão ou está fora de controle?”

Bruno Boghossian – Conflito existencial

- Folha de S. Paulo

Símbolo da política tradicional, líder é peça importante para levar Eduardo aos EUA

A operação da Polícia Federal contra o líder do governo no Senado evidencia um conflito existencial da geringonça política de Jair Bolsonaro. O presidente jamais recuou em definitivo de seus ataques às velhas práticas do Congresso, mas recorre sem corar a alianças de conveniência para conseguir o que quer.

O veterano Fernando Bezerra Coelho (MDB), alvo da operação desta quinta (19), é uma peça-chave do governo na reforma da Previdência e, principalmente, no esforço para aprovar o nome do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL) para a embaixada do Brasil em Washington.

O líder do governo foi ministro de Dilma Rousseff e aliado de Michel Temer. Foi escolhido pelo novo presidente para a missão não a despeito de sua conexão com a política tradicional, mas graças a esse vínculo. Bolsonaro reconheceu Bezerra como uma ferramenta útil para driblar a falta de habilidade de parlamentares mais alinhados a sua agenda, porém completamente inexperientes.

Reinaldo Azevedo - Financie a política em vez de odiá-la

- Folha de S. Paulo

Políticos não são classe ou casta, são apenas o menor dos males possíveis

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), está certo. É uma insensatez manter em R$ 1,7 bilhão o fundo eleitoral. Talvez devesse dobrar.

Alguém escandalizado? Deve estar entre aqueles que acreditam que as eleições do ano passado realmente custaram algo em torno de R$ 3 bilhões —considerados também o fundo partidário e as doações de pessoas físicas.

Com essa bagatela, consta, elegeram-se um presidente da República, 513 deputados, 54 senadores, 1.059 deputados estaduais ou distritais e 27 governadores. Candidataram-se 28.216 pessoas.

É história da Carochinha. A estúpida proibição da doação de empresas jogou o financiamento de campanha numa clandestinidade inédita. Nenhuma imoralidade é tão destrutiva como a do moralismo, que é a moral na sua expressão doentia, fanática, missionária.

Alcolumbre lembra que, no ano que vem, serão eleitos 5.570 prefeitos e 57 mil vereadores. Disputaram o pleito de 2016 nada menos de 481.783 pessoas. Esse número deve crescer.

Se essas pessoas não tiverem o apoio necessário, diz ele, “acaba-se criando um caminho para não agirem em suas campanhas dentro da legislação”. A exemplo de 2018.

Alcolumbre, claro!, vai apanhar. A demagogia de esquerda dirá que ele quer grana para seus brioches quando falta pão. E a de direita vai berrar: “Não quero financiar ladrões”.

O ódio à política permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Parafraseio o abolicionista Joaquim Nabuco. Ele escreveu “escravidão” em lugar de “ódio à política”. Somos cativos em qualquer caso.

Vinicius Torres Freire - Mais sinais de desgoverno Bolsonaro

- Folha de S. Paulo

Com a desordem no Planalto, contas do governo e investimentos ficam à deriva

Depois da reforma da Previdência, o governo não apresentou nenhum projeto ou plano econômico substantivo com começo, meio, fim e calendário de implementação. Há “estudos” e promessas para “breve”.

Em breve, acaba o ano político e virão as eleições de 2020. Discutir e aprovar projetos durante campanhas é difícil mesmo para governos normais, que não se desmoralizam e explodem pontes a cada semana. Por ora, há apenas planos de vento ideológico, “grandes ideias”, que enchem balões de ensaio.

O bexigão da reforma tributária do governo acaba de explodir, por causa da mais recente morte (sic) da CPMF. Quando Jair Bolsonaro balançou o teto, seus economistas fizeram juras de fidelidade ao limite de gastos e prometeram pilares novos para sustentar essa obra em progresso e em ruínas.

Em vez disso, mais balões. Ficou no ar a ideia vaga do fim do reajuste do salário mínimo, das aposentadorias e doutros benefícios. Ainda resiste, sabe-se lá até quando, o plano de conter despesas com funcionários públicos.

O congelamento do salário mínimo, politicamente inviável, morreu em dias. Outro devaneio, o fim do gasto mínimo obrigatório em saúde e educação, pode pegar o mesmo caminho da cova. Além de impopular, não faz parte de um conjunto organizado de medidas que possam ser negociadas em um “toma lá, dá cá” legítimo de compensações sociais e acordos políticos. No vai ou racha, método bolsonarista de governo, não passa mesmo.

Merval Pereira – Uma questão de dinheiro

- O Globo

Com aumento de custo pela volta da propaganda no rádio e na TV, haverá necessidade de novo tipo de financiamento

A dificuldade de aumentar o Fundo Eleitoral para as eleições municipais do ano que vem está revivendo entre deputados e senadores a necessidade do financiamento privado das campanhas eleitorais. Com o aumento de custo pela volta da propaganda no rádio e na televisão, haverá necessidade de novo tipo de financiamento.

O argumento do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, de que as próximas eleições abrangem muito mais candidatos a vereadores e prefeitos dos 5.570 municípios do que eleições gerais, e por isso é necessário mais dinheiro para financiar as campanhas, é “questão de matemática”, não resiste à questão política.

Um país que pede sacrifícios a seus cidadãos não pode dobrar o financiamento público para campanhas eleitorais. Como o valor do Fundo Eleitoral só será definido quando for aprovado o Orçamento da União, é provável que os parlamentares revejam o financiamento das campanhas. Para tanto, será preciso aprovar uma emenda constitucional.

O problema está muito mais na regulamentação dessas doações, nas suas limitações legais, do que no método em si. O que atrapalha é a legislação eleitoral aprovada pela Câmara que, embora tenha tirado muitas das distorções da proposta original, manteve algumas.

Bernardo Mello Franco - Operação da PF complica Bolsonaro

- O Globo

Eleito com a promessa de combater a corrupção, Bolsonaro passa a ter mais um aliado sob suspeita. A operação no Senado também atrapalha o seu plano de trocar o diretor da PF

A operação da Polícia Federal no Senado criou novos problemas para Jair Bolsonaro. Eleito com a promessa de combater a corrupção, o presidente passa a ter mais um aliado em apuros. Líder do governo, Fernando Bezerra Coelho é suspeito de embolsar R$ 5,5 milhões de empreiteiras.

A ação também complica os planos de Bolsonaro para a PF. O presidente queria derrubar o diretor-geral Maurício Valeixo, escolhido por Sergio Moro. Agora uma troca no curto prazo seria vista como retaliação. Há quem acredite em coincidências, mas o efeito prático das buscas é que o ministro voltou a encurralar o chefe.

O presidente do Senado liderou uma reação corporativa em defesa de Bezerra. Apesar de ter sido avisado por Moro, Davi Alcolumbre se disse “perplexo” com o que definiu como uma “drástica interferência” no Legislativo. Ele fez questão de elogiar o colega suspeito de receber propina. “O Fernando é muito bom”, afirmou.

Em evento promovido pelo GLOBO e pelo Valor Econômico, Alcolumbre buscou se apresentar como um defensor do Supremo. Ele voltou a dizer que não vai instalar a chamada CPI da Lava-Toga, proposta por senadores bolsonaristas. Em seguida, sugeriu que a decisão de Barroso seria uma injustiça “diante de tudo o que o Senado tem feito”. O ministro não pareceu se comover com o queixume.

Ricardo Noblat - Por que não se acaba logo com a Lava Jato?

- Blog do Noblat | Veja

Em xeque, o combate à corrupção

É tão ruim o clima de desconfiança dentro do governo que uma operação corriqueira da Polícia Federal só serviu para agravá-lo. Dentro do Congresso, serviu para acirrar ainda mais os ânimos contra a Lava Jato, tida como algoz da política e dos políticos.

Não é todo dia que policiais apreendem documentos e computadores em gabinete de senador. Mas ontem não foi a primeira e nem será a última vez. De resto, ministro Luiz Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, que tudo avalizou, tinha e tem poder para isso.

O alvo foi o senador Fernando Bezerra Coelho (PMDB-PE), líder do governo, suspeito de ter embolsado R$ 5,5 milhões em propina quando era ministro da presidente Dilma. O senador pôs seu cargo de líder à disposição do presidente Jair Bolsonaro

Antes de Bezerra Coelho, os então senadores Delcídio Amaral (PT-MS) e Aécio Neves (PSDB-MG) passaram por igual constrangimento. No caso deles, pior. Amaral depois foi preso e cassado. Aécio ficou em prisão domiciliar por algum tempo.

David Alcolumbre (DEM-AP), presidente do Senado, prometeu bater às portas do Supremo contra a decisão de Barroso, e toscamente lamentou: “Diante de tudo o que o Senado tem feito” pelo Judiciário, como o Supremo foi capaz de fazer uma coisa dessas?

Dora Kramer - Afugentar eleitores é uma forma esquisita de buscar a reeleição

- Revista Veja

Agarrado ao convertido fiel, Bolsonaro perde capital para disputar em 2022

Há governantes que optam por dividir as forças políticas em seu entorno para reinar. Há os que preferem aproveitar a passagem pelo poder para somar e há o método Jair Bolsonaro de subtrair apoios no intuito de mais livremente governar e, desse modo, almejar a conquista de um novo mandato. É difícil entender essa estratégia da subtração, mas, enfim, é a propagada por ele.

Eleito em 2018 com pouco mais de 55% dos votos válidos, o presidente hoje aparece nas pesquisas com menos de 30% de avaliação positiva em viés a ser visto como de queda, dada a paulatina redução dos que se alinham na categoria dos firmemente convertidos. Segundo o instituto Datafolha, eles residem na casa dos 12%.

No caso de a ideia ser mesmo a da reeleição, a lógica aconselha o presidente a alterar o rumo da caminhada, embora ele não pareça disposto a prestar homenagem ao bom-¬senso. Jair Bolsonaro prefere seguir seus instintos referidos na vitória eleitoral alcançada, a despeito de critérios da normalidade e da evidência de que o cenário agora é outro.

Quase um ano depois dos idos de 2018, Bolsonaro não é mais o maluquete que, segundo as expectativas, se enquadraria nos ditames da Presidência. É o maluquete que tenta enquadrar a Presidência nos seus ditames. Trata-¬se de um modo de pensar e de atuar alta¬mente desagregador, que propicia movimento contrário àquele que lhe permitiu atrair eleitores.

Claudia Safatle - Um programa fiscal progressista

- Valor Econômico

“O sistema está cheio de moleza para quem não precisa”, diz Arminio Fraga

A desigualdade de renda no Brasil é extrema. Depois de cair por vários anos, ela inverteu a trajetória a partir de 2015. O Estado não consegue responder a esse desafio. O impacto da ação do Estado brasileiro na redução da desigualdade é dos menores do mundo. É preciso fazer mais e melhor!

Com base nesse diagnóstico, o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga prescreve um receituário bem diferente do que o ministro da Economia, Paulo Guedes, sugere para lidar com os desequilíbrios fiscais que travam o crescimento econômico. Guedes quer desindexar, desvincular e desobrigar os gastos orçamentários, no âmbito de um novo pacto federativo.

Arminio parte de uma premissa contemporânea ao condicionar a retomada do crescimento à redução da desigualdade. “Na essência, estou falando de se atacar o quanto antes as desigualdades para deslanchar um círculo virtuoso de crescimento inclusivo e sustentável”, diz.

O quadro se agrava quando parte relevante da desigualdade crônica decorre de práticas patrimonialistas, corporativistas e de corrupção. O terreno, aí, torna-se fértil para o populismo. Ele completa: “A desigualdade é um veneno que dificulta a construção de uma agenda de reformas necessária para o crescimento”.

Atacar esse veneno requer uma “megafaxina” nas iniquidades, ineficiências e aberrações que existem na política de pessoal do setor público, nos gastos tributários e na Previdência social. A reforma da Previdência que está para ser votada no Senado, ao incluir Estados e municípios, terá efeito impactante. Falta a reforma do Estado e uma limpeza geral nos regimes tributários especiais, nas desonerações, nos subsídios.

Míriam Leitão - Os sinais de risco que o BC não viu

- O Globo

Um dia depois da queda dos juros e da indicação de novos cortes pelo BC, bancos preveem juros reais perto de zero e o dólar sobe

Os sinais na economia brasileira e mundial são mistos, mas o Banco Central tomou a decisão de baixar os juros e indicar novas quedas. O BC olhou pouco para os riscos e muito para a necessidade de dar estímulos monetários à economia. Ontem o Brasil foi o país onde o dólar mais subiu. Alguns bancos previram taxas ainda menores ao fim do ciclo de baixa. Há até quem tenha passado a apostar em Selic a 4,25%. Se isso acontecer, os juros reais estarão próximos de zero e o país mais vulnerável a qualquer choque inflacionário.

A economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif, acha que o Banco Central viu uma janela de oportunidade para cortar os juros e obter uma reação mais forte na economia e por isso estima que a Selic cairá a 4,5%. Mas ela admite que há alguns riscos nessa estratégia:

— O ambiente no mundo é de fato desinflacionário, mas o dólar está subindo, por isso tenho minhas dúvidas se é sustentável. Por causa do dólar.

Zeina diz que apesar da melhora recente na área fiscal, com a aprovação da reforma da Previdência e a atuação dos bancos públicos e do Tesouro, novos sinais negativos começaram a surgir:

— Eu pessoalmente acho que aumentou o risco fiscal. Pegue os últimos desdobramentos: houve o debate do teto de gastos, a história do Fundeb. Ano que vem tem eleições, o que deve dificultar as reformas. Digamos que o governo não consiga manter a regra de teto, o câmbio será outro, os juros também terão que ser. Pense como agência de rating: o país acaba de começar a fazer a dieta e pede para comer um chocolate — diz Zeina.

No debate do teto, o presidente Bolsonaro num dia pendeu para os ministros que querem eliminá-lo, no outro voltar a concordar com o Ministério da Economia. Ficou a dúvida no ar. Sobre o Fundeb, foi aprovado um aumento da participação do governo no financiamento da educação básica. O governo ignorou esse assunto, por mais que os especialistas em educação alertassem que era preciso decidir logo porque o Fundo acaba em 2020. Agora uma proposta na Câmara refez o Fundo aumentando o gasto federal. Aí, a equipe econômica se encheu de preocupação. O fato é que a área da educação tem sido muito mal gerida desde o começo do governo Bolsonaro.

Rogério Furquim Werneck - Reformas mais difíceis pela frente

- O Globo | O Estado de S. Paulo

No caso da reforma tributária, o governo não lidera. O protagonismo está concentrado no Congresso

Que não seria fácil, já se sabia. Embora tenha deixado a Bolsonaro uma economia incomparavelmente mais arrumada do que a que lhe caíra nas mãos em 2016, o governo Temer mal pôde começar a enfrentar o gigantesco desafio de reconstrução fiscal que o descalabro perpetrado por Dilma Rousseff impôs ao país.

Mas a equipe econômica de Temer deixou um mapa bem delineado do esforço de ajuste fiscal que se fazia necessário. Na verdade, deixou bem mais que isso. Legou ao novo governo um projeto bem concebido de reforma da Previdência, pronto para votação no plenário da Câmara. Embora a equipe de Bolsonaro tenha preferido encaminhar ao Congresso uma proposta de reforma ainda mais ambiciosa, fez bom uso não só do projeto em tramitação na Câmara como de outras propostas já bem formatadas, como a que fora concebida em paralelo por Arminio Fraga e Paulo Tafner.

Mas, no que tange à reforma da Previdência, o principal legado do governo Temer foi outro. Ao tramitar seu projeto no Congresso, o novo governo beneficiou-se em larga medida de mais de dois anos de campanha de convencimento da opinião pública e, claro, de parte substancial da elite política do país, quanto à inevitabilidade da reforma. Foi isso que permitiu que o projeto acabasse avançando com relativa facilidade no Congresso, sob a batuta do presidente da Câmara, apesar de pouco ou nenhum empenho do Planalto.

Economia: O peso da ideologia

Por Cyro Andrade | Eu & Fim de Semana / Valor Econômico

O viés ideológico influencia ideias e julgamentos de economistas, sejam ortodoxos ou heterodoxos

SÃO PAULO - Economistas da ala de pensamento hoje dominante em seu meio profissional, dentro e fora da academia, tendem a se considerar os campeões da racionalidade. Sua concepção estritamente positivista da disciplina, de inspiração chamada neoclássica, os distinguiria de qualquer outro paradigma econômico: são objetivos, imparciais e nem um pouco ideológicos - atributos com que emolduram sua inabalável ortodoxia.

No entanto, como comprovaram em investigação empírica inédita os economistas Mohsen Javdani, professor na Universidade de British Columbia, no Canadá, e Ha-Joon Chang, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, não faltam evidências de que o viés ideológico, entendido como inclinação preconcebida para determinadas valorações cognitivas e normativas, influencia ideias e julgamentos dos economistas, indistintamente, sejam ortodoxos ou heterodoxos.

Convidados para participar do estudo, opinaram 2.425 economistas de 19 países (47 brasileiros), sendo 92% PhDs em economia. O artigo que Javdani e Chang escreveram a respeito “Who Said or What Said? Estimating Ideological Bias in Views Among Economists”, com detalhada exposição metodológica, pode ser lido em www.bit.ly/2klWPqQ.

Todos os participantes receberam um mesmo conjunto de 15 citações atribuídas (cada uma) a um economista “mainstream”, a um outro, menos/não “mainstream”, ou sem atribuição de fonte (ver quadro). As citações tratavam de diferentes elementos do paradigma econômico “mainstream” - incluindo metodologia, pressupostos e a sociologia da profissão - ou questões relativas a política econômica. A atribuição das fontes foi aleatoriamente alterada, sem o conhecimento dos participantes.

“Baseados em nossa experiência e visão geral da disciplina, esperávamos encontrar algum viés ideológico, mas não em grau tão elevado”, disse Chang ao Valor. Ele destaca estas revelações:

O nítido contraste entre a afirmação (constante do relato de 82% dos participantes) de que uma citação deve ser considerada apenas pelo conteúdo (seja qual for a autoria) e suas respostas na pesquisa, de sentido exatamente oposto (a mudança da atribuição de autoria de fontes “mainstream” para outras menos/não “mainstream” reduz significativamente a proporção dos que concordam com o teor das citações);

A forte influência da orientação política sobre a inclinação ideológica na profissão, crescente à medida que a identificação pessoal (declarada pelo participante) mais avança para a direita.

Outros resultados reveladores:

O viés ideológico é mais forte entre economistas “mainstream” do que entre heterodoxos;

Macroeconomistas apresentam mais forte tendência para o enviesamento;

Economistas cuja principal área de pesquisa é a macroeconomia, a economia pública, a economia internacional e a economia financeira estão entre aqueles com maior viés ideológico.

Mais supreendentes, contudo, disse Chang, foram as reações “hostis e não profissionais” à questão central da pesquisa (e, depois ao “paper” resultante), ou seja, o grau em que economistas se deixam influenciar por viés ideológico. Alguns dos economistas ouvidos, incluindo nomes preeminentes na profissão, “mostraram-se particularmente abusivos, chegando mesmo a fazer ameaças pessoais”.

A maioria dos principais “journals” a que o artigo foi submetido reagiu com “avaliações não profissionais e tendenciosas”, com a exceção de “um ou dois que nos trataram de modo adequado e até enviaram relatórios finais de avaliação”. Em um caso, a avaliação veio do próprio editor, mas os demais chegaram a recusar-se a encaminhar o artigo a revisores e o rejeitaram “por motivos que mais pareciam simples desculpas - algumas realmente bizarras”.

Em seu trabalho, Javdani e Chang não pretenderam investigar diretamente a credibilidade de diferentes argumentos sobre a influência de viés ideológico na economia. Em vez disso, optaram por uma aproximação “agnóstica” desse debate, revelador de “alarmantes sinais, que invocam importantes questões, a serem examinadas em futuras investigações”.

O que a mídia pensa - Editoriais

- Olhe os editoriais de hoje

Em pleno ajuste, militares terão mais aumentos salariais – Editorial | Valor Econômico

O governo Bolsonaro promove amplo aumento de salários dos militares enquanto seus ministros contam centavos

As maiores despesas obrigatórias da União - a previdência social e o gasto com o funcionalismo civil e militar - estão expulsando todas as outras do orçamento. O governo federal terá de pedir autorização para o Congresso para gastar R$ 358 bilhões, enquanto que o déficit primário cairá pouco, para R$ 124 bilhões, e os investimentos, de R$ 19 bilhões, caminham para a insignificância. Há várias ideias, com graus variados de radicalismo, para que o teto de gastos, que congela despesas em termos reais, não desabe. Há também um coro cada vez mais forte para que se abandone o instrumento, o que abriria de imediato dúvidas pertinentes sobre a solvência do Estado e sobre a trajetória da inflação diante da retomada da trajetória insustentável do endividamento.

Após obter vitória importante na aprovação da reforma previdenciária, que encara sua fase final no Senado, o governo voltou sua atenção para as despesas obrigatórias. O ministro Paulo Guedes quer desvincular e desindexar os gastos, com algumas ideias sensatas e outras estapafúrdias, como a do fim da correção automática do poder de compra do salário mínimo, quando seria mais lógico desindexar a folha de pagamentos da União, onde se concentram os maiores salários médios de uma República pobre.

Não há muitas dúvidas sobre a necessidade de desvinculação dos gastos, diagnóstico comum feito pelo FMI, Banco Mundial, por exemplo. A dúvida relevante é se os congressistas terão maturidade e discernimento suficientes para procurar atender por via orçamentária as enormes carências sociais do país, hoje (mal) cobertas pelas vinculações de saúde, educação, etc. A contenção da folha de pagamentos do funcionalismo é uma necessidade óbvia.

Em meio a uma penúria fiscal inédita e diagnósticos corretos sobre urgente necessidade de conter as despesas obrigatórias, o governo aceita e promove, em troca de mudanças no regime previdenciário, a reestruturação de carreiras dos militares que elevará os gastos da União em cerca de R$ 87 bilhões em 10 anos. O déficit da previdência dos militares é de R$ 43,9 bilhões e o déficit per capita o maior de todos os regimes, R$ 107,7 mil em 2018, mais que os R$ 67,8 mil dos funcionários públicos e quase 20 vezes os R$ 6,4 mil dos trabalhadores privados.

O projeto de lei orçamentária de 2020 contempla R$ 4,7 bilhões para o início dos reajustes aos militares, cuja reforma previdenciária não foi sequer votada. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, quando o projeto foi apresentado, disse que ele passaria sem problemas e o silêncio do ministro Paulo Guedes sobre a questão é eloquente. O aumento dos militares sairá porque o presidente Jair Bolsonaro, ex-militar, o considera justo e assim o deseja.

Poesia | Joaquim Cardozo - Maria Bonomi, Maria Gravura

Maria Bonomi, Maria Gravura;
Os traços, pouco a pouco, deixam
de caminhar.
As cores não passam mais
pelos olhos,
Pelos ouvidos, inundam.
A noite desceu sobre a gravura —
Sombra da prensa a comprimir —
Maria Bonomi, Maria Gravura
Ouve-se agora um canto
Do papel em liberdade.

Maria Bonomi
O corte sorri. A mão fica em silêncio,
O contraste murmura
Maria Gravura.


*In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.190.

Música | Geraldo Azevedo - Chorando e Cantando

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Merval Pereira – Nação e Exército

- O Globo

Militares não querem ser confundidos como parte do governo Bolsonaro, como não quiseram em outros governos

A relação entre os militares e o presidente Jair Bolsonaro foi mais uma vez colocada em xeque por interferência do guru Olavo de Carvalho, que foi ao YouTube para criticar a edição do livro do sociólogo Gilberto Freyre “Nação e Exército” pela Biblioteca do Exército.

O lançamento será amanhã na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), para comemorar os 70 anos da edição do livro. Olavo de Carvalho estranhou, questionando se a decisão seria uma indicação de que militares estariam se unindo a comunistas para afrontar o presidente da República.

A análise nesse sentido foi publicada no blog bolsonarista Sociedade Militar, interpretando que a publicação do livro marca “o fortalecimento de uma ala mais progressista da força terrestre” e um “gradual afastamento do presidente da República e do governo como um todo”.

O que provocou a ira de Olavo de Carvalho, que normalmente é elogiado pelo blog bolsonarista. No seu blog, Olavo disse não acreditar que essa análise representasse a visão do Exército. A informação de que Gilberto Freyre, em 1949, fazia parte da Aliança Nacional Libertadora, formada por comunistas, antifascistas e militares descontentes, e que, portanto, o livro representaria uma visão ideológica diferente da do Exército é rechaçada pelos militares responsáveis pela edição. Que, aliás, começou a ser pensada cerca de três anos atrás, sendo impossível atribuir a ideia a uma mensagem cifrada contra o governo Bolsonaro.

O neto de Gilberto Freyre, que é secretário de Cultura do governo de Pernambuco, aprovou a ideia e fará um lançamento também em Recife. No livro, Gilberto Freyre defende a tese de que o Exército não deve ser convocado pela sociedade para atuar em todos os momentos de crise.

Ascânio Seleme - Mau humor e pessimismo

- O Globo

É histórico, dias bicudos geram pessoas bicudas. Todas as crises, não importa onde ocorram e qual seja a sua natureza, causam rebuliço no coração humano capaz de mudar dramaticamente o humor de cada um. São poucos os episódios na história da humanidade que produziram povos mais infelizes do que os europeus que viveram durante a agoniante e sanguinária Segunda Guerra Mundial, ou os africanos das nações colonizadas e escravizadas no século XIX. Quanto maior o drama, maior a crise, mais sombrio o povo. E deriva daí um mau humor sistêmico e um pessimismo contagiante. Viu-se isso ao longo dos últimos anos no Brasil, uma gangorra no humor e nas expectativas dos brasileiros.

Vivemos momentos de júbilo e esperança, como nos primeiros mandatos de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Passamos períodos de incerteza, nos segundos mandatos de ambos, e de medo e ansiedade, nas administrações de Fernando Collor, Dilma Rousseff e Michel Temer. E em cada uma dessas temporadas, o humor nacional ia sendo moldado pelo ambiente político e econômico da ocasião. Não foi por outra razão que as pessoas saíram às ruas em 2013, no auge do desgaste de Dilma, no seu segundo e mais torturante mandato.

Bernardo Mello Franco - Milícias amazônicas

- O Globo

A Human Rights Watch acusa Bolsonaro de dar “sinal verde” à devastação da Amazônia. A ONG afirma que os madeireiros estão contratando milícias para se proteger

Defender a Amazônia é uma atividade de alto risco. Na última década, mais de 300 pessoas foram mortas em conflitos pela terra e pelas riquezas da floresta. A lista inclui agentes públicos, ativistas e indígenas que tentam resistir às motosserras.

O relatório “Máfias do Ipê”, da Human Rights Watch, aponta ligações entre o crime organizado e o desmatamento. Os devastadores contratam grupos armados para proteger seus negócios ilegais. “É bem similar às milícias”, define o defensor público Diego Rodrigues Costa, que acompanhou a investigação de chacinas encomendadas por madeireiros em Mato Grosso.

A HRW afirma que a violência é uma realidade antiga, mas tende a se agravar com a política antiambiental em vigor. “O governo Bolsonaro tem agido de forma agressiva para diminuir a capacidade do país de fazer cumprir suas leis ambientais”, acusa.

De acordo com a entidade, o presidente “tem reduzido a fiscalização ambiental, enfraquecido as agências ambientais federais e atacado organizações e indivíduos que trabalham para preservar a floresta”. “Suas palavras e ações na prática têm dado sinal verde às redes criminosas envolvidas na extração ilegal de madeira”, afirma o relatório.

Míriam Leitão – Guedes: a entrega e a autonomia

- O Globo

Na visão de Paulo Guedes, sua gestão tem vitórias em pouco tempo como a Previdência, os acordos da cessão onerosa e da UE com o Mercosul

O ministro Paulo Guedes acha que em pouco tempo a sua gestão conseguiu vários avanços que não têm sido bem avaliados. Vitórias como a reforma da Previdência, a finalização do acordo Mercosul-União Europeia, a conclusão da difícil negociação que torna possível o leilão da cessão onerosa, a lei da liberdade econômica são vitórias que, na visão do ministro, derrubam na prática a tese de que a “entrega” estaria abaixo do previsto e do desejável. Mas há agora uma dúvida sobre o poder de decisão de Guedes na condução da política econômica.

O ministro é sempre cobrado pelo seu desempenho — aqui mesmo nesta coluna — e uma das razões foi ter prometido vender estatais e imóveis públicos para zerar o déficit público. Hoje diz que isso são apenas “diretrizes” gerais que perseguirá no seu trabalho no Ministério. É público que durante a campanha ele disse que zeraria o déficit no primeiro ano, mas está previsto resultado negativo até para o último ano do governo, em 2022. Ele define assim as diretrizes: “zerar o déficit se possível e não aumentar impostos.”

Na lista das conquistas da sua administração, ele inclui pontos que não têm muita visibilidade, mas que podem fazer enorme diferença na vida do cidadão, como a “digitalização de 90 dos 97 serviços do INSS”. Diz que era “crueldade a prova de vida física”. Por enquanto, ainda está sendo exigida, mas quando isso realmente estiver em funcionamento será o fim de um tormento para os mais idosos e com dificuldades de locomoção.

Luiz Carlos Azedo - Coisas da Lava-Jato

- Nas entrelinhas | Correio Braziliense

“Delatores e delatados convivem pacificamente, enquanto aguardam a redução de suas penas. Não existe “omertà”, nome napolitano do código de honra e silêncio da máfia italiana”

Uma das diferenças entre as operações Mãos Limpas, na Itália, e a Lava-Jato, aqui no Brasil, é o fato de que a investigação das relações entre os políticos daquele país com a máfia foi marcada por atentados à bomba, assassinatos de juízes e suicídios de envolvidos. O saldo é impressionante: 4.525 prisões, 1.069 políticos investigados, 1.300 condenações e acordos judiciais, 430 absolvições, 31 suicídios. Dois juízes, Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, que tinha ligações com políticos envolvidos no escândalo, foram assassinados pela máfia. Era de 5 bilhões de euros por ano o custo da corrupção na Itália, o que implodiu o sistema partidário italiano.

No Brasil, não houve atentados, assassinatos nem suicídios. A morte de Henrique Valladares, ex-vice-presidente da Odebrecht, e um dos principais delatores da Operação Lava-Jato, encontrado morto, ontem, no seu apartamento no bairro do Leblon, na Zona Sul do Rio de Janeiro, segundo a Polícia Civil, teve causa indeterminada. Valladares foi um dos responsáveis pela delação de Aécio Neves (PSDB) e do ex-senador e ex-ministro Edison Lobão (MDB).

Os envolvidos na Operação Lava-Jato, em sua maioria, pertencem à elite política, burocrática e empresarial do país. A maioria dos que fizeram “delação premiada” já está em casa com tornozeleira eletrônica; os que não fizeram, “puxam” cadeia prestando serviços de acordo com suas competências: fazem resenhas de livros, prestam serviços profissionais e cuidam da limpeza das celas, para melhorar a qualidade de suas condições carcerárias e conseguir a progressão das penas.

Delatores e delatados convivem pacificamente, enquanto aguardam a redução de suas penas. Não existe “omertà”, termo napolitano do código de honra e silêncio da máfia italiana. Acompanham com a atenção a “guerra de posições” entre “lavajatistas” e “garantistas” no Supremo Tribunal Federal (STF) e a disputa que se instalou no Ministério Público Federal (MPF), a partir da sucessão da ex-procuradora-geral da República Raquel Dodge, cujo mandato acabou na terça-feira.

Ontem, no primeiro dia de seu mandato tampão, o vice-presidente do Conselho Superior do Ministério Público Federal (CSMPF), Alcides Martins, que assumiu, interinamente, a chefia da Procuradoria-Geral da República (PGR), “em nome da continuidade”, anunciou o retorno dos integrantes do grupo de trabalho da Lava-Jato na PGR, que haviam deixado seus postos na reta final do mandato de Raquel Dodge, por discordarem da forma como ela conduzia a operação. Dos seis integrantes, cinco voltaram ao cargo. A decisão é uma saia justa para o futuro procurador-geral, Augusto Aras, indicado pelo presidente Jair Bolsonaro, cujo nome está sendo submetido à aprovação do Senado.

William Waack - Apostas que deram errado

- O Estado de S.Paulo

Política externa baseada em laços pessoais causa mais problemas do que resolve

No momento em que esta coluna vai para publicação está ainda indefinido o resultado das eleições gerais em Israel. Não se sabe se Binyamin “Bibi” Netanyahu irá para o quinto mandato como chefe de governo em Jerusalém (um impressionante recorde) ou, ao contrário, se ele acabará até mesmo na cadeia, acusado de corrupção. Ou se dividirá de alguma forma o poder com amigos transformados em adversários, ou inimigos transformados em amigos.

Para o governo Jair Bolsonaro, a eleição israelense oferece uma eloquente lição, que até agora ele e seus assessores têm se recusado a admitir. Não é o fato de que apostas políticas podem dar assustadoramente (para quem aposta) errado – Netanyahu apostou que convocar uma nova eleição depois da apertada vitória nas últimas, em abril, o consolidaria no poder, o que não parece estar acontecendo.

Apostas que causam mais problemas do que resolvem são aquelas feitas em política externa nas pessoas, na relação pessoal entre governantes, uma evidente marca da maneira como o atual governo enxerga boa parte dos laços com o mundo lá fora. Os atuais entre Brasil e Israel foram descritos como resultado da “amizade pessoal” entre Bibi e Jair. Também o que seria a “reorientação” do Brasil em relação ao complexo quadro do Oriente Médio surge nessa descrição como consequência desse entendimento pessoal.

Zeina Latif* - A composição do crescimento importa

- O Estado de S.Paulo

Uma das consequências do baixo crescimento é que a recuperação da economia não é disseminada entre os setores. Uns poucos conseguem ter bom desempenho em meio ao marasmo e até contração de outros tantos.

Alguns setores são menos sensíveis ao ciclo econômico doméstico e contribuem para a resiliência da economia. É o caso das exportações. Se, por um lado, o comércio mundial estagnado afeta o volume exportado e os preços das exportações em dólar, por outro, o aumento da cotação do dólar preserva e até infla sua rentabilidade. Os preços de exportação em reais subiram 20,4% em 2018 e 6,3% no acumulado até julho. Vale citar que o dólar forte, em boa medida, resulta da própria fraqueza do comércio mundial, que penaliza comparativamente menos o EUA.

Nesse grupo, a agropecuária tem também se beneficiado da combinação da guerra comercial entre EUA e China e da peste suína na China. No ano passado, o volume exportado aumentou 16% e até julho deste ano, 3,5%. Os preços dos produtos exportados em reais tiveram modesto recuo até julho, de 2%, mas depois de subirem 17% no ano passado.

Além disso, a agropecuária, bem como os demais exportadores de commodities, sofre menos com o custo Brasil, em que pese a infraestrutura precária e a questão ambiental ainda mal resolvida. Destacam-se a carga tributária mais baixa e a menor utilização de mão de obra.

Esses setores, no entanto, têm baixo peso no PIB e reduzido impacto nas cadeias produtivas. Seu dinamismo é boa notícia para as regiões exportadoras (e para a balança comercial), mas pouco estimula o crescimento.

Maria Hermínia Tavares de Almeida* - Desigualdade à brasileira

- Folha de S. Paulo

Em nosso país, o 1% mais rico se apropria de mais de 1/4 da renda total

Recentemente, o apresentador Luciano Huck alertou uma plateia de empresários para os perigos da nossa desigualdade social. “Se não fizermos nada, o país vai implodir”, previu. Há quem ache que se trata de um falso alarme. Afinal, países dificilmente implodem, salvo em casos de invasão ou revoluções.

Outros argumentam que a própria meta de redução das diferenças carece de sentido. No entender destes, o que realmente conta é a diminuição da pobreza na qual estão imersos milhões de patrícios. Afinal, se eles conseguissem alcançar um nível de vida decente, as fruições da parcela dos muito ricos seriam irrelevantes.

O raciocínio parece sensato. Talvez não seja.

No Brasil, as desigualdades de renda e patrimônio são imensas e duradouras. Sua trajetória e os dados que a comprovam estão no excelente livro “Uma história de desigualdade – a concentração de renda entre os ricos no Brasil, 1926-2013”, de Pedro H.G. Ferreira de Souza, pesquisador do Ipea.

O trabalho deixa claro que o Brasil não é só uma nação desigual entre tantas outras, mas ocupa lugar especial entre aquelas para as quais há dados confiáveis. Só aqui e no Qatar, o país mais rico do mundo por habitante, graças a suas reservas de gás, 1% do topo da população se apropria de mais de 1/4 da renda total. Cerca de 1,4 milhão de brasileiros abocanha aproximadamente o mesmo naco da riqueza nacional que os 102 milhões do contingente dos 50% mais pobres.

Fernando Schüler* -O quinto poder e as regras eleitorais

- Folha de S. Paulo

Novo movimento é, por definição, reativo e efêmero

Sempre acho curioso quando escuto, no debate público, alguém encher a boca para falar nas “escolhas da sociedade”. Ainda nesta semana li um artigo dizendo, com alguma pompa, que caberá à sociedade distribuir os custos do Estado na reforma tributária. Indo mais longe, cansei de assistir a gente boa dizendo que, nos anos 1980, a sociedade fez uma “opção pela democracia” e, nos anos 1990, pelo fim da inflação.

Por esta lógica, nos anos 2000, a sociedade fez uma opção pela responsabilidade fiscal, e logo depois uma opção por não levar a sério a responsabilidade fiscal. Houve a opção por um breve ciclo de reformas, no início do governo Lula, e depois a opção por reforma nenhuma. A sociedade decidiu criar os “campeões nacionais” via BNDES e decidiu fazer as Olimpíadas e a Copa do Mundo aqui nos trópicos. No fim, decidiu pôr fim à festa, trocar o governo e criar a regra do teto de gastos.

É evidente que isso é uma fantasia. No mundo real da política, escolhas são feitas no mercado político, a partir do jogo de interesses e capacidade de pressão de diferentes grupos sociais. É mais ou menos isso que o James Buchanan, ganhador do prêmio Nobel de economia, chamava de “política sem romance”.

De um modo muito geral, a regra é a seguinte: grupos bem organizados, com interesses concentrados, tendem a ganhar o jogo; grupos maiores, inorgânicos e com interesses difusos, tendem a perder.

É o que vimos na reforma da Previdência. Corporações públicas garantiram regras especiais, enquanto a ampla classe média, do setor privado, e a turma do andar de baixo foram para a regra geral. É evidente que a retórica aceita tudo. No limite, qualquer coisa pode ser justificada, a partir do argumento vago e flexível do “interesse público”. Na prática, a competição no mundo retórico segue as mesmas regras da competição dos interesses no mundo político.

Bruno Boghossian – Concorrência interna

- Folha de S. Paulo

Rompimento do PSL com Witzel e ataques a Huck criam obstáculos na centro direita

Em pouco mais de um mês, Jair Bolsonaro moveu peças para dificultar os caminhos de três potenciais adversários dentro de seu campo político expandido. Depois de acusar João Doria e Luciano Huck de se beneficiarem de financiamentos generosos na era petista, o presidente viu o seu PSL migrar para a oposição ao governo Wilson Witzel no Rio.

Bolsonaro já mostrou que pensa muito no próprio futuro. Falou diversas vezes de sua Presidência como um projeto de oito anos e abandonou o discurso contra a reeleição. Os ataques a Doria, Huck e Witzel indicam que a maior ameaça a seus planos é o surgimento de alternativas pelo centro e pela direita.

Faltam três anos para uma nova disputa, mas o presidente trabalha para asfixiar qualquer uma dessas opções no nascedouro. A intenção é desgastar a imagem de nomes que soem mais moderados, vinculando-os à esquerda, e criar dificuldades políticas para aqueles que têm uma plataforma semelhante à sua.

Witzel se encaixa no segundo grupo. O governador do Rio era um azarão na última campanha, mas pegou carona na popularidade crescente de Bolsonaro no estado e disparou para a vitória. No poder, assumiu um programa radical para a segurança, rivalizando com o presidente.

Vinicius Torres Freire – Juros mais baixo, teto de gastos em alto

- Folha de S. Paulo

Banco Central indica que taxa de juros pode ficar abaixo de 5% no início de 2020

A taxa básica de juros pode ir abaixo de 5% ao ano em 2020, indicou o Banco Central. Na prática, a taxa real de juros cairia para menos de 1%. Que tal quase zero?

E daí? As implicações são várias mas, para começar, uma taxa assim baixa terá influência nos debates sobre o teto de gastos e o déficit do governo federal.

Em resumo, deve esquentar a discussão sobre a possibilidade de o governo gastar mais a fim de “estimular a economia”, tanto faz se amemos ou detestemos essa hipótese. Com taxas de juros menores (zero?), o custo de algum endividamento extra do governo cai, embora o aumento da dívida tenda, em tese, a pressionar a taxa de juros para cima.

O Banco Central jamais é tão explícito quanto as primeiras palavras deste texto, mas foi eloquente no comunicado em que divulgou a redução da Selic de 6% para 5,5%, nesta quarta-feira (18).
Está lá escrito: “O cenário híbrido com taxa de câmbio constante e trajetória de juros da pesquisa Focus implica inflação em torno de 3,4% para 2019 e 3,8% para 2020”. Quer dizer, com Selic a 5% e dólar a R$ 4,05 até o final do ano que vem, a inflação ficaria abaixo da meta.

Logo, sem outros abalos e frustrações das expectativas do BC para o Brasil e o mundo, a Selic pode ir a menos de 5%. Falando português claro, quais são essas expectativas (o contexto em que a inflação e juros poderiam continuar em baixa)?

Primeiro, o país deve continuar crescendo pouco, menos de 1% neste ano e no máximo 2% em 2020, com as consequências sabidas: desemprego alto e salário médio real contido ou estagnado, como agora.

Segundo, deve haver “continuidade das reformas” e “perseverança nos ajustes”. Nesse ponto, o BC é vago quanto a meios (quais reformas?), embora os fins sejam óbvios: controle duradouro de déficit e dívida, pelo menos.

Maria Cristina Fernandes - Quem disciplina os desempregados

- Valor Econômico

Sob um equilíbrio frágil e atemorizante, o cabo de guerra que segura a multidão de desempregados pode arrebentar o futuro político de Bolsonaro

Ivana Taís tem 21 anos, duas filhas e ensino médio incompleto. Deixou o Maranhão há três meses porque trabalhava numa padaria das 7h às 19h para ganhar R$ 300 por mês. Na segunda-feira, chegou às 23h no mutirão do emprego promovido pelo Sindicato dos Comerciários de São Paulo. Como a distribuição de senhas só começaria na manhã seguinte, Ivana passou a noite ao relento com o marido, também desempregado. Não tinha conseguido pregar os olhos, amanhecidos com sinais de irritação. Quando achou que fossem dormir, houve uma tentativa de assalto na fila: “Foi os disciplina que botaram o ladrão pra correr”.

Cercada por gradis baixos, a fila invade o Vale do Anhangabaú e pode ser vista pelos visitantes da vizinha Fundação Fernando Henrique Cardoso. De madrugada, só moradores de rua, trombadinhas e traficantes dividem aquele espaço. São a estes últimos que Ivana chama de ‘os disciplina’. Coube aos seguranças do sindicato negociar uma trégua. Ali estavam pais e mães de família e, se a polícia baixasse, o rolo poderia terminar em tragédia.

A madrugada do Anhangabaú demonstra que um dos motivos pelos quais a corda não arrebenta nesse extrato de 12,6 milhões de desempregados do país é o frágil - e atemorizante - equilíbrio entre gatunos, traficantes, seguranças privados e policiais. Neste cabo de guerra, o que pode arrebentar é o futuro do presidente da República.

Não é uma maioria de bolsonaristas que se acotovela na fila, mas entre seus eleitores, prevalece o arrependimento. É o caso do motorista aposentado José Augusto de Lima, 70 anos, o primeiro a chegar, às 14h da véspera do atendimento. Com a ajuda da mulher, aposentada e manicure, paga os R$ 1,2 mil do aluguel e das taxas do apartamento em que mora no Centro, e os R$ 500 do empréstimo consignado.

Depois de votar no PT três vezes consecutivas, foi de Jair Bolsonaro em 2018, a pedido de um de seus três filhos, mas não vê nenhuma de suas promessas se confirmar. Além da mulher continuar a andar na rua apavorada, acha que venezuelanos e haitianos tomam os poucos empregos que há. Só vê alguma melhoria na corrupção, que não enche barriga. “Acho que ele não termina o mandato”, conclui.

Ribamar Oliveira - Entre o gradual e o choque está o possível

- Valor Econômico

Desindexar o mínimo exige três quintos dos votos do Congresso

A proposta de reforma da Previdência Social, aprovada pela Câmara dos Deputados e prestes a ser votada pelo Senado, prevê a indexação dos benefícios previdenciários e assistenciais. Foi o próprio ministro da Economia, Paulo Guedes, que propôs a correção para manter o valor real dos benefícios, no texto original que encaminhou ao Congresso, em fevereiro deste ano.

Agora, Guedes quer acabar com a indexação para reduzir o crescimento das despesas obrigatórias. Qual é a chance de a proposta ser aprovada? Ou seja, que deputados votem contrário ao que acabaram de aprovar e que senadores votem contra o que irão aprovar em breve?

Em artigo publicado recentemente no Valor, o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Carlos Von Doelling, disse que o Brasil vive hoje um dilema: seguir uma trajetória gradualista para combater o déficit fiscal ou tentar uma alternativa de choque. Para ele, a alternativa mais sensata é o choque. Ao permanecer na linha gradualista, segundo Doelling, “perpetua-se o círculo vicioso déficit-dívida”.

Uma alternativa para o choque, segundo Doelling, seria aprovar as medidas previstas na proposta dos “3ds” defendida pelo ministro Guedes. Ou seja, fazer a desindexação das despesas orçamentárias, a desvinculação e a desobrigação, embora ainda não se saiba exatamente o que Guedes pretende com o terceiro “d”.

Com a desindexação das despesas, de acordo com alguns de seus interlocutores, o ministro da Economia espera acabar com a correção automática e anual do salário mínimo e de todos os benefícios previdenciários e assistenciais.

Neste ponto, Guedes inova, pois até agora a maioria dos economistas, preocupados com o crescimento vertiginoso das despesas públicas, propunha apenas acabar com a vinculação dos benefícios previdenciários e assistenciais ao salário mínimo. Isto porque a legislação em vigor estava concedendo aumentos reais para o piso, que eram repassados aos benefícios previdenciários e assistenciais, provocando um forte crescimento dos gastos públicos.

Ricardo Noblat - Derrota à vista para o Zero Um

- Blog do Noblat | Veja

O pai tenta tirar o seu da reta
Pela segunda vez em 48 horas, o senador Flávio Bolsonaro, presidente do PSL do Rio de Janeiro, deu um ultimato aos seus colegas de partido: serão expulsos aqueles que continuarem a apoiar o governador Wilson Witzel (PSC).

Por ora, os 12 deputados estaduais do PSL resistem à ordem do Zero Um e debocham da ameaça. Não querem perder os cargos que Witzel lhes deu em troca do apoio. Duas secretarias de Estado são ocupadas por filiados ao PSL.

O presidente Jair Bolsonaro mandou um emissário ao governador para dizer que ele nada tem a ver com a decisão tomada por Flávio. Witzel fingiu acreditar, como se fosse possível ao filho, a qualquer um deles, contrariar a vontade do pai capitão.

Witzel é candidato declarado à sucessão de Bolsonaro em 2022. Bolsonaro acha que ele está por trás da investigação aberta pelo Ministério Público do Rio contra Flávio e que foi suspensa por uma especial gentileza do ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo.

O que mais irritou Bolsonaro ultimamente foi ver Witzel em cima de um tanque do Exército na abertura do desfile militar de 7 de setembro último. Foi uma desfeita ao capitão. As Forças Armadas são reduto eleitoral dele, e assim devem se manter.

Lambança com as digitais da Câmara dos Deputados

Caixa 2, dinheiro para a compra de imóveis, drible na Lei da Ficha Limpa...

O presidente da Câmara pode muito, mas não pode tudo. E foi mais ou menos envergonhado que o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ) comentou depois da sessão onde a maioria dos seus pares aprovou uma escandalosa reforma da legislação eleitoral:

– A Câmara tem convicção do que aprovou. Votamos aquilo que entendemos que é o melhor para o processo eleitoral e partidário.

Noves fora nada, Maia serviu uma platitude ao invés de um juiz de valor convincente. Sua força política repousa nos partidos que o sustentam no cargo. A maioria deles é de centro-direita, mas Maia tem bom trânsito nos partidos de esquerda.

O que pensa a mídia – Editoriais

- Editoriais de hoje:

Uma reforma sem projeto – Editorial | O Estado de S. Paulo

O ministro da Economia, Paulo Guedes, continua em busca de uma reforma tributária, segundo ele mesmo anunciou. Sem poder ressuscitar a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), a equipe econômica procura uma fórmula para livrar as empresas da contribuição previdenciária sem abrir um buraco nas contas da Previdência. Só isso? Sim, só isso ou bem pouco mais, segundo as informações até agora fornecidas pelo Executivo. As mudanças defendidas pelo ministro da Economia e pelo recém-demitido secretário da Receita, Marcos Cintra, podiam divergir em alguns detalhes, mas coincidiam em dois pontos fundamentais. As alterações dependiam, nos dois casos, de uma versão mais potente do chamado imposto do cheque, a extinta CPMF. Além disso, a desoneração da folha salarial das empresas seria, em qualquer dos casos, um dos objetivos centrais. Também se prometeu simplificar o sistema de impostos e contribuições, mas a grande utilidade da nova CPMF seria, mesmo, livrar os empregadores do custo previdenciário.

Como o presidente da República proibiu a circulação do vampiro tributário, o imposto do cheque libertado da cova, foi preciso recomeçar todo o trabalho. As ideias de reforma tributária do ministro da Economia, como se comprovou mais uma vez, eram pouco mais que nada. Que o secretário da Receita por ele escolhido insistisse em algo como a CPMF era previsível. O economista Marcos Cintra era conhecido, havia muito tempo, pela pregação de um imposto único. Que esse tributo seria parecido com o velho imposto do cheque também era sabido. Uma das poucas novidades foi a adesão do ministro Paulo Guedes a essa ideia como se fosse uma fórmula milagrosa. Outra novidade – esta um tanto chocante – foi a insistência na desoneração da folha como grande foco da reforma.

Em quase nove meses de governo, assim como durante a campanha eleitoral, o atual ministro da Economia nunca iniciou uma discussão ampla sobre os defeitos da tributação em vigor nem sobre a construção de um sistema funcional, favorável ao crescimento, à modernização e à integração do País ao mercado global e às cadeias de valor.

Poesia | Paulo Mendes Campos - Neste soneto

Neste soneto, meu amor, eu digo,
Um pouco à moda de Tomás Gonzaga,
Que muita coisa bela o verso indaga
Mas poucos belos versos eu consigo.
Igual à fonte escassa do deserto,
Minha emoção é muita, a forma, pouca.
Se o verso errado sempre vem-me à boca,
Só no meu peito vive o verso certo.
Ouço uma voz soprar à frase dura
Umas palavras brandas, entretanto,
Não sei caber as falas de meu canto
Dentro de forma fácil e segura.
E louvo aqui aqueles grandes mestres
Das emoções do céu e das terrestres.

Música | Mariene de Castro & Almério - Lamento Sertanejo