sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Nelson Motta - Que centro é esse?

- O Globo

Seria uma área equidistante da centro-esquerda e da centro-direita, com políticos moderados

Bolsonaro anunciou que o Brasil se tornou uma referência mundial no enfrentamento da pandemia. É verdade. Só que é referência negativa, tudo o que não se deve fazer para combater o coronavírus. Todo mundo sabe que o Brasil está em segundo lugar, só atrás dos Estados Unidos, mas em mortos. Pelo menos eles já começaram a se vacinar e foram os primeiros a comprar vacinas, nós estaremos entre os últimos. Ninguém pode contestar isso com fatos e argumentos. Ofensas, xingamentos e ameaças não mudam nada nem respondem a perguntas. Bolsonaro acha que os laboratórios deveriam estar mais interessados em vender a um grande mercado como o Brasil, mas, como há mais procura do que vacinas, são os governos que estão disputando seus produtos. O cara quer revogar até a lei da oferta e procura.

Reflexos eleitorais – Mudanças no equilíbrio de forças reorganizam alianças nos estados para 2022

Novos mandatários dos 95 municípios brasileiros com mais de 200 mil eleitores já debatem apoios ou buscam cacifar o próprio nome para a eleição de governador daqui a dois anos

Bernardo Mello / O Globo

RIO — Encerrado o ciclo das eleições municipais, cujo marco final é a posse dos novos prefeitos, hoje, a reorganização das forças políticas locais já aponta para as alianças estaduais que poderão ser formadas em 2022. A análise dos 95 municípios brasileiros com mais de 200 mil eleitores, grupo de cidades que inclui capitais e centros regionais com peso político, mostra que os novos mandatários já debatem apoios ou buscam cacifar o próprio nome para a eleição de governador daqui a dois anos.

Em estados como Minas Gerais, Bahia e Pernambuco, vitórias nas grandes cidades deram fôlego a adversários dos atuais governadores — respectivamente, Romeu Zema (Novo), Rui Costa (PT) e Paulo Câmara (PSB). No Rio e em São Paulo, os resultados evidenciam a necessidade de jogo de cintura do atual governante para formar palanques nos municípios até o próximo pleito.

Uma das poucas exceções de reveses de governadores foi o Paraná, onde Ratinho Júnior (PSD) colheu saldo positivo com vitórias de aliados em Curitiba, com Rafael Greca (DEM), além de Maringá, Ponta Grossa e Cascavel.

PSDB pressiona Doria

Em São Paulo, estado que reúne quase um terço (28) das grandes cidades brasileiras, o governador João Doria (PSDB) viu uma redução de sua influência nas áreas de maior densidade eleitoral — o PSDB venceu em dez dessas cidades, quatro a menos do que em 2016. Embora membros do partido apontem que Doria tem “o poder da caneta”, o que tende a facilitar a reunião de apoios para lançar o vice Rodrigo Garcia (DEM) como candidato à sucessão, uma ala do partido deseja um tucano como cabeça de chapa e procura abrir caminho para o ex-governador Geraldo Alckmin. O prefeito reeleito de Ribeirão Preto, Duarte Nogueira, que foi secretário de Agricultura e Transporte nas gestões de Alckmin, é um dos que defendem a candidatura própria.

Outro ex-governador, Márcio França (PSB), provável candidato em 2022, também busca arregimentar apoios de prefeitos críticos a Doria. Apesar de o PSB só ter vencido uma das grandes cidades — Guarujá, onde o prefeito reeleito, Valter Suman, é adversário declarado de Doria —, França tem boa relação com prefeitos que enfrentaram oposição do PSDB neste ano, como Dario Saadi (Republicanos), eleito em Campinas, e Guti (PSD), reeleito em Guarulhos. Ambos atacaram Doria por conta de medidas restritivas durante a pandemia, uma reclamação compartilhada até por prefeitos próximos ao governador, como Orlando Morando (PSDB), reeleito em São Bernardo do Campo.

No Rio, o governador Cláudio Castro (PSC), que assumiu após o afastamento de Wilson Witzel, busca se aproximar de prefeitos de olho no cenário de 2022. Com uma provável mudança de partido, mas ainda sem destino definido, Castro fez acenos a prefeitos eleitos, como Eduardo Paes (DEM) no Rio e Wladimir Garotinho (PSD) em Campos, e ao reeleito Washington Reis (MDB), em Duque de Caxias — que deseja concorrer ao Palácio Guanabara. Assim como Castro, Reis mantém diálogo com diferentes grupos, como o do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e o do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que ainda não projetaram um nome para disputar o governo.

Celso Ming - Trump e os 74 milhões que nele votaram

- O Estado de S. Paulo

Falta saber se as políticas do presidente Biden vão convencer a metade trumpista da população a mudar o ponto de vista

Donald Trump foi derrotado nas eleições e pelos próximos quatro anos não mais ocupará o Salão Oval da Casa Branca. Mas os 74 milhões que nele votaram continuarão a escalavrar a vida social dos Estados Unidos. As forças que nele se penduraram continuam aí, irredutíveis em seus pontos de vista.

Há um caldo de frustração e de ressentimento que continua tomando conta da vida política dos Estados Unidos. Os historiadores, sociólogos e cientistas políticos continuarão a analisar o fenômeno que está associado ao desmanche do sonho americano. Pelo menos metade da população sente que desapareceu tanta coisa com que contava, talvez para sempre, de suas vidas e das vidas das gerações seguintes.

As oportunidades se estreitaram, o desemprego aumentou, o ensino já não prepara mais para a vida profissional, o salário é uma parcela do que dele se esperava, a casa própria começa a ficar inacessível. A aposentadoria se esvai pelas razões acima apontadas e porque as aplicações financeiras são corroídas por juros reais negativos. 

Pedro Doria – Menos Mises, mais Mill

- O Estado de S. Paulo / O Globo

O 2020 foi tão intenso, gera tanta expectativa para 2021, que esquecemos que começa uma década

Aquele 2020 foi tão intenso, gera tanta expectativa para este 2021 e mal esquecemos que hoje não é só um ano que começa. É, também, uma década. Os anos 20 do século passado foram os da esperança, da celebração de vida pós-Primeira Guerra e gripe espanhola, enquanto a democracia liberal desmoronava no entorno perante fascistas e bolcheviques. Estes nossos anos 20 não precisam ser assim. Mas, para que seja um tempo de esperança, precisamos compreender que o Brasil está muito atrasado para chegar ao século XXI. E isto pode representar uma crise muito séria.

Na década de 10, apostamos numa imagem de país que data dos anos 1950. Apostamos em petróleo, em estaleiros, numa indústria hidrelétrica que ignora a mata e, claro, na agroindústria. Nada contra. Mas deveríamos ter colocado mais fichas na indústria de software, no conhecimento genético, energia limpa, e incrementado em muitos níveis a educação para termos brasileirinhos bem formados em matemática. No final deste século, trocamos aquela visão por outra – a dos ditadores dos anos 1960. China, Índia e Rússia mergulharam no século XXI. Pois é.

O problema é o seguinte: nesta década que entra algumas tecnologias vão se encontrar. São 5G, a inteligência artificial que chamamos “aprendizado de máquina” e robótica. O resultado será a completa automação do mundo físico. O resultado será também uma imensa onda de desemprego.

Hélio Schwartsman - Parabéns aos argentinos

- Folha de S. Paulo

Cabe à mulher, não a seus vizinhos, definir se ela vai ou não levar uma gravidez adiante

A Argentina legalizou o aborto. Isso é bom ou é mau? Para afirmar peremptoriamente que é mau, como fazem muitos religiosos e alguns não religiosos, é preciso postular alguma forma de realismo moral, isto é, sustentar que o certo e o errado são realidades objetivas e acessíveis às pessoas e que a interrupção voluntária da gravidez se insere na coluna dos erros. Não creio que seja tão fácil.

Para os religiosos menos sofisticados, o realismo é um dado: Deus nos revelou nas Escrituras uma moral eterna; cabe-nos apenas obedecê-la. É claro que as coisas não são tão simples, e não falo apenas das contradições e omissões mais flagrantes dos textos sacros. As complicações do realismo assombram até os que têm uma visão mais sofisticada dos problemas. Basta lembrar que foi apenas dois anos atrás que a Igreja Católica resolveu condenar a pena de morte.

Nelson Barbosa - O ano da vacina

- Folha de S. Paulo

Se é para ter torcida de vacina, que seja para que vacinas funcionem, qualquer uma delas

Começou o ano da vacina. Em um processo recorde de investimento e inovação, já há várias alternativas de imunização sendo aplicadas contra a Covid-19, e isso tende a dominar o debate político e econômico no início de 2021.

Alguns colegas colunistas têm feito um trabalho incrível na tradução de informações do mundo da vacina, comentando "RNA mensageiro" e "betapropriolactona" com a mesma desenvoltura que nós, economistas, falamos de renda e emprego. Não me aventuro em questões técnicas de imunologia, mas creio que um pouco de bom senso e economia pode nos ajudar a navegar 2021.

Em primeiro lugar, recomendo evitar a torcida por tipo de vacina. Como há várias alternativas, já despontou o debate sobre qual é a melhor opção. Isso é natural, mas já tem político nacional querendo se apropriar de inovação estrangeira, como se a vacina A fosse do governador X e a vacina B fosse do presidente Y.

Na era das redes antissociais, é preciso repetir o óbvio: o sucesso de uma vacina não impede que as outras também funcionem! O processo de inovação tecnológica se caracteriza por tentativa e erro, com adaptação e aprendizado ao longo do caminho. Se é para ter torcida de vacina, que seja para que vacinas funcionem, qualquer uma delas.

Segundo, evite o complexo de neoliberal papalvo, aquele que acha que o Brasil deveria comprar tudo de fora em vez de desenvolver produção no país. No caso da vacina, uma coisa não exclui a outra, sobretudo quando todos os governos do mundo já deixaram claro que restrição orçamentária não é desculpa para gastar pouco contra a pandemia.

Ignácio de Loyola Brandão* - Por que não liguei?

- O Estado de S. Paulo

Olho o montão de caixas. O que há nelas? Outros pequenos e insignificantes mistérios?

Não pensem que foi por estar próximo ao final de ano, quando se diz que é hora de fazer revisões ou mudanças. Nada disso. De repente, me deu aquilo que o povo chama de “cinco minutos”, repentino ataque de coragem e joguei fora papéis, recortes, cadernos, fotos, anotações, caixinhas, vidrinhos, bibelôs que nem sabia ter. Há dias, olhei para uma caixa e me perguntei: o que tem ai? Abri e dei com pacotes de papel pardo, embrulhinhos, envelopes. 

Na hora, lembrei-me de meu pai que mantinha uma velha cesta de Natal de vime em cima do guarda-roupa. Um dia, ele chamou a mim e ao meu irmão Luis Gonzaga e abriu a cesta. De dentro, jorraram recortes de jornais, fotografias, santinhos, cartas para minha mãe, páginas datilografadas. “São contos que escrevi. Tem uma poesia do meu pai, feita aos 21 anos. Isto vai ficar para vocês, depois que eu morrer.” Um dos contos e a poesia do meu avô, recolhi. Os resto desapareceu, sabe-se lá como. Pessoas e memórias se dissolvem. Quanto a este avô, José Maria, ele é o personagem de meu livro Os Olhos Cegos dos Cavalos Loucos. A escrita serve para recuperarmos pessoas e coisas.

Assim, abri minha caixa. Dela, saltaram pacotes, pacotinhos, envelopes. Os pacotes, lembrei-me, são de primeiras edições de livros meus, embalei para que não fossem atingidos pelo tempo, por roedores, poeira, umidade. Como se roedores recuassem diante de uma folha de papel pardo!

Achei um envelope enviado por um senhor chamado Livio Euler de Araujo, assessor técnico em metalurgia. Datado de 2011, há um bilhete: “Sou seu leitor assíduo, tenho 87 anos e me considero em fim de vida. Sou amante de aviões, locomotivas, trens e carros. Sou apreciador de Araraquara, que frequentei durante vários anos, a serviço. Moramos na mesma região e tenho imenso prazer em convidá-lo para um papo sobre os assuntos comuns aos dois. Faço uma bela caipirinha preparada com um blend de cachaças de variada procedências.” Vinha o telefone para marcar o encontro que nunca se deu. 

Porque esta carta ficou perdida em meio a outros envelopes, papéis, contas, rascunhos, marketing, folhetos. Liguei para o número. Tocou, tocou. Nada. Liguei de novo à tarde. Nada. Foi na semana anterior ao Natal. Talvez a família tivesse viajado. Agora, estou apreensivo. O telefone toca até cessar de repente. Mas subitamente Livio me liga. Ou não mais. Se, em 2011, ele tinha 87, pode estar hoje com 96. 

Flávia Oliveira - Carta para Isabela

- O Globo

Reverencio em você, filha, as mulheres que levaram adiante gestações neste ano sequestrado por contágio

Filha minha,

O menino nasceu e com ele uma mãe, um pai, três avós, três avôs, muitas tias, muitos tios — sim, é um arranjo familiar complexo, que ele vai precisar de tempo para dominar. No coração, a matemática é simples: multiplicam-se os aparentados, unifica-se o clã. Martin é produto de dois ramos de oliveira aproximados pelo amor. É Oliveira ao quadrado, de mãe e pai. Por causa dele, toda essa gente tornou-se comunidade, aldeia, tribo. Do dia para a noite, é tudo sobre ele. É dele nossa torcida; dele nossa fé, reza e devoção. Por ele, festa e preocupação; descanso e despertar. Para ele, amor.

Na derradeira segunda-feira deste ano que encerra a segunda década do século XXI, tambores e sinos ecoaram para anunciar a mudança em nossas vidas. Eu ouvi. Era dia de Exu, orixá que é palavra e movimento; e das Santas Almas Benditas, representação de nossos antepassados. No mesmo endereço onde, quase 25 anos atrás, eu me tornei mãe, você deu à luz o seu menino, meu neto. Tuas mãos de dedos longos, que hoje seguram a cabeça do bebê e a orientam na direção do seio para o alimento, estão nele. E a boca. E a orelhinha mordida que herdou do teu pai.

Nascido ao meio-dia, quando reina Obaluaê, senhor da terra, da peste e da cura, a quem reverenciamos com silêncio e recolhimento, Martin é sol. Eclipsou-nos. Tornou-se o centro de nossa constelação familiar. É flor que brotou do asfalto fumegante de uma temporada terrível de doença e morte globais, de indiferença e irresponsabilidade nacionais. Como todos os nascidos em 2020, ele veio para lembrar que a vida se impõe. Floresceu na dupla clausura: além do útero, as paredes do confinamento imposto pela ciência durante a pandemia da Covid-19, experiência que vai marcar todas as gerações deste tempo.

O que a mídia pensa: Opiniões / Editoriais

Ainda faltam 17,5 mil horas – Opinião | O Estado de S. Paulo

O Brasil conta as horas para o fim do governo de Bolsonaro. A partir de hoje, quando se completa a 1.ª metade do mandato, faltarão 17,5 mil – uma eternidade

O Brasil conta as horas para o fim do governo de Jair Bolsonaro. A partir de hoje, quando se completa a primeira metade do mandato, faltarão cerca de 17,5 mil – uma eternidade, considerando-se que se trata do pior governo da história nacional.

Se os dois primeiros anos da gestão de Bolsonaro servem de parâmetro para o que nos aguarda na segunda parte do mandato, o Brasil nada pode esperar senão mais obscurantismo, truculência e incapacidade administrativa, pois essa é a natureza de um governo cujo presidente não se elegeu para governar, e sim para destruir.

Não se tem notícia de que alguma das promessas formais de campanha de Bolsonaro tenha sido cumprida. Ele e seu “superministro” da Economia, Paulo Guedes, passaram quase toda a primeira metade do mandato a anunciar privatizações em massa, desenvolvimento econômico, criação de empregos, modernização do Estado e competitividade internacional. A frustração de todos esses retumbantes compromissos levou o ministro Paulo Guedes a anunciar: “Acabou. Não prometo mais nada”.

Música | Canta, canta, minha gente

 

Poesia | Ferreira Gullar – Ano Novo

Meia noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.

Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça:
nada ali indica
que um ano novo começa.

E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.

Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Poesia | Marilia Gabriela - Receita de Ano Novo ( Carlos Drummond de Andrade)

 

Merval Pereira - A defesa da cidadania

- O Globo

O que os bolsonaristas estão chamando de “ativismo judicial” descontrolado nada mais é do que a defesa de uma política sanitária que nos permita ter vacinas mais rapidamente. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski, acolhendo um pedido do partido político Rede, estendeu a validade de medidas de combate à pandemia, cujo prazo terminaria hoje, 31 de dezembro.

A mais importante delas é a autorização para que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) em caráter “excepcional e temporária”, em até 72 horas, libere a importação e distribuição de vacinas contra a Covid-19 já aprovadas em agências equivalentes dos Estados Unidos, Europa, China ou Japão.

Com a aprovação, no Reino Unido, da vacina da AstraZeneca/Oxford, que já estamos fabricando aqui na Fiocruz, o governo, que apostou nesse imunizante, poderia iniciar imediatamente a vacinação a nível nacional. Claro que temos um problema a mais, ainda não temos seringas nem agulhas. Para infelicidade de Bolsonaro, o governador João Doria foi precavido e já comprou seringas e agulhas suficientes para vacinar a população do estado.

Como a quantidade de doses ainda será pequena, o sistema que os ingleses adotarão pode ser uma solução inicial: dar a todos a primeira dose, e só a partir da maior produção, começar a vacinação com a segunda dose. Seria um início emergencial para um problema que se transformou em calamidade pública, embora o presidente Bolsonaro e seus mais próximos assessores não levem em conta suas responsabilidades.

Míriam Leitão - Os oásis em um ano áspero

- O Globo

Pareceu, em certos dias, que o deserto não acabaria. Mas houve pontos de refresco na caminhada. Quero falar deles nos derradeiros instantes de 2020. Na crise, as empresas fizeram doações em volumes nunca vistos. Diante da escalada da ameaça ao meio ambiente, empresas e bancos formaram coalizões com organizações sociais e anunciaram compromissos em defesa dos biomas brasileiros. Fundos internacionais avisaram que ou o Brasil protege a floresta, ou ficará fora da rota do capital.

A sociedade fez movimentos na direção certa, num ano torto. Médicos e enfermeiros foram à exaustão, mas fizeram a diferença entre vida e morte. A ciência venceu a sua luta mais difícil, enfrentando o vírus e o negacionismo. Saiu vitoriosa. Nunca tantos cientistas nos ilustraram tanto. Em tempo recorde, a ciência está entregando ao mundo as vacinas que abrem a janela para a esperança.

Emicida é parte das boas notícias do ano. É o futuro. Ver tantos negros no Theatro Municipal de São Paulo deu uma sensação de alívio a quem não se conforma com a partição da sociedade brasileira. Ver o jovem Leandro, como a mãe ainda o chama, levar todos a um passeio pela História para constatar que os negros estiveram presentes — o tempo todo presentes — nas grandes conquistas do país foi muito bom. Esse “reescrever” da História para corrigi-la é um deslumbramento. “AmarElo” foi um ponto de virada. A ideia de que se pode matar o mal de ontem com a pedra lançada hoje é tranquilizadora. Então nós podemos ainda corrigir o mal feito antes? Sim. Podemos começar de novo.

Ricardo Noblat - O último general da ativa no governo está com os dias contados

- Blog do Noblat / Veja

Adeus a Pazuello

 Cabeças rolarão rolar dentro do governo para marcar a passagem de um ano infernal para outro capaz de renovar a esperança dos brasileiros em dias melhores. É sempre assim que agem os presidentes da República ao se verem em apuros uma vez que querem manter a própria cabeça no lugar.

Especialista em logística, ministro da Saúde que sucedeu a dois médicos que insistiam em dizer a Bolsonaro o que ele não queria ouvir, Eduardo Pazuello, posto ali para obedecer sem discutir às ordens que viessem do alto, é uma das cabeças que deverão rolar. É também o último general da ativa no governo.

A cobiça por seu cargo só faz crescer entre os políticos mais fisiológicos, aqueles corriqueiramente dispostos a socorrer governos enfraquecidos em troca de sinecuras. 2021 antecede 2022, ano de eleições gerais. Um ano assim serve para que os políticos façam caixa para financiar despesas futuras.

Maria Hermínia Tavares* - Poderia ser pior

- Folha de S. Paulo

Nada melhor do que nos enxergarmos na moldura maior do que ocorreu em outras partes

Fim de ano é época de dar sentido ao que aconteceu no período. Perguntar-se, por exemplo, como as instituições democráticas brasileiras se comportaram ao longo desses meses de medo e morte.
Para fazê-lo com algum método, nada melhor do que nos enxergarmos na moldura maior do que ocorreu em outras partes. Com a vantajosa circunstância de ter o respaldo de dois estudos recém-publicados por organizações independentes que monitoram o estado da democracia no mundo.

O primeiro, da ONG americana Freedom House, intitula-se “Democracia sob lockdown – o impacto da Covid-19 na luta global pela liberdade”. Baseia-se em entrevistas com especialistas e membros da sociedade civil, realizadas entre janeiro e agosto, em 105 países. A análise conclui que a pandemia exacerbou um tremendo problema: a recessão democrática dos últimos 14 anos.

De acordo com o informe, a democracia se degradou em 80 nações, cujos governos responderam à virose com abuso de poder, silenciamento das vozes críticas, enfraquecimento ou liquidação de instituições cruciais e erosão dos sistemas de rendição de contas pelos governantes. Em nada menos de 59 desses países faltou transparência na maneira como as autoridades informaram o público sobre a Covid-19.

Bruno Boghossian – Angústia e incompetência

- Folha de S. Paulo

Governo teve pressa com cloroquina, mas nega ao país empenho na vacinação

Em março, Jair Bolsonaro se reuniu com o ministro da Defesa e ordenou que o Exército ampliasse imediatamente sua produção de cloroquina. A equipe técnica do governo dizia que o remédio não funcionava contra a Covid-19, mas a ordem foi cumprida em tempo recorde: em três semanas, os militares fabricaram 2 milhões de comprimidos.

A obediência inspirou Bolsonaro. Meses depois, ele escolheu um general para comandar o Ministério da Saúde. Eduardo Pazuello seguiu as vontades do chefe e moveu as engrenagens da máquina pública para distribuir um medicamento ineficaz. Com a cloroquina, o presidente teve uma pressa que foi negada ao país no planejamento da vacinação.

O governo assinou no início de junho a adesão do Brasil a um consórcio internacional para a fabricação de imunizantes contra o coronavírus. No mesmo mês, a equipe econômica perguntou ao Ministério da Saúde se havia previsão de importar material para vacinação. A pasta levou quase seis meses para publicar um edital para a compra de seringas.

Vinicius Torres Freire – A eficácia das vacinas chinesas

- Folha de S. Paulo

Irmã da Coronavac, a vacina do Doria, tem 79% de eficácia, mas falta informação

Uma das vacinas da estatal chinesa Sinopharm teria 79,34% de eficácia, segundo afirmou a empresa nesta quarta-feira (30) em uma nota de escassas e frustrantes vinte linhas. O produto é irmão da Coronavac, comprada pelo governo paulista e que já está sendo produzida pelo Instituto Butantan.

As vacinas são muito semelhantes; é possível esperar resultado similar da Coronavac, em uma especulação esperançosa, mas razoável, dizem dois imunologistas brasileiros ouvidos por este jornalista. As duas irmãs chinesas são feitas da mesma maneira, com vírus inativados.

O vírus é multiplicado em uma cultura de células, na mesma linhagem de células originadas do rim do macaco-verde africano e usadas faz quase 60 anos em pesquisa biotecnológica. O vírus depois é inativado (perde o poder de se replicar e causar doença) com a mesma substância, beta-propriolactona, mas mantém sua estrutura e, assim, ainda pode suscitar uma reação do sistema de defesa (imunológico). Os vírus inativados são misturados ao mesmo tipo de adjuvante, algum composto de alumínio, que facilita a ação da vacina. A diferença entre as duas pode ser a dosagem e o tempo entre as duas injeções necessárias.

Fernando Schüler* - A sociedade dos militantes

- Folha de S. Paulo

 Esqueça a política e descubra as coisas interessantes que temos em comum

Goste ou não dela, vale a pena ler a entrevista de Bari Weiss à Folha, dias atrás. É bom escutar alguém que destoa da multidão. Alguém que ri sozinho enquanto todos dançam a Macarena (já me aconteceu). Todos conhecem a sua história. Ela foi contratada como uma das editoras do The New York Times por destoar da linha de pensamento hegemônica da Redação e caiu fora pelo mesmo motivo.

A Redação do Times, diz ela, como a de muitos jornais, passou gradativamente a responder a um agenda política. E o fez a partir dessa cisão típica dos tempos atuais, entre a gente bacana e esclarecida, "cujo trabalho é informar os outros", e os caipirões, basicamente definidos por qualquer coisa que diz respeito a Donald Trump.

Daí aparece uma jornalista que recusa a dicotomia fácil. Que acha risível pautar o jornalismo, todo santo dia, pelo milésimo texto enfileirando palavrões contra o "diabo laranja". Seu problema, por óbvio, nunca foi Trump ou qualquer político. O problema era a conversão do jornalismo em um campo retórico fechado e avesso às "ideias inconvenientes".

Foi o caso do editor James Bennet, banido por publicar artigo controverso do senador Tom Cotton. Ele provavelmente discordasse do senador, mas acreditava "dever aos leitores a exposição de contra-argumentos". Ingenuidade. Contra-argumentos são aceitos, na lógica do ativismo, nos limites de quem tem a hegemonia e o poder de impor danos aos que saem da linha.

O que Bari Weiss diz vale para qualquer posição política e vai além do jornalismo. Demétrio Magnoli tratou disso em coluna recente. Há um modus operandi da política atual, dado pela lógica tribalista das redes. O jornalismo, ou parte relevante dele, apenas foi junto com a maré.

Mariliz Pereira Jorge - Aborto legal no Brasil

- Folha de S. Paulo

Falta aos políticos brasileiros peito para encarar esse assunto e trazer para o debate o que é de fato pertinente sobre o tema

Gol da Argentina. Na madrugada desta quarta (30), o Senado aprovou a descriminalização do aborto, que passa a ser legal até a 14ª semana de gestação e depende exclusivamente da decisão da mulher, como acontece em quase 70 países. Momento histórico. Marca mais um capítulo de um longo caminho percorrido pelas mulheres desde que a Rússia legalizou a prática há cem anos, ainda antes de se tornar União Soviética.

Enquanto isso no Brasil... A nossa legislação é mais parecida com a de países como o Afeganistão, o Irã e a Síria, o que nos dá a dimensão do atraso em que vivemos. Os direitos reprodutivos de nós, mulheres, não nos pertence, mas ao Estado, infestado de gente feito Jair Bolsonaro.

William Waack - De Dilma a Bolsonaro

- O Estado de S. Paulo

As questões básicas não resolvidas do País permanecem as mesmas

A década que começou com Dilma e vai terminando com Bolsonaro tem uma extraordinária constância. Nossas mazelas continuam praticamente as mesmas. Apenas mais escancaradas por uma pandemia que expôs (e também agravou) problemas que já existiam. Nesse sentido, não se pode falar de uma década que começa e termina com sinais trocados. A incompetência governamental e nossa complacência em sua essência seguem as mesmas.

Sim, Dilma foi a vítima da tortura praticada por um regime de exceção, que Bolsonaro teima em exaltar. Por mais abjetas e fracassadas as ideias que ela defendia, não há nada que justifique tortura especialmente por órgãos de Estado, como aconteceu na ditadura militar brasileira. É um aspecto que o capitão Bolsonaro ignora e que exércitos profissionais de democracias abertas, como na França (na Argélia), Estados Unidos (por último, no Iraque) e Israel (na Intifada de 1987) reconhecem como destruidor da moral da força armada e se empenham em condenar.

A sociedade brasileira segue exibindo a mesma tolerância em relação a pragas nacionais há tempos estabelecidas: injustiça social, miséria disseminada, violência endêmica, corrupção e incompetência governamental. São características com as quais se podia descrever o Brasil de 10 ou 20 anos atrás, e a onda disruptiva de 2018 não ofereceu resultados até aqui convincentes para alterar fundamentalmente esse quadro. As comparações internacionais nada proporcionam para nos orgulharmos em termos de nível de desenvolvimento humano e, especialmente, educação, que continua sendo entendida no Brasil como ferramenta e não como valor em si.

Eugênio Bucci* - A propaganda, a ciência, o imbróglio e o ano novo

- O Estado de S. Paulo

Fapesp corre o risco de perder 30% de sua verba e Bandeirantes aumenta a de publicidade em 70%

No gran finale de 2020, o governo paulista deu um jeito de aumentar os recursos para fazer propaganda de si mesmo e, na outra ponta, deu outro jeito para, em plena pandemia, ameaçar o orçamento da ciência. O ano que começou mal termina muito pior.

Nos derradeiros ajustes da Lei Orçamentária Anual (LOA), na Assembleia Legislativa, o Palácio dos Bandeirantes conseguiu incluir uma elevação de 69% na sua verba publicitária (como noticiou este jornal na primeira página, dia 20, com reportagem de Brenda Zacharias). O montante, que ficou na casa dos R$ 90,7 milhões em 2020, saltará para R$ 153,2 milhões no exercício de 2021.

Na mesma LOA aparece um corte de 30% na receita da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A entidade tradicionalmente conta com 1% da receita tributária do Estado. Em 2021 poderá ficar com apenas 0,7%. Traduzindo em graúdos, estamos falando de meio bilhão de reais a menos.

Por enquanto, dinheiro ainda não foi retirado, de fato, mas a Fapesp corre o risco de perdê-lo. O corte aparece no texto final da LOA (publicado no Diário Oficial de ontem), com todos os números e vírgulas, mas talvez não venha a ser efetivado. Mas como assim?, há de se perguntar o improvável leitor. Se a lei manda cortar, como é que podemos ter a expectativa de que o corte talvez não se consume?

Zeina Latif* - Governo em quarentena

- O Estado de S. Paulo

A inoperância do governo federal transborda e agrava o sofrimento social. Alguns ministérios cuja ação seria essencial pegaram a covid-19 e estão em isolamento por tempo indeterminado.

Repetitivo lembrar que o plano nacional de imunização não tem vacinas ou mesmo seringas. E ainda aguardamos as deliberações do comitê de crise, sob comando da Casa Civil.

Do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, nada se ouve falar, apesar do estresse vivido pelas famílias por conta da crise no mercado de trabalho, do confinamento social em moradias precárias, dos problemas de saúde e das escolas fechadas.

Não podemos nos enganar com os números de queda expressiva na violência doméstica (-27%), na ameaça contra a mulher (-33%) e na violência contra vulneráveis (-50%), entre março e maio em relação ao ano passado. Há grande subnotificação de casos por conta do isolamento social combinado à falta de acesso digital aos canais de denúncia.

Provavelmente, o problema é maior no Brasil, a julgar pela experiência mundial. Por exemplo, a Colômbia, com boletins semanais, registrou aumento de 92% nas chamadas de denúncia de violência contra a mulher entre abril e início de dezembro. Na Argentina, o aumento foi de 25% entre abril e outubro. A propósito, o cuidado em coletar e divulgar as estatísticas atualizadas já diz muito dos governos.

Celso Ming - Os fatores que evitaram o maior desastre em 2020

- O Estado de S. Paulo

São quatro as razões que evitaram a queda de dois dígitos do PIB brasileiro

E o pior não aconteceu. No segundo trimestre, em plena pandemia, as projeções para o desempenho da economia do Brasil foram terríveis. Algumas chegavam a indicar um mergulho do Produto Interno Bruto (PIB) de quase 10% para todo o ano.

As novas previsões falam de uma queda de 4,4% (veja o gráfico). Essa é a última projeção do Banco Central, que coincide com a do mercado, como consta no Boletim Focus desta semana.

São quatro as explicações para esse tombo menos acentuado.

A primeira delas é a de que o Tesouro despejou R$ 322 bilhões em auxílios emergenciais para a população (66 milhões de pessoas), recursos que permitiram uma sustentação da demanda de bens essenciais – especialmente alimentos, medicamentos e moradia – durante o isolamento social necessário para combater a covid-19. Foi uma demanda que permitiu que a atividade econômica não entrasse em colapso. O efeito colateral foi o avanço inesperado da inflação, que, no entanto, tende a ser limitado.

O segundo grande fator de sustentação da economia foi o excelente desempenho do agronegócio. Como mostram as últimas projeções do IBGE e da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção física de grãos na safra de 2020/21 deverá ter um aumento de 3,5%, para alguma coisa em torno dos 266 milhões de toneladas. Os preços também ajudaram, seja pelo aumento da demanda interna de alimentos, como mencionado acima, seja pela forte importação da China. 

José Pastore* - Vacina, coronavoucher e a nova década

- O Estado de S. Paulo

Mais de 65 milhões de pessoas recebem o auxílio emergencial. Será que o mercado de trabalho terá condições de absorver boa parte desse universo logo no início de 2021?

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, defende apoiar a vacinação em lugar de prorrogar o auxílio emergencial. Para ele, a retomada em V da economia permitirá a absorção no mercado de trabalho dos brasileiros que estão parados. Dali para a frente eles poderão viver da renda do trabalho, e não da renda do coronavoucher.

Tudo indica, porém, que a tão desejada sincronia vai demorar algum tempo. Mais de 65 milhões de pessoas recebem o auxílio emergencial. Será que o mercado de trabalho terá condições de absorver boa parte desse universo logo no início de 2021?

Grande parte da retomada em V deveu-se ao sucesso dos programas de redução de jornada e suspensão do contrato de trabalho que manteve 10 milhões de empregos formais e propiciou dados positivos no Caged. Outra parte deveu-se ao próprio auxílio emergencial de R$ 600 e, depois, de R$ 300.

Mas esses programas terminam hoje. Noticia-se a possível prorrogação da redução de jornada e suspensão dos contratos, o que é animador. Mas, até o fechamento deste artigo, nada se falou sobre a prorrogação do coronavoucher. Lembremos que para cerca de 23 milhões dos beneficiados sua única renda é a do auxílio emergencial.

Luis Fernando Verissimo – Retrospectivas

- O Globo / O Estado de S. Paulo

As próximas terão que recorrer à ficção ou ao delírio para contar como foram 2020 e seus desdobramentos

Retrospectivas de fim de ano servem para passar o passado a limpo e organizar nossas lembranças, que, sem elas, seriam histórias sem nexo. O retrospectivista mais desatento da História foi Luís XVI, que, na véspera da Revolução Francesa, escreveu no seu diário: “Tudo calmo, nenhuma novidade no reino”. A tradição de recapitular os principais acontecimentos do ano teria começado no ano 1, quando um viajante no deserto anotou no seu caderno de viagem a presença daquela estranha estrela no céu da Judeia, brilhando mais do que as outras, como que mostrando um caminho, e disse “Epa”.

No jornalismo, uma retrospectiva de fim de ano é obrigatória e fácil de fazer. Basta juntar fatos e feitos que se destacaram durante o ano e pronto. O ano de 2020, que termina hoje, esteve cheio de notícias destacáveis, como todos os anos. É só reuni-las e teremos um típico ano com seus altos e baixos, esperando sua inclusão na retrospectiva. Como todos os anos. Certo?

Cora Rónai - Já não era sem tempo

´O Globo

Gente má faz mais barulho, mas precisamos aprender a apreciar os pequenos gestos de gentileza e a educação invisível

31 de dezembro de 2020: enfim, o último dia do ano mais longo que já vivemos, o ano que nos enganou no começo com a linda ressonância dos seus números dobrados, vinte-vinte, mas logo se revelou mais angustiante, divisivo e mortal do que qualquer outro na nossa memória recente. O que mais dói é que não precisava ter sido assim.

Em circunstância nenhuma teríamos escapado da Covid-19, mas não precisávamos ter enfrentado tantas epidemias ao mesmo tempo — de obscurantismo, de arrogância e de politicagem, de descaso e de deboche, de incompetência e de estupidez.

O ano leva a assinatura de Jair Messias Bolsonaro de ponta a ponta.

Teria sido bastante ruim enfrentar tantas mortes e tanta devastação em circunstâncias “normais”, se é que se pode falar em normalidade numa hora dessas, mas foi medonho viver tudo isso tendo no mais alto cargo da nação esse homem inculto e mau, esse ignorante absoluto da própria ignorância, incapaz de entender o pouco que se pedia dele diante da pandemia: calar a boca, seguir os especialistas, dar o exemplo.

Teria sido tão mais simples, tão menos devastador.

Raul Jungmann* - Dias melhores virão

- Capital Político

Estranhos dias, estranho ano.  2020 não começou em janeiro, como os que lhe antecederam, nem sabemos quando terminará. Talvez nunca? Inesperado, de súbito, mudou nossas vidas. Não mais festas, futebol, cinema, teatro. Encontros, trabalho (amor?), agora só à distância, remotos.

Já a morte, que conosco nasce e a distância buscamos mantê-la, tornou-se contigua, palpável e nos assedia com a frequência das notícias da ida definitiva dos distantes e, mais e mais, dos próximos. Cada vez mais próximos. Sem despedidas, último adeus, anônimos. Sentenciados, passamos a viver em prisão domiciliar. Nunca dantes tão forçadamente próximos; nunca dantes tão virtuais, remotas esperanças.

Nosso espaço se mede em parcos metros quadrados, quase redondos, de tão compartilhados. E há que redobrar o autocontrole, mas há, também, (re)descobertas, sob a fuligem da rotina. Recomeços. Ao sair, “use a máscara”; na chegada, “tire os sapatos e a roupa, tome banho”. Pedágios, obrigatórios, não esqueça. Das máscaras psíquicas, às virtuais. E também as de pano, papel, recicladas, sintéticas, de variadas cores, modelos – outdoors de times, mantras e mensagens.

Guga Chacra - 2021, o ano sem Trump

- O Globo

Será um alívio acordar no dia 21 de janeiro sem Donald Trump na Presidência dos Estados Unidos. Suas mentiras, seu discurso do ódio, seus delírios e seu negacionismo deixarão a Casa Branca. O futuro ex-presidente, claro, não desaparecerá. Ele desfruta de uma enorme base fanática que o trata como Deus. Mas seu poder de fato, de comandar a maior potência da história da Humanidade, se pulverizará. Suas postagens no Twitter serão mais gritos conspiratórios de um desequilibrado. Deixarão de ter peso de anúncios políticos como a demissão de integrantes de seu Gabinete.

Sem Trump e com Joe Biden na Presidência, a relação dos EUA com o restante do planeta se alterará drasticamente. Tende a melhorar bastante com a União Europeia e o Canadá. Pode seguir boa com o Reino Unido. Biden voltará a trabalhar com a aliança ocidental e retomará multilateralismo. A prioridade será tentar superar a pandemia neste ano com a vacinação, com a busca de uma normalização das nossas vidas e a recuperação da economia. Ao mesmo tempo, a questão climática ganhará força.

O que a mídia pensa: Opiniões / Editoriais

A Nação, refém do descaso – Opinião | O Estado de S. Paulo

A postura insultuosa de Bolsonaro diante das aflições dos brasileiros deve ser vista como uma traição ao juramento por ele prestado ao tomar posse como presidente

 A Nação está refém do inconcebível descaso de Jair Bolsonaro pela vida e pela saúde pública, quando, como ocorre em qualquer país normal, deveria ser bem liderada por seu presidente no curso da mais letal emergência sanitária que se abateu sobre o Brasil desde 1918.

Nesta hora grave, a postura insultuosa de Bolsonaro diante das aflições dos brasileiros deve ser vista como uma traição ao juramento por ele prestado sobre a Constituição ao tomar posse como presidente da República. Aquele que deveria ser o líder de todos os esforços nacionais para acabar com um flagelo que há dez longos meses exaure o espírito de milhões de seus compatriotas, ao contrário, é o primeiro de uma penca de sabotadores desses esforços. E com indisfarçável satisfação.

O País chega a 2021 perto da marca de 195 mil mortos pela covid-19. Jamais tantos brasileiros morreram em tão pouco tempo devido a uma só causa. Angustiada, a Nação assiste ao início da campanha de vacinação contra o novo coronavírus em cerca de 50 países, alguns dos quais em condições econômicas mais adversas que as do Brasil, sem saber quando e como será vacinada. É como se aos que aqui vivem não bastassem as provações já impostas pela pandemia, agregando-se um presidente mequetrefe ao longo rol de infortúnios.

No sábado passado, ao ser questionado por um jornalista se sentia a pressão de ver outros países iniciarem a vacinação de seus nacionais, Bolsonaro reagiu dizendo “não dar bola para isso”, pois “ninguém o pressiona para nada”. É este presidente à prova de “pressões” – até mesmo a pressão para salvar vidas – que, como se não tivesse múltiplas crises para debelar, encontrou tempo para jogar futebol, debochar de adversários políticos, criticar os laboratórios que fabricam as vacinas e ofender a ex-presidente Dilma Rousseff, entre outros absurdos. Parece claro que Jair Bolsonaro está mais preocupado em desviar as atenções do País de sua irremediável incompetência do que em viabilizar o início de uma campanha de vacinação sem a qual mais brasileiros vão morrer e mais preso a este pesadelo estará o País.

Música | Beth Carvalho - O que é, o que é (Gonzaguinha)

 

Poesia | Marilia Gabriela - Esperança ( Mario Quintana)