domingo, 17 de março de 2024

Celso Rocha de Barros - Bolsonaro vai preso. E depois?

Folha de S. Paulo

Todo político bolsonarista agora precisa ser confrontado com os depoimentos de Freire Gomes (Exército) e Baptista Jr. (Aeronáutica)

Com a divulgação dos depoimentos da operação Tempus Veritatis, já está claro que Jair Bolsonaro vai ser preso.

Os ex-comandantes do Exército e da Aeronáutica, general Freire Gomes e brigadeiro Baptista Jr., contaram à Polícia Federal que Bolsonaro passou o período entre a derrota para Lula e a fuga para a Disney lhes propondo golpe de Estado.

Em duas reuniões, uma em 7 de dezembro, presidida pelo próprio Jair, e outra em 14 de dezembro, presidida pelo ministro da defesa de Bolsonaro, general Paulo Sérgio, minutas da declaração de golpe (com as limitações correspondentes de liberdade) foram apresentadas aos comandantes das Forças. O da Marinha, Almirante Garnier, teria aceitado, segundo depoimento de seus dois colegas.

Esses testemunhos batem perfeitamente com outras provas de que a polícia já dispõe, como as trocas de mensagens de Mauro Cid e Braga Netto.

Rudolfo Lago - Apesar da crise, União Brasil lidera maior número de capitais

Correio da Manhã

Internamente, a disputa pelo comando do União Brasil literalmente pega fogo. Recentemente, o vice-presidente do partido Antonio Rueda destituiu do comando o deputado federal Luciano Bivar. Em eleição interna, Rueda venceu Bivar por unanimidade, mostrando o isolamento do deputado. Inconformado com o resultado, Bivar o questiona. No meio da briga intensa, as casas de praia de Rueda e de sua irmã, Emília Rueda, foram incendiadas. Rueda acusa Bivar de ter sido o responsável pelo incêndio.

Mas, enquanto os comandantes da legenda se engalfinham, o União Brasil mostra fôlego nas eleições municipais. Avaliando as pesquisas mais recentes nas 26 capitais do país, o Correio da Manhã mostra que o União hoje lidera em seis das capitais: Salvador (BA), Fortaleza (CE), Teresina (PI), Porto Velho (RO), Cuiabá (MT) e Campo Grande (MS).

O PSD, partido liderado pelo secretário de Governo do estado de São Paulo, Gilberto Kassab, vem em segundo, com quatro capitais. Entre elas, o Rio de Janeiro, onde é muito forte a possibilidade de reeleição do prefeito Eduardo Paes. MDB, PL e Podemos lideram em três. Mas o MDB vê agora um empate na maior capital, São Paulo, com o crescimento do prefeito Ricardo Nunes, apontado pelo Datafolha.

O crescimento de Nunes ameaça a única possibilidade do Psol, com Guilherme Boulos, que ainda lidera agora por pequena margem em São Paulo.

E o partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o PT, só aparece à frente em Goiânia (GO), com a deputada Adriana Accorsi. Mesmo assim, em situação de empate com o senador Vanderlan Cardoso (PSD) e o deputado Gustavo Gayer (PL).

Veja abaixo como está o quadro atualizado das eleições nas capitais:

Poemas e frases; Citações e Pensamentos,.. de Bertolt Brecht

 

Música | Mariene de Castro, Brasil Jazz Sinfônica - Canto das Três Raças

 

sábado, 16 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

O triunfo da democracia

Correio Braziliense

As investigações sobre o 8 de janeiro mostram que as ideias derrotadas por Tancredo ainda encontram adeptos

Tancredo de Almeida Neves (PMDB-MG) foi escolhido presidente da República pelo Colégio Eleitoral, em 15 de janeiro de 1985, em eleição indireta na qual derrotou o candidato do PDS, o deputado Paulo Maluf (SP). Porém, na véspera de tomar posse, em 14 de março daquele ano, foi internado em estado grave, no Hospital de Base de Brasília, e faleceu sem tomar posse na Presidência.

O vice José Sarney assumiu o cargo e comandou um longo processo de transição do regime militar à democracia, concluído com promulgação da Constituição de 1988 e a realização de eleições diretas para a Presidência em 1988, quando foi eleito Collor de Mello. Luiz Inácio Lula da Silva, que hoje exerce seu terceiro mandato à frente do Executivo, fora o candidato derrotado no segundo turno.

A agonia de Tancredo Neves naqueles dias provocou uma comoção nacional: foram sete cirurgias, duas em Brasília e cinco em São Paulo, até o dia 21 de abril daquele ano, quando faleceu. Seu legado como presidente da República eleito foi essencialmente político: derrotou o projeto de institucionalização de um regime autoritário, de características "iliberais", que manteria a tutela militar sobre a República, por meio de artifícios institucionais que a legitimassem.

Cristovam Buarque* - Êxito pessoal, fracasso nacional

Revista Veja

O descaso com a educação faz o país avançar muito pouco

Nos esportes, só comemoramos o vencedor — o segundo colocado não recebe festa. Na educação, porém, consideramos vitória um avanço pessoal, ainda que seja prova de fracasso nacional. A televisão tem mostrado a fala de um jovem brasileiro celebrando ser o primeiro de sua família a ingressar em curso superior. Não há dúvida do sucesso do menino ao ser uma exceção em sua família. Mas seu sucesso pessoal e a publicidade como êxito social são provas do descaso nacional com a educação. Na terceira década do século XXI, duzentos anos depois da independência, quase um século e meio de república, quarenta anos depois da redemocratização, quinze anos de governos de esquerda, o atual ocupante do Planalto comemora o primeiro membro de uma família a ingressar no ensino superior.

Aldo Fornazieri* - A questão evangélica

CartaCapital

Parece que as esquerdas perderam a noção do que significa disputar a hegemonia política e ideológica no País

A recente rodada de pesquisas – Quaest, Ipec e Atlas – mostrou significativa queda na avaliação positiva do governo e de Lula, além de um avanço na rejeição. As declarações do presidente sobre Israel, a inflação de alimentos, percepção de que a economia não vai bem, o incômodo com a insegurança, a corrupção e a pobreza foram os principais temas indicados pelos institutos como causas do crescimento da desaprovação.

Segundo o Ipec, Lula e o governo perderam pontos em seu próprio eleitorado: os nordestinos, as mulheres, as pessoas negras e de baixa renda. O aumento mais expressivo da desaprovação deu-se entre os evangélicos. Desde dezembro, revela a Quaest, ela subiu 6 pontos, passando de 56% para 62%. A aprovação também caiu 6 pontos, passando de 41% para 35%.

Analistas sugerem que esse aumento da reprovação entre evangélicos pode ter se originado nas condenações que Lula fez aos massacres de crianças e mulheres que Israel perpetra em Gaza. De fato, os evangélicos radicais, principalmente nos EUA e no Brasil, têm fortes relações com a extrema-direita israelense, ligada a grupos de judeus ortodoxos e sionistas.

João Gabriel de Lima* - O check-up das democracias

O Globo

A má notícia do relatório do V-Dem é que a maior parte da população do mundo ainda vive sob regimes autoritários

A medicina preventiva recomenda que se faça um check-up anual para aferir indicadores básicos de saúde, como colesterol, glicemia e funções cardíacas. Os institutos que medem a qualidade da democracia divulgam seus relatórios também com periodicidade anual. A metodologia é análoga, baseada numa série de indicadores. Pode-se dizer que é um check-up dos regimes de liberdade.

Entre os relatórios, o mais acurado e mais citado em teses acadêmicas é do instituto sueco V-Dem, divulgado no início do mês. Democracias, em sua definição mais concisa, são regimes em que prevalece a vontade da maioria, por meio de eleições, ao mesmo tempo que protegem os direitos de todos os cidadãos, incluídas as minorias. Estes são, respectivamente, os aspectos “democrático” e “liberal” das democracias. Aos dois vetores básicos o V-Dem acrescenta cerca de 500 indicadores — que incluem participação popular e capacidade de resolver os problemas concretos dos cidadãos — e faz sua classificação.

Pablo Ortellado - Um outro Rafael Braga

O Globo

Muitos talvez não lembrem mais, mas, há dez anos, o Brasil se mobilizou pela soltura de Rafael Braga, único condenado pela participação nos protestos de junho de 2013. Ele era um morador de rua que foi preso no dia 20, em meio a manifestações pela redução das tarifas de transporte na região central do Rio de Janeiro. Foi detido próximo à Central da Brasil com uma garrafa de Pinho Sol e outra de água sanitária e injustamente acusado de portar “coquetéis molotov” para atacar a polícia.

O caso escandalizou o país. Rafael era um morador de rua que vivia na região central e não participava do protesto. As garrafas de plástico com desinfetante e água sanitária que portava obviamente não podiam ser empregadas como coquetéis molotov. Apesar da acusação ridícula, a polícia sustentou seu entendimento, e o Ministério Público encampou a tese, mostrando como os abusos da polícia se entrelaçam com o descuido e os vieses do Judiciário, especialmente se o acusado é pobre, preto e tem condenação anterior. Em dezembro de 2013, Rafael foi condenado a cinco anos de prisão por porte ilegal de artefato incendiário.

Eduardo Affonso - A História e as estórias

O Globo

A ordem é entrar em modo amnésia coletiva. Não provocar debates sobre prisões arbitrárias, luta armada...

José Murilo de Carvalho escreveu que “são os historiadores, no presente, que constroem o passado”. Em outras palavras — e parafraseando Cecília Meireles —, o passado só é possível reinventado. É, por isso, uma obra aberta: cada época dispõe de informações adicionais, mais ferramentas teóricas e — para o bem e para o mal — novas ideologias. Sai a história dos vencedores, entra a dos vencidos — a mesma cena, com enquadramento diferente, um recorte que privilegia um personagem em detrimento de outro. Figurantes assumem protagonismo — o que não quer dizer que, sob mirada futura, não possam voltar a ser nota de rodapé.

Talvez por isso o tempo que passou seja tão imprevisível quanto o que ainda está por vir.

Nossa geração viu Jesus deixar de ser judeu (e loiro, de olhos azuis...) para se tornar um moreno revolucionário palestino e marxista avant la lettre. Viu o Descobrimento do Brasil virar invasão imperialista. O bandeirante herói da nossa infância — que se embrenhava, intrépido, mata adentro e fez o país dobrar de tamanho — se transformar em vilão escravagista. A celebrada conquista da Amazônia (“inferno verde” onde árvore boa era árvore derrubada) se revelar um desastre ambiental.

Carlos Alberto Sardenberg - Por que o povo não aplaude?

O Globo

Lula e seu pessoal mais próximo acreditam que as velhas agendas ainda deveriam trazer a satisfação do público

Lula causou muitos problemas para seu próprio governo nas últimas semanas. As intervenções desastradas na Petrobras e na Vale não apenas destruíram valor dessas duas companhias, em que a União tem dinheiro aplicado, como prejudicaram o ambiente de negócios. Justamente quando o governo precisa da adesão de investidores privados para tocar ao menos alguma coisa de seus planos grandiosos.

Nenhum governo conseguiria construir refinarias, navios e plataformas de petróleo e, ao mesmo tempo, tocar pesados investimentos em transição energética. Além de gerar dúvidas sobre a viabilidade, traz uma incerteza programática: qual o foco, o óleo ou o verde? Ali no núcleo do Planalto, responderão: os dois alvos. Mas, de novo, não há dinheiro para tudo nem, ao que parece, capacidade de organizar e implementar políticas que tragam capital privado.

Demétrio Magnoli - As utilidades de Trump

Folha de S. Paulo

Nos EUA, Lula e Bolsonaro têm o mesmo candidato, mas só o segundo pode pronunciar seu nome

Viktor Orbán, Putin e Lula não votam nas eleições americanas, mas proclamaram suas preferências. O primeiro-ministro húngaro declarou-se por Trump, uma manifestação sincera e interessada. Putin e Lula declararam-se por Biden, em gestos de ilusionismo político movidos por razões distintas.

Orbán visitou os EUA sem se reunir com Biden: foi direto a Trump, rompendo o mais básico protocolo diplomático. Líder da direita nacionalista europeia, ele professa as mesmas ideias que o virtual candidato republicano.

No plano internacional, mantém uma pouco discreta parceria com a Rússia e critica o apoio da União Europeia à Ucrânia. No plano ideológico, compartilha com Putin o conceito da "nação de sangue" apoiada nos pilares da família tradicional e da religião cristã. O triunfo de Trump asseguraria a seu projeto autoritário e à direita conservadora do Velho Mundo um aliado poderoso, capaz de contrabalançar as pressões das democracias europeias.

Alvaro Costa e Silva - Remédio contra a censura

Folha de S. Paulo

Como nos EUA, editoras brasileiras começam a entrar na Justiça para impedir abusos de autoridade

A Companhia das Letras, que publica "O Avesso da Pele", entrou na Justiça para barrar o recolhimento de exemplares do livro em bibliotecas de escolas do Paraná. Grandes grupos editoriais nos EUA, diante da onda de censura a obras literárias que também se alastra por lá, já adotam instrumentos jurídicos para frear o abuso de autoridade. Se copiamos a ideia de jerico, por que não a contraofensiva cultural?

Jeferson Tenório e seu romance —que incomoda por denunciar o racismo, não por trechos "inadequados"— estão em boa companhia. Já enfrentaram desavenças nos tribunais Flaubert, autor de "Madame Bovary"; Baudelaire, de "As Flores do Mal"; Joyce, de "Ulisses"; D. H. Lawrence, de "O Amante de Lady Chatterley"; Henry Miller, de "Trópico de Câncer"; Nabokov, de "Lolita". Todos conseguiram a liberação de suas obras para o público.

Dora Kramer - Autocrítica, excelência

Folha de S. Paulo

Uma boa dose de exame de consciência ajudaria Lula a inverter o cenário adverso

É sempre bom que governos se preocupem com os preços dos alimentos. Ainda que essa preocupação seja despertada pela queda nos índices de popularidade do presidente da República nas pesquisas, como agora quando Luiz Inácio da Silva corre atrás de conter a carestia geral para reduzir o dano pessoal.

Baixou uma ordem para que se preparem medidas simpáticas ao bolso da população. Isso a fim de tentar inverter o cenário de queda na avaliação positiva do governo registrado por quatro consultas de opinião na semana passada.

Hélio Schwartsman – Lulopedia

Folha de S. Paulo

O presidente e o PT são capazes de aprender com seus erros?

Dizia-se dos Bourbons que eles nada esqueciam e nada aprendiam. Tenta-se agora imputar algo semelhante a Lula e ao PT. Declarações do presidente sobre a governança da Petrobras e da Vale e ingerências nessas empresas seriam a antessala do intervencionismo estatista que produziu a crise de 2014-15. Lula e o PT são incapazes de aprender com erros do passado?

A questão é complexa. Há vários tipos de aprendizado. Alguns deles vêm inscritos em nosso DNA. Um bom número de urbanitas que nunca viram uma cobra ao vivo morre de medo desses animais, expressando, ainda que exageradamente, uma experiência que foi útil à nossa espécie.

Cláudio Carraly* - Revolução longa e próspera

“Espaço a fronteira final. Estas são as viagens da nave estelar Enterprise, em sua missão de cinco anos para explorar novos mundos, novas civilizações, audaciosamente, indo onde nenhum homem jamais esteve.” Assim, iniciavam todos os capítulos da série original Star Trek ou como chamávamos por aqui Jornada nas Estrelas, que estreou na televisão no ano de 1966 e durou quatro temporadas, levando milhares de novas mentes a crer em uma humanidade igualitária, inclusiva e justa, despertando mundo afora, interesse e busca por conhecimento científico.

Gene Roddenberry foi um roteirista, produtor e criador de televisão americano conhecido principalmente por ser o criador da famosa franquia Star Trek, que oferecia uma visão futurista da humanidade em um conjunto de mundos utópicos conhecidos como a Federação Unida dos Planetas. Nesse cenário, a humanidade atingiu um nível de desenvolvimento tecnológico e social que superou as limitações do capitalismo e das lutas de classes. 

Marcus Pestana* - Transformação social e a ação das prefeituras

Tenho aqui insistido na importância central de elegermos bons prefeitos e vereadores em outubro próximo, dados os impactos estratégicos das políticas públicas municipais e a proximidade estreita entre poder local e o cotidiano da população. Já realçamos aqui os dois campos principais da atuação das prefeituras: educação e saúde.

Mas existem outros segmentos muito importantes para a melhoria da qualidade de vida da população. É evidente que os desafios são diferentes para as cidades pequenas, médias e grandes. Algumas têm que lutar contra seu esvaziamento, outras contra os efeitos perversos do crescimento desordenado. Também o grau de autonomia financeira é heterogêneo. Há cidades que possuem royalties de energia elétrica ou mineração, ou ICMS alto, por seu grau de industrialização. Outras não. Há cidades médias e grandes com renda razoavelmente alta e setor terciário desenvolvido que têm bom potencial de arrecadação de IPTU e ISS. Outras não. Portanto, senhores candidatos, adequem seus programas de governo e propostas à realidade fiscal de cada município.

Poesia | O escrivinhador de peças, de Bertolt Brecht

 

Música | Mariene de Castro, Zeca Pagodinho - Coisa da antiga

 

sexta-feira, 15 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

PEC das Drogas traz retrocesso para segurança

O Globo

Texto do Senado incentiva o encarceramento, que fornece mão de obra para facções nos presídios

Prepara-se no Congresso um enorme retrocesso para enfrentar um problema que merece ser tratado com maturidade, não com preconceito e demagogia. A Proposta de Emenda à Constituição conhecida como PEC das Drogas, aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, é um equívoco. Para a saúde e para a segurança pública. Primeiro, porque vai contra todo o conhecimento acumulado sobre como tratar dependentes. Segundo, porque é um incentivo ao encarceramento em massa, problema que a Lei Antidrogas de 2006 tentou resolver, embora tenha ficado no meio do caminho.

A PEC piora uma legislação já ruim e pretende gravar o erro no artigo 5º da Constituição. A proposta considera crime a posse e o porte de qualquer quantidade de droga, “observada a distinção entre o traficante e o usuário pelas circunstâncias fáticas do caso concreto”. Ora, a legislação atual também foi aprovada com o objetivo de não prender usuários, mas fracassou ao não estabelecer critérios para isso, gerando um vácuo jurídico hoje em debate no Supremo Tribunal Federal (STF).

Sem parâmetros objetivos, as “circunstâncias fáticas” sempre dependerão da interpretação de cada policial ou juiz. Pelo que a realidade mostra, jovens, negros e pobres costumam ser tratados como traficantes e presos, mesmo que flagrados com pequenas quantidades — ao contrário daqueles noutra condição socioeconômica.

O resultado são as cadeias abarrotadas com gente que não deveria estar lá. Dos 650 mil presos no Brasil, 28% foram encarcerados com base na Lei Antidrogas, a maior parte portando pequenas quantidades. Uma pesquisa do Ipea mostrou que, se houvesse limite de 25 gramas para consumo pessoal, 27% dos condenados por porte de maconha poderiam sair da cadeia. Se o limite fosse de 150 gramas, seriam 59%.

Fernando Gabeira - O enigma das pesquisas

O Estado de S. Paulo

Impressão do governo será dominantemente construída nas redes, e, como há supremacia de oposição, transformar o quadro depende muito também da luta no mundo virtual

As recentes pesquisas que indicam uma queda de prestígio do governo são de difícil interpretação. Evidentemente, cada um tem uma série de motivos para indicar como suspeitos. Mas não há nada em que se possa apoiar de forma conclusiva.

Os indicadores da economia são considerados positivos. Pessoalmente, suspeito de que o preço dos alimentos tenha um pequeno papel, sobretudo na população de baixa renda. Há alguns meses que chamo a atenção para o enlace de dois fenômenos: o El Niño e o aquecimento global. Eles devem ter sido responsáveis pelo aumento do preço de hortigranjeiros e de frutas. Posso constatar isso na feira semanal: a compra que me custava R$ 90 no ano passado custa, agora, R$ 140. Ouço muitas vezes reclamações sobre os preços, sobretudo o da banana.

Apesar dessa constatação empírica, os números não autorizam supervalorizar o aumento do preço dos alimentos. Com tudo o que aconteceu este ano, a inflação de fevereiro, de 0,83%, é praticamente igual à de fevereiro do ano passado (0,84%).

Vera Magalhães - Faltam novas marcas ao governo Lula 3

O Globo

PAC, Minha Casa, Minha Vida, Prouni e Mais Médicos soam como sânscrito para boa parte do eleitorado

Um dos pontos cruciais para a DR — sigla para a “discussão da relação” comum ao léxico dos casais em crise — em que forçosamente se transformará a reunião ministerial da próxima segunda-feira deverá ser a completa ausência de marcas fortes do governo Lula 3. Não é por falta de temas que possam se transformar nessas pautas, mas pela desconexão entre as maiores preocupações do presidente e de boa parte do primeiro escalão e essas possíveis bandeiras.

A mais evidente é a economia verde, com todo o seu enorme potencial de gerar investimentos bilionários e a visibilidade global que parece ser tão almejada por Lula. Passou da hora de o governo eleito com a promessa de mudar o desmonte e a destruição promovidos e defendidos por Jair Bolsonaro na área ambiental apresentar um projeto grande, ambicioso e transversal para as diversas áreas abrangidas pela agenda da sustentabilidade, a começar das muitas oportunidades de geração de recursos de fato volumosos na área de energia.

César Felício - Economia não garante Lula nas pesquisas

Valor Econômico

Cenário internacional sugere que há muito vento soprando as brasas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não é o principal culpado da evidente queda de popularidade sua e do governo, atestada por todas as pesquisas de opinião realizadas nas últimas três semanas. Esta conta não é dele, o que agrava a sua situação, porque talvez não esteja em suas mãos mudar o curso dos acontecimentos.

As pesquisas Genial/Quaest, Ipec e Datafolha foram realizadas depois de 25 de fevereiro, data da manifestação que teve o ex-presidente Jair Bolsonaro no palanque da avenida Paulista. O bolsonarismo mostrou-se eficiente em reengajar a sua base, em especial e acima de tudo entre os evangélicos. Frases infelizes de Lula contribuíram com o resultado, mas que não se tire o mérito da oposição em produzi-lo.

Luiz Carlos Azedo - Radicalização e guerra de posições nas eleições municipais

Correio Braziliense

Desde o restabelecimento das eleições diretas para a Prefeitura de São Paulo, repete-se um padrão de disputa entre forças de centro-direita e centro-esquerda do tipo Nunes e Boulos

A professora aposentada da USP e pesquisadora do Cebrap Maria Hermínia Tavares, em seu artigo na Folha de S. Paulo, nesta quinta-feira, confrontou a tese de que o realinhamento político das forças de centro-direita em torno da liderança do ex-presidente Jair Bolsonaro, apontado pelas pesquisas de opinião, deve ser encarado “pelas embaçadas lentes da polarização política”. Segundo ela, essa ideia serve antes para confundir do que para esclarecer.

Maria Hermínia afirma que a tese falha quando avalia que a ampla coalizão que sustenta o governo Lula e a radical oposição “aprisionaram os brasileiros em dois polos irredutíveis”. Além de argumentar que a presença de políticos de centro, como José Múcio Monteiro (PRD-PE) e André Fufuca (PP-AM), dá um caráter moderado ao governo Lula, cita o exemplo das eleições para a Prefeitura de São Paulo para fugir aos esquemas de análise que crava a chamada “calcificação” da polarização política.

Eliane Cantanhede - De culpas e culpados

O Estado de S. Paulo

Lula quer intervir em preços de alimentos, como na Petrobras e na Vale?

Depois do mergulho nas pesquisas da semana passada, o Planalto enfim pescou a culpada pela queda da popularidade do presidente Lula: a inflação, particularmente dos alimentos. Assim, Lula se reuniu ontem com ministros e assessores ligados à questão, já preparando o script para as desculpas, broncas e anúncios da reunião ministerial da próxima segunda-feira. Mas será que é só isso? A inflação?

Ninguém gosta de comida mais cara e os segmentos que tiveram mais peso nos resultados preocupantes para Lula e o governo foram o Nordeste, sempre solidamente simpático ao PT, e as mulheres, que apoiaram majoritariamente Lula na eleição de 2022. O curioso é que, de acordo com o Instituto Fome Zero, os brasileiros com fome caíram de 33 milhões para 20 milhões. A comida está mais cara, mas os mais pobres estão comendo mais por causa dos programas sociais?

Maria Cristina Fernandes - A década do investimento empoçado

Valor Econômico

Dez anos depois de deflagrada a operação Lava Jato, os investimentos em infraestrutura custam a deslanchar e o aperto fiscal volta a pressionar o plano estratégico da Petrobras

O PAC, maior programa de investimentos do governo federal, está estimado em R$ 61 bilhões em 2024, enquanto as emendas parlamentares somarão R$ 53 bilhões. Esta “paridade de armas” não é o único, mas é um balanço possível da Lava Jato.

As sucessivas crises políticas nesses dez anos desde o início da operação permitiram ao Legislativo emparedar o presidente de plantão e dele arrancar a impositividade, primeiro para as emendas individuais (2015) e depois para as de bancada (2020).

Saem as grandes empreiteiras e entram empresas menores que oferecem seu CNPJ para o repasse dos recursos das emendas, sem transparência e sem constrangimentos licitatórios. Trata-se de um novo “modelo de negócios” que a procuradora do Ministério Público de Contas de São Paulo Élida Graziane vê como a principal consequência da pulverização dos investimentos públicos nas emendas parlamentares.

José de Souza Martins* - Universidade entre a cor e o saber

Valor Econômico

O uso do retrato fotográfico como prova de identidade, primeira referência para confirmar a cor na matrícula, tem origem suspeitíssima

Terminados os vestibulares, especialmente nas universidades públicas, e conhecidos os resultados, os que alegaram diferença racial ou social para lograr preferência na ocupação das vagas a eles reservadas foram às matrículas. Chegara o momento de apresentar a prova da diferença.

Quem se declarou preto e o é à luz da mera verificação visual não teve dificuldade para ter sua declaração confirmada. Não surgiram problemas com os brancos. Se originários de escola pública também têm sua cota de favorecimento, no pressuposto falso de que preto é pobre e branco é rico, de que escola pública é de pobre e escola particular é de rico. Um jogo de suposições sem fundamento objetivo.

Bernardo Mello Franco – Com a palavra, as famílias

O Globo

Victoria Grabois é filha, irmã e viúva de desaparecidos políticos. Teve a família dizimada pela ditadura na repressão à Guerrilha do Araguaia. Depois da Anistia, embrenhou-se na selva para tentar localizar o paradeiro dos corpos. Não conseguiu, mas ajudou a fundar o Grupo Tortura Nunca Mais, referência na defesa dos direitos humanos.

No início da semana, a professora se indignou ao saber que o presidente vetou um ato que lembraria os 60 anos do golpe de 1964. “Lula tem medo dos militares. Sua declaração de que não quer ‘remoer o passado’ foi um acinte com os parentes das vítimas”, protesta.

Ivo Herzog é filho do jornalista Vladimir Herzog, morto na tortura. Depois de assassinar seu pai, o regime mentiu que ele teria cometido suicídio. O caso virou símbolo dos crimes da ditadura. Mesmo assim, a família teve que esperar 38 anos até receber um atestado de óbito corrigido.

Hélio Schwartsman - Dilemas lógicos

Folha de S. Paulo

Se STF agisse com coerência na discussão das drogas, entraria em rota de colisão com o Legislativo

Num mundo em que a lógica fosse a marca do STF, uma crise entre Poderes já estaria contratada.

O Supremo está a um voto de formar maioria para declarar inconstitucional o artigo 28 da Lei Antidrogas.

O referido artigo determina as penas para a posse de entorpecentes para uso próprio. Espera-se também que a corte estabeleça marcos objetivos para distinguir usuários de traficantes.

Marcos Augusto Gonçalves - Lula barra divisionismo após Paulista e pesquisas

Folha de S. Paulo

Com mal-estar político, presidente veta ato anti-64, não quer cassação de Moro e critica pauta de costumes do STF

Nos últimos dias, o presidente Lula movimentou-se para conter a onda pró-cassação de Sergio Moro e evitar um ato planejado pelo ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida, para marcar os 60 anos do golpe de 1964. Também criticou a pauta de "costumes" do STF... Por que será?

Uma das evidências das recentes pesquisas do Quaest e Ipec é que, com queda de aprovação e alta de reprovação do governo, a divisão política voltou a se aproximar do padrão polarizado do passado recente. O país tem, de fato, assistido a uma elevação geral do tom na cena pública.

Além das apostas na divisão, do próprio Lula, no caso do Holocausto, e da cruzada revanchista contra Moro e a Lava Jato, as novas revelações sobre a trama golpista de 8/1 provocaram certa histeria nas duas pontas do espectro ideológico. Debates sobre aborto e drogas no STF também colaboram para acender a base da direita, com reflexos no Congresso —não fui eu quem o disse.

Vinicius Torres Freire - Lula e o preço da comida

Folha de S. Paulo

Governo estuda medidas para baratear alimentos, mas problema pode estar em outro lugar

O presidente da República e ministros fizeram questão de dizer nesta quinta-feira (14) que vão tomar providências a fim de diminuir o preço da comida. Tudo bem. Vai ser bom se aparecerem com medidas inteligentes e práticas.

É política básica, quando não necessária, demonstrar que o governo se ocupa de um assunto obviamente importante e que, talvez, seja um motivo da queda de popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva, mesmo que menor.

Difícil é cravar que as altas de preços do final do ano até agora sejam o motivo da piora do prestígio de Lula. Difícil também fazer algo prestante no curto prazo.

André Roncaglia* - A mão pesada do Estado é do que a Petrobras precisa agora

Folha de S. Paulo

Priorização do acionista minoritário não é cláusula pétrea da governança corporativa

A Petrobras está sob nova gestão e o mercado financeiro luta para manter sua "vaca leiteira". A decisão do Conselho de Administração da empresa de reter lucros excedentes à regra de distribuição de dividendos não tem nada de voluntarista; ao contrário, busca resgatar a capacidade de planejamento da maior empresa do Brasil.

São constrangedoras, portanto, as piruetas retóricas de comentaristas na imprensa defendendo a primazia do acionista minoritário, como se fosse uma cláusula pétrea da governança corporativa. A banda não toca mais assim... no mundo!

A governança corporativa focada no extrativismo de curto prazo (resultados trimestrais) fragilizou as economias de mercado ao encurtar o horizonte de planejamento das empresas.

Segundo William Lazonick (University of Massachusetts Lowell), tal modelo produziu concentração de riqueza, desvirtuação da gestão corporativa, aumento da insegurança operacional –como o pavoroso caso da Boeing–, atrofia do ímpeto inovativo e esmagamento da classe média, a qual perdeu os bons empregos de colarinho azul para a insaciável cultura de corte de custos.

Flávia Oliveira - Promessa de vida

O Globo

Foi a educação que nos puxou para baixo no ranking do indicador global que mistura renda, longevidade e escolaridade

O Relatório do Desenvolvimento Humano, divulgado nesta semana pelo Pnud, agência da ONU, ratificou a tragédia que o Brasil já conhecia. Foi a educação que nos puxou para baixo no ranking do indicador global que mistura renda, longevidade e escolaridade. Após quatro anos de vaivém de ministros, ataques a educadores, demolição de políticas públicas, aprendizagem diminuiu, evasão aumentou. O país que, outro dia, festejava a volta ao top ten do PIB mundial entrou em 2023 com a expectativa de anos de estudo das crianças apontando para baixo. De que vale enriquecer sem prosperar?

Na mesma semana em que a ONU lançou o documento sobre condições de vida em 193 países, Fundação Roberto Marinho e Itaú Educação e Trabalho tornaram pública a pesquisa “Juventudes fora da escola”. Realizado ao longo de 2023, o levantamento dá pistas valiosas sobre o que passa pela cabeça de moças e rapazes de 15 a 29 anos que não completaram o ensino básico e estão fora da escola.

Rogério Furquim Werneck - Discurso torto, sinais errados

O Globo

A ingerência política que o Planalto vem tentando fazer na Vale e na Petrobras exacerba incertezas na economia

Há boas razões para festejar o crescimento de 2,9% da economia no ano passado. Mas tal desempenho encerra uma fragilidade preocupante. O investimento agregado — a formação bruta de capital fixo — desabou 3% em 2023. O país investiu só 16,5% do PIB no ano passado.

Mobilizado com as eleições municipais e a cada dia mais fixado no projeto da reeleição, o governo deveria estar empenhado em reverter essa queda do investimento e transformar a formação de capital no motor da expansão da economia.

Não é o que se tem visto. De um lado, o governo optou por uma expansão desmesurada de gastos, que dará lugar a um salto de mais de 10 pontos percentuais na dívida pública como proporção do PIB. E condenará a economia a ter de continuar a conviver com taxas reais de juros muito altas, que comprometerão boa parte das oportunidades de investimento com que conta o país.

Poesia | A palavra mágica, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Teresa Cristina - Com a perna no mundo (Gonzaguinha)

 

quinta-feira, 14 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Sequestro de ônibus expõe dilemas da segurança pública

O Globo

Polícia fez trabalho exemplar, mas atirador deveria estar preso por não usar tornozeleira eletrônica

Graças à atuação exemplar da polícia, o sequestro de um ônibus na Rodoviária do Rio na terça-feira, apesar de ter deixado uma vítima em estado grave, não se tornou uma tragédia de proporções maiores. No veículo, com destino a Juiz de Fora, 16 passageiros — entre eles crianças e idosos — foram mantidos reféns durante três horas por um passageiro de 29 anos que, antes de embarcar, atirou noutro passageiro ao confundi-lo com um policial. O atirador é um criminoso condenado que, segundo a polícia, fugia do Comando Vermelho, principal facção do crime organizado no Rio. A vítima foi atingida no coração, no pulmão e no baço e, infelizmente, continuava internada nesta quarta-feira. Apenas mais um passageiro foi ferido por estilhaços.

Do início ao fim, a ação da polícia seguiu todos os protocolos recomendados. A rodoviária, por onde circulam 30 mil passageiros diariamente, foi desocupada após a chegada dos agentes, e o trânsito interrompido no entorno. Policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), a tropa de elite da PM, e de outros quartéis cercaram o terminal. Atiradores ficaram a postos em pontos estratégicos, mas não precisaram disparar.

Maria Hermínia Tavares* - Nem tudo é polarização

Folha de S. Paulo

Ideia de polarização serve antes para confundir do que para esclarecer

O trauma produzido pelo realinhamento político da centro-direita em torno da liderança extremista de Jair Bolsonaro hoje induz mais de um analista a encarar os resultados das sondagens, quaisquer que forem, pelas embaçadas lentes da polarização política.

Segundo esse enfoque, tanto a amplíssima coalizão que sustenta o governo Lula quanto a oposição bolsonarista, tidas como radicais em igual medida, aprisionaram os brasileiros em dois polos irredutíveis. A tese fraqueja diante de um governo moderado a ponto de ter José Mucio Monteiro Filho (PRD-PE) e André Fufuca (PP-MA) entre seus ministros e Rodrigo Pacheco (PSD-MG) entre seus aliados.

Luiz Carlos Azedo - Mentes naufragadas no passado e no presente

Correio Braziliense

As forças liberais não são capazes de dar respostas imediatas às demandas da sociedade, e a tendência da esquerda é retroalimentar a polarização, sem oferecer soluções novas

O espírito reacionário difere muito do conservador. Segundo o cientista político norte-americano Mark Lilla, no livro A mente Naufragada (Record), trata-se de invocar o passado para nele viver sem transformações, o que é muito diferente da atitude do conservador, que tem o passado e suas tradições como referência para agir no presente e construir o futuro.

Foi o que aconteceu entre 1918-1939, em razão da enorme frustração gerada pela carnificina da Primeira Guerra Mundial e o fracasso da ordem democrática em bases iluministas (penso, logo existo) e aristocráticas. A ordem liberal tecida na virada do século estava em contradição com o sujeito moderno da sociedade industrial, sociológico, estruturado em classes bem definidas. A rica experiência da Social-Democracia Alemã, um partido operário de orientação marxista, sucumbiu ao nacionalismo. A emergência dos partidos comunistas, após a Revolução Russa de 1917, não foi capaz de barrar a ascensão do fascismo na Itália, na Alemanha e outros países europeus.

Três pensadores do século XX destacam-se nesse período como protagonistas do pensamento reacionário: Franz Rosenzweig, Eric Voegelin e Leo Strauss. Lilla conclui que olhavam para os destroços de um passado que lhes parece ameaçado, quando já ultrapassado, e lutavam para salvá-lo, por não conseguirem se adaptar às mudanças. Por uma ironia da História, é isso que hoje faz do reacionarismo um fenômeno “moderno” e resiliente no mundo, inclusive nas grandes democracias do Ocidente.