quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Rosângela Bittar - Atrás do próprio rabo

O Estado de S. Paulo

Tanto para Lula quanto para Bolsonaro, centro é uma palavra despida de conceitos

Dois candidatos a presidente e uma ideia fixa: a utopia do centro. Bolsonaro, que se acha predestinado a manter-se no poder, por sua conta e risco; e Lula, que se imagina garfado pela História e quer reaver o lugar.

O primeiro, só pensa em golpe. O segundo, em compensação por um golpe que não houve. Impeachment não é golpe. É processo político constitucional.

Lula acredita ter direitos adquiridos depois de vencer quatro eleições presidenciais, duas para ele mesmo e duas para um poste.

Ambos dedicam-se a reconquistar os votos do centro que, um dia, acidentalmente, foram seus. Imaginem, logo os eleitores do centro! Equidistantes dos extremos que os dois, de fato, representam. Há um impasse a romper. Sozinhos, não vencem. E os votos do centro mantêm-se ainda perplexos. Preferem a alternativa de esperar que surja o seu candidato confiável.

José Augusto Guilhon Albuquerque* - Varias ambições na falta de estratégia

O Estado de S. Paulo

Centrão opera como minoria de veto, mas é incapaz de convergir sobre agendas positivas

Estamos numa democracia representativa, e o cidadão é o único portador da soberania do Estado. Melhor dizendo: ainda estamos numa democracia e o Estado de Direito funciona, mas a insegurança jurídica é a única certeza. As instituições operam de maneira disfuncional. Os privilégios e as desigualdades crescem ou se consolidam. E a autoridade do cidadão sobre seus representantes sofre a ameaça de uma reforma eleitoral que esvazia, ainda mais, o papel do eleitor. Como se não bastasse, um golpe de Estado está em andamento desde 2019, ante a omissão dos Poderes da República.

Além dos desafios sanitários, econômicos e sociais que ameaçam nossa sobrevivência como nação livre, enfrentar a ameaça golpista é a condição necessária para enfrentar as demais. Encarar tal ameaça exige definir um objetivo, isto é, enfrentar, contornar ou adaptar-se a ela. Exige, também, mobilizar recursos para atingir esse objetivo inescapável: recursos de poder, econômicos, institucionais, políticos, de capacidade de gestão pública, de liderança, etc. Ou seja, confrontar-se com uma ameaça letal implica responder a esses elementos básicos de uma estratégia.

Falta um movimento decidido das instituições e de suas lideranças para cumprir tais requisitos. Em primeiro lugar, não há convergência, nem muito menos consenso, sobre a ameaça letal à Nação provocada pelo golpe em andamento.

Para alguns, o que deve ser combatido, acima de tudo, é a ameaça de perder as eleições, como é o caso de Lula, do PT, e de parte dos partidos de esquerda – e também de Ciro Gomes e João Doria, embora não necessariamente de seus respectivos partidos. A prioridade máxima do objetivo eleitoral obriga esses candidatos a adotarem uma estratégia ambivalente em face da ameaça de golpe. Para todos eles, é vital garantir Bolsonaro nas urnas e, para isso, é preciso mantê-lo no poder.

Roberto DaMatta* - Dentro do meu coração...

O Estado de S. Paulo

“Somos sensíveis, amorosos, desagradáveis e instáveis porque (querendo ou não) temos um coração. Grande ou pequeno, generoso ou sovina, vaidoso ou humilde, duro ou mole. Quando ele para de bater é sinal de que o nosso corpo anoiteceu na profunda indiferença da morte.”

Ademais – continuou Demostenes, um amigo de infância que se recupera de um ataque cardíaco hospedado aqui em casa –, o coração é uma gaveta ou uma imensa caixa-forte guardadora de sentimentos, acontecimentos e pessoas. Sendo músculo e bomba, ele tem afinidade com os atletas e com os que jamais deixam de trabalhar. Mas, como os velhos automóveis, pode parar de funcionar.

– Olha, Roberto – continuou Demostenes com a serenidade de velho amigo –, enquanto a anestesia dopava a minha consciência, eu ouvia a minha alma e a equipe de médicos que futucava meu coração. Pensei no dentista e, surpreso, descobri que tratar de uma cárie era pior do que a viagem que os cirurgiões faziam no meu coração.

– Verdade? Ainda bem que não doeu nada – falei entre o descrente e o aliviado.

Fernando Exman - Começa a temporada de trombas d'água

Valor Econômico

Sinais em discursos e reuniões de Lula demandam atenção

No Planalto Central, a primavera chega para aliviar o irrespirável ar que caracteriza o fim do período de seca. A estiagem é brutal. Mas, acostuma-se a conviver com os baixíssimos índices de umidade. Há até quem agradeça a previsibilidade que a seca proporciona e dela se aproveite para programar os fins de semana, feriados, viagens e eventos ao ar livre, algo que fica mais difícil de se fazer com o início da estação chuvosa.

É neste momento, também, que crescem as ocorrências de trombas d’água nos rios e cachoeiras da região, arrebatador fenômeno natural que passou a ser usado por petistas para descrever o retorno do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à arena eleitoral.

Trombas d’água, como também são conhecidas as chamadas “cabeças d’água” em algumas regiões, exigem atenção. Elas costumam pegar de surpresa os mais incautos que, seguros de si, menosprezam os alertas do ambiente que os cerca.

Daniel Rittner - Onde está o Brasil nas cadeias globais de valor

Valor Econômico

País está muito mal posicionado, mas há oportunidades no ar

Na década de 1990, o comércio exterior de bens e serviços se organizou em torno das cadeias globais de valor. Trata-se de um arranjo produtivo com elevado grau de fragmentação, em que distintas atividades e etapas do processo industrial ficam espalhadas por vários países ou regiões. Cadeia de valor, em outras palavras, é o “caminho” da produção que um determinado bem percorre até chegar nas mãos do destinatário final. Esse caminho possui uma série de fases que se conectam: pesquisa e desenvolvimento, compra de insumos, fabricação, distribuição, venda, pós-venda (treinamento e manutenção).

Pegue-se o exemplo de um aparelho de telefone celular: ele pode ter seu projeto concebido no Vale do Silício, reunir peças fabricadas no Leste Europeu e baterias com lítio explorado na Bolívia, incorporar softwares desenvolvidos no Canadá e em Portugal, ser montado na China e concentrar a assistência ao cliente num call center na Índia.

Hélio Schwartsman - Encontros com a verdade

Folha de S. Paulo

Reino Unido perdeu, até o final de 2019, entre 20 bilhões e 40 bilhões de libras

Todo mundo mente um pouco, e políticos mentem mais. Mas há mentiras e mentiras. Há as, digamos, lavadas e as deslavadas. As lavadas são aquelas que o eleitor de alguma forma espera. É quase uma instituição candidatos rebuscarem o discurso sobre seus feitos pretéritos e exagerarem nas promessas de campanha. As deslavadas são mais perigosas. Elas às vezes se chocam com a realidade de uma forma que complicam o futuro do político que as proferiu.

Isso pode estar acontecendo agora no Reino Unido. Os defensores do Brexit juraram durante a campanha que o divórcio da União Europeia não apenas não lhes causaria dor como ainda lhes renderia dividendos econômicos que permitiriam investir 350 milhões de libras por semana no sistema de saúde. É claro que isso nunca foi verdade.

Vinicius Torres Freire - Gasolina para ricos, fome para os pobres

Folha de S. Paulo

Bolsonaro e Lira querem dinheiro de estados e cidades para bancar combustível

Jair Bolsonaro e Arthur Lira querem tirar dinheiro de estados e cidades para bancar também a redução do preço da gasolina de rico. Bolsonaro e Lira, o presidente da Câmara, querem diminuir o preço dos combustíveis para todo mundo por meio da redução da cobrança do ICMS, imposto estadual.

É uma mutreta que não tem sentido social, econômico ou mesmo efeito prático relevante. É uma tentativa de limpar a barra de Bolsonaro, suja também por causa da carestia dos combustíveis, em parte culpa de Bolsonaro-Guedes. O dólar por aqui foi às alturas também porque essa dupla promove baderna política e econômica. O real foi a moeda que mais se desvalorizou desde o início da epidemia, entre as 38 acompanhadas pelo FMI.

No plano Lira, a redução seria de centavos, se tanto, no caso de gasolina e diesel. Todo mundo teria direito à redução do imposto, à mesma redução do preço de gasolina e diesel, desde que consuma esses produtos ou compre bens e serviços que são afetados pelo preço dos combustíveis.

Maríliz Pereira Jorge - Bolsonaro derrete

Folha de S. Paulo

Inflação e economia minam a sua popularidade

 “A inflação está comendo a popularidade do presidente.” A avaliação é do diretor da Quaest, Felipe Nunes, sobre os resultados mais recentes de pesquisa, que vai da avaliação de Jair Bolsonaro a preferências do eleitorado para 2022.

Não por acaso, está na ordem do dia o desespero do governo em viabilizar o programa social que deve substituir o Bolsa Família e ganhar um carimbo de Bolsonaro. Tudo para tentar reverter a queda livre na qual despenca a reputação do presidente. Quanto menos favorecidos, mais críticos ao desempenho de sua gestão.

O pior resultado é entre as pessoas que ganham até dois salários mínimos. Para 58% a avaliação é negativa, 22% acham o governo regular, enquanto para 17% o saldo é positivo. A reprovação cai para 49% entre os que ganham mais de cinco salários. Nessa faixa, 26% o consideram regular e 24% têm opinião positiva.

Vera Magalhães - Desespero eleitoral inflaciona custo Bolsonaro

O Globo

Nunca houve um presidente da República que tenha provocado tantos retrocessos ao Brasil como Jair Bolsonaro nem um governo tão disfuncional quanto o seu. O fato novo a menos de um ano das eleições é que nunca existiu um candidato à reeleição com tantos flancos de exposição e tantos recordes negativos quanto ele. E isso é um fator a agravar exponencialmente o já impagável custo Bolsonaro.

Temos o primeiro presidente a buscar ser reeleito sem ter sequer um partido, que não lidera as intenções de voto, que tem o governo mais mal avaliado desde que o instituto da reeleição foi criado, que ostenta o maior índice de desempregados e que é, de todos os que disputaram novo mandato, aquele cujo governo enfrenta a maior inflação (acima dos 10% em 12 meses) um ano antes do pleito.

Saindo dos índices mensuráveis, quando se entra na seara política, o que se tem é um presidente isolado, inconfiável aos olhos das instituições, cujas decisões passaram a ser manietadas, quando não abertamente tuteladas, pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Congresso.

Bruno Boghossian - Um ministro em duplo conflito

Folha de S. Paulo

Ministro protege patrimônio no exterior enquanto pede sacrifícios no Brasil

Ainda no primeiro ano de governo, Paulo Guedes avisou que o país deveria se acostumar com um real desvalorizado. “O dólar está alto? Problema nenhum, zero”, declarou. Na ocasião, ele descrevia os efeitos de uma nova política econômica, com juros mais baixos. Agora, os brasileiros descobriram que o patrimônio do ministro cresce a cada vez que a cotação da moeda americana sobe.

Agentes públicos devem afastar situações que afetem interesses particulares porque precisam evitar que suas decisões no poder fiquem sob suspeita. Guedes pode acreditar que o dólar nas alturas favorece a dinâmica atual da economia brasileira, mas a titularidade de depósitos no exterior faz com que o ministro protagonize um conflito duplo.

Luiz Carlos Azedo - Diga ao povo que saio

Correio Braziliense

Há um rosário de decisões de Guedes que o beneficiaram financeiramente, sem que tivesse que fazer uma nova aplicação em sua conta no exterior

Tem coisas no Brasil difíceis de entender. Por exemplo: Dom Pedro I, que proclamou a Independência, é homenageado com uma das menores ruas do Centro Histórico do Rio de Janeiro, nossa capital de 1763 até 1960, quando a sede do governo foi transferida para Brasília. Começa na Praça Tiradentes, ao lado do Teatro Carlos Gomes, e termina na Rua do Senado, com 141 endereços, 112 residências, 24 estabelecimentos comerciais, três prédios inacabados e 227 moradores, com uma renda média de R$ 1,143. Dependendo do prédio, o preço de um apartamento varia de R$ 3 mil a R$ 8 mil o metro quadrado.

Como já começamos a contagem regressiva para o Bicentenário da Independência, vale o desagravo. Essa lembrança veio em razão do trocadilho do título da coluna com a decisão de Pedro I de não regressar a Lisboa, contrariando as ordens das Cortes Portuguesas, em 9 de janeiro de 1822: “Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto. Digam ao povo que fico”. O Dia do Fico, referência à frase célebre, foi uma preparação para a proclamação da Independência, em 7 de setembro de 1822.

Elio Gaspari - De Pedro II@gov para Paulo Guedes

O Globo / Folha de S. Paulo

Senhor ministro,

De cá onde estou, há tempo o Barão de Mauá me mostrava assombrado vossas contas no “Encouraçado Internacional”, naquela possessão inglesa que hoje vocês chamam de paraíso fiscal. Como não podemos tratar com o que sabemos, só agora lhe falo. Repito o que disse aos oficiais que me escoltaram para o exílio em novembro de 1889: “Os senhores são uns doidos”.

Outro dia escrevi ao doutor Fábio Jatene, a quem vocês trataram como doido quando ele apontou para a gravidade da epidemia. Agora, escrevo-lhe para pedir-vos que atentem para a necessidade dos exemplos. O doutor Getúlio Vargas e o marechal Castello Branco pediram-me que o fizesse. Eles governaram o Brasil sem fortuna. Vosmicê a fez antes de ir para o ministério, sem se meter em traquinadas. Vosso problema é de outra ordem. Já chamou os miseráveis de invisíveis, reclamou das empregadas que vão à Disney e dos filhos de porteiros que chegam à universidade.

Cristovam Buarque* - Paulo Freire, hoje

Correio Braziliense

São raros os pensadores cujas obras atravessam o tempo: Paulo Freire é um desses. Por isso, estamos comemorando seu centenário. Eles têm em comum o fato de mostrarem o mundo de uma maneira diferente de como ele aparecia antes. Como Copérnico, que mostrou que a Terra girava ao redor do Sol, o que parecia impossível à época. Com ineditismo, Paulo Freire mostrou que a educação não se faz apenas do professor para o aluno, mas em uma interação entre eles e as coisas que os rodeiam. A partir dessa visão, revolucionou a maneira de alfabetizar os adultos. 

No lugar dos velhos métodos de ensiná-los como se faz com crianças, ele formulou o seu método: substituir o professor que chega com a cartilha pronta, por uma construída depois de pesquisa, identificando palavras que o aluno usa no seu dia a dia. No lugar de u-v-a igual a uva, m-a-n-g-a igual a manga, no lugar de n-e-v-e igual a neve, usar f-o-m-e como fome. Essa mudança simples, que hoje parece óbvia, representou uma mutação epistemológica, característica de um gênio. Paulo Freire deu o toque de mudança para explicar o mundo e dizer como transformá-lo. 

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Divisão na oposição a Bolsonaro terá consequência na urna em 2022

O Globo

Faltando um ano para as eleições em que 145 milhões de brasileiros irão às urnas escolher presidente, governadores, senadores e deputados federais, estaduais e distritais, as forças políticas contrárias ao presidente Jair Bolsonaro seguem divididas. No último sábado, em ato contra o governo organizado pelo PT e por outras siglas de esquerda, 71% dos 662 entrevistados na Avenida Paulista pelo Monitor do Debate Político no Meio Digital, da USP, afirmaram que jamais participariam de manifestação com o Movimento Brasil Livre (MBL), organizador dos protestos contra Bolsonaro no dia 12 de setembro. Metade dos entrevistados disse o mesmo sobre o DEM, 42% a respeito do PSDB e 24% do PDT.

O pré-candidato pedetista, Ciro Gomes, chegou a ser agredido na manifestação. Atiraram uma garrafa na direção dele e arremessaram pedaços de madeira no carro que o transportava. A reação da liderança petista foi lastimável. Depois que Ciro propôs uma “trégua de Natal” na esquerda, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, tentou culpar a vítima pelas agressões. “Até agora é ele quem tem atacado a gente”, disse. Só depois acrescentou que “o PT nunca estimulou” a violência.

A manifestação se tornou um ensaio da campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A estratégia petista para 2022 depende do isolamento tanto de Ciro quanto dos partidos da centro-direita antibolsonarista. Não é à toa que, entre os entrevistados, 43% afirmaram que esquerda e direita deveriam fazer manifestações separadas.

Em pesquisa na manifestação da centro-direita em setembro, 78% disseram que direita e esquerda deveriam fazer protestos conjuntos. A rejeição à aproximação foi menor: 38% disseram que não participariam de protestos com o PT, 33% com a CUT e o mesmo percentual com o MTST. Novamente, isso reflete a estratégia dos candidatos associados à terceira via entre Lula e Bolsonaro, que só têm chance se promoverem uma união que ultrapasse o próprio círculo político. Não é casual que, no ato da centro-direita, 85% tenham dito ser necessária uma ampla aliança para o impeachment de Bolsonaro, ante 66% no da esquerda.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal,
senão rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e
uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

Música | Leila Pinheiro, Guinga - Navio Negreiro (Aldir Blanc Inédito)

 

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Luiz Fux* - O único caminho

O Globo

Brasília, 5 de outubro de 1988. Os relógios marcavam 15h50 quando o plenário da Câmara dos Deputados reverberou o desejo de mudança que ecoava nas ruas do país. Nascia a Constituição Cidadã, fruto do trabalho intenso da Assembleia Nacional Constituinte, com a ampla colaboração de cidadãos, entidades representativas, agentes políticos e movimentos sociais.

Em seus 245 artigos, a Carta Maior inaugurou um novo capítulo da história brasileira, concretizando um pacto nacional pela liberdade e pela igualdade de oportunidades, num ambiente sedimentado por valores republicanos e democráticos. O texto constitucional incorporou um catálogo monumental de direitos humanos, modernizou o Estado e dinamizou a economia, direcionando o país rumo ao desenvolvimento sem se descuidar do combate ao patrimonialismo e à corrupção, da erradicação da miséria e da redução das desigualdades sociais.

Esse novo Brasil elegeu a Constituição de 1988 como a principal porta-voz da soberania popular e se comprometeu com as liberdades públicas de expressão, de crença, de empreendimento econômico e de manifestações artísticas e científicas, duramente conquistadas ao longo de nossa história.

Na data de hoje, celebramos 33 anos da promulgação da Constituição. Daquela tarde até hoje, não percorremos um caminho fácil. Dois impeachments, inúmeros escândalos de corrupção estrutural e severas crises econômicas e políticas, entre outras instabilidades, testaram nosso projeto de nação. Mais recentemente, as instituições vêm atravessando o mais severo teste de resiliência e de confiança desde a redemocratização, intensificado por uma pandemia mundial que tem ceifado vidas e desafiado a economia com desemprego e inflação.

Merval Pereira - Missão: redução da desigualdade

O Globo

Recentemente, a propósito da tentativa de aprovar a volta dos jogos de azar no país, petistas denunciaram que o sonho de Bolsonaro é transformar o Brasil numa Cuba da época do ditador Fulgencio Batista, um cassino onde os americanos iam se divertir. Os bolsonaristas há muito atacam o PT afirmando que o ex-presidente Lula pretende transformar o Brasil numa ditadura como a cubana, regime apoiado pelo petismo.

O paralelo cruzado reflete bem a polarização que já está marcando a campanha presidencial antecipada do ano que vem e escancara o caminho que existe para uma candidatura de terceira via que tenha um projeto para o país que não seja nem tanto ao mar, nem tanto à terra. O grande problema do mundo atualmente é a desigualdade de renda, que sempre esteve presente, mas ganhou dimensão planetária nos últimos anos, especialmente em países periféricos como o Brasil.

Não apenas no Brasil, a relação entre democracia e capitalismo já não é mais tão absoluta quanto foi nos últimos anos do século passado. Buscam-se modelos para aperfeiçoar a democracia representativa, que tem como um dos pilares a ideia de “uma pessoa, um voto”, criticada na China, pois não levaria às escolhas mais corretas, muito sujeitas a pressões financeiras.

Luiz Gonzaga Belluzzo* - O pensamento (conservador) antiliberal

Valor Econômico

É assustadora a indigência cultural dos que se vêem acima dos cidadãos livres e iguais em sua diversidade

Instigado (ou provocado?) pelo avanço do pensamento conservador no Brasil e no mundo, cuidei de me entregar à releitura do livro de Karl Mannheim sobre o tema. “O Pensamento Conservador” é mais uma obra que enriquece os estudos do grande sociólogo, considerado o patrono da sociologia do conhecimento. Os leitores devem saber que ele escreveu um livro fundador - “Ideologia e Utopia” - para o desvendamento das raízes sociais e culturais do pensamento nos mundos da modernidade.

Mannheim morreu em 1947 aos 55 anos, na aurora do período mais glorioso e igualitário do capitalismo na Europa e nos Estados Unidos. Entre outras obras, escreveu os clássicos “Ideologia e Utopia” e “Ensaios Sobre a Sociologia da Cultura”. No livro “Liberdade, Poder e Planejamento Democrático”, publicado postumamente, cuidou do papel da educação no fortalecimento das democracias que acordavam dos pesadelos totalitários dos anos 1930.

Mannheim acolhe a ideia de Ortega y Gasset sobre o homem educado: aquele que se distingue pelo conhecimento das filosofias que regem sua época. Isso deveria ser complementado, diz ele, por um conhecimento dos fatos que permitam a todos formar ideias sólidas acerca do lugar do homem na natureza e na sociedade. Cabe à educação examinar os problemas de nossa sociedade, especialmente aqueles relacionados com a vida democrática. Uma vez tratadas essas questões fundamentais para o homem moderno, o estudante vai encontrar o lugar adequado para a boa formação profissional.

Ainda no livro “Liberdade, Poder e Planejamento Democrático”, Mannheim escreveu: “... não devemos restringir o nosso conceito de poder ao poder político. Trataremos do poder econômico e administrativo, assim como do poder de persuasão que se manifesta através da religião, da educação e dos meios de comunicação de massa, tais como a imprensa, o cinema e a radiodifusão”. Para Mannheim, deve-se temer menos os governos, que podemos controlar e substituir, e muito mais os poderes que exercem sua influência no “interior” das sociedades.

Luiz Carlos Azedo - “Já ganhou” preocupa Lula

Correio Braziliense

Devido ao peso do Estado e à capacidade de influência política da máquina do governo, o petista avalia que Bolsonaro ainda não estaria fora da disputa

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está em Brasília para conversar com todo mundo, ou melhor, “com quem queira conversar com ele”, destaca o deputado Carlos Zaratinni (PT-SP), que ontem participou da conversa do líder petista com as bancadas de deputados e senadores da legenda. Acompanhado da presidente do PT, Gleisi Hoffmann, Lula também se encontrou com os governadores do PT no Nordeste: Camilo Santana (Ceará), Fátima Bezerra (Rio Grande do Norte), Rui Costa (Bahia) e Wellington Dias (Piauí). Também estiveram na reunião a vice-governadora do Sergipe, Eliane Aquino, e o senador Jaques Wagner (PT-BA).

Domingo à noite, Lula teve um encontro com o governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), acompanhado do senador Humberto Costa (PT-PE), em mais um passo para consolidar a aliança com o PSB, cujas negociações estão muito adiantadas. Esqueçam o apoio dos caciques do MDB ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Amanhã, Lula jantará na casa do ex-senador Eunício de Oliveira (CE) com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, o ex-presidente José Sarney, os senadores Renan Calheiros (MDB-AL) e Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB), e os ex-senadores Edison Lobão (MDB-MA) e Romero Jucá (MDB-RR).

Na conversa de ontem com os parlamentares petistas, Lula traçou a linha de suas conversas. Primeiro, não existe “já ganhou”. Devido ao peso do Estado e à capacidade de influência política da máquina do governo, avalia que o presidente Jair Bolsonaro ainda não estaria fora da disputa — pode se recuperar e se reeleger. Obviamente, o petista faz essa avaliação olhando para o final do seu primeiro mandato, quando teve dificuldades para se reeleger em razão dos escândalos do mensalão e dos dólares na cueca de um petista, às vésperas do primeiro turno. Em 2006, teve que disputar o segundo turno com o tucano Geraldo Alckmin.

Eliane Cantanhêde - Rejeição e desconfiança

O Estado de S. Paulo

Tudo é incerto em 2022, porque a maioria do Brasil é de desinteressados e/ou indecisos

O desconhecido empresário Romeu Zema virou governador de Minas, um dos três principais Estados do País, em quatro dias. Com 43% de indecisos, o eleitorado rejeitava tanto Antonio Anastasia, por representar o PSDB de Aécio Neves, quanto Fernando Pimentel, que concorria à reeleição pelo também vulnerável PT. Os indecisos descobriram Zema, do Novo, num debate na terçafeira anterior às urnas. De quarta a domingo, ele disparou de 5% para 41% e venceu a eleição.

Se Romeu Zema é ou não um bom governador, e a quantas andam sua gestão e aprovação, são outros 500, mas os tucanos usam essa história de 2018 para defender com unhas e dentes que uma “terceira via” entre o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Lula é não apenas possível como bastante provável, com muita chance de chegar ao segundo turno e vencer. Até por isso Lula corre atrás de MDB, PSD, PP e PSB.

Andrea Jubé - Lula veta “salto alto” no PT e cobra diálogo

Valor Econômico

Pacheco usa tom eleitoral em ato com MDB e Caiado

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva estava bem humorado ontem na reunião com deputados e senadores no salão de um hotel em Brasília. Na fala de abertura do encontro, relembrou os tempos em que era presidente da República e se deparava no dia seguinte com bastidores do governo, que eram de conhecimento de um grupo restrito de auxiliares, estampados nos jornais.

Lula questionava os auxiliares sobre o responsável pelos vazamentos à imprensa. Ao fim, dizia em tom de pilhéria que o tagarela só poderia ser o “anão embaixo da mesa”. A galhofa virou piada interna do PT.

Ontem, segundo relato de um dos presentes à coluna, o ex-presidente comentou, irônico, que a imprensa já publicou pelo menos 13 nomes de candidatos que ocupariam a vaga de vice em chapa encabeçada por ele. Nesse momento, citou matéria deste Valor, que informou a criação de um gabinete informal para assessorá-lo na pré-campanha. “Também já tenho não sei quantos coordenadores”, provocou, culpando de novo o “anão embaixo da mesa” pela informação.

Lula está bem disposto, de humor leve, mas “consciente da realidade”, disse à coluna o governador do Piauí, Wellington Dias, que se reuniu com ele na véspera do encontro com as bancadas federais.

Carlos Andreazza - Ministro da Economia do Cazaquistão

O Globo

Não terá sido de propósito. Nem Paulo Guedes, um visionário, enxergaria tão longe. Sua offshore foi constituída em 2014 e abastecida entre aquele ano e o seguinte. Investidor privado, decerto pretendia proteger parte de seus dinheiros da economia brasileira sob a gestão de Dilma Rousseff. Deu certo. O tempo passaria. E a empresa nas Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal, continuaria dando certo: hoje servindo a que o ora ministro — não terá sido de propósito — proteja alguns de seus milhões de si próprio. Homem de sorte.

Sorte à parte, esse é o aspecto imoral da história: que o ministro da Economia — o fiador da bagaça, um estelionato eleitoral — tenha uma porção de seu patrimônio a salvo dos efeitos do governo fiado, o de Jair Bolsonaro. O sujeito serve a um populista-autocrático que é o centro gerador constante de instabilidades que minimiza e chama de “barulho”, mas tem uma fortuna isenta dos produtos da imprevisibilidade do chefe (e, claro, da mordida do Leão).

Não terá sido de propósito. Os dinheiros estavam lá; e lá ficaram. Ficaram, como por inércia, até que tivéssemos — não terá sido de propósito — um ministro da Economia com grana em offshore. (Tudo declarado.)

Essa imoralidade não é pouca coisa. Guedes vendeu a união entre conservadores e liberais como o casamento, afinal, da ordem com o progresso. Ele, liberal reformista, domaria a natureza beligerante de Bolsonaro, líder corporativista que erguera empresa familiar dentro do Estado. Com dinheiros tantos fora do Brasil, mesmo ante a inauguração da nova era, não estarão errados os que identificarem na inércia do ministro a admissão de que não seria tão fácil quanto apregoara.

Míriam Leitão - Tremores externos e dúvidas internas

O Globo

O mercado ontem teve mais um dia de quedas de bolsa, temores de crises de energia na Europa, problemas nas empresas chinesas e dúvidas sobre as contas públicas brasileiros. O dólar subiu, o Ibovespa caiu, e o risco-país atingiu no ano uma alta de 41%. Foi dia de queda da Nasdaq, da bolsa de Nova York também. A Opep anunciou que não vai aumentar a produção, e na China outra empresa imobiliária não conseguiu pagar suas dívidas. Nesse ambiente, as informações sobre empresas offshore do ministro da Economia e do presidente do Banco Central pioraram o humor.

A pessoa pública precisa dar todas as explicações possíveis diante da dúvida sobre cada um dos seus atos e, no caso, seus investimentos. É o ônus espinhoso da função pública. Se o dinheiro tiver origem definida, for declarado à Receita e ao Banco Central, não é crime ter uma empresa em paraíso fiscal, como têm o ministro Paulo Guedes e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Isso é consenso entre economistas, tributaristas e advogados que ouvimos. Não há ilegalidade. Mas no Brasil nunca foi bem visto ter conta, e muito menos empresa, no exterior e em paraísos fiscais. Foi assim que muito dinheiro desviado foi escondido, por isso seria necessário ter tido mais transparência desde o começo.

Luiz Schymura* - A persistência da taxa de desemprego em dois dígitos

Valor Econômico

Difícil imaginar que índice vai ficar abaixo de 10% antes de 2026

O novo coronavírus aterrissou no Brasil em um momento particularmente ruim para o trabalhador. O país havia sido abalado pela forte recessão de 2014-2016 e tentava ainda tropegamente retornar à realidade do mercado de trabalho pré-crise. Diante dos estragos da pandemia, os cenários traçados para o retorno ao padrão de empregabilidade anterior a 2015 não estão nada animadores. Essa constatação tem implicações importantes para as eleições de 2022 e para a política econômica a ser conduzida até lá, assim como para o próximo governo a partir de 2023.

A taxa de desemprego do Brasil era relativamente baixa na década de 80 e início dos anos 90, com uma média de 5% entre 1981 e 1994. O indicador subiu para uma média de 9,3% entre 1995 e 2014. Com a crise econômica, a taxa de desemprego média cresceu para 11,4%, entre 2014 e 2019.

Hélio Schwartsman - A era das identidades

Folha de S. Paulo

É preciso que as más ideias sejam discutidas para que as boas possam triunfar

O identitarismo que parece ter-se assenhorado de nossa época, em especial do pensamento de esquerda, tem dois problemas, um de conteúdo e outro de método. Comecemos pelo conteúdo.

A esquerda tradicional cerrava fileiras no universalismo. A igualdade de direitos derivava da humanidade comum, não de características de grupos como negros, mulheres, homossexuais. Não se contesta que essas minorias sofram mais discriminação, o que justificaria priorizar suas demandas. A questão é que o tipo de discurso que se adota faz diferença. Enquanto a esquerda clássica inscrevia o fim da discriminação no contexto de um movimento de emancipação que beneficiaria a todos, a política identitária ressalta as diferenças entre as pessoas sem apontar nada de universal.

Joel Pinheiro da Fonseca – A sombra dos Anjos Tronchos

Folha de S. Paulo

Redes sociais nos deixaram mais do que nunca à mercê de podres poderes

Enquanto escrevo esta coluna, as redes e serviços do grupo Facebook (o próprio Face, o Instagram e o WhatsApp) voltam aos poucos a funcionar, após quase seis horas fora do ar.

Parece que a coisa foi grave. A queda simultânea das três plataformas é mais um alerta do perigo da concentração de mercado. Se Instagram, Facebook e Whatsapp não fossem do mesmo grupo, não teriam todos caído ao mesmo tempo. Mark Zuckerberg, assim como outros donos de redes e plataformas, tem poder demais nas mãos; e, quando falha, nos deixa na mão.

“Anjos Tronchos” é o nome que Caetano Veloso dá aos chefões do Vale do Silício em sua nova canção, cujos versos expõem diversas facetas do impacto das redes sociais no mundo, nem sempre para o bem. Explorando a fragilidade de nossos neurônios com o poder dos algoritmos, somos viciados e comercializados para o acúmulo de seus “mi, bi, trilhões”.

Paulo Hartung* - A última chance de frear a mudança do clima

O Estado de S. Paulo

Não superaremos os desafios globais sem que o Brasil seja parte da solução

A emergência climática é um dos maiores desafios que a humanidade enfrenta. Uma batalha que extrapolou a dimensão ambiental e tem causado danos profundos em todo o mundo, especialmente aos mais vulneráveis, e compromete de forma indelével o horizonte do planeta. O modo irracional de lidar com a natureza durante anos chegou a níveis tão graves que elevou a intensidade dos eventos climáticos extremos, como ciclones e ondas de calor, secas e inundações.

O sexto relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês) reflete a insuficiência da reação global e conclui: a humanidade tem provocado o aquecimento do planeta a taxas sem precedentes. Em todas as esferas da vida observamos sinais do desequilíbrio daí resultante.

Zuenir Ventura - Lição aos homofóbicos

O Globo

Num país campeão em assassinatos de homossexuais, em que o presidente da República já declarou ter “imunidade para afirmar que sou homofóbico, sim, com muito orgulho”, o momento mais emocionante e exemplar da CPI da Covid, que está chegando ao fim, foi o que confrontou a dignidade de um senador, o primeiro assumidamente gay, Fabiano Contarato, com o obscurantismo de um empresário homofóbico e, claro, bolsonarista, Otávio Fakhoury, apontado por membros da comissão como um dos principais financiadores de uma rede de disseminação de mentiras de apoio a atos antidemocráticos durante a pandemia.

Fakhoury também confirmou que pagou material de campanha do presidente Jair Bolsonaro sem declarar os gastos à Justiça Eleitoral. Durante as investigações, a Polícia Federal descobriu que o empresário, presidente do PTB de São Paulo, bancou R$ 50 mil.

Sentado simbolicamente na cadeira de presidente que o senador Omar Aziz fez questão de lhe ceder, com o dedo em riste e cara a cara, Contarato disse em tom de desafio ao empresário que o ofendera com deboches grosseiros nas redes sociais:

5/10/1988 - Discurso de Ulisses Guimarães na Constituinte

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Exploração de óleo não pode pôr santuários em risco

O Globo

Os cenários paradisíacos de Fernando de Noronha e do Atol das Rocas estão sob risco. Apesar dos reiterados apelos de ambientalistas, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) decidiu manter, no leilão marcado para quinta-feira, blocos de exploração de óleo e gás em regiões próximas aos dois santuários, ambos entre os mais importantes do ecossistema de recifes no Brasil. A 17ª rodada de concessão, que oferecerá 92 blocos em diversas regiões, inclui áreas da Bacia Potiguar a cerca de 370 quilômetros do Parque Marinho de Fernando de Noronha e a 260 quilômetros da Reserva Biológica do Atol das Rocas.

O alerta sobre o desatino vem de dentro do próprio governo. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) publicou nota técnica na página da ANP afirmando que a decisão é temerária, “considerando a propagação por longas distâncias de ondas sísmicas, a grande mobilidade de algumas espécies marinhas, a ação das correntes marítimas sobre a propagação do óleo e o histórico de invasão de espécies às atividades de exploração de petróleo e gás”.

O Tribunal de Contas da União (TCU) apontou fragilidades na análise ambiental do leilão e recomendou ao Ministério de Minas e Energia o aperfeiçoamento para futuros certames, que devem ter “dados primários dotados de melhor qualidade e robustez técnica”. Só faltou combinar com o imponderável.

Poesia | João Cabral de Melo Neto - Catar feijão

Catar feijão se limita com escrever:
Jogam-se os grãos na água do alguidar
E as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo;
pois catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

Ora, nesse catar feijão entra um risco,
o de que, entre os grãos pesados, entre
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com risco.


Música | João Bosco - Agora eu sou diretoria (Do álbum "Aldir Blanc Inédito")

 

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Fernando Gabeira - Mil dias de assombração

O Globo

O governo Bolsonaro comemora mil dias. Já escrevi e falei sobre o tema, analisando a trajetória política desse experimento. Mas ainda não parei para me perguntar como foi possível manter, ainda que de forma precária, a sanidade mental neste país enlouquecido.

Jamais poderia imaginar um governo tão singular como o de Bolsonaro, no qual crimes e trapalhadas se entrelaçam de tal maneira, tragicômico. Quando comecei a entender de política, o confronto esquerda-direita tinha outros contornos. Nosso bairro proletário era getulista. A simpatia juvenil estava ao lado dos vizinhos. Mas havia gente como meu pai, que votava no brigadeiro Eduardo Gomes.

A encarnação da direita naqueles anos tinha outro perfil. Votem no brigadeiro, diziam as mulheres que o apoiavam, ele é bonito e é solteiro. Até um doce foi criado em homenagem a ele.

Quando Bolsonaro postou aquela famosa cena de golden shower, perguntando do que se tratava, percebi que estávamos num outro momento histórico. A clássica e austera direita dava margem a um sensacionalismo radiofônico que, sob a máscara de moralidade, usava as cenas de crime e sexo para garantir audiência.

Quando o então secretário de Cultura, Roberto Alvim, fez um discurso imitando o líder nazista Joseph Goebbels, dizendo que a arte brasileira seria heroica e imperativa, percebi também um novo tom.

Carlos Pereira - Conversão moral importa?

O Estado de S. Paulo

Democracia não requer governantes com ela comprometidos

Mesmo diante do mais acachapante “ato de contrição” do presidente Jair Bolsonaro, com a sua “declaração à nação”, como uma tentativa de se redimir dos ataques feitos a ministros da Suprema Corte e de ameaças de não cumprimento das suas decisões, muitos têm vaticinado que a “conversão” do presidente aos ritos, procedimentos e liturgias da democracia não seria sustentável. Acreditam que é só uma questão de tempo para que a dissimulação de Bolsonaro fique estampada e que a democracia brasileira venha finalmente a sucumbir.

Vaticínio semelhante tem sido feito por alguns analistas, tais como Robert Kagan (The Washington Post), Martin Wolf (Financial Times) ou David Frum (The Atlantic), em relação aos riscos que a democracia americana estaria correndo diante de um possível retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos em 2024. Argumentam que, diante da baixa performance do governo Joe Biden, com sua popularidade diminuindo, abrir-se-ia caminho para que o ex-presidente retornasse a Casa Branca, o que, para esses analistas, necessariamente acarretaria uma crise da democracia liberal americana que eventualmente evoluiria para o seu colapso.

Demétrio Magnoli - Merkel, a chanceler minimalista

O Globo

No seu longo adeus, Angela Merkel pode ainda se tornar a mais longeva chanceler da Alemanha republicana, ultrapassando seu mentor Helmut Kohl. Mas, ao contrário de Kohl e de outros dois icônicos primeiros-ministros do pós-guerra, Merkel não deixa um legado óbvio, compacto, sintetizável numa única pincelada.

O democrata-cristão Konrad Adenauer (1949-63), arquiteto e primeiro chanceler da RFA, fundou a Alemanha moderna, atlanticista e europeia. A Otan — o alinhamento geopolítico com os EUA — e o projeto da Comunidade Europeia — a parceria estratégica com a França — são seus legados.

Willy Brandt (1969-74) reinventou a social-democracia alemã, inscrevendo o antigo partido de Karl Marx na moldura do Ocidente da Guerra Fria, uma obra completada por seu sucessor, Helmut Schmidt. Além disso, num lance de gênio, fissurou a armadura ideológica da Alemanha Oriental com sua Ostpolitik, a política de abertura para o Leste, lançando a semente da reunificação.

Mirtes Cordeiro* - Os idosos dos tempos de agora

Falou e Disse

Cada vez fica mais distante a ideia das pessoas idosas em casa, sentadas em suas cadeiras à espera de ajuda dos familiares, ou acomodadas com os problemas impostos pela vida.

O mês de outubro teve início com a comemoração pelo Dia Internacional da Pessoa Idosa. A data foi instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1991, e serve como um alerta para a sociedade civil sobre a necessidade de proteção e de cuidados com os idosos.

De repente, me descobri uma pessoa idosa. Aconteceu quando decidi parar de trabalhar, após viver e trabalhar durante 72 anos.

A vida é assim; a gente nasce, cresce, passa por vários momentos carregados de felicidade, amor, afeto, desilusão, angústia, satisfação e segue em busca de algo a cada dia, sempre o que consideramos melhor e possível para nós e para o outro. Sim, porque no trajeto a gente vai agregando maridos ou companheiros, filhos, amigos, os amigos dos amigos, a vizinhança, os gatos e os cachorros… tive vários.

No entanto, é o trabalho que marca a vida desde cedo. Primeiro pela necessidade de sobrevivência, mas também porque o trabalho exerce um papel fundamental na vida do ser humano na relação com a natureza e através das relações, nós, homens e mulheres, transformando as nossas vidas e nossas consciências pelo exercício da criatividade, da inteligência, em magia da utopia, o “lugar” ideal que não é o agora, na concepção grega da palavra.