sexta-feira, 7 de abril de 2023

Ruy Castro - Ele nos ensinou a odiar

Folha de S. Paulo

A bala tornou-se um meio de expressão e, à falta dela, o porrete, o punhal ou a machadinha

Em minha última coluna, escrevi que Bolsonaro corrompeu, estuprou e prostituiu instituições civis e militares. Faltou espaço para acrescentar o que já me passava pela cabeça e que, poucas horas depois, a tragédia de Blumenau —crianças assassinadas a machadadas numa creche— viria confirmar: o embrutecimento e a desumanidade que ele nos legou. Bolsonaro conseguiu acrescentar um fator novo à violência a que já estávamos habituados. Acrescentou o ódio.

Hélio Schwartsman - Quando não ser não basta

Folha de S. Paulo

Lula precisa fazer mais do que não ser Bolsonaro

Com pouco mais de três meses de existência, já deu para sentir um gostinho de como será o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Comecemos pelos aspectos positivos. Lula trouxe de volta à Presidência um pouco de normalidade. Não temos mais um mandatário que debocha das vítimas da Covid-19 ou que governa pela sabotagem, editando decretos e portarias que erodem as leis que deveriam regulamentar e nomeando desqualificados ou mesmo infiltrados para dirigir órgãos com cuja missão não concorda.

Mais do que isso, foi bom ver o governo federal finalmente agindo para retirar os garimpeiros ilegais de territórios indígenas e enfatizando a importância de políticas públicas básicas, como a vacinação. Lula não é Bolsonaro, e isso é ótimo. Convenhamos, porém, que não ser Bolsonaro é a parte fácil. Infelizmente, não basta para credenciar Lula, à frente de seu terceiro mandato, como um bom presidente.

Reinaldo Azevedo - Cem dias de governo para gregos e baianos

Folha de S. Paulo

Foi preciso voltar para o futuro para propor novo arcabouço fiscal

Na segunda (10), o governo Lula faz cem dias. Operou um retorno para o futuro. Foi preciso reconstruir o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida, o Mais Médicos, o Programa de Aquisição de Alimentos, o diálogo com a China, a política ambiental, as relações exteriores... "É pouco; tudo coisa velha". Não tenho contra-argumento para o que nem errado consegue ser. Como na conhecida piada, é impossível jogar xadrez com pombo.

A 26 de março de 2019, escrevi aqui um texto sobre o terceiro mês de governo Bolsonaro. Doze dias antes, o ministro Dias Toffoli, então presidente do STF, abrira de ofício o inquérito 4.781, o tal das "fake news", com relatoria de Alexandre de Moraes. As milícias digitais já haviam transformado o tribunal no seu alvo principal. Os dois apanharam uma barbaridade da e na imprensa. Defendi de pronto a estrita legalidade daquela decisão, a primeira de uma série, nos limites da competência da Corte, que concorreram para preservar o estado de direito. As antenas do jornalismo falharam miseravelmente nesse caso.

Exatamente dois meses depois daquela coluna, acontecia o primeiro ato golpista, com patrocínio do Planalto. E a canalha não parou mais. Até resultar no 8 de janeiro de 2023. O mal-estar continua entre nós e mata crianças. Maus contadores da história gostam de acusar o Supremo de ter esticado a corda, o que teria levado o então presidente à radicalização. Mito. A escalada fascistoide começou já nos dois discursos de posse. Ele não precisava de motivos, só de pretextos.

Bruno Boghossian - Lula e o fantasma da naftalina

Folha de S. Paulo

Lula não economizou na veemência ao antecipar seu balanço dos primeiros cem dias de seu mandato. Antes de ouvir qualquer pergunta no café com jornalistas desta quinta (6), ele disse estar "muito, mas muito, muito, muito satisfeito" com os resultados do governo até aqui. Ainda assim, o presidente não escondeu um receio que ronda o Planalto.

O governo quer enfrentar o fantasma da naftalina. Embora avaliem que o resgate de programas como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida foi bem-sucedido, petistas temem que a largada do governo tenha uma cara antiga e desperte uma impaciência precoce no eleitorado.

O próprio Lula encarou o dilema. Ao falar da retomada de "políticas sociais que deram certo nesse país", o presidente reconheceu que "elas ainda não estão surtindo o efeito necessário" e falou em olhar para o futuro. O ministro Paulo Pimenta (Secretaria de Comunicação) avisou que "devolver direitos" era apenas a primeira etapa do novo governo.

Bernardo Mello Franco – De volta ao palco

O Globo

Em janeiro de 2005, Lula se definiu como “o maior vendedor de otimismo já visto neste país”. A economia crescia em ritmo acelerado, e o governo ainda não havia enfrentado a crise do mensalão. Dezoito anos depois, o presidente tenta recuperar a aura de confiança do primeiro mandato. Mas parece estar menos à vontade no velho figurino.

Diante de uma plateia de jornalistas, o petista procurou se dizer ontem “mais do que satisfeito” com o início do novo governo. “Estou convencido de que vamos consertar o país”, garantiu, alternando promessas e elogios à própria equipe.

À medida que a conversa avançou, o presidente começou a se queixar das dificuldades. Reclamou da taxa de juros, criticou o legado do antecessor e admitiu que ainda não sabe se conseguirá aprovar sua agenda no Congresso. “É muito difícil pensar num sistema de coalizão política com a quantidade de partidos que nós temos. Com 30 partidos, é muito complicado”, desabafou.

Lula fez um apelo para que os presidentes da Câmara e do Senado encerrem a disputa de poder que trava a votação de medidas provisórias. O impasse se arrasta desde fevereiro e ameaça demolir a arquitetura da nova gestão. “Tenho certeza que os dois vão se colocar de acordo”, disse o petista. “O país não pode ficar parado”, suplicou.

Vera Magalhães – Futuro de Lula depende de BC e Congresso

O Globo

Em café da manhã com jornalistas, presidente demonstra incômodo com entraves para colocar em marcha projeto de Estado como indutor do crescimento

No café da manhã com jornalistas para marcar os primeiros 100 dias de seu terceiro mandato, Lula disse que a próxima obsessão da gestão, tão logo ele volte da China, será em colocar em marcha um ambicioso programa de crédito para destravar o crescimento econômico. Todas as falas do presidente, no entanto, demonstram que ele tem consciência de como a taxa de juros e a inflação ainda não domada são fatores que podem impedir a concretização dessa promessa.

O desconforto reiterado com o Banco Central e o ruído causado pela declaração a respeito da possibilidade de rever as metas de inflação para propiciar a queda de juros vêm dessa constatação.

Não é o BC o único obstáculo para que Lula possa, de fato, deixar de olhar para o passado — tanto para as realizações de seus governos anteriores quanto para os embates com Jair Bolsonaro e Sérgio Moro — e passar a falar apenas de futuro e de novas ideias para o Brasil. O Congresso também é um fator de incerteza quanto ao apoio de que o petista dispõe para descortinar esse tal futuro, sobre o qual o próprio governo demonstra não ter total clareza.

Ao flertar com a ideia de que o governo possa vir a propor o aumento da meta de inflação na próxima reunião do Conselho Monetário Nacional, Lula acaba criando mais ruído e dificultando que a inflação caminhe para algo mais próximo da meta. Fernando Haddad e Simone Tebet trabalham para fechar o texto do arcabouço fiscal e mandá-lo para o Congresso.

Luiz Carlos Azedo - O velho Churchill inspira Alexandre de Moraes

Correio Braziliense

Todos os envolvidos nos atos de vandalismo de 8 de janeiro serão investigados e, se responsabilizados, devidamente punidos, por vandalismo, instigação ou conivência com o golpismo

Cinco Dias Em Londres (Jorge Zahar Editor), de John Lukacs, narra os bastidores do governo britânico entre 24 e 28 de maio de 1940, dias que decidiram o destino da Inglaterra e a sorte dos Aliados na Segunda Guerra Mundial. No decorrer da crise política que se instalou no gabinete do ministro Neville Chamberlain, sob a liderança de Winston Churchill, o Gabinete da Guerra decidiu que a Inglaterra não assinaria nenhum acordo de paz com Hitler, derrotando a tese de Lord Halifax, o ministro de Relações Exteriores, que negociava um acordo de paz da Inglaterra com a Alemanha.

Desde a invasão da Boêmia e da Morávia, 15 de março de 1939, pelas tropas alemãs, o então chanceler britânico buscava um acordo. A antiga Tchecoslováquia, recém-unificada, não fora capaz de resistir ao avanço alemão, sendo ocupada durante seis anos. “Lord Halifax expressou o desejo do povo britannico de um entendimento sincero e leal com a Allemanha”, publicou o antigo O Jornal, então o porta-voz dos Diários Associados, em 9 de junho de 1939, no Rio de Janeiro. Menos de um ano depois, Neville Chamberlain perderia o cargo de primeiro-ministro.

Flávia Oliveira - Axé, justiça e reparação

O Globo

Era véspera de 21 de março, recém-instituído Dia Nacional das Tradições de Raízes de Matriz Africana e Nações do Candomblé, quando o Museu da República se abriu em festa pela assinatura de acordo de cooperação técnica com o Ministério dos Direitos Humanos e a Defensoria Pública da União. A denominação formal esconde o que a cerimônia daquela tarde verdadeiramente significava: ato de justiça e reparação com o povo preto. Ao menos três centenas de inquéritos policiais sobre incursões em terreiros do Rio de Janeiro e apreensão de objetos sagrados, entre 1890 e 1946, serão escrutinados. Ao fim da empreitada, estará provado que o Estado brasileiro violou o direito constitucional à liberdade religiosa.

Só uma viagem no tempo esmiúça o enredo. Foi em setembro de 2020, em plena pandemia da Covid-19, que as 519 peças de axé saíram do depósito do Museu da Polícia Civil para sua dignidade ser restaurada na velha sede do Executivo, o Palácio do Catete. O conjunto, chamado pejorativamente de Coleção Magia Negra, foi rebatizado de Acervo Nosso Sagrado, denominação ora registrada formalmente pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Libertem Nosso Sagrado foi a campanha de reivindicação do tesouro sequestrado, iniciada em 2017 por líderes religiosos, à frente a ialorixá Mãe Meninazinha de Oxum, e encampada pelo Ministério Público Federal (MPF-RJ).

Eliane Cantanhêde -Lula: ‘Não vamos brincar com a economia’

O Estado de S. Paulo

Lula mudou de “obsessão”, mas quer mexer em juros, meta de inflação e preços da Petrobras

O presidente Lula avisa que trocou de “obsessão”. No início deste terceiro mandato, ele só pensava em recuperar os programas sociais que são a marca do PT. A partir de agora, toda sua atenção está voltada para o crescimento do País, com “indução do Estado”, crédito, foco no setor automotivo e três palavras mágicas: estabilidade, credibilidade e previsibilidade. E se comprometeu: “Não vamos brincar com a economia”.

Lula, porém, disse, desdisse e disse de novo que quer mexer na meta de inflação, confundindo os jornalistas que estiveram ontem no café da manhã com ele no Planalto. Depois de dizer que, “se a meta de inflação é errada, mude-se”, ressalvou que “isso é coisa do Banco Central”.

Antonio Cláudio Mariz de Oliveira* - A voz de quem não tem vez

O Estado de S. Paulo

Ao lado de essencial para a administração da Justiça, o exercício da advocacia tem um conteúdo humanitário que a transforma numa atividade que beira o sagrado

Os meus 53 anos de profissão, além de quase uma década anterior na qual trabalhei como estagiário e solicitador acadêmico, reforçaram a minha crença na advocacia e na sua importância como alicerce sólido para a construção de uma sociedade justa e igualitária.

A atividade de alguém falar em nome de outrem antecedeu a organização do Estado. O primeiro homem a emprestar a sua voz em prol de alguém foi o primeiro homem a advogar.

Essa é a origem da advocacia. Os advogados eram os “vozeiros”, falavam em nome de quem não tinha voz, daqueles que eram incapazes de defender por si os seus direitos e interesses.

Com a estruturação do Estado, a advocacia foi inserida na atividade estatal de elidir conflitos de interesses por meio da aplicação da lei, por meio do Poder Judiciário. Este é inerte, pois apenas se movimenta para solucionar um conflito se provocado pelo interessado.

No entanto, ele deve estar representado por um advogado, que exerce com exclusividade a chamada capacidade postulatória. Assim, o elo entre o cidadão e a Justiça é o bacharel. Sem a advocacia, a máquina do Poder Judiciário não se movimenta. Ausente a nossa profissão, ausente estará a Justiça.

Flávio Tavares * - Quando o criminoso vai além do crime

O Estado de S. Paulo

Dois crimes recentes disputam a primazia do horror, mas nada supera em vileza e terror a tragédia de Blumenau

Os crimes aberrantes devem ser recordados para que jamais se repitam. Evitar a repetição, porém, leva a investigar as origens, ir às causas, em especial as difusas e, por isso, diretas ou permanentes, pois, ao serem profundas, não são visíveis.

Refiro-me a dois crimes aberrantes perpetrados em São Paulo dias atrás, que permanecem atuais pela estarrecedora brutalidade em si.

Primeiro, em plena sala de aula, um menino de 13 anos assassinou a facadas uma professora de 71 anos e feriu outras três. Logo, como na sequência de um filme de terror, um juiz acorrentava a própria esposa para, a socos e bofetadas, obrigá-la ao ato sexual, num sadismo aberrante substituindo a beleza do erotismo amoroso.

Ambas as situações disputam a primazia do horror. No primeiro caso, os escabrosos detalhes levam a uma pergunta: em que sociedade vivemos para que um menino imberbe, ainda pré-adolescente, se transforme em requintado criminoso?

Maria Cristina Fernandes - A resistência à barbárie na Amazônia

Eu & Fim de Semana / Valor Econômico

Alexandre Saraiva, delegado da Polícia Federal que derrubou Ricardo Salles, conta em livro sua experiência de dez anos na Amazônia antes de ser colocado na geladeira em que permanece até hoje

Em janeiro de 2020, dois cidadãos americanos, Frank Giannuzzi e Steven Bellino, além de um brasileiro, Brubeyk Nascimento, apresentaram-se na alfândega do aeroporto de Manaus para registrar a documentação de carga a ser embarcada por eles, dias depois, com destino aos Estados Unidos.

Declararam que transportariam, em mãos, 35 quilos de ouro em barras avaliadas em R$ 10 milhões. A Receita liberou a carga, mas, ao voltarem para o embarque, as barras foram apreendidas e os três, detidos. Entre a declaração de transporte e o embarque, o funcionário da Receita acionou a Polícia Federal.

Nada batia. A história juntava dois agentes financeiros que atuavam em Wall Street e um brasileiro com endereço em Manaus, telefone com DDD de Goiânia e carga adquirida em São Paulo. Só o embarque por Manaus fazia sentido. Era por ali que se escoava o ouro adquirido no garimpo ilegal.

José de Souza Martins* - O pai da Mônica e a Academia

Eu & Fim de Semana / Valor Econômico

A ABL tem o desafio de reconhecer a legitimidade dos quadrinhos como campo literário

Mauricio de Sousa, o pai da Mônica, candidatou-se a uma das cadeiras da Academia Brasileira de Letras. O assunto passaria batido, como se diz, não fosse um outro presumível candidato ter se manifestado com a afirmação: “Mauricio de Sousa não tem o que acrescentar à ABL, eu tenho”.

Mauricio de Sousa é internacionalmente reconhecido como o maior formador de leitores no Brasil. Várias gerações adquiriram o hábito da leitura nas histórias da “Turma da Mônica”. Recentemente, ele recebeu homenagem da Unesco justamente por isso.

A qualificação de um autor está não só na sua competência de escrever, mas também na sua competência de ser reconhecido como autor indispensável. Milhões de brasileiros foram e são leitores de sua obra. Ele é o grande porta-voz literário e artístico da simplicidade, do propriamente humano.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Evitar massacres em escolas exige mais que improviso

O Globo

Governo deveria tentar entender fatores que levam às tragédias para adotar políticas públicas consistentes

Pouco mais de uma semana depois do trauma do ataque a uma escola estadual em São Paulo, onde um aluno adolescente matou uma professora e feriu outras quatro vítimas, o Brasil se vê chocado e perplexo diante de nova atrocidade. Na quarta-feira, um jovem de 25 anos invadiu uma creche em Blumenau, Santa Catarina, matou quatro crianças e deixou cinco feridas, ampliando a dor, o pânico e o sentimento de impotência diante dessa barbárie que tem ocorrido em intervalos cada vez mais curtos no Brasil, repetindo uma tragédia que assombra os Estados Unidos.

Levantamento de pesquisadores da USP depois do ataque à escola de São Paulo identificou 22 ações violentas do tipo em estabelecimentos de ensino no Brasil desde 2002 — metade desde fevereiro do ano passado. A aceleração é inequívoca. Os atos de barbárie deixaram 40 mortos entre vítimas e agressores. Um dos casos guarda semelhança com a tragédia de Blumenau: em 4 de maio de 2021, um jovem de 18 anos invadiu uma creche no município de Saudades, Oeste de Santa Catarina, matou três crianças e duas professoras. Está preso e aguarda julgamento.

Na raiz de boa parte dessas atrocidades estão o ódio, a intolerância, o preconceito e o extremismo de direita que campeiam nas fronteiras livres da internet. Não se trata apenas de fóruns de acesso restrito ou deep web, mas das populares redes sociais, onde adolescentes e jovens mantêm diálogos estarrecedores que incentivam a barbárie, glorificam massacres e idolatram homicidas. Muitas vezes, as ações cruéis são planejadas e anunciadas em conversas que chocam pela ausência de qualquer vestígio de compaixão. Amparadas no dispositivo legal que as exime de responsabilidade pelo conteúdo que veiculam, as plataformas digitais pouco ou nada fazem para deter essa aberração.

Poesia | Tabacaria - Fernando Pessoa

 

Música | Para um amor no Recife - Paulinho da Viola

 

quinta-feira, 6 de abril de 2023

Cristiano Romero - Novas ameaças à democracia

Valor Econômico

É um erro achar que projeto autoritário foi vencido em 2022

Quando Jair Bolsonaro se lançou candidato à Presidência em 2018, poucos analistas - ou quase nenhum - da cena política nacional acreditaram que ele pudesse ganhar a disputa. Todos olhamos para Bolsonaro com base nas referências do passado - contar com o apoio de partidos fortes nos Estados, dispor de bom tempo no horário eleitoral gratuito, ser conhecido nacionalmente, ter experiência executiva anterior, entre outras.

Bolsonaro só tinha, na ocasião, uma legenda o apoiando - o PSL (hoje, União Brasil), com o qual não demorou a romper. Tempo no horário eleitoral era algo, portanto, com o que ele não contava em sua campanha. Totalmente desconhecido ele não era porque, nos sete mandatos consecutivos como deputado federal pelo Rio de Janeiro, fez do alarido quixotesco a sua estratégia de comunicação, sempre em defesa dos benefícios de militares e funcionários públicos em geral.

Consta que Bolsonaro não apresentou um projeto de lei sequer durante 28 anos, mas sempre dava um jeito de aparecer sob os holofotes das redes de TV. Certa feita, pontuou durante uma edição do programa humorístico “Casseta & Planeta”, da Rede Globo. Por mais que parte da audiência o considerasse “folclórico”, Bolsonaro semeava imagem de político honesto e “outsider”, isto é, aquele que “não se mistura” com políticos tradicionais.

Luiz Carlos Azedo - O cerco aos golpistas de 8 de janeiro está se fechando

Correio Braziliense

Até agora, 239 executores dos ataques foram identificados pelas câmeras de segurança ou pelas redes sociais, 1.150 presos foram denunciados como incitadores dos atos de vandalismo

Mais 203 suspeitos de incentivar e incitar os ataques golpistas que levaram à depredação das sedes dos Três Poderes, em 8 de janeiro, foram denunciados, ontem, pela Procuradoria-Geral da República (PGR). Com isso, 1.390 militantes de extrema direita, ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro, já estão muito enrolados com a Justiça, devido aos atos de vandalismo nas invasões do Palácio do Planalto, do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal uma semana após a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Até agora, 239 executores dos ataques foram identificados pelas câmeras de segurança ou pelas redes sociais, 1.150 presos no acampamento em frente ao quartel-general do Exército foram denunciados como incitadores dos atos de vandalismo. Um agente público foi denunciado por omissão. O único precedente de um processo desta envergadura contra a extrema direita da nossa história republicana ocorreu em 1938, quando a Ação Integralista Brasileira (fascista), de Plínio Salgado, tentou tomar o poder.

Maria Cristina Fernandes - Devastação parlamentar

Valor Econômico

Acomodação da base parlamenta arrisca protagonismo climático do Brasil

O ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, disse que o governo não está comprometido com a sanção de projetos que agridam o meio ambiente. Referia-se à aprovação, pela Câmara, de uma emenda do PL à medida provisória que afrouxa os limites de desmatamento na Mata Atlântica e adia, pela sexta vez, o prazo para que proprietários rurais restaurem a vegetação nativa desmatada além dos limites estabelecidos pelo Código Florestal.

A MP ainda vai para o Senado, mas o enfrentamento do tema é mais difícil do que sugere o ministro. A derrota não decorreu apenas do rearranjo interno do Centrão com vistas ao pedágio para a tramitação do arcabouço fiscal e da reforma tributária.

Madeireiros e garimpeiros se assenhoraram do país com o aval não apenas do ex-presidente Jair Bolsonaro como do Congresso. Enraizaram-se tanto que invadiram o quintal do lulismo.

É uma gente rude, mas que age com sofisticação ímpar. Haja vista a armadilha que aprontaram para este governo na exportação de ipês. O comércio mundial da flora e da fauna selvagens é normatizado por uma convenção conhecida pela sigla Cites. A espécie que entra nesta lista precisa de uma licença para ser comercializada.

Maria Hermínia Tavares* - Direitos difíceis

Folha de S. Paulo

Não se combate pobreza e desigualdade sem entender que ambas são vividas no plural

Taxativo, Rafael Correa, que governou o Equador de 2007 a 2017, sustentou em entrevista a esta Folha, publicada na segunda-feira passada (3), que as esquerdas latino-americanas erram ao colocar temas identitários e morais no centro de sua pauta, porque tiraria o foco do essencial –a luta contra a pobreza e a desigualdade. A ideia não é nova. Na realidade, Correa ecoa outras tantas, compartilhadas por alguns progressistas do Norte desenvolvido.

Os críticos sustentam que a ênfase em demandas igualitárias de grupos específicos (mulheres, LGBTQUIA+, vítimas de discriminação por sua cor ou nacionalidade) facilita a mobilização eleitoral dos trabalhadores mais pobres —e brancos— por lideranças populistas de direita. Essa é, por exemplo, a tese do livro "O Progressista de Ontem e de Amanhã" (Companhia das Letras, 2018) do professor Mark Lilla, da Universidade Columbia, ele próprio progressista e eleitor de carteirinha do Partido Democrata.

Bruno Boghossian - Os fatos estão contra Bolsonaro

Folha de S. Paulo

A expectativa de impunidade costuma alimentar a arrogância e o descuido dos infratores. Jair Bolsonaro achou que poderia ficar despreocupado nas semanas que o levaram à sede da Polícia Federal para dar explicações sobre as joias milionárias que queria levar para casa.

O ex-presidente pareceu acostumado com a blindagem de que desfrutara nas últimas décadas. Ele até tentou desconversar quando surgiram as primeiras notícias sobre o colar de diamantes apreendido no aeroporto de Guarulhos ("não pedi, nem recebi"). Depois, no entanto, ofereceu aos investigadores uma espécie de confissão completa.

Ruy Castro - Compra-se silêncio

Folha de S. Paulo

Bolsonaro, pior que Trump, corrompeu, estuprou e prostituiu instituições civis e militares

O Tribunal de Contas da União descobriu que, sob Bolsonaro, o Ministério da Defesa e as Forças Armadas desviaram R$ 15, 6 milhões destinados ao enfrentamento da Covid para comprar 12 mil quilos de picanha e filé mignon, além de salgadinhos, refrigerantes e sorvetes para regabofes e coquetéis promovidos pelos generais.

Há dias, a Polícia Federal localizou um documento produzido pelo Ministério da Justiça, às vésperas do segundo turno da eleição, que listava as regiões do Nordeste em que Lula surrara Bolsonaro no primeiro turno. De posse do mapa, o então ministro Anderson Torres foi à Bahia e ordenou à Polícia Rodoviária Federal bloquear as estradas naqueles locais no dia da eleição, para impedir "transporte ilegal de eleitores" —na prática, impedir que eleitores de Lula chegassem aos locais de votação.

Conrado Hübner Mendes* - 100 dias de civilidade

Folha de S. Paulo

Balanço de erros e acertos do governo Lula não pode perder de vista o essencial

A erosão democrática precisa da nossa preguiça. Precisa de nossos juízos apressados, nossas comparações do incomparável, nossos vícios de perspectiva, nossos erros de categoria e de análise. Precisa de memória atrofiada, de curto e de longo prazo.

O programa de autocratização do governo Bolsonaro pediu que confiássemos no "risco-zero" da democracia e na promessa de que esse regime "modera" sociopatas. Pediu que os poderes "dialogassem" dentro das "quatro linhas" sob "moderação" das Forças Armadas.

Jornais hesitaram em usar as palavras certas para reportar o que viam. Extremistas eram "manifestantes", mentir equivalia a "declarar", delinquência se parecia com "polêmica", violação passava por "excesso", crime por "controvérsia jurídica".

Tentaram assegurar voz ao "outro lado", mesmo que esse lado fosse imune à experiência sensorial da Terra redonda e do vírus, ou à experiência moral da violência e da indignidade radical. Tudo em nome de um pluralismo às cegas que vai corroendo as condições de possibilidade do próprio pluralismo. De uma tolerância sem critério que vai exaurindo a sustentabilidade da tolerância.

Vinicius Torres Freire - Como meter a mão na Petrobras

Folha de S. Paulo

Executivo pode mudar política da estatal de modo correto, mesmo que danoso para a economia

Luiz Inácio Lula da Silva quer mudanças rápidas na Petrobras. Está irritado com o assunto, dizem assessores próximos. Acha que o governo em geral está lento, que não "deslancha" investimentos e não "implanta medidas" como quer.

É possível que esse seja um motivo de o ministro de Minas e Energia ter atropelado a direção da Petrobras. Alexandre Silveira chegou a dizer até quanto vai cair o preço do diesel depois de implantada a política que chamou de "PCI" (Preço de Competitividade Interno), em entrevista à Globonews.

Além de agradar a Lula, Silveira (do PSD) trabalha para ter influência maior na petroleira, em especial no conselho de administração que virá a ser eleito, o que irrita o novo presidente da empresa, Jean Paul Prates (do PT), e sua direção.

Eugênio Bucci* - O totalitarismo escópico

O Estado de S. Paulo

No totalitarismo dos nossos dias, o medo dominante é o medo da invisibilidade. É por aí que o poder dos algoritmos aterroriza todo mundo

O mundo digital jogou a humanidade num novo tipo de totalitarismo. Não há outra palavra para definir a relação entre a massa de bilhões de seres humanos e os conglomerados monopolistas globais, como Amazon, Apple, Meta (dona do Facebook e do WhatsApp) e Alphabet (dona do Google e do YouTube), sem falar nas chinesas. As pessoas não sabem nada, absolutamente nada, sobre o funcionamento dos algoritmos que controlam milimetricamente o fluxo das informações e das diversões pelas redes afora. Na outra ponta, os algoritmos sabem tudo sobre o psiquismo de qualquer um que acesse um computador, um celular, um tablet ou um simples reloginho de pulso, destes que monitoram exercícios físicos, batimentos cardíacos, pressão arterial, passos e braçadas. Estamos na sociedade do controle total – controle totalitário.

O mais espantoso é que esse controle só se viabiliza graças à docilidade contente das multidões. Em frêmitos de excitação exibicionista, elas escancaram suas próprias intimidades para as máquinas. Em seguida, não satisfeitas com o furor do exibicionismo, entregam-se ao voyeurismo cavernoso para bisbilhotar a vida alheia. Olhando e sendo olhadas, trabalham feericamente a serviço do imenso extrativismo de dados pessoais, que, depois de capturados, são comercializados a preços estratosféricos.

Roberto Macedo* - O arcabouço fiscal e a reação a ele

O Estado de S. Paulo

A lista de promessas é ampla e talvez os autores já soubessem da predisposição kantiana dos brasileiros ao julgar ações com base nas intenções

Meu dicionário apresenta cinco significados para o termo arcabouço, em geral associados a estruturas materiais. A exceção é o conceito que se aplica ao documento divulgado na semana passada pelo governo federal: um delineamento inicial, um esboço, no caso, o de um ajuste fiscal. Versão ampliada deverá vir com o respectivo projeto a ser encaminhado ao Congresso Nacional, e o que lá for aprovado passará a ser o desenho de um ajuste fiscal voltado para o resultado fiscal primário do governo, aquele que não envolve o pagamento de juros, e para a evolução do endividamento.

Esse arcabouço foi bem recebido pelo mercado financeiro: a Bolsa subiu e o dólar caiu. E não vi reações negativas nem de grupos petistas que costumam reagir mal a propostas desse tipo, mesmo se vindas de um governo dos seus pares. Lembrei-me dessa reação positiva ao ver um artigo na Folha de S.Paulo de domingo passado, intitulado A ética do brasileiro, escrito por Álvaro Machado Dias e Hélio Schwartsman. Em resumo, os dois argumentam que “(...) no campo ético a maioria dos brasileiros tem perfil kantiano, ou seja, julga ações como certas ou erradas com base nas intenções, não nos resultados alcançados”. Kantiano conforme conceito associado ao filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), segundo esses autores.

William Waack - Amor ao improviso

O Estado de S. Paulo

Lula continua devendo uma lista de prioridades

Aos cem dias está faltando ainda um governo de frente ampla. O que Lula parece estar fazendo até aqui é contestar aspectos amplos do que encontrou ao assumir para o terceiro mandato.

O ponto de contestação mais recente é o do Marco Legal do Saneamento, que tem como pano de fundo o notório desconforto do presidente com qualquer tipo de privatização. Outros aspectos contestados (a lista não é exaustiva) têm a ver com educação, formação de preços no setor de energia, relações capital-trabalho e uso de estatais como moeda de troca nas relações políticas.

Outro ponto que merece destaque é a inserção do Brasil nas relações internacionais a partir do que Lula percebe como equidistância a ser mantida pelo “global south” frente aos grandes focos de poder mundiais – na prática, significa alinhar o Brasil à China e à Rússia.

Míriam Leitão - Dois homens e um só destino

O Globo

Bolsonaro e Trump enfrentam processos, mas ainda não respondem por seus atos mais graves: conspirar contra a democracia

Dois ex-presidentes de extrema direita tiveram que se sentar diante de investigadores nos últimos dois dias para explicar seus atos. Donald Trump sendo indiciado por compra de silêncio com manipulação contábil para esconder o que fez. Jair Bolsonaro respondendo à Polícia Federal sobre a tentativa de se apropriar de bens de valor exorbitante e que deveriam ir para o patrimônio da União. Nenhum dos dois está respondendo pelos seus atos mais graves: a conspiração contra a democracia.

Trump e Bolsonaro governaram Estados Unidos e Brasil com a mesma técnica de dividir, mentir, manipular e fugir das questões centrais. O brasileiro tentava ser a imagem perfeita no espelho do seu mentor americano, imitando cada gesto, cada distorção, cada desvio de comportamento. Perderam a reeleição. Mentiram sobre o processo eleitoral. Mobilizaram pessoas para invadir centros dos poderes. Lá, o Capitólio, aqui o Planalto, o Congresso e o STF.

Malu Gaspar – A leniência, o lava-jatismo e a corrupção

O Globo

Toda história comporta algum revisionismo, já que sempre podem surgir fatos que mudem a forma de encarar o passado. Foi o que ocorreu com a Operação Lava-Jato, especialmente depois que foram reveladas as mensagens da Vaza-Jato. É natural e até necessário que as conversas entre os procuradores e Sergio Moro, mais a entrada do ex-juiz no governo Jair Bolsonaro, tenham levado a essa revisão. Depois da posse de Lula, porém, tudo mudou de patamar.

O primeiro sinal veio ainda em dezembro, quando o PCdoB entrou com ação no Supremo Tribunal Federal (STF) questionando a quarentena de 36 meses imposta pela Lei das Estatais a dirigentes partidários e de campanha eleitoral indicados a cargos de comando nessas companhias.

Em março, Ricardo Lewandowski, considerado pelo próprio Lula o mais leal dos ministros do Supremo, deu a liminar e acatou o argumento de que a lei fere os “direitos fundamentais” dos políticos ao privá-los de dirigir estatais.

Merval Pereira - Uma sociedade doentia

O Globo

Abrir a compra por cidadãos de armamentos praticamente sem controle é uma oferta de fortalecimento a grupos fora da lei

O clima de ódio e violência que estamos vivenciando nos últimos tempos, oriundos do período em que o bolsonarismo começou a implantar suas raízes, é filho do despertar dos instintos primitivos de indivíduos antissociais que viviam contidos pelos ditames e valores majoritários numa sociedade democrática e sentiram-se liberados para falar, e fazer, qualquer coisa. Como agia seu líder político, saído dos círculos morais mais baixos da sociedade para influenciar seguidores que identificaram por meio de metodologias tecnológicas que se mostraram tristemente eficazes.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Governo precisará reduzir arsenal em poder da população

O Globo

Facilitação da compra de armas alimentou crime organizado — a sociedade continua ameaçada

Era previsível, diante do “liberou geral” do governo Jair Bolsonaro no acesso a armas, que a permissividade das novas normas beneficiasse não só os, por assim dizer, “cidadãos de bem”, mas também organizações criminosas, destino de boa parte das armas compradas legalmente. Não deu outra. Como mostrou reportagem do GLOBO, pretensos colecionadores, atiradores desportivos e caçadores (grupo conhecido como CAC) têm usado registros legais para abastecer o já extenso arsenal de milícias do Rio.

Em fevereiro deste ano, a polícia fluminense prendeu um grupo de milicianos em Campo Grande, Zona Oeste do Rio. Na ocasião, foi apreendida uma pistola calibre 9mm com um atirador certificado pelo Exército. A arma, comprada numa loja da Baixada Fluminense, tinha toda a documentação legal, com certificado e guia de transporte, mas deveria ser usada apenas em estandes de tiro e competições. Outras quatro armas legais citadas na reportagem foram apreendidas com milícias. Não levaram nem um ano para ir da fábrica ao crime.

Poesia | Quadras ao gosto popular - Fernando Pessoa

 

Música | Ana Costa e Marcelinho Moreira - "Filosofia de Vida"

 

quarta-feira, 5 de abril de 2023

Vera Magalhães - Trump vira pesadelo para Bolsonaro

O Globo

O famoso ‘establishment’ não deixará impunes, nem lá nem aqui, tentativas de conspiração para solapar a democracia

Jair Bolsonaro levou três meses no dilema volta-não volta ao Brasil depois de sua saída pelos fundos para a Flórida. Voltou num momento que, para ele, não poderia ter sido pior. Sua chegada ao país coincidiu não apenas com o escândalo das joias sauditas — tanto as que levou ilegalmente quando deixou a Presidência quanto as que moveu mundos e fundos para também levar —, como também com o agravamento dos indícios de que a estrutura de seu governo foi usada para influenciar o segundo turno das eleições de 2023.

Para deixar o revés ainda mais completo, seu amigo Donald Trump acabou por se tornar o primeiro ex-presidente norte-americano a ser réu por acusações criminais, justamente neste momento em que o cerco contra sua réplica tropical vai se fechando em várias frentes de investigação. Para alguém que ascendeu rapidamente do baixo clero à Presidência quase unicamente graças à narrativa de redes sociais, essa conjugação de fatores não poderia ser mais tóxica.

Bolsonaro parecia nutrir a expectativa de que seu destino no Brasil seria liderar a oposição. Valdemar Costa Neto, o dono do PL, vislumbrou no casal Bolsonaro “estrelas” que usaria num road show em busca de filiados e para engordar ainda mais o caixa do partido. Conviria olhar para cima no mapa e ver o que um líder de extrema direita que perde a eleição tentando minar a confiança da população no processo eleitoral e nas instituições enfrenta quando seu plano dá errado depois de causar muito estrago. Porque demora, tudo ainda não está desenhado, mas é certo que o famoso establishment não deixará impunes, nem lá nem aqui, tentativas de conspiração para solapar a democracia.

Elio Gaspari - Os Cem Dias de 2023 e os de 2019

O Globo

Na próxima semana, Lula chegará aos cem dias de governo. Como fazem quase todos os governos, a data será comemorada com promessas e propaganda. Contudo a melhor comemoração desses cem dias está na comparação do mesmo período com os de seu antecessor.

Nos primeiros cem dias de Bolsonaro, foram demitidos dois ministros.

Primeiro, caiu o secretário-geral da Presidência, Gustavo Bebianno. Esse advogado carioca ligara-se ao capitão quando todos os bolsonaristas cabiam numa Kombi. Em fevereiro de 2019, foi atropelado por intrigas do círculo familiar do presidente e saiu arrependido:

— Tenho vergonha de ter acreditado nele. É uma pessoa louca, um perigo para o Brasil.

Bebianno morreu meses depois, aos 56 anos, entristecido.

O segundo ministro a cair, perto da marca dos cem dias, foi Ricardo Vélez, da Educação. Personagem pitoresco, teria sido recomendado pelo escritor Olavo de Carvalho, guru do bolsonarismo. Pouco depois de assumir, Vélez disse que “o brasileiro viajando é um canibal. Rouba coisas dos hotéis, rouba o assento salva-vidas do avião”. Antes mesmo dos cem dias, Olavo de Carvalho informava:

— E eu sou o guru dessa porcaria. Eu não sou o guru de merda nenhuma.

Competindo com as excentricidades de Vélez, o primeiro chanceler de Bolsonaro, o diplomata Ernesto Araújo, assumiu falando grego e tupi durante o discurso de posse. Inaugurando a prática das caneladas na China, ele dizia que “lembrar-se da pátria não é lembrar-se da ordem liberal internacional, não é lembrar-se da ordem global. (...) Vamos escutar menos a CNN e mais Raul Seixas”. Tempos depois o doutor diria “sejamos pária”. Conseguiu.

Bernardo Mello Franco - A hora da conta

O Globo

PF ouvirá ex-presidente sobre escândalo das joias; desde 1989 ele tinha a proteção de um mandato

Durante quatro anos, Jair Bolsonaro mentiu sobre a urna eletrônica e sugeriu que seria vítima de um complô. Enquanto isso, seus aliados usavam a máquina do governo para tentar roubar a reeleição.

A conspiração contra a democracia chegou ao ápice em 30 de outubro de 2022. Era o dia do segundo turno, e a Polícia Rodoviária Federal montou barreiras ilegais para dificultar a circulação de eleitores.

Os bloqueios tinham um alvo: as regiões onde Lula havia recebido mais votos no primeiro turno. Novos indícios complicaram a situação de Anderson Torres, mas nem o patriota mais delirante acreditaria que ele agiu por iniciativa própria.

O ex-ministro da Justiça era um bolsonarista obediente. Estava ao lado do chefe quando ele convocou embaixadores ao Palácio da Alvorada para atacar o sistema eleitoral. Depois da eleição, cruzou os braços quando a extrema direita queimou ônibus e tentou depredar o edifício da Polícia Federal.

Lula subiu a rampa, e Torres reapareceu na cena de outro crime: os atos golpistas de 8 de janeiro. Desta vez, como chefe da polícia que permitiu a invasão das sedes dos Três Poderes.