O Globo
Na próxima semana, Lula chegará
aos cem dias de governo. Como fazem quase todos os governos, a data será
comemorada com promessas e propaganda. Contudo a melhor comemoração desses cem
dias está na comparação do mesmo período com os de seu antecessor.
Nos primeiros cem dias de Bolsonaro, foram
demitidos dois ministros.
Primeiro, caiu o secretário-geral da
Presidência, Gustavo Bebianno. Esse advogado carioca ligara-se ao capitão
quando todos os bolsonaristas cabiam numa Kombi. Em fevereiro de 2019, foi
atropelado por intrigas do círculo familiar do presidente e saiu arrependido:
— Tenho vergonha de ter acreditado nele. É
uma pessoa louca, um perigo para o Brasil.
Bebianno morreu meses depois, aos 56 anos,
entristecido.
O segundo ministro a cair, perto da marca
dos cem dias, foi Ricardo Vélez, da Educação. Personagem pitoresco, teria sido
recomendado pelo escritor Olavo de Carvalho, guru do bolsonarismo. Pouco depois
de assumir, Vélez disse que “o brasileiro viajando é um canibal. Rouba coisas
dos hotéis, rouba o assento salva-vidas do avião”. Antes mesmo dos cem dias,
Olavo de Carvalho informava:
— E eu sou o guru dessa porcaria. Eu não
sou o guru de merda nenhuma.
Competindo com as excentricidades de Vélez,
o primeiro chanceler de Bolsonaro, o diplomata Ernesto Araújo, assumiu falando
grego e tupi durante o discurso de posse. Inaugurando a prática das caneladas
na China,
ele dizia que “lembrar-se da pátria não é lembrar-se da ordem liberal
internacional, não é lembrar-se da ordem global. (...) Vamos escutar menos a
CNN e mais Raul Seixas”. Tempos depois o doutor diria “sejamos pária”.
Conseguiu.