sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Em delação, 'Baiano' acusa PMDB do Rio

Acusado de ser um dos principais operadores do PMDB no esquema de corrupção na Petrobras, o lobista e agora delator Fernando Soares, o "Baiano", já mencionou aos investigadores da Lava-Jato os nomes de três líderes do partido no Rio: o governador Luiz Fernando Pezão, o ex-governador Sérgio Cabral e o presidente da Assembleia Legislativa, Jorge Picciani. Os três teriam, supostamente, se beneficiado de propinas desviadas de contratos com a petroleira. "Baiano" indicou, ainda, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), como beneficiários do esquema. Procurados, Pezão, Cabral e Picciani negaram envolvimento no caso. O advogado de Cunha disse que não se manifestaria e a assessoria de Renan não respondeu à indagação do Valor.

Delação de Baiano atinge PMDB do Rio e Renan

Por André Guilherme Vieira, Cristian Klein e Renata Batista - Valor Econômico

SÃO PAULO e RIO - Acusado pelo Ministério Público Federal (MPF) como um dos principais operadores do PMDB na área Internacional da Petrobras, o lobista e agora delator Fernando Antônio Falcão Soares, o "Fernando Baiano", já mencionou aos investigadores da força-tarefa da Operação Lava-Jato os nomes do governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, do ex-governador fluminense e padrinho político de Pezão, Sérgio Cabral, e ainda o do presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), deputado estadual Jorge Picciani - todos do PMDB do Rio - como supostos beneficiários de propinas desviadas de contratos com a petrolífera.

Baiano indicou ainda o presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB-AL) e o presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ), como alguns dos que teriam se beneficiado do desvio de dinheiro da Petrobras. Cunha foi formalmente acusado pela PGR por corrupção e lavagem de dinheiro e descrito como "sócio oculto" do lobista. Renan é alvo de investigação por suspeita de corrupção que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF).

As menções aos políticos do PMDB foram feitas por Baiano durante as negociações que antecederam o acordo assinado com a Procuradoria-Geral da República (PGR) e antecipado na quarta-feira pelo Valor PRO, serviço em tempo real do Valor. Para ter validade e permitir uma investigação, as declarações do novo delator terão de ser formalizadas em termos de depoimento que serão prestados em Curitiba.

Preso preventivamente há 10 meses, desde a deflagração da fase Juízo Final da Lava-Jato, em novembro de 2014, Baiano relutava em fechar delação premiada porque temia retaliações à sua família e buscava ampliar a redução de suas penas em troca do acordo.

O lobista se comprometeu a apontar documentos e a indicar evidências que comprovem as suspeitas de financiamento ilícito de campanhas eleitorais do PMDB em 2010 e 2014, e de caixa dois, que recaem sobre parte do PMDB. Ele também entregará documentos bancários sobre suas contas mantidas em offshores no exterior.

Baiano explicará ainda quais eram seus interesses na Transpetro, subsidiária para áreas de Transporte e Logística da Petrobras comandada pelo PMDB ao menos desde 2004, quando o agora ex-presidente Sérgio Machado chegou ao comando indicado por Renan Calheiros. Machado entrou no radar da Operação Lava-Jato em agosto do ano passado, quando o ex-diretor de Abastecimento da petrolífera e também delator, Paulo Roberto Costa, afirmou que recebeu R$ 500 mil em dinheiro vivo do então presidente da Transpetro, em 2012. Os valores seriam pagamento de propina por fretamento de navios, intermediado pela área de Abastecimento. No balanço do ano passado, a Transpetro reconheceu um desfalque de R$ 256,6 milhões em seu caixa, por decorrência dos desvios descobertos pela Lava-Jato.

Fernando Baiano, (que segundo o MPF intermediou conjuntamente com o também lobista Julio Camargo propina de US$ 5 milhões destinada a Eduardo Cunha), comprometeu-se a pormenorizar a sistemática de atuação de outros lobistas na estatal, como o empresário Jorge Luz e o filho dele, Bruno, apontados pelo MPF como operadores de propinas. Baiano teve "as portas abertas na Petrobras" por Luz, o pai, segundo uma fonte com acesso às investigações. No entanto, ambos acabaram se desentendendo, apurou a investigação. O MPF do Rio também busca costurar um acordo de colaboração com Jorge Luz, apontado pela Lava-Jato como um dos operadores mais antigos na área Internacional da petrolífera, desde 1986.

A negociação que levou Baiano a se tornar delator durou meses e voltou à estaca zero em pelo menos duas oportunidades. Para obter eventual benefício de redução de pena, como consequência do acordo de delação, Fernando Baiano terá de apresentar provas documentais e indicar situações que, efetivamente, auxiliem os investigadores a comprovar os delitos.

Ao Valor, o governador Luiz Fernando Pezão negou qualquer envolvimento com Fernando Baiano. "Falo por mim e pelo Sérgio [Cabral]. Não o conheço e nunca estivemos com ele". Pezão disse considerar "estranho" a divulgação das informações sobre a delação de Baiano um dia depois que a Polícia Federal arquivou, por falta de provas, investigação por suspeita de corrupção e lavagem de dinheiro contra ele, Cabral e o ex-chefe da Casa Civil do Rio de Janeiro, Regis Fichtner.

Em delação premiada, Paulo Roberto Costa afirmou ter repassado R$ 30 milhões a título de caixa-dois para a campanha de reeleição de Cabral em 2010. O processo tramita no Superior Tribunal de Justiça (STJ), que irá decidir sobre o arquivamento do caso.

Em nota, Sergio Cabral afirmou: "Não conheço Fernando Baiano nem o ex-diretor da área Internacional da Petrobras", referindo-se a Nestor Cerveró e a Jorge Zelada, ex-executivos da petrolífera presos e processados por crimes de corrupção.

Também por meio de comunicado enviado pela assessoria de imprensa, Jorge Picciani disse: "Não conheço, não sei quem é, nunca estive sequer no mesmo lugar, nunca falei com esse senhor de nome Fernando Baiano". E acrescentou: "Também não conheço nenhuma pessoa da área Internacional da Petrobras e jamais indiquei qualquer nome para o governo federal". O presidente da Alerj do Rio ressaltou que "qualquer notícia envolvendo meu nome e o de Fernando Baiano carece de fundamento, constituindo-se numa irresponsabilidade".

Procurado por meio da assessoria de imprensa, o senador Renan Calheiros não se pronunciou até o fechamento dessa edição. O advogado de Eduardo Cunha, o ex-procurador-geral da República Antonio Fernando de Souza, disse que não comentará o caso até apresentar a defesa do presidente da Câmara ao Supremo. A Transpetro informou que não se pronunciaria sobre o assunto. A defesa do ex-presidente da Transpetro Sergio Machado não foi localizada pela reportagem.

Lula ataca ajuste que Dilma tenta emplacar

• Ex-presidente desdenha da perda do selo de bom pagador pelo Brasil

• Petista disse a amigos que 'falará mais o que pensa' quando entender estar sendo ignorado pela presidente

Mariana Carneiro – Folha de S. Paulo

BUENOS AIRES - O ex-presidente Lula demonstrou nesta quinta (10) estar em desacordo com as medidas de ajuste fiscal do governo Dilma Rousseff.

"Me assusta muito a visão de todos aqueles que, ao primeiro sintoma de uma crise, começam falar em ajuste. Ajuste significa corte de salários, corte de emprego, significa voltar ao patamar de miséria que você estava [antes] para poder recuperar a economia. A mim, não agrada", disse ele, durante um seminário em Buenos Aires.

"Todas as experiências de ajuste que foram feitas levaram os países à perda de postos de trabalho e ao empobrecimento da população."

Programas de ajuste, disse, só fizeram aumentar as dívidas dos países que tentaram implementá-los: "A Grécia tinha dívida de 84% e hoje é 186% [do PIB]", exemplificou.

O petista afirmou que o bom funcionamento da economia e o aumento do crédito dependem da confiança.

"Em economia não existe mágica, existe uma palavra chamada confiança e credibilidade. E se ela existir entre governantes e governados, tudo fica mais fácil", completou.

Lula está na Argentina a convite de uma fundação controlada pelo governador Daniel Scioli, que concorre à presidência com o apoio de Cristina Kirchner.

Também nesta quinta, o ex-presidente afirmou que a perda do selo de bom pagador pelo Brasil "não significa nada": "Significa que apenas a gente não pode fazer o que eles querem. A gente tem que fazer o que a gente quer".

O discurso destoa do que ele afirmou quando a mesma Standard &Poor's foi a primeira das três agências de risco mais importantes a dar ao Brasil o grau de investimento, em 2008, durante seu segundo mandato.

À época, Lula disse que o país vivia um "momento mágico": "O Brasil foi declarado um país sério, que tem políticas sérias, que cuida das suas finanças com seriedade e que, por isso, passou a ser merecedor de uma confiança internacional que há muito tempo necessitava", afirmou na ocasião.

Segundo interlocutores, Lula "falará mais o que pensa" daqui por diante. Há alguns meses, amigos disseram ter ouvido do petista que ele dirá o que pensa toda vez que entender que está sendo ignorado por Dilma.

Conforme relatos, Lula está insatisfeito com a falta de rumo do governo, o que, segundo ele, causa desânimo na sociedade.

Colaborou Natuza Nery, de Brasília

Juristas unem pedidos de impeachment

Após rebaixamento do País, parlamentares pró-impeachment fazem ato na Câmara

• Evento marca o lançamento de site com petição pública para recolher assinaturas e incentivar a abertura no Congresso de um processo de afastamento de Dilma Rousseff

Carla Araújo e Daniel Carvalho - O Estado de S. Paulo

Um grupo de parlamentares que defende o impeachment da presidente Dilma Rousseff oficializou nesta quinta-feira, 10, no salão verde da Câmara dos Deputados, o lançamento de um site com uma petição pública para recolher assinaturas e incentivar a abertura de um processo de impeachment no Congresso.

Com miniaturas de pixulecos, o boneco inflável do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva vestido de presidiário, e balões pretos também com a imagem do boneco, os parlamentares discursaram e disseram que o ato de hoje quer "resgatar a esperança" e "demonstrar a indignação" com o que chamaram de "desgoverno" do PT.

O líder do PSDB na Câmara dos Deputados, Carlos Sampaio (SP), disse que vai iniciar um "amplo convencimento" dos parlamentares para conseguir o maior apoio possível para o impeachment. "Hoje nasce o movimento suprapartidário pró-impeachment na Câmara Federal", disse. "Nós não somos os protagonistas desse movimento, os verdadeiros protagonistas são os movimentos de rua, a sociedade civil organizada que numa demonstração de indignação com esse governo corrupto e mentiroso deixou claro para nós deputados que não suportam mais três anos e meio de governo do PT e da presidente Dilma", afirmou.

O deputado peemedebista Jarbas Vasconcelos (PE) disse que é importante que seu partido, hoje fundamental para a base de apoio do governo, tome consciência de que é preciso dar exemplo para outras bancadas. "Ou ela sai, renuncia, ou ela cai", disse.

O presidente do PPS, deputado Roberto Freire (SP), lembrou o impeachment do ex-presidente Fernando Collor e disse que assim como na ocasião, quando o PT apoiava a medida, o movimento de hoje é "uma ação democrática".

O líder do DEM, deputado Mendonça Filho (PE), afirmou que há argumentos para pedir o afastamento de Dilma e afirmou que o momento é "histórico" e disse que a eleição presidencial foi caracterizada pela "fraude e mentira". "A campanha de Dilma foi financiada com recursos do petrolão", em referência ao escândalo que apura suspeitas de corrupção na Petrobrás.

O líder do DEM no Senado, Ronaldo Caiado (GO), também participou do evento e disse que a população não quer mais "pagar as contas do governo". "Essa Casa hoje passa a ter uma sintonia fina e direta com a população e o Senado vai receber a abertura e autorização do processo de impeachment", afirmou. Caiado disse ainda "ter certeza" de que ao tirar a presidente Dilma e o PT do governo, o Brasil vai se recuperar rapidamente da crise econômica. "Em um curto espaço de tempo, em um ano, podem ter certeza", disse.

O líder da minoria, deputado Bruno Araújo (PSDB-PE), também reforçou o discurso de que o movimento está criando um dia histórico e disse "que começou hoje o processo de afastamento de Dilma". A presidente do PTB, Cristiane Brasil (RJ), filha do ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), disse que está na hora de "virar a página". "Estamos aqui para responder o anseio da sociedade. Não queremos a troca de poder, queremos é devolver a esperança de um futuro melhor para os brasileiros", disse.

A deputada federal Mara Gabrilli (PSDB-SP) também discursou e fez um apelo à presidente Dilma Rousseff: "Se a senhora, presidente Dilma, tem amor pela pátria, deixe esse governo. Opte pelo povo brasileiro e deixe de optar pelo PT", disse.

No encerramento do ato, os parlamentares cantaram o Hino Nacional e gritaram "Brasil, Brasil" e "Fora Dilma". Eles ainda assinaram uma bandeira do Brasil.

O site. O portal abre com a seguinte mensagem: "Assine o abaixo assinado pelo impeachment de Dilma". A página virtual traz a íntegra do pedido de impeachment apresentado pelo jurista Hélio Bicudo, fundador do PT. Na peça apresentada, Bicudo cita as "pedaladas fiscais", a Operação Lava Jato e a compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, pela Petrobras para afirmar que Dilma cometeu crime de responsabilidade. O jurista também lembra que o vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Gilmar Mendes, solicitou à Procuradoria-Geral da República apuração sobre eventuais crimes eleitorais.

O site estimula que internautas compartilhem fotos em que apareçam pedindo a saída de Dilma Rousseff da Presidência. E traz uma sessão chamada "compartilhe os fatos na rede", com três imagens. Na primeira, uma frase de Hélio Bicudo: "Golpe será permitir que o estado de coisas vigente se perpetue". Na outra, há uma foto da presidente e a frase "Mentiu na campanha. Estourou as contas públicas para ganhar eleição. Se beneficiou de esquema corrupto. Merece continuar? Não". No terceiro, a frase é a seguinte: "Se até um fundador do PT pede impeachment de Dilma, é porque o governo não tem nenhuma condição moral de continuar".

O movimento, que reúne deputados de PSDB, PPS, DEM, SD, PSC, PTB e até partidos da base, como PMDB e PSD, tem também perfil no Twitter e página no Facebook.

Empresário diz que doações oficiais ocultaram propinas para o PT

• Augusto Mendonça, do Grupo Setal, que fez delação na Lava Jato, confirmou ao juiz federal Sérgio Moro que valores repassados ao partido eram pagamentos da corrupção na Petrobrás

Por Julia Affonso, Fausto Macedo e Mateus Coutinho – O Estado de S. Paulo

O empresário Augusto Ribeiro Mendonça, do grupo Setal, voltou a afirmar nesta quinta-feira, 10, à Justiça Federal, em Curitiba, que fez doações oficiais ao PT que serviram para ocultar propina. Delator da Operação Lava Jato, ele foi ouvido na ação penal em que são réus o presidente da Andrade Gutierrez e executivos do grupo.

“Foram feitas doações oficiais ao PT a pedido do Renato Duque”, afirmou Mendonça. Duque era o diretor de Serviços da Petrobrás sustentado no cargo pelo PT, em especial pelo ex-ministro José Dirceu.

Ele confirmou cartel e combinação de divisão de contratos entre empreiteiras.

Na semana passada, o empresário Ricardo Pessoa, dono da UTC, confirmou em depoimento ao juiz Sérgio Moro também ter feito doações ao partido que ocultaram propina. O empresário fechou acordo de delação premiada, no mês passado, com a Procuradoria-Geral da República.

Mendonça, ouvido nesta quinta-feira na Justiça Federal, havia entregue os recibos de doações partidárias e eleitorais feitas por suas empresas para o PT entre 2008 e 2012, que ocultaram valore desviados da Petrobrás.

O tesoureiro petista João Vaccari Neto, e o ex-diretor de Serviços da estatal Renato Duque – presos pela Lava Jato – teriam sido as peças centrais da lavagem de dinheiro, que transformava recursos ilegais em legais dentro do sistema oficial de repasses para partidos e campanhas.

Mendonça, Vaccari e Duque são réus em outro processo criminal da Lava Jato, em fase final, que envolve o suposto pagamento dos R$ 4 milhões ao PT. No material estão quatro recibos emitidos pelo PT de doações para o Diretório Nacional do partido de R$ 500 mil, em 2010. O valor repassado em 7 de abril, quando era dada a largada para a campanha da presidente Dilma Rousseff, foi o mais alto doado dentro de uma lista de 24 repasses partidários e de campanha listados pelo delator.

Doações. São quatro recibos, com números sequenciais, datados de 7 de abril de 2010. Três com valores de R$ 150 mil e um de R$ 50 mil.

Os valores teriam sido desviados de duas obras de refinarias (Repar, no Paraná, e Replan, em Paulínia). Foram beneficiados: o Diretório Nacional, o Diretório da Bahia, o Diretório Municipal de Porto Alegre e o Diretório Municipal de São Paulo.

Por meio de quatro empresas de Mendonça foram feitas 24 doações eleitorais para o PT. Primeiro executivo a fazer delação com a Lava Jato, em 2014, Mendonça confessou que pagou propinas “acertadas com Renato Duque” em forma de doações.

O empresário e operador de propinas Augusto Mendonça afirmou à Lava Jato que fez “supostas ‘doações’, que eram pagamentos de propina, a pedido de Renato Duque e com o auxílio de João Vaccari”.

“Cada pagamento era deduzido do montante de propina devido. O momento das propinas e os valores eram indicados por Renato Duque, enquanto as contas e Diretórios do PT que recebiam os pagamentos eram indicados por João Vaccari”.

Lula tenta não perder as ruas

Por Raymundo Costa e Marli Olmos - Valor Econômico

BRASÍLIA e BUENOS AIRES - O receio de perder as ruas, em sua maioria já em poder da oposição, é o que orienta o comportamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao atacar o ajuste fiscal. Até agora, sua ênfase está no incentivo ao consumo para a retomada da atividade econômica, conselho que tem repetido por mais de uma vez à presidente Dilma Rousseff.

Ontem, em Buenos Aires, Lula voltou à carga. "Me assusta a visão de que ao primeiro sintoma de crise se fale em ajuste", que traz "perda de salário, de emprego e miséria". Segundo ele, todas as experiências nesse sentido "levaram os países ao empobrecimento".

As declarações de Lula repercutiram no PT, onde a primeira avaliação foi de que o ministro Joaquim Levy venceu o embate interno sobre a condução do ajuste. A perda do grau de investimento deixou a presidente e outros petistas encurralados e sem outra alternativa de curto prazo. Para o presidente do PT, Rui Falcão, a solução é uma só: "Mais receita do que cortes" - sinal de que o embate interno ainda não acabou.

O partido teme uma grande derrota nas eleições municipais de 2016 e tenta de todas as formas reduzir o dano causado pelo ajuste fiscal e pela Lava-Jato.

Petistas temem "perder as ruas"
O receio de perder as ruas, já em sua maioria em poder da oposição, levaram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a defender um ajuste fiscal menos rigoroso. Até agora, a ênfase de Lula era no incentivo ao consumo para a retomada da atividade econômica, conselho que repetiu por mais de uma vez à presidente Dilma Rousseff. Ontem, em palestra feita em Buenos Aires, capital da Argentina, Lula fez críticas ao ajuste, que em sua opinião traz perda de salários, de empregos "e miséria".

As declarações de Lula em Buenos Aires tiveram repercussão no PT, onde a primeira análise foi de que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, foi o vencedor do embate interno sobre a condução do ajuste. A perda do grau de investimento, segundo petistas, deu mais gás a Levy e deixou a presidente e outros petistas encurralados e sem outra alternativa de curto prazo. Para o presidente do PT, Rui Falcão, a solução é uma só: "Mais receita do que cortes", disse. Ou seja, o embate interno ainda não acabou.

As manifestações favoráveis ao governo animaram Lula, o PT e o Palácio do Planalto, muito embora tenham levado menos pessoas às ruas que os protestos contrários ao governo. Segundo estimativas das polícias, mais conservadores que às dos organizadores, os atos convocados pelo PT reuniram pelo menos 75 mil pessoas em 23 Estados.

Num momento em que a popularidade da presidente está abaixo de 10%, segundo os institutos de pesquisa, a resposta dos manifestantes foi considerada boa pelos petistas. O partido teme sofrer uma grande derrota nas eleições municipais de 2016 e procura de todas as maneiras reduzir os danos provocados pelo ajuste fiscal e pela Operação Lava-Jato, o megaesquema de corrupção descoberto na Petrobras.

Na avaliação do PT, é sua base social que impede o avanço dos adversários no projeto de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Cerca de dez mil pessoas atenderam a convocação para as manifestações no Rio, o suficiente, segundo um senador petista ouvido ontem pelo Valor, para assustar setores empresariais e de alta classe com a hipótese de "venezuelização" do país.

Não teria sido outro o motivo, segundo o mesmo senador, que levou entidades de classes empresariais e banqueiros a se manifestar favoravelmente à manutenção da presidente Dilma Rousseff. Mas tudo isso pode se esfarelar se o PT perder as ruas, que já foram majoritariamente ocupadas pela oposição - dias antes, os atos contrários ao governo Dilma levaram cerca de 900 mil pessoas em mais de 200 cidades às ruas.

Na primeira manifestação realizada após a eleição de Dilma Rousseff, na eleição de 2014, chegou a se calcular em 1 milhão o número de ativistas apenas na Avenida Paulista, em São Paulo. O protesto seguinte contou com menos gente, ainda assim considerados grandes, sobretudo nas grandes cidades.

O PT avalia que será praticamente dizimado nas capitais e nas maiores cidades, nas próximas eleições, e apostará suas fichas nos municípios menores e mais pobres, nos quais tem se mostrado forte eleitoralmente, nas últimas eleições.

Nas conversas com Dilma, o ex-presidente Lula tem aconselhado a combater a recessão com investimentos. Desde ontem, com o discurso na Argentina, reforçou a ênfase no aumento de impostos e na manutenção de investimentos. No Senado, o senador Lindbergh Farias (PT-RJ) condenou a ideia de se ampliar as faixas do Imposto de Renda, o que atingirá o eleitorado de classe média do PT, e fez duas propostas, já discutidas com o governo, para combater o déficit.

A primeira é a retomada, a partir de 2016, da tributação sobre lucros e dividendos, com uma alíquota de 15%, "e a eliminação da figura dos juros sobre o capital próprio, criado em 1995 a pretexto de atrair capitais e estimular os investimentos privados. Apenas com essas duas medidas, diz Lindbergh Farias, "podemos arrecadar até R$ 60 bilhões".

Roberto Freire - Dilma teme o povo

Um muro metálico instalado para isolar os cidadãos durante o desfile pelo Dia da Independência, na última segunda-feira (7), representa com precisão a que ponto chegou o isolamento de Dilma Rousseff e de um governo rejeitado pela esmagadora maioria dos brasileiros. O fiel e decadente retrato do Sete de Setembro presidencial mostrou ao país uma chefe de governo que já não governa, uma líder sem autoridade, uma comandante que já não comanda coisa alguma e tem medo do povo.

A estrutura formada por placas de aço, apelidada de “Muro da Vergonha” pelas pessoas que tentavam e foram impedidas de acompanhar a parada cívico-militar em Brasília, foi construída sob medida com o intuito de preservar Dilma de vaias, panelaços e qualquer tipo de manifestações que se tornaram corriqueiras nos últimos tempos. Trata-se, afinal, uma presidente que não pode sair às ruas ou se pronunciar sem ouvir em alto e bom som a indignação dos brasileiros contra o estelionato eleitoral do qual foram vítimas.

Como se não bastasse ter isolado a população e restringido os lugares nas arquibancadas para convidados, Dilma não teve coragem de convocar a tradicional cadeia de rádio e televisão, por meio da qual os presidentes da República historicamente se dirigem à nação em datas comemorativas. O Planalto optou apenas por veicular nas redes sociais um vídeo curto com um depoimento de Dilma, sem alarde, para que os panelaços não se repetissem, o que dá a dimensão do acuamento do atual governo.

Nunca antes neste país, como costuma dizer Lula, um “muro da vergonha” separou os cidadãos do presidente do país na parada de Sete de Setembro. Reeleita graças às mentiras, aos ataques desqualificados contra os adversários e ao dinheiro sujo desviado da Petrobras, Dilma enganou a população e agora não tem grandeza moral para olhar nos olhos dos brasileiros. Não se trata de esboçar um pífio “mea culpa” sem nenhuma convicção ou de jogar sobre os ombros do Congresso Nacional a responsabilidade por encontrar uma solução para o descalabro nas contas públicas – mas de reconhecer que se perderam as condições políticas e a credibilidade necessárias para governar.

Sob o comando de Dilma e do PT, a população continuará não se sentindo representada. Por mais que se construam muros de proteção, a presidente da República jamais estará a salvo dos protestos cada vez maiores e que pedem a intervenção constitucional do impeachment. Como se viu no Sete de Setembro, mesmo impedidas de assistir ao desfile, muitas pessoas mandaram seu recado por meio do já tradicional Lula inflável batizado de “Pixuleco”, desta vez acompanhado por um outro boneco que retratava Dilma com um nariz de Pinóquio – uma alusão provocativa às mentiras contumazes contadas pela presidente.

A experiência histórica ensina que muros são bons quando derrubados, jamais quando construídos. Não é erguendo barreiras, afastando a população ou se encastelando no Palácio do Planalto que Dilma Rousseff conseguirá recuperar a credibilidade e a autoridade moral que se esvaíram em meio ao descalabro e à corrupção sem fim do lulopetismo. O Brasil acordou e está de pé para exigir outros caminhos. Somente um novo governo será capaz de derrubar os muros da vergonha e fazer ruir o castelo de cartas construído pelo PT nos últimos 13 anos.

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Roberto Freire é deputado federal por São Paulo e presidente nacional do PPS

Merval Pereira - Quem te viu, quem te vê

- O Globo

A 1 º de maio de 2008, escrevi uma coluna intitulada “O moderno e o arcaico” para festejar a obtenção do grau de investimento pelo Brasil da agência de risco Standard & Poor’s. Naquele momento, comemorava- se o fato de que “a política econômica do governo Lula, baseada no tripé regime de metas de inflação, austeridade fiscal e câmbio flutuante, tendo ficado demonstrado que é de longo prazo, deu as condições para a decisão da agência de risco Standard & Poor’s de promover o país à condição de ‘ investment grade’ anunciada ontem”.

Embora a decisão tenha um cunho estritamente financeiro, comentava na ocasião, pois leva em conta apenas se um país tem condições de pagar suas dívidas, “ela tem sem dúvida um significado institucional importante, destacado em vários pronunciamentos dos porta- vozes da agência”.

Até mesmo o então presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes — hoje considerado um adversário pelo PT —, exaltava o aspecto político de uma decisão eminentemente financeira, pois “ela representa o reconhecimento de que estamos em um processo democrático maduro, em que as instituições funcionam”.

O presidente Lula aproveitou a ocasião para repetir uma frase do regime militar, e comemorou: “Ninguém segura o Brasil”. Em outra ocasião, pareceu mais centrado e disse que “temos que ter uma euforia comedida, porque o jogo tem muito tempo pela frente, e nós sabemos que estamos construindo um processo de macroeconomia neste país, que vai levar algum tempo ainda para a gente poder estar se consolidado definitivamente como uma grande nação e uma grande economia”.

Para Lula, o grau de investimento representava “uma vantagem extraordinária neste mundo globalizado”. O presidente recorreu na ocasião a uma de suas tradicionais metáforas, comparando a figura de dois trabalhadores. Um deles é um homem comportado, que cuida da família, paga o aluguel e não tem vícios. “Esse é o investment grade”, explicou Lula a seus seguidores.

O outro recebe o dinheiro, torra tudo em mesa de jogo ou bebe demais, e está quebrado. “Então, era assim que era o Brasil. O Brasil estava quebrado, não tinha credibilidade”. O moderno e o arcaico do título da coluna de 2008 analisava justamente as visões conflitantes dentro do PT a respeito da economia brasileira.

A continuidade da política econômica foi citada por FH na ocasião para criticar a tentativa de petistas de tentar um 3 º mandato para Lula. O tucano dizia que o país já alcançara desenvolvimento político para ter políticas públicas de interesse nacional e apartidárias, e não dependia de um líder específico.

Naquela ocasião, assim como agora, o que impedia uma aproximação de partidos da mesma origem social- democrata como PT e PSDB era uma visão de Estado que, ontem mesmo, Fernando Henrique relembrou na conversa que tivemos no lançamento de seu livro “A miséria da política”, no Rio. O PT tem visão do papel do Estado que é de “aparelhamento”, potencializado pela ocupação da máquina pelo espírito do sindicalismo que domina o governo.

Essas visões conflitantes fizeram com que a reforma do Estado, iniciada no governo FH, com a redução da máquina pública e a valorização das chamadas “carreiras de Estado”, fosse vista pela gestão Lula como um “desmanche” da máquina pública, o que provocou a mudança de rumo, com o aumento de mais de 200 mil cargos no funcionalismo público e um aumento de gasto com servidores acima do crescimento da economia.

Curiosamente, na mesma ocasião acontecia em Minas uma aproximação entre o governador Aécio Neves e o prefeito petista Fernando Pimentel, com a finalidade de sinalizar a possibilidade de união de políticos de partidos diferentes, mas com pontos de vista coincidentes, que permitisse vislumbrar um futuro governo formado por forças políticas com visões modernas de atuação política e da gestão pública.

Os dois consideravam que a união do PT com o PSDB seria necessária para aprovar no Congresso as reformas estruturais de que o país precisa para crescer com segurança, entre elas as da Previdência, tributária e política.

Essa aproximação, no entanto, foi vetada pela direção nacional do PT na ocasião, e o que prevaleceu de lá para cá foi o aprofundamento de uma política estatizante que abandonou aos poucos o tripé que sustentava a economia, para adotar um populismo econômico que nos levou à atual situação de perda do grau de investimento pela mesma agência Standard & Poor’s.

Mas, para o Lula de hoje, isso não tem a menor importância.

Eliane Cantanhêde - Infinita capacidade de errar

- O Estado de S. Paulo

O rebaixamento da nota do Brasil pela agência Standard & Poor’s é daquelas coisas que todo mundo e todo o mundo já esperavam, mas, na hora que acontecem, viram um deus nos acuda. O mercado reage, o Planalto finge que foi surpreendido e a oposição alardeia que “o governo acabou”, como praticamente comemorou o senador Aécio Neves.

Entre esses polos, desenrola-se o jogo puramente político, em que os atores decoram o script que lhes convém e não o que combina melhor com os interesses do País. Acuada e impotente, a área econômica registra o golpe dentro dos gabinetes e tenta providenciar explicações e novas medidas diante dos microfones.

Numa reunião de emergência, a presidente Dilma Rousseff subestimou (mais uma vez) o tamanho da encrenca: “Não é catastrófico”. O ex-presidente Lula deu de ombros: “Não significa nada”. O ministro Joaquim Levy tirou o corpo fora: “Foi uma avaliação política”.

Do outro lado, as ações da renúncia e do impeachment dispararam na Bolsa política. O ex-ministro de FHC Luiz Carlos Mendonça de Barros prevê uma “pressão insuportável” dos empresários e a renúncia de Dilma. Os líderes do assanhadíssimo grupo suprapartidário pró-impeachment já contabilizavam ontem à tarde 280 dos 347 votos necessários na Câmara para afastar a presidente.

É ou não de tirar o fôlego? Dilma parece empurrar seu governo ladeira abaixo, esforçando-se ao máximo para errar: Orçamento de 2016 com rombo de bilhões de reais, o balão de ensaio da CPMF, a tentativa de subir o IPI, o IOF e a Cide via decreto, Levy admitindo mexer no Imposto de Renda. Com o controle da montanha-russa nas mãos, o PMDB avisa: sem corte de gastos antes, nada de aumento de imposto. Faz sentido...

Com políticos, empresários, estudantes, donas de casa, profissionais liberais e todo o resto tendo ataques de perplexidade ou de cólera, só faltava cutucar a área militar com vara curta. Como revelou a repórter Tânia Monteiro, não falta mais. Certamente guiado por algum gênio do mal, o Ministério da Defesa fez publicar no Diário Oficial da União uma portaria tirando poder dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica sobre o pessoal militar para transferi-lo ao ministro Jaques Wagner, do PT.

O, ou a, gênio do mal caprichou na dose. A iniciativa é atribuída à secretária executiva da Defesa, casada com o segundo homem do MST, o “exército do Stédile”. A publicação no DO foi três dias antes da maior festa militar do ano, a parada de Sete de Setembro. E a assinatura eletrônica foi do comandante da Marinha, na condição de ministro interino, mas ele diz que nem sequer foi consultado. Um desastre.

É assim que Dilma vai se isolando mais e mais, sem apoio popular e cercada por um PMDB guloso, um Lula assustado, um Congresso hostil e o setor privado se desgarrando. E, além do desgaste da imagem do Brasil no exterior, ainda cria encrenca desnecessária justamente com as Forças Armadas.

Trancada no Planalto com Aloizio Mercadante e Edinho Silva, a presidente parece sentada nos escombros da economia, da política, da cúpula histórica do PT – e com a Lava Jato a mil por hora. Sem querer cortar gastos e sem força política para aumentar a receita, vai ter de fazer as duas coisas e pode até enxugar o Minha Casa, Minha Vida, que é o que restou do maravilhoso mundo das campanhas e vem justificando as viagens dela pelo País.

Goste-se ou não do deputado Eduardo Cunha, é dele a definição perfeita e acabada do governo Dilma Rousseff: “É o Maquiavel às avessas”. Maquiavel ensinava que o mal se faz de uma vez e o bem, a conta-gotas. Dilma faz o mal a conta-gotas e o País continua aguardando para saber qual o bem que ela é capaz de fazer. Inclusive, ou principalmente, a ela própria.

Hélio Schwartsman - Encrenca federal

- Folha de S. Paulo

O Brasil sob Dilma 2 está ficando muito parecido com o Oriente Médio: quem aposta no pior cenário nunca perde dinheiro.

A sucessão de trapalhadas políticas da presidente, com destaque para a apresentação de uma proposta orçamentária com deficit primário para 2016, foi finalmente recompensada com a retirada do selo de bom pagador pela Standard &Poor's (S&P). Como esperado, a manhã de ontem foi de muito nervosismo nos mercados, com dólar e juros subindo fortemente e a Bolsa despencando.

Se há um lado bom no rebaixamento, é que, ao nos brindar com o gostinho do que acontecerá caso o governo e o Congresso deixem que o mercado proceda ao ajuste em vez de eles mesmos o operarem, oferece uma chance para que os atores políticos se mexam e algo aconteça.

É claro que ninguém gosta de cortar aposentadorias e programas sociais. Mas, insisto, se o governo não apresentar um projeto coerente e crível que faça com que o Estado brasileiro caiba no PIB, o mercado deverá lançar o dólar e os juros nas alturas e lá mantê-los, o que inviabilizará o controle da inflação e aprofundará ainda mais a recessão. Obviamente, quem mais perde nesse cenário são os mais pobres, que acabariam ficando não só sem os benefícios mas também sem seus empregos.

O caminho para resolver a encrenca fiscal é conhecido. Passa por uma combinação de cortes de despesas (inclusive as obrigatórias) e aumento de impostos. A dificuldade para fazer passar um plano com essas características é que ninguém mais acredita no governo, que, diga-se, deu todos os motivos para a desconfiança.

O fato, porém, é que algo precisa ser feito já, ou os efeitos da crise serão piores do que o estritamente necessário. A urgência implica que não dá para excluir o Planalto das negociações. Qualquer iniciativa para afastar a presidente levaria meses, durante os quais as coisas se deteriorariam ainda mais.

César Felício - Brasil, pátria educadora

• Dilma vai tentar provar que é possível sangrar por três anos

- Valor Econômico

Calibrar a negação da realidade com a administração das expectativas da população é uma tarefa básica de todo governante em início de um mandato, ao tomar posse. Em um ambiente de competição democrática, mascaram-se os fatos durante a campanha eleitoral. É preciso alertar aos circunstantes que haverá uma correção de rumos ao se começar os trabalhos de um governo, sem admitir a fraude do ano anterior.

No instante em que se cruza de forma definitiva uma fronteira, depois da qual o governo de turno estabelece a sua marca na história, convém revisitar a carta de intenções.

No caso de Dilma, boa parte de suas vicissitudes na opinião pública se deve ao seu erro de dose. A presidente carregou na mão para se reeleger e deu uma pedalada política ao não ser clara sobre o ajuste que já estava em curso no momento em que fez a proclamação solene: "gostaria de anunciar agora o novo lema do meu governo: ele é simples, é direto e é mobilizador. Reflete com clareza qual será nossa grande prioridade e sinaliza para qual setor deve convergir o esforço de todas as áreas do governo. Nosso lema será: BRASIL, PATRIA EDUCADORA!" Assim mesmo, com letras maiúsculas, de acordo com a versão disponível no site do Palácio do Planalto.

O contingenciamento na área da educação anunciado ainda em maio e os corte pela metade nas metas do Pronatec até 2018 e das dotações para o programa "Ciência sem Fronteiras", duas iniciativas expressamente mencionadas no discurso de posse, colocam uma sombra sobre a consistência da visão estratégica do governo como um todo.

Ao mencionar um ajuste fiscal, frisou no discurso de 1º de janeiro que não estava disposta a fazer qualquer sacrifício para um ajuste nas contas públicas, mas fazê-lo com o menor sacrifício possível para a população e derrotar "a falsa tese que afirma existir um conflito entre a estabilidade econômica e o crescimento do investimento social". Oito meses depois, se torna mais evidente a dificuldade presidencial em dar o sinal de alerta. Ficava tácita, em sua dubiedade, a divisão existente dentro da própria equipe do governo.

Não houve o alerta contra o "fantástico caso da jabuticaba", mencionado na entrevista da presidente publicada ontem no Valor. Dilma, a confuciana que prefere o "caminho do meio", queixou-se das "despesas discricionárias não contingenciáveis" em saúde, educação, Bolsa-Família e benefício aos servidores, no relato da jornalista Claudia Safatle.

Dezesseis anos antes, o então presidente Fernando Henrique Cardoso também fez promessas vãs em seu discurso de posse no segundo mandato, ao proclamar não ter sido eleito para ser o gerente da crise, mas para superá-la. Disse isso no mês em que trocaria três vezes de presidente do Banco Central, perdendo sua popularidade para sempre. Mas, de todo modo, alertou que ia chover. No sentido metafórico, claro, já que o governo foi imprevidente em relação à estiagem que levou ao apagão de 2001. Disse que não hesitaria em fazer o que fosse preciso para por fim ao tormento do déficit público. "É melhor o remédio amargo que cura a doença do que a febre crônica que compromete a saúde do organismo". Doença alguma foi curada, mas Fernando Henrique não falseava quando avisou: "A taxa de desemprego poderá elevar-se."

Essa dissociação entre a Dilma que buscava votos em 2014 da atual sepulta qualquer possibilidade de recuperação em sua imagem. Perde-se a alma quando o único objetivo é se seguir vivo. É algo que congela a presidente nos 7% que tanto a incomoda, segundo a entrevista de ontem. Sua honradez pessoal, fator incontroverso, é seu principal ativo para permanecer no cargo. "Não devo nada, não fiz nada errado", sentenciou. Não há, por ora, no TCU, no STF ou no TSE elementos que a desmintam.

Há outro ativo, secundário, que ainda a preserva: está evidente que o vice-presidente Michel Temer não empolga a elite empresarial e nem política como alternativa. O vice aumentou seu protagonismo fora de Brasília e os empresários demonstraram interesse em ouvi-lo, mas entregar o poder ao PMDB não é algo que comove, sobretudo entre os setores que estavam mais atentos ao risco de um rebaixamento de crédito do país, como o feito anteontem.

Salvo no caso das medidas provisórias que afetavam diretamente direitos trabalhistas, onde a resistência maior partia do PT, esteve no PMDB o principal muro de contenção a cada passo do ajuste proposto pelo ministro da Fazenda. Há dúvidas sobre o papel de liderança de Temer em relação a Renan Calheiros e Eduardo Cunha.

Dois manifestos empresariais já foram divulgados, deixando óbvio que se vive um clima de sucessão presidencial antecipada. Um terceiro está em gestação na Sociedade Rural Brasileira, envolvendo o agronegócio. A depender da vontade do presidente da instituição, Gustavo Diniz Junqueira, será mais uma agenda na praça, disponível a quem tiver força para efetivamente governar.

A hipótese Temer ganha alguma força no Congresso, onde ontem houve o lançamento na Câmara da petição virtual pelo impeachment. Falar no processo de afastamento regulado pela Lei 1.079 é abrir caminho para o pemedebista. Quando há um mês o ar começou a se tornar rarefeito em Brasília, a iniciativa dos deputados da oposição foi propor a antecipação das eleições, um modo de dizer que não é apropriado o vice substituir a presidente.

Um eventual governo Temer depende da conjunção de dois fenômenos raros: a unificação do PMDB e do PSDB em torno de um propósito comum. São duas siglas com tendência quase irresistível à falta de solidariedade entre seus membros.

Dilma tem a seu favor a ausência de elementos concretos que a incriminem e a debilidade de seus adversários as limitações do partido que controla toda a linha sucessória. Vai tentar provar, com razoáveis chances de êxito, que é possível sangrar por três anos e meio.

Gustavo Patu - A menos ruim das hipóteses

- Folha de S. Paulo

"O ritmo lento do ajuste fiscal contribuiu para a formação de uma grande e crescente dívida", escreve a tradicional agência de classificação de risco que acaba de rebaixar a nota do Brasil.

Estamos em 3 de setembro de 1998, há quase exatos 17 anos, a agência é a Moody's e o governo que procrastina os reparos no Orçamento é o do tucano FHC, em campanha pela reeleição. O país não contava com o selo de bom pagador: estava sendo rebaixado de investimento inseguro para ainda mais inseguro.

Um pacote de dezenas de medidas havia sido editado meses antes, incluindo invencionices como redução de gastos administrativos, suspensão de reajustes salariais e cortes de bolsas de estudo. Uma das poucas providências a sair do papel foi a elevação "temporária" –em vigor até hoje– da alíquota máxima do Imposto de Renda, de 25% para 27,5%.

Enquanto a Bolsa de Valores desaba, o governo se diz surpreso com o rebaixamento, que considera precipitado. O Planalto fala em um pacto pelo ajuste fiscal, mas o reequilíbrio das contas só virá no ano seguinte, após uma disparada do dólar.

A alíquota da CPMF, o tributo "provisório" sobre a movimentação financeira, é praticamente duplicada. Até o final da administração tucana seria introduzida ainda a Cide sobre a gasolina e outros combustíveis. É prometida uma reforma tributária, que não vai para a frente.

A experiência ensina que:

1) o governo subestima riscos e adia ajustes o quanto pode; só se move quando o dólar dispara;

2) cortes de gastos administrativos, venda de imóveis e outras miudezas são conversa fiada;

3) aumento temporário de imposto é conversa fiada;

4) as opções mudaram pouco em duas décadas: IR, CPMF, Cide;

5) um acordo político mínimo em torno de mais um aumento da carga tributária já é uma perspectiva otimista para o cenário atual.

Fernando Gabeira - Corda em casa de enforcado

- O Estado de S. Paulo

Temer falou que Dilma não se mantém no governo com o baixo índice de popularidade. Foi um deus-nos-acuda. Não se fala em corda em casa de enforcado.

O governo só pensa em sobreviver, e paradoxalmente, cava seu próprio abismo. Não me refiro apenas às notícias ruins que os dados econômicos nos transmitem. Refiro-me à performance autodestrutiva do governo. Dilma viveu um 7 de Setembro isolada por placas de ferro, não teve condições de se dirigir ao País, com hora marcada na televisão.

No entanto, na véspera, acordou com uma ideia genial: vou sacanear os militares. Eles estão muito quietos. E assinou um decreto reduzindo os poderes dos comandos das Forças Armadas. Às vezes fico pensando se não é uma tática. Mas não consigo entender sua lógica. Como Dilma não é uma articuladora diabólica, prefiro pensar que é só incapacidade.

Levy, em Paris, disse que a elevação do Imposto de Renda pode ser um caminho para cobrir o rombo fiscal. É ou não é um caminho?

Ele vai apanhar muito por sua ideia. E talvez nem chegue a apresentá-la. Qualquer Maquiavel de botequim o aconselharia ou a fazer de uma vez ou, então, silenciar.

O erro de Levy ainda se pode explicar pelo desespero de buscar recursos para um Orçamento estourado. Mas é um erro que encobre outro maior: a ideia de aumentar impostos depois de o governo ter perdido a credibilidade.

O raciocínio de Temer, que deu inúmeras explicações sobre a frase, completava-se com a expectativa de que a crise seria superada e Dilma iria recuperar um nível de popularidade”razoável”. Mas é a própria expectativa de Temer que não é razoável. Como Dilma vai recuperar a popularidade? Como vai conduzir a recuperação econômica? Como uma presidente sem experiência política vai fazer a travessia, uma vez que a maioria a considera mentirosa e responsável pelo buraco em que nos metemos?

As raposas do PMDB diriam: para bom entendedor meia palavra basta. Não é bem assim. Carlos Lacerda, no livro República das Abelhas, dizia que o Brasil parecia um homem que foi bêbado para a cama, dormiu pouco e mal, mas precisa acordar bem cedo pela manhã. Você tem de sacudi-lo, estapeá-lo. Se ficar fazendo festinha, ele não se levanta.

Lacerda apoiou alguns socos abaixo da linha da cintura, como o golpe militar de 64. Mas sua frase me fez refletir um pouco sobre esse possível despertar do Brasil.
Os fatos negativos se sucedem. Essa incrível quantidade levará a um salto de qualidade por si própria? Ou vai surgir da esfera da política, no sentido mais amplo, o impulso para que o salto se dê?

As manifestações de 16 de agosto indicaram uma grande confiança na Operação Lava Jato. Uma confiança merecida. No entanto, será que ela basta?

Estamos entrando numa crise de longa duração. Quanto mais tempo perdermos, mais vamos impor ao País, inclusive às novas gerações, grandes dificuldades futuras.

Será preciso uma intervenção maior da sociedade. De todas as maneiras. Em Nova York o cantor Fábio Junior denunciou a quadrilha que domina o Brasil. Alguns discutiram os termos do protesto, o público do cantor, seus recursos estéticos. Mas o cantor e os brasileiros que estavam lá, não importa sua opção estética, são morenos como nós, pagam impostos, têm sonhos e gostam do Brasil. Eles se manifestaram como inúmeros outros o fazem aqui, dentro do País.

Essa pressão social sobre um governo incapaz funciona como algumas sacudidas para o País acordar. Mas como um homem que dormiu tarde e precisa acordar cedo, será preciso ainda mais.

Já está ficando ridícula essa história de Dilma se desculpar pela metade. O governo não tem de responder apenas pelos seus erros, que ela nem admite completamente, usando o condicional: se cometi erros, é possível... Ora, os governos de Dilma e Lula estão na iminência de responder por crimes, no petrolão e nas campanhas presidenciais.

Nesse emaranhado de problemas, há os que, como Temer, têm uma expectativa de que Dilma faça a travessia. Ninguém, no entanto, é capaz de analisar desafio por desafio e nos convencer de como ela vai superá-los.

Da crença num suposto respeito à legalidade eleitoral, desloca-se rapidamente para a crença num milagre. Esperam que Dilma acorde renovada e conduza a grande travessia. Aí, ela acorda invocada e vai mexer com os militares – que, por sinal, foram bastante discretos na reação.

A cada semana inventam um novo imposto. A cada semana fracassam. O governo é um Sísifo ao contrário. Sísifo pelo menos, segundo a lenda, levava a pedra até o alto da montanha e a recolocava incessantemente. O governo está no alto da montanha jogando pedra para baixo. Quebrou o País, dirigi-lo tornou-se uma responsabilidade tão áspera que a própria oposição hesita em assumi-la.

Então, como vamos sair dessa? As pessoas na rua pedem impeachment, de uma forma que as vezes me preocupa. Acham que o impeachment vai resolver todos os problemas. Na verdade, é só um passo. Se as forças políticas não conseguem discutir nem o impeachment, abertamente, o que dirá de um programa nacional para se sair da crise?

Muitos analistas concordam que a crise pode levar-nos a um retrocesso, dependendo da maneira como a enfrentamos. O problema é que nem sequer a estamos enfrentando de forma coordenada. Essa lentidão pode nos custar alguns anos a mais de sufoco.

Dilma naufragou no oceano de suas mentiras, nas correntes geladas da crise, na trajetória de delinquência institucional do PT. No momento, somos como um barco de refugiados à deriva no Mediterrâneo.

Não podemos naufragar, nem esperar resgate. Somos grandes demais para a Europa, ou qualquer outro continente. Ou nadamos ou afundamos.
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*Fernando Gabeira é jornalista

Vinicius Torres Freire - A travessia: a ponte caiu

• Governo tem dias para conter a jornada nas estrelas dos juros e evitar recessão catastrófica

- Folha de S. Paulo

"Não é catastrófico". O aumento do descrédito do governo e de suas empresas "não é catastrófico", disse a presidente Dilma na reunião em que discutiu com seus principais ministros a degradação recente da economia, de acordo com o que foi vazado para jornalistas.

Adjetivos ficam ao gosto do freguês. O que estão pensando os donos do dinheiro grosso, videntes e demiurgos de catástrofes?

Considere-se um termômetro sintético e "pop" da febre da catástrofe: o dólar. Nas previsões mais amenas, para em R$ 4 no final deste ano e em R$ 4,30 no fim de 2016. Há piores. Para ficar no mais simples, dólar mais alto implica inflação maior, se nada mais mudar.

Os economistas do Itaú, por exemplo, até moderados, acreditam agora que a inflação de 2016 caia apenas a 6,5% (de 9,5%). O Banco Central esperava que sua campanha de alta de juros levasse a inflação a 4,5%; os povos dos mercados, até faz pouco, acreditavam em 5,5%, o que já estaria "bom ruim". Agora, é ruim, ruim.

Com inflação ainda alta assim, a queda da taxa "básica" de juros, "os juros do BC", de curto prazo, fica para as cucuias das calendas, para o início de 2017. Isto posto e o conjunto da obra, o pessoal do Itaú previa ontem que o PIB deve encolher mais, 2,8% em 2015 e 1,2% em 2016.

Nesse caso, no triênio de 2014-2016, o PIB per capita, a produção ou a renda da economia por cabeça, cairia 6,2%, perto dos 6,4% do triênio de hiperinflação e desgoverno terminais de Sarney, 1988-1990. O que seria catastrófico? Chegar ao ponto do triênio de Collor, 1990-1992, quando o PIB per capita encolheu 8,4%?

Sim, o futuro depende bem de acaso, previsões são o que sabemos e, enfim, o que há de vir depende de não entregarmos os pontos.

O futuro é incerto, mas convém considerar que é muito grande o risco de descrédito ainda maior do país, de rebaixamentos da nota de crédito por outras dessas empresas de avaliação de risco de calote. Isto significa altas maiores de juros no mercado e altas extras do dólar. Quem vai se arriscar a ficar com títulos da dívida brasileira e reais, que assim perderiam valor, para simplificar a coisa? Logo, é possível esperar desvalorizações maiores.

As taxas de juros de curto e longo prazo continuavam ontem sua viagem nas estrelas, caminho que tomaram de vez desde 22 de julho, quando o governo reduziu sua meta de superavit primário do equivalente a 1,1% do PIB para 0,15% (trata-se da diferença entre receita e despesa, afora o gasto com juros. Em dinheiro, uma redução da "poupança" de R$ 63 bilhões para R$ 9 bilhões).

Para quem não acompanha essas coisas, grosso modo essa decisão passou a ideia de que a dívida do governo continuaria a subir sem limite. Como se sabe, quem mais precisa, quem deve mais, paga juros mais altos. E assim foi. A taxa real de juros de curto prazo (um ano, "ex ante") subiu de 7,4% em 22 de julho para 8% quando o governo anunciou o Orçamento deficitário e passava ontem dos 9%.

Por falar em previsão e déficit, macroeconomistas do Itaú ora acreditam em deficit primário de 1% do PIB em 2016. No Orçamento "transparente" de roto, o governo previa déficit de 0,5% do PIB, mas vai "construir uma solução" que dê em superávit de 0,7%. Do número que sair dessa loteria é que depende o tamanho do desastre. Ou da catástrofe.

Rogério Furquim Werneck - Adeus às ilusões

• Levy constata que ocupa um vértice de triângulo, em que os outros dois estão ocupados por ministros que dele divergem

- O Globo

Logo após a eleição presidencial, o desalento com as perspectivas do novo governo tornou-se ainda maior do que durante a campanha eleitoral, em face da insistência do Planalto em não reconhecer a necessidade de alterar a política econômica. Particularmente preocupantes, naquele momento, foram as manifestações sobre a condução da política econômica feitas por Aloizio Mercadante, ministro-chefe da Casa Civil, com anuência tácita da presidente.

Vale a pena ver de novo, na GloboNews, a espantosa entrevista concedida por Mercadante a Míriam Leitão, no Palácio do Planalto, em 13 de novembro de 2014, que deu ensejo a artigo que publiquei neste mesmo espaço em 21 de novembro de 2014, disponível em http://migre.me/rujrp

Pouco antes, em reunião com a bancada petista na Câmara, o ministro-chefe da Casa Civil já não deixara dúvida sobre o que apregoava para o novo mandato: “A política econômica do segundo governo não pode ser a que foi derrotada. A nossa prioridade é emprego e renda. A nossa agenda não é a do mercado”. (O GLOBO, 14 de novembro)

Uma semana depois, em 21 de novembro, contudo, noticiou-se que a presidente Dilma, pressionada por Lula a mudar a política econômica, decidira convidar Joaquim Levy para o cargo de ministro da Fazenda. A notícia foi saudada como sinal de que o governo finalmente se dera conta da necessidade de abandonar o curso desastroso que seguira no primeiro mandato. Com o comando da política econômica entregue a Joaquim Levy, tudo parecia indicar que, afinal, as despropositadas ideias vocalizadas por Mercadante não prevaleceriam.

Por exatos oito meses, o país agarrou-se a essa fantasia. As ilusões começaram a se esvair em 21 de julho, quando o governo anunciou que abandonara por completo a meta de superávit primário de 1,17% do PIB para 2015. E que, com sorte, talvez pudesse cumprir meta “mais realista”, oito vezes menor, de 0,15% do PIB.

Aos mais atentos, não terá escapado esclarecimento importante feito pelo ministro Nelson Barbosa, dias depois, em entrevista sobre a redução da meta fiscal, no “Estadão” de 24 de julho: “Toda a equipe econômica, que aliás não se resume aos ministérios da Fazenda e do Planejamento, e inclui, nesse caso, a Casa Civil, está trabalhando conjuntamente para ter reequilíbrio fiscal mais rápido possível”. Era o anúncio oficial de que Mercadante passara a integrar a equipe econômica do governo.

Nelson Barbosa não perdeu a oportunidade de insistir no mesmo ponto, na sua entrevista a Míriam Leitão, na GloboNews, na semana passada. Para tentar relativizar seus desentendimentos com o ministro Joaquim Levy, voltou a apelar para a geometria variável da equipe econômica. Por mais de uma vez, enfatizou que a proposta orçamentária deficitária encaminhada ao Congresso era “de toda a equipe econômica”, desdobrada nas equipes do Planejamento, da Fazenda “e também da Casa Civil”.

Nas últimas semanas ficou claro que essa reconfiguração deixou o ministro da Fazenda em posição muito desfavorável. A expectativa de que a disputa de poder dentro da equipe econômica estaria pautada pelo velho embate bilateral Fazenda-Planejamento revelou-se infundada. Levy constata agora que passou a ocupar um dos vértices de um triângulo, em que os outros dois estão ocupados por ministros que dele divergem e que contam com respaldo inequívoco da presidente.

Mercadante assumiu, afinal, o papel que, em novembro, se temia que pudesse vir a assumir. E, mesmo hostilizado por Lula e grande parte do PT, antagonizado pelo PMDB e às voltas com uma possível investigação no STF, parece ter consolidado sua posição no Palácio, como alter-ego de Dilma, num momento que a presidente, isolada e fragilizada, se vê cada vez mais acuada no bunker do Planalto.

Para todos os efeitos, é como se o terceiro vértice do triângulo estivesse ocupado pela própria presidente. É a volta à ingerência direta e ostensiva de Dilma na condução da política econômica. A desastrada precipitação da perda do grau de investimento é só o prenúncio do que vem por aí.
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Rogério Furquim Werneck é economista e professor da PUC-Rio

Nelson Motta - O poder da galhofa

• Como imaginar que alguém que se expressa de forma tão confusa tenha um pensamento organizado e lógico sobre um tema complexo?

- O Globo

A galhofa é um traço marcante do espírito brasileiro, e se manifesta até nas grandes adversidades e em momentos dramáticos, como uma forma de desmoralizar o sofrimento, a raiva e a frustração. Sinaliza o fim do jogo, a derrota sem honra, a retirada sem dignidade. O riso e o deboche anunciam o fim de uma era e a saída de cena de seus protagonistas sob vaias da plateia.

Os bonecos de Lula presidiário e de Dilma com nariz de Pinóquio os atingem em cheio onde mais temiam. No início da crise e ameaçando entrar na guerra, Lula disse que suportaria tudo, menos ser chamado de ladrão. E Dilma, que até FH reconhece como honrada e nem a oposição mais feroz acusa de roubar, para 93% dos brasileiros é mentirosa. Não há crescimento econômico nem marketing que façam um mentiroso voltar a ser acreditado.

O que preocupa em Dilma é a conexão entre a sua forma de falar e o seu pensamento. Como imaginar que alguém que se expressa de forma tão tortuosa e confusa, mesmo nos assuntos mais simples, tenha um pensamento organizado e lógico sobre um tema mais complexo? Não é questão de oratória, talvez de neurolinguística, sintetizada na piada do “Piaui Herald”: “Dilma faz delação premiada, mas PF não compreende nada”.

Dilma detesta privatizações e faz concessões de serviços públicos a contragosto, não gosta de nada que diminua o tamanho e poder do Estado. Será que ela nunca percebeu que um escândalo como o da Petrobras nunca aconteceria numa empresa privada do mesmo porte? Quadrilha de políticos e empreiteiros rouba Shell em bilhões de dólares! Valor de mercado cai pela metade com o escândalo Shellão... rsrs.

Claro, isso só acontece em empresas estatais; são 140 controladas pelo governo, dominadas pelo poder político e pelo aparelhamento partidário, usadas para tapar rombos e financiar campanhas. A maior inimiga da corrupção é a privatização.

Se a Petrobras tivesse sido privatizada em 2002, como Lula acusava Alckmin de tramar, não haveria petrolão. Mas nosso nacionalismo prefere ser roubado por patrícios a fazer boas parcerias internacionais ou pagar a estrangeiros por bons serviços.

A marca da irresponsabilidade – Editorial / O Estado de S. Paulo

Mais um desastre foi adicionado à coleção da presidente Dilma Rousseff, com o rebaixamento dos títulos brasileiros à condição de “junk bonds”, isto é, papéis lixo, pela Standard &Poor’s (S&P). Essa foi a primeira agência de classificação de risco a elevar o Brasil ao grau de investimento, em 2008. Agora é a primeira a rebaixá-lo. Se mais uma reduzir o País ao grau especulativo, muitos fundos estrangeiros ficarão proibidos de aplicar dinheiro em títulos da dívida brasileira. Mas consequências bem ruins virão antes disso, como já prenunciou o novo salto da cotação do dólar ontem. Como era previsível, o cenário de mais esse fracasso petista foi abrilhantado por um notável comentário do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O corte da nota brasileira nada significa, disse ele em Buenos Aires, onde participava do – quem diria? – Terceiro Congresso Internacional de Responsabilidade.

Vale a pena citar a nova declaração de Lula especialmente porque em 2008 ele celebrou, no Nordeste, o ingresso do Brasil na faixa dos países considerados confiáveis. “O Brasil foi declarado um país sério”, disse ele. “O povo brasileiro”, acrescentou, “esperou por este momento anos e anos.” Lula também comparou o novo status do Brasil ao de um chefe de família responsável, em contraste com quem desperdiça o dinheiro em jogo e cachaça. A julgar por essa imagem, a atração da cachaça e do jogo acabou prevalecendo e o governo está de novo na gandaia.

A seriedade durou quase nada. A política anticrise iniciada em 2008 e mantida de forma justificável em 2009 alongou-se, virou gastança e degenerou num festival de favores, de estímulo irresponsável ao consumo e de endividamento, num ambiente de tolerância à inflação e de maquiagem de contas e de preços. A orgia de corrupção desvendada pela Operação Lava Jato e os desmandos na gestão da Petrobrás e de outras estatais completaram a catástrofe.

A presidente Dilma Rousseff teria de enfrentar no segundo mandato as consequências dos erros cometidos no primeiro – inflação bem acima dos padrões internacionais, recessão, indústria emperrada, contas públicas em frangalhos, déficit público muito maior que a média encontrada nos países europeus e dívida avançando velozmente para 70% do PIB. Oito meses depois da posse a presidente enviou ao Congresso um projeto de Orçamento com R$ 30,5 bilhões de déficit, um retrato da incompetência, da bagunça e da fraqueza política e gerencial de Dilma Rousseff.

A explicação da S&P para a decisão de cortar a nota brasileira resume esses fatos. O relatório distribuído pela agência menciona as dificuldades políticas do governo, a proposta orçamentária com nova mudança do resultado fiscal (seis semanas depois da última alteração da meta) e o risco de novo rebaixamento. Há uma chance em três, segundo o documento, de um novo rebaixamento em consequência de uma nova piora da posição fiscal e das condições políticas. As pressões internas no gabinete presidencial são citadas entre os fatores de incerteza.

Enquanto a S&P divulgava a reclassificação do Brasil, a presidente dava entrevista ao jornal Valor (ver editorial abaixo) e prometia medidas para garantir em 2016 um superávit primário equivalente a 0,7% do PIB, necessário ao pagamento de pelo menos uma pequena parcela dos juros da dívida pública. Dois dias antes, na Europa, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, havia lembrado, em contato com a imprensa, o risco de rebaixamento e da nota e as consequências disso para a retomada do crescimento econômico. Em Brasília, a presidente e seus auxiliares próximos, incluído o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, pareciam haver esquecido ou menosprezado esse perigo. Foram lembrados disso, da maneira mais penosa, ao anoitecer de quarta-feira.

Mesmo sem rebaixamento por outras agências, o estrago é considerável e impõe à presidente dois desafios bem maiores que o de elaborar um programa de ajuste. O primeiro é o desafio de entender o tamanho da crise. O segundo é o de assumir de fato o governo.

Riscos do passado – Editorial / Folha de S. Paulo

• Agência rebaixa nota de crédito do Brasil e tira do país o selo de bom pagador, trazendo de volta um tempo que se pensava superado

Embora não se imaginasse que uma decisão como essa fosse tomada por estes meses, não chegou a constituir surpresa a iniciativa da agência de classificação de risco Standard &Poor's (S&P) de retirar o selo de bom pagador do Brasil. Trata-se de desfecho quase lógico para a sequência de erros dos governos Dilma Rousseff (PT).

O corte da nota de crédito apenas tornou oficial uma situação já estabelecida na prática: aos olhos dos investidores, o Brasil se tornou um país pouco confiável, algo tão vexatório quanto preocupante. Quem ainda se dispõe a trazer dinheiro para cá cobra juros cada vez maiores como forma de compensar os riscos assumidos.

O raciocínio também se aplica a empresas. Nesta quinta-feira (10), um dia depois de rebaixar o país, a S&P diminuiu a classificação de 31 companhias brasileiras; 24 delas perderam o grau de investimento, incluindo Eletrobras e Petrobras –a petrolífera sentirá efeitos especialmente danosos, pois se encontra pressionada por gigantesca dívida.

Para piorar, a S&P não só passou o país e essas estatais para a categoria considerada especulativa mas também carimbou as notas com perspectiva negativa, indicando a possibilidade de novos rebaixamentos –o grau especulativo dessa agência se divide em 12 níveis, e o Brasil, ao menos por ora, está no mais elevado deles.

Defensores do governo poderão lembrar que companhias de classificação de risco, como a norte-americana S&P, perderam parte de sua credibilidade por não terem antevisto a crise de 2008 nos EUA.

Será, de todo modo, um argumento retórico; o fato é que investidores levam em conta tais avaliações antes de dar destino a seus recursos. Muitos deles têm limitações estatutárias para escolher países considerados especulativos por duas das três grandes agências.

Por enquanto, Moody's e Fitch parecem não ter intenção de retirar do Brasil o atestado de bom pagador, mas nada impede que venham a fazê-lo. A gestão Dilma não se cansa de dar motivos para isso.

A S&P, por exemplo, mencionou a apresentação pelo governo de um Orçamento deficitário para 2016. A projeção de rombo de R$ 30,5 bilhões foi, de fato, demonstração cabal de que o Planalto não tem um plano para estancar a deterioração das contas.

A tentativa do Executivo de transferir ao Congresso a tarefa de achar uma saída foi um desastre. Além de isolar ainda mais a presidente, evidenciou o quanto o governo tropeça na falta de coordenação entre os ministros da área econômica. Surpreende que ainda tenham força setores que defendem a ampliação dos gastos públicos.

Enquanto a administração Dilma Rousseff parece não saber o que fazer diante da crise, as condições se deterioram e consolida-se a expectativa de recessão até 2016. O país retrocede a um tempo que se acreditava superado, quando o risco de calote do governo dominava o cenário econômico.

Uma obra pela qual Lula e Dilma são responsáveis – Editorial / O Globo

• A melhor alternativa para reduzir os danos do rebaixamento da nota de risco do país é formular-se um projeto sério de ajuste por meio do corte de despesas

A reclassificação da nota do Brasil, feita em abril de 2008 pela agência de avaliação de risco Standard&Poor’s, para “grau de investimento", atestado positivo a quem desejasse adquirir títulos do país, foi recebida com o ufanismo petista característico pelo então presidente Lula — “somos um país sério". Sete anos depois, a mesma S&P rebaixa a nota brasileira para o nível de “junk”, lixo, e ainda estabelece um viés negativo, primeiro passo para novo rebaixamento. Neste meio tempo, transcorreu uma ilustrativa história.

A erosão da imagem do Brasil como parceiro de negócios neste mundo globalizado vinha sendo um trabalho meticuloso, já em curso desde o final do primeiro mandato de Lula, em 2005, quando Dilma Rousseff foi nomeada chefe da Casa Civil, no lugar de José Dirceu, avariado pela denúncia do mensalão.

Ali, a futura presidente já demonstrara considerar equilíbrio fiscal mania de economista conservador, “neoliberal”. Foi o que, na essência, disse quando tachou de “rudimentar” sensata proposta formulada pelos colegas Antonio Palocci (Fazenda) e Paulo Bernardo (Planejamento), para fazer as despesas públicas avançarem numa velocidade menor que o PIB.

Cinco meses depois de o Brasil receber o selo de grau de investimento, começou a ruir nos Estados Unidos o banco Lehman Brothers, desestabilizado pelo estouro da bolha imobiliária. Era o marco histórico do início da maior crise mundial desde 1929/30. E surgia o pretexto para Dilma, ainda ministra, mas já com Guido Mantega na Fazenda, desembrulhar junto a Lula a política ruinosa do “novo marco macro econômico", razão da quebra fiscal do Brasil: injeção de recursos de dívida pública no BNDES, consequente aumento da dívida bruta, fim do superávit primário etc. Era o conhecido “pau na máquina", apresentado pelo lulopetista como “política anticíclica”.

A escolha para o Ministério da Fazenda de Joaquim Levy, secretário do Tesouro no adequado ajuste feito na primeira fase do mandato inicial de Lula, foi um sinal positivo que levou à suposição de que a presidente aprendera a lição de que contas públicas necessitam de equilíbrio depois da fase “anticíclica”. O rebaixamento pela S&P mostra que a conversão dela à sensatez econômica não foi convincente.

Reconheça-se que a crise política não ajuda na solução dos sérios desequilíbrios nas contas públicas. Mas também o Planalto contribuiu bastante para o rebaixamento, por não se definir por um ajuste real, via cortes de despesas. Sequer disfarçou a preferência pela moderação do ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, próximo ao PT.

Não se deve cobrar de Levy o rebaixamento, por ele não ter alegadamente convencido a S&P — outras grandes agências devem ir pelo mesmo caminho — a dar mais um tempo ao Brasil. Na verdade, foi dado, mas não aproveitado. À apresentação de um Orçamento com um déficit de 0,35% do PIB, um exercício de alguma transparência, não se seguiu qualquer proposta séria e efetiva de ajuste. Apenas, e desgraçadamente, declarações desencontradas da presidente. Ora, contra cortes; ora, na direção contrária, reflexo de culpas ideológicas. A S&P, em seu comunicado, fez sintomática referência aos desencontros no Ministério de Dilma. Alimentados por ela, acrescente-se.

Consumado o estrago, com péssimos reflexos no câmbio, na inflação, nos juros e, consequentemente, na recessão, é cuidar de reduzir os danos e, enfim, propor ao Congresso um firme e correto plano de ajuste pelas despesas, sem sacrificar ainda mais o contribuinte. Até porque será contraproducente, dado o já enorme peso da carga tributária,

Na reunião de ontem com ministros e o vice-presidente Michel Temer, Dilma pediu urgência na definição de cortes no Orçamento, em busca de um superávit no ano que vem de 0,7% do PIB, pelo qual se bate Levy. É acertada a determinação da presidente. Mas como ela já voltou atrás nessa questão algumas vezes, trata-se de esperar para se ter certeza do efeito pedagógico do rebaixamento do país.

Congresso precisa estar à altura dos desafios da crise – Editorial / Valor Econômico

O rebaixamento da nota de crédito do Brasil pela empresa de rating Standard & Poor's era uma questão de tempo - e um precioso tempo foi desperdiçado pela indecisão do governo em relação ao ajuste fiscal. Agora, não há mais como tergiversar a questão. A Moody's colocou o país em perspectiva negativa e, de novo, se nada for feito, o Brasil terá "downgrade" duplo e perderá grande parte dos recursos de investidores institucionais, que são obrigados a se guiar pelas avaliação pelas empresas de classificação de risco. Não só investimentos deixam de vir. O cenário macroeconômico, pelos movimentos dos mercados financeiros ontem, se deteriorou significativamente, com juros futuros e dólar em alta, inflação caminhando de volta para o teto da meta em 2016 e mais recessão.

O comunicado da S&P menciona duas fraquezas básicas já apontadas por grande parte dos analistas brasileiros. A primeira é a "redução na convicção quanto à política fiscal no gabinete da presidente". Depois, os efeitos da Lava-Jato prejudicaram as "dinâmicas de coesão e coalizão de curto prazo". Dessa forma, mesmo com um meta fiscal mais frouxa, o "enfraquecimento das dinâmicas de coalizão entre o PT e o PMDB representa um fraco prenúncio de aprovação de medidas".

Assim, o governo não conseguirá evitar estragos maiores aos já feitos à economia sem definir um rumo claro, ter uma equipe coesa e determinada a perseguí-lo e persistente em sua execução. Da mesma forma, papel primordial caberá ao Congresso, em cujas mãos também está a responsabilidade por apontar soluções para a crise e respaldar, no que considerar justo, as medidas que o Executivo enviar para sua apreciação.

No primeiro ponto, a entrevista da presidente Dilma Rousseff ao Valor, na edição de ontem, a questão parece encaminhada. A presidente disse claramente que é importante cumprir a meta de superávit de 0,7% do PIB, que o ministro da Fazenda conta com seu apoio para tanto e que a forma de fazê-lo conterá um esforço adicional de corte de despesas, inclusive obrigatórias, e outro do lado das receitas, com aumento de impostos.

Com o aprofundamento da recessão, e a perspectiva de sua continuidade por tempo prolongado, é igualmente imprescindível que o Congresso dê os meios ao Executivo para retirar o país da crise que provocou. Pautas-bomba na Câmara, desorientação da coordenação política do governo e irresponsabilidade da oposição, que votou projetos prejudiciais à nação contra seus princípios é uma combinação perfeita para o desastre. É possível mudar essa situação com sinceras e amplas negociações.

As lideranças das duas Casas, sob controle do PMDB, têm relutado, refletindo sentimentos de seus pares, a assumir a cota do sacrifício que um aumento de impostos, a esta altura inevitável, trará. A legenda e os partidos que eram aliados ao governo, querem, e com toda razão, que o governo indique antes os cortes que pretende fazer, mostre um esforço genuíno nessa rota, para depois examinar a elevação de tributos.

O ministro Joaquim Levy sugeriu ontem a necessidade de uma "ponte fiscal" para a travessia de volta do crescimento, e os partidos deveriam, em negociações claras, se o programa de ajuste for razoável, construir com o Executivo uma "ponte" de governabilidade. Não se trata de abonar os erros do governo e do PT nem de, com isso, supostamente garantir a competitividade do partido no poder nas próximas eleições. A esta altura parece certo que a presidente passará os quatro anos de seu último mandato consertando os desacertos do primeiro - e é importante para o país que consiga.

Há tempos muito difíceis pela frente e o Congresso precisa estar à altura dos desafios. É necessário que ele negocie e busque consensos em uma situação de emergência. É urgente restaurar o equilíbrio das contas públicas, com cortes profundos nos gastos. Se o aumento de impostos é um mal inevitável, devem vir na menor dose possível. Além disso, o governo acena com reformas de mais fôlego, como a do ICMS, simplificação do PIS-Cofins e nas regras de aposentadoria que merecem apoio. As linhas gerais do programa oficial de ajuste não são estranhas à oposição. Boa parte das medidas seria tomada por um governo do PSDB, se tivesse vencido as eleições.

Dar uma chance ao governo de realizar um ajuste razoável, significa abreviar a recessão e os grandes sacrifícios que ela traz. A responsabilidade por sua execução, e sucesso ou fracasso, são inteiramente do Executivo.

Casuarina - Ponto de Vista

Mario Sá Carneiro - Cinco Horas

Minha mesa no Café,
Quero-lhe tanto... A garrida
Toda de pedra brunida
Que linda e fresca é!

Um sifão verde no meio
E, ao seu lado, a fosforeira
Diante ao meu copo cheio
Duma bebida ligeira.

(Eu bani sempre os licores
Que acho pouco ornamentais:
Os xaropes têm cores
Mais vivas e mais brutais.)

Sobre ela posso escrever
Os meu versos prateados,
Com estranheza dos criados
Que me olham sem perceber...

Sobre ela descanso os braços
Numa atitude alheada,
Buscando pelo ar os traços
Da minha vida passada.

Ou acendendo cigarros,
— Pois há um ano que fumo —
Imaginário presumo
Os meus enredos bizarros.

(E se acaso em minha frente
Uma linda mulher brilha,
O fumo da cigarrilha
Vai beijá-la, claramente)

Um novo freguês que entra
É novo actor no tablado,
Que o meu olhar fatigado
Nele outro enredo concentra.

É o carmim daquela boca
Que ao fundo descubro, triste,
Na minha idéia persiste
E nunca mais se desloca.

Cinge tais futilidades
A minha recordação,
E destes vislumbres são
As minhas maiores saudades...

(Que história de Oiro tão bela
Na minha vida abortou:
Eu fui herói de novela
Que autor nenhum empregou...)

Nos cafés espero a vida
Que nunca vem ter comigo:
— Não me faz nenhum castigo,
Que o tempo passa em corrida.

Passar tempo é o meu fito,
Ideal que só me resta:
Pra mim não há melhor festa,
Nem mais nada acho bonito.

— Cafés da minha preguiça,
Sois hoje — que galardão! —
Todo o meu campo de acção
E toda minha cobiça.