domingo, 29 de maio de 2022

Luiz Carlos Azedo: De quando as ofensas levam à ruína política

Correio Braziliense

Em desvantagem nas pesquisas, declarações de Bolsonaro reforçam as suspeitas de que prepara um golpe de estado para se manter no poder, caso perca as eleições. É um momento perigoso

No embalo das pesquisas e dando sequência à coluna de sexta-feira (Quando a fortuna governa a política, e a virtude, não), voltamos ao clássico dos clássicos da política, O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, para falar do governo Bolsonaro e das próximas eleições. O astuto florentino foi associado ao vale tudo na política por uma frase que lhe é atribuída, mas que nunca dissera: “Os fins justificam os meios”. Essa interpretação errônea (ou de má-fé) é fruto do seu realismo, ao desvincular o Estado do Direito Divino.

É lugar comum o conselho atribuído a Maquiavel de que o mal deve ser feito de uma só vez. “Por isso, é de notar-se que, ao ocupar um Estado, deve o conquistador exercer todas aquelas ofensas que se lhe tornem necessárias, fazendo-as todas a um tempo só para não precisar renová-las a cada dia e poder, assim, dar segurança aos homens e conquistá-los com benefícios. Quem age diversamente, ou por timidez ou por mau conselho, tem sempre necessidade de conservar a faca na mão, não podendo nunca confiar em seus súditos, pois que estes nele também não podem ter confiança diante das novas e contínuas injúrias”.

Eliane Cantanhêde: Bolsonaro e pesquisas na berlinda

O Estado de S. Paulo

Bolsonaro parou de crescer, com rejeição alta, confiança baixa e pouca margem para reagir

O ex-presidente Lula já previa o resultado muito favorável a ele na pesquisa Datafolha, mas o presidente Jair Bolsonaro não tinha ideia das más notícias que estavam a caminho. Lula tem chance de vencer no primeiro turno e Bolsonaro, que parou de crescer, empacou com rejeição alta, nível de confiança baixo e pouca margem para reagir.

Lula já esperava bons dados porque Marcos Coimbra, do Vox Populi, tinha feito um cruzamento das diferentes pesquisas, com tendência favorável ao petista na intenção de voto geral e em praticamente todos os recortes: regional, gênero, rejeição… Bolsonaro, que insiste em pregar para convertidos, foi pego de surpresa. Os petistas ocuparam a internet nas 24 horas seguintes e os bolsonaristas, sempre ativos e agressivos, se recolheram. Não tinham o que dizer.

No cruzamento do Vox Populi, o petista só perdia em três pequenos Estados no Norte, mais Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, Santa Catarina e Distrito Federal. E veio o Datafolha: em 2018, Bolsonaro ganhou do PT em todas as regiões, menos no Nordeste, e agora está perdendo em todas, exceto o CentroOeste, onde tem uma vantagem de apenas dois pontos.

Bruno Boghossian: Mapa da migração eleitoral

Folha de S. Paulo

Números do Datafolha apontam possíveis eleitores dispostos a trocar de candidato

O movimento acelerado de eleitores em direção a Lula e Jair Bolsonaro redesenhou um dos mapas desta fase inicial da campanha. A consolidação precoce de apoiadores fiéis e o crescimento registrado pelo petista na última pesquisa do Datafolha indicam que a corrida presidencial pode se dar num terreno com rotas limitadas de migração.

Mesmo antes do início oficial da disputa, a quantidade de indecisos é uma das menores das últimas décadas, e os eleitores demonstram uma lealdade considerável aos principais nomes da disputa. Embora um contingente razoável de pessoas esteja disposto a trocar de candidato, ainda não há sinais de que essas mudanças possam transformar o jogo.

Sete de cada dez eleitores dizem estar totalmente decididos a votar em seus candidatos a presidente –um patamar de convicção alto a esta altura da campanha. Isso significa, por outro lado, que 30% ainda pensam em mudar de campo.

Janio de Freitas: As pesquisas dizem e não dizem

Folha de S. Paulo

Tapeação de Bolsonaro dá sinais de esgotamento com estresse de truques e farsas

Natureza do presidente só pode acirrar sua desinteligência golpista com avanço de Lula como na pesquisa Datafolha

O impacto sísmico do recente Datafolha eleitoral deveu-se, além dos números em si, à contradição neles implícita com quase todas as outras pesquisas das últimas semanas.

A simplicidade aparente das divergências percentuais aumenta, porém, os problemas para o eleitorado orientar-se, para a contenção do golpismo e ainda para o acompanhamento, pela Justiça Eleitoral, dos procedimentos de pesquisa.

Os 56% do eleitorado conscientes da ação antidemocrática de Bolsonaro são um alento.

Em proporção aos respectivos totais, esse segmento é muito maior do que a parcela dos que se contrapõem de fato, no alto dos Três Poderes, ao golpismo projetado pela Presidência da República sobre o país e, em especial, sobre as Forças Armadas.

O caminho legal afunila-se para a recandidatura de Bolsonaro. Suas possibilidades de uso eleitoral das verbas e concessões são imensas, mas levariam a efeitos econômicos e políticos condenatórios do candidato.

Vinicius Torres Freire: A ira dos pobres contra Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Segundo turno depende de Ciro, Simone e de remendo na imagem desumana do presidente

A pesquisa Datafolha reforçou a ideia de que a estratégia das candidaturas nas próximas semanas será dominada pela possibilidade de fim precoce da eleição para presidente.

Assim, o destino de Ciro Gomes (PDT) e mesmo o de Simone Tebet (MDB) têm relevância. Para haver segundo turno, Lula da Silva (PT) teria de perder quatro pontos, isso se outras candidaturas não caírem pelo caminho. Considerando a margem de erro no limite, teria de perder dois pontos.

É uma disputa "na margem", de parcela menor de votos, pelas bordas, talvez bordas de sangue. Isto é, mais violência de Jair Bolsonaro. Mas a baixaria desumana pode piorar sua imagem entre pobres e mulheres, indicam pesquisas qualitativas.

Míriam Leitão: A economia e Bolsonaro

O Globo

A crise na economia é parte importante do quadro refletido nas pesquisas eleitorais. A inflação está alta, corroendo a renda. Isso afeta dramaticamente os pobres e espalha desconforto na classe média. Nos próximos dias, o presidente Jair Bolsonaro terá um número para comemorar, o do PIB do primeiro trimestre, que pode ter alta de1,5% sobre o período anterior. Isso é bom, mas é um olhar pelo espelho retrovisor que não traz alívio neste momento. O governo e o presidente da Câmara, Arthur Lira, executam um golpe econômico através de medidas para reduzir rapidamente a inflação de maneira artificial. A grande pergunta é: isso terá efeito eleitoral? Pode, sim, diminuir o índice em até dois pontos percentuais, mas a carestia continuará.

O Datafolha trouxe um quadro extremamente negativo para Bolsonaro, abrindo a possibilidade de a eleição se decidir no primeiro turno em favor do ex-presidente Lula da Silva. Nos números detalhados da pesquisa, tudo é desfavorável a Bolsonaro. Lula está disparado em vários segmentos da população, inclusive entre beneficiários do Auxílio Brasil. A medida populista e enganadora de trocar o nome do Bolsa Família, piorando muito a estrutura do programa de assistência aos mais pobres, não está funcionando. Bolsonaro e Lula estão tecnicamente empatados (39% x 36%) entre evangélicos. O uso abusivo do nome de Deus tem sido em vão.

Merval Pereira: A favor da ciência

O Globo

A posse do neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho na Academia Brasileira de Letras, “um médico que trabalha pela vida” em sua própria definição, transformou-se em defesa calorosa da ciência, e numa tomada de posição institucional “a favor das pesquisas científicas, das vacinas e das artes”. A posse de Niemeyer deu sequência a uma tradição da ABL, que já teve em seus quadros nomes como Miguel Couto, Carlos Chagas Filho e Ivo Pitangui, entre outros.

A academia sempre se posicionou em defesa de valores civilizatórios, ressaltou Paulo Niemeyer, lembrando que, no inicio do século XX, o grande sanitarista Oswaldo Cruz comandou, no Rio de Janeiro, a campanha contra a peste, a febre amarela e o sarampo, e teve que enfrentar uma reação popular que ficou conhecida como a Revolta da Vacina.

“O movimento foi tão politizado como o de agora, e quase resultou na queda do governo do presidente Rodrigues Alves. A razão estava com Oswaldo Cruz, que se imortalizou duplamente: pela vitória sanitária, eliminando o flagelo que corroía a nação, e também pelo reconhecimento desta Academia, que o elegeu para a cadeira de número 5. Oswaldo Cruz foi dos maiores heróis brasileiros”.

Bernardo Mello Franco: Nise e Genivaldo

O Globo

O presidente Jair Bolsonaro vetou a inscrição de Nise da Silveira no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. Alegou que a homenagem, aprovada pelo Congresso, seria contrária ao interesse público.

A psiquiatra dedicou a vida a humanizar o tratamento de pacientes com transtornos mentais. Formada em 1926, rebelou-se contra os métodos agressivos da época, como o choque elétrico, a lobotomia e o enclausuramento.

No Centro Psiquiátrico Pedro II, que seria rebatizado com seu nome, Nise revolucionou as técnicas de terapia ocupacional. Os pacientes foram estimulados a trocar a vassoura pelo pincel. Em vez de passarem o dia varrendo o pátio, exercitavam a imaginação em ateliês de pintura.

A experiência resultou na criação do Museu de Imagens do Inconsciente. As obras de arte produzidas no Engenho de Dentro rodaram o mundo e foram estudadas por Carl Gustav Jung, fundador da psicologia analítica.

A vida de Nise inspirou filmes, livros e teses acadêmicas. Ela morreu em 1999, consagrada como referência da luta antimanicomial. Vinte e três anos depois, sua memória é aviltada por um presidente que despreza a ciência e exalta a tortura.

Dorrit Harazim: Sufocados estamos

O Globo

Maya Angelou sabia das coisas. Sabia o que fazer com a própria vida — tanto que morreu oito anos atrás como a mais celebrada poeta e escritora negra dos Estados Unidos. “Eu sei por que o pássaro canta na gaiola” e “A vida não me assusta” são apenas alguns de mais de 30 títulos que compõem sua obra. Ainda no início de 2022, Angelou se tornou a primeira mulher negra cuja efígie é estampada numa moeda americana (o popular quarter de 25 centavos de dólar). Recebeu essa última honraria não só pelo que escreveu, mas pela tenacidade com que escolheu combater a discriminação racial ao longo de sua vida cívica. Criança, conhecera na carne o elenco de medos e misérias decorrentes do racismo. Jovem e adulta, lutou lado a lado de Malcolm X, o líder ativista assassinado em 1965, marchou de braço cerrado com Martin Luther King e seguiu marchando junto aos que lhe sucederam. Madura, concluiu:

— Aprendi que as pessoas esquecem o que você disse, esquecem o que você fez, mas jamais haverão de esquecer o que você as fez sentir.

Cristovam Buarque*: Escola para Todos

Blog do Noblat / Metrópoles

Não se debate como erradicar o analfabetismo que atinge 12 milhões de adultos ou como melhorar a qualidade das escolas

Nos últimos dias os educadores têm debatido quatro propostas: a) dispensar alunos de frequentarem escola para estudarem em casa, b) cobrar mensalidade dos estudantes das universidades federais porque eles são filhos de ricos, c) militarizar escolas para recuperar a disciplina e d) estender por 50 anos a adoção de cotas para ingresso no ensino superior. Estes debates dizem respeito a como evitar retrocessos para aqueles que já estão na escola, não se debate como erradicar o analfabetismo que atinge 12 milhões de adultos; nem qual estratégia para que a educação brasileira esteja entre as melhores do mundo e ricos e pobres, brancos e negros tenham acesso à escola com a mesma máxima qualidade; nem debatemos como recuperar a paz dentro das escolas, sem necessidade de militares; nem o que fazer para que os pais percebam as vantagens de seus filhos estudarem em escolas, aprendendo com outras crianças e com o mundo externo à família. O debate tem sido para evitar retrocessos, não para fazer avanços na combalida e desigual educação brasileira: de um lado, reacionários-conservadores que desejam impor retrocesso; de outro, progressistas-conservadores que não lutam por avanços: implantar um Sistema Único Público Nacional que ofereça educação com qualidade a máxima qualidade para todas nossas crianças.

Cacá Diegues: De volta ao futuro

O Globo

O Brasil ainda pode contribuir para o progresso da Humanidade. Pode ser uma ilusão, mas prefiro achar que sim

Como fazer um filme, uma peça de teatro ou ficção literária precisa de algum dinheiro, quando a cultura é perseguida e não pode se expressar livre e independentemente, o que melhor revela o que está se passando é a canção popular. Ao longo dos anos, em diferentes casos e países, é ela que tem nos contado o que acontece de verdade.

A ditadura militar no Brasil começava a perder seu poder quando ouvi, no primeiro Rock in Rio, a canção “Pro dia nascer feliz”, uma espécie de fundo musical para a eleição de Tancredo Neves. Algum tempo depois, no derradeiro show de Cazuza, no velho Canecão, a grande novidade pop da música brasileira era o fracasso do Brasil como projeto de nação. Um fiapo de magro, com ênfase e horror, Cazuza inventava gestos agressivos ao cantar o país propondo, até com certa indecência, o que era preciso fazer com ele e seus mitos. No século XX, a música popular nunca faltou ao encontro do país em seus momentos mais significativos.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Editoriais

A eleição não está decidida

O Estado de S. Paulo

Centro democrático tem espaço para crescer, pois são muitos os brasileiros que não só rejeitam o populismo que atrasa o País, como anseiam por ideias racionais para o futuro

Faltando longos cinco meses até a eleição, o atestado de fracasso do governo de Jair Bolsonaro (PL) é o dado mais concreto que pode ser extraído da última pesquisa Datafolha, divulgada no dia 26 passado. A análise dos recortes socioeconômicos da pesquisa evidencia o alto preço que Bolsonaro, muito provavelmente, pagará por ter decidido ser o líder de um grupo de apoiadores, não o presidente da República.

Cada vez mais brasileiros parecem estar fartos das tentativas do presidente de convencê-los de que os maiores problemas do Brasil são o “ativismo” de alguns ministros do Supremo Tribunal Federal, a “insegurança” das urnas eletrônicas ou, vá saber, as maquinações internacionais para espoliar o País. Os que sofrem as consequências dos problemas reais que Bolsonaro negligencia há quase quatro anos – quando não lhes dá causa – parecem não cair nessas esparrelas.

Entre os beneficiários do programa Auxílio Brasil, 59% declararam voto no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), enquanto apenas 20% disseram que pretendem votar em Bolsonaro. Entre os desempregados, a situação não é menos desfavorável ao incumbente: 57% pretendem votar em Lula, ante 16% que tencionam votar em Bolsonaro.

O presidente perde para Lula por margens superiores a 20 pontos porcentuais em todos os recortes da pesquisa, exceto entre os brasileiros que têm renda superior a dez salários mínimos (42% a 31%) e entre empresários (42% a 31%). Rejeitado por 54% dos eleitores, Bolsonaro terá enorme dificuldade para convencer o País de que merece permanecer no cargo por mais quatro anos.

O fracasso de Bolsonaro, no entanto, não autoriza concluir que a eleição já estaria decidida em favor de seu principal adversário no momento. Segundo o Datafolha, Lula conta com 48% das intenções de voto no primeiro turno, ante 27% dos que pretendem votar em Bolsonaro. Sem dúvida alguma, é um resultado muito confortável para o petista, que, com esses números, venceria a disputa no primeiro turno se a eleição fosse hoje. Só há um problema: a eleição não é hoje.

Música | Chico Buarque: Gota d'agua

 

Poesia | William Shakespeare: Soneto 66

Tradução de Augusto de Campos

Cansado de tudo isso eu clamo pela morte,
Vendo aos pobres faltar a moradia e o pão
E ao ricos amorais caber a boa sorte,
A fé servir aos maus em pífia exploração,

E a mais pura honradez de todo desprezada
A hombridade estuprada e morta pelo vício,
E a perfeição em mau feitio desnaturada,
A força convertida em monstruoso artifício,

E a arte calada com brutal autoridade,
O parvo a comandar o honesto e o diligente,
A verdade curial tida por falsidade
E o cativo servindo ao Capitão demente:

De tão cansado era melhor querer meu fim
Se a morte não roubasse o meu amor de mim.

sábado, 28 de maio de 2022

Marco Aurélio Nogueira*: Tragédia e limites do iliberalismo

O Estado de S. Paulo

Cidadãos que valorizam a democracia precisam não só combater as estripulias autoritárias dos iliberais, mas atuar para defender o sistema democrático.

De uns anos para cá, o “iliberalismo” tem ocupado um lugar de destaque nas explicações do mundo em que vivemos.

Boa parte dessa atenção decorre da multiplicação de governos que giram em torno de autocratas populistas – mais violentos e autoritários ou menos –, que menosprezam regras, hábitos e procedimentos dos sistemas democráticos. São governantes que chegaram ao poder valendo-se das instituições democráticas (eleições, liberdade de expressão e associação, separação dos poderes) e que governam minando aquilo de que se beneficiaram. Organizam sistemas antidemocráticos paralelos a partir dos quais atacam os sistemas instituídos, abalam o que está estabelecido, reprimem adversários e mobilizam seguidores, sempre que possível fanatizando-os.

Tais governos governam muito pouco, ou até mesmo não governam, deixando as coisas do Estado em modo inercial. O objetivo é converter o governo numa instância de mando e poder pessoal. Atos de governo não seguem planos técnicos e são quase sempre apresentados como derivados da generosidade e da largueza de visão do chefe, cuja vontade – em muitos casos marcada pela impulsividade e pelo improviso – é tratada como se contivesse um mapa seguro para a “verdade”. A sustentação é obtida por métodos conhecidos: negociações espúrias, produção incessante de desinformação, criação de inimigos imaginários (o comunismo, o globalismo, o marxismo cultural), manipulação das redes sociais, fomento aos discursos de ódio e intimidação, ameaças. Fatos, dados e evidências são ignorados ou mencionados com sinal invertido. A intenção é turvar a compreensão da realidade, gerar medo e confusão.

Pablo Ortellado: Militares querem bolsonarismo até 2035

O Globo

Três institutos com forte presença militar lançaram na última semana o documento “Projeto de nação, o Brasil em 2035”, um plano de militares alinhados ao governo Bolsonaro para governar o Brasil por mais três mandatos presidenciais. O projeto foi coordenado pelo general Rocha Paiva, ex-presidente do grupo Terrorismo Nunca Mais, e contou com a revisão do general Mendes Cardoso, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional no governo FH, do general Santa Rosa, ex-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos de Jair Bolsonaro, do embaixador aposentado Marcos Henrique Camillo Cortes e do professor Timothy Mulholland, ex-reitor da UnB. A cerimônia de lançamento oficial contou ainda com a presença do vice-presidente, o general Hamilton Mourão.

O projeto é uma espécie de plano de ação para os próximos mandatos presidenciais —esperando um governo Bolsonaro 2, seguido de outros dois de um sucessor, como fez Lula. O documento é um vislumbre da visão de mundo dos militares bolsonaristas.

Carlos Alberto Sardenberg: Caindo no ridículo

O Globo

Inflação alta é culpa do governo. Vale aqui e no mundo todo. Mesmo quando preços sobem independentemente da ação (ou inação) do governo, a culpa continua sendo dele. Alguns governantes reclamam. Tentam justificar: a gasolina subiu por causa da Rússia; trigo em alta, também consequência da guerra. A resposta da população ao governante seria mais ou menos assim: E daí? Vire-se.

Nesta semana, foi anunciado um reajuste de 15,5% nos planos de saúde individuais, afetando o orçamento de 8 milhões de pessoas. Na planilha, o reajuste até faz sentido. O valor da mensalidade havia caído mais de 8% em 2021, de modo que, considerando os dois anos, o último reajuste fica em torno de 3%, abaixo da inflação. Além disso, a inflação médica continua acelerada e acima da média dos demais preços. Ok, mas o segurado receberá o boleto com alta de 15,5% em relação ao mês anterior — isso em cima de altas fortes dos combustíveis e dos alimentos, para ficar em itens essenciais. E o governo não vai fazer nada?

Eduardo Affonso: Brasil é a capital das falácias para enganar os trouxas

O Globo

Diz-se que saudade é a palavra mais bonita da língua portuguesa. Minha preferida, pela sonoridade e pela serventia, é falácia.

Luis Fernando Verissimo também se encantou por ela, imaginando-a como “um animal multiforme que nunca está onde parece estar”. Num texto clássico do autor, um criador de falácias chora ao vê-las em quantidade:

— Se elas parecem estar no meu campo, é porque estão em outro lugar.

Esse outro lugar é o Brasil. Aqui, falácias abarrotam redes sociais, entrevistas, análises, debates. Uma amostra:

— É um crime contra a criança ensinar em casa (homeschooling). Mas matar a criança dentro do útero é bacana (Fernando Ulrich, economista).

Dois espantalhos: ensino doméstico não é crime; não se tem notícia de quem ache bacana matar criança, dentro ou fora do útero. E as afirmações não têm nenhuma relação entre si.

João Gabriel de Lima: O recado da arte para a política

O Estado de S. Paulo

A imprensa europeia observa que os escritores brasileiros tratam cada vez mais de questões raciais

O romance Marrom e Amarelo, do escritor brasileiro Paulo Scott, teve excelente repercussão na Europa. Lançado neste ano em inglês com o título Phenotypes, foi indicado a prêmios internacionais e coberto de elogios. “Trata-se de um enredo tecido com arte sobre raça, privilégio e culpa”, escreveu a crítica Lucy Popescu, do jornal britânico The Guardian.

A imprensa europeia observou que os escritores brasileiros tratam cada vez mais de questões raciais – e, com isso, se destacam. Foi possível constatar a tendência na Fliaraxá, uma das feiras literárias mais tradicionais do País. O evento, cujo tema deste ano foi “Abolição, Independência e Literatura”, contou com mais de 60% de escritores negros.

Entre eles estava a filósofa Djamila Ribeiro, que acaba de ocupar uma cadeira na Academia Paulista de Letras. O homenageado da Fliaraxá foi Itamar Vieira Júnior, autor de outro livro que, a exemplo de Marrom e Amarelo, vem fazendo carreira internacional brilhante. Torto Arado narra a saga de uma família de descendentes de escravos. Os dois romances, o de Scott e o de Vieira Júnior, tocam na ferida aberta do racismo brasileiro.

Vera Rosa: Campanha de Bolsonaro terá mais Michelle, pão de queijo e denúncias de ‘conspiração’

O Estado de S. Paulo

Divergências com Centrão se acentuam e aliados do núcleo ideológico avaliam que é preciso focar mais em pauta de costumes

Em público, está tudo sob controle: aliados do presidente Jair Bolsonaro ainda minimizam a pesquisa do Datafolha, que causou rebuliço no mundo político ao mostrar nesta quinta-feira, 26, que, se a eleição fosse hoje, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceria no primeiro turno. Nos bastidores, porém, o comitê bolsonarista planeja mudanças na estratégia da campanha. E não é de hoje. Levantamentos em poder do Palácio do Planalto também indicam que Bolsonaro tem perdido votos nas classes mais pobres e entre as mulheres, além de enfrentar dificuldades no Nordeste e em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do País.

O problema é que há divergências na equipe e no Centrão sobre os rumos a seguir. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), coordenador da campanha, e o núcleo militar do governo avaliam que o presidente deve não apenas insistir como reforçar o discurso sobre a existência de uma “conspiração” em curso para eleger Lula, incentivada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Na outra ponta, o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, e o presidente da Câmara, Arthur Lira – ambos do Progressistas – são contra os ataques ao TSE e ao Supremo Tribunal Federal (STF). Não sem motivo: temem as consequências da crise entre os Poderes e represálias do Judiciário.

Hélio Schwartsman: O voto útil

Folha de S. Paulo

Eleitor precisa ter a sensação de que tem agência nos processos decisórios

Humanos somos bons em identificar nossos interesses particulares e revesti-los de um discurso universalista. O voto útil evidencia isso muito bem. O PT e seus aliados agora defendem que, em nome da democracia, eleitores antibolsonaristas que flertam com candidatos da terceira via antecipem o voto em Lula. Nem sempre foi assim.

Quem consultar a coleção do jornal encontrará petistas esbravejando contra o voto útil nos anos 80 e 90, nas vezes em que o instituto foi evocado contra candidaturas do partido. Há um eloquente artigo de José Dirceu de 1998 cujo subtítulo diz: "Nada mais sem sentido do que a tese de que os partidos de esquerda devem apoiar Covas para derrotar Maluf".

Incongruências da natureza humana à parte, faz sentido recorrer ao voto útil agora? Não acredito na viabilidade da chamada terceira via (Ciro ou Tebet) e adoraria ver Bolsonaro receber uma votação humilhante, mas não creio que meu júbilo pessoal seja um critério de universalidade. Em termos abstratos, eu diria que considerações estratégicas na hora do voto eram uma obrigação moral do eleitor até a introdução do segundo turno, na Constituição de 1988.

Demétrio Magnoli: Poluição verde

Folha de S. Paulo

Veto alemão à mais limpa das fontes tradicionais prende a UE numa camisa de força

"A mais recente estratégia da Comissão Europeia entrega com uma mão o que tira com a outra", reclamou Eilidh Robb, da organização ambientalista Friends of the Earth, criticando os planos de construção ou expansão de mais de meia centena de usinas baseadas em combustíveis fósseis. O erro clamoroso da nova estratégia de transição energética da União Europeia (UE) encontra-se na ausência de qualquer referência à fonte nuclear. A responsabilidade é dos ambientalistas.

Antes da invasão russa da Ucrânia, o chamado Green Deal europeu previa uma longa evolução para energias renováveis amparada no uso transitório de gás natural russo. Todo o conceito repousava sobre políticas definidas pela Alemanha.

De 713 Mt (milhões de toneladas) de CO2 em 2011, a Alemanha passou a emitir 625 Mt em 2019, às custas de multibilionários investimentos em fontes renováveis. Já a França reduziu suas emissões de 321 Mt para 287 Mt. A diminuição foi praticamente a mesma, em termos relativos, nos dois países –mas a França emite 4,25 Mt por milhão de habitantes, contra 7,50 Mt da Alemanha. A diferença abismal deve-se ao papel da energia nuclear: na França, a fonte supre 42% do consumo energético, enquanto na Alemanha supre apenas 6%.

Cristina Serra: O Brasil na câmara de gás

Folha de S. Paulo

Os agentes da PRF não fizeram uma abordagem policial; cometeram um crime

Na cidadezinha do Nordeste, Genivaldo de Jesus Santos é assassinado no porta-malas da viatura transformada em câmara de gás. Um dos assassinos lança o veneno sobre Genivaldo como quem aplica inseticida para eliminar uma barata.

Genivaldo grita e se debate em desespero. Suas pernas pedem socorro. Genivaldo pede socorro. Mas não será ouvido. Vai desmaiar e morrer nos próximos minutos o cidadão de Umbaúba, Sergipe. Brasil. Os agentes da Polícia Rodoviária Federal não fizeram uma "abordagem policial". Cometeram um crime, sem dar chance de defesa à vítima. Homicídio qualificado, segundo o Código Penal.

Também está errado referir-se à chacina na Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro, como "operação de inteligência". Não podemos repetir essa ignomínia e, muito menos, aceitá-la, sob pena de nos tornarmos cúmplices. Nossa indignação tem que dar às coisas os nomes que elas têm: carnificina, mortandade, matança, morticínio, assassinato em massa. Quais os crimes atribuídos aos mortos? Sua culpa, sua máxima culpa, foi terem nascido pretos e pobres.

Alvaro Costa e Silva: Campanha eleitoral com pena de morte

Folha de Paulo

No Rio, governador transforma chacina em palanque; em Sergipe, retrato do país asfixiado

Oficialmente a campanha eleitoral começa em agosto. Mas ela está em todo lugar, com variadas e inusitadas ações. Há estampas de Lula e Bolsonaro nas bancas de comércio popular que se espalham nas avenidas Paulista e Nossa Senhora de Copacabana. Em algumas regiões do país, sobretudo aquelas beneficiadas com verbas do orçamento secreto, o clima é de véspera de votação: carreatas e showmícios.

A eleição —garantem de marqueteiros a cientistas políticos— será a mais movimentada desde a redemocratização nos anos 80. Como era de conhecimento geral —até do TSE—, informações falsas grassam nas redes. Estagnado no segundo lugar das pesquisas, Bolsonaro domina a audiência do TikTok. São vídeos curtos, um minuto no máximo, com memes e paródias. O presidente interpreta o tiozão do pavê. Já circula na plataforma a notícia de que ele mandou congelar, na marra, o preço da gasolina e dos alimentos.

Marcus Pestana*: Imposto inflacionário: desorganização e injustiça

O IBGE publicou o Índice Nacional ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15) de maio, que antecipa a inflação do mês completo, e apontou uma elevação de preços anual de 12,20%, em curva ascendente.

A pesquisa de opinião Genial/Quaest apontou que que 50% dos brasileiros entendem que o maior problema do Brasil é a economia, onde predomina a preocupação com a inflação e o desemprego. A saúde foi apontada por 13%, seguida das questões sociais (11%) e corrupção (9%).

O mundo político, pressionado pelas angústias e temores da população, procura se movimentar. Foi feita a quarta mudança na presidência da PETROBRAS neste governo, o que demonstra extrema dificuldade de estabelecer uma política consistente e estável para a política de preços dos combustíveis. As ações da empresa caíram e as expectativas se deterioraram um pouco mais.

Já a Câmara dos Deputados aprovou Projeto de Lei que coloca um teto de 17% nas alíquotas do ICMS, principal fonte de financiamento dos estados, para energia e combustíveis.

É evidente que o Brasil tributa alto bens essenciais com repercussões em todas as cadeias produtivas e na vida da população, como energia, telecomunicações e combustíveis. Mas retirar repentinamente 100 bilhões de reais por ano de receitas de estados e municípios, que vivem uma situação superavitária provisória, graças à própria inflação e às transferências federais feitas durante a pandemia, é no mínimo temerário e fere o Pacto Federativo. A solução teria que se dar através da imprescindível reforma tributária que alterasse o modelo de tributação e a repartição das receitas.

Marco Antonio Villa: O Brasil precisa voltar a crescer

Revista IstoÉ

Antes, o pai sabia que seu filho teria uma vida melhor que a sua. O progresso não era só uma fala ideológica, era uma realidade concreta

A eleição de Jair Bolsonaro em 2018 foi o ápice de um processo histórico que pode ser explicado por diversas razões que nasceram no século XX. As últimas quatro décadas foram marcadas pela perda do dinamismo econômico que caracterizou os anos 1930-1980, quando o Brasil foi o País que mais cresceu no mundo ocidental. Não custa recordar que em 1980 o Brasil tinha, no hemisfério sul, o maior parque industrial.

O processo de industrialização intensificado a partir da Revolução de 1930 construiu um Brasil moderno, em revolução permanente, com deslocamentos populacionais que não só mudaram a distribuição demográfica, mas – e principalmente – moldou uma dinâmica sociedade com o crescimento das cidades – algumas rapidamente chegando ao status de metrópoles – e enfrentando os grandes problemas nacionais. No otimismo dos anos 1930-1980 o pai sabia que seu filho teria uma vida melhor que a sua, assim como ele vivia em melhores condições que seu pai. O progresso não era só uma fala ideológica, era uma realidade concreta.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Editoriais

É cedo para dizer que não haverá segundo turno

O Globo

A pesquisa Datafolha divulgada nesta semana confirmou a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva, pré-candidato do PT à Presidência, com 48% das intenções de voto, seguido pelo presidente Jair Bolsonaro, do PL (27%). O resultado deu a Lula 54% dos votos válidos e levou os mais apressados a especular se a eleição estaria definida já no primeiro turno, no dia 2 de outubro.

É, claro, um cenário possível. Mas longe de ser provável, muito menos certo. Faltando mais de quatro meses para o pleito, ainda antes do início oficial da campanha, é impossível fazer qualquer aposta com base numa única pesquisa. Pesquisa não é previsão. Representa apenas um retrato do momento em que ela é feita. Os dados e fatos disponíveis até aqui sugerem justamente o contrário: o cenário mais provável é haver segundo turno em 30 de outubro para definir o vencedor. E é melhor que seja assim.

Quando a disputa se afunila nos dois finalistas, os candidatos são forçados a expor mais suas ideias, e os eleitores têm chance de avaliá-las melhor. É na reta final da campanha que costumam ser seladas alianças que darão base à formação dos futuros governos. Elas tornam as plataformas dos candidatos mais representativas da maioria da população. Ainda que o voto no segundo turno possa ser sustentado pelo sentimento de barrar a vitória deste ou daquele candidato, ele traz inerentemente mais legitimidade aos planos que o vencedor apresenta ao país.

Poesia | Thiago de Mello: A Fruta Aberta (Narração de Mundo dos Poemas)

 

Música | Jorge Aragão: Papel de pão

 

sexta-feira, 27 de maio de 2022

Vera Magalhães: Duelo de rejeições definirá se haverá segundo turno

O Globo

A diferença de 21 pontos percentuais de vantagem de Luiz Inácio Lula sobre Jair Bolsonaro, mostrada pelo Datafolha, incendiou os partidários do petista, apavorou os governistas e intrigou alguns analistas de pesquisas, mas fez com que todos esses atores passassem a analisar como mais provável a decisão da eleição presidencial no primeiro turno pela primeira vez desde 1998, com o ex-presidente como favorito.

Ainda que a diferença não seja tão dilatada quanto o dado obtido pela metodologia do instituto -- de entrevistas de campo, diferente da maioria dos levantamentos feitos com frequência maior e por telefone --, o dado para o qual todas as pesquisas convergem é aquele segundo a qual a preferência por Lula ou Bolsonaro, bem como a rejeição a um ou a outro, tende a alimentar, de agora em diante, um processo de “alckmização" dos adversários, que pode levar a que a decisão da disputa se antecipe.

Trata-se de uma referência ao que houve com Geraldo Alckmin, hoje vice na chapa de Lula, em 2018. Ele tinha boa estrutura de campanha, tempo de TV, dinheiro e, ainda assim, viu suas intenções de voto não decolarem, e depois desidratarem, diante de um eleitor que passou a enxergar Bolsonaro como a única opção para derrotar o PT -- naquele ano, a força motriz principal do eleitorado.

Bernardo Mello Franco: O 2º turno já começou

O Globo

O Datafolha informa: se a eleição fosse hoje, Lula venceria no primeiro turno com 54% dos votos válidos. A nova pesquisa reforça o favoritismo do petista, cujo nome não aparece na urna há 16 anos. E evidencia as dificuldades de Jair Bolsonaro, que pode se tornar o primeiro presidente a fracassar numa campanha à reeleição.

Em votos totais, que incluem brancos e nulos, Lula tem 48% e Bolsonaro aparece com 27%. O terceiro colocado é Ciro Gomes, que empacou nos 7%. Os outros pré-candidatos têm desempenhos pífios, entre os 2% e o traço.

Com as desistências de Sergio Moro e João Doria, que tentavam roubar votos de Bolsonaro, a disputa se afunilou entre o atual presidente e o ex. Ainda há tempo para surpresas, mas elas se tornam cada vez mais improváveis. A quatro meses das urnas, o eleitor parece disposto a antecipar o segundo turno para o primeiro.

A ruína econômica impulsionou o crescimento de Lula, que aposta na memória dos tempos de prosperidade em seu governo. Ele abriu 36 pontos de vantagem para Bolsonaro entre os eleitores mais pobres. São os brasileiros que mais sofrem com a carestia e o desemprego.

Luiz Carlos Azedo: Quando a fortuna governa a política, e a virtude, não

Correio Braziliense

Bolsonaro corre o risco de perder a eleição no primeiro turno, para o ex-presidente Lula, o que contraria o instituto da reeleição, que favorece quem está poder para dar continuidade aos projetos

O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, discorre longamente sobre a sorte na política. “De quanto pode a fortuna nas coisas humanas e de que modo se lhe deva servir” (Quantum fortuna in rebus humanis possit, et quomodo illis it occurrem dum), o 15º capítulo de seu livro, foi escrito com a intenção subjacente de separar o Estado da Igreja, que exercia enorme influência sobre os principados italianos. À época, dizia-se que as coisas eram governadas pela fortuna e por Deus e que os homens não poderiam modificar o seu destino, que já estava predeterminado. Muitos deixavam-se governar pela sorte e perdiam o poder.

Com a cautela que seu pescoço exigia, Maquiavel resolveu dividir as responsabilidades: “Pensando nisso algumas vezes, em parte inclinei-me em favor dessa opinião. Contudo, para que o nosso livre arbítrio não seja extinto, julgo poder ser verdade que a sorte seja o árbitro da metade das nossas ações, mas que ainda nos deixe governar a outra metade, ou quase”.

Para explicar sua tese, comparou a fortuna aos rios torrenciais: “Quando se encolerizam, alagam as planícies, destroem as árvores e os edifícios, carregam terra de um lugar para outro; todos fogem diante dele, tudo cede ao seu ímpeto, sem poder opor-se em qualquer parte. E, se bem assim ocorra, isso não impedia que os homens, quando a época era de calma, tomassem providências com anteparos e diques, de modo que, crescendo depois, ou as águas corressem por um canal, ou o seu ímpeto não fosse tão desenfreado nem tão danoso”.

Vinicius Torres Freire: Qual vai ser o golpe de Bolsonaro para evitar derrota no primeiro turno?

Folha de S. Paulo

Ano eleitoral e eleitoreiro ainda está longe de acabar, mas o arsenal de mágicas ficou menor

Jair Bolsonaro (PL) não perdeu os votos que juntou no início deste ano, mostra o Datafolha. Lula da Silva (PT) ganhou, bastantes até para vencer a eleição no primeiro turno. O problema do candidato que ora ocupa o Planalto volta a ser como não perder na primeira rodada. O que vai ou pode inventar, por exemplo, em termos de favores econômicos? O ano eleitoral e eleitoreiro ainda está longe de acabar, mas o arsenal de mágicas ficou menor.

Até as pesquisas de março ou abril, Bolsonaro deve ter se beneficiado de Sergio Moro (União Brasil) ter sido tirado da disputa, da discreta e inesperada despiora da economia no início desde 2022 e de alguns favores econômicos.

A julgar pelo Datafolha, a colheita magra de intenções de votos acabou, por ora. Vai ser mais difícil colher safra melhor na segunda metade do ano.

Segundo as melhores estimativas disponíveis, que ainda assim muita vez estão erradas, a economia teria crescido bem no primeiro trimestre, menos no segundo e começaria a encolher a partir de julho, fechando a segunda metade do ano no vermelho.

Reinaldo Azevedo: O Datafolha e a câmara de gás

Folha de S. Paulo

Se Bolsonaro vencer, golpe deixa de ser um risco e passa a ser uma certeza

Não temam tanto um autogolpe de Jair Bolsonaro caso ele perca a eleição no primeiro turno ou no segundo. A democracia será golpeada se ele vencer, o que é possível, embora pareça improvável, como revelam números do Datafolha.

Se a eleição fosse hoje, Lula teria 54% dos votos válidos no cenário mais provável, não precisando ir para o embate final. O petista tem 48% das intenções de voto e é rejeitado por 33% apenas. Votariam no atual presidente 27%, e 54% o rejeitam. Nota: a eleição não é hoje.

Por mais que Bolsonaro vocifere, não é a derrota que o torna especialmente perigoso. A exemplo de todo autoritário, a vitória lhe assanharia ainda mais a sede de mando. Um golpe da derrocada já nasceria sob o símbolo da farsa.

Já a vertigem da vitória teria mais chance de arrastar aventureiros. Essa é não mais do que uma constatação, não um convite para uma causa. Não tenho argumentos para a neutralidade diante de um massacre ou da câmara de gás.