sábado, 26 de fevereiro de 2022

Hélio Schwartsman: Justiça Eleitoral tem sua utilidade

Folha de S. Paulo

É bom ter indivíduos sem vínculos partidários para organizar eleições

Vivo falando mal da Justiça Eleitoral, que completou 90 anos. Ela é, na minha avaliação, excessivamente autoritária e intervencionista. Tais críticas não me impedem de reconhecer que é uma mão na roda poder contar com um corpo de indivíduos sem vínculos partidários para organizar eleições. Pela inversa, seria um problema se incumbíssemos candidatos e legendas de gerenciar os aspectos mais concretos dos pleitos.

O tamanho da encrenca potencial pode ser observado olhando para os EUA, país que tem muito a ensinar em termos de democracia, mas nada em termos de eleições. Os EUA utilizam o voto distrital majoritário para definir os representantes dos estados na Câmara e a composição dos legislativos locais. A cada dez anos, os estados precisam redesenhar os distritos, para acompanhar a evolução demográfica captada no Censo.

Demétrio Magnoli: O Império que não quer cair

Folha de S. Paulo

A ambição de Putin é restaurar a Grande Rússia, começando pelo núcleo com Belarus e Ucrânia

"É tudo culpa de Lênin", pontificou outro Vladimir, Putin, no sinistro discurso que pronunciou na TV russa anunciando o reconhecimento da independência dos enclaves separatistas do Donbass. O líder da Revolução Russa teria fabricado a Ucrânia, privando a Rússia de seu berço cultural. A história putínica é lenda destinada a justificar uma guerra de agressão, mas ilumina um dilema de cem anos.

Nas suas linhas gerais, o mapa atual da Europa foi desenhado pelos tratados que encerraram a Grande Guerra, entre 1918 e 1920. Sob o impacto dos nacionalismos e do programa de Woodrow Wilson, nasceram os Estados-Nação.

As novas entidades, supostamente ancoradas na língua e na tradição, foram esculpidas a partir das ruínas dos impérios que desabavam. Desapareceram os impérios Alemão, Austro-Húngaro e Turco-Otomano. Contudo, graças ao triunfo dos revolucionários bolcheviques, sobreviveu o Império Russo, apenas convertido na URSS. "Império vermelho", mais que uma expressão retórica, é a descrição precisa da conservação de um fóssil no permafrost do Estado soviético.

Ascânio Seleme: Sustinho bom

O Globo

Ninguém ignora que muitos do PT estão contando com o ovo muito antes do primeiro esforço da galinha, mas uma boa chacoalhada pode colocar as coisas no lugar

Um próximo interlocutor de Lula definiu com uma boa frase o quadro político atual, com pesquisas que mostram um revigoramento da candidatura de Bolsonaro e um exagerado otimismo que muitos líderes petistas evidenciam em entrevistas e conversas privadas. “As novas pesquisas dão um sustinho bom nesta turma que anda com salto muito alto”. Tem alguma razão o político, que pertence a um partido de centro, mas que transita bem em todas as esferas. Susto, ou sustinho, funciona como freio de arrumação. Como uma boa chacoalhada pode colocar as coisas no lugar. Ninguém ignora que muitos do PT estão mesmo contando com o ovo muito antes do primeiro esforço da galinha.

Carlos Góes: Funcionalismo na década perdida

O Globo

Boa parte das carreiras federais ganha mais que o cidadão médio. E as privilegiadas pelo presidente tiveram os maiores aumentos

No último mês, eclodiram reivindicações salariais no funcionalismo federal. Frente a uma proposta ventilada pelo governo de conceder reajuste salarial aos policiais federais e policiais rodoviários federais, outras categorias reagiram.

Houve protestos em Brasília. Os servidores do Banco Central paralisaram suas atividades. Ministros do Supremo Tribunal Federal alertaram que reajustes para categorias particulares poderiam gerar uma série de ações na Justiça.

Mas como o salário dos servidores públicos se compara ao resto dos contribuintes?

Os dados mais abrangentes sobre a renda de profissões distintas vêm da Receita Federal. Todo ano, a Receita processa os dados do Imposto de Renda de Pessoa Física (IRPF) e publica tabulações contendo a renda média declarada por ocupação dos declarantes.

Carlos Alberto Sardenberg: Contra as democracias

O Globo

Nikolai Patrushev é o chefe do Conselho de Segurança Nacional da Rússia e o principal ideólogo da “turma” de Vladimir Putin, um grupo de ex-membros da KGB que comanda o governo. Sua visão básica: o Ocidente pretende esmagar a Rússia, impondo-lhe “agressivamente os valores neoliberais que contradizem nossa visão de mundo” (citado em The Economist, edição de 19 a 25 de fevereiro).

Qual visão de mundo? Não é a volta do comunismo, até por razões pessoais. É dinheiro. Esses ex-agentes da KGB, como o próprio Putin, acumularam fortunas quando caiu o regime soviético e foram introduzidas reformas capitalistas. Acumularam não pela capacidade como investidores. Foi roubo.

Primeiro, nas privatizações das grandes estatais. Aqueles funcionários tiveram acesso privilegiado a informações e a “moedas de privatização”, como títulos da dívida pública, vendidos a preço de banana e aceitos a preço de ouro na compra das estatais.

Depois, seguiram ganhando concessões “informais” de negócios nas áreas de energia, infraestrutura e bancos, principalmente.

Em resumo, um caso de capitalismo de amigos, levado ao limite.

Pablo Ortellado: Impasses do PL das Fake News

O Globo

O Projeto de Lei 2.630/2020, apelidado de PL das Fake News, vive tantos impasses, que é difícil saber onde vai parar. Ele pode tanto ser aprovado na semana depois do carnaval como ser engavetado. Pode vir a ser um robusto marco regulatório ou também terminar como um conjunto mal-ajambrado de regras ruins. Há pelo menos quatro grandes impasses.

O primeiro é a moderação de conteúdo em mídias sociais. Facebook, Twitter e outras precisam moderar o que é publicado pelos usuários — apagar, reduzir o alcance ou rotular conteúdo que viola os termos de uso dos serviços. Sem moderação, as plataformas seriam inundadas por spam, pornografia e discurso de ódio.

Marcus Pestana*: Quando o carnaval chegar

Em 1972, tivemos o lançamento do musical de Cacá Diegues “Quando o Carnaval Chegar”, estrelado por Nara Leão, Maria Bethânia, Hugo Carvana, Chico, entre outros. Na trilha sonora destaca-se a música tema, onde Chico Buarque diz: “Quem me vê apanhando da vida, duvida que vá revidar. Tou me guardando pra quando o carnaval chegar”, “Eu tenho tanta alegria, adiada, abafada, quem dera gritar. Tou me guardando pra quando carnaval chegar”. Parece até uma alegoria da eterna espera brasileira pelo dia em que a alegria do carnaval abraçará em definitivo a maioria da população do país, superando a surra diária e a alegria abafada e adiada.

Este ano a Mangueira e a Portela não irão pra avenida, não haverá abadás e blocos de Axé e o Galo da Madrugada não varrerá as ruas de Recife, graças à pandemia que nos assola há dois anos. Será um momento de descanso e reflexão. É justo, pois, tentar imaginar o que nos reserva 2022. E certamente, não haverá monotonia pelos sinais que temos até aqui.

Eduardo Affonso: Hoje era para ser carnaval

O Globo

Hoje era para ser carnaval. Haveria foliões por todo lado, e as Defensorias Públicas, mídias ninjas e afins já teriam colocado o bloco na rua. Depois de cancelar marchinhas e adereços de índio, de cigana, talvez investissem contra o etarismo estrutural mal disfarçado na expressão velha guarda (da Portela, da Mangueira, do Salgueiro) ou pedissem o banimento da Terça-Feira Gorda (óbvia manifestação de gordofobia). Ao longo da semana, seria a vez de problematizar o desfile das campeãs (deplorável elogio à meritocracia, que desconsidera e naturaliza a desigualdade entre as escolas) e o reinado de Momo na Marquês de Sapucaí, com o Império Serrano, a Imperatriz Leopoldinense (evidência da perpetuação dos valores da elite aristocrática, monárquica, escravagista). Haveria uma infinidade de Fridas nos blocos progressistas da Zona Sul e negas malucas a mancheias (com palhaços, aqualoucos, travestis e melindrosas) nos blocos populares do Centro, do subúrbio, da Zona Norte, da Zona Oeste.

Alvaro Costa e Silva: Carnaval só para ricos

Folha de S. Paulo

A festa de 2022 ficará na lembrança como a mais triste e revoltante da história

O Carnaval deu um passo de caranguejo na tentativa de driblar a pandemia e, ao mesmo tempo, garantir o lucro dos empresários. É como se tivéssemos regredido a 1840, quando foi realizado o primeiro baile carnavalesco no Rio. Quatro anos depois o sucesso já cobrava seu preço. A ceia, os vinhos e os refrescos continuavam a ser servidos aos dançarinos, mas a entrada custava o dobro, passando de 2.000 para 4.000 réis.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Guerra traz incerteza à economia global

O Globo

Enquanto se assiste aos bombardeios e ao desespero de civis na Ucrânia, invadida pela Rússia nesta semana sem ter cometido nenhuma provocação, os analistas tentam avaliar as consequências do conflito na economia global. É tarefa árdua, praticamente impossível, porque depende da resposta a uma pergunta: quais são os planos de Vladimir Putin? Além dele, aparentemente ninguém sabe.

Se Putin decidir mudar o governo ucraniano e, em seguida, mandar suas tropas retroceder às bases, o efeito econômico será menor. Caso decida aumentar o escopo da guerra para redesenhar o mapa geopolítico da Europa, o estrago será imenso, no mínimo uma nova recessão global. É um cenário menos provável, mas longe de impossível. Diante da incerteza, as principais Bolsas de Valores sofreram queda acentuada nesta semana. Foram surpreendidas pela invasão, mas ainda não estão numa situação que denote a proximidade de uma crise financeira.

O certo é que a economia mundial cresceria mais neste ano sem a guerra na Ucrânia. Por não saber o que esperar, consumidores e empresários, principalmente nas regiões mais próximas, perdem esperança no futuro e tendem a adiar planos de consumo e investimento. Quanto mais tempo a guerra levar para acabar, maior será a corrosão da confiança.

A Europa depende do gás russo para gerar energia, sobretudo a Alemanha e a Itália. O inverno europeu, agora próximo do fim, foi ameno. O estoque de gás na região está em nível superior ao previsto pelos analistas. Por isso a questão do abastecimento perdeu urgência, pelo menos no curto prazo. Mas não se tornou irrelevante. Um conflito prolongado a tornaria prioritária. Por ora, o mais imediato é o temor de descontrole maior da inflação já em alta, como resultado da escassez dos produtos exportados pela Rússia — como gás, petróleo e grãos.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade: Um homem e o seu Carnaval

Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensão.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.
O pandeiro bate
É dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.
Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente

Música | Hino do Galo da Madrugada

 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Vera Magalhães: Diplomacia das trevas

O Globo

Jair Bolsonaro foi o último líder mundial a aparecer em fotos, com um sorriso orgulhoso nos lábios sempre abertos em demasia para ocasiões formais, ao lado de Vladimir Putin antes de o autocrata russo efetivar a invasão militar a um país soberano e iniciar uma guerra cuja extensão ainda está por ser determinada.

Não satisfeito em ir a Moscou em condições sabidamente adversas e delicadas e em se regozijar com o acesso e a proximidade concedidos a ele por Putin, expressou uma difusa “solidariedade” ao russo quando ele já se encaminhava para colocar em prática seus antigos e meticulosos planos de guerra.

Para coroar a trapalhada, a visita foi precedida e sucedida por um show de babação de ovo sobre Putin da parte do próprio presidente, de seus ministros, de parlamentares e de outros menos credenciados.

E agora? Agora, todos os “conselheiros” que levaram Bolsonaro a pagar essa sucessão de micos demonstram perplexidade com a escalada do conflito e não conseguem dar uma resposta rápida e inequívoca que tire o Brasil da insustentável posição de não condenar a invasão de um país a outra nação soberana, princípio básico e elementar que deveria nortear a diplomacia em uma democracia.

Bernardo Mello Franco: Putin não ouviu o Mito

O Globo

Se não estivesse gravado, seria difícil acreditar. Quando os tanques russos já se aproximavam da fronteira da Ucrânia, um ministro brasileiro assegurou que o mundo podia dormir tranquilo. Segundo Gilson Machado, Vladimir Putin teria desistido da invasão ao ouvir uma “mensagem de paz” de Jair Bolsonaro. “Graças a Deus, já foram retiradas as tropas e não se fala mais em guerra”, decretou.

O dublê de ministro e sanfoneiro não delirou sozinho. Apenas repetiu para as câmeras a mentira que circulava nas redes bolsonaristas. Desde que o capitão pisou no Kremlin, no início da semana passada, a fábrica das fake news trabalhou pesado. Com memes e notícias falsas, propagou a cascata de que o Mito teria evitado a Terceira Guerra Mundial.

Flávia Oliveira: Nada de bom no horizonte

O Globo

Terceiro ano de pandemia, 428 milhões de casos confirmados e 5,9 milhões de mortos pela Covid-19 planeta afora, nem 40% da população global vacinada até a virada de 2022, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Territórios e vidas varridos por desastres naturais severos em todos os continentes. Floresta Amazônica apequenando-se entre chamas e pilhagem. E começa uma guerra. Não venho apontar fatos históricos, erros, justificativas para a escalada do conflito que deu no ataque da Rússia de Vladimir Putin à vizinha Ucrânia. Só lembrar que nada de bom surge da guerra. Na incapacidade de a diplomacia e as lideranças globais garantirem a paz, perdemos todos, brasileiros incluídos.

Pedro Doria: Tanques, mísseis — e hackers

O Globo

Na segunda semana deste mês de fevereiro, os ucranianos tiveram dificuldade de acessar inúmeros dos sistemas bancários do país. Estava começando, ali, o maior ataque de negação distribuída de serviço (DDoS) de sua História — não é pouco, a Ucrânia é um dos países com maior experiência em ataques cibernéticos no mundo. Esse tipo em particular é força bruta. Robôs fingem ser pessoas aos milhões tentando acessar sites, apps, o que for. O resultado é que, sobrecarregados, os servidores ficam lentos e caem. O que estamos vendo naquele país, desde a madrugada de quinta-feira, não é apenas a primeira guerra de conquista em solo europeu desde que Adolf Hitler invadiu a Polônia em 1939. É também a primeira guerra “figital”, física e digital, simultaneamente.

O objetivo de uma guerra digital é desestabilizar a infraestrutura de um país nos momentos anteriores à invasão com tanques. Ao longo de fevereiro, os ucranianos tiveram dificuldade de fazer transferências de dinheiro, sacar recursos, pagamentos atrasaram ou não chegaram a ser feitos. Já de cara, no momento em que os primeiros mísseis caíram sobre Kiev, a vida financeira do país não estava em dia. E não dará tempo para organizar.

Eliane Cantanhêde: Não à guerra!

O Estado de S. Paulo

Brasil não vai à guerra e não apoia sanções, mas tem de repudiar veementemente a guerra

Ao invadir a Ucrânia por ar, terra e mar, Vladimir Putin chacoalha o mundo no fim da pandemia, ameaça a economia internacional, confronta a Europa, enfraquece Joe Biden e fortalece a volta de Donald Trump ao governo dos Estados Unidos, ainda a maior potência. Isso tem consequências no Brasil? Obviamente que sim.

Cuidado com o calibre dos ataques a Biden. Quanto mais a diplomacia, a academia e a mídia esculacham Biden, mais crescem as chances de um novo mandato para Trump, o que é conveniente para Putin, que interferiu a favor de Trump contra Hillary Clinton nas eleições americanas, e para o presidente Jair Bolsonaro, que disputa a reeleição e espaço na extrema direita internacional.

Luiz Carlos Azedo: Crise da Ucrânia é uma mudança na política mundial

Correio Braziliense

Até agora, os Estados Unidos não recorreram à ação militar direta. A razão é óbvia: A Rússia herdou a paridade estratégico-militar da antiga União Soviética, em razão do seu poderio nuclear

Estava escrito nas estrelas o que acontece na Ucrânia, invadida por tropas do Exército russo por ordem do presidente Vladimir Putin. A dura retaliação econômica dos Estados Unidos e seus aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) aos dirigentes, magnatas e instituições financeiras russas também. Joe Biden, o presidente dos Estados Unidos, desde o primeiro momento da crise, ao lado do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, havia advertido que o Ocidente não toleraria uma agressão à Ucrânia. Os dois pagaram para ver e, agora, estamos diante de um novo conflito envolvendo as fronteiras da Europa, descongeladas pela queda do Muro de Berlim e o fim da antiga União Soviética, no final do século passado.

É bom lembrar que os Estados Unidos atuam como uma espécie de xerife do mundo, nem sempre sob a bandeira da Organização das Nações Unidas (ONU), desde a dissolução da antiga Iugoslávia, em 1991. Ironicamente, com apoio da Rússia, os EUA contiveram os planos expansionistas da Sérvia, duramente bombardeada por três meses. A política de limpeza étnica do então presidente sérvio, Slobodan Milosevic, foi punida exemplarmente. Depois de perder as eleições em 2000, o líder nacionalista acabou preso por crimes de guerra no cerco à Sarajevo e pelo massacre de Srebrenica, ocorrido em julho de 1995, quando tropas sérvias executaram cerca de oito mil bósnios. Os Estados Unidos também exerceram o papel de xerife no Iraque, na Líbia, na Síria e no Afeganistão, entre outros países.

Fernando Luiz Abrucio*: Bolsonaro é um risco geopolítico

Valor Econômico

Não é só incompetência e ignorância, é um sistema cuja ideia é criar um modelo político similar à Rússia de Putin e à Hungria de Orbán

A evolução do governo Bolsonaro é a criação de uma série de riscos ao futuro do país. Para quem conhecia minimamente a história do deputado que defendeu o fuzilamento do ex-presidente Fernando Henrique e que disse que a ditadura deveria ter matado pelo menos mais 30 mil pessoas, o risco democrático já estava na mesa desde a posse. De lá para cá, o cenário tornou-se mais perigoso, seja porque a ameaça à democracia é renovada quase toda semana, seja em razão de outros riscos terem sido incluídos nessa lista.

O mais danoso deles deriva da última viagem desastrosa à Rússia: o presidente colocou o Brasil sob risco geopolítico em suas relações com o Ocidente. Esse posicionamento pode custar anos de isolamento político e piora no cenário econômico.

César Felício: Rússia é embaraço para Lula e Bolsonaro

Valor Econômico

Polarização no Brasil rechaça Biden e aceita Putin

O presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por motivos diferentes, aproximam-se em relação à guerra no Leste Europeu. Tanto um como o outro são associados com o campo do agressor, o presidente russo Vladimir Putin. Tanto um como o outro tentam se distanciar dele.

Bolsonaro acabou de voltar da Rússia em uma visita consensualmente vista como inoportuna por analistas internacionais, mas festejada por seus adoradores. Não só esteve na Rússia durante a iminência da guerra como declarou-se solidário ao país, e, em tom de troça, se disse responsável por uma inexistente distensão da crise internacional.

Lula não se compromete no mesmo grau, mas o antiamericanismo que tem livre curso no PT tende a perfilar o lulismo no polo oposto aonde esteja os Estados Unidos, seja contra Putin, o Talibã ou a Coreia do Norte.

Como o americano Joe Biden é o grande antagonista no momento de Vladimir Putin, Lula terá a associação de sua imagem com o russo.

Maria Cristina Fernandes: Conflito desorienta e ‘normaliza’ bolsonarismo

Valor Econômico

Fracasso do vaticínio bolsonarista foi o que de melhor poderia ter acontecido para o front interno da guerra eleitoral

O fracasso do vaticínio bolsonarista sobre as perspectivas do conflito na Ucrânia foi o que de melhor poderia ter acontecido para o front interno da guerra eleitoral do presidente Jair Bolsonaro.

Suas declarações de solidariedade “à busca de Putin pela paz”, feitas uma semana antes do ataque russo à Ucrânia, ganharam competidores à altura.

A deflagração da guerra não apenas trouxe à tona outros posicionamentos estapafúrdios nas fronteiras nacionais, quanto expôs o fracasso de dirigentes estrangeiros que assumiram, de fato, o risco da mediação do conflito.

Nesse ambiente em que todos erram e ninguém tem razão eis que aparece Bolsonaro, às 16h de ontem, no Twitter, dizendo-se empenhado em “proteger e auxiliar” os brasileiros na Ucrânia. Já não tomou partido nem se aventurou na geopolítica, apenas pôs a embaixada em Kiev à disposição dos 500 brasileiros que vivem no país e os que lá estão de passagem. Não tem como ser contra.

Já não se pode dizer o mesmo em relação ao vice-presidente Hamilton Mourão, o primeiro a ombrear com o Bolsonaro de Moscou, ainda que de ponta cabeça. Mourão defendeu o uso da força e disse que se o Ocidente deixar que a Ucrânia caia por terra, Putin prosseguirá até reproduzir a Alemanha hitlerista dos anos 30.

Claudia Safatle: Com a guerra, aumenta a inflação no Brasil

Valor Econômico

Os impactos da invasão Russa à Ucrânia chegam ao país nos preços da energia e dos combustíveis

A guerra declarada pela Rússia, que invadiu a Ucrânia ontem por terra, mar e ar, deverá trazer um pesado custo para o Brasil. Os impactos chegam aqui nos preços da energia e dos combustíveis. A Petrobras não vai poder segurar os preços da gasolina, do gás e do diesel por muito tempo. Ontem, o preço do barril de petróleos superou a marca de US$ 105 na máxima do dia, fechando em US$ 99,36 o barril do tipo brent

São questões “politicamente muito carregadas, com coisas muito impopulares, que afetam o mundo todo e não só o Brasil”, comentou um ex-presidente do Banco Central, que optou pelo anonimato. “Vai ser uma grande confusão”, previu ele.

Bruno Boghossian: Mediocridade internacional

Folha de S. Paulo

Presidente falou demais quando ataque era só ameaça e liderou hesitação quando tropas avançaram

Quando a invasão da Ucrânia era uma ameaça que deixava o mundo sob tensão, Jair Bolsonaro falou demais. Foi a Moscou para prestar solidariedade aos russos que intimidavam o país vizinho e espalhou a falsa impressão de que o governo local não estava interessado numa guerra. "A leitura que eu tenho do presidente Putin é que ele é uma pessoa que também busca a paz", declarou.

Uma semana depois, tropas enviadas pelo Kremlin atravessaram a fronteira ucraniana, e Bolsonaro preferiu se encolher. Na manhã em que a guerra começou, o presidente ignorou o assunto: conversou com apoiadores sobre o jogo do Palmeiras, voou para mais um evento de campanha antecipada e manteve a diplomacia brasileira num vergonhoso estado de hesitação.

Hélio Schwartsman: Invasão da Ucrânia é ilegal, imoral e burra

Folha de S. Paulo

Rússia deu à Otan uma boa razão para existir e até para se expandir.

Ilegal, imoral e burra. É assim que eu classificaria a decisão de Vladimir Putin de invadir a Ucrânia. O autocrata russo até que vinha se saindo bem em sua queda de braço com o Ocidente. Estava conseguindo explorar com relativo sucesso as divisões entre europeus e americanos e, se insistisse, poderia alcançar alguns de seus objetivos sem disparar um único tiro. Mas, ao promover um conflito de larga escala, Putin se expõe à tirania das incertezas.

Com efeito, até aqui o jogo era essencialmente definido pelas escolhas do próprio Putin e de meia dúzia de líderes mundiais. Com a guerra, qualquer comandante de pelotão pode deflagrar escaladas sem volta. Quatro países da Otan têm fronteira com a Ucrânia. Uma escaramuça mal resolvida num deles pode, ao menos no papel, arrastar a aliança militar ocidental para um embate direto com tropas russas.

Cidadania condena ataque da Rússia à Ucrânia, pede ação do Brasil pela paz e cobra retirada de brasileiros da zona de guerra

“A agressão a um país soberano deve ser repelida pelo mundo democrático”, diz partido

Como sucessor do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e do Partido Popular Socialista (PPS), que sempre defenderam a política de paz, inclusive no período mais grave da guerra fria propugnando pelo desarmamento, o Cidadania condena os ataques da Rússia à Ucrânia e conclama o governo brasileiro a agir por uma conferência de paz que cesse as hostilidades no leste europeu.

O Brasil e seu presidente não podem assistir à eclosão de uma guerra no coração da Europa, envolvendo grandes parceiros nacionais, sem se posicionar. É preciso reafirmar a defesa da não intervenção e da soberania dos povos e condenar os ataques da Rússia à Ucrânia, que violam leis internacionais e colocam em risco a paz na Europa.

Urge a retirada dos brasileiros da área de conflito. E um plano contra os efeitos da guerra, que chegarão primeiro via aumento dos preços do petróleo e inflação. Além de contrariar nossos princípios constitucionais, o conflito não interessa economicamente ao país.

Ivan Alves Filho*: Em busca de uma solução pacífica para o caso da Ucrânia

O mapa político do mundo parece ter retrocedido a 1914. E é preciso recordar aqui o posicionamento dos bolcheviques conduzidos por Vladimir Lenin em relação ao conflito bélico que começou a sacudir a Europa naquela quadra: não à guerra imperialista e total apoio à luta dos povos contra ela. Os mencheviques internacionalistas liderados por Julius Martov também defenderiam essa posição. O povo russo, três anos depois, iniciava um processo revolucionário que abalaria o mundo. Nunca é demais lembrar que a Rússia Soviética declararia unilateralmente a paz. 

Esta é a herança que precisamos resgatar. Ou seja, aquela da opção pela paz e concórdia entre os povos. 

A guerra mundial de 1939-1945 também ensina. Sob essa ótica, o que mais impressiona neste conflito militar, iniciado pela Rússia de Putin, é o desequilíbrio entre o poderio militar russo e as suas limitações econômicas e também demográficas. Se a Alemanha nazista possuía muita gente para pouco território, a Rússia de Putin tem muito território para pouca gente. Aí mora o perigo, a tentação imperialista. A mescla de identitarismo étnico com terror e manipulação nacionalista tem endereço certo: fascismo. 

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Brasil deveria condenar invasão com veemência

O Globo

Numa leitura bastante generosa, foi tímida a primeira reação do governo brasileiro à invasão russa da Ucrânia, que deveria ter sido condenada com presteza e veemência. Depois de sua visita recente a Moscou, em que empenhou “solidariedade” a Vladimir Putin, o presidente Jair Bolsonaro ignorou o assunto nos discursos que fez ontem em São Paulo. Só na sua “live” noturna resolveu desautorizar o vice, Hamilton Mourão, que condenara o ataque russo. Pela manhã, enquanto o mundo democrático manifestava repúdio pela guerra em termos firmes, o Itamaraty se debatia com os termos da nota oficial cheia de dedos que emitiu.

Em vez de condenar a invasão, o governo brasileiro manifestou apenas “preocupação com a deflagração de operações militares” e fez um apelo pela “suspensão imediata das hostilidades”. É pouco. Noutra situação, se Bolsonaro não tivesse lançado o Brasil ao limbo da geopolítica internacional, poderíamos até ter um papel de mediação que justificasse o comedimento em deferência aos russos. Não é o caso. A reação brasileira deveria ter sido veemente. Até para desfazer o mal-estar provocado pela viagem de Bolsonaro em aliados bem mais relevantes aos interesses brasileiros, como Estados Unidos ou os países europeus. Como integrante do Conselho de Segurança das Nações Unidas, o Brasil tem o dever de apoiar uma resolução que condene a invasão com firmeza, sem tergiversar nem tentar fazer média com Putin.

Poesia | Vinicius de Moraes: A rosa de Hiroxima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

Música | Sivuca: O Frevo dos Vassourinhas

 

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Opinião do dia: Luiz Werneck Vianna*

¨Somos herdeiros de uma história que começou tisnada pela mácula do latifúndio e da escravidão, que ainda pesam como chumbo às nossas costas, e com a república experimentamos o fascismo com o Estado Novo de 1937, no regime do AI-5 em 1968, e que, de forma latente, nos ameaça agora e não podemos ignorar os sinais sombrios que eles emitem para nós. Como sempre, o melhor remédio para enfrentá-lo é a união de todos os democratas.”

*Luiz Werneck Vianna, Sociólogo, PUC-Rio. “O que ainda nos falta”. Blog Democracia Política e novo Reformismo, 18/2/2022.

Merval Pereira: Maluca corrida

O Globo

A última novidade na corrida presidencial é a percepção de que o presidente Bolsonaro pode não ser um “pato manco”. A eleição está difícil para a terceira via, até porque Bolsonaro estabilizou e, com ajuda do Centrão, continua na margem de 20% a 25% nas pesquisas. É bom para ele, porque, se for para o segundo turno — não acredito na vitória de Lula já no primeiro —, conseguirá reviver a polarização de 2018, e não se sabe o que pode acontecer. A campanha será radicalizada, e todo o passado petista de envolvimento com corrupção, no mensalão e no petrolão, será reavivado.

O salto alto da militância petista está fazendo com que erros políticos ajudem a recuperação de Bolsonaro. No Rio, onde o presidente Bolsonaro e seu clã têm origem, o PT não está conseguindo o apoio do prefeito Eduardo Paes na composição para a disputa do governo e Senado, o que já está enfraquecendo Lula e fortalecendo Bolsonaro, que apoia a reeleição do governador Cláudio Castro.

“Pato manco” é uma expressão usada principalmente na política americana (lame duck), que define o político que continua no cargo, mas, por algum motivo, não tem chance de disputar a reeleição e perde a expectativa de poder. A expressão nasceu na Bolsa de Valores de Londres, no século XVIII, em referência a um investidor que não pagou suas dívidas e ficava exposto à pressão dos credores. A ave (e o político) com problemas torna-se presa fácil dos predadores.

Malu Gaspar: A eleição da velha política

O Globo

Entre tantas incertezas, pelo menos uma coisa parece bem definida pelo subtexto das movimentações para a disputa presidencial. Esquerda, direita e centro concluíram que, depois de uma eleição completamente fora dos padrões em 2018, vem aí uma disputa das mais tradicionais, em que a velha política (ou a política velha) dará as cartas.

Em 2018, Bolsonaro não tinha partido forte, não tinha coligação e nem coalizão partidária e dispunha de apenas oito segundos por dia no horário eleitoral da TV. Construiu sua narrativa à margem da mídia tradicional, calcada na capilaridade das redes sociais e do WhatsApp — e claro, em muitas fake news.

Mas o outsider virou presidente e, embora tente manter o discurso de candidato antiestablishment, na prática está cada vez mais enquadrado pelo Centrão e pelos marqueteiros tradicionais.

Míriam Leitão: O risco russo diante da História

O Globo

O momento é de extremo perigo global, e o que o presidente Vladimir Putin está fazendo pode significar o fim do mundo como o conhecemos desde o pós-guerra. É o que pensa o embaixador Rubens Ricupero. Para o mercado financeiro, a análise é a de que “já está no preço” uma ocupação ao leste do país, mas não uma invasão total. Eles se prepararam para essa reação de Putin e em relatório aos clientes os bancos já explicavam que era dado como certo que a Rússia enviaria mais tropas para a Ucrânia.

O que todas as análises concordam, seja no mercado financeiro, seja na política internacional, é que as sanções não vão deter Putin. O governo russo está sentado numa montanha de reservas cambiais, US$ 640 bilhões, e pode resistir à suspensão do acesso ao mercado internacional de capitais. Num relatório, o banco UBS avalia que se houver uma escalada do conflito isso levaria a um boicote completo do petróleo e gás russos. Com isso, o petróleo iria a US$ 125 o barril por dois trimestres, o que elevaria a inflação e reduziria em 0,5 ponto percentual o crescimento mundial.

Luiz Carlos Azedo: Eleições presidenciais serão em alta tensão

Correio Braziliense

Bolsonaro está inconformado com as investigações sobre fake news, que atingem diretamente seus operadores nas redes sociais

A campanha eleitoral nem começou, mas a tensão entre Jair Bolsonaro e os ministros Édson Fachin, que acaba de assumir a presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e Alexandre de Moraes, que presidirá a Corte durante a votação, aumentou. O presidente da República não foi à posse de ambos e, ontem, o secretário-geral da Presidência, general Luiz Ramos, criticou Fachin nominalmente. Na mesma linha, durante evento do banco BTG Pactual, Bolsonaro vez novos ataques direcionados aos ministros do Supremo, sem citar nomes.

“Nós precisamos de paz para ter liberdade e devemos lutar por isso. Não vai ser o chefe do Executivo que vai jogar fora das quatro linhas, mas, por favor, dois ou três no Brasil: não estiquem essa corda. Vocês vão ter que vir para as quatro linhas. Afinal de contas, todos nós temos limites”, declarou. A referência é endereçada também ao ex-presidente da Corte, Luís Barroso. Bolsonaro arrematou: “Alguns poucos, dois ou três, acham que não têm limites e ficam brincando de nos controlar, de desrespeitar a nossa Constituição.”

Bruno Boghossian: Síndrome do abandono

Folha de S. Paulo

Presidente sente abandono e explora medo do PT para fazer cobrança a empresários

Jair Bolsonaro se sente abandonado. Depois de contar com o apoio de investidores e empresários para chegar ao Planalto, o presidente se queixou da apatia desses grupos com sua campanha à reeleição. No evento de um banco, ele se irritou com aqueles que consideram certa uma vitória de Lula nas urnas: "Dá para deixar rolar tudo numa boa? Quem chegar chegou? Tudo bem?".

O presidente tenta usar a seu favor a liderança do petista nas pesquisas e aplica uma tonalidade renovada à campanha do medo da volta de Lula. Nos últimos dias, ele agitou diante dos conservadores um perigo iminente da liberação do aborto e lançou maus agouros aos endinheirados que já fazem projeções econômicas para um futuro governo do PT.

Ruy Castro: Intestinos de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Quando eles explodirem, mantenha distância da hacienda em que se resume hoje o poder. Bleargh!

Em todos os filmes do Zorro, de Douglas Fairbanks e Tyrone Power a Antonio Banderas, a derrubada do governo que oprime e explora o México só precisa que o herói vare com sua espada o chefe de polícia, depois de lhe fazer um Z na testa, e o povo, portando archotes, derrube os portões da hacienda do governador corrupto e de sua família e prenda todo mundo. É empolgante, mas a ideia de que uma hacienda podia servir de metáfora para simbolizar um país sempre me soou implausível.

Maria Hermínia Tavares: A urgência da adaptação à mudança do clima

Folha de S. Paulo

Políticas de proteção social precisam considerar o espectro da crise ambiental

A tragédia de Petrópolis veio repetir uma verdade para além de sabida: os mais pobres serão sempre as primeiras e principais vítimas da natureza em transe, com o notório dar de ombros das grandes empresas, como sucedeu em Mariana e Brumadinho; a negligência dos governantes; ou o seu misto de desinteresse e incapacidade de disciplinar a ocupação urbana.

Como secas calcinantes ou dilúvios bíblicos, incêndios ou inundações, desmoronamentos ruinosos ou marés gigantescas, pandemias, rompimentos de barragens ou vazamentos de petróleo, catástrofes ambientais —a maioria decorrente do aquecimento do planeta— passaram a fazer parte do novo normal.

Eis por que especialistas em mudanças climáticas chamam a atenção para duas estratégias igualmente cruciais: mitigação e adaptação. No primeiro caso, trata-se de estabelecer e cumprir compromissos com iniciativas para reduzir as emissões de carbono a fim de impedir o crescimento descontrolado da temperatura terrestre.

Vinicius Torres Freire: Caiu chuva, cai o dólar, inflação sobe

Folha de S. Paulo

Crise da eletricidade passa, real se valoriza, mas preços ainda fervem por vários motivos

As represas das usinas hidrelétricas não tinham tanta água em fevereiro desde 2014, quando passaram a ocorrer secas horríveis, com risco de racionamento e conta de luz cara. O preço do dólar cai desde o início do ano, mas é cedo para haver refresco nos preços, ainda que a valorização do real possa conter reajustes dos combustíveis, no curtíssimo prazo. A inflação alta ainda vai longe, no ritmo de pelo menos 9% ao ano até junho.

Não é registro de mera aritmética econômica. A inflação tem efeito direto na veia da política. É um dos motivos pelos quais Jair Bolsonaro e comparsas tentam inventar medidas para agradar a tais e quais grupos, limitados, mas que talvez rendam votos suficientes para garantir uma vaga no segundo turno.

Maria Cristina Fernandes: Minas sem autoridade

Valor Econômico

PM se rebela no segundo maior colégio eleitoral do país, em que o presidente da República não tem palanque

O senador Flavio Bolsonaro (PL-RJ) esteve no gabinete do governador de Minas Gerais na semana passada na companhia do deputado federal e ex-ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio (PSL-MG), na tentativa de fazê-lo vice na chapa de Romeu Zema à reeleição.

Marcelo Álvaro deixou o governo depois de ser acusado pelo Ministério Público Eleitoral de comandar um laranjal com as verbas do fundo partidário.

Quando o deputado e o senador deixaram a sede do governo mineiro, o presidente Jair Bolsonaro permanecia sem palanque no segundo maior colégio eleitoral, aquele que, desde 1989, é a bússola da eleição presidencial. Quem ganha em Minas, vence no Brasil.

Depois de se eleger nas asas do bolsonarismo em 2018, Zema quer distância do presidente. Estreante na política, conduz governo itinerante, ora visitando prefeitos como fazia com os lojistas de sua rede varejista, ora gravando vídeos para o Tik Tok em que lava pratos, faz pão de queijo e flexões abdominais.

Cristiano Romero: Luz: pela hora da morte

Valor Econômico

Oferta abundante de energia não resulta em preço baixo no país

O Brasil, segundo o Plano Nacional de Energia (PNE 2050), elaborado pela Empresa de Planejamento Energético (EPE), tem potencial para produzir energia em abundância até o fim da primeira metade deste século, muito acima do crescimento da demanda no mesmo período. Ainda que a economia brasileira, por algum milagre, volte a crescer a taxas respeitáveis - o que, de fato, exigirá intervenção do divino, uma vez que a média anual de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) na década de 2010 foi de apenas 0,5%, o bônus demográfico já acabou e a produtividade hoje é baixíssima -, não faltará luz para iluminar residências, mover meios de transporte e colocar máquinas em funcionamento.