EDITORIAIS
Guerra traz incerteza à economia global
O Globo
Enquanto se assiste aos bombardeios e ao
desespero de civis na Ucrânia, invadida pela Rússia nesta semana sem ter
cometido nenhuma provocação, os analistas tentam avaliar as consequências do
conflito na economia global. É tarefa árdua, praticamente impossível, porque
depende da resposta a uma pergunta: quais são os planos de Vladimir Putin? Além
dele, aparentemente ninguém sabe.
Se Putin decidir mudar o governo ucraniano
e, em seguida, mandar suas tropas retroceder às bases, o efeito econômico será
menor. Caso decida aumentar o escopo da guerra para redesenhar o mapa
geopolítico da Europa, o estrago será imenso, no mínimo uma nova recessão
global. É um cenário menos provável, mas longe de impossível. Diante da
incerteza, as principais Bolsas de Valores sofreram queda acentuada nesta
semana. Foram surpreendidas pela invasão, mas ainda não estão numa situação que
denote a proximidade de uma crise financeira.
O certo é que a economia mundial cresceria
mais neste ano sem a guerra na Ucrânia. Por não saber o que esperar,
consumidores e empresários, principalmente nas regiões mais próximas, perdem
esperança no futuro e tendem a adiar planos de consumo e investimento. Quanto
mais tempo a guerra levar para acabar, maior será a corrosão da confiança.
A Europa depende do gás russo para gerar
energia, sobretudo a Alemanha e a Itália. O inverno europeu, agora próximo do
fim, foi ameno. O estoque de gás na região está em nível superior ao previsto
pelos analistas. Por isso a questão do abastecimento perdeu urgência, pelo menos
no curto prazo. Mas não se tornou irrelevante. Um conflito prolongado a
tornaria prioritária. Por ora, o mais imediato é o temor de descontrole maior
da inflação já em alta, como resultado da escassez dos produtos exportados pela
Rússia — como gás, petróleo e grãos.