sábado, 6 de agosto de 2022

Miguel Reale Júnior* - Razões para o 11 de agosto

O Estado de S. Paulo

Brasil da diversidade democrática irá à Escola do Largo de São Francisco dizer não aos ataques às instituições e afiançar que não se admitem retrocessos.

Desde 26 de maio de 2019 o País veio sendo sobressaltado por ameaças ao regime democrático em atos em favor do presidente da República, dando início à campanha contra os demais Poderes.

Depois, em 15 de março de 2020, o presidente desceu a rampa do Palácio do Planalto para se congraçar com manifestantes que gritavam frases contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF).

Um mês depois, em 20 de abril, o presidente compareceu a ato em frente ao Quartel-General do Exército no qual despontavam faixas em favor da intervenção militar e de nova edição do Ato Institucional n.º 5.

Em meados de 2020, acusou mentirosamente o STF de coartar sua ação em face da covid-19, quando a Suprema Corte apenas decidira ser o enfrentamento do vírus tarefa comum das três instâncias de poder, a agirem em colaboração.

Carlos Alberto Sardenberg - Pela democracia, de novo

O Globo

O grande capital industrial, comercial e financeiro se posiciona abertamente pela democracia, contra ameaças de golpe

Para Jô Soares

Os grandes bancos privados são extremamente cautelosos em suas relações com o governo, Legislativo e Judiciário. Têm seus motivos: o sistema financeiro é muito regulado, o que significa funcionar sob um emaranhado de leis e normas. É custoso, algo que precisa ser negociado o tempo todo. Um artigo numa lei qualquer pode significar prejuízo direto. Ou lucro, claro.

Além disso, banco é objeto do ódio universal. Uma instituição que paga 10 quando você aplica e cobra 30 quando você toma emprestado não pode pretender ser amada pelo público.

São infinitas as frases que exprimem esse sentimento. “O que é pior, roubar um banco ou fundar um?” — que aparece em diversas versões. O celebrado economista John Kenneth Galbraith também entrou no assunto: “A maneira como os bancos ganham dinheiro é tão simples que é repugnante”.

Politicamente, é um escândalo. De um lado, o pobre devedor, de outro, o banqueirão. Resultado: leis que dificultam a cobrança de dívidas e aumento sistemático de impostos sobre o pecaminoso lucro financeiro.

Populismo, claro. Quanto mais complexa a concessão do crédito, quanto mais difícil a cobrança e quanto maior o imposto, maior a taxa de juro. Lógico: a taxa de juro é a medida do risco de não receber.

Algum político topa isso? Não.

Fernando Schüler* - A banalização da democracia

Revista Veja

É preciso saber criticar o gesto autoritário, venha ele de onde vier

Viramos o País dos manifestos. De um lado, a “carta pela democracia”; de outro, o “manifesto pelas liberdades”. De um lado, desconfia-se de que qualquer crítica às urnas eletrônicas seja, na prática, um ataque à democracia; de outro, que a “defesa da democracia” não vá muito além de uma jogada eleitoral. Um colega sarcástico resumiu tudo de um jeito simples: “Quem não gosta do Bolsonaro assina uma, quem gosta assina outra”. E completou: “Leva o troféu da democracia quem fizer mais barulho na internet”. Talvez ele tenha razão, mas prefiro ver nisso tudo um sintoma. A democracia entrou no debate eleitoral. Deveríamos estar discutindo sobre como fazer o país crescer e erradicar a pobreza, mas parece que voltamos à adolescência dos anos 80, 34 anos depois da Constituição.

Ascânio Seleme - Não tem nada ganho

O Globo

O principal objetivo da campanha de reeleição será aumentar a rejeição do PT e do petismo e, com isso, desestabilizar os números de Lula

O manjado discurso de jogador de futebol depois de boa vitória no primeiro jogo de um mata-mata serve muito bem para a eleição presidencial deste ano. Não tem nada ganho, ainda tem a volta, disse Arrascaeta depois da partida em que o Flamengo bateu o Corinthians por 2 x 0 pela Libertadores. Esse deveria ser também o discurso do PT e de Lula nessa fase da campanha. O que se ouve de petistas, porém, é outra coisa. Repetem que o objetivo é sacramentar a vitória logo no primeiro turno. Não que discurso de vitória seja inapropriado, mas dá a impressão que o PT não trabalha com pesquisas, não enxerga como os eleitores têm se mexido nestes últimos dias.

Lula tem tudo para ganhar no segundo turno e deve ganhar, mas não será fácil esta campanha, que nem começou. Vitória no primeiro turno é apenas um sonho. Pesquisas ainda apontam essa possibilidade, mas o avanço de Bolsonaro deveria desassossegar o PT. Já dá para perceber que ocorre um crescimento do presidente. Como se viu na última pesquisa Genial/Quaest, a distância de Lula a Bolsonaro caiu de 14% para 12%. Entre os evangélicos, Bolsonaro cresceu 14 pontos de março a agosto, tendo hoje 48% deste eleitorado. Uma enormidade que ainda pode aumentar com a entrada na campanha de Michelle Bolsonaro, que fala o idioma da mulher evangélica.

José Casado - Riscos no campo

Revista Veja

O agronegócio vai precisar lutar para se manter na liderança

Hastes de arroz, sorgo, milho e soja emolduram uma cabeça de boi, um trator e as linhas azuis que representam abundância de água naquele pedaço do interior de Mato Grosso. Abaixo do desenho, a logomarca do município avisa: “Capital do Agronegócio”.

Sorriso não exagera. É um dos maiores produtores nacionais de soja, milho e peixes. Abriga pouco mais de 90 000 moradores ao redor de dezenas de bancos e escritórios das maiores empresas globais — Amaggi, Bunge, Cargill, Cofco, Glencore e Monsanto, entre outras. Retrata quatro décadas de êxito na modernização tecnológica do campo, na expansão da fronteira agrícola para o Centro-Oeste e, agora, para a Amazônia.

Marco Antonio Villa - É preciso politizar a eleição

Revista IstoÉ

A instabilidade é parte da política do caos, típica de dirigentes como Bolsonaro

Jair Bolsonaro aponta para um Sete de Setembro com a possibilidade de confrontos de rua. Isso justamente no Bicentenário da Independência do Brasil. Seria algo impensado a um lustro atrás, porém, o País foi entrando em um ritmo de tal distopia, que as barbáries acabaram sendo paulatinamente absorvidas pelo modus vivendi da política brasileira. O volume de ataques sistemáticos às instituições, ao Estado democrático de Direito e à Constituição foram se incorporado ao parco vocabulário de Jair Bolsonaro e externados à miúde, em mais de três anos de “governo.”

Pablo Ortellado - Simone Tebet

O Globo

Seu programa social, porém, embora bem elaborado, não tem destaque, nem grande dimensão

A coluna de hoje faz parte de uma série que analisa os principais candidatos a presidente.

Simone Tebet é a única mulher entre esses candidatos. Ela é senadora pelo MDB e começou sua carreira em Mato Grosso do Sul, tendo sido vice-governadora do estado e duas vezes prefeita de Três Lagoas. Ganhou destaque no Senado produzindo pareceres e relatorias de grande qualidade técnica e, mais recentemente, se projetou como figura nacional com uma participação de relevo na CPI da Covid.

Lançada por uma coalizão entre MDB, PSDB, Cidadania e Podemos, ela é herdeira do programa Ponte para o Futuro, que fundamentou as políticas do governo Michel Temer e, de maneira indireta, é também herdeira das políticas do governo Fernando Henrique Cardoso. Não é à toa que trabalham em seu programa de governo quadros altamente qualificados desses dois governos, como Edmar Bacha, José Roberto Mendonça de Barros e Elena Landau.

Tebet tem dito que pretende fazer uma reforma tributária rápida, em seis meses, apoiada na proposta que existe no Congresso sobre a criação de um imposto sobre o valor agregado, unificando e simplificando tributos sobre o consumo. A medida é necessária e praticamente consensual. Só não foi implementada ainda pela inabilidade e falta de empenho do governo Bolsonaro. Tebet também propõe taxar lucros e dividendos, outra medida praticamente consensual para introduzir um pouco de justiça tributária cobrando impostos sobre a remuneração do capital.

João Gabriel de Lima – Do país do futuro ao país sem futuro

O Estado de S. Paulo

Somos vistos hoje como párias ambientais. Está em nossas mãos reverter a má imagem

A União Europeia irá votar uma legislação que, se aprovada, poderá afetar significativamente as exportações brasileiras. Trata-se da Lei Antidesmatamento, que prevê punições às empresas compradoras de produtos que provoquem devastação florestal. Segundo previsão de diplomatas brasileiros, o projeto deve entrar na pauta do Parlamento Europeu a partir do mês que vem.

As punições atingirão empresas que comprarem café, carne, soja, madeira, óleo de palma ou cacau cultivados em regiões de desmatamento. Os três primeiros produtos, entre os seis incluídos na primeira versão da lei, estão no topo da lista de exportações brasileiras para a Europa. Será igualmente punido quem negociar com regiões ou países que desrespeitam os direitos de populações tradicionais.

Para Giovanna Kuele e Andreia Bonzo, do Instituto Igarapé, o propósito da União Europeia é impedir que empresas do continente colaborem com a destruição das florestas – mas outros ecossistemas, como o Cerrado, poderão entrar na nova lei. Elas discorrem sobre o assunto no minipodcast da semana.

O Brasil tem duas atitudes possíveis diante da iniciativa europeia. A primeira é o esperneio.

Adriana Fernandes - Licença para gastar em 2023

O Estado de S. Paulo.

Programa especial daria tempo para o próximo governo administrar gastos já contratados

A criação de um programa especial para um gasto temporário fora do teto, até a entrada em vigor de um novo arcabouço fiscal para o Brasil, está se consolidando como uma das alternativas mais viáveis para as contas públicas em 2023.

A proposta dá tempo ao próximo governo para administrar o aumento de gastos já contratado com a elevação de R$ 400 para R$ 600 do Auxílio Brasil e espaço para fazer alguns investimentos prioritários, sem estrangular o custeio da máquina administrativa dos ministérios.

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) prometeram manter esse valor no ano que vem, caso eleitos. Por enquanto, o adicional de R$ 200 só vale até 31 de dezembro.

Demétrio Magnoli - O sul da política externa lulista

Folha de S. Paulo

'Sul global' é fantasia acadêmica, tardia flor ideológica do terceiro-mundismo

Putin e Zelenski são igualmente responsáveis pela invasão russa da Ucrânia. O diagnóstico neutralista de Lula encontra sua teorização na réplica à minha última coluna, assinada por um grupo de professores universitários (Folha, 2/8).

O "conflito é multicausal", explicam, atribuindo-o em partes iguais ao "expansionismo da Otan" e à "deriva nacionalista do regime de Vladimir Putin". A ordem dos fatores não é casual: fazendo eco a Lula, e ignorando as evidências factuais, o primeiro surge como raiz da tragédia e, implicitamente, como fonte do segundo. O conjunto do texto desdobra o argumento inicial e, nesse passo, descortina os fundamentos da política externa do provável futuro governo. Por isso, merece exame.

Hélio Schwartsman - Acordo difícil para Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Evitar cadeia após mandato é problema para o presidente

Jair Bolsonaro tem um problema, que é evitar a cadeia depois que perder o cargo de presidente. Estamos no Brasil. Tenho, portanto, dificuldade em vislumbrar um processo penal contra ele chegando ao trânsito em julgado. Sempre há uma corte acima que pode anular tudo. Mas dá para imaginar uma prisão preventiva no meio do caminho.

Pizzas à parte, a questão é que, mesmo que houvesse disposição de luminares da República de trocar uma blindagem jurídica pela garantia de não radicalização por parte de Bolsonaro, esse seria um acordo difícil de promover. O primeiro obstáculo é que ele seria ilegal. Nenhum procurador nem juiz pode prometer que vai aliviar num caso que possa cair em suas mãos. Bolsonaro já deu mostras de suas limitações cognitivas, mas acho que nem ele acreditaria que um acordo que não pode nem ser confessado seria honrado.

Alvaro Costa e Silva - O rachadão de Cláudio Castro

Folha de S. Paulo

Ambos fazem de tudo para conseguir a reeleição, usando de expedientes secretos

Eleitos na onda falsamente apolítica e terrivelmente evangélica de 2018, Bolsonaro e Cláudio Castro são farinha do mesmo saco roto. Hoje desmascarados em suas intenções golpistas e corruptas, o medo de um é o medo do outro: a cadeia.

A exemplo do presidente, o governador —que assumiu após o impeachment relâmpago de Wilson Witzel— aposta tudo e usa todos os meios para conseguir a reeleição. Ainda não falou em fugir do país em caso de derrota ou responder a bala para evitar a prisão, mesmo sendo a PM do Rio a mais letal do país. Mas tem em mente o destino atrás das grades de seus antecessores —Moreira Franco, Rosinha Garotinho, Anthony Garotinho, Sérgio Cabral, Luiz Fernando Pezão. A lista de chamada na penitenciária se completa com Eduardo Cunha, cacique fluminense atualmente em fuga para São Paulo.

Cristina Serra - Jô, ao mestre, com carinho

Folha de S. Paulo

Ele exerceu seu ofício com coragem e compromisso com o Brasil

Vou falar do Jô Soares com quem convivi e trabalhei e que tanto me ensinou, com sua generosidade transbordante. Conheci o Jô comunicador depois de ter passado a infância assistindo a seus personagens humorísticos na TV. Em 2012, com o coração aos pulos, sentei-me ao lado dele pela primeira vez, na famosa bancada do seu programa da madrugada. "Programa do Jô. Não vá pra cama sem ele", dizia o divertido bordão.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

Cartas reafirmam compromisso com Brasil democrático

O Globo

Texto com adesão do setor produtivo e sociedade civil mostra que o país não tolerará arroubo golpista de Bolsonaro

É histórica a carta em defesa da democracia e da Justiça publicada ontem pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), com a adesão de dezenas de entidades representativas do setor produtivo, centrais sindicais e organizações da sociedade civil. Ela se soma à manifestação dos mais de 750 mil signatários da “Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em Defesa do Estado Democrático de Direito”, lançada pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo com base na Carta aos Brasileiros lida pelo jurista Goffredo da Silva Telles nas arcadas do Largo São Francisco em 1977, marco do início da derrocada da ditadura militar.

Os textos são praticamente idênticos na essência: reafirmam o apoio veemente à democracia e ao sistema eleitorial e repudiam os ataques sem fundamento às urnas eletrônicas promovidos pelo presidente Jair Bolsonaro e por seus partidários. Revelam que a sociedade brasileira não aceitará qualquer tentativa de desrespeito ao resultado proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na eleição de outubro. São parte de uma reação bem-vinda e necessária da sociedade para deter os arroubos golpistas de Bolsonaro.

Poesia | Charles Baudelaire - Uma carniça

 

Música | Joyce Moreno - Brasileiras canções

 

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Fernando Gabeira - Uma carta e algumas notas pela democracia

O Estado de S. Paulo

É ilusão pensar que a política poderá ser conduzida como a conduzimos desde o movimento das Diretas até a captura do poder pela extrema-direita

Uma carta pela democracia será lida no dia 11 de agosto em São Paulo, e nesse dia, provavelmente, já terá 1 milhão de assinaturas. Nada mais importante neste momento em que Jair Bolsonaro chama embaixadores para atacar as urnas eletrônicas, numa indicação de que não aceitará sua provável derrota.

Um dos aspectos interessantes do documento é que, além da assinatura, ele pede uma vigília permanente pelo Estado de Direito, e isso é fundamental diante das ameaças.

Apesar de minha total concordância, gostaria de acrescentar algumas notas. É essencial defender o que temos de democracia no Brasil. Mas é ilusório supor que ela tenha atingido um estágio superior.

Em 2013, ela foi sacudida por manifestações que até hoje não conseguimos interpretar bem. Mas a intensidade e a extensão do movimento apontavam para grandes deficiências, que não foram satisfeitas; ao contrário, minha sensação é de que se agravaram com a escolha de Bolsonaro.

Eliane Cantanhêde - Oração nacional pela democracia

O Estado de S. Paulo

11 de agosto, dia da democracia, com leitura do manifesto em universidades de todo o País

Alguém precisa explicar para o presidente Jair Bolsonaro que eleição não é igual à Mega Sena, não é (só) questão de sorte e azar, muito menos guerra, vida ou morte, liberdade ou prisão. Talvez assim ele possa dormir um pouco melhor e parar de fazer ameaças, dia sim, dia não, e de cometer atos falhos, como ontem.

Do presidente, num evento evangélico: “Estou buscando impor, via Forças Armadas, que foram convidadas, a nós termos eleições... É a transparência”. É confuso, como sempre, mas a palavra-chave é o verbo “impor”. Ele admitiu que usa Exército, Marinha e Aeronáutica para impor suas certezas e crenças sobre o processo eleitoral.

É assim que o maior adversário de Jair Bolsonaro é Jair Bolsonaro. É por esticar demais a corda que ele vem perdendo eleitores de 2018, setores do empresariado e do mundo financeiro, a ponto de ter de cancelar uma visita à Fiesp e um jantar com endinheirados na próxima quinta-feira, em São Paulo. Além de dividir a Polícia Federal, Abin, Itamaraty e as próprias Forças Armadas. Ou seja, as carreiras de Estado.

Vera Magalhães - Nunca o debate foi tão importante

O Globo

A cobertura da campanha está refém de ameaças intoleráveis à democracia e de propostas programáticas superficiais

A menos de dois meses das eleições mais importantes desde a redemocratização, ainda não há, da parte dos dois principais candidatos, a confirmação da participação em debates e nas sabatinas realizadas por veículos de imprensa de circulação nacional.

Justamente o pleito com um inédito confronto entre um presidente e um ex-presidente é aquele em que, até aqui, não se teve oportunidade de questionar ambos a respeito das principais contradições e lacunas de seus discursos, de ouvir e assistir a um confronto direto entre eles, em que possam expor e responder às críticas que fazem pelas redes sociais, nos palanques e diante de seu próprio público.

Era compreensível a queixa, por parte dos candidatos, à profusão de encontros pretendidos pela imprensa — assim como é plenamente justificável que cada veículo deseje promover suas próprias entrevistas e seus debates.

Pois bem: a mídia aquiesceu ao pleito pela realização de pools para assegurar que haja a participação dos dois primeiros colocados nas pesquisas no encontro entre os postulantes ao Planalto.

Luiz Carlos Azedo - MDB do Rio “cristianiza” Simone e apoia Lula

Correio Braziliense

Moreira trabalha para que Michel Temer também declare apoio a Lula. Mas não houve nenhum sinal efetivo de reaproximação entre ambos. O petista simplesmente o esnobou o ex-presidente

Em 15 de maio de 1950, os dirigentes do PSD, reunidos na casa de Cirilo Júnior (presidente do partido), decidiram lançar a candidatura de Cristiano Machado à Presidência da República. O general Góis Monteiro transmitiu a decisão ao presidente Eurico Gaspar Dutra, seu velho amigo, enquanto o próprio Cristiano procuraria Getúlio Vargas e Ademar de Barros, o governador de São Paulo, para oferecer ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) a vice-presidência.

Vargas não objetou a escolha, mas o PSD do Rio Grande do Sul (favorável à indicação de Nereu Ramos) rejeitou a candidatura. O Partido Social Progressista (PSP), de Ademar de Barros, também decidiu não apoiar Cristiano. Sabia que a candidatura de Vargas, apoiada por Ademar, seria lançada em 17 de junho. O próprio tentava adiar a convenção e remover o candidato do PSD, mas não teve sucesso. Cristiano foi aclamado no dia 9 de julho, ou seja, se antecipou a Vargas. Para neutralizar Ademar, Cristiano fez ainda uma aliança com Hugo Borghi, candidato ao governo de São Paulo pelo Partido Trabalhista Nacional (PTN).

Reinaldo Azevedo - O preço da liberdade é a vigilância

Folha de S. Paulo

Veja por que mobilização em favor da democracia tornou-se ainda mais necessária

Digamos que um manto de bom senso se desdobrasse desde o empíreo e cobrisse o Ministério da Defesa, muito especialmente o general Paulo Sérgio Nogueira, seu titular, num evento verdadeiramente maravilhoso, sobrenatural e solene. Pronto! No dia 12 próximo, tudo estaria resolvido. Restaria a Jair Bolsonaro vociferar entre lunáticos, alegando supostas fragilidades no sistema de votação em caso de derrota. Não será assim. Logo, você sabe qual é o preço da liberdade.

Os nove militares escalados por Nogueira já estão examinando o código-fonte das urnas, depois de um ofício "urgentíssimo" por ele enviado ao TSE solicitando a inspeção do dito-cujo —"haja vista o exíguo tempo disponível até o dia da eleição", escreveu. Não há erro de concordância, haja vista que "haja vista" é expressão invariável. Quando os que dispõem de tanques recorrem a uma linguagem empolada, quase sempre o que se tem é truculência disfarçada de formalidade burocrática.

Bruno Boghossian – A ampulheta de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Com antibolsonarismo, só dois grupos dão vantagem ao presidente em embate direto com petista

A principal missão da campanha de Jair Bolsonaro agora é ganhar tempo. A aposta final do presidente é empurrar a corrida para o segundo turno e conseguir mais quatro semanas para um enfrentamento com Lula. Nesse período, a turma da reeleição espera ver os efeitos de mais uma parcela do Auxílio Brasil e fazer uma ofensiva pesada para tentar aumentar a rejeição ao petista.

Hoje, Bolsonaro corre o risco de perder a disputa no primeiro turno porque, para boa parte do eleitorado, a corrida se consolidou como um plebiscito sobre sua gestão. Uma quantidade razoável de brasileiros vai às urnas no dia 2 de outubro para evitar que ele continue no poder.

Ruy Castro - Matar ou morrer por ele

Folha de S. Paulo

Bolsonaro prega guerra civil abertamente em seus discursos

Leitores me perguntam sobre a coluna desta quinta-feira (4), em que descrevo a última saída de Bolsonaro para evitar sua derrota certa na eleição, com subsequente perda de imunidade, um tsunami de processos e 600 anos de cadeia. Essa saída seria criar uma situação que o impedisse de concorrer e lhe permitisse dizer-se vítima de golpe, levantar seus seguidores armados e levar o país à guerra civil. Alguns querem saber se tenho informações privilegiadas para afirmar isso. A resposta é não, mas é claro que tenho: do próprio Bolsonaro.

Manifesto - Em Defesa da Democracia e da Justiça"

Leia, a seguir, a íntegra da carta assinadas pelas entidades:

"Em Defesa da Democracia e da Justiça"

No ano do bicentenário da Independência, reiteramos nosso compromisso inarredável com a soberania do povo brasileiro expressa pelo voto e exercida em conformidade com a Constituição.

Quando do transcurso do centenário, os modernistas lançaram, com a Semana de 22, um movimento cultural que, apontando caminhos para uma arte com características brasileiras, ajudou a moldar uma identidade genuinamente nacional.

Hoje, mais uma vez, somos instigados a identificar caminhos que consolidem nossa jornada em direção à vontade de nossa gente, que é a independência suprema que uma nação pode alcançar. A estabilidade democrática, o respeito ao Estado de Direito e o desenvolvimento são condições indispensáveis para o Brasil superar os seus principais desafios. Esse é o sentido maior do Sete de Setembro neste ano.

Nossa democracia tem dado provas seguidas de robustez. Em menos de quatro décadas, enfrentou crises profundas, tanto econômicas, com períodos de recessão e hiperinflação, quanto políticas, superando essas mazelas pela força de nossas instituições.

Flávia Oliveira - Passado e futuro em disputa

O Globo

Não é trivial que uma nação assentada na escravidão e no patriarcado encontre tempo, espaço e gente disposta a passar a limpo a História

No mesmo fim de semana em que o presidente da República anunciou a celebração militar do Bicentenário da Independência na Praia de Copacabana, mulheres negras voltaram a marchar, após dois anos, contra o racismo e pelo bem viver na famosa pista à beira do Atlântico. O calçadão foi delas. Hoje, o Instituto Marielle Franco e o movimento Mulheres Negras Decidem realizam o primeiro encontro nacional de candidatas afro-brasileiras às assembleias legislativas nas eleições 2022. E um par de podcasts reivindica o protagonismo negro e o feminino na emancipação do Brasil. No país, o futuro está em construção, e o passado em disputa.

Bernardo Mello Franco - O país do Carandiru

O Globo

Comissão da Câmara aprova anistia a responsáveis pelo massacre, que nunca foram presos; um dos primeiros defensores da chacina hoje veste a faixa presidencial

Em 2 de outubro de 1992, a Polícia Militar de São Paulo invadiu o presídio do Carandiru para reprimir uma rebelião. A ação durou cerca de 20 minutos e deixou 111 mortos. As imagens dos corpos empilhados chocaram o mundo. Viraram símbolo instantâneo da barbárie brasileira.

Três semanas depois, um deputado subiu à tribuna da Câmara para defender os responsáveis pelo banho de sangue. Disse que o massacre teria sido apenas um “ato enérgico”. “Não se pode determinar que policiais entrem numa prisão com um buquê de rosas”, ironizou.

Com o tempo, o Carandiru também virou sinônimo de impunidade. Até hoje, nenhum responsável pela chacina foi preso. O comandante da invasão, coronel Ubiratan Guimarães, ainda conseguiu se eleger deputado estadual. Num deboche com as famílias das vítimas, fez campanha com o número 111.

José de Souza Martins*- Os protestantes e o poder

Valor Econômico / Eu Fim de Semana

No Brasil, o Estado é legalmente separado da religião. Um conjunto de irregularidades, no entanto, vem sendo praticado por várias igrejas e denominações na violação desse preceito

Bolsonaro desencadeou crises profundas nas igrejas cristãs nascidas das reformas protestantes. Crises que estimularam abandono das igrejas, especialmente pelos jovens e pelos membros mais conscientes da gravidade da situação social e dos riscos representados por um governo que ameaça a frágil democracia brasileira.

A notícia de que o Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil desistiu de “vetar cristão de esquerda” trata de uma ocorrência da maior importância política. A igreja reagiu a uma proposta que seria levada ao seu Supremo Concílio por um de seus pastores, que já havia se pronunciado no templo pelo apoio à candidatura de Bolsonaro.

No Brasil, o Estado é legalmente separado da religião. Um conjunto de irregularidades, no entanto, vem sendo praticado por várias igrejas e denominações na violação desse preceito.

Humberto Saccomandi - Turbulência global neste 2º semestre

Valor Econômico

As manobras militares chineses ao redor de Taiwan acrescentaram mais um fator de risco a um semestre que promete ser tenso em boa parte do mundo

As manobras militares chineses ao redor de Taiwan acrescentaram mais um fator de risco a um semestre que promete ser tenso em boa parte do mundo. Riscos políticos, econômicos e de segurança se acumulam neste final de ano. Isso gera incertezas e deverá deixar os mercados sob pressão.

O denominador comum deste semestre tenso é a desaceleração da economia global, com países importantes em dificuldades. Os EUA tiveram contração do PIB nos dois primeiros trimestres, o que caracteriza recessão pela definição mais comum. Mesmo pela metodologia americana, muitos economistas veem como provável uma recessão entre o final deste ano e o início de 2023.

Na Europa, a maior economia, a Alemanha, não cresceu no segundo trimestre, e espera-se queda até o fim do ano. A confiança econômica está caindo em toda a União Europeia (UE).

Na China, as projeções são de crescimento de 4,1% do PIB chinês neste ano, o menor em mais de quatro décadas (excluindo 2020, ano de início da pandemia) e bem abaixo da meta oficial, que era de 5,5% e que já foi abandonada pelo governo.

Claudia Safatle - A economia pode virar o jogo eleitoral

Valor Econômico

Se Bolsonaro conseguir ser reeleito, Guedes continuará ministro da Economia

A economia vai virar o jogo nas eleições de 2 de outubro, acreditam fontes oficiais. Paulo Guedes, ministro da Economia, estava certo quando disse a interlocutores internacionais, durante a reunião do Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), em junho, que eles teriam que rever os números da economia para baixo enquanto o Brasil faria a revisão para cima, dizem essas mesmas fontes. De fato, enquanto o mundo desenvolvido se avizinha da recessão, o Brasil deverá crescer algo próximo a 2%, ao invés do 1,5% estimado anteriormente, sustentam os economistas do governo.

Mas aqui tem um porém: um maior crescimento da atividade em 2022 está reduzindo o tamanho da recuperação da economia para 2023.

A pesquisa Focus, do Banco Central, aponta esse fenômeno tanto para o PIB quanto para a inflação, medida pelo IPCA. A mediana das expectativas para o PIB deste ano era de 1,93% na semana anterior e hoje é de 1,97%. Para 2023, a expectativa é de uma variação de 0,40%, em comparação com 0,49% na semana anterior.

Armando Castelar* - A política econômica em 2023

Valor Econômico

Inflação e juros devem seguir altos em 2023, independentemente de quem vencer as eleições de outubro

O ano de 2023 promete ser bastante desafiador, em que pese o recente otimismo do mercado financeiro com a possibilidade de se trazer a inflação nas economias avançadas, próxima de atingir os dois dígitos, de volta à meta de 2% ao ano sem um forte aperto monetário e sem uma recessão. A realidade é que, ou os bancos centrais (BCs) sobem os juros bem mais do que ora precificado nos mercados futuros, e os mantêm lá por mais tempo do que hoje se prevê, ou o mundo irá retornar a um período de estagflação.

No cenário mais provável em que os BCs, ainda que a contragosto, apertam bem mais a política monetária, o quadro que se colocará para as economias emergentes não será fácil, com o dólar se valorizando, a liquidez internacional diminuindo e o comércio internacional em queda. Isso significará inflação e juros mais altos e uma atividade econômica mais retraída nessas economias. Em alguns casos, isso resultará em instabilidade política e crises de financiamento externo. O que estamos vendo na Argentina atualmente já é, em parte, um resultado desse quadro global mais desafiador.

Rogério F. Werneck - Farra federal com impostos estaduais

O Globo

Chegou a conta da redução arbitrária do ICMS para controlar a aceleração inflacionária

Quem quer que tenha testemunhado o penoso esforço de construção — e reconstrução — do complexo arcabouço de controle fiscal montado no país ao longo das últimas três décadas não tem como evitar um sentimento de desolação diante da derrubada institucional que o governo e o Centrão têm promovido, para tentar viabilizar a qualquer custo a reeleição de Jair Bolsonaro.

Notícias recentes dão conta de que, em reação à imposição arbitrária e eleitoreira de alíquotas máximas de ICMS sobre combustíveis, energia elétrica e serviços de telecomunicação, vários estados já conseguiram respaldo do Supremo Tribunal Federal a seus pleitos de redução do pagamento dos serviços de suas dívidas com a União, em face da perspectiva de perda de receita tributária com que terão de lidar.

Trata-se de um desabamento institucional que qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento do federalismo fiscal brasileiro teria sido capaz de prever. E, no entanto, não há registro de que, em Brasília, as autoridades fazendárias tenham feito chegar ao Planalto e ao Centrão suas apreensões, para não dizer seu alarme, quanto à inevitabilidade de tal desabamento.

Pedro Doria - O fim das redes sociais

O Globo

Elas vão mostrando cada vez mais o conteúdo que o algoritmo escolhe em detrimento das pessoas que nós escolhemos

Você lembra quando entrou no Facebook pela primeira vez? Ou no Instagram? No Twitter? Essas são experiências que nunca mais voltarão. Hoje, a vida com as redes sociais é francamente ruim. O Facebook é um grande vazio, o Twitter deixa de mau humor, e o Instagram é pura ansiedade. Mas não era assim. Aliás, era bem o contrário: eram ambientes realmente agradáveis. Ambientes que nos arrancavam sorrisos com facilidade. O veterano analista desse mundo digital Scott Rosenberg sugere que a Era das Redes Sociais tenha, com as últimas mudanças no Insta, acabado. Passou como a Era dos Blogs ou, antes, a Era dos Sites Pessoais. Rosenberg está possivelmente certo.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

Quando é necessário dizer o óbvio

O Estado de S. Paulo

A campanha de Bolsonaro contra as urnas é gravíssima. Mas, como lembrou o presidente do Senado, quem for eleito em outubro tomará posse em 2023. A democracia prevalecerá

Perante a campanha golpista de Jair Bolsonaro contra as urnas eletrônicas e a Justiça Eleitoral, é muito oportuno que o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, recorde a realidade. “No dia 1.º de janeiro, aqui estaremos, no Congresso Nacional, a dar posse ao presidente da República eleito pelas urnas eletrônicas do nosso país, seja qual for o eleito”, disse o senador na abertura dos trabalhos legislativos no segundo semestre.

É desalentador que as circunstâncias políticas atuais exijam dizer um aspecto óbvio do regime democrático – quem vencer nas urnas tomará posse –, mas o fato é que, perante a insistência do presidente da República em desacreditar o sistema eleitoral, é necessário que o País tenha a tranquilidade de saber que o resultado das eleições será respeitado. O presidente do Senado faz muito bem em transmitir essa segurança à população.

As ações de Jair Bolsonaro contra a Justiça Eleitoral são gravíssimas, podendo ser enquadradas como crimes de responsabilidade e crimes eleitorais. Para piorar, em sua campanha contra a realização pacífica das eleições, o presidente da República tenta envolver o bom nome das Forças Armadas. A Lei 1.079/50 lista, entre os crimes de responsabilidade contra os direitos políticos (art. 7.º), “utilizar o poder federal para impedir a livre execução da lei eleitoral” (inciso 4), “incitar militares à desobediência à lei ou infração à disciplina” (inciso 7) e “provocar animosidade entre as classes armadas ou contra elas, ou delas contra as instituições civis” (inciso 8). De toda forma, sem minimizar em nada a gravidade das ações de Jair Bolsonaro, é preciso reconhecer o que Rodrigo Pacheco destacou: o presidente da República eleito pelas urnas, seja quem for, tomará posse no dia 1.º de janeiro de 2023.

Poesia | Charles Baudelaire - A Beleza

 

Música | Boca Livre - Quem tem a viola

 

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Luiz Carlos Azedo: Jair Bolsonaro está em rota de colisão com a Fiesp

Correio Braziliense

Fracassaram os esforços da cúpula da Fiesp, que articula o manifesto dos empresários em defesa da democracia e das urnas eletrônicas, para que todos os candidatos à Presidência assinassem o documento, numa espécie de pacto de respeito mútuo ao resultado das eleições. Ontem, o Palácio do Planalto anunciou que Jair Bolsonaro não subscreverá o documento, assinado por entidades empresariais e federações sindicais de trabalhadores, e cancelou a ida do presidente da República ao lançamento do documento, no dia 11 de agosto, na sede da Fiesp. Também foi cancelado o jantar com empresários que estava programado.

A ida de Bolsonaro à Fiesp fora antecipada para 11 de agosto a pedido do Palácio do Planalto. Para evitar mais constrangimentos, o recolhimento de assinaturas de apoio ao manifesto da federação ficou restrito às entidades empresariais e sindicatos de trabalhadores, para que as assinaturas dos candidatos dos presidentes fossem recolhidas antes de as pessoas físicas aderirem o documento. Ocorre que Bolsonaro não digeriu as manifestações em defesa da urna eletrônica, da Justiça Eleitoral e do Supremo Tribunal Federal (STF), e torpedeou as iniciativas.

Maria Cristina Fernandes - Baderna à beira-mar

Valor Econômico

Não é coincidência que ameaça bolsonarista convirja com palanque petista em colisão no Rio

No momento em que o presidente Jair Bolsonaro se organiza para uma exibição de baderna no Rio no 7 de setembro, o palanque eleitoral do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Estado entra em rota de colisão. E nada disso é coincidência.

Em setembro de 2020 apareceram novos trechos da delação do ex-secretário Edmar Santos que levantavam suspeitas sobre a participação do então governador em exercício, Cláudio Castro, do PL, e do presidente da Assembleia Legislativa do Rio, André Ceciliano, do PT, num suposto esquema de propinas na Secretaria de Saúde do Rio.

Ambos negaram a acusação e, como o procurador-geral da República, Augusto Aras, atendeu ao pedido do presidente da República para não colocá-los no mesmo balaio de Wilson Witzel, removido do Palácio da Guanabara, ficou tudo por isso mesmo.

Daí conclui-se que Bolsonaro tem Castro e, consequentemente, sua polícia militar, na mão, circunstância inexistente no 7 de setembro do ano passado, quando a PM de São Paulo foi mantida sob rédea curta.

Se não se promove um golpe de Estado com um desfile militar na Avenida Atlântica, é, sim, possível, quando se tem controle da polícia, orquestrar atentados, ocultar mandantes e provocar um fato político a menos de um mês do primeiro turno. Foi isso que aconteceu em 2018 quando mataram Marielle Franco num Rio sob intervenção militar.

Cristiano Romero - Economia e democracia

Valor Econômico

Economias precisam de regime democrático para florescer

No domingo passado, o empresário Abílio Diniz sofreu a maior dor que pode se abater sobre um pai - a morte, causada por infarto fulminante, de seu filho João Paulo Diniz, aos 58 anos. Atleta como o pai, João Paulo sofria de doença congênita no coração. Pai de seis filhos, Abílio está devastado. A partida de um descendente é antinatural.

Quis o destino, este pregador de peças, que no mesmo domingo, 31 de julho, uma declaração infeliz do empresário fosse veiculada pelo jornalista Lauro Jardim, de “O Globo”. Na contramão de dezenas de seus pares, Abílio não assinar o manifesto em defesa da democracia - batizado de “Carta aos brasileiros em Defesa do Estado Democrático de Direito” -, organizado pela Faculdade de Direito da USP e lançado no dia 26 de julho.

O documento recebeu mais de 500 mil assinaturas, entre elas, de lideranças dos trabalhadores e empresariais, de juristas, magistrados, acadêmicos, políticos, advogados, jornalistas, economistas, cientistas e personalidades do mundo cultural e social. No próximo dia 11, data em que se comemora anualmente o aniversário do Centro Acadêmico da tradicional faculdade de Direito da USP, a carta será lida em manifestação que tem tudo para expressar a preocupação, nada frívola, de grande parcela da sociedade brasileira com a interrupção da ordem constitucional.