sábado, 14 de março de 2015

João Bosco Rabello - Economia, o limite da trégua

- O Estado de S. Paulo

É claro o movimento do Legislativo, abrangendo quase todo o espectro partidário, para desqualificar os inquéritos abertos a pedido da Procuradoria Geral da República contra parlamentares cujos nomes apareceram nas investigações da operação Lava Jato, por citações em depoimentos feitos sob o regime da delação premiada.

A alegada inconsistência de muitos desses pedidos de inquérito, sustentada informalmente por ministros e ex-ministros do próprio Supremo Tribunal Federal, abriu espaço para a acusação de politização do processo feita ao Procurador Rodrigo Janot pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e abraçada não só pela base aliada ao governo, como também pela oposição.

O depoimento de Cunha ontem na CPI, colhido por iniciativa dele mesmo, teve seu objetivo cumprido. Serviu à causa coletiva de formalizar o questionamento ao trabalho de Janot, acusado de convenientemente seletivo ao nivelar todos os casos, sem distinção entre aqueles com mais evidências de envolvimento no esquema da Petrobras, e os que acabaram na lista de investigados por citações vagas e, em alguns casos, não confirmadas – ou desmentidas – por um dos dois depoentes que fundamentaram os pedidos de inquérito.

A postura une o Legislativo e ajuda a estratégia do presidente da Câmara de fazer das peças de Janot fator de conflito entre poderes, aliando Executivo e Ministério Público a uma causa política de distribuir por todos os partidos as responsabilidades pelos crimes na Petrobras.

A estratégia é simplória até, mas sua viga de sustentação é o longo prazo de tramitação dos inquéritos abertos pelo Supremo, em atendimento ao Procurador Geral. Estima-se em, pelo menos, dois anos, com otimismo, para que comece e haver resultados concretos, porque inquéritos impõem mais investigações.

Como inquérito não pressupõe culpabilidade, mas tão somente investigação – e esta é questionada nos termos postos por Cunha e absorvidos pelo Legislativo, cria-se justificativa para que os atingidos pelos pedidos de Janot se mantenham em funções e cargos que ocupam em decorrência do mandato parlamentar, como já se determinaram os presidentes da Câmara e do Senado.

O cenário preserva a capacidade da base de sustentação do governo de manter a pressão sobre a presidente Dilma Rousseff, conforme posta desde a eleição de Cunha para a presidência da Câmara. Essa pressão já impôs à chefe do governo derrotas significativas e , mais recentemente, a ampliação de seu quadro de articuladores, incluindo o PMDB nesse contexto.

A tardia admissão da presidente da República com relação à insuficiência de seu trio de articuladores palacianos- os ministros Pepe Vargas, Miguel Rossetto e Aloísio Mercadante -, inviabilizou a inclusão do Vice Presidente Michel Temer no chamado núcleo duro do governo e impôs como solução a ampliação da equipe de articulação, com os ministros Aldo Rebelo (PC do B), Eliseu Padilha (PMDB) E Gilberto Kassab (PSD).

Sem dúvida, trata-se de um trio com trânsito no Congresso Nacional, ao contrário do que tem a missão formal de negociar. No entanto, essa força-tarefa já em ação estará voltada mais para a aprovação do ajuste fiscal do que para o resgate das relações políticas, embora não se deva imaginar que se limitarão a isso.

O problema é que, para além do ajuste fiscal, será difícil o PMDB, a base aliada e a oposição, abrirem mão da inversão já obtida do poder impositivo no âmbito das relações políticas. Ainda mais com a inserção do ministro das Cidades, Gilberto Kassab, no grupo que a presidente da República agregou à articulação política.

Não por insuficiência de Kassab, que já se mostrou hábil e com senso do timing, essencial a um bom político. Mas ao assumir o patrocínio da criação do PL para fundir-se ao seu PSD e formar uma bancada igual ou maior que a do PMDB, reduzindo seu poder de barganha junto ao governo, tornou-se inimigo preferencial do partido, conforme já demonstrou claramente o presidente da Câmara, Eduardo Cunha.

Não por outra razão, ao abrir-se ao diálogo com os novos operadores do governo, o PMDB manteve a ressalva de tratar-se de diálogo para o processo de resgate da economia, conveniência geral, uma vez admitido como beneficiário final o eleitor.

De qualquer forma, a ação desse triunvirato já se fez notar na aprovação do acordo em torno do reajuste da tabela do Imposto de Renda, que o governo queria em 4,5% e a Câmara fixara em 6,5%. A proposta intermediária, de progressividade no reajuste em torno de 5,5%, evitou mais uma derrota anunciada do governo, que se daria pela derrubada do veto presidencial à decisão original da Câmara dos 6,5|%.

Embora não haja transparência da Fazenda na informação de que o reajuste abaixo dos 6,5% se traduz por aumento de imposto, o fato é que o governo conseguiu avançar nessa matéria já graças à ampliação de sua coordenação política.

As sessões da CPI, simultâneas às negociações em torno do ajuste fiscal, reforçam essa separação entre economia e política que produziu uma trégua para o Planalto no primeiro caso. Mas a delimitação desses dois territórios fica clara na linha estabelecida na comissão de que as investigações da Lava Jato devem ser estendidas ao que foi chamado pelos parlamentares rebeldes da base de “o outro lado da rua”.

Zuenir Ventura - O que será o amanhã?

• Manifestações serão teste decisivo para democracia. Tomara que seja protesto legítimo, não o ensaio de uma arriscada derrubada da presidente

- O Globo

Algumas semanas em férias dos acontecimentos e, na volta, a sensação de que o país está, como no mapa, de cabeça pra baixo. Não sei se essa é a pior crise dos últimos tempos, como se diz — a presidente acha que não —, mas é uma confusão poucas vezes vista, em termos de paradoxos e subversão de valores, papéis e sinais. O Brasil nunca foi um país para principiantes, já ensinava Tom Jobim, mas há momentos em que não é nem para catedráticos, como em 1963/64, por exemplo, que deu no que deu. A História não se repete, tudo bem, mas há agora algo parecido — de radicalismo, intolerância, agressividade e ódio. Espera-se que o desfecho não seja igual, embora a discordância seja tanta que nem os próximos se entendem mais, como Dilma e Lula. E o que dizer do PMDB, o maior partido de apoio à presidente, que é o que lhe causa mais embaraços? Quem a acusou de querer atrair “sócio para a lama” não foi um oposicionista grosseiro, mas o próprio presidente da Câmara, hóspede da “lista de Janot” (saudade dos tempos em que lista de dinheiro sujo era só a dos bicheiros). No seu depoimento na CPI da Petrobras, ele foi homenageado por vários colegas, inclusive do PT e PSDB. Coube a Clarissa Garotinho o espanto: “O que vi aqui foi uma reunião de felicitações. E achei que estava numa CPI”. De fato, o acusado parecia ser o procurador da República.

Em compensação, a melhor defesa do PT não foi feita por um petista, mas pelo ex-ministro de FH Bresser-Pereira. Recorrendo à velha luta de classes, o tucano atribuiu a onda de protestos a “um ódio coletivo dos ricos contra um partido e uma presidente”. O melhor símbolo, porém, da inversão de papéis talvez seja mesmo Paulo Maluf, que em 2000 Lula queria ver “atrás das grades” e em 2013 foi procurado em sua mansão pelo próprio Lula, em busca de apoio para Haddad. Criticado por este gesto, o ex-presidente declarou em comício: “Dizem que o companheiro Maluf é ladrão, mas isso é uma demonstração de ‘cleptomaníacofobia’ inaceitável nos dias de hoje”. Procurado pela Interpol por desvio de dinheiro, o deputado do PP, o partido com mais figurantes na tal lista, 31, manifestou-se indignado com a corrupção. “Estou com Janot: se alguém deve, tem de pagar. Em 48 anos de vida pública, sempre fui correto”. Que tal?

De que maneira essa confusão política, misturada com o escândalo do petrolão e com os sérios problemas econômicos, tudo isso agravado pela insatisfação geral, vai chegar às ruas amanhã? O comportamento das manifestações será um teste decisivo para a democracia. Tomara que seja um protesto legítimo, não o ensaio de uma arriscada derrubada da presidente Dilma.

Derruba, e depois? A alternativa é pior.

Demétrio Magnoli - O meio e a mensagem

• As manifestações deste domingo pertencem ao universo da política virtual, regido pela lei da incerteza

- Folha de S. Paulo

Na tarde de uma quinta-feira, 30 de abril de 1977, elas deram-se os braços e caminharam silenciosamente em círculos diante da sede do governo argentino. A primeira marcha das Mães da Praça de Maio contou com 14 manifestantes. O número não importava, nem importavam cartazes ou palavras de ordem. Elas eram mães desesperadas de desaparecidos políticos. A simples presença do grupo exprimia mensagens devastadoras: um grito universal de dor e uma maldição eterna lançada sobre a ditadura militar. No Brasil, neste domingo (15), a relação entre meio e mensagem é completamente diferente. Tudo depende do número e da seleção das palavras.

As manifestações desta sexta (13) obedeceram à lógica do mundo da política organizada. Convocadas pela CUT, pelo MST e pela UNE, elas divulgaram uma mensagem nítida, definida de antemão pelo centro político do lulopetismo. Comissões de frente, serviços de ordem, faixas e carros de som asseguraram a unicidade da palavra. A finalidade era defender o governo, alcunhando como "golpistas" os manifestantes deste domingo. O protesto, quase inaudível, contra as medidas trabalhistas e previdenciárias do Planalto foi apenas uma oferenda prestada pelas três organizações semiestatais ao título de "movimentos sociais" que ainda lhes confere vestígios de legitimidade.

As manifestações antigovernistas deste domingo pertencem ao universo da política virtual, regido pela lei da incerteza. Convocadas nas redes sociais por uma miríade de pequenos grupos antipartidários, elas carecem de comando unificado e estabilidade de mensagem. Em torno do eixo móvel da indignação contra o governo, oscilam bandeiras diversas, que se estendem do protesto contra a corrupção até o "Fora Dilma" e o impeachment. Nas franjas extremas do movimento, figuras insignificantes, sombrias ou apenas ridículas clamam por uma intervenção militar. Só o número tem o condão de definir a mensagem.

A dimensão das manifestações deste domingo é imprevisível, pois elas não emanam de máquinas políticas profissionais. Se os números forem elevados, as ruas falarão a linguagem da exaltação cívica contra a corrupção, o engodo e a arrogância. O alvo será a privatização partidária do Estado e dos bens públicos. Nessa hipótese, experimentaremos uma evolução política das manifestações multitudinárias de junho de 2013. As pessoas comuns rejeitam o vandalismo, nas suas versões empírica (a destruição das coisas) e simbólica (a demolição das regras de convivência democrática). O perigo reside na hipótese alternativa, de manifestações relativamente pouco numerosas. Nesse caso, sequestrados por radicais de salão, os microfones difundirão mensagem odientas vazadas na gramática do exterminismo ideológico.

Dias atrás, um Lula acuado apelou ao "exército de Stédile". O monopólio das ruas, exercido por intermédio de "movimentos sociais" financiados pelo Estado, funcionou como precioso ativo político do lulopetismo. Quando as Jornadas de Junho contestaram a exclusividade, o PT tentou restaurá-la por meio do expediente de associá-las à "elite" e ao "preconceito". No fundo, o Partido está dizendo que o espaço público pertence a ele, e a ninguém mais. De certa forma, os principais partidos oposicionistas curvaram-se à sentença autoritária, como atestam suas adesões retardatárias, oscilantes e envergonhadas às manifestações deste domingo. Isso pode ter consequências desastrosas.

As mães que marcharam na Praça de Maio eram fortes porque eram poucas. Os manifestantes deste domingo, pelo contrário, serão fracos se não forem muitos. Na ausência do senso cívico que costuma acompanhar as multidões, sem um rumo democrático traçado pelas lideranças de oposição, ouviremos mensagens semelhantes às do lulopetismo, mas com polaridades invertidas. Seria uma pena: a falsa prova de que, na cena política brasileira, todos os gatos são pardos.

Marco Aurélio Nogueira - Armênio Guedes (1918-2015), comunista que soube valorizar a vida e a democracia

- O Estado de S. Paulo

Com a morte de Armênio Guedes hoje, 12 de março, foi-se uma parte importante da história da política democrática, da esquerda e das lutas sociais no Brasil.

As gerações mais jovens podem não saber de quem se trata. Armênio morreu aos 96 anos. Viveu, portanto, uma vida longa e plena, conheceu o fundamental do século XX e as primeiras décadas do capitalismo globalizado e informatizado em que nos encontramos. Como comunista militante, experimentou de tudo: conviveu de perto com Luiz Carlos Prestes, um de seus maiores antagonistas, integrou inúmeras formações do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro, o PCB, amargou o exílio, frequentou importantes círculos intelectuais, escreveu muito, dirigiu jornais e revistas na clandestinidade e à luz do dia.

Mas não foi um comunista típico, sempre viveu longe dos estereótipos que costumam cercar os comunistas: nunca foi dogmático, não se afirmava pela autoridade, não tinha paciência para rituais, reuniões protocolares e rapapés, não vestia a “capa preta” que o folclore comunista atribuía aos dirigentes supremos do partido, não quis ser herói, jamais achou que a revolução pudesse derivar da ação voluntariosa de quem quer que fosse. Negou tudo isso em palavras e atitudes. Nunca deixou a política em segundo plano, mas nunca fez dela, e de suas ideologias, o critério para hierarquizar ou julgar pessoas. A máxima “ou você está comigo ou está contra mim” jamais frequentou seu dicionário.

Armênio foi comunista a vida inteira, mas foi acima de tudo um democrata que amava a liberdade, o pluralismo, uma boa conversa e um jazz de qualidade. Talvez por isso tenha conquistado uma legião de amigos e admiradores. Despertou, claro, ciúmes e invejas, fez alguns adversários e inimigos. Mas serenamente combateu o bom combate.

Sempre o tive como uma espécie de figura mítica, no sentido que Gramsci atribuiu ao Príncipe de Maquiavel: um personagem ativo, no qual a ideologia política e a ciência política se apresentam não como fria utopia nem como raciocínio doutrinário, mas como uma criação da fantasia concreta que atua sobre a vida para despertar e organizar vontades coletivas.

Mito, também, porque Armênio era aparentemente frágil, discretíssimo, quase não falava em público, não se expunha e nem se exibia, não protagonizava grandes embates e apesar disso — ou precisamente por isso — conseguia irradiar enorme confiança e demarcar um território próprio, coisa que, em política e em ambientes partidários, jamais é fácil. Era um desses gigantes cuja estatura não se consegue dimensionar num primeiro relance, que se revela aos poucos, como se seu magnetismo estivesse oculto. Foi um marxista gramsciano sem que jamais tenha precisado bater no peito para assim se proclamar, um intelectual refratário à verborragia doutrinária, flexível, para quem era mais importante construir consensos e evitar confrontos desnecessários.

Opôs-se firmemente, por exemplo, tanto aos stalinistas dogmáticos que queriam incutir uma “linha política justa” que não interagia com a vida real, quanto aos que, nos anos 1960, imaginaram derrotar a ditadura militar pela via armada. Ajudou a redigir o “Manifesto de Março de 1958”, célebre documento que assinalou a primeira tentativa de renovação anti-stalinista do PCB e que iria, nas décadas seguintes, servir de base para o envolvimento dos comunistas com a luta pela democracia e o combate político ao regime de 1964.

Quando o regime militar começava a se extenuar e a anistia política despontava no horizonte, em 1979, Armênio deu uma entrevista ao Jornal do Brasil, ao lado de alguns outros companheiros. O JB fez um caderno especial com o material, editado por seu correspondente na Europa, Araújo Neto. O estrondo que aquele caderno provocou nos ambientes comunistas e de esquerda foi proporcional à erupção de um vulcão.

Nunca mais os comunistas seriam os mesmos. A iniciativa impulsionou uma extraordinária tentativa de renovação do velho Partidão, em cujo centro estaria a luta pela democracia como princípio, meio e fim: como valor universal, do qual não se poderia transigir. Nas palavras dele: “Houve um tempo em que nós identificávamos liberdades democráticas com o poder da burguesia. Mas a verdade é que, pouco a pouco, a vida foi-nos mostrando que a democracia é algo importante, permanente, para o avanço da sociedade”.

A renovação do partido não deu certo e anos depois o PCB saiu de cena. Mas a democracia avançou e se consolidou no país. O comunismo democrático, tão bem encarnado por Armênio, não somente deu sua contribuição, como permaneceu fornecendo parâmetros para a ação política, a unidade dos democratas, a construção de consensos, acordos programáticos e entendimentos superiores, a recuperação do valor da política.

Armênio permaneceu ativo depois que o PCB desapareceu. Não chegaria mais a mergulhar em novas epopeias partidárias. Persistiu como um farol de orientação, crítica e agregação, um analista cuidadoso da política, um disseminador de cultura democrática, fiel a seu próprio legado.

Armênio Guedes fez da política uma atividade que fluía fácil, que dispensava posições de força ou de poder, argumentos de autoridade e palavras duras. Para ele, “unidade na diversidade” não era um chavão dialético, mas um lema de toda política democrática com intenção reformadora, a alavanca do novo pelo qual ele e tantos outros se batiam. Hoje como ontem: um valor universal. Algo indispensável nestes tempos complicados em que estamos.

Armênio teve uma vida plena, tornou-se uma lenda da esquerda comunista. As teses democráticas com as quais se identificou e a que ajudou a dar forma foram essenciais para que o melhor do Brasil viesse à luz. Germinaram no PCB, mas ganharam força fora dele, funcionando como uma espécie de pedagogia reformadora. Hoje, deveriam ser plenamente recuperadas; nos ajudariam a seguir em frente de cabeça erguida e olhos bem abertos.

Armênio Guedes morreu, mas seu exemplo, seu estilo sereno e suas ideias estão aí. Ao nosso alcance.

----------------------------
Marco Aurélio Nogueira, professor de Teoria Política da Unesp

Foi-se embora o "Júlio", um comunista avulso



Para acessá-la basta clicar no link abaixo:
Morre, aos 96 anos, Armênio Guedes



Para acessá-la basta clicar no link abaixo:
Foi-se embora o "Júlio", um "comunista avulso"


Para acessá-la basta clicar no link abaixo
:'Sempre questionava o autoritarismo'

A democracia nas ruas – Editorial / Zero Hora (RS)

Antecipando-se ao protesto antigoverno programado para amanhã, centrais sindicais, grupos de trabalhadores e movimentos sociais protagonizaram ontem, em várias cidades do país, manifestações em defesa da Petrobras, da democracia e da presidente Dilma Rousseff.

Apesar da pauta diversificada, que incluiu demandas específicas de algumas categorias, a mobilização teve também um sentido de rejeição à possibilidade de impeachment presidencial que vem sendo levantada por alguns setores da sociedade e por lideranças políticas.

Independentemente da quantidade de manifestantes ou das entidades que os mobilizaram, o importante é que as concentrações e as caminhadas foram pacíficas, sem mascarados, sem provocações, sem depredações e sem resistências de quem pensa diferente. É o que também se espera do movimento previsto para este domingo.

Se as manifestações transcorrerem de forma civilizada, mesmo com o clima de belicismo existente nas redes sociais, os brasileiros estarão reforçando a democracia – e não forçando uma eventual ruptura democrática como alegam os críticos dos defensores do impeachment. Como lembrou a própria presidente Dilma, todos podem e devem se manifestar livremente – desde que ajam sem violência. Criticar os governantes, apoiá-los, defender a Petrobras e pedir a punição dos corruptos, reclamar da inflação e do custo de vida, defender causas setoriais – tudo isso é do jogo democrático. Mas o compromisso definitivo com a democracia é respeitar as manifestações, mesmo discordando de suas bandeiras.

Miriam Leitão - Encontro de crises

- O Globo

A forte volatilidade do dólar ontem foi também resultado da manifestação a favor do governo. Ao mesmo tempo em que defendiam a presidente das críticas da oposição e das passeatas previstas para amanhã, os líderes do movimento atacavam a política econômica. O que deixa nítida a solidão da presidente. Dilma optou por corrigir os estragos que ela mesma fez na economia, mas não agrada ao PT nem às centrais sindicais.

Alguns bancos divulgaram ontem mudanças de cenário piorando todas as previsões. O Bradesco, por exemplo, que previa 0,5% de queda do PIB, passou a prever 1,5% de recessão. Subiu a estimativa da inflação de 7,5% para 8%, prevê a Selic em 13,5% no fim do ano, e o dólar, entre R$ 2,90 e R$ 3,10.

No mundo inteiro o dólar sobe. O problema é que a volatilidade num único dia, que levou à máxima de 3,79% de desvalorização para fechar em 2,81%, prova a existência das razões internas para a mudança do câmbio. Dentro dessas razões, há muitos indicadores econômicos ruins, mas o que mais tem pesado é a conjuntura política.

A articulação com a base está ruim, a popularidade da presidente caiu, a atual etapa de pedido de aberturas de inquéritos contra os políticos aumentou a tensão entre os poderes. Neste quadro, as forças que sustentam a presidente politicamente demonstram, nas ruas, discordância em relação à política econômica que se dispõe a tentar pôr em ordem as contas públicas. A soma de todos esses problemas alimenta a impressão de fragilidade da presidente antes de completar o terceiro mês do seu segundo mandato.

Para aprovar medidas no Congresso, o governo precisará do apoio da sua base e capacidade de administrar a coalizão. Não tem tido. Mesmo quando as medidas dependem apenas do Executivo, como certos cortes no Orçamento, são difíceis de serem executadas num ambiente conturbado. Um Congresso acuado pode também criar despesas, anulando o efeito das medidas de austeridade.

A alta do dólar e a crise da Petrobras têm uma relação direta. Quanto mais alto o dólar, mais alta a dívida da Petrobras e menor o alívio de caixa que ela está tendo com a decisão de manter os preços dos derivados, apesar da queda da cotação do petróleo no exterior.

A disparada do dólar ontem pode se reverter e ter sido apenas o reflexo de um momento de maior estresse, mas a tendência da moeda americana por todos os outros motivos, internos e externos, é de permanecer subindo no médio prazo. A maior arma do Banco Central, que foi o uso das medidas de intervenção no mercado futuro, através dos swaps cambiais, hoje parece sem efeito.

Parte da insatisfação difusa contra o governo tem a ver com a inflação alta. Os governistas que foram às ruas ontem culpam a política econômica pelo desconforto, quando na verdade foi a administração anterior da economia, da própria presidente Dilma, e as decisões erradas na energia que provocaram esse salto de preços que está comprimindo o orçamento doméstico e das empresas. Os que não são governistas acham que a presidente Dilma não manterá uma política econômica da qual sua base discorda, e na qual ela nunca demonstrou acreditar.

Nada é pior do que o encontro de crises. No Brasil de hoje há pelo menos quatro se encontrando: a econômica, a política, a energética, e a da Petrobras. Pelo tamanho da empresa e as ramificações da corrupção, esta crise tem potencial para fazer estragos em várias áreas. A Sete Brasil está aí pedindo socorro ao BNDES, que tenta empurrar o pepino para outros bancos, inclusive dois estatais, Banco do Brasil e Caixa. Seus problemas financeiros atingem os fundos de pensão das estatais que foram muito usados em todos os projetos do governo nos últimos anos. Entre as empreiteiras, a maioria era tão dependente do governo que não se sustenta sem os empréstimos do BNDES, sem as obras estatais, ou sem os contratos da Petrobras. Todas elas devem aos bancos. Contratos que estão hoje sendo cancelados, ou sob suspeição, foram usados para garantir produtos financeiros que estão em fundos de recebíveis. Seguradoras venderam proteção contra sinistros na expectativa de que só alguns acontecessem. E esses sinistros podem virar realidade numa sequência que as empresas de seguro não previam em seus cenários.

O dólar é como a febre, apenas o termômetro de outros problemas. É derivado de algo mais. No Brasil, há várias razões para que suba, como fez ontem.

Celso Ming - Convulsão

- O Estado de S. Paulo

Nesta sexta-feira, as cotações do dólar dispararam 3,36% para a cotação recorde em 12 anos de R$ 3,26. Mas, ao longo do dia, chegaram a bater nos R$ 3,27.

É mais um indicador da insegurança produzida e disseminada pelo mau momento tanto da economia quanto da política. Manifestações com objetivos confusos sugerem instabilidade e déficit de confiança. Os títulos de dívida do Brasil estão ameaçados de rebaixamento para o nível de especulação. A inflação deixou o patamar dos 6,5% em 12 meses e saltou para 8,0%. Não há sinal de recuperação sustentável da atividade econômica.

Todos os dias, no Congresso e nas ruas, o programa de ajuste do governo vai sendo contestado. Espalham-se rumores e versões de que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, não aguentará as pressões, tanto de fora quanto de dentro do governo. A disparada do dólar puxa a dívida da Petrobrás, de US$ 261 bilhões, a níveis de difícil sustentação. Isolada e perplexa, a presidente Dilma vê seu governo se desidratando ainda no terceiro mês do seu segundo mandato.

A falta de lideranças extrapola a Presidência da República e é outra fonte de apreensão. Os chefões do Congresso estão ameaçados pelas denúncias da Operação Lava Jato e parecem atuar a esmo, mais como vingança, sabe-se lá contra quem, do que por motivação política propriamente dita. A oposição não tem proposta, a não ser a de “deixar Dilma sangrar”, o que sugere baixa identificação com o interesse público. As melhores cabeças da sociedade civil parecem fora de combate. As lideranças sindicais comportam-se como cartolas do Imposto Sindical. Na última greve dos caminhoneiros, que paralisou o País, não apareceu ninguém suficientemente representativo da categoria com quem negociar. O panelaço do último domingo surgiu quase que do nada. Desde 2013, os protestos são convocados pela internet por meio das redes sociais, algumas vezes em nome de siglas e de movimentos que ninguém conhece e que desaparecem tão rapidamente como surgiram.

Alguns analistas vêm dizendo que, ao contrário das anteriores, nesta crise ao menos o Brasil está bem servido por redes de proteção. Parecem referir-se aos US$ 369 bilhões das reservas internacionais. No entanto, elas estão aí para não serem usadas, porque, se forem, correm o risco de derreter. Se as reservas não devem ser usadas, então que tipo de rede de proteção constituem?

Alguma coisa o Brasil está aprendendo. Até há alguns poucos anos, a defesa da responsabilidade na condução das contas públicas era denunciada como jogo dos neoliberais e do capital estrangeiro.

Ninguém diz hoje que a política de ajuste da presidente Dilma é inspirada na recomendação dos fundamentalistas do Fundo Monetário Internacional. Diz apenas que ela não é consequente com o que foi seu discurso de campanha.

Certo ou errado, o ajuste é coisa nossa. Dilma ainda não reconheceu que a desarrumação é consequência das escolhas feitas. Chegou mais perto disso na quinta-feira ao admitir que a política econômica adotada “se esgotou”.

Há uma enorme conta a pagar sobre a mesa. É por isso que o dólar e a inflação estão em convulsão.

Versão de Gabrielli do petrolão é inverossímil – Editorial / O Globo

• A julgar pela história contada na CPI pelo ex-presidente da Petrobras, estão todos enganados: organismos americanos, o mercado de títulos e ações e os delatores

- O Globo

O militante lulopetista José Sérgio Gabrielli cumpriu o papel que o PT esperava dele, ao comparecer quinta-feira à CPI da Petrobras, na condição de presidente da Petrobras no longo período em que a estatal foi assaltada por um esquema em que se aliaram PT, PMDB, PP, executivos da empresa e empreiteiras.

Gabrielli já depusera no ano passado em comissão criada formalmente com o mesmo objetivo de investigar a estatal, mas sob total controle do Planalto. O economista e sindicalista Gabrielli pôde, então, desfilar sem sustos seu estilo professoral arrogante. Na quinta, não foi tão fácil, pois a composição desta CPI é outra.

Mas o petista baiano não deixou de fazer longas exposições enfadonhas e desinteressantes sobre a indústria do petróleo, no figurino do antigo personagem Rolando Lero, com o objetivo de ganhar tempo e nada responder.

Como quinta é dia de debandada dos políticos de Brasília, Gabrielli, em comandita com o relator da CPI, Luís Sérgio, petista fluminense, desfiou respostas extensas a perguntas também longas, numa tentativa da dupla de vencer os deputados oposicionistas pelo cansaço. Não foram bem sucedidos.

Às perguntas sobre a corrupção na Petrobras, Gabrielli deu respostas que compõem uma cândida versão sobre o assalto cometido na estatal, contabilizado, até agora, pelo Ministério Público em mais de R$ 2 bilhões. Não faltou mesmo a ideia petista recorrente do “nada vi, não sabia”. No entendimento de Gabrielli, numa empresa que fecha 200 mil contratos, o roubo é sempre possível. O que imaginar, então, de corporações maiores? Deve-se, então, considerar que desfalques fazem parte do cotidiano da Exxon americana.

O ex-presidente da Petrobras não conseguiu afastar a percepção de que só com grande cumplicidade interna contratos puderam ser superfaturados, e não apenas na emblemática refinaria Abreu e Lima, cujo preço inicial foi multiplicado por dez. Não convence a explicação capenga de que as propinas saíram do “lucro” das empreiteiras, e por isso se deveriam a arreglos feitos “fora” da Petrobras. Ora, esse “lucro” é formado pelo dinheiro do contratante, a estatal. Houve, portanto, uma drenagem no caixa da empresa. A acreditar na edulcorada história contada por José Sérgio Gabrielli, o corpo técnico da Petrobras é formado por incompetentes, e sua estrutura administrativa se tornou inepta neste ciclo do lulopetismo no poder. E todos estão enganados: o mercado, que desvalorizou o preço de mercado da Petrobras em mais de 60%; a SEC (CVM americana) e o Departamento de Justiça americano, que investigam o caso e o auditor externo (PwC), que até agora se recusa a assinar o balanço do terceiro trimestre do ano passado.

De nada valeriam as delações feitas por ex-altos funcionários da Petrobras, participantes do esquema, com cifras e nomes. Seria tudo um grande mal-entendido.

Dilma diz que vai mudar política – Editorial / O Estado de S. Paulo

Diante da gritante necessidade de fazer alguma coisa para aliviar a pressão política que a sufoca e garantir um mínimo de condições para fazer aquilo para o que foi eleita - governar o País -, Dilma Rousseff anunciou a inclusão no núcleo articulador das ações políticas do governo de três ministros pertencentes a partidos aliados: Gilberto Kassab (PSD), Eliseu Padilha (PMDB) e Aldo Rebelo (PC do B). Ela vai ter de se superar, considerando a enorme dificuldade que tem de entender-se com quem quer que seja fora de seu círculo íntimo. É nesse ambiente que ela fica à vontade para exercitar seu autoritarismo e intolerância. Resta saber até que ponto está disposta a mudar, não apenas a composição de sua equipe de comando, mas a si própria. Os antecedentes não estimulam o otimismo.

Os termos em que Dilma anunciou sua decisão traem a contrariedade diante da medida que as injunções políticas obrigaram-na a adotar. Em vez de simplesmente anunciar aos jornalistas que havia decidido mexer na equipe, Dilma revelou o grau de consideração pessoal e política que tem em relação aos novos membros do grupo: "Não há nenhuma modificação na coordenação política". Para emendar, rendendo-se aos fatos: "... a não ser o seguinte". E passou a informar a inclusão dos três ministros aliados na coordenação política em que não haveria nenhuma modificação.

A novidade não se deve, é claro, à iniciativa da própria presidente. É parte das providências que lhe haviam sido recomendadas pelo ex-presidente Lula em reunião do comando petista realizada na noite de terça-feira. O objetivo do encontro era tentar reparar os estragos causados nos últimos dias pelo agravamento da crise com o PMDB, a repercussão negativa do discurso presidencial no Dia da Mulher com o panelaço por todo o País e as vaias recebidas por Dilma no Anhembi, em São Paulo.

Na ocasião, Lula voltou a insistir na necessidade de uma reformulação da equipe de articulação política do Planalto, com o afastamento do chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, dessa atividade para restringir-se à coordenação administrativa do governo e também a troca do titular das Relações Institucionais, Pepe Vargas, criticado dentro do próprio PT e simplesmente ignorado pelo comando peemedebista do Congresso. Mas, sobretudo, Lula recomendou que Dilma chamasse o PMDB para participar mais efetivamente do governo, de modo a superar de vez o impasse no relacionamento do Planalto com o partido que é teoricamente seu principal aliado.

Dilma, porém, resiste sempre a medidas que impliquem a admissão de seus próprios erros. Parece acreditar em tudo o que tem dito em discurso ultimamente: não há crise política nem econômica, as dificuldades que o País enfrenta (coisa que só recentemente passou a admitir) são passageiras, "conjunturais", e produto da "crise internacional". Por que, então, haveria de dar ouvidos às aves de mau agouro que não entendem quais são os verdadeiros problemas nacionais e a melhor forma de enfrentá-los?

Parece um caso perdido. Se continuar assim, vai acabar forçando Lula, que é esperto o suficiente para não lhe oferecer um abraço de afogado, a encontrar outros meios para viabilizar sua ambição de voltar à Presidência, ancorado no projeto de poder pelo qual o PT se tornou obcecado.

Com certeza pouco confiantes na capacidade de Dilma de recuperar o próprio prestígio e com isso impedir que o PT se mantenha eleitoralmente competitivo, os companheiros andam indóceis e ensaiam ousadias antes inimagináveis. Edinho Silva, deputado estadual pelo PT em São Paulo e ex-tesoureiro da campanha reeleitoral de Dilma, divulgou carta aberta a seu partido em que alerta para os erros políticos que a seu ver estão sendo cometidos. Numa autocrítica que veio à luz, certamente não por coincidência, no dia seguinte àquele em que o delator premiado Pedro Barusco declarou à CPI da Petrobrás que em 2010 repassou US$ 300 mil à campanha de Dilma, Edinho Silva proclama, com a habitual soberba petista: "Nunca na nossa história assimilamos com tanta facilidade o discurso oportunista de uma direita golpista e nunca estivemos tão paralisados". Mas agora Dilma diz que vai mudar.

Graziela Melo - A Paz

Uma noite despertei atordoada, com o coração batendo, assustada, os sinos repicando. Meu pai estava diante de mim com o candeeiro numa mão e um jornal na outra. Por trás dele o vulto grande de minha mãe, envolto em um lençol branco. Os olhos azuis de meu pai, o lume refletido em cada pupila brilhante... Havia água nos olhos de meu pai! Mas seus lábios sorriam!

- A guerra acabou! A guerra acabou! Ande, soletre, soletre minha filha: p... a... z!!! Disse, por fim. Três grandes letras vermelhas que tomavam toda a primeira página do jornal, em sentido diagonal. Nos levantamos todos e fomos para a igreja. Já muita gente transitava pela rua escura, rumo ao único ponto luminoso, para rezar e agradecer a Deus o fim da guerra.

As lágrimas de meu pai, naquela madrugada de maio, foi a primeira e mais real mensagem de paz que recebi e que me fez aos seis anos e definitivamente, conceber a paz como uma coisa boa e a guerra como uma coisa ruim.

Com o fim da guerra, os soldados que se encontravam acampados na Ilha, se foram. As moças choraram. Algumas haviam se casado.

Outras ficaram solteiras para sempre, com saudades da guerra, sem entender a paz! E com a paz, chegou também o inverno. O nosso inverno triste, chuvoso. Haviam se apagado há muito os últimos dias brilhantes de abril. Agora eram as chuvas de maio, com sua rotina molhada, quebrada só pelas novenas de N.Senhora e uma ou outra noite de estrelas.

Em junho, depois que se apagavam as fogueiras de São João, a Ilha mergulhava na mais completa escuridão. Quem vinha de Jaguaribe, pela Rua Padre Machado, preferindo as calçadas para evitar a areia grossa do meio da rua, podia ver, no fundo das casas, as luzes amarelas e opacas dos lampiões. Na casa da professora, alguém fazia crochê. O padre, na cadeira de palinha, com a cabeça muito reclinada para o lado, lia o breviário. Pela calçada passava um vulto assobiando uma música de Noel Rosa.

Nas noites de lua, muitas famílias ficavam sentadas na calçada até as nove da noite, conversando ao cheiro dos jasmins pendurados nos portões. Às dez, era a hora que Zé Muriú virava lobisomem e todo mundo entrava em casa e trancava as portas. Muita gente não acreditava. Mas, pelo sim ou pelo não era melhor não arriscar.

Diziam que nas noites de lua cheia, ele vinha lá dos lados da Baixa Verde, por baixo dos coqueiros, zurrando, de quatro pés, metade homem, metade bicho. Havia quem jurasse já havê-lo visto. De dia, no entanto, era um pobre diabo inofensivo e coberto de trapos. Pedia comida pelas portas e, segundo se dizia, mantinha um romance secreto com uma cabrita que pastava numa campina ao lado da igreja.

Julho era o mês dos ventos que se prolongavam até princípios de agosto, surrando a copa dos coqueiros que se curvavam gemendo.

Muitos eram arrancados pela raiz. O mar estrebuchava querendo comer a terra. Da minha esteira com cheiro de pulga eu escutava os ruídos do mundo e da noite lá de fora. Nessa época do ano o mar ficava sujo, cheio de sargaço e as dunas de areia se levantavam, brancas, cobrindo a nossa porta, como grandes bolos confeitados.

Se metia a areia por baixo do portão, em fina camada que cobri os tijolos do terraço, como um tule branco que se movia a cada rajada!

Caetano Veloso - Sonhos

Joaquim Cardozo - Espumas do Mar

Cavalos ligeiros
De eriçadas crinas
Por que sobre as ondas
Passais sem parar?
Vencendo procelas,
Ressacas em flor,
Num fulgor de estrelas
A poeira das águas
Fazeis levantar.

Espumas do mar.

Nas serenas curvas
Da carne marinha
Há sopros, há fugas
De véus a ondular;
Vestidos de rendas...
Vestidos, mortalhas
De noivas morenas
Que em noites de lua
Virão se afogar.

Virão se afogar.

Se há fomes noturnas
Mordendo e chorando,
Lívidas, remotas
Fúrias soltas no ar,
Que os lábios do vento
Se abrindo devorem
A flor de farinha
Que as vagas maiores
Irão derramar.

Espumas do mar.

Nesse fogo verde
De cinza tão branca
Que se apure um mel

De brilho sem par;
Turbinas, moendas
No giro girando
E o açúcar nascendo
Na folha das ondas
Constante a rolar.

Constante a rolar.

Sobre os seios mansos
Das baías claras
Em puro abandono
Não hei de ficar;
Saudades das ilhas,
Amor dos navios,
Segredo das águas
Nas barras dos rios
Irei desvendar.

Espumas do mar.

Em mares incertos
Irei navegar;
E direi louvores
Às velas latinas
Por bem velejar;
Louvores direi
Aos lírios de sal
E às vozes dos búzios
Que sabem cantar.

Que sabem cantar.

Teu rosto esqueci,
Teus olhos? Não sei...
Da face marcada
O espelho quebrei
De muito sonhar;
Nos laços retidos
Das águas profundas
Tesouros perdidos
Quem há de encontrar?
Espumas do mar.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Opinião do dia – José Serra

“Maquiavel é sempre tentador em momentos de crise. Os petistas devem ter-se conformado com a síntese pobre de fins supostamente nobres que justificam os meios mais perversos. Por isso chegamos a este ponto. Proponho outro trecho, que sintetizo: o príncipe não precisa preocupar-se com conspirações quando o povo está satisfeito. Mas, se este lhe é hostil e lhe devota ódio, então há o que temer. Se O Príncipe se mostrar obra por demais complexa, sugiro, como último recurso, a saída Dalva de Oliveira: "Errei, sim!" Quem sabe...”

----------------------------
José Serra é senador (PSDB-SP), no artigo ‘Dilma, que tal Maquiavel com Dalva de Oliveira?’ O Estado de S. Paulo, 12 de março de 2015.

Temendo protestos, Dilma cancela ida a BH

• Estão previstos para hoje atos em 27 capitais organizados pelas centrais sindicais

Simone Iglesias e Luiza Damé – O Globo

RIO, BRASÍLIA e SÃO PAULO - O Palácio do Planalto cancelou ontem à noite a viagem que a presidente Dilma Rousseff faria nesta sexta-feira a Belo Horizonte. Ela participaria de um evento de apresentação do balanço da campanha Justiça Pela Paz em Casa, no Tribunal de Justiça, mas, segundo um integrante do palácio, o temor de vaias e fortes manifestações contrárias à presidente levou ao cancelamento. Segundo esse integrante do governo, teria sido detectado um “clima político tenso” na capital mineira, onde Dilma perdeu as eleições do ano passado para o tucano Aécio Neves (PSDB).

Oficialmente, a Secretaria de Imprensa do Palácio do Planalto informou que Dilma cancelou a viagem porque sua mãe, Dilma Jane, não está bem de saúde. Por esse motivo, a presidente deverá passar a manhã de hoje no Palácio da Alvorada, acompanhando a mãe.

O governo chegou a pedir à Central Única dos Trabalhadores (CUT) para que cancelasse a manifestação de hoje, conforme revelado pelo O GLOBO. O ministro Miguel Rossetto (Secretaria-Geral), a pedido da presidente Dilma, se reuniu com dirigentes da CUT na segunda-feira e conversou por telefone pedindo "reiteradas vezes" a suspensão, para evitar que ela sirva de base para levar mais manifestantes contra o governo às ruas no dia 15, segundo relatou um ministro próximo à presidente. Em nota, o ministro nega que tenha pedido para a CUT cancelar a manifestação. Estão previstos para hoje atos em 27 capitais organizados pela garantia dos direitos trabalhistas.

Os atos de domingo, dia 15, também preocupam a presidente. A três dias das manifestações contra o governo programadas para todo o país, Dilma voltou a dizer ontem que protestos fazem parte da democracia, mas frisou que não tolerará violência. Ela participou da inauguração da primeira etapa das obras de expansão do Porto do Rio.

— Sou de uma época que a gente não podia manifestar, e, quando se manifestava, ia preso. Era um Brasil ditatorial. O povo brasileiro foi para as ruas e conseguiu transformar esse grande país numa das maiores democracias do mundo. Manifestação no Brasil, a gente tem de olhar com absoluta tranquilidade, todas as pessoas têm direito de criticar, mas nenhum de nós pode aceitar que isso se transforme em violência — afirmou.

Perguntada sobre a possível participação de partidos de oposição nos atos de domingo, ela disse, em tom de brincadeira, que essa apuração “cabe à imprensa investigativa”.

O ministro Relações Institucionais, Pepe Vargas, disse ontem que a defesa do impeachment “cheira a golpe”. Afirmou, porém, que o governo respeita manifestações “pacíficas e ordeiras”:

— Há uma presidente no exercício do seu cargo ungida pelas urnas, e falar em impeachment é desrespeitar a vontade majoritária da população brasileira que foi às urnas, é algo que cheira a golpe. Isso é inadmissível.

Falcão critica impeachment
Em vídeo divulgado ontem em uma rede social, o presidente do PT, Rui Falcão, mandou um recado aos grupos que organizam os protestos de domingo para pedir o impeachment da presidente. Ele afirmou que, se quiserem chegar à Presidência da República, esses movimentos terão que esperar até 2018:

— Sabemos que alguns grupos organizados têm se aproveitado de um momento de dificuldades passageiras para espalhar seus métodos antidemocráticos. Esses grupos terão que esperar a eleição de 2018 e lá disputar seus planos nas urnas — afirmou Falcão.

Falcão pediu aos militantes que “não abaixem a cabeça”:

— O PT reforça a orientação à militância que está saindo às ruas a não aceitar provocação de extremistas, mas tampouco abaixar a cabeça.(Colaboraram Bruno Rosa, Letícia Fernandes e Silvia Amorime Simone Iglesias)

Planalto teme confronto entre manifestantes nos atos de hoje

Planalto teme confrontos entre grupos de ativistas

• CUT e MST e grupo anti-Dilma convocaram atos para hoje na avenida Paulista

• Cobrança de sindicalistas por mudanças na condução da gestão também inquieta o governo

Igor Gielow, Andréia Sadi – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - O Palácio do Planalto teme que haja confronto nos atos desta sexta-feira (13) entre ativistas de grupos como o Revoltados Online, contrário ao governo, e manifestantes de sindicatos e movimentos sociais alinhados ao PT, o que poderia gerar combustível extra para as manifestações contra a presidente Dilma Rousseff no domingo (15).

Entidades como a CUT (Central Única dos Trabalhadores), o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e a UNE (União Nacional dos Estudantes) prometem ir às ruas nesta sexta em 23 capitais. Em São Paulo, um dos grupos que pede o impeachment da petista promete aparecer no mesmo horário e local da concentração dos movimentos sociais, a avenida Paulista.

O temor de confrontos foi antecipado pela coluna Painel de quinta-feira. Para o Planalto, um eventual embate nas ruas teria potencial para insuflar o protesto do domingo, convocado por grupos contrários ao governo em ao menos 62 cidades.

A pauta dos atos desta sexta preocupa o governo em igual medida. O tema difuso de "defesa da Petrobras", mote inicial da convocação dos sindicalistas e movimentos sociais, tenderá na avaliação governista a ser engolido pela parte negativa para a presidente do ato: a crítica às medidas de ajuste fiscal.

A convocatória do evento desta sexta dá mais ênfase aos pontos contra o governo do que a favor. A impressão deixada pelos sindicalistas que estiveram na quarta (11) no Planalto para falar sobre suas demandas foi ruim.

Um fator a mais preocupa o governo: a insatisfação de estudantes dependentes do Fies, programa de financiamento que está travado devido a mudanças que o governo fez. Até aqui, esses alunos eram personagens de propaganda eleitoral do PT.

Desde que o problema chegou ao noticiário, com relatos de alunos incapazes de acessar o sistema do Fies na internet para solicitar o auxílio, o governo passou a monitorar redes sociais visando identificar insatisfações.

Há um temor de que estudantes engrossem o coro contrário a Dilma no domingo, desmantelando assim parte do discurso de defesa do PT, segundo o qual o ato é algo feito pela "burguesia".

Não que o discurso esteja amparado na realidade: pesquisas internas do governo mostram que a rejeição a Dilma está ainda maior do que aquela detectada pelo Datafolha em fevereiro (44% de ruim/péssimo), e que é uma queixa verificável em todos os estratos sociais.

O presidente do PT, Rui Falcão, divulgou um vídeo em que recomenda aos petistas que não aceitem provocações, nem baixem a cabeça. Na mensagem, Falcão afirma que o PT repudia "ato de violência e de golpismo".

Dilma Rousseff cancelou a agenda prevista para a manhã desta sexta em Belo Horizonte. Segundo o Planalto, a mãe da presidente, Dilma Jane Silva, de 90 anos, está doente. Protestos contra a petista devem ocorrer na capital mineira nesta sexta.

Colaboraram Cátia Seabra, de São Paulo, e Mariana Haubert, de Brasília

Dilma cancela agenda em Belo Horizonte para evitar protestos

• Oficialmente, Presidência afirma que alteração foi em razão do estado de saúde da mãe da presidente, de 90 anos

Rafael Moraes Moura e Tânia Monteiro - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - A Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) informou nessa quinta-feira, 12, que a presidente Dilma Rousseff cancelou a agenda prevista para esta sexta-feira, 13, em Belo Horizonte devido ao estado de saúde da mãe da presidente, Dilma Jane Coimbra, de 90 anos. Segundo a Secom, a mãe de Dilma "não está bem". No entanto, informações de bastidores sugerem que a presidente suspendeu a viagem a para evitar novas vaias e protestos.

Embora o evento estivesse programado para ocorrer em local fechado e Dilma não fosse sofrer constrangimento direto, o Palácio do Planalto foi informado de que estavam programadas manifestações contra a presidente na área do evento.

Dilma iria participar de cerimônia de apresentação dos trabalhos da campanha "Justiça pela Paz em Casa", no Palácio da Justiça. Estarão presentes o governador do Estado, Fernando Pimentel (PT), o prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda (PSB), e a vice-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Carmen Lúcia, que apresentará os dados da campanha. O vice-presidente Michel Temer representará o governo federal na solenidade.

O cancelamento da viagem começou a ser discutido na manhã de quinta-feira. Mais cedo também foi desmobilizada a previsão de preparativos para a viagem, na segunda-feira, a São Luís, no Maranhão, onde Dilma inauguraria terminal de grãos do porto da cidade.

A avaliação do Planalto foi de que, neste momento, o melhor é a presidente "ficar em casa", ainda mais que nesta sexta também será realizado protesto da Central Única dos Trabalhadores (CUT) contra a política econômica e medidas de ajuste fiscal, mas a favor da presidente. Já no domingo, grupos convocam protestos contra o governo, alguns dos quais com a defesa do impeachment de Dilma.

Uma espécie de gabinete de crise foi criado para acompanhar as manifestações desta sexta-feira e de domingo. O governo está preocupado com as repercussões desses dois eventos e das consequências políticas de ambos. A presidente Dilma pediu aos ministros do seu chamado núcleo político que permaneçam em Brasília para acompanhar os acontecimentos no domingo e para participarem de uma reunião de avaliação com ela, no Palácio da Alvorada, no final do dia, a exemplo do que já fez no fim de semana passado, quando a crise com o Congresso atingiu o auge.

Stédile evoca militância a engraxar 'botas e chuteiras'

• Em ato no RS, líder do MST diz que reagirá contra "golpe da burguesia"

Flávio Ilha – O Globo

PORTO ALEGRE, SÃO PAULO e RIO - O principal dirigente do MST no país, João Pedro Stédile, pediu ontem à presidente Dilma Rousseff que "não se acovarde" diante da pressão de setores do país "que querem tomar o poder no grito", referindo-se aos protestos do próximo domingo contra o governo. Stédile participou ontem na capital gaúcha de um ato em defesa da Petrobras. Em recente ato em defesa da estatal, no Rio, o ex-presidente Lula disse que estava pronta para a briga com a oposição e que contava com o "exército" de Stédile. Ontem o líder do MST deu um recado à militância:

- Engraxem as botas e as chuteiras que o jogo só está começando. Quem não tiver barraca, compre uma. Compre um tênis. Estamos aqui no vestiário, só nos preparando.

Diante de um público estimado em cinco mil pessoas pela Brigada Militar, Stédile comparou a situação atual ao período da campanha da legalidade, em 1961, quando o então vice-presidente João Goulart foi impedido de assumir a Presidência com a renúncia de Jânio Quadros, o que levou à implantação do parlamentarismo no país. Ele prometeu "botar o povo na rua", após os atos de domingo, para garantir que o país "faça as reformas necessárias":

- Se a burguesia tentar dar um golpe, temos que assumir um compromisso de ocupar as praças, acampar, fazer vigílias e, daqui do Rio Grande, como foi na campanha da legalidade, exigir respeito à democracia, manter o povo unido e marchar a Brasília para exigir que esses idiotas da Globo e do capital internacional, que querem botar a mão no pré-sal, respeitem a democracia e o povo possa avançar. Esperamos também que a nossa companheira Dilma tenha a coragem do velho Brizola. Dilma, não se acovarde. Não caia na esparrela do ajuste neoliberal. - discursou Stédile, citando o ex-governador Leonel Brizola, que liderou a campanha da legalidade para garantir a volta ao país de João Goulart, que estava no exterior, quando Jânio renunciou.

O ato em Porto Alegre foi o primeiro da série de protestos que continuará hoje pelo país. Ontem, militantes da CUT, do MST e da Via Campesina, entre outras entidades, ocuparam ruas da capital gaúcha com faixas em defesa da estatal e contra o ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Segundo os organizadores, cerca de 50 ônibus locados transportaram militantes. Havia delegações de cidades como Caxias do Sul e Farroupilha, e de regiões mais distantes da capital.

Apesar do pedido feito a Dilma, Stédile, em entrevista, criticou a presidente e disse que ela foi eleita para fazer reformas populares, e não um ajuste neoliberal. Também disse que o MST continua esperando pelos assentamentos prometidos por Dilma na campanha.

Os atos de hoje estão previstas para ocorrer em 26 estados. Os protestos deverão começar de manhã e se estender por todo o dia. A CUT divulgou que só não haverá ato em Rondônia. E o MST informou que está mobilizado em 16 capitais. Os dirigentes das centrais sindicais dizem que o ato não é contra nem a favor do governo.

- Nossa pauta é em defesa dos direitos dos trabalhadores, da Petrobras, da democracia e pela reforma política. Isso foi tirado em comum acordo com todos os movimentos participantes. Não é contra nem a favor do governo. Mas não defendemos impeachment porque temos um regime democrático - disse o presidente da CUT-SP, Adi Santos Lima.

Está marcado para hoje em São Paulo um ato em frente à sede da Petrobras para pedir o impeachment de Dilma, organizado pelo grupo Revoltados Online. A CUT pediu em carta à Secretaria de Segurança Pública "especial atenção dos órgãos de segurança" para hoje.

No Rio, a convocação foi por redes sociais. O presidente estadual do PT e prefeito de Maricá, Washington Quaquá, foi um dos petistas que postou a convocação em sua página no Facebook. Funcionários comissionados da prefeitura de Maricá receberam mensagens informando que ônibus estarão disponíveis para levar a militância a partir de meio-dia. Nessa mensagem, comissionados foram informados que estarão dispensados à tarde. Quaquá confirmou que o PT vai oferecer ônibus, mas negou a convocação de funcionários. (Colaboraram Marcelo Remígio e Julianna Granjeia e Silvia Amorim)

Caiado pede a Cardozo segurança em atos

• Senador solicitou garantia da integridade física de quem é contra o governo

Maria Lima – O Globo

BRASÍLIA e RIO - Diante do que chamou de radicalização e impunidade do "exército do ex-presidente Lula e do Stédile", o senador Ronaldo Caiado (DEM-GO) encaminhou ontem um ofício ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, exigindo que ele garanta a integridade física de quem participar das manifestações contra a presidente Dilma Roussef no próximo domingo. Da tribuna do Senado, ele questionou o argumento usado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, de que há vedação constitucional à investigação da presidente. Ele disse que ela não pode ser responsabilizada por atos anteriores ao mandato, mas refutou a tese de que ela não pode ser investigada.

- Essa Casa exige que o ministro da Justiça garanta à população brasileira o direito de se manifestar, de maneira ordeira e pacífica, para mostrar sua indignação contra o governo, contra esse exército do Lula, que é financiado por dinheiro público, o MST. O povo brasileiro nada tem a ver com esses assaltos sucessivos aos cofres públicos e entidades estatais - disse Caiado.

O consulado da França no Rio mandou e-mail para cidadãos franceses alertando sobre as manifestações programadas para hoje e domingo. No Senado, Caiado acusou o ex-presidente Lula de buscar a conflagração das ruas, estimulando o MST a antecipar o "Abril Vermelho", para intimidar os brasileiros que querem protestar contra o governo. O líder do DEM disse que participará, com sua família, dos protestos de domingo.

- O ex-presidente Lula vai à sede da ABI e diz: "não tem problema, vamos chamar o exército do Stédile para ir para as ruas". Esse exército do Stédile e do Lula matou ontem duas pessoas, e uma criança, morreu queimada. Ameaçam saquear todo o Brasil, destruíram pesquisa científica, mas, contra eles, não tem Guarda Nacional nem Polícia Rodoviária Federal. Os coletivos do Stédile e do Lula estão isentos como os coletivos do Chávez e do Maduro na Venezuela - atacou Caiado.

Sobre o parágrafo 4º do artigo 86 da Constituição Federal, que impede que o chefe da nação, durante a vigência de seu mandato seja "responsabilizado por atos estranhos ao exercício de suas funções", Caiado defendeu a tese de que, embora não possa ser responsabilizada, Dilma poderia ser investigada.

- Desafio qualquer jurista a provar essa tese. A investigação é que vai levar ao aprofundamento dos argumentos sobre ter ou não uma situação de impeachment. Dilma foi citada 11 vezes nas delações premiadas da Operação Lava-Jato, manteve a diretoria da Petrobras que a sociedade cansou de pedir para trocar. Para quê? Para dificultar provas de corrupção na empresa e repasse de recursos inclusive para a campanha dela? - questionou Caiado, rebatendo Janot e o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. (Colaborou Dandara Tinoco)

Movimentos criticam governo e aumentam pressão sobre Dilma

• Em Porto Alegre (RS), manifestantes fizeram críticas à política econômica da presidente

• Em vídeo, líder do MST conclamou os militantes contra elites que criam "cenário de instabilidade"

Estêvão Bertoni, Claudia Rolli e Paula Sperb – Folha de S. Paulo

SÃO PAULO, PORTO ALEGRE - Sindicatos e movimentos sociais alinhados ao governo federal que organizam atos nesta sexta-feira (13) em 23 capitais aumentaram a pressão sobre a presidente Dilma Rousseff ao incluir entre suas reivindicações críticas à condução da política econômica e ao ajuste fiscal.

Em vídeo divulgado nesta quinta (12), o líder do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) João Pedro Stedile disse que o governo precisa abandonar a atual política econômica.

E conclamou os militantes contra elites que criam "um cenário de instabilidade política para que o governo se sinta acuado e implante o programa de ajuste neoliberal que é a pauta deles".

Já Joaquim Pinheiro, membro da coordenação nacional dos sem-terra, diz que "não vai ter refresco" a favor do governo. "A política que a Dilma está aplicando é a do Aécio Neves [PSDB]. Temos que defender os nossos direitos."

Ele cobra que a petista se aproxime dos movimentos sociais revendo medidas anunciadas pelo ministro Joaquim Levy (Fazenda) que "atacam os direitos dos trabalhadores".

As únicas defesas dos atos desta sexta, diz o MST, serão da Petrobras, dos direitos do trabalhadores, da reforma política e da democracia. Em sua fala, Stédile prevê que "a burguesia vai tentar dar o troco no dia 15", em referência ao ato pró-impeachment no domingo (15).

A maioria das entidades que prometem ir às ruas nesta sexta se esquiva de declarar apoio explícito à presidente. "Não é um ato nem contra nem a favor do governo, mas sim pela normalidade da democracia", diz Vagner Freitas, presidente da CUT.

"Todos sabem o engajamento político da CUT na eleição do ex-presidente Lula e no primeiro mandato da presidenta Dilma. Mas, neste momento, a leitura que fazemos é que o Brasil tem de voltar à normalidade. O fato é que a eleição acabou, não há terceiro turno."

Porto Alegre
Nesta quinta-feira, o tom de cobrança já apareceu no protesto de cerca de 50 entidades que reuniu aproximadamente 1.500 pessoas, segundo a Polícia Militar, em Porto Alegre.

Entidades ligadas à CUT e à CMS (Coordenação de Movimentos Sociais) defenderam a Petrobras e cobraram um plebiscito para a reforma política. Já sindicatos ligados à CSP (Central Sindical Popular) e a Conlutas protestaram contra Dilma e os governos locais.

Na pauta da CSP e Conlutas estão reivindicações contra ajustes fiscais e pedidos por melhores situações na educação e habitação. De outro lado, militantes do PT, principalmente mulheres, exibiram faixas de apoio a Dilma.

STJ abre inquéritos contra Cabral, Pezão e Tião Viana

• Ministro Luís Felipe Salomão, relator da Lava Jato na Corte, acatou pedidos da vice-procuradora-geral da República, Ela Wiecko, e abriu investigações contra governadores do Acre e do Rio de Janeiro

Talita Fernandes e Beatriz Bulla - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O Superior Tribunal de Justiça instaurou na noite de ontem dois inquéritos para investigar suposta participação dos governadores do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), do Acre, Tião Viana (PT), e do ex-governador fluminense Sérgio Cabral (PMDB) em esquema de corrupção envolvendo a Petrobrás. Os pedidos foram encaminhados pela vice-procuradora-geral da República, Ela Wiecko, ao ministro Luis Felipe Salomão, relator da Operação Lava Jato no STJ.

Salomão acatou os pedidos de abertura dos inquéritos e de diligências contra os investigados. O ministro também decidiu retirar o sigilo das peças, a exemplo do que fez o relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, Teori Zavascki, nos pedidos de inquérito enviados à Corte na semana passada.

Em um dos inquéritos serão investigados Cabral, Pezão e Regis Fichtner, ex-chefe da Casa Civil do Rio, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Segundo a Procuradoria, Cabral e Pezão agiram juntos, com colaboração do ex-secretário, para receber R$ 30 milhões em 2010 de empresas contratadas pela Petrobrás para a construção do Comperj. O dinheiro teria sido destinado para a campanha dos peemedebistas - na época, Cabral disputava a reeleição como governador e Pezão, como vice.

A Procuradoria relata que o recebimento da propina foi feito por meio do ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa. No pedido de inquérito, a Procuradoria pediu que sejam ouvidos Cabral, Fichtner e executivos de empresas citadas pelo ex-diretor.

“As informações fornecidas pelo colaborador (Costa) revelam uma dinâmica semelhante a diversos outros casos, todos convergindo para um padrão de atuação ilícita, em que agentes políticos recorriam ao diretor da Petrobrás para intermediar valores junto às empreiteiras contratadas pela estatal para cobrir despesas de campanha eleitoral”, escreveu a procuradora no pedido de inquérito contra os políticos fluminenses. Ela aponta que o relato de Costa é corroborado pelo doleiro Alberto Youssef, que relatou formas utilizadas para que o dinheiro chegasse a políticos.

Apesar de Cabral e Fichtner não terem direito a foro especial no STJ, os dois também serão investigados perante o tribunal pela conexão de seus atos com os de Pezão - como governador, ele só pode ser julgado por esse tribunal. O mesmo ocorreu no STF, que decidiu manter suspeitos sem foro em inquéritos abertos na Corte por estarem conectados a parlamentares com essa prerrogativa.

No outro pedido de inquérito, Tião Viana é suspeito de receber R$ 300 mil em propina da Petrobrás como auxílio para se eleger pela primeira vez ao governo do Acre, em 2010. Segundo a Procuradoria, a solicitação do dinheiro foi feita a Youssef e autorizada por Costa.

Diligências. O ministro do STJ aceitou também pedidos da procuradora para efetuar diligências, a fim de aprimorar a investigação dos fatos narrados pelos delatores da Lava Jato. No inquérito para apurar o envolvimento de Cabral, Pezão e Fichtner, a Procuradoria pediu que sejam coletados documentos, vídeos e registros de entradas e saídas do hotel Caesar Park em Ipanema, zona sul do Rio. Segundo os delatores, o local teria sido palco de um encontro, em 2010, para combinar a arrecadação de fundos com Costa.

Foi pedido ainda que Cabral, Fichtner e executivos das empresas Skanska, OAS, UTC, Alusa, Techint e Odebrecht prestem depoimento no prazo de até 60 dias. Serão também analisadas as doações eleitorais feitas ao ex-governador do Rio. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) terá prazo de 90 dias para isso.

No caso de Viana, a Procuradoria solicita cópia de documentos apreendidos na casa de Costa que teriam anotações citando repasses ao petista. O governador terá as doações de campanha de 2010 escrutinadas. A vice-procuradora abriu prazo para que os envolvidos possam se manifestar sobre as investigações.

STJ abre inquérito sobre Pezão e Cabral

• Costa disse que reunião para discutir caixa dois de campanha ocorreu num dos palácios do governo do Rio

Vinicius Sassine e Carolina Brígido – O Globo

BRASÍLIA - O Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou ontem a abertura de inquéritos para investigar o suposto envolvimento dos governadores do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), e do Acre, Tião Viana (PT), no esquema de desvios de recursos da Petrobras. O procedimento aberto para Pezão inclui ainda o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB) e Régis Fichtner, ex-secretário da Casa Civil do governo do Rio. Os crimes a serem investigados são corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Sindicâncias com os trechos das delações premiadas usadas nas investigações já tramitavam no STJ. Agora, elas foram convertidas em inquéritos pelo relator, o ministro Luís Felipe Salomão, atendendo ao pedido da Procuradoria Geral da República. Salomão acolheu a solicitação da vice-procuradora-geral da República Ela Wiecko, que assina a petição, e determinou que os dois processos tramitem sem qualquer sigilo.

O relator também concordou com as primeiras diligências sugeridas pela Procuradoria: depoimento dos suspeitos em 60 dias; análise das doações de campanha em 90 dias; e pedido de imagens e registros de entradas em um hotel do Rio onde teria sido acertado o repasse de recursos à campanha de Cabral e Pezão em 2010. O ministro já determinou a remessa dos pedidos à Polícia Federal.

Verbas do Comperj para o caixa da campanha
Um dos delatores, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa, afirmou em depoimento que arrecadou R$ 30 milhões em recursos desviados da Petrobras para caixa dois da campanha de Cabral para governador e de Pezão para vice, em 2010. Segundo o delator, os recursos para a campanha saíram de empresas que atuavam na obra do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj).

Segundo Costa, o consórcio Compar, formado pelas empreiteiras OAS, Odebrecht e UTC, contribuiu com R$ 15 milhões. O restante foi pago por outras empresas, como Skanska, Alusa e UTC, de acordo com o delator. O ex-diretor afirma que os pagamentos eram propina.

A arrecadação de dinheiro para o caixa dois da campanha foi decidida dentro de um dos palácios sedes do governo do Rio, segundo o depoimento do ex-diretor da Petrobras. "No primeiro semestre de 2010 foi chamado diretamente pelo governador Sérgio Cabral no gabinete em um dos palácios do governo que o declarante não sabe precisar qual para tratar de assunto ligado a contribuições para a campanha de reeleição", disse Costa na delação premiada. Segundo o delator, o então vice-governador Pezão e o então secretário da Casa Civil Régis Fichtner estavam presentes na reunião.

O objetivo da reunião descrita na delação foi pedir uma "ajuda" para a campanha. Uma reunião num quarto de hotel - no Leblon ou em Ipanema - teria sido agendada posteriormente pelo então secretário. Costa, então, fez contatos com empresas responsáveis por obras do Comperj.

O ex-diretor afirmou que conheceu Cabral em 2007, numa reunião para tratar do Comperj. Ele não soube dizer se o gabinete usado para a reunião do pedido de ajuda foi o do Palácio Guanabara ou o do Palácio Laranjeiras.

O outro governador a ser investigado, Tião Viana, do Acre, é suspeito de ter recebido R$ 300 mil do esquema, conforme os delatores Costa e Alberto Youssef. Governadores têm foro privilegiado junto ao STJ, e não ao Supremo.

No STF, os inquéritos foram instaurados na noite da última sexta-feira. São 50 investigados, entre eles 13 senadores e 22 deputados federais. Os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), estão na lista.

Para Pezão, versão de costa é 'estapafúrdia'; Cabral se diz indignado; Fichtner também nega

• Governador afirma que seu sigilo bancário está à disposição e que ainda não constituiu advogado

- O Globo

O governador Luiz Fernando Pezão classificou como estapafúrdio o depoimento do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e disse estar certo de que a investigação aberta no Superior Tribunal de Justiça "vai comprovar que a acusação é falsa". Pezão diz que respeita a decisão da Procuradoria Geral da República de pedir abertura de inquérito no STJ para investigar a citação do seu nome por Costa.

- Estou à disposição da Justiça, só quero ser ouvido. Essa conversa (citada por Costa) nunca existiu. A acusação é falsa. Meu sigilo bancário está à disposição, só tenho uma conta. Minha declaração de bens é pública e também está disponível - disse, ressaltando não ter sido oficialmente notificado e não ter constituído advogado.

O ex-governador Sérgio Cabral reafirmou, em nota, que as acusações de Costa são falsas, que nunca se reuniu com o ex-diretor da Petrobras e que também nunca solicitou a ele apoio financeiro à sua campanha à reeleição.

"Reitero os meus compromissos de toda a minha vida pública de respeito à independência do Ministério Público e do Judiciário brasileiros. Tenho a consciência tranquila", disse Cabral, na nota.

"Reafirmo que é mentirosa a afirmação do delator Paulo Roberto Costa. Essa reunião jamais aconteceu. Nunca solicitei ao delator apoio financeiro à minha reeleição ao governo do Estado do Rio de Janeiro. Todas as eleições que disputei tiveram suas prestações de contas aprovadas pelas autoridades competentes. Reafirmo o meu repúdio e a minha indignação a essas mentiras", completou Cabral.

Já ex-secretário Régis Fichtner disse que nunca participou de nenhuma reunião com Cabral e Costa, e negou ter se reunido com representantes de Skanska, Alusa e Techint e do Consórcio Compar "para qualquer finalidade, muito menos para tratar de contribuições de campanha".

Em nota, Fichtner informou que vai entrar na Justiça contra o ex-diretor da Petrobras. "Tenho convicção de que uma mínima apuração dos fatos pela Justiça irá resultar no restabelecimento da verdade", disse.

Na nota, Fichtner diz que recebeu com "surpresa e indignação" as declarações de Costa a respeito da participação dele para arrecadar dinheiro de caixa dois para a campanha de Cabral. "Nunca participei de nenhuma reunião em que o então governador Sérgio Cabral tivesse solicitado ao senhor Paulo Roberto Costa ajuda para a arrecadação de recursos para a sua campanha. Nunca participei de nenhuma reunião com o senhor Paulo Roberto Costa e representantes das empresas Skanska, Alusa e Techint, muito menos para tratar de arrecadação de recursos para campanha. Nunca me reuni com representantes do Consórcio Compar para qualquer finalidade, muito menos para tratar de contribuições de campanha".

Governadores têm foro privilegiado junto ao STJ, e não ao STF. Entre os envolvidos nas delações premiadas da Operação Lava-Jato, uma outra autoridade tem foro junto ao STJ: o ex-ministro das Cidades Mário Negromonte, que exerce atualmente o cargo de conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM) da Bahia. Negromonte, porém, será investigado em inquéritos no STF, por conta da conexão a fatos supostamente cometidos por parlamentares do PP.