terça-feira, 4 de setembro de 2018

Alckmin faz ofensiva para passar de governador dos números a candidato dos pobres

Tucano prepara anúncios de cunho social que reforcem imagem de 'Geraldo é cabeça e coração'

Thais Bilenky | Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - O candidato Geraldo Alckmin (PSDB) deu início nesta segunda-feira (3) a uma operação para modelar a sua imagem, reforçando a preocupação social.

Rejeitado por 26% da população, considerado um político frio, o tucano quer mostrar que está atento ao povo e aos mais pobres.

A estratégia é a espinha dorsal da campanha, segundo integrantes do núcleo duro, sintetizada pelo jingle, “Geraldo é cabeça e coração”.

Sempre desfiando números e estatísticas, Alckmin se esforça para construir uma imagem de gestor com responsabilidade fiscal que também é comprometido com a população carente.

A avaliação da equipe é que não adianta focar o aprofundamento técnico do plano de governo —que, até agora, resume-se a um documento genérico de 15 páginas.

Será necessário demonstrar sensibilidade social e, para isso, a campanha planeja anunciar uma medida de impacto e fácil compreensão para cada uma das quatro principais áreas do programa: emprego, segurança, saúde e educação.

Dentro desse roteiro, nesta segunda, na capital paulista, o tucano prometeu subsidiar metade da tarifa de gás de botijão às famílias carentes.

O vale-gás, como Alckmin chamou o programa, teria custo estimado em menos de R$ 2 bilhões por ano para beneficiar 8,3 milhões de famílias, já cadastradas na tarifa social de energia elétrica.

São aquelas de renda per capta inferior a meio salário mínimo, estão no BPC (benefício de prestação continuada) ou têm membro com doença ou deficiência grave.

Alckmin associa Dilma a Temer em propaganda na TV

Tucano busca atrair o eleitor antipetista que hoje declara voto a Jair Bolsonaro nas eleições 2018; candidato do PSL à Presidência segue como alvo principal da campanha

Pedro Venceslau e Yuri Silva | O Estado de S.Paulo

Após a campanha do presidenciável tucano Geraldo Alckmin usar a maior parte de suas inserções para atacar o deputado Jair Bolsonaro (PSL) na estreia do horário eleitoral de rádio e TV, na sexta-feira, 31, novos comerciais apontam a presidente cassada Dilma Rousseff (PT) e o presidente Michel Temer (MDB) como responsáveis pela crise que o Brasil atravessa em diversas áreas. A ideia é associar Dilma a Temer.

O candidato do PSL continua como alvo principal em metade das propagandas – são 12 ao longo do dia. Os ataques mais duros são no rádio. Mas um quarto dos comerciais de TV que começarão a ser veiculados a partir de hoje usam o mote “O Brasil de Dilma e Temer é assim” ao mostrar dados sobre violência, educação e segurança pública.

Desde o início da campanha presidencial, Alckmin vem sendo criticado pelos adversários por ter firmado uma aliança com os partidos do Centrão que formam a base de sustentação de Temer no Congresso.

A diferença em relação às inserções que atacam Bolsonaro é que nesse caso Alckmin aparece no fim das locuções em off. Em uma delas, um locutor fala sobre os “13 milhões de desempregados” registrados nos últimos quatro anos enquanto um casal toma café. “O desemprego é cruel. Faz a família toda sofrer. Economia tem que gerar emprego. O presidente tem que ser o comandante da boa economia”, diz o ex-governador.

A crítica resvala no ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles (MDB), que tem exaltado na campanha que foi presidente do Banco Central do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo um dos coordenadores políticos da campanha tucana, a ideia é abrir uma ofensiva para atrair eleitores antipetistas que devem começar a se descolar de Jair Bolsonaro.

Por isso a decisão foi preservar Alckmin nos ataques a Bolsonaro, mas expô-lo no caso do PT e de Temer. A ideia dos comerciais é fazer com que temas sensíveis aos olhos do eleitor deixem de ser associados exclusivamente a Temer, que foi vice de Dilma e assumiu após sua deposição, e passem a ser tratados como “problemas nascidos no governo do PT”.

Novos programas devem lembrar que a escolha do emedebista para o cargo de vice-presidente na chapa de Dilma foi do próprio PT – ligando o presidente ao partido de Lula, condenado no âmbito da Operação Lava Jato e preso na carceragem da Polícia Federal, em Curitiba (PR).

Pesquisas. Antes de elaborar os novos comerciais, a campanha de Alckmin fez uma rodada de pesquisas qualitativas após as primeiras aparições do tucano no programa eleitoral no rádio e na TV, no sábado.

Opiniões de eleitores de São Paulo, Goiânia e Recife foram colhidas por uma empresa contratada pela campanha do ex-governador paulista, com a finalidade de entender regiões distintas (Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste).

Ainda de acordo com interlocutores que tiveram acesso aos resultados da sondagem, o presidenciável do MDB, Henrique Meirelles, e a propaganda do PT, que não deixou claro para o público se o candidato do partido é o ex-presidente Lula ou o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, também agradaram aos eleitores que participaram das qualitativas contratadas pelo PSDB.

Efeito. Auxiliares e aliados de Alckmin acreditam que a próxima pesquisa Ibope/Estadode intenção de voto sobre a eleição presidencial, que será divulgada nesta terça-feira, 4, ainda não deve captar o resultado do horário eleitoral no rádio e TV.

Por isso seria precipitado mudar o cronograma original. A expectativa é de que os primeiros resultados comecem a aparecer após dez dias de exibição dos comerciais. O ex-governador tucano conta com o maior tempo de TV e rádio entre os 13 candidatos que disputam as eleições para o Palácio do Planalto.

Alckmin adota agenda popular e promete medidas de cunho social

Por Fernando Taquari | Valor Econômico

SÃO PAULO - Sem decolar nas pesquisas de intenção de voto, o candidato o PSDB a presidente, o ex-governador Geraldo Alckmin, adotou ontem uma agenda de apelo popular e anunciou duas propostas de cunho social. O tucano prometeu implantar restaurantes em todo o país que ofereçam refeição ao custo de R$ 1 e um subsídio às famílias mais pobres para a compra do botijão de gás.

Alckmin informou que o vale-gás, inspirado em um programa similar do governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), beneficiará 8,3 milhões de famílias que estão cadastradas no programa de tarifa social de energia elétrica. O impacto fiscal, segundo ele, não chega a R$ 2 bilhões por ano. O candidato tucano afirmou que os recursos vão vir de um severo ajuste fiscal.

"O espaço para reduzir gastos é enorme", disse Alckmin ao apresentar, na capital paulista, os colaboradores de seu programa de governo. Ao ser questionado especificamente sobre a origem do dinheiro para bancar essa proposta, o tucano foi vago. "Vem do conjunto de todos os ajustes", declarou.

O ex-governador justificou a necessidade do subsídio ao ressaltar que dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que 17% da população brasileira ainda cozinha à lenha por conta da dificuldade financeira em adquirir o botijão.

Antes do almoço, Alckmin seguiu para a zona leste de São Paulo, onde visitou um dos restaurantes "Bom Prato", que servem refeição a R$ 1 e são considerados uma das vitrines de sua gestão no governo do Estado.

Propaganda de Alckmin com tiros não ofende Bolsonaro, decide ministro

Sérgio Banhos, do Tribunal Superior Eleitoral, negou representação do deputado do PSL, candidato à Presidência, contra inserção do tucano que traz o slogan 'Não é na bala que se resolve'

Luiz Vassallo | O Estado de S. Paulo

O ministro do Tribunal Superior Eleitoral Sérgio Silveira Banhos negou representação do deputado Jair Bolsonaro (PSL), candidato à Presidência, contra propaganda do ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) ao Palácio do Planalto que traz o slogan ‘Não é na bala que se resolve’.

Na inserção, projéteis atingem objetos que simbolizam o ‘desemprego’, o ‘analfabetismo’, a ‘fome’ e outros. Na último segundo, uma bala segue em direção à cabeça de uma criança. “Não é na bala que se resolve”, diz a legenda – em uma clara alusão ao discurso do candidato Bolsonaro.

A defesa de Bolsonaro alegou à Corte que a introdução ‘visa atacar diretamente’ o deputado ‘no intuito de desequilibrar a disputa eleitoral, ofendendo a lisura e a moralidade do pleito’.

Dessa forma, pediu a ‘concessão de medida liminar para determinar a suspensão imediata da veiculação na televisão e nas páginas oficias do representado no Facebook e no Twitter da inserção impugnada, até o julgamento final da demanda’.

No entanto, para o ministro Sérgio Silveira Banhos, ‘não se verifica irregularidade capaz de denegrir a imagem’ do deputado.

“A uma porque não houve qualquer referência ao seu nome ou a sua imagem na propaganda eleitoral ora impugnada. A duas porque imagens tidas como ‘impactantes’ como a utilizada na inserção são apresentadas diariamente nos telejornais, uma vez que a violência explícita, lamentavelmente, é uma realidade do país”, anotou.

Bolsonaro diz que adversário faz 'jogo sujo'

Por Cristian Klein | Valor Econômico

RIO - Alvo de ataques de Geraldo Alckmin (PSDB) desde o primeiro dia da campanha em rádio e TV, o candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL) acusou o golpe. Dirigindo-se diretamente ao adversário, o deputado federal chamou de "jogo sujo" a campanha tucana. "Não tenta querer crescer fazendo esse jogo baixo, sujo, que parece uma característica de seu partido", disse Bolsonaro, antes de participar de almoço promovido por empresas do setor de seguros, no Rio.

O parlamentar reclamou que, em vez de Alckmin mostrar o que fez como governador de São Paulo, "fica me atacando", com o "videozinho do embate meu com a [deputada federal] Maria do Rosário [PT-RS]". A inserção de Alckmin mostra a discussão em que Bolsonaro disse que não estupraria a parlamentar porque ela não merecia. O deputado é réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por apologia ao estupro.

"O senhor tem é que explicar o roubo da merenda escolar, que está sendo denunciado por quatro delatores, está até o pescoço no Rodoanel, na Dersa, seu cunhado está em maus lençóis sendo acusado de ter desviado milhões também junto a empreiteiras. Responda por você, não fique me acusando com leviandade", contra-atacou.

Bolsonaro, que lidera as pesquisas no primeiro turno mas perde em cenários de segundo turno, indicou que não aceitará o resultado das eleições se for derrotado em outubro. O presidenciável respondia a uma pergunta sobre seu apoio no eleitorado evangélico, quando afirmou que, "desde que não haja fraude nas eleições, nós chegaremos lá". Questionado em seguida se respeitará o resultado das urnas, Bolsonaro afirmou: "Quem quer que seja o vencedor acho que o outro lado vai acusar de fraude".

O candidato do PSL disse que aprovou dois artigos em projeto de lei que garantia o voto impresso mas o STF os julgou inconstitucionais. Bolsonaro afirmou que "vamos para as eleições informatizadas onde sabemos que nada é indevassável aqui no Brasil - ou qualquer lugar do mundo". Indagado novamente se reconhecerá o resultado, caso perca a eleição, Bolsonaro insistiu: "Qualquer que seja o lado perdedor não vai reconhecer".

O deputado relacionou a possibilidade de fraude com a necessidade de adversários de escaparem da Justiça. "O que está em jogo é a cadeia para a nata da política brasileira. E eles sempre discutem entre eles o indulto para condenados da Lava-Jato, a começar por Lula, Aécio e o próprio Alckmin, que responde a processos nesse sentido", disse.

O candidato à Presidência se mostrou muito irritado quando abordado sobre o incêndio que destruiu, anteontem, o Museu Nacional e não falou da importância da instituição. Preferiu culpar partidos de esquerda, pela administração do museu, ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), cujo reitor é filiado ao Psol. "Pergunte para eles o que fizeram esse tempo todo a não ser aparelhar essa instituição e colocar militantes lá dentro", disse. Depois, lembrado de que as verbas são do governo federal, mirou o presidente da República: "Pergunta para o Temer o que ele fez. Eu não fiz nada. Vocês querem que eu tenha solução para tudo agora?".

Indagado se poderia destacar uma entre as 20 milhões de peças que havia no museu - como o meteorito Bendegó, o crânio de Luzia, fóssil humano mais antigo encontrado no país, ou a coleção de cultura egípcia, a maior da América Latina - Bolsonaro perdeu o controle: "Para de fazer esse tipo de pergunta, porque onde você quer chegar eu não vou te responder. Acabou a entrevista. Está a serviço de quem?". O candidato também não respondeu se já tinha visitado o museu com os filhos. "Pergunta para o seu sobrinho essa aí", disse, já se esquivando e dando fortes tapinhas na barriga do interlocutor.

Eliane Cantanhêde: Indignação

- O Estado de S.Paulo

Tem dinheiro para tudo, menos para educação, saúde e muito menos cultura e museus

O Brasil é uma das maiores economias do mundo, despejou fortunas na Copa, na Olimpíada, nas “campeãs nacionais” JBS e Odebrecht e tem tanto dinheiro sobrando que o ex-governador do Rio nadava em joias, um dos envolvidos na Lava Jato estocava malas de dinheiro num apartamento vazio de Salvador, um outro devolveu US$ 100 milhões roubados à Petrobrás e vai por aí afora.

E os miseráveis? A geração de empregos? O dinheiro da Cultura? E a nossa história, o Museu Nacional, o da República, o do Ipiranga...? Para isso não há recursos, nem campeões nacionais, nem boa vontade, nem reconhecimento. Entra governo, sai governo, e o risco só aumenta, até que uma tragédia como a de domingo sacode o País.

As labaredas que destruíram os 200 anos de história jogaram luz no descaso, na falta de prioridade, nos desvios milionários, na simbiose entre corrupção e colapso, no empurra-empurra da culpa. Um erro vai puxando o outro, num círculo vicioso que leva a níveis insuportáveis a indignação, em pleno ano de eleições gerais.

O jornalista Sérgio Aguiar e eu adoramos o Museu da República, em Laranjeiras, no Rio, com peças lindas e tanta história que os personagens parecem eternizados ali. Uma parte, porém, estava bloqueada ao público, com goteiras e mofo. Era, nada mais nada menos, o quarto onde Getúlio Vargas “se despediu da vida para entrar para a história”.

No Museu Nacional, a indignação começa com questões simples. Por que não tinha brigada de incêndio de plantão? Nem água suficiente para debelar o fogo? Nem detecção, alarme e sistema de combate a incêndios? O Ministério da Cultura diz que fechou um financiamento em junho com o BNDES para restaurar o museu e prevenir incêndios. Agora, as verbas vão sair...

Os governos nunca deram muita bola para cultura e vêm reduzindo os recursos do museu desde 2010, mas Dilma Rousseff, o senador Lindbergh Farias e o deputado Wadih Damous, do PT, trataram de “esquecer” que o descaso vem de governo em governo e foi mantido inclusive nos oito anos de Lula e nos seis da própria Dilma. Por isso, arranjaram dois culpados: o governo Michel Temer e o teto de gastos. Falsear a realidade não é fazer política, é má-fé.

Depois do leite derramado, como sempre, todos apressaram-se a prometer mundos e fundos para reconstruir o Museu Nacional, mas não há dinheiro que possa recuperar o tesouro que havia dentro daquele prédio. Temer soltou nota de pesar, o ministro da Educação acenou com recursos de emergência, o da Cultura, que não apareceu na festa dos 200 anos do museu, passou o dia ao vivo nas TVs, o reitor da UFRJ ficou rouco de tanto falar que fizera a parte dele.

Míriam Leitão: O que fazer com as cinzas

- O Globo

Luzia resistiu por milênios, mas não sobreviveu a nós. E teremos que explicar isso aos estudantes, porque museu é parte da educação de um povo

É tão simbólico que grita. O incêndio do Museu Nacional em momento de tanta confusão sobre quem somos nós parece deliberado. E de certa forma é. Queimamos o nosso passado, ignoramos o nosso futuro e ficamos prisioneiros do redemoinho presente. Os brasileiros choram hoje sobre as cinzas e se perguntam como recuperar o patrimônio perdido. Irrecuperável, dizem os especialistas e cada um de nós sabe que é verdade. Mas haverá um amanhã depois do incêndio.

O meteorito sobreviveu, mas não a história do Brasil. E o que fazer agora? Na manhã do dia seguinte tudo o que se sabe é que o próprio prédio pode ruir. Perdeu-se um patrimônio da riqueza natural, da história que vivemos e do que houve nos milhares de anos antes de começarmos a construir o que podemos chamar de civilização brasileira. Anda Luzia. E agora? A presidente do Iphan anunciou que “Luzia morreu”. Ela resistiu por milhares de anos, mas não sobreviveu a nós. E teremos que explicar isso aos estudantes, porque museu é parte da educação de um povo.

Neste tempo da perplexidade é inevitável pensar no simbolismo de tudo isso. De certa forma, o Brasil sempre ignorou seu passado. Durante muito tempo preferimos fazer blague sobre os personagens fundadores do que somos, preferimos jogar luz sobre os maiores defeitos de cada personagem e não seus acertos. Rimos dos exotismos, e não valorizamos as sagas. Nas viagens ao exterior, visitamos museus e reverenciamos a história alheia. Mas aqui, deixamos para ir aos museus de arte ou de história em outro momento. Afinal, eles estarão sempre ali. E quando chegam as notícias, parcas, esporádicas, de que a manutenção do patrimônio está precária, lamentamos e vamos cuidar da vida. 

Há tantas emergências, o passado fica para depois.

Hélio Schwartsma: De quem é a culpa pelo incêndio?

- Folha de S. Paulo

Desastre museológico é também um alerta em relação ao que está por vir

O incêndio do Museu Nacional, no Rio, que destruiu parte importante de seu acervo, é uma tragédia para a ciência e o patrimônio cultural do país. Ao que tudo indica, as péssimas condições de conservação do prédio e a falta de equipamentos antifogo foram determinantes para aumentar a escala dos estragos.

O desastre museológico é também um alerta em relação ao que está por vir. A situação fiscal da União, estados e municípios é tão ruim que é quase uma fatalidade que se descuide da manutenção de incontáveis bens públicos. Podemos esperar, nos próximos anos, problemas variados não só em museus e outros edifícios como também em estradas, pontes, redes elétricas, barragens etc. Precisaremos de sorte para que não ocorram novas tragédias. E é sempre ruim depender da sorte em vez de contar com a previdência.

Luiz Carlos Azedo: A história à deriva

- Correio Braziliense

“Em pleno processo eleitoral, a identificação das causas reais do incêndio do Museu de nada servirá para evitar o embate político que já se estabeleceu entre governo e oposição”

O Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, cujo acervo foi quase completamente destruído por um incêndio na noite de domingo, era o retrato da relação do Brasil com a sua cultura. Entrou na pauta das eleições da pior forma possível: como nova tragédia nacional, que comoveu o mundo da cultura e, principalmente, o povo do Rio de Janeiro. Por causa das linhas de trens e de metrô, era muito visitado por estudantes de todas as idades e pelas famílias de cariocas dos subúrbios da Central do Brasil e da Leopoldina, para os quais era uma janela para o mundo da História Natural e das civilizações antigas.

A existência do museu se deve, em primeiro lugar, à transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro, entre 1808 e 1821, com a vinda de Dom João VI e sua família para o Brasil, acompanhado de mais de 10 mil pessoas, entre serviçais, religiosos, militares e a nobreza, fugindo do exército de Napoleão Bonaparte, o imperador francês. O antropólogo e jornalista australiano Patrick Wilcken, no livro Império à deriva, descreve essa mudança de forma magistral, no contexto da política europeia da época. O choque cultural que ela provocou, porém, é narrado com riqueza de detalhes por Laurentino Gomes, no livro 1808.

Laurentino Gomes é autor de uma trilogia que inclui 1822 — Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil – um país que tinha tudo para dar errado, sobre a Independência; e 1889 – Como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiçado contribuíram para o fim da Monarquia e a Proclamação da República do Brasil, que narra o colapso do regime imperial escravocrata. É dele, “depois de uma noite mal- dormida”, o comentário mais crítico sobre o incêndio na Quinta da Boa Vista:

“Abandonado, desleixado, com um acervo rico, porém esquizofrênico, pouco acolhedor para quem se animassem a visitá-lo, o Museu Nacional era um símbolo do que nos tornamos nos últimos anos: uma caricatura do que gostaríamos de ser e nunca fomos”, criticou. O prédio da Quinta da Boa Vista foi palco de grandes momentos da história do Brasil Imperial. Segundo Laurentino, tinha vocação para Museu Histórico, mas virou Museu de Ciências Naturais. “O acervo era confuso e pouco didático, entregue aos malcuidados de funcionários e curadores burocráticos, sem inspiração e entusiasmo”, critica.

Para o historiador, era um símbolo do toma lá dá cá na política brasileira: o prédio original foi um presente de um grande traficante de escravos a D. João no dia da chegada da Corte portuguesa ao Rio de Janeiro, em 1808. Elias Antônio Lopes era “um dos homens que mais se enriqueceria e ganharia títulos e honrarias nos 13 anos da Corte portuguesa no Brasil.” De fato, a coleção do museu começou como um projeto que se inspirava nas casas reais europeias. D. Pedro II era neto do rei português João VI e de Francisco II, último monarca do Sacro Império Romano-Germânico, sobrinho de Napoleão Bonaparte e primo dos imperadores Francisco José I da Áustria e Maximiliano do México.

Sergio Lamucci: A dificuldade de enfrentar a restrição orçamentária

- Valor Econômico

Teto se tornou bode expiatório da política fiscal

O teto de gastos está cada vez mais na linha de tiro. Não falta nem mesmo quem o aponte como um dos culpados pelo incêndio que destruiu no domingo o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, responsabilizando o mecanismo pela falta de recursos para a manutenção das instalações da instituição.

A crítica obviamente não faz sentido. O teto entrou em vigor apenas no ano passado, e o descaso com a situação do museu é um problema de muitos anos - em novembro de 2004, o então secretário estadual de Energia, Indústria Naval e Petróleo do Rio de Janeiro, Wagner Victer, alertou para o risco de incêndio, depois de visitar a instituição. "O museu vai pegar fogo. São fiações expostas, malconservadas, alas com infiltrações, uma situação de total irresponsabilidade com o patrimônio histórico", disse ele, hoje secretário estadual de Educação, em reportagem da Agência Brasil na época.

O episódio mostra como o teto virou uma espécie de bode expiatório para quem reclama da estratégia atual de ajuste das contas públicas. O mecanismo foi concebido para reduzir o ritmo de crescimento das despesas não financeiras do governo federal, que aumentaram mais de 6% ao ano acima da inflação entre 1997 e 2015. Inscrito na Constituição, vale por 20 anos, podendo ser revisto no meio do caminho.

Uma das críticas mais frequentes ao teto é que ele tende a causar uma redução drástica das chamadas despesas discricionárias (aquelas sobre as quais o governo tem maior controle), como investimentos. Outra reclamação é sobre o período excessivamente longo de validade da medida, que impedirá as despesas federais de crescerem acima da inflação por no mínimo uma década, independentemente da situação da atividade econômica.

O risco de que o teto seja descumprido nos próximos anos é elevado, mesmo com a aprovação de iniciativas como uma reforma dura da Previdência, o fim dos aumentos acima da inflação para o salário mínimo a partir de 2020 e a contenção dos reajustes para os servidores públicos. A Instituição Fiscal Independente (IFI) vê espaço para o cumprimento das regras até 2020. Se for rompido, gatilhos são acionados, proibindo aumentos nominais dos salários, aposentadorias e pensões para o funcionalismo, a criação de novos cargos, alteração de carreiras, novas contratações e a realização de concursos, entre outros pontos.

Roberto Freire lamenta a “tragédia do Museu Nacional”

O presidente do PPS, Roberto Freire, divulgou nota pública (veja abaixo), nesta segunda-feira (03), lamentando o incêndio que destruiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Para ele, o incêndio é uma “tragédia recorrente” cuja “causa verdadeira foi a incúria, a negligência e o descaso de cuidar com a devida responsabilidade dos bens culturais do País.”

“Nota sobre a tragédia do Museu Nacional
O incêndio desastroso que reduziu a cinzas o Museu Nacional é bem mais que uma tragédia anunciada. É uma tragédia recorrente. Mais um museu brasileiro tragado pelo fogo, mas a causa verdadeira foi a incúria, a negligência e o descaso de cuidar com a devida responsabilidade dos bens culturais do País.

No caso do Museu Nacional, ligado à UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), era uma referência internacional de pesquisas sobre a flora e a fauna brasileira, além de ser um dos mais importantes centros de pesquisas antropológicas, e referência absoluta no campo da entomologia.

Nunca foi tão necessário por na agenda do País uma nova maneira de gestão de seus acervos culturais e bens públicos, construindo uma nova forma de governança com o apoio de empresas privadas e gerência profissional, não apenas para garantir a integridade de seus espaços e conteúdos, artístico ou científico, mas, sobretudo, o acesso a estes bens para esta e as próximas gerações.

Chega de descaso!

Roberto Freire
Presidente do PPS”

Tucanos lamentam incêndio que destruiu Museu Nacional, no Rio

Descaso, abandono, negligência, desrespeito com a cultura e a história do país. O Brasil perdeu na noite deste domingo (2) mais de 200 anos de história com o incêndio que atingiu o Museu Nacional, a mais antiga instituição cientifica do país, que guardava em seu acervo mais de 20 milhões de itens, entre eles o crânio de Luzia, o fóssil mais antigo das Américas e tesouro arqueológico nacional. Criado por D. João VI em 1818, o museu ocupa, desde 1892, um prédio histórico, o palácio de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, zona norte do Rio de Janeiro.

Tucanos de todos os cantos do país lamentaram a tragédia. O presidente nacional do PSDB e candidato à Presidência da República, Geraldo Alckmin, afirmou que o incêndio agride a identidade nacional e entristece todo o país.

“Neste momento de profunda perda, quero me solidarizar não apenas com os cariocas, mas com todos os cidadãos brasileiros. Diante da perda irreparável do maior acervo museológico brasileiro, devemos resgatar o compromisso de zelar permanentemente, com consciência e investimento, pela preservação do patrimônio e da memória do país”, disse.

O fogo começou por volta das 19h30 de ontem depois do fechamento para visitantes. Boa parte da estrutura do prédio era de madeira, e o acervo tinha muito material inflamável. Assim, o fogo se espalhou rapidamente. Segundo a assessoria de imprensa do museu e o Corpo de Bombeiros, não houve feridos.

Em seu perfil no Facebook, o deputado federal Otavio Leite (PSDB-RJ) definiu o incidente como uma “tragédia cultural” e defendeu melhores condições para as instituições históricas que carregam a cultura do país.

“Uma manhã muito triste. Nossos museus, em grande parte, vivem muito precárias situações por ausência de recursos. Lá se vão 200 anos de história. Fico imaginando o que vai ser possível fazer para soerguê-lo. É uma tristeza muito grande. Queria compartilhar esse sentimento de frustração geral porque, no fundo, é um patrimônio de todos os brasileiros e das futuras gerações”, afirmou.

A candidata tucana ao Senado pelo Rio de Janeiro, Aspásia Camargo, destacou que a tragédia é “irreparável” e foi causada pela negligência dos governantes, a “irresponsabilidade política”.
“Perdemos história, arqueologia, cultura. Perdemos o museu histórico mais importante do Brasil, justamente na comemoração de seus 200 anos. Não há razão que explique não haver um sistema anti-incêndio, como em qualquer museu do mundo”, declarou.

Candidato ao governo de Minas Gerais, o senador Antonio Anastasia (PSDB) também lamentou o ocorrido. Na avaliação do tucano, a cultura e a história brasileira precisam ser mais valorizadas por todas as esferas do poder público.

Museu de cinzas: Editorial | Folha de S. Paulo

Incêndio na Quinta da Boa Vista aniquila parcela importante da memória nacional

Não será de todo arbitrário tomar o incêndio que destruiu o Museu Nacional como uma metáfora da situação em que se acha o país. Instituições e serviços do Estado passam por grave crise, na penúria criada pela deterioração orçamentária em todos os níveis de governo.

Só por má-fé ou autoengano, contudo, alguém tentará lançar a tragédia da Quinta da Boa Vista na conta de uma única administração. O descaso com o principal museu da história e da pré-história brasileiras se cultiva há anos, se não há décadas, ou por gerações inteiras.

A devastação emerge como um símbolo consternador, ainda, por ter lugar no Rio, a capital imperial e depois republicana que mergulhou em colapso econômico e político pouco depois de sediar eventos mundiais e inaugurar um vistoso Museu do Amanhã.

O passado mais uma vez se impôs, com força exterminadora.

A um só tempo arderam o palácio bicentenário, adotado como moradia por dom João 6º (e em que se assinou a independência do Brasil) e, tudo indica, a quase totalidade de um acervo ímpar.

Tragédia do Museu reflete má política de gastos: Editorial | O Globo

Corporações controlam maior parte do Orçamento, e a isso se soma o desprezo com a Cultura em geral

Não é um desastre qualquer a destruição pelo fogo do Museu Nacional, no Rio, instituição de 200 anos, abrigo de um acervo de 20 milhões de peças, recolhidas a começar pela própria família real, que teve no prédio incendiado a sua residência oficial.

A dimensão da catástrofe é ampla: atinge a memória nacional, devido à perda de importante acervo histórico; afeta a área científica, por interromper pesquisas, e representa um prejuízo cultural impossível de ser quantificado. Sabe-se apenas que é enorme. A impossibilidade de a população em geral e, em particular, estudantes e pesquisadores, terem acesso no país a registros da história da nação e da própria Humanidade é um empobrecimento sério no campo da cultura.

Por mais óbvio que seja, deve-se enfatizar a necessidade de governos, de políticos e da própria sociedade aprenderem com a tragédia. Mais uma neste setor. A coincidência da campanha eleitoral dá oportunidade de o assunto ser discutido, embora também possa ser utilizada para manipulações típicas de candidatos em busca de votos.

A reclamação da falta de recursos para museus e outras instituições públicas da área cultural é conhecida. E justificada. Mas não se trata de uma particularidade deste segmento do Estado, pois o país enfrenta grave crise fiscal. É bastante provável que o incêndio sirva de argumento a candidatos para pregar o fim do teto dos gastos públicos, tema da campanha.

Mas, sem o combate aos déficits, recursos ficarão ainda mais escassos, por força da volta da inflação e da queda na coleta de impostos provocada pela inexorável recessão, causada pelo retorno à irresponsabilidade fiscal desvairada. No campo do aprendizado, ainda está viva a lição da crise aguda de 2015/16, cuja origem foi esta.

Vergonha: Editorial | O Estado de S. Paulo

A tragédia do Museu Nacional revela que o corte de gastos precisa respeitar prioridades

O incêndio ocorrido no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, na noite de domingo passado, suscitou na maioria dos brasileiros uma profunda vergonha. É ultrajante o descaso do poder público com o patrimônio histórico, cultural e científico do País. A tragédia resultante joga luzes sobre uma série de graves problemas envolvendo a administração dos recursos públicos voltados para a educação e cultura. É inadmissível o que ocorreu no Museu Nacional.

Fundado em 1818 por d. João VI, o museu é a mais antiga instituição científica do País, com um acervo de 20 milhões de itens relativos às áreas da arqueologia, etnologia e geologia, além de coleções da antiguidade, trazidas ao Brasil no século 19. O ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, qualificou o incêndio de “tragédia incomensurável”. Segundo Luiz Fernando Dias Duarte, vice-diretor do museu, “é como se queimassem o Louvre ou Museu de História Natural de Londres”. Ainda não há informações precisas do que foi destruído ao longo das seis horas de incêndio, mas as perdas, obviamente, são irrecuperáveis.

O mais grave na tragédia do Museu Nacional é que o incêndio não foi uma surpresa. “O museu estava jogado, apodrecendo, incluindo a parte elétrica”, disse Walter Neves, professor da Universidade de São Paulo (USP). Em junho deste ano, quando a instituição completou 200 anos, reportagem do Estado mostrou a existência de goteiras, infiltrações e problemas das instalações elétricas.

A lamentável situação do Museu Nacional é resultado de uma série de distorções nas políticas públicas voltadas para educação e cultura. O Museu Nacional está vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e seu orçamento caiu, entre 2013 e 2018, de R$ 500 mil para menos de R$ 100 mil. Como se sabe, nos últimos 15 anos, houve uma multiplicação de despesas do Ministério da Educação, com a criação de inúmeras instituições de ensino superior em todo o País, sem um mínimo de critério acadêmico e administrativo. Uma vez que os recursos públicos não são infinitos, a criação de despesas produziu inexorável impacto sobre a manutenção de outros equipamentos públicos. Os museus, principalmente, foram atingidos por essa forma suicida de administrar.

Retratos terríveis saem das avaliações da educação: Editorial | Valor Econômico

A educação segue claudicante no Brasil, com reflexos inevitáveis na desigualdade social e na competitividade da economia. Os resultados do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2017, divulgados na semana passada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), anteciparam o que o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) confirmou ontem: o desempenho preocupante dos estudantes do ensino médio, apesar da ligeira melhora nos anos iniciais do fundamental. Se for considerado apenas o desempenho dos estudantes das escolas públicas, a conclusão é ainda pior. Os números revelam que o ensino médio está praticamente estagnado desde 2009, um "desastre", nas palavras do ministro da Educação, Rossieli Soares.

De acordo com o Inep, 70,6% dos estudantes do ensino médio apresentaram aprendizagem "insuficiente" em língua portuguesa e 71,67% em matemática. No caso do português, isso significa que não conseguem localizar informações explícitas em reportagens, crônicas e artigos ou reconhecer a relação de causa e consequência em piadas e trechos de romance. A insuficiência na matemática fica evidente na incapacidade para realizar contas de multiplicação. Somente 1,62% dos estudantes atingiram nível "adequado" em língua portuguesa, e 4,52% em matemática.

No ensino fundamental, os melhores resultados foram obtidos nos primeiros anos. No quinto ano, os estudantes obtiveram nível 4 de proficiência média, em uma escala que vai até nove no caso da língua portuguesa e até dez no de matemática. Nos anos finais os avanços são menores. No nono ano, os estudantes obtiveram nível três nas duas áreas, considerado insuficiente pelo próprio Ministério da Educação. Quando se excluem as escolas privadas, há uma piora: o desempenho de português cai 1,22 ponto, e o de matemática, 0,4 (Valor 31/8).

Toquinho e Vinicius de Moraes - Adeus (Noel Rosa)

João Cabral de Melo Neto: A mulher sentada

Mulher. Mulher e pombos.
Mulher entre sonhos.
Nuvens nos seus olhos?
Nuvens sob seus cabelos.

(A visita espera na sala;
a notícia, no telefone;
a morte cresce na hora;
a primavera, além da janela).

Mulher sentada. Tranquila
na sala, como se voasse.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Opinião do dia: Luiz Werneck Vianna*

“Paixões e interesses à parte, estaremos no tempo que se abre adiante no terreno áspero e difícil das transições em que não é mais noite e o dia ainda não chegou, cabendo à política bem compreendida acelerar sua festiva aparição. Contudo não poderemos fechar os olhos aos perigos que nos rondam, pondo em xeque a singular cultura que aqui criamos, nós brancos, índios e negros, tudo erraticamente misturado, sem identidade definida, porque somos, como sustentava o gênio de Euclides da Cunha, uma construção voltada para futuro em busca da realização de ideais civilizatórios. O Brasil não pode ser uma cabeça de ponte na nuestra América para o fascismo em qualquer dos disfarces com que se apresente.”

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* Sociólogo, PUC- Rio. “Transições”, O Estado de S. Paulo, 2/9/2018

Marcus André Melo: O voto útil e os institutos de pesquisa

- Folha de S. Paulo

As elites partidárias falharam, com os eleitores será diferente?

Em "Os Partidos Políticos" (1951), Maurice Duverger apresentou a análise pioneira do voto estratégico ou sofisticado, que no léxico político brasileiro passou a ser conhecido como voto útil. Sua principal preocupação era examinar o efeito das regras eleitorais sobre os sistemas partidários.

A chave analítica foi a distinção entre o que chamou efeito mecânico das regras eleitorais e seu efeito psicológico.

Duverger introduzia na análise os incentivos que as regras eleitorais criam para os eleitores. Em sistemas majoritários de distrito uninominal ("voto distrital"), só partidos que agreguem as primeiras preferências dos eleitores adquirem representação. Este efeito mecânico se expressa na sub-representação de partidos minoritários. Contudo, ele é antecipado pelos eleitores que têm incentivos a votar estrategicamente de forma a obter um resultado mais próximo de suas preferências.

O efeito conjunto de ambos os mecanismos produz uma redução do número de partidos, levando ao bipartidarismo. Sob a representação proporcional (RP), o efeito é distinto: os eleitores têm incentivos ao chamado voto sincero na medida em que partidos não-majoritários adquirem representação e podem participar de coalizões governativas.

Fernando Gabeira: Estreitos horizontes

- O Globo

Não sei quanto custará tirar o nome dos devedores do SPC. Só sei que é mais uma sedução pelo consumo

Uma das coisas de que não gosto nessas minhas viagens semanais é me sentar na poltrona do meio. São trechos longos, como Macapá ou Boa Vista-Rio. Preciso trabalhar, mas o espaço fica muito contraído, e detesto incomodar o sonolento vizinho do corredor quando preciso ir ao banheiro.

Jamais pensei que faria um texto cujo tema é o assento 23B. Mas essa sensação de estar meio espremido, sem horizontes, lembrou-me de minhas inquietações espaciais na Rússia.

Fotografei muitos prédios em todos os estilos, mas queria ressaltara arquitetura stalinista, sobretudo um grupo de arquitetos surgidos na época do Plano Diretor, quando tudo deveria se submeter aos desígnios do Estado.

Os intelectuais eram chamados de engenheiros das almas, e esse grupo de arquitetos projetou inúmeros prédios onde tudo era coletivo. Todos os que conhecem a história recente da Rússia sabem que a vidas e tornou muito difícil nessa atmosfera desenhada e que as pessoas costumavam até comer na cama, desesperadas por uma nesga de privacidade.

Vejo agora que uma escola de Tocantins, da cidade de Formoso do Araguaia, ganhou um prêmio internacional de arquitetura, o melhor prédio escolar do ano. As fotos das estruturas de madeira são bonitas. A história, mais reveladora ainda. O projeto da escola, na Fazenda Canuanã, foi realizado pelo designer Marcelo Rosenbaum e o escritório de arquitetura Aleph Zero.

Os autores contaram coma ajudados alunos que moravam no prédio e indicaram as linhas por onde deveria ser melhorado. Eles diziam que moravam na escola. Agora, não dizem mais. Um traço da mudança foi abrir mais espaços para a privacidade individual.
Portanto, o êxito dos arquitetos brasileiros avançou exatamente no sentido oposto ao dos stalinistas. Certamente, foram ajudados pela opinião dos estudantes.

Cacá Diegues: O modelo das desigualdades

- O Globo

A gente dá aos cidadãos de 5ª classe um cantinho para dormir, lhes dá de beber e de comer, para que sigam servindo à nação

Quando falamos do Brasil, a palavra que mais usamos, hoje em dia, é crise. Podemos enfeitar o papo com eufemismos mais classudos, tipo recessão, mas a ideia segue sendo a mesma. Queremos sempre nos referir ao que nos aconteceu, depois de 18 anos de justa esperança durante os governos de Itamar, FHC e Lula, quando o país crescia a uma taxa média de cerca de 5% a 7% ao ano.

Quando Dilma Rousseff sofreu o impeachment, a inflação já chegara a quase 10%, a taxa de juros a 15%, e mais de 11 milhões de brasileiros estavam desempregados. Michel Temer assumiu o governo e, nos seus cerca de dois anos de mandato, esses números só fizeram se agravar, mesmo que à sombra de uma pequena recuperação da economia.

No resto do mundo, a coisa também anda feia, mas nem sempre pelos mesmos motivos. Na África, as guerras elevaram o número de crianças mortas por violência para cinco milhões em 20 anos, além da desnutrição e de doenças que estão sob controle em outras regiões do planeta. O que temos em comum com os países africanos é a absoluta desigualdade provocada pela falta de oportunidades para todos e pelas ideias que foram construídas sobre essa desigualdade.

As desigualdades cultivadas na sociedade brasileira, uma perversão que vem desde a chegada dos europeus por aqui, com sua economia baseada no trabalho escravo, podem acabar com a noção que nós pretendemos ter de nação. Nada impede que, seguindo em frente nessa trama nacional, um dia acordemos com a mais radical divisão social em nosso país, praticada através da expulsão dos indesejados ou de genocídios purificadores. Poderemos até pensar, quem sabe, na restauração da escravidão no país, como única solução para, digamos, a crise fiscal ou coisa parecida.

Vinicius Mota: Faça como FHC, dê seu palpite eleitoral

- Folha de S. Paulo

Por enquanto, prever o resultado da disputa presidencial é como apostar num cassino

Bolsonaro, Marina, Ciro, Alckmin e Haddad. Vai ficar com um desses cinco, parece, a faixa presidencial. Quais são as chances de cada um ainda é difícil avaliar.

Parta do básico, prega a boa técnica, e atualize os cálculos com as informações que surjam. Na largada, cada um tem 20% de chances de sagrar-se vencedor e 40% de estar entre os finalistas caso haja segundo turno.

Os dados das pesquisas eleitorais recomendam aumentar um pouco as probabilidades de Bolsonaro, Marina e Ciro chegarem à final, à custa das do tucano e do petista. A chance de vitória da candidata da Rede numa rodada decisiva também cresce.

É razoável supor que ainda subsista grande déficit de informações na massa do eleitorado acerca de quem são os postulantes. Essa lacuna será preenchida nas próximas cinco semanas, mas não de forma equânime.

Alckmin e Haddad, nessa ordem, serão bem mais expostos no rádio e na TV do que os outros três competidores. Nossa continha agora tem de rumar na direção contrária da que considerava só números de pesquisas.

Volta-se para perto da situação em que prever mal se distingue de lançar uma moeda esperando que dê cara.

Leandro Colon: TSE fez gol legítimo ao cassar Lula, mas levou olé na propaganda de TV

- Folha de S. Paulo

Ministros discutiram por trás das cortinas recuo que levou PT a driblar tribunal

O TSE fez um gol legítimo ao barrar o registro da candidatura de Lula, inelegível pela Lei da Ficha Limpa, e tomou nas horas seguintes um olé capaz de fazer qualquer bom zagueiro cair sentado no chão.

Passava de 1h de sábado (1º) quando os ministros decidiram sair de cena para discutir, longe do público, possível reviravolta de uma posição tomada pela maioria minutos antes.

Nada surpreende em Brasília nos dias de hoje, mas não deixa de ser inusitado que integrantes de tribunal superior interrompam julgamento transmitido a todo o país para trocar figurinha por trás das cortinas.

Não se sabe exatamente o que conversaram a portas fechadas. Apenas anunciaram, por meio da presidente, Rosa Weber, um recuo de uma decisão apoiada anteriormente por cinco dos sete ministros da corte eleitoral.

Era começo da madrugada e o TSE já havia votado por proibir a coligação do PT de participar da propaganda em rádio e TV até a substituição de Lula dentro do prazo de dez dias.

Fernando Limongi: Na primeira casa

- Valor Econômico

PT leva vantagem, mas é cedo para que saia cantando vitória

Lula, até o momento, deu de lavada nos adversários. Da prisão, comanda o show. O petista pode morrer na praia, mas é inegável que vem dando um baile em todos, incluindo este colunista. Entre o Datafolha da primeira semana de junho e o da semana passada, o ex-presidente pulou de 30 para 39 pontos na pesquisa estimulada, enquanto Jair Bolsonaro só galgou dois sofridos pontinhos, chegando a 19. Na espontânea, a arremetida Lula é ainda mais espetacular e significativa, atingindo 20, o dobro da última pesquisa. Seu perseguidor imediato passou de 12 a 15 pontos no mesmo período.

Os resultados de outros institutos trazem alguma variação, mas o retrato e as lições, como mostra o agregador de pesquisa do Jota, não variam significativamente. O PT avançou em passadas largas, Bolsonaro se moveu lentamente e os candidatos embaralhados no segundo pelotão (Marina Silva, Ciro Gomes e Geraldo Alckmin) mal saíram do lugar.

O sucesso do petista gerou perplexidade e censura. Para os mais críticos, ao manter a candidatura do ex-presidente, o PT estaria flertando com a ilegalidade. A crítica erra o ponto. O partido não desafiou a ordem legal e não deu qualquer indicação de que ultrapassará a linha, afinal já definiu quem será seu verdadeiro candidato.

Lula não é o primeiro e nem será o último 'ficha suja' a se inscrever alegando inocência e se dizendo vítima de perseguição política. Este foi o caso do recém cassado Paulo Maluf, cujos votos foram inicialmente computados como nulos, mas acabaram resgatados e legalizados por uma operação capitaneada por Dias Toffoli e Gilmar Mendes.

Cida Damasco: Sem ajuste 'vapt-vupt'

- O Estado de S.Paulo

É preciso falar com franqueza sobre as mudanças que virão, além do pente-fino nos gastos

Em certos momentos, as propostas de campanha dos candidatos à Presidência da República dão a impressão de que será simples recolocar a economia brasileira na trilha do equilíbrio fiscal e, por tabela, do crescimento. Nos debates e sabatinas, candidatos de qualquer espectro político têm se comprometido a arrumar dinheiro cuidando das contas públicas como donas de casa diligentes e providenciando cortes em tudo que é gasto dispensável. Mais ou menos como, na roda de conversa da família e de amigos, alguém sempre lembra que, se não se roubasse tanto, daria para o País resolver todos os problemas na saúde, na educação, no saneamento e assim por diante.

O debate ganha ainda mais destaque quando se constata que a economia brasileira anda a passos lentíssimos – quando anda – sugerindo, à primeira vista, que estaria na hora de estímulos e não de aperto, como está implícito no ajuste fiscal. A estagnação da economia aparece com nitidez no desempenho do PIB há pelo menos três trimestres: crescimento zero nos últimos três meses de 2017, variação de apenas 0,1% no primeiro trimestre de 2018 e de 0,2% no segundo. Além disso, a taxa de investimento ficou em 16% do PIB no período abril/junho, pelo menos quatro pontos porcentuais abaixo do que é considerado o mínimo necessário para um país como o Brasil. Cálculos do Ministério do Planejamento apontam, num cenário básico, a necessidade de se aplicar 17,8% do PIB para garantir um crescimento médio de 2,3% ao ano entre 2019 e 2031, sendo 1,8% só para infraestrutura.

Angela Bittencourt: Lula inelegível não reduz risco eleitoral

- Valor Econômico

"Só há espaço para choque fiscal", avisa Wahba, da Garín

Hoje é feriado nos Estados Unidos pelo Dia do Trabalho. Portanto, um "quase" feriado global para transações financeiras. Na sexta-feira, é feriado no Brasil pelo Dia da Independência. Três dias de negócios no mercado local em funcionamento alternado com Wall Street são suficientes - a qualquer tempo - para que gestores e chefes de tesouraria assumam posições defensivas e travem os negócios até a segunda-feira seguinte. Desta vez, porém, empurrar os negócios pode não ser tão simples. O mercado tem novos riscos a administrar, a partir da decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de rejeitar o registro da candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva às eleições de outubro e da limpeza de gavetas a ser feita pelo governo Michel Temer.

Na última semana, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) aumentou o preço do óleo diesel, congelado desde a greve dos caminhoneiros em maio e já há manifestações contra reajuste de 13% nas refinarias; a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) conseguiu realizar, na sexta, o leilão de energia correndo contra o tempo e ações judiciais; a equipe econômica detalhou e encaminhou ao Congresso o Projeto de Lei do Orçamento de 2019, que estabeleceu em R$ 1.006 o valor do salário mínimo a partir de janeiro, sendo que em abril uma nova regra de cálculo será discutida para o mínimo de 2020.

O ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, formalizou a transferência, para 2020, do reajuste salarial dos servidores civis do Executivo e manutenção do reajuste do Judiciário em 2019, em troca da extinção do auxílio-moradia.

Alberto Aggio: Do antipetismo à antipolítica e suas diversas facetas

Nas manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff, em 2015/16, havia de tudo. Dentre os diversos grupos que se manifestavam, havia um bastante ruidoso, com certo tom beligerante, agressivo, que advogava abertamente a intervenção militar, junto com alguns outros. Era o “Revoltados on-line”. De lá para cá, o que os animava se desdobrou para além do impeachment: eles passaram a se apresentar como a redenção da sociedade “contra a política que está aí”, entendida como integralmente manchada pela corrupção. Esse rechaço à política propugnava por uma ação “antipolítica”, identificando “todos os políticos” como corruptos. Para eles, esse era afetivamente o “mal do Brasil”. Aquilo que era latente na sociedade acabou sendo então promovido à uma estratégia política que se afirmava, sinteticamente, como uma visão da sociedade contra o Estado (políticos). No fundo, uma revolta da sociedade contra a política.

Esses grupos atuaram nas redes sociais como a oposição a tudo, semeando o ódio a tudo e a todos. Sua ação permanente extrapolou a oposição ao PT. Eles nasceram do antipetismo mas foram além disso. O resultado está aí na candidatura Bolsonaro. É ele quem mais expressa essa beligerância, identificando o ódio à política e à esquerda em geral, como se o petismo fosse a única esquerda existente. Política, esquerda, petismo, comunismo e até a socialdemocracia foram e são identificados como os males do Brasil que precisam ser extirpados.

Vindos daquele mesmo processo do impeachment, outros movimentos de 2015/16 também passaram a ocupar um lugar na política. Não é o caso aqui de discutir todos eles. Quero mencionar apenas o “Vem pra Rua”, um movimento antipetista mas que, de outras maneiras se postou também como antipolítico por meio da ideia de que sem mudar já e radicalmente o sistema político, não iria haver alternativa para o país. E mudar já e radicalmente significava deslocar a “velha classe política” e colocar em seu lugar “o novo”. Ao lançarem-se à disputa eleitoral, será o Partido Novo quem melhor irá expressar essa disposição. O resultado é, até o momento, menos exitoso em termos eleitorais, se compararmos com o “Revoltados On-line”. É uma adesão à antipolítica por outros termos e meios, mas curiosamente há coincidências entre ambos.

"Populismo se nutre da falsa ideia de que mundo vai mal, mas ele vai bem", diz Steven Pinker

Psicólogo defende que humanidade está em seu melhor momento, mas pessimismo nos confunde

Patrícia Campos Mello | Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Enquanto o noticiário nos apavora com milhões de refugiados, guerras sangrentas e crianças famélicas, o psicólogo e linguista canadense-americano Steven Pinker persiste na cruzada para nos convencer de que o mundo nunca esteve tão bem.

Divulgar o progresso da humanidade, segundo ele, não é só um meio de corrigir uma visão distorcida que as pessoas têm do mundo. É uma urgência neste momento de ascensão do populismo autoritário.

Em seu livro mais recente, "O Novo Iluminismo - Em defesa da razão, da ciência e do humanismo", que será lançado quinta (6) no Brasil pela Companhia das Letras, Pinker, 63, retoma o projeto de mostrar com dados e fatos que as coisas estão melhorando.

Para o psicólogo cognitivo, é preciso redobrar o foco na razão, na ciência, no humanismo e no progresso para que as coisas continuem a melhorar e para evitar que as pessoas sejam seduzidas pelo discurso catastrofista nostálgico do populismo em expansão.

• Quando vemos o noticiário, parece que o mundo está cada vez pior. Mas o sr. argumenta, com dados, que nunca estivemos tão bem. Por que há esse descolamento entre a nossa percepção e a realidade?

Isso decorre da natureza do noticiário e da mente humana. A mente humana avalia risco e perigo por meio de exemplos vívidos, imagens, narrativas.

Não somos intuitivamente estatísticos. Se lemos uma reportagem marcante sobre alguém sendo mordido por um tubarão, um terrorista jogando seu carro no meio das pessoas na calçada, ou um ataque numa guerra, isso nos faz pensar que esse tipo de incidente é extremamente comum.
Nós conseguimos nos lembrar facilmente do que está mais disponível na nossa memória, algo que os psicólogos chamam isso de heurística da disponibilidade. Quanto mais alguma coisa está à mão na nossa memória, mais pensamos que é algo com grande probabilidade de acontecer.

Já o noticiário tem como objetivo apresentar ao público eventos e incidentes. Se qualquer coisa ruim acontece em qualquer lugar do mundo, é garantido que estará no noticiário. Já os acontecimentos positivos muitas vezes não rendem imagens vívidas, e na maioria das vezes não são coisas que acontecem de repente, portanto eles sistematicamente não estão no noticiário.

Não se noticia o fato de que, nos últimos 40 anos, não houve nenhuma guerra no sudeste da Ásia, uma região onde frequentemente havia conflitos, como o da Coreia, Camboja, Vietnã. Uma região onde não há guerra não é uma manchete, esses são acontecimentos que só podem ser vistos por meio de dados.

Só quando você compila dados, como eu fiz, é que consegue compreender as enormes mudanças benéficas que ocorreram no mundo. Por exemplo, mortes em guerras: o número de mortes aumentou um pouco nos últimos cinco anos, por causa da guerra da Síria, mas, mesmo assim, está muito abaixo dos níveis dos anos 50, 60 e 70, e mais ainda dos níveis da Segunda Guerra Mundial (1939-45).

Da mesma maneira, os jornais raramente falam que a porcentagem da população vivendo em pobreza extrema caiu de 30% há 30 anos para 10%; e alfabetização aumentou para 90% das pessoas com menos de 25 anos. Na maioria dos países, a criminalidade caiu. Até no Brasil, um dos mais violentos, houve queda no número de mortes decorrentes de crimes em algumas cidades, como o Rio.

Melhoras que podem ser detectadas nos números, nos dados, quase nunca aparecem no noticiário, por isso as pessoas não sabem que houve progresso.

• As pessoas reagem com ceticismo quando o senhor tenta convencê-las de que o mundo está melhorando?

Sempre. Quando elas veem dados, elas ficam surpresas e mais receptivas --por isso eu conto a história do meu livro por meio de 75 gráficos, e, no livro anterior ("Os Anjos Bons da Nossa Natureza", Companhia das Letras, 2017), eu usei 100 gráficos, porque sabia que, se as pessoas não vissem os números, não acreditariam.

Falta de respostas de PSDB e PT abre caminho a Bolsonaro: Editorial | Valor Econômico

Entre mil e outras razões, o sucesso do discurso autoritário do deputado Jair Bolsonaro, candidato do PSL à Presidência da República também é sinal da perda da capacidade do PT e do PSDB de mediar soluções para a crise.

Desde 1994, com a eleição de Fernando Henrique Cardoso, os dois partidos organizam e dão as cartas da política nacional. Parecia que ia dar certo. Fernando Henrique arrumou a casa, e Luiz Inácio Lula da Silva ajudou a reduzir as desigualdades sociais.

Depois de dois mandatos o sociólogo FHC passou a faixa presidencial para Lula, um operário eleito pela oposição, num episódio de civilidade institucional singular na politica brasileira. Venceu a democracia.

Mas logo os dois partidos se perderam nos desvãos da política. Na oposição, o PSDB se acomodou e virou um partido de cúpula, bem distante da sigla criativa e combativa que ajudou a enterrar o entulho autoritário deixado pelo regime dos generais.

O PT, por seu turno, aos poucos foi se tornando um partido obcecado com a manutenção do poder a qualquer custo.

Quando a Operação Lava-Jato moveu as engrenagens que nivelaram por baixo toda a política brasileira, já era nítida a divisão e a incapacidade dos dois partidos para dialogar, analisar e entender o que se passava abaixo da linha de superfície. Parafraseando a canção, o tempo passou na janela e PT e PSDB, assim como os demais partidos, não viram.

Então no governo e vindo de um período de prosperidade no país, por causa de elevados índices de crescimento econômico, o PT não entendeu os protestos de junho de 2013, o primeiro sinal do desapontamento da sociedade com o funcionamento das instituições, aí incluídos o Executivo, o Congresso e os partidos, para citar alguns.

Em meio a esse ambiente atordoante, assiste-se, ainda, ao aparecimento de um novo e poderoso ator, o Ministério Público Federal.

Os sinais da crise de representação estavam claros, vindos das ruas.

Verborragia perigosa: Editorial | Folha de S. Paulo

Campanhas de Bolsonaro e do PT lançam dúvidas sobre a legitimidade das regras do jogo
Uma candidatura presidencial propaga que as urnas eletrônicas terão sido fraudadas caso não seja a vencedora do pleito. Outra, que decisões reiteradas da Justiça convertem a disputa em fraude.

Jair Bolsonaro (PSL), seus porta-vozes e militantes lançam dúvidas sobre a probidade do registro de votos, o que compõe uma arenga autoritária que inclui o elogio de ditaduras e da violência física.

Petistas dizem que a condenação em duas instâncias de seu líder, Luiz Inácio Lula da Silva, constitui violação institucional —ou parte de um golpe, termo que aplicam a qualquer procedimento que os contrarie, não importando a regularidade do processo.

Na diatribe mais recente, a mais que esperada decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de considerar Lula inelegível foi descrita, na propaganda de TV, como um ataque à “vontade do povo”.

Ainda que possam parecer mera verborragia demagógica, tais arroubos envenenam o ambiente democrático. As contestações à legalidade da disputa eleitoral não são propriamente críticas, com argumentos baseados em lógica e evidências, nem queixas encaminhadas aos canais adequados.

Trata-se de ataques infundados às regras do jogo —que, mais adiante, poderão ser usadas para negar também a legitimidade do eleito, de seu governo, de leis e políticas que vierem a ser implantadas.

A estratégia se vale da disseminação de crenças conspiratórias, que apelam em particular às parcelas mais sectárias do eleitorado.

Os setores mais extremados acabam por não ver os adversários como pessoas de opiniões e interesses diferentes em seu direito de disputar o poder; oponentes se tornam inimigos a serem eliminados da vida pública e hostilizados nas ruas.

Um país exausto: Editoria | O Estado de S. Paulo

O vaivém nos últimos dias a respeito do reajuste salarial do funcionalismo, defendido com obstinação pelas corporações malgrado o estado crítico das contas públicas, serviu para lembrar a existência de dois países chamados Brasil: o Brasil real, no qual a maioria dos trabalhadores, se der sorte de arranjar emprego, recebe salários determinados pelas duras condições de mercado, pode ser demitida a qualquer momento e tem escassa capacidade de mobilização política; e o Brasil dos servidores públicos, onde grande parte de seus felizes habitantes conta com estabilidade no emprego, ganha muito acima da média do mercado, aposenta-se em condições privilegiadas e dispõe de imenso poder de convencimento em Brasília.

O fato é que o Brasil dos servidores públicos está exaurindo o Brasil dos trabalhadores comuns, de cujo rendimento saem os impostos que sustentarão os proventos dos cidadãos daquele outro país. E isso fica claro não apenas quando se comparam as discrepantes condições de trabalho e de aposentadoria de uns e de outros, das quais se destacam os muitos penduricalhos e benefícios de que usufruem várias categorias de servidores públicos, a maioria dos quais jamais seria obtida no setor privado. A exaustão do Brasil real se dá especialmente porque uma parte considerável de suas agruras fiscais se deve à sempre crescente demanda de recursos por parte do país dos servidores públicos - invariavelmente, é claro, movido pelas melhores intenções.

Congresso ainda está devendo a reforma do SUS: Editorial | O Globo

Legislativo precisa iniciar a revisão do sistema público de saúde, que atende 175 milhões de brasileiros

Entrou em vigor semana passada uma nova lei (13.714) que garante assistência integral na rede pública de saúde, inclusive com fornecimento de medicamentos, a quem mora na rua ou em locais precários e não tem como comprovar residência.

A iniciativa da Câmara, ampliada pelo Senado, tem mérito caritativo —e somente isso. Na prática, reflete a equidistância assumida pelo Legislativo em relação ao problema central: a necessária e urgente reestruturação do Sistema Único de Saúde( SUS ). Ele continua a ser a única alternativa para 175 milhões de brasileiros.

O Congresso tem o dever de reformar o SUS, na perspectiva do aumento da eficiência e da economia de recursos, para fazer justiça social. Está claro que uma rede pública de saúde eficiente poderia ofertar mais e melhores serviços, até com o mesmo nível de recursos.

Não faltaram investimentos na última década. Até 2014, as despesas públicas com saúde cresceram à taxa média de 7% acima da inflação. Deve-se aos estados e municípios, segundo o Banco Mundial, a maior contribuição para esse aumento nos gastos públicos.

As despesas federais com saúde subiram pouco, da proporção de 1,6% para 1,7% do Produto Interno Bruto entre 2004 e 2014. Nessa participação federal, há um aspecto relevante: os gastos tributários aumentaram continuamente. Já representam 31% do dispêndio da União no setor, e estão concentrados em créditos fiscais na renda pessoal e em isenções para hospitais filantrópicos.

'Não há ataque, mostramos o que ele fala', diz Alckmin sobre Bolsonaro

Campanha tucana tem utilizado declarações pregressas do deputado federal em seus spots no rádio e na TV

Marcelo Osakabe | O Estado de S.Paulo

O candidato do PSDB à Presidência nas eleições 2018, Geraldo Alckmin, negou que em sua campanha na TV e no rádio esteja atacando o deputado Jair Bolsonaro (PSL), adversário na disputa por uma vaga no segundo turno. "Não há nenhum ataque. O que mostramos é o ele que fala. Se o que ele fala é ataque, o problema é dele", disse o tucano neste domingo, 2, em São Bernardo do Campo.

O ex-governador de São Paulo ainda foi questionado sobre a resposta que a campanha do PSL postou nas redes, ligando-o ao escândalo da merenda durante sua gestão à frente de São Paulo. "Ele é mal informado ainda, porque a questão da merenda foi o Estado que apurou junto com o Ministério Público. Não havia envolvimento de ninguém do governo, o que havia eram estelionatários nas cooperativas prejudicando os cooperados."

Desde sexta-feira, a campanha do PSDB tem utilizado declarações pregressas do deputado nos spots de rádio e TV. Uma delas, por exemplo, mostra o presidenciável gritando com a deputada federal Maria do Rosário (PT) no salão verde da Câmara e a chamando de "vagabunda". "Você gostaria de ser tratada desse jeito?", pergunta a narradora da inserção.

Outro vídeo não traz declarações do candidato, mas também é endereçado ao capitão reformado do Exército. Inspirado em uma campanha de desarmamento do Reino Unido, o vídeo mostra um projétil acertando diversos objetos que representariam fome, analfabetismo, crise hídrica, entre outros. "Não é na bala que se resolve", termina o vídeo, antes que a bala acerte a cabeça de uma garota.

Alckmin critica PT por esconder candidato e diz que sua propaganda só reproduz fala de Bolsonaro

Tucano diz que PT tenta vitimizar Lula e chamou a propaganda da sigla de 'enganação vergonhosa'

Artur Rodrigues – Folha de S. Paulo

SÃO BERNARDO DO CAMPO - Em evento político em São Bernardo do Campo, berço político petista, o presidenciável tucano Geraldo Alckmin criticou neste domingo (2) o PT por esconder seu real candidato. Apesar de o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) ter vetado a candidatura de Lula, a legenda insiste que ele é candidato e continua tratando Fernado Haddad como vice.
"O que estamos vendo na televisão pelo PT é enganação vergonhosa. Tão escondendo o candidato que efetivamente vai ser candidato", disse Alckmin. "Por que não fala a verdade? Buscando vitimizar aquele que foi condenado e escondendo aquele que efetivamente vai disputar a eleição."

Alckmin também negou que sua propaganda que mostra Jair Bolsonaro (PSL) xingando mulheres seja um ataque.

"Não há nenhum ataque. É ele que fala. Se o que ele fala é ataque problema dele", disse, em São Bernardo, sobre a propaganda que mostra o militar dizendo que uma repórter é ignorante e xingando a deputada petista Maria do Rosário de vagabunda. O vídeo ainda pergunta à mulheres se elas gostariam de ser tratadas desta maneira.

Bolsonaro rebateu a peça de propaganda fazendo menção à máfia da merenda, ao questionar se o eleitor deixaria sua filha sem merenda.

"É mal informado ainda. Porque a questão da merenda o estado que apurou junto com o Ministério Público. Não teve nenhum envolvimento de ninguém do governo. Não teve nenhum prejuízo", disse. "O que havia era estelionatário comandado cooperativa e prejudicando fortemente os cooperados. E foram punidos", disse.

Apesar dos comentários, Alckmin só citou Bolsonaro, com quem disputa os eleitores, depois de ser questionado e, ainda assim, foi sucinto. O tucano tem adotado tática de deixar os ataques mais duros ao militar para a propaganda, para não se indispor com os eleitores de Bolsonaro e tentar se posicionar melhor no campo antipetista.

O evento, realizado no Clube dos Meninos, contou com os principais candidatos do tucanato Paulista ao Legislativo e os do Executivo, incluindo o candidato ao governo João Doria, que também mirou o PT.

Tchaikovsky: Symphony No. 5 / Barenboim · Berliner Philharmoniker

William Shakespeare: Versos

Que eu não veja empecilhos na sincera
União de duas almas. Não amor
É o que encontrando alterações se altera
Ou diminui se o atinge o desamor.
Oh, não! Amor é ponto assaz constante
Que ileso os bravos temporais defronta.
É a estrela guia do baixel errante,
De brilho certo, mas valor sem conta.
O Amor não é jogral do tempo, embora
Em seu declínio os lábios nos entorte.
O Amor não muda com o dia e a hora,
Mas persevera ao limiar da morte.

E, se se prova que num erro estou,
Nunca fiz versos, nem jamais se amou."

Tradução de Ivo Barroso