terça-feira, 1 de junho de 2021

Ana Carla Abrão* - Não temos tempo a perder

- O Estado de S. Paulo

Parte do mundo pode experimentar algo próximo do normal, mas Brasil não está incluso

A vacinação é a forma mais rápida, mais eficaz e menos custosa de diminuir a contaminação, reduzir o número de mortes e promover a retomada da economia. A isso, finalmente, até os negacionistas (de hoje ou de outrora) se renderam. Muito nos custa ainda essa longa via de convergência, mas aqui estamos.

Países onde a vacinação foi prioridade nacional, como Israel, Reino Unido ou os Estados Unidos de Joe Biden e Kamala Harris, já experimentam a volta à normalidade. Com a maior parte da população-alvo vacinada, não é de se surpreender que os índices econômicos reajam rapidamente e as perspectivas revertam o movimento de queda obstinada observado nesses longos meses de pandemia. Junte-se a isso a perspectiva de retomada integral das atividades escolares no próximo semestre e a contenção na escalada dos problemas de saúde mental observados nos últimos meses. Tem-se a sensação de que parte do mundo pode, finalmente, experimentar algo próximo do normal.

Mas esse mundo não contém o Brasil, ao menos não por ora. Apesar de termos um dos sistemas mais eficientes de vacinação do mundo, a escassez de vacinas – só explicada pela desídia do governo federal em investir nesse caminho – responde pela lentidão e relativa timidez da nossa recuperação. Há mais o que fazer mesmo na escassez, como bem mostrou Daniel Leischsenring em recente artigo no Brazil Journal. Segundo cálculos do autor, tivemos uma redução de 32% no ritmo de vacinação em maio, se comparado ao pico de abril, apesar de uma disponibilidade de vacinas que nos permitiria dobrar o ritmo atual.

Paulo Hartung* - Educação profissional e tecnológica, demanda e oportunidades

- O Estado de S. Paulo

Este é um momento decisivo. Nunca foi tão importante investir na formação da juventude

 “Adolescente, olha! A vida é bela! A vida é bela... e anda nua... Vestida apenas com o teu desejo.” O alerta poético de Mario Quintana aos jovens sobre a importância do desejo na construção da vida merece um olhar atualizado dos que tornam viável um dos mais decisivos meios para a efetivação dos sonhos da juventude, a educação.

Nesse sentido, é preciso que o País abra espaço e avance de forma efetiva na seara da educação profissional e tecnológica, uma estratégica oportunidade a mais que se deve somar às possibilidades de construção do futuro de nossas atuais e próximas gerações de brasileiras e brasileiros. A revolução que testemunhamos no paradigma produtivo oferta novidades e oportunidades à formação profissional e, em consequência, ao mundo do emprego e da renda. Mas essas possibilidades, que ecoam tanto no campo da demanda por mão de obra atualizada quanto no universo desejante dos mais novos, ainda não encontram suficiente acolhida no nosso sistema educacional.

Os dados sobre educação e juventude no Brasil são alarmantes: apenas 20% da população de 18 a 24 anos cursam o ensino superior. O restante, sem qualificação, ocupa postos precários ou engrossa as estatísticas de desemprego, que chega a 30% nessa faixa etária, o dobro da média geral. A pandemia agravou o quadro, levando 4 milhões a abandonar os estudos no ano passado. De acordo com o Datafolha, dos que estavam no ensino médio, 26% não têm intenção de voltar. A evasão mais que dobrou no período, passando de 4,8% a 10,8%.

Andrea Jubé - O Brasil respira, mas falta ar para todos

- Valor Econômico

Queiroga admite crise de oxigênio em Pernambuco

Está tudo fora da ordem mundial no combate à pandemia. No momento em que os brasileiros voltam a se assustar com a falta de oxigênio, o governo oferece o país como palco para um campeonato de futebol, a esquerda ocupa as ruas após criticar apoiadores do governo pelo mesmo comportamento, e o presidente da República aciona no Supremo Tribunal Federal três governadores que tentam conter o avanço do vírus, quando é remota a oferta de vacinas para todos.

São três movimentos inoportunos em uma realidade em que o país não respira sem a ajuda de aparelhos, e os cientistas alertam para uma terceira onda da pandemia que se avizinha. Não faz dois meses desde o dia 4 de abril, quando o Brasil bateu o recorde de óbitos pela doença: 4.211 vítimas fatais em 24 horas.

Há cinco dias, 17 pacientes tiveram que ser transferidos às pressas do hospital público municipal de Lajedo, município de 40 mil habitantes na região agreste de Pernambuco, para não morrerem asfixiados. O episódio foi grave, e acendeu o sinal amarelo no Estado, que já está em “lockdown” parcial.

Luiz Gonzaga Belluzzo* - Primeiro, o Um; depois, o Dois

- Valor Econômico

A crise econômica, social e política só vai recuar se as intolerâncias forem dissolvidas no compromisso

Nelson Jobim foi escolhido por Ulysses para acompanhar a elaboração da Constituição nos idos de 1988. Lembro-me bem de sua faina em aperfeiçoar a redação de artigos, parágrafos e incisos que seriam debatidos nas plenária da Assembleia Constituinte.

Jobim voltou a exercer a força democrática que habita seu espírito ao convidar Lula e Fernando Henrique para um jantar. Não sei como foi a degustação das iguarias, mas o noticiário sobre a ágape exalou uma brisa reconfortante nesse momento de maus odores na Terra Brasilis.

Na posteridade do evento não faltaram os narizes torcidos dos partidários do Um e do Outro. Torcer o nariz não é tão grave quanto tapar o nariz diante do Outro Semelhante. Uns e Outros certamente tiveram de conviver com repulsas explicitadas em gestos de tapar o nariz quando o Outro se atreve a frequentar os ambientes supostamente reservados para os “homens bons”. Pois foi o que aconteceu no elevador de um famoso e eficiente hospital de São Paulo. Carregada em uma cadeira de rodas, a senhora de cabedais tapou o nariz quando um enfermeiro negro ousou entrar no transportador.

Falar em Ulysses Guimarães desperta imediatamente a lembrança de seu apego à multidão de Outros. Em um domingo paulistano, logo após a derrota das eleições diretas, Ulysses reuniu mais uma vez em sua casa os que estiveram com ele no combate persistente contra a ditadura. Vou invocar aqui o testemunho dos meus amigos João Manuel Cardoso de Mello, Luciano Coutinho e José Gregori. Também me recordo da presença de Fernando Henrique Cardoso.

Ulysses levantou-se e respondeu aos que tentavam convencê-lo das conveniências da disputa no Colégio Eleitoral. Dentre tantas, guardei as frases que provocaram lágrimas em sua mulher, Dona Mora, sentada em um sofá mais distante da pequena aglomeração de companheiros de seu marido. “Para o Colégio Eleitoral eu não vou. Seria uma facada nas costas do povo que se mobilizou nas praças e nas ruas para participar dos comícios pelas Diretas Já. Digo a vocês, a conquista da democracia não será completa sem a manifestação da vontade popular”.

Hélio Schwartsman - Bolsonaro sangraria até 2022?

- Folha de S. Paulo

Parece-me precipitado contar com um Bolsonaro exangue em 2022

Os protestos de sábado não disseram nada que já não soubéssemos pelas pesquisas: hoje a maioria dos brasileiros desaprova o governo de Jair Bolsonaro. Mas, como certas pessoas são incapazes de entender um texto se ele não estiver acompanhado de um desenho, as manifestações tiveram papel didático.

Dado, porém, que a epidemia não foi embora e há sinais de que irá agravar-se nas próximas semanas, sugiro aos organizadores que, para as próximas edições, adotem a greve geral como forma de protesto. Ela tem longa tradição nas esquerdas e contribuiria para restringir a circulação do vírus em vez de ampliá-la.

A grande questão diante das oposições é se vale a pena insistir no impeachment de Bolsonaro ou se é melhor enfrentá-lo nas urnas. Lula pode até dizer que defende o afastamento, mas sua chance de voltar ao Planalto é numa disputa contra Bolsonaro. Sem o fantasma do capitão reformado, a alta rejeição do líder petista volta a dar as cartas.

Cristina Serra - Imprensa, protestos e pandemia

- Folha de S. Paulo

Manifestações mostram que parcela significativa da sociedade se moveu

As capas dos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo, no último domingo, vão figurar na história da imprensa como exemplos do que não deve ser feito no jornalismo. Milhares de pessoas saíram às ruas, em 200 cidades, em repúdio a Bolsonaro e à sua política de extermínio, que arrastou para o cemitério quase meio milhão de brasileiros.

As manifestações mostram que parcela significativa da sociedade, finalmente, se moveu. Apesar do medo, arriscou-se a sair de casa, tentou se proteger da melhor maneira possível e foi às ruas: para protestar, para compartilhar seu luto, suas dores e suas perdas, mas também sua força e sua esperança de vislumbrar um horizonte azul no meio dessa tormenta sem fim.

Alvaro Costa e Silva -Vacina e impeachment

- Folha de S. Paulo

Oposição nas ruas em meio à pandemia recupera território da extrema direita

Com a popularidade em queda e tendo pesadelos e alucinações com Lula, Bolsonaro queimou a largada para 2022. Na semana passada, deixou Brasília entregue ao gabinete paralelo que cuida do enfrentamento da Covid e agora da realização da Copa América para cumprir agenda oficial em São Gabriel da Cachoeira (AM). Inaugurou uma ponte de madeira de 18 metros de comprimento e 6 metros de largura, pinguela sobre um igarapé, numa estrada de terra pouco usada.

Em outro ato de campanha, promoveu aquele desfile de motos a favor do vírus na orla do Rio —algo tão macabro que teve efeito reverso. Bolsonaro conseguiu o que parecia improvável em meio à pandemia. Fazer com que a oposição, em resposta, saísse às ruas, território que até então era exclusivo da extrema direita com suas pautas antidemocráticas.

Joel Pinheiro da Fonseca - A volta do impeachment?

- Folha de S. Paulo

Ou mais cidadãos levantam essa bandeira ou não adianta reclamar depois

Defendo o impeachment de Bolsonaro desde março de 2020, quando ele disse ter provas de que as eleições de 2018 foram fraudadas.

Esse tipo de ataque frontal a outro Poder não pode ser tolerado. Concedo, contudo, que suas ações de lá para cá na pandemia foram muito mais graves.

Pela sabotagem ao isolamento social e ao uso de máscara, pela negligência na compra de vacinas (imaginem como estaríamos na vacinação não fossem os esforços do Governo de São Paulo), pela promoção de um remédio ineficaz como se fosse panaceia. Já estamos no top 10 mundial em mortes por milhão de habitantes nessa pandemia e continuamos subindo.

Os protestos de sábado, prudentes ou não do ponto de vista da saúde pública, reacenderam a esperança do impeachment. Foram grandes —ao menos o de São Paulo— e fizeram o Planalto estremecer.

Bolsonaro chegou ao poder atacando o establishment, mas agora é (ou melhor, revelou-se) parte dele.

Mirtes Cordeiro* - O Dia do Basta!

- Blog Falou e Disse

Estaremos vigilantes, porque a vontade de viver é bem maior que o medo!

Foi bonito, demais…

Se por um lado não devia, por outro era necessário, afinal de contas nosso povo só é escutado quando sai  às ruas, a história tem demonstrado.

As ruas de mais de 200 cidades em 24 Estados brasileiros ficaram cheias de esperança; pessoas nas ruas em defesa da vida.

As pessoas saíram às ruas em defesa de se ter vacinas contra um vírus que vem matando indiscriminadamente mães, pais de famílias, jovens, crianças, não apenas por sua letalidade, mas porque o presidente da República não comprou as vacinas no tempo certo, nem permitiu que institutos como o Butantan as fabricasse, propagando as suas decisões em suas lives pessoais.

Foi o Dia do Basta!

Dia em que o povo saiu às ruas porque passou a ter mais medo do mandante de plantão do que do vírus, como anunciavam alguns cartazes exibidos nas caminhadas.

Dia em que o povo começou a se despir da apatia que tomou conta deste país, desde a eleição de 2018, e se confrontou com um governo que lhe vem arrancando um a um todos os seus direitos, até chegar ao ponto de negar o direito à vida.

O que a mídia pensa: Opiniões / Editoriais

EDITORIAIS

As manifestações contra Bolsonaro

O Estado de S. Paulo

Foram muito significativas as manifestações do sábado passado contra o presidente Jair Bolsonaro, não somente em razão da dimensão – houve passeatas em quase todas as capitais e no Distrito Federal, além de cidades menores – e da numerosa participação, mas principalmente pela realização, em si mesma, do protesto.

Afinal, não é trivial ir às ruas para expressar descontentamento com o governo em meio a uma pandemia, que dá todos os sinais de um novo recrudescimento. Até agora, as ruas eram uma espécie de monopólio da militância radical bolsonarista, desde sempre à vontade para desafiar as orientações sanitárias para demonstrar seu apreço por Bolsonaro e sua hostilidade às instituições democráticas.

Já a oposição ao presidente, com a fundada preocupação de que aglomerações poderiam contribuir para a disseminação ainda maior do vírus, demorou a mobilizar os muitos descontentes com Bolsonaro; afinal, não era uma decisão fácil ir às ruas depois de passar meses criticando os bolsonaristas e o presidente por incentivarem ajuntamentos irresponsáveis. Como resultado dessa hesitação, os bolsonaristas investiram na narrativa segundo a qual as manifestações promovidas por eles – sem nenhuma resposta da oposição, salvo inócuos panelaços – provavam que o “povo” estava com o presidente.

Mas isso agora mudou. A detalhada exposição pública, na CPI da Pandemia, da irresponsabilidade do governo Bolsonaro na condução da crise certamente encheu muitos brasileiros de vergonha. Ao mesmo tempo, o presidente mais uma vez causou indignação ao participar ativamente de um comício no Rio de Janeiro em que a pandemia foi ignorada, coadjuvado pelo sorridente ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, símbolo da desídia na administração da pandemia.

Essa caracterização explícita do desprezo bolsonarista pelos brasileiros em geral parece ter sido a gota d’água que levou parte dos grupos de oposição a Bolsonaro a deixar de lado a prudência e convocar manifestações de rua.

Poesia | Bertolt Brecht - Se os tubarões fossem homens

 

Música | Chico César - Miaêro / Espumas ao vento

 

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Marcus André Melo* - Emendas orçamentárias

- Folha de S. Paulo

O jogo político não ocorre entre o Executivo e o Legislativo, nem após aprovação da lei orçamentária

 “A cada momento, para se votar projetos tem que entrar em negociações: eu emendo isso, você emenda aquilo, eu apoio essa emenda, você apoia a outra, sem o que a vida parlamentar se torna impossível.”

A afirmação é de Carlos Lacerda, o parlamentar mais “intransigente” de nossa história.

E citava casos em que colaborou com adversários e vice-versa: “A Câmara funciona como uma espécie de clube, o que acho profundamente civilizado pois não há nenhuma incompatibilidade entre a divergência na tribuna e as relações pessoais”.

Sim, emendas parlamentares fazem parte do rame-rame da política, mas o jogo em torno das emendas orçamentárias não. Nas democracias estabelecidas há intenso toma-lá-dá-cá (“logrolling ou horsetrading”, no léxico político anglo-saxônico). Mas o jogo não ocorre entre o Executivo e o Legislativo, nem após aprovação da lei orçamentária. Explico.

Nas democracias parlamentaristas nos países que adotam o chamado modelo de Westminster (das ex-colônias britânicas), a não aprovação do Orçamento como enviado pelo Executivo equivale a um voto de desconfiança no governo, levando a sua queda. O gabinete não é nada mais senão uma supercomissão com funções executivas e sua existência significa, na prática, a existência de uma maioria parlamentar.

Sergio Lamucci - Os riscos ao cenário de crescimento mais forte

- Valor Econômico

Inflação, pandemia e crise hídrica são ameaças à atividade

As perspectivas para o crescimento da economia brasileira em 2021 melhoraram nas últimas semanas, levando a uma onda de revisões para cima nas estimativas de bancos e consultorias. A atividade sofreu menos do que se esperava com as medidas de restrição à mobilidade adotadas especialmente em março e abril, devido ao recrudescimento da pandemia. O bom momento das exportações, impulsionado pela alta dos preços de commodities, também ajuda. Depois de um período em que muitos analistas viam um avanço do PIB na casa de 3% neste ano, hoje grande parte das previsões está acima de 4%, havendo quem aposte num crescimento de 5%, como o Itaú Unibanco.

O cenário de fato é melhor do que se projetava há algumas semanas, mas ainda há vários riscos para a atividade. A inflação continua elevada, corroendo o poder de compra dos salários, e o mercado de trabalho segue fraco. Além disso, há a ameaça de problemas na oferta de energia elétrica, por causa da crise hídrica. Primeiro, ela pressiona ainda mais a inflação - a bandeira vermelha 2 será acionada em junho, encarecendo as contas de luz, o que pode levar o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) a superar 8% no acumulado em 12 meses até meados do ano. Também há obviamente o risco de afetar a expansão da economia. Outro ponto é que uma possível terceira onda da covid-19 pode desacelerar o ritmo de atividade, se exigir medidas mais rigorosas de distanciamento social. Para completar, ainda há incertezas sobre a situação das contas públicas, embora a percepção sobre o quadro fiscal tenha melhorado um pouco.

Celso Rocha de Barros – Quem matou 90 mil sem vacina?

- Folha de S. Paulo

Senadores governistas tentam desviar foco da CPI com cloroquina

Dois fatos apurados pela CPI da pandemia, ambos documentados, mostram, sozinhos, que o número de brasileiros que comprovadamente morreram por culpa de Jair Bolsonaro durante a pandemia já se aproxima de 100 mil. Como calculamos duas colunas atrás, 100 mil mortos é mais do que a soma das vítimas de todos os assassinos brasileiros em 2019 e 2020.

A primeira decisão foi a de não aceitar a oferta de vacinas da Pfizer. Na estimativa do epidemiologista Pedro Hallal, utilizando parâmetros conservadores (isto é, desfavoráveis à hipótese de que a decisão de Bolsonaro custou vidas), 14 mil brasileiros (5.000 no mínimo, 25 mil no máximo) teriam sido salvos se a oferta da Pfizer tivesse sido aceita. Uma única decisão: 14 mil pessoas morreram por ela.

A segunda decisão foi a de não aceitar a proposta do Instituto Butantan para entregar 45 milhões de vacinas da Coronavac ainda em 2020. A mesma conta feita pelo professor Hallal estimou em 81,5 mil (80,3 mil no mínimo, 82,7 mil no máximo) o número de brasileiros que não teriam morrido se a oferta do Butantã tivesse sido aceita. Outra estimativa, feita pelo jornal O Estado de S. Paulo, mostrou que as vacinas do Butantan teriam sido suficientes para vacinar todos os idosos brasileiros até fevereiro. Entre o meio de março e semana passada, morreram 89.772 idosos brasileiros.

Ricardo Noblat - Manifestações superaram as expectativas dos bolsonaristas

- Blog do Noblat / Metrópoles

Sem partido há mais de um ano, o presidente da República procura uma legenda onde ele e os filhos possam mandar em tudo

Pergunta que tão cedo será respondida: se a pandemia da Covid-19 estivesse em baixa, quantas pessoas a mais teriam comparecido às manifestações contra o governo do presidente Jair Bolsonaro que aconteceram no último sábado em todas as capitais do país, menos em Rio Branco, em Brasília e em mais de 100 municípios?

A resposta só poderá ser dada depois vencida a terceira onda da doença que está por vir, e do avanço da vacinação em massa que não será concluída tão cedo, podendo arrastar-se pelos meses iniciais de 2022. Aos cochichos, e a salvo dos jornalistas, ministros do governo, porém, reconhecem que elas superaram o que se esperava.

A pressa em avaliar seu tamanho fez os três filhos zero de Bolsonaro passarem vergonha, mas eles não ligam para isso. Flávio Bolsonaro, senador, debochou dos manifestantes em Porto Velho, onde esteve no fim de semana. Eduardo Bolsonaro, deputado, comentou um vídeo editado para mostrar que havia pouca gente.

Carlos Bolsonaro, vereador, comandante in pectore do gabinete do ódio que funciona no Palácio do Planalto, fez o de sempre – defendeu o pai, que considera um injustiçado e inocente dos crimes que lhe imputam. Generais da reserva falaram em procurar um candidato alternativo a Bolsonaro para derrotar Lula.

Entre os muitos problemas que tem pela frente para recuperar parte da popularidade perdida e disputar a eleição do ano que vem com chances de ganhar, Bolsonaro não pode demorar a resolver pelo menos um: o do partido ao qual se filiará. Os principais partidos do Centrão o apoiam, mas não lhe abrem as portas.

Como abrir se em determinados Estados eles estarão coligados com partidos de esquerda? De resto, preferem gastar os recursos do Fundo Partidário com as eleições de governadores, deputados e senadores. Com bancadas maiores no Congresso, negociarão cargos com o presidente que for eleito, não lhes importa qual seja.

Bruno Carazza* - A voz das ruas

- Valor Econômico

Esquerda e direita se aglomeram em nome da política

E o povo voltou para as ruas. Abandonando as recomendações da ciência de que é preciso evitar aglomerações a fim de se evitar uma terceira onda da covid, milhares de pessoas lotaram as cidades do país nos dois últimos fins de semana em nome da política.

Embora o senso comum atribua ao brasileiro uma natureza passiva e conformista, não foram poucos os episódios de nossa história em que a população se indignou e se mobilizou em massa reivindicando mudanças. Das revoltas populares no Império (Cabanagem, Balaiada, Sabinada, Farroupilha), passando pela Revolta da Vacina (1904), as greves operárias na década de 1920, os movimentos a favor e contra a ditadura militar (1964-1968) e chegando mais recentemente às Diretas Já (1984) e ao impeachment de Collor (1992), milhares ou milhões marcharam em favor de causas variadas.

Esquerda e direita se aglomeram em nome da política

Em junho de 2013, porém, algo diferente aconteceu. Sua dinâmica e sobretudo suas consequências ainda são motivo de estudos e controvérsias, mas o fato é que, articuladas nas redes sociais, as manifestações cresceram em número de participantes, abrangência territorial e diversidade de reivindicações, numa velocidade sem precedentes em nossa história.

Carlos Pereira* - A ameaça fantasma

-  O Estado de S. Paulo

É precoce apostar num vencedor sem saber quem vai estar na final

Em pesquisa do Datafolha, realizada nos dias 20 e 21 de janeiro de 2021, foi perguntado “quem estaria fazendo mais pelo Brasil no combate ao coronavírus: o presidente Jair Bolsonaro ou o governador de São Paulo, João Doria”. Uma maior parcela, 46%, escolheu o governador Doria.

Mesmo diante dos desgastes provenientes dos sucessivos erros na gerência da pandemia, que levaram à morte mais de 456 mil vítimas da covid-19, 28% das pessoas ainda atribuíram ao presidente Bolsonaro o papel mais relevante no combate da pandemia.

Esses resultados são contraintuitivos, especialmente quando se observa que das 40 milhões de pessoas (19% da população) que já se vacinaram com a primeira dose ou das 20 milhões (9,5%) que se vacinaram com as duas doses, em torno de 65% receberam a vacina Coronavac, 33% a da AstraZeneca e 2% a da Pfizer.

Ou seja, sem a tenacidade do governador Doria e da eficiência do Instituto Butantan, apenas 6,6% da população teria sido vacinada até o momento com a primeira dose e somente 3% com as duas doses.

Por mais inusitado que possa parecer, em vez de almoçar com o governador Doria do PSDB e ajudá-lo em uma campanha de nacionalização de seu nome, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (presidente de honra do PSDB) preferiu almoçar com o ex-presidente Lula.

Além de Doria, o PSDB possui pelo menos dois outros pré-candidatos à Presidência para as eleições de 2022: o senador pelo Ceará, Tasso Jereissati, e o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. Pelo que se sabe, FHC também não convidou nenhum deles para almoçar nem os consultou sobre a pertinência do convite recebido para encontrar Lula.

A suposta justificativa de FHC para o encontro com Lula seria a necessidade de juntar forças em prol da “frágil” e “indefesa” democracia brasileira, que estaria sob ameaça iminente de quebra institucional com Bolsonaro. Para derrotar Bolsonaro em 2022, FHC já anunciou que votaria no petista no segundo turno e que também se arrependia de não ter votado em Haddad em 2018. 

Adesão a atos contra Bolsonaro estimula oposição

Legendas de esquerda, como PT e PSOL, acreditam que apoio às manifestações de sábado demonstrou queda sistêmica da popularidade do presidente

Guilherme Caetano e Paulo Capelli / O Globo

SÃO PAULO E BRASÍLIA — A adesão às manifestações contra o presidente Jair Bolsonaro, no fim de semana, gerou uma onda de entusiasmo entre partidos de esquerda — e de surpresa nos aliados do Palácio do Planalto. Líderes de partidos como o PSOL defendem novos atos para fortalecer um eventual processo de impeachment. PT e PDT querem uma análise mais cautelosa sobre os próximos passos, principalmente diante do risco de uma terceira onda de contaminação pela Covid-19.

Para integrantes do PT e do PDT, os atos de anteontem foram um exemplo do que as pesquisas eleitorais vêm demonstrando: a perda sistemática de apoio do presidente.

Presidente do PT, Gleisi Hoffmann acredita que os atos fortalecem tanto a luta pelo impeachment, quanto servem como impulso às articulações da oposição de olho em 2022. Os próximos passos, diz ela, serão definidos ao longo da semana:

— Nós vamos ter uma reunião com as frentes (Povo Sem Medo e Brasil Popular) para fazer a avaliação dos atos e da luta a seguir.

Gleisi nega que os atos sirvam como instrumento de campanha para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Porém, no ato do Rio, o Lula recebeu até mesmo um boneco inflável com uma faixa presidencial. Presente na manifestação na Avenida Paulista, em São Paulo, a petista diz que as manifestações são contrárias a Bolsonaro.

Carlos Lupi, presidente do PDT, concorda com a necessidade de atos de rua, apesar da pandemia. A expectativa, segundo ele, é que esse tipo de evento se tornará mais frequente na medida em que a vacinação avance. Ele nega, no entanto, que esse cenário fortaleça uma eventual polarização entre Lula e Bolsonaro.

— É o que eles (bolsonaristas) querem — diz Lupi.

Guilherme Boulos (PSOL) é francamente favorável à continuidade dos atos:

— Existe um clima real para construir um impeachment, tanto pelos crimes já cometidos quanto pela CPI no Senado. As ruas sinalizaram isso ontem, com responsabilidade, usando máscaras. A gente precisa se opor ao negacionismo, mas não pode esperar por 2022.

Porta-voz da Coalizão Negra por Direitos, um dos organizadores dos atos de sábado, Douglas Belchior defende um calendário permanente de mobilização.

— Não tem queda de presidente sem povo na rua, nem no Brasil nem no mundo. Derrubar o Bolsonaro só será possível se a rua continuar fervendo. O grande desafio dos movimentos sociais agora é como avançar na mobilização — diz.

O senador Humberto Costa (PT-PE), prega cautela:

— Foi necessária uma ação concreta, mas espero que pare por aí, porque especialistas vêm alertando para a possibilidade de uma terceira onda de infecções por Covid-19 — diz ele.

Fernando Gabeira - O neocinismo dos generais

- O Globo

O general Pazuello disse na CPI que estava sem máscara num shopping de Manaus porque estava precisamente procurando máscara para comprar. Na manifestação no Rio, ele apareceu sem máscara, foi chamado de “meu gordinho” por Bolsonaro e saudou “a galera que apoia o presidente”.

Como explicar essa falta de seriedade no comportamento público de um general? Pazuello já havia antecipado a explicação na própria CPI.

Questionado sobre a frase “um manda, o outro obedece”, ele respondeu que isso é apenas uma coisa de internet. Na opinião dele, a internet é um espaço onde se pode falar qualquer coisa, sem o mínimo compromisso com a verdade ou a coerência.

O general Augusto Heleno, numa convenção do PSL, cantou o seguinte verso: “Se gritar pega Centrão, não fica um meu irmão”. Todos riram porque associaram Centrão a ladrão com rapidez.

Perguntado sobre isso, depois que Bolsonaro fez um acordo com o Centrão, o general Heleno sugeriu que o Centrão nem existe mais e que sua frase faz parte do show da política.

Assim como o general Pazuello vê a internet como um espaço onde se pode falar tudo, o general Heleno equipara a política a um show, sem correspondência com a realidade da vida do país.

Demétrio Magnoli - A casta


- O Globo

São “parasitas” que estão matando o “hospedeiro”? A sentença emitida por Paulo Guedes, como quase tudo que fala o já não tão poderoso ministro, é uma generalização estúpida. Nas suas desigualdades internas, o funcionalismo público é quase um microcosmo do conjunto da sociedade brasileira. Mas sua elite forma, de fato, uma casta aristocrática que extrai recursos vitais dos brasileiros comuns, amplificando a concentração de renda.

A casta está incrustada no funcionalismo federal: segundo o Ipea, em 2017, os servidores municipais tinham salário médio de R$ 2,9 mil, contra R$ 5 mil dos estaduais e R$ 9,2 mil dos federais. O Congresso e, especialmente, o Poder Judiciário formam os ecossistemas da casta: no Executivo, o holerite médio era de R$ 3,9 mil, contra R$ 6 mil dos funcionários do Legislativo e R$ 12 mil dos servidores do Judiciário.

Raymundo Faoro iluminou, nos idos de 1958, a relação intrínseca entre o poder estatal e o estamento dos servidores públicos. A conversão patrimonial do bem nominalmente público em propriedade privada — a prática sistemática de “tosquiar” a sociedade — expressa-se, entre tantas formas, na remuneração da casta. Os funcionários federais ganhavam, em média, 96% mais que os trabalhadores de empresas privadas, sempre em 2017. No Judiciário, 4,2% dos funcionários recebiam salários superiores a R$ 30 mil.

Getúlio Vargas esculpiu a transição para a economia urbano-industrial criando a moderna burocracia estatal e lançando as sementes da casta. Os filhos dos fazendeiros tornaram-se bacharéis. O PT, partido apoiado nos sindicatos de servidores, completou a obra varguista. Nos governos Lula e Dilma, o gasto com pessoal saltou de cerca de R$ 200 bilhões para mais de R$ 300 bilhões, já descontada a inflação.

Eduardo Affonso - A via-crúcis da terceira via

- O Globo

Bolsonaro é a segunda pior coisa que já aconteceu ao Brasil. A pior foi Lula, que, além de tudo, nos legou Bolsonaro — uma “herança maldita” que corre o risco de se prolongar por mais quatro anos. O ex e o atual presidente se tomam mutuamente como antimodelos (no popular, como bicho-papão). Mas se retroalimentam: um é o esmeril onde o outro afia as garras.

Lulopetismo e bolsonarismo, hoje apresentados como os únicos caminhos politicamente viáveis, estão longe de ser simétricos, mas não são assim tão antagônicos. Vão dar no mesmo lugar: a negação da política, o desprezo pelo diálogo.

A expressão “terceira via” não ajuda muito. Ficou marcada como um Frankenstein com cérebro de capitalista e coração socialista. Mas aqui nomeia algo que nos liberte de um círculo vicioso, de uma espiral de hostilidade que torna a cada dia mais difícil desfazer o nó do “nós x eles”. Conseguimos não nos unir nem mesmo diante de uma pandemia que já matou quase meio milhão de brasileiros — ao contrário, encontramos nela combustível para nos afastar ainda mais.

Bela Megale - Por que Lula não participou dos atos contra Bolsonaro

- O Globo

Com seu rosto e nome estampados em parte das manifestações realizadas contra Bolsonaro no último sábado, Lula preferiu não comparecer aos atos e nem se manifestar publicamente. A pessoas próximas, porém, o ex-presidente deixou claro que considerou o movimento positivo. Segundo aliados do petista, ele avalia que os atos mostraram que há capacidade de mobilização da esquerda.

Para integrantes da cúpula do PT, incluindo o próprio Lula, os protestos também evidenciaram menor capacidade de mobilização de bolsonaristas. Enquanto opositores de Bolsonaro foram às ruas em capitais de todos Estados e em muitas cidades do interior, os últimos protestos realizados pelos apoiadores do presidente, inclusive com a presença de Bolsonaro, aconteceram de forma mais isolada em Brasília e, semanas depois, no Rio de Janeiro.

Malu Gaspar - A violência da PM em Recife e o perigo de conflitos em 2022

- O Globo

A comparação entre a postura da Polícia Militar nos protestos do último sábado, contra Bolsonaro, e na manifestação do final de semana anterior, a favor do presidente, traz um alerta preocupante para as eleições de 2022: o de que o bolsonarismo enraizado nas polícias e a insubordinação contra governadores de oposição ao presidente possa  provocar ainda mais conflitos num ambiente político já polarizado e conflagrado. 

Na motociata a favor de Bolsonaro, no Rio de Janeiro, havia mais de mil policiais militares, mas a única pessoa agredida foi um jornalista – e pelos próprios manifestantes, hostis à presença da imprensa. 

No ato em Recife, a escaramuça começou sem motivo aparente, e foi desencadeada pela própria PM - contra a orientação do chefe da polícia, o governador Paulo Câmara (PSB), que recomendava apenas acompanhar a manifestação e evitar excessos. 

Imagens registradas pelos manifestantes mostram que o ato transcorreu pacificamente até o final do trajeto, quando os policiais passaram a disparar balas de borracha e spray de pimenta sobre as pessoas.

Nas apurações preliminares, os PMs disseram ter disparado balas de borracha porque os manifestantes não se dispersaram no local combinado e seguiram caminhando por mais um trecho. 

Nos dias anteriores à manifestação, o Ministério Público estadual notificou o governo para que o ato não fosse permitido, mas a decisão final foi de autorizá-lo. 

Vera Magalhães - O 29M foi grande e importante: e agora, o que esperar?

- O Globo

Muitas dúvidas, de diversas naturezas, cercaram a organização dos atos deste 29 de maio, convocados por múltiplas organizações, diversos partidos e diferentes correntes políticas, pelo impeachment de Jair Bolsonaro e exigindo responsabilização do presidente e de seu governo pela decisão de não comprar vacinas contra o novo coronavírus, o que agravou a pandemia de covid-19 no Brasil.

Já na segunda-feira passada escrevi a esse respeito, apresentando os dilemas colocados para os cientistas, para os políticos que até então vinham apontando o negacionismo de Bolsonaro e as aglomerações por ele incentivadas, e para a imprensa. Mas a oposição acabou levando adiante a organização dos atos, fazendo questão de marcar importantes distinções com os eventos bolsonaristas, principalmente no incentivo ao uso de máscaras de alta proteção, como as PFF2, e a distribuição gratuita das mesmas em todas as cidades onde as manifestações ocorreram.

Os debates acerca da oportunidade de realização de grandes atos, mesmo com esses cuidados, quando se avizinha uma terceira onda, vão continuar ao longo dos próximos dias. Jornalisticamente, há muitos enfoques a adotar nessa cobertura, que precisa ser feita.

Mas não é possível ignorar que as manifestações ocorreram e, ao menos na praça mais emblemática de atos políticos nas últimas décadas, a avenida Paulista, no coração de São Paulo, ela foi robusta, não ficou restrita aos partidos de esquerda e mostrou a existência de uma oposição vigorosa, disposta a desafiar até as recomendações sanitárias que continuam em vigor, para expressar sua indignação e o sentimento de que uma boa parcela da sociedade não aceitará mais que o presidente siga tentando ocupar sozinho o espaço público, quase sempre zombando da pandemia, negando sua gravidade, ignorando o sofrimento das famílias enlutadas, promovendo desinformação a respeito da propagação da covid-19 e fazendo ameaças golpistas contra adversários e aqueles que não são seus seguidores.

As ruas mostraram, pela primeira vez desde que a pandemia começou, o que as pesquisas de opinião já mostravam sem fotos: que aqueles que rechaçam Bolsonaro e sua política negacionista são em maior número que aqueles que o apoiam. A pé, os oposicionistas foram às ruas em maior número que os motorizados e barulhentos motociclistas de Bolsonaro, um fim de semana antes.

Cláudio de Oliveira* - Qual é o programa, senhores?

Um dos males do presidencialismo brasileiro é o culto à personalidade. Discutem-se os candidatos, a busca por um pai dos pobres salvador da pátria em detrimento de programas e propostas de governo.

Nas últimas campanhas eleitorais, o debate foi prejudicado pela forte propaganda mistificadora promovida por marqueteiros pagos a preço de ouro, sem que houvesse debate dos efetivos problemas nacionais e elaboração de um projeto de país na complexa realidade da globalização e da chamada revolução tecnológica 4.0.

Em 2014, a campanha de Dilma Rousseff, com o marqueteiro João Santana à frente, usou de mentiras contra seus adversários, em especial contra a então candidata da coligação PSB-PPS-Rede, Marina Silva, e escondeu ao máximo a crise fiscal e econômica do país, que viria a se revelar dramaticamente após desligadas as urnas. 

As medidas de ajuste fiscal anunciadas na sequência pelo ministro Joaquim Levy passaram a sensação de estelionato eleitoral a parcelas significativas do eleitorado e foram o combustível para a continuidade das manifestações de rua iniciadas em 2013.

O que a mídia pensa: Opiniões / Editoriais

EDITORIAIS

Novidade nas ruas

Folha de S. Paulo

Atos aproveitam pior momento de Bolsonaro, mas esquerda ainda carece de programa

Os protestos contra o presidente Jair Bolsonaro neste sábado (29) são uma bem-vinda lufada de ar na atmosfera política brasileira.

Após quase um ano de domínio exclusivo das ruas por alguns parcos, mas barulhentos, manifestantes bolsonaristas, milhares de opositores se aventuraram no asfalto de diversas capitais.

Havia uma clara preocupação dos organizadores de diferenciação, com o estímulo ao distanciamento social possível e ao uso de máscaras —em contraste com as irresponsáveis aglomerações estimuladas pelo presidente.

Isso dito, houve cenas condenáveis do ponto de vista sanitário, além dos deploráveis confrontos envolvendo forças policiais, como o ocorrido em Recife.

Ao mesmo tempo em que se mostram como novidade no panorama, contudo, os atos não encobrem as limitações da agenda da esquerda que se rearranja após ter sido trucidada nas urnas a partir de 2016.

Animado com o reaparecimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na liderança de pesquisas eleitorais, o campo tem desafios mais complexos à frente.

Se a rejeição ao petista aferida pelo Datafolha não é tão grande quanto a do atual presidente (36% ante 54%), é importante entender as circunstâncias da fotografia.

Bolsonaro está no seu pior momento, com a CPI da Covid recontando a tragédia criminosa de sua gestão, efeitos sociais das fragilidades econômicas em curso e até uma ameaça de crise energética.

Mas o que a esquerda, a começar pelo PT, oferece além da adversativa? Se o que Lula tem a ofertar se reflete na embolorada crítica às privatizações, como fez no caso da Eletrobras, as perspectivas de um eventual novo governo petista são decepcionantes.

A crítica nas ruas do sábado a Bolsonaro é justa e até tardia. Porém seu potencial de mobilização, até pelos sentimentos contraditórios despertados em pessoas que se preocupam com os protocolos sanitários, ainda não é claro.

Além disso, convém lembrar que o antipetismo segue sendo uma força orgânica em centros urbanos, o que delimita o escopo das bandeiras que se veem agitadas.

Furar essa bolha, para usar um clichê, é a tarefa colocada à esquerda. Apresentar propostas concretas e viáveis, que vão além do embate ideológico, é um imperativo para qualquer força política que queira fazer frente a Bolsonaro em 2022.

Poesia | Ferreira Gullar - Digo sim

Poderia dizer 

que a vida é bela, e muito, 

e que a revolução caminha com pés de flor 

nos campos do meu país, 

com pés de borracha 

nas grandes cidades brasileiras 

e que meu coração 

é um sol de esperanças entre pulmões 

e nuvens 

Poderia dizer que meu povo 

é uma festa só na voz de 

Clara Nunes 

no rodar 

das cabrochas no carnaval 

da Avenida. 

Mas não. O poeta mente. 


A vida nós amassamos em sangue 

e samba 

enquanto gira inteira a noite 

sobre a pátria desigual. A vida 

nós a fazemos nossa 

alegre e triste, cantando 

em meio à fome 

e dizendo sim 

- em meio à violência e a solidão dizendo 

sim - 

pelo espanto de beleza 

pela fama de Tereza 

pelo meu filho perdido 

neste vasto continente 

por Vianinha ferido 

pelo nosso irmão caído 

pelo amor e o que ele nega 

pelo que dá e que cega 

pelo que virá enfim, 

não digo que a vida é bela 

tampouco me nego a ela: 

- digo sim 

Ferreira Gullar, em "Na vertigem do dia", 1980.

Música | Boca Livre - O Trenzinho do Caipira (Villa Lobos e poema de Ferreira Gullar)