Folha de S. Paulo
Com economia no vermelho, arrocho de juros
vai piorar e zumbis, enchem as ruas
Na então Grande Recessão do começo dos anos
1980, a gente via pessoas acampadas na rua, sob tendas de sacos pretos de lixo.
O Brasil era como sempre pobre, mas não se tinha notícia daquilo, de crise tão
longa e dos despejados pela crise expondo as nossas vergonhas cruéis até nas
praças de bairros ricos.
Até então, ainda modernizávamos a pobreza,
a desigualdade e outras opressões. Nem a ditadura
militar era tão reacionária e cretina quanto essa gente que ora
ocupa Brasília.
Mas o Brasil progrediu e o mundo nunca
esteve tão bem de vida desde o Neolítico, como dizem os doutores Pangloss do
capital. Agora, miseráveis vivem em pequenas barracas de camping e instalam
centrais de lixo reciclável em praças e esquinas dos "bairros de
bem". Houve progresso, né: em vez de sacos plásticos, tendas de armar e
carroças de lixo com música.
No centro da cidade, os miseráveis são mais tradicionais. As "pessoas em situação de rua", como diz o eufemismo correto, deitam sobre papelão, envoltas em trapos que passam por cobertas. Muitos se aglomeram diante de centros de caridade que dão alguma comida ou roupa. Depois perambulam às centenas pelas redondezas da praça da Sé ou sob viadutos próximos da avenida Paulista.