sexta-feira, 27 de maio de 2022

Bruno Boghossian: Do salão para a cozinha

Folha de S. Paulo

Presidente pediu apoio em dois encontros para reduzir vantagem de Lula com eleitor mais pobre

Durante uma feijoada num apartamento do Morumbi, há duas semanas, um convidado perguntou a Jair Bolsonaro como os empresários poderiam ajudar sua campanha à reeleição. O presidente chamou os funcionários da cozinha, falou sobre os perigos de uma vitória da esquerda em outubro e pediu aos endinheirados que fizessem o mesmo com outros trabalhadores.

Quem contou a história foi o próprio Bolsonaro. Dias depois daquele almoço, ele foi a um evento com donos de supermercados e sugeriu que eles falassem com "os mais humildes" em suas lojas. "É reunir pelo menos uma vez por semana com o pessoal no canto e dar a palavra: 'Onde está apertando o calo de cada um de vocês?'. Para ganhar a confiança."

Bolsonaro sabe onde seu calo aperta nesta eleição. Quando pediu apoio dos mais ricos na feijoada do Morumbi, o presidente se referiu aos trabalhadores da cozinha como um "pessoal que ganha, em média, R$ 2.000 por mês", segmento em que ele enfrenta uma desvantagem arrasadora.

Dora Kramer: Agora é cinza

Revista Veja

João Doria não é causa, é antes um dos sintomas da lenta e autofágica derrocada do PSDB

Partidos, assim como as democracias numa definição contemporânea, não padecem de morte súbita, definham por ações de sabotagens lentas e graduais. Internas ou externas. No caso do PSDB a lenta derrocada vem sendo produzida no interior do organismo partidário há pelo menos vinte anos.

Portanto atribuir a atual estação fundo do poço a João Doria é um misto de erro, injustiça e autoengano. Para não falarmos em má-fé. O ex-governador chegou à vitrine do tucanato em 2016, quando se elegeu prefeito de São Paulo. É, antes, um dos sintomas, e não a causa das asneiras autofágicas que o PSDB já vinha cometendo mesmo antes de deixar o poder, em 2002.

No momento o partido está numa enrascada. Não consegue construir um mínimo de uniformidade sobre como se posicionar na eleição presidencial: com candidatura própria, na carona incerta do MDB ou ao deus-dará na base do cada um por si.

Um processo, segundo Marcus Pestana, dirigente do partido e pré-candidato ao governo de Minas Gerais, malconduzido, sem conversas produtivas nem transparência a respeito das intenções de cada ala. Produto, na avaliação dele, da junção de razões políticas justas com interesses bem menos nobres ligados à distribuição do Fundo Eleitoral, “instrumento de cooptação de caciques, o pior vírus que já se instalou na política brasileira”.

Rogério F. Werneck: Lula, Alckmin e a conquista do centro

O Globo

É difícil que Lula atraia o eleitor de centro sem se mover para o centro. Ele ainda não se deu conta que o ‘timing’ pode ser crucial

A menos que ainda possamos vir a contar com superpoderes de Simone Tebet, o que nos aguarda em outubro é o que mais se temia: um mano a mano entre Lula e Bolsonaro. Sairá vitorioso quem conseguir conquistar, em encarniçado segundo turno, apoio decisivo dos eleitores de centro que ainda resistem à escolha entre os dois candidatos.

É dessa perspectiva que se afigura a cada dia mais intrigante resistência de Lula a dar demonstrações claras e inequívocas de que está disposto a se mover para o centro do espectro político. E, nunca é demais insistir, tal movimento teria que se dar ao longo do eixo que verdadeiramente importa, que é o da condução da política econômica.

Sobre isso, Lula continua fechado em copas. E o pouco que deixa entrever, em esparsas declarações à mídia, só contribui para reforçar a percepção de que ele continua resistindo a se mover para o centro e, pior, propenso a se mover para a esquerda.

Cristian Klein: Produção em alta da Fascisbras

Valor Econômico

Empresa tem sócios no aparato estatal e na iniciativa privada

A empresa de intolerância e atrocidade nacional - a Fábrica de Ataques Sistemáticos Contra Inimigos Sociais (Fascisbras) - está batendo recorde de produtividade nesta semana. A companhia, uma sociedade de economia mista, cujos sócios estão no Estado e na iniciativa privada, na polícia e nas milícias digitais, nos gabinetes e certos círculos empresariais, registrou desempenho digno de comemoração pelo presidente da República.

Até o fim do ano, no período pré e pós-eleitoral, a expectativa é que o grupo lance uma linha de produtos numa estratégia agressiva de dominar o mercado (golpe), o que se junta à ‘expertise’ na destruição de reputações e de vidas, setor bastante explorado durante a pandemia.

Bolsonaro, cujo comportamento é como se CEO do conglomerado fosse, parabenizou as tropas que mataram 26 pessoas, entre as quais inocentes, na segunda maior chacina na história do Rio. Não sem razão. A equipe quase bateu a meta da última e recordista operação, em maio do ano passado, no Jacarezinho, onde foram recolhidos 28 cadáveres - na maioria peças de reposição do tráfico.

Maria Cristina Fernandes: O tiro que pode perturbar as eleições

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Turbulência que se teme em outubro não vem da ação das Forças Armadas

A turbulência que se teme nas eleições não vem da ação das Forças Armadas, mas de sua omissão. No roteiro traçado por um ex-ministro da Defesa, ainda hoje um dos principais interlocutores civis no meio militar, uma eventual derrota do presidente Jair Bolsonaro levaria seus apoiadores mais exaltados a uma tentativa de invasão de prédios públicos, notadamente o Tribunal Superior Eleitoral, que divulga o resultado oficial da disputa.

O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, face ao risco, pediria ao presidente da República uma Operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO). O comandante em chefe a recusaria, por óbvio, principal beneficiário que é de uma baderna que reside, por enquanto, no campo da imaginação.

Como qualquer um dos Três Poderes pode conceder a GLO, o governador apelaria, então, à presidente do Supremo Tribunal Federal, cujo prédio também é alvo. Não falta quem, além das estátuas da liberdade em frente às lojas da Havan, queira dar ao Brasil uma réplica do 06/01/2021.

A ministra Rosa Weber não hesitaria em concedê-la, mas o comandante em chefe pode resistir para evitar que, a exemplo do que aconteceu na invasão do Capitólio, em Washington, a tropa atue na contenção dos baderneiros.

José de Souza Martins*: Incertezas do ensino doméstico

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Os pais podem inventar a educação que querem dar a seus filhos, mas não podem reinventar a sociedade na qual seus filhos terão que viver

Diferentes sociedades reinventam a educação de conformidade com os desafios da circunstância e com o surgimento da consciência de que os conteúdos e modos de educar vigentes têm insuficiências que pedem inovações. Os que querem a educação escolar dos filhos em casa, a querem porque estranham que a educação na escola não faça deles cópias do que acham que eles próprios são.

O problema é que, se a inovação não der certo, porque mais resultado de palpite do que de conhecimento especializado, multidões de crianças e adolescentes serão prejudicadas e ficarão despreparadas para viver na sociedade tal qual ela é.

Os pais podem inventar a educação que querem dar a seus filhos, mas não podem reinventar a sociedade na qual seus filhos terão que viver. É a escola convencional que, além de educar, pode socializar, na convivência cotidiana com os diferentes, para os desafios cotidianos das mudanças da realidade social.

É possível que os militantes da causa do ensino doméstico estejam infelizes com a educação brasileira porque não tem sido ela fábrica da sociedade por eles concebida. Querem mastigar para os filhos as verdades que a vida não confirma.

Claudia Safatle: Será longa a guerra contra a inflação

Valor Econômico

Só estabilizar a relação dívida/PIB é uma péssima gestão de risco, diz Arminio

A guerra contra a inflação será mais longa e mais custosa do que se imagina. A convergência das expectativas de inflação para a meta de 3,5% poderá ocorrer só lá por 2024, elevando-se, aí, o tempo de juros altos necessário para domar os preços. A taxa de juros para este ano está em 8,5%. A curva cai um pouco e fica em torno de 6% ao ano a perder de vista.

“Isso cria um problema potencialmente muito sério. Corre-se o risco de adquirir uma inércia que há tempos não víamos”, alerta o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga, sócio-fundador da Gávea Investimentos.

À pergunta sobre quando ele acredita que a taxa de inflação vai poder estar ancorada na meta de 3,5%, Armínio não arrisca uma resposta. “Qualquer coisa que eu fale tem uma dose de subjetividade, não tem um modelo que resolva isso com tanta incerteza no horizonte: ano de eleição, incerteza sobre o que a futura administração vai fazer. E a economia teve uma reação no primeiro trimestre, mas a expectativa é que a política monetária faça o efeito que ela foi desenhada para fazer, que é dar uma segurada na economia, o que cria um ambiente político e social tenso.”

Eliane Cantanhêde: Uma loucura!

O Estado de S. Paulo

Pró-Pinochet, Stroessner, Ustra e Daniel Silveira, contra Nise da Silveira e Paulo Freire

Enquanto o presidente Jair Bolsonaro enaltece sanguinários como Augusto Pinochet, Alfredo Stroessner e Carlos Brilhante Ustra e faz homenagem de duas horas no Planalto para um sujeito como Daniel Silveira, seu governo ataca a psiquiatra Nise da Silveira, o educador Paulo Freire, o cientista Ricardo Galvão, o compositor Chico Buarque e a nossa diva do teatro Fernanda Montenegro.

O Congresso aprovou a inclusão da Dra. Nise no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria, mas Bolsonaro vetou, alegando que não é possível avaliar “a envergadura” do trabalho dela, e bolsonaristas da Câmara já articulam trocar a Dra. Nise por Olavo de Carvalho, o canastrão rejeitado pela própria filha que xingava até nossos generais aos palavrões. Isso, sim, é uma loucura!

Fernando Gabeira: Nacionalismo como álibi na Amazônia

O Estado de S. Paulo.

Os que defendem a devastação abandonam o discurso nacionalista e caem nos braços dos grupos internacionais que utilizavam como bicho-papão

Apesar de seu caráter propagandístico, a visita do bilionário Elon Musk ao Brasil merece atenção.

Em primeiro lugar, o objetivo declarado de conectar à internet 19 mil escolas da região amazônica é inatacável. Isso será excelente para o precário ensino na Amazônia e poderá, ainda, fortalecer uma série de atividades como medicina à distância e negócios sustentáveis com o mundo. Portanto, o único problema aí, se houver, é uma questão de avaliar preços e concorrentes para ver se essa é mesmo a melhor proposta. O Brasil não está começando neste campo.

Avançando um pouco no discurso de Bolsonaro e de Musk, falou-se também do monitoramento ambiental da Amazônia, que seria fortalecido com a infraestrutura montada pelo bilionário. O problema é que já temos um monitoramento na Amazônia, realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e disponível para todos os que se interessem em combater queimadas e desmatamento.

Entrevista| Silvio Pons*: Moscou está isolada, mas da África à Índia muitos não seguem o Ocidente

Il Riformista & Gramsci e o Brasil.

A guerra e a narrativa de Putin. As ideias dos socialistas europeus e o risco de um novo, devastador conflito no Oriente. Il Riformista discute a questão com um dos mais respeitados estudiosos do “planeta” russo, Silvio Pons, docente de História Contemporânea na Escola Normal Superior de Pisa, presidente da Fondazione Gramsci. Entrevista a Umberto De Giovannangeli.

Em Bruxelas o senhor participou de um encontro da FEPS (Foundation for European Progressive Studies), que reúne as Fundações e os centros de investigação dos partidos socialistas, social-democratas e progressistas da Europa. Os socialistas e a guerra. Professor Pons, há um ponto de vista comum?

Sobre algumas questões seguramente existe. Defender a Ucrânia como país democrático e independente é um objetivo que unifica todos os socialistas europeus. E o mesmo se pode dizer sobre a afirmação de uma perspectiva de trégua e, depois, de paz, embora seja ainda muito difícil dizer como e quando se verificará. De resto, na tradição do socialismo europeu há uma particular sensibilidade ao tema da agressão de uma grande potência imperialista e à resposta que é necessário dar a esta agressão na perspectiva de uma política da União Europeia, que está num sistema de alianças ocidentais mas deve também definir os próprios interesses como Europa.

Fernando Carvalho*: Calote na Comissão de Anistia

Todos sabemos que o Brasil vive uma situação democrática resultado da superação de uma ditadura militar que durou 21 anos. A ditadura aconteceu em 1964, tempo em que ainda existia a guerra fria. Todos conhecemos o papel do embaixador americano Lincoln Gordon de apoio aos militares golpistas. Segundo Chomsky "Nós instalamos o primeiro verdadeiro grande estado de segurança nacional, estado semi-nazista da América Latina, com tortura de alta tecnologia, e assim por diante". Todos conhecemos também o papel de Bolsonaro ao longo dos seus vários mandatos de deputado federal. Espécie de restolho da ditadura militar, nunca fez segredo disso, ao contrário sempre verbalizou seus conhecidos elogios à ditadura militar que, segundo ele, "deveria ter matado trinta mil pessoas, inclusive FHC". Sempre foi favorável à tortura e dizia que por meio do voto não se muda nada. E outros absurdos mais. 

Mas, por ironia da História, Bolsonaro chegou à presidência da República. Ele procura o tempo todo vender aos militares a ideia de que com ele o regime militar está de volta ao poder ou a caminho. Colocou milhares de militares em cargos civis no governo. Participa de eventos de formatura de militares, coisa que nunca acontecia com presidentes civis. Procura dar aumento de salário para militares e policiais. E concedeu soldo de marechal em pensões vitalícias para centenas de militares de alta patente e até para um coronel torturador. Como se tivesse querendo seduzir nossa elite militar para a Operação Capitólio Brazuca.

Hélio Schwartsman: Polícia do Rio desafia o Supremo com operações

Folha de S. Paulo

Desobediência parece ensaio para eventual confronto entre STF e Bolsonaro

Um dos mais terríveis monstros da mitologia grega, a Hidra de Lerna tinha corpo de dragão e várias cabeças de serpente. Vivia nos pântanos da Argólida e seu hálito era venenoso. Pior, ela era praticamente imortal, já que, quando uma de suas cabeças era destruída, surgiam duas em seu lugar. O monstro foi derrotado por Hércules, que, depois de esmagar inutilmente muitas cabeças, decidiu mudar de tática. Pediu a seu sobrinho Iolau que queimasse o pescoço do bicho logo após o corte de uma cabeça. Com a ferida cauterizada, elas não se regeneravam. Deixo para os fãs da psicanálise especular sobre o significado simbólico do monstro.

Flávia Oliveira: O extermínio é projeto

O Globo

É assentada no extermínio dos jovens negros moradores de favela — ligados ou não ao varejo de drogas ilícitas — a política de segurança do governo fluminense. Não bastassem as estatísticas sobre a predominância de pessoas pretas e pardas entre os moradores das comunidades populares, sequências de fotos das vítimas de homicídios sepultam dúvidas. Cláudio Castro foi içado ao Palácio Guanabara em substituição a Wilson Witzel, o governador que mandava “atirar na cabecinha”, sinal verde à execução sumária. No poder, dobrou a aposta. Manteve a decisão do companheiro de chapa de suprimir a Secretaria de Segurança, substituída por duas pastas, de Polícia Civil e Polícia Militar. Acumula recordes nefastos por matanças sucessivas protagonizadas pelas Forças que comanda.

Desde outubro de 2020, quando assumiu interinamente o governo, após a Alerj aprovar a abertura do processo de impeachment de Witzel, o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni-UFF) contou 74 operações policiais com três ou mais homicídios; ao todo, foram 327 mortes. A partir de maio de 2021, com Castro efetivado no cargo, houve 83 mortes em 16 chacinas, incluídas aí as duas mais letais da História do estado: Jacarezinho 2021, com 28 mortos, dentre os quais um policial; Vila Cruzeiro, na última terça, 23 óbitos (a polícia reduziu em três o total de vítimas informado anteriormente). Uma mesma gestão acumular o primeiro e segundo lugares em letalidade de intervenção policial numa série histórica iniciada em 1989 não é acaso, coincidência, fatalidade, efeito colateral. É projeto.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Editoriais

Termômetro eleitoral

Folha de S. Paulo

Datafolha apura vantagem maior de Lula ante Bolsonaro e menos espaço para 3ª via

Pesquisa Datafolha sobre intenção de voto para presidente divulgada nesta quinta (26) traz o que parece ser a melhor explicação para os recentes rompantes de Jair Bolsonaro (PL) contra instituições democráticas: voltou a crescer a vantagem de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O levantamento anterior, de março, havia trazido boas notícias para o presidente. A distância entre ele e o petista caíra pela metade na declaração espontânea, em que o entrevistado simplesmente responde em quem pretende votar.

Agora, nesse tipo de pergunta, a dianteira do ex-presidente mais que dobrou e atingiu 16 pontos percentuais, ou 38% a 22%, ante 30% a 23% dois meses atrás.

Na pesquisa estimulada, em que uma lista de candidatos é apresentada ao entrevistado, Lula registra 48%, ante 27% de Bolsonaro e 7% de Ciro Gomes (PDT), com os demais ficando no máximo em 2%.

A margem para uma terceira via parece mais estreita. Lula e Bolsonaro somam 75 pontos e deixam 25 livres para outros concorrentes —eram 31 em março.

Como se trata de um novo cenário político devido sobretudo às desistências de João Doria (PSDB) e Sergio Moro (União Brasil), não se pode fazer uma comparação direta entre esse resultado e os de levantamentos anteriores.

Mas isso não impede ninguém de notar que, considerando os votos válidos (excluídos brancos, nulos e indecisos), Lula agora marca 54%, cifra em tese suficiente para vitória num primeiro turno hoje.

Poesia | Mario Quintana: O Tempo

 

Música | Maria Bethânia: Frevo Nº 2 do Recife (Antonio Maria)

 

quinta-feira, 26 de maio de 2022

Merval Pereira: Piada pronta

O Globo

Quando o Supremo Tribunal Federal (STF) decretou a parcialidade do ex-juiz Sergio Moro nos processos contra o ex-presidente Lula, e, um atrás do outro, em diversos pontos do país, eles foram sendo arquivados, logo surgiu a pergunta que não queria calar, uma piada crítica ao absurdo da situação: “E o dinheiro devolvido graças aos acordos obtidos na Operação Lava-Jato terá de ser restituído a seus ‘donos’?”.

Parecia provocação, mas, sim, é verdade. Já há advogados defendendo que, com os processos arquivados e Moro considerado parcial pelo STF, é possível pedir o dinheiro de volta ao Estado. Para ter noção da situação surreal, apenas um gerente da Petrobras, Pedro Barusco, devolveu à Petrobras R$ 182 milhões desviados no esquema montado pelo governo petista. Virou medida de corrupção, um barusco.

Pois o país da piada pronta bateu seu recorde com a ação popular ajuizada por representantes do PT contra Moro, acusando-o de ter provocado prejuízos ao país ao “manipular a maior empresa do Brasil, a Petrobras, como mero instrumento útil ao acobertamento dos seus interesses pessoais”. Quer dizer, alegam que foi o trabalho da Justiça que prejudicou a Petrobras, e não os roubos cometidos por executivos e políticos.

Malu Gaspar: Perdido no personagem

O Globo

Uma das grandes habilidades de Jair Bolsonaro é tomar para si o protagonismo na arena política. Sua especialidade é fabricar brigas para vender a ideia de que é um herói lutando contra inimigos poderosos: o establishment, a fraude nas urnas, o comunismo.

Uma vez que a cortina de fumaça distrai o público, ele passa à próxima guerra — e assim por diante. Na batalha mais recente, porém, o presidente e seu time parecem claudicantes. Talvez porque o inimigo, a Petrobras, não seja um agente externo como o Supremo.

Bolsonaro luta contra uma companhia controlada por seu próprio governo. A ameaça da alta dos combustíveis não é fake como a fraude nas urnas. E a solução preferencial do Planalto — intervir para segurar os preços —já traz a patente de seu maior adversário na eleição, o PT.

Duas cenas recentes ilustram a conjuntura bizarra. Na terça-feira, o presidente passou por um constrangimento ao desabafar a seguidores no cercadinho do Palácio da Alvorada:

"É sempre aquele discurso fácil de salvar, de ajudar. A gasolina vai voltar a R$ 3 o litro...", reclamou, para depois arrematar: "No mundo todo é R$ 12, só aqui que vai voltar a R$ 3?"

Os apoiadores entenderam que Bolsonaro baixaria o preço da gasolina para R$ 3 e começaram a comemorar, para aflição do presidente: "Não, espera aí! Espera aí! É o que o cara diz!"

O cara, claro, é Lula.

Horas depois, na Suíça, o ministro Paulo Guedes foi questionado por um empresário sobre as eleições brasileiras e já foi logo botando o PT na resposta: "Eles são piores que a gente".

Luiz Carlos Azedo: PSDB ainda negaceia apoio a Simone Tebet

Correio Braziliense

Simone Tebet é uma novidade na disputa eleitoral, por seu perfil liberal progressista e por carregar a bandeira do empoderamento das mulheres, além de um olhar feminino sobre os problemas nacionais.

Ao lado dos presidentes do MDB, Baleia Rossi (SP), e do Cidadania, Roberto Freire, a senadora Simone Tebet (MDB-MS) disse, ontem, que contará com apoio do PSDB para consolidar sua candidatura de “centro democrático”, como preferiu denominar a chamada terceira via. O presidente tucano, Bruno Araújo, grande artífice da retirada da candidatura do ex-governador João Doria, não participou da entrevista coletiva. Há tensões ainda no PSDB, embora o grupo responsável pela remoção de Doria da disputa, encabeçado pelo governador de São Paulo, Rodrigo Garcia, apoie Simone.

A Pesquisa CNN/RealTime Big Data para as eleições presidenciais, divulgada ontem, sem o nome de Doria entre os candidatos, foi um banho de água fria nas articulações internas da legenda a favor da emedebista. O levantamento mostra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 40% das intenções de voto no primeiro turno, seguido pelo presidente Jair Bolsonaro (PL), com 32%; e por Ciro Gomes (PDT), com 9%. Depois aparecem André Janones (Avante) e Simone Tebet (MDB), com 2%, e Luciano Bivar (União Brasil), com 1%.

Maria Hermínia Tavares*: Barreiras na terceira via

Folha de S. Paulo

A movimentação faz parte da disputa para reorganizar território que vai do centro à ultradireita

A renúncia de João Doria à candidatura presidencial é um marco na irresistível caminhada do PSDB rumo à irrelevância. Pela primeira vez desde a sua fundação, há 34 anos, a sigla não terá candidato ao Planalto. Exibe assim seu fracasso em recuperar o que perdera em 2018: a capacidade de aglutinar e representar o antipetismo no plano nacional.

Hoje está claro que o terremoto político que desalojou Dilma Rousseff do Planalto não destruiu a liderança do PT entre as forças situadas do centro para a esquerda do espectro político. Antes, desorganizou o jogo de poder no terreno adversário, abrindo espaço para a vitória eleitoral e a afirmação política da barbárie populista.

Na realidade, a movimentação da chamada terceira via faz parte da disputa para reorganizar o congestionado território que vai do centro à ultradireita, por meio da criação de uma liderança nacional distinta do extremismo autoritário encarnado por Jair Bolsonaro. Analistas respeitáveis acreditam que a desistência do ex-governador de São Paulo abre brecha promissora para uma candidatura que concorra com o ex-capitão pelos votos de quem não quer o PT de volta.

Entrevista: Presidente do PSDB diz que apoio a Simone Tebet depende de reciprocidade em MS, PE e RS

Por Pedro Venceslau / O Estado de S. Paulo

Em entrevista ao ‘Estadão’, Bruno Araújo afirma ainda que reunião da executiva que definirá aliança ocorrerá ‘no prazo da política’

Após o ex-governador João Doria abrir mão de sua pré-candidatura e a cúpula do MDB selar o apoio à senadora Simone Tebet (MS), o PSDB inicia agora a última etapa de negociação antes de fechar a aliança com a legenda.

Em entrevista ao Estadão, o presidente nacional do PSDB, Bruno Araújo, disse que a “quase totalidade” do partido defende a tese de que os tucanos devem abrir mão de um nome próprio, apesar de ainda existir um foco de resistência. A reunião da executiva, que estava marcada para essa terça-feira, 24, ainda não tem data para acontecer, segundo Araújo. “O prazo será o da política”, afirmou.

Para sacramentar o acordo, no entanto, o PSDB colocou uma condição: que o MDB apoie seus candidatos a governador no Rio Grande do Sul, em Mato Grosso do Sul e em Pernambuco. “Esses três Estados são fundamentais para avançarmos nessa construção. Só vai ter sentido formalizarmos a reunião da executiva quando essa construção política e programática estiver consolidada”, disse Bruno Araújo.

Em caso de consenso, o presidente do PSDB afirmou considerar “natural” que o candidato a vice na chapa de Simone Tebet seja tucano. “Mas esse é o último enredo neste episódio”, disse.

Leia a entrevista:

William Waack: Sem medo nem esperança

O Estado de S. Paulo

O desequilíbrio entre os Poderes da República desafia Lula e Bolsonaro

Se as pesquisas se confirmarem e Lula acordar presidente em outubro, a dúvida é saber se ele conseguirá reconhecer o cargo que já ocupou. Prisioneiro de um imaginário do passado, Lula não demonstrou até aqui ter compreendido o esvaziamento da função do chefe do Executivo, situação agravada por dois presidentes fracos, Dilma e Bolsonaro.

Nem se enxerga o grau de desequilíbrio entre os Poderes da República. Desde a primeira vitória eleitoral de Lula, há exatos 20 anos, o Legislativo assumiu prerrogativas e poderes inéditos, ao mesmo tempo que ampliou seu fracionamento e prosseguiu o esfacelamento dos partidos políticos. É altamente simbólico que o Centrão tivesse ocupado instâncias nevrálgicas dentro do Palácio do Planalto.

Talvez esse fato explique a razão de o chefe do Executivo acusar o STF como o principal adversário que o impediria de governar. Não é objetivo deste texto discutir quem é o “culpado” pelo ativismo político do Judiciário. O fato é que o STF tem sido legislador, tem interferido no Executivo (goste-se ou não disso), suas decisões têm enorme impacto sobre a economia (em questões tributárias, por exemplo) e virou um contendor com notável influência na disputa político-eleitoral.

Maria Cristina Fernandes: A campanha da carestia

Valor Econômico

Eleitor precisa de argumentos ou, pelo menos, de um, para se convencer de que sua vida vai melhorar

"O eleitor não usa 40 argumentos para definir seu voto. Usa três ou quatro. Cinco se for muito sofisticado. No mais das vezes um único argumento é suficiente. O importante é descobrir que argumento é este (...) Na campanha de Collor (1989) foi o caçador de marajás, na de Fernando Henrique (1994), o controle da inflação, na de Lula (2002), o desejo de mudança e na de Dilma (2010), a confiança na continuidade do bem-estar”

Antes de chegar a Bolsonaro e seu protesto, em 2018, contra tudo e todos, Orjan Olsen ainda passeou pela campanha de Ronald Reagan (1980), quando acompanhou de perto a obsessão de seus estrategistas. Quando o eleitor desejasse pagar menos impostos era em Reagan que ele teria que pensar.

Mais experiente especialista em opinião pública do país, presidente da consultoria Analítica e ex-diretor do Ibope, o discreto Orjan Olsen fez um raro comentário público sobre eleições num encontro da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel). Incumbiu sua plateia da resposta sobre qual é o argumento-matador da eleição deste ano. Mas deixou claro que a resposta viria daquilo que vai melhorar a vida do eleitor.

Parece banal, mas não é. Ao alardear sobre o risco que oferece à democracia, o presidente da República ofereceu a isca aos adversários. A opção, por óbvio, é a barbárie. Mas a democracia decorre do respeito às regras em que as opções para se melhorar a vida da maioria estarão em jogo. Não é a palavra de ordem. É a própria ordem. A palavra é outra.

Sergio Augusto de Moraes*, Alfredo Maciel da Silveira*: Sobre o Momento Político

Blog Democracia e Socialismo

Os obstáculos para unir os democratas são muitos. Mas nem por isto escasseiam as críticas, muitas delas negativistas, à incapacidade dos partidos políticos do campo da democracia realizarem tal objetivo.

Não é de estranhar. Na medida em que os partidos e, porque não dizer, também os eleitores, deixaram de valorizar os programas partidários e a só olharem para o imediato, absolutizando o resultado eleitoral, a colocação da democracia como valor estratégico fica mais difícil.

Mas nas condições políticas do Brasil, com um governo que tem como objetivo permanente a destruição dos poucos pilares de nossa democracia, a tarefa de unir os democratas torna-se premente.

Vinicius Torres Freire: Medidas de Bolsonaro e amigos vão asfixiar governo de 2023

Folha de S. Paulo

País enfrenta descrédito, e até a eleição o estrago pode aumentar ainda mais

O Congresso está agitado. Vota leis às baciadas no "esforço concentrado" de aprovar medidas eleitoreiras e outros favores antes do recesso da eleição, que começa em julho. No país, parece haver a impressão de que algo acontece. Não se trata de novidades, mas apenas de pedaços do desabamento da nossa ruína progressiva, como a matança no Rio.

A fome aumenta, com a maior inflação em quase 20 anos e os menores salários médios em pelo menos uma década. Montes dos mais pobres estão largados nas calçadas mais ricas do país, mas não há notícia de revolta ou de saques de comida. Talvez o Bolsa Família ou seu sucedâneo, o Auxílio Brasil, sirva para manter o horror em fervura baixa, quem sabe o prognóstico mais certeiro para o futuro nacional.

Não aparecem mais "manifestos" ou "cartas de repúdio" às ameaças de golpe ou à destruição ambiental de fato. Não se trata mais dos mortos e dos sequelados da Covid, com exceção dos parentes e amigos desse mais de milhão de pessoas (666 mil mortos, por baixo, talvez 20% mais, fora aqueles que sofrem as consequências duradouras da doença).

Cristiano Romero: A última coluna do Riba

Valor Econômico

Contribuição de Ribamar Oliveira ao país foi inestimável

Em agosto de 2020, o governo Bolsonaro encaminhou proposta orçamentária para 2021. Ao estimar despesas com benefícios previdenciários, atribui valor de R$ 1.067,00 ao salário mínimo, projetando inflação (INPC) de 2,09% em 2020. O INPC, como se sabe, corrige o salário mínimo e os benefícios pagos pelo INSS a quem recebe acima do mínimo. Naquele ano, porém, o índice chegou a 5,45% e, por isso, o salário mínimo de 2021 foi fixado em R$ 1.100,00.

Em 3 de março de 2021, o então relator da Receita da Comissão Mista de Orçamento do Congresso, deputado Beto Pereira (PSDB-MS), elevou para R$ 35,3 bilhões a previsão de arrecadação da União em 2021. O deputado alegou, em seu parecer, que, mesmo diante da mudança do cenário econômico, provocada, conforme mencionado, por inflação quase três vezes maior que a prevista inicialmente, o governo não encaminhou ao Legislativo mensagem alterando a proposta original.

Bruno Boghossian: Bolsonarismo enterrou políticas de segurança pública no país

Folha de S. Paulo

Incentivo à matança interdita debate e se torna retórica eleitoral dominante no Brasil

Jair Bolsonaro pegou carona na operação policial que terminou com 25 mortos no Rio. Nas redes, o presidente deu parabéns aos agentes, reclamou da imprensa e dedicou quatro palavras pálidas à inocente que morreu baleada na ação. Foi mais energia do que ele gastou em todo o mandato para desenvolver uma política de segurança para o país.

O capitão vendeu na última eleição a ideia de que teria uma solução mágica para a violência. Entregou um número de ilusionismo que tinha como pontos centrais a liberação de armas e o incentivo à matança. Além de não resolver o problema, o presidente enterrou o debate sobre segurança pública no Brasil.

Thiago Amparo: Vila Cruzeiro, chacina-genocídio

Folha de S. Paulo

As instituições policiais no Rio de Janeiro são, tecnicamente, genocidas

Vamos parar de fingir que a polícia fluminense precisava que 25 pessoas fossem executadas —oito das quais nem se sabe quem são— para apreender meia dúzia de armas e drogas; se precisar, a polícia é, além de morticida, incompetente. Sufocar o financiamento das drogas e controlar armas é mais eficiente e até salva vida de policiais. Vila Cruzeiro não é, no sentido legal, operação policial (quem por ela responde, legalmente?); no sentido tático, é um teatro macabro; no sentido literal, é chacina.

As instituições policiais no RJ são, tecnicamente, genocidas. Com a mesma frieza dos corpos já gélidos, transportados pelos moradores ao hospital em lençóis cheios de sangue, repito: imputo às forças policiais fluminenses o crime de genocídio.

Míriam Leitão: A terça de sangue do Rio ao Texas

O Globo

A terça-feira sangrenta que deixou mortos no Rio e no Texas tem eventos de natureza diferente e um ponto em comum: o uso descontrolado de armas. Os Estados Unidos têm tradição de facilitar o acesso à posse e ao porte de armas e há anos colhem tragédias como a desta semana em que morreram 21 pessoas numa escola, quase todas crianças. No Rio, a Polícia Militar foi à Vila Cruzeiro e deixou 25 mortos. Alega que são criminosos, como se isso justificasse a execução. Mas a própria PM admite que eles estão com armas cada vez mais pesadas. E por que estão? Porque está cada vez mais fácil comprar armas, munições e acessórios que antes tinham uso restrito e eram controlados pelo Exército.

No programa desta quarta-feira na Globonews o assunto foi a violência política e a política de liberação das armas. Entrevistei a deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ), que vive desde 2019 sob escolta policial depois de ataques e ameaças de morte. Entrevistei também Michele dos Ramos, assessora especial do Instituto Igarapé nessa questão.

José Serra*: Segurança econômica e reindustrialização

 

O Estado de S. Paulo

Economias emergentes minimamente industrializadas têm papel vital ante o risco da instabilidade da economia chinesa.

A fragilidade de nossa segurança econômica é uma ameaça que vem somar-se às crises que já afligem nosso país. Infelizmente, essa insegurança ainda não é bem compreendida pelos responsáveis por nossas relações externas. A noção de segurança econômica é hoje empregada por governos e grandes investidores que procuram se defender da instabilidade econômica da China. Dado seu papel central na economia mundial, os efeitos combinados da guerra na Ucrânia e da pandemia sobre a China agravaram as rupturas nas cadeias globais de produção e de valor.

Os eventos adversos que atingem a economia chinesa afetam o equilíbrio de fornecedores e consumidores de insumos que dependem desse país. Desde o início da pandemia, os chineses enfrentam os efeitos mútuos de uma política autoritária e controversa de combate ao vírus, da insatisfação social e política da população mais jovem e mais educada e de efeitos disruptivos no setor produtivo, que limitam sua capacidade para continuar ocupando o espaço central de sua indústria na economia global.

Ameaça de fome atinge 36% das famílias no país

Pela primeira vez desde 2006, país tem nível de insegurança alimentar pior que a média de 120 nações

Por Carolina Nalin / O Globo

O risco de fome aumentou ao redor do mundo diante dos impactos econômicos da pandemia de Covid-19, mas a situação se tornou particularmente grave no Brasil: a parcela de brasileiros que não teve dinheiro para alimentar a si ou sua família, durante algum período nos últimos 12 meses, subiu de 30% em 2019 para 36% em 2021, patamar recorde da série histórica iniciada em 2006. É também a primeira vez que o nível de insegurança alimentar no Brasil supera a média mundial (35%).

É o que aponta pesquisa elaborada pelo economista Marcelo Neri, diretor do Centro de Políticas Sociais FGV Social. O estudo foi realizado com base no processamento de dados coletados entre agosto e novembro pelo Gallup World Poll, instituto que aplica questionários padronizados desde 2006 em 160 países e fornece evidências comparáveis em escala global sobre temas como saúde, educação, moradia e qualidade de vida.

Considerando a média de 120 países, a insegurança alimentar aumentou 1,5 ponto percentual no mundo contra 6 pontos percentuais no Brasil, ou seja, o aumento equivale a quatro vezes o registrado na média mundial.

Memória | Chamem Josué de Castro, que a fome voltou

Vandeck Santiago / Diário de Pernambuco, 21/11/2017

Minutos antes de receber uma das maiores premiações mundiais da época, Josué de Castro perdeu a voz. Teve um terrível acesso de tosse e não conseguia falar. Estava na cerimônia de entrega do Prêmio Internacional da Paz, que lhe fora concedido pelo Conselho Mundial da Paz, entidade sediada em Helsinque (Finlândia), onde se realizava o evento, em 1954. Após muito custo, ele insistiu em dizer algumas palavras. Foi o discurso mais curto que todas as autoridades presentes já tinham escutado. Josué de Castro conseguiu falar apenas uma frase: 

- 'O primeiro direito do homem é o de não passar fome' -, ele disse, e sentou-se, exausto, sob palmas. 

Pernambucano do Recife, onde nasceu em 1908, Josué foi a personalidade mais importante do século 20 no estudo da fome e na ação contra suas consequências. “Ele foi um gênio. Deveria ter um monumento em cada cidade do Brasil, porque é um dos maiores pensadores do século 20”, afirma o sociólogo suíço Jean Ziegler, relator da ONU para o direito à alimentação entre 2000 e 2008, professor da Universidade de Genebra e da Sorbonne e autor de vasta obra sobre a fome no mundo.  

No momento em que o Brasil está sob ameaça de volta ao Mapa da Fome da ONU (da qual havia saído em 2014) e que o caso de uma criança que desmaiou de fome numa escola em Brasília ganha repercussão nacional, é momento de lembrar Josué de Castro. Na hora em que acaba de ser divulgado relatório da ONU mostrando que o flagelo voltou a aumentar no mundo após 10 anos, é hora de tornar a Josué de Castro. 

Foi a partir de dois livros que o seu nome ganhou repercussão nacional e internacional. O primeiro, Geografia da Fome, de 1946, sobre o Brasil; o segundo, Geopolítica da Fome, de 1951, sobre a mesma questão, só que agora em escala mundial. “Este livro foi uma revelação para os europeus”, disse Jean Ziegler. O raciocínio que consolidara no Brasil, a partir da obra de 1946, ele expandia para o mundo: a causa da fome não se devia a caprichos da natureza, mas a -- vamos chamar assim -- caprichos da política. 

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Editoriais

Reduzir letalidade nas ações é dever da polícia do Rio

O Globo

Pouco mais de um ano depois da operação na favela do Jacarezinho, Zona Norte do Rio, que deixou 28 mortos em 6 de maio de 2021 e se tornou a mais letal na história do estado, a polícia fluminense, em conjunto com a Polícia Rodoviária Federal (PRF), realizou uma incursão na Vila Cruzeiro que resultou na segunda mais letal em seu rol interminável de confrontos: ao menos 25 mortos, entre eles uma moradora. Por mais que se saiba que as comunidades estão dominadas por facções criminosas que traficam, matam, roubam e exploram moradores, não há argumento plausível que justifique operações tão sangrentas. Lamentavelmente, o caso é um retrocesso diante da recente recuperação dos indicadores de violência no Rio.

A Polícia Militar (PM) afirmou que a operação, que começou na madrugada de terça-feira, teve por objetivo prender traficantes que se dirigiam à favela da Rocinha, na Zona Sul do Rio, onde se encontrariam com outro grupo. Ainda segundo a PM, a Vila Cruzeiro, no conjunto de favelas da Penha, se tornara refúgio para traficantes de todas as regiões do país. A participação da PRF, em tese responsável pelo policiamento nas rodovias federais, deveu-se a quadrilhas locais atuarem no roubo de cargas nas estradas de acesso ao Rio.

Poesia | Mario Quintana: A Vida

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Música | Marisa Monte: Feliz, Alegre e Forte