domingo, 8 de fevereiro de 2015

Sérgio Besserman Vianna - Sede de Política

• Crise da água expressa falênciado sistema político

- O Globo

O Brasil precisa desesperadoramente de água. Que a sorte nos traga chuvas fortes, nos lugares certos, no que resta de temporada de chuva. Mesmo que isso aconteça, 2015 será crítico. E as autoridades públicas continuarão a ter que assumir suas responsabilidades sobre uma pergunta crucial: e se no próximo verão a estiagem se repetir?

O Brasil precisa desesperadoramente de Política. Quando os ventos são favoráveis, os sete anos de vacas gordas no sonho que José interpretou para o faraó no Antigo Testamento, a Política não é tão necessária e a política, com p pequeno, causa prejuízos mas dá conta do recado.

Mas em tempos de crise econômica, nas expectativas sociais, institucional, de valores e tudo isso em um mundo conturbado e em transformação acelerada, a Política é o único meio de sociedades agirem com alguma consciência, planejarem e serem capazes de aceitar custos e limites no presente para atingir objetivos no futuro.

A crise de recursos hídricos tem uma dimensão que não está sendo notada. Ela expressa não apenas a falência da capacidade de planejamento e gestão mas também a falência do próprio sistema político na sua capacidade de agir, mesmo em um caso tão óbvio e vital quanto abastecimento de água e energia. Foi assinado indelevelmente o recibo da baixíssima qualidade da democracia brasileira e de um sistema e jogo políticos restritos ao propósito de conquista do poder.

A imensa irresponsabilidade ocorrida na gestão dos reservatórios para abastecimento de água e geração de energia evidenciou que o sistema político no Brasil tem enormes dificuldades para tomar decisões custosas e falar abertamente a seus eleitores sobre limites e sacrifícios, mesmo quando indispensáveis para o bem comum.

Não basta a política na legalidade. Para satisfazer nossa sede de Política capaz de ação e transformação, é preciso que a Política tenha legitimidade, o que a representação nos parlamentos e poderes executivos perdeu há tempos, em um quadro que vem se agravando de forma muito preocupante.

O que ameaça a democracia no Brasil não é a rejeição da política, como às vezes afirmam alguns. É a falta de Política que a geleia geral do sistema partidário e de poder gerou. Reforma Política já, não para que o povo vote melhor, porque essa postulação é profundamente antidemocrática: votar melhor é votar igual ao individuo que sugere esse objetivo.

Reforma política já para reduzir o peso do dinheiro na competição eleitoral e para reduzir o numero de partidos de modo a permitir ao eleitor correlacionar grupamentos partidários com campos de ideias.

Sede da verdadeira Política porque sem ela o caminho para as mais estranhas aventuras estará aberto como resultado da crise. Resta rezar para chover e para o Barão de Itararé estar errado quando disse que de onde menos se espera, daí é que não sai nada mesmo.
-------------------
Sérgio Besserman Vianna é economista

Marco Aurélio Nogueira* - Somente uma “renovação profunda” pode relançar a esquerda no mundo

- O Estado de S. Paulo

É impossível não concordar com o ex-governador gaúcho Tarso Genro (PT-RS) quando disse, na reunião de ontem do Diretório Nacional petista, que é preciso por em curso no partido uma “renovação profunda” porque “existe uma crise de perspectivas na esquerda mundial e em todo o campo democrático”.

Fiel a seu estilo e a sua biografia política, Tarso escancarou, com a frase nada sutil, o mal-estar que viceja no PT e no conjunto das forças democráticas mais à esquerda. Não perguntou, mas poderia tê-lo feito: por que não há protagonismo dos democratas radicais (que tomam as coisas pela raiz), por que seu projeto político não aparece, não decola e não se traduz em fatos? Por que, num contexto em que crescem as dificuldades econômicas, reduzem-se as receitas públicas e aumentam as faixas de pobreza, a esquerda resfolega, parece em estado de choque e quase nada propõe? Por que, enfim, no caso brasileiro, o PT segue um roteiro insosso e paralisante, deixando-se passivamente pautar pelo mercado, ao passo que o PSDB, o PSB, o PPS, o PSol e outras forças de esquerda e centro-esquerda não sobem ao palco para recitar suas falas?

Os partidos que respiram no mundo — como o Syriza grego e o emergente Podemos! espanhol — ainda não foram provados, mas seguem claramente a trilha da “reinvenção”: rejeitam fórmulas repisadas, discursos cansados, ideologias formatadas como receitas de bolo, estruturas burocráticas e hierarquias pesadas, lideranças messiânicas. Buscam substituir tudo isso por construções mais horizontais, flexíveis, criativas, críticas do mundo político realmente existente e dos poderes fáticos. Suas lideranças são jovens, têm pegada midiática, trabalham em rede e não desejam fazer muitas concessões à política estabelecida. Querem não só mudar o governo, mas alterar o “paradigma” das políticas de austeridade prevalecentes e, por aí, modificar o modo mesmo como as esquerdas operam quando chegam ao governo ou fazem política. Pretendem dialogar com blocos sociais, mais que com alianças políticas ou eleitorais.

Em grego, Syriza é o acrônimo de “coalizão das esquerdas radicais”. São palavras que vêm permitindo interpretações equivocadas, como se ser radical significasse ser extremista, posição que se auto-exclui de maiores esforços unitários. Syriza não pretende funcionar como um agregado de pequenos partidos, mas formar uma coalizão sociopolítica interessada em recompor o bloco social: unir o que o neoliberalismo separou. Como gosta de dizer Tsipras, “a verdadeira luta começará depois da vitória eleitoral. Nossa experiência de governo terá como epicentro os movimentos, porque sem o apoio das pessoas não poderemos por em prática nossas ideias”.

Num mundo plural e fragmentado como o de hoje, as esquerdas também se mostram fragmentadas. Parte deste processo tem a ver com os estragos do neoliberalismo. O social seguiu uma via, o político foi em outra direção. Deu-se o mesmo com a luta por direitos, a questão dos valores e a luta por conquistas materiais. Sindicatos e movimentos culturais passaram a falar línguas distintas, do mesmo modo que os indivíduos deixaram de dialogar com as pautas coletivas. Têm faltado pontes democráticas, esforços unitários e de recomposição, excessiva concentração na conquista de poder e espaços eleitorais, carência enorme de uma ideia de sociedade que sirva de referência. A conflitualidade é tensa e intensa, mas produz poucos efeitos positivos.

Os partidos continuam a ser essenciais para a democracia, mas só poderão fazê-la funcionar bem se eles próprios funcionarem bem e refletirem os humores sociais. De costas para a sociedade só fazem atrapalhar. Se a sociedade vive em rede e está mais dinâmica e plural do que nunca, os partidos precisam saber acompanhá-la. Não há modelos rígidos de organização partidária, nem muito menos partidos que “comandem” mediante jogos de cena e “linhas programáticas” que sejam seguidas pelas massas. Nas sociedades atuais, não há mais espaço para que se sustente a ideia de que a consciência das pessoas é formada a partir da ação de um partido que sabe tudo. Ouvir e discutir (confrontar e divergir, portanto) tornaram-se critérios democráticos que precisam ser vividos sem que esta ou aquela parte se afirmem de antemão como superiores, ou melhores do que os demais.

Não dá para saber se Syriza e Podemos! vencerão, mas a mensagem que proclamam vem embalada pela brisa fresca das promessas dignificantes.

Enquanto isso, no Brasil, Tarso dixit à parte, a carroça reformista segue empacada. E aquele que se propôs arrogantemente a ser o carroceiro — muitas vezes vestindo as roupas do condutor de massas — persiste imerso numa cegueira paralisante, que o leva a não se posicionar com clareza, a não definir para onde caminhar e o que propor aos que ainda aceitam sua direção. Crise de perspectivas em estado bruto.

Dada sua explicitação plena, a ideia de “renovação profunda” ganha foros de urgência, de esforço emergencial. Precisa, pois, ser traduzida adequadamente, convertida em programa de trabalho intelectual amplo, para assim ganhar densidade e se converter em cultura. O pior que pode acontecer agora é a “renovação” virar expediente para consolidar partidos no governo ou reforçar projetos de poder que estão a fazer água por todos os poros.

Renovar é preciso e em profundidade, de forma radical. A começar dos próprios métodos com que se tentará a renovação: que se ponha o tema à luz plena do dia, aberto a todos, sem matrizes teóricas rígidas, discursos encomendados e circuitos deliberativos engessados.

Tarefa tanto mais difícil quanto inadiável.

------------------------
* Professor de Teoria Política da Unesp

Fernando Gabeira - Carnaval, ou me engano?

• Sinto-me, às vezes, num planeta vizinho próximo o bastante para ouvir os blocos na rua

- O Globo / Segundo Caderno

Neste período de carnaval, sinto-me, às vezes, num planeta vizinho próximo o bastante para ouvir os blocos na rua, numa posição confortável para recordar. Quando menino, ouvi meu tio cantar: “Ai morena, seria o meu maior prazer/ passar um carnaval contigo/ beijar a tua boca/ e depois morrer”.

No final da marchinha, a morena seria mais rainha do que é, e o Rei Momo beijaria os seus pés. Aquilo soava como uma paixão incontrolável. Beijar a sua boca e depois morrer? Não era um preço muito alto? O Rei Momo beijava apenas os pés da morena. Queria preservar a vida, para outros carnavais? Talvez beijar a sua boca fosse, na época, a metáfora de ir para a cama. E o verso “depois morrer”, uma alusão ao orgasmo, esse desligar-se do mundo.

O carnaval é isso, mas não inteiramente. Nunca me saiu da lembrança uma cena no inverno europeu. Era uma festa de exilados, e, a certa altura, alguns fizeram um cordão e começaram a cantar “Mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar”, com dois dedos erguidos em cada mão. Nevava lá fora, e eles cantando no silêncio da noite de inverno. O carnaval para eles era, ao mesmo tempo, uma lembrança do Brasil e da própria infância. Creio que é o mesmo para mim, embora não tenha a mínima disposição de erguer dois dedos em cada mão e sair cantando por aí. Na verdade, se saísse, cantaria: “Tomara que chova três dias sem parar”. Mas, na verdade, cantaria apenas para mim.

Hoje estou sempre atento aos dados que me permitam transitar no Rio, driblando o desfile de blocos. Os foliões são muito simpáticos, mas se vertessem em água a mesma quantidade que vertem em xixi, seriam mais simpáticos ainda. Ouvi o relato de uma senhora que mora num prédio próximo ao ensaio de um bloco. Ela fica nervosa com barulho, xixi, enfim toda a movimentação diante de casa. Várias vezes pensou em ir para a janela e gritar. Mas nem isso pode fazer. O nome do bloco é desencorajador para sua empreitada: Calma, Calma, Sua Piranha.

Desde quando voltei ao jornalismo, o carnaval para mim é quase sempre trabalho. Nos últimos anos, tenho documentado o desfile carnavalesco dos internos do Pedro II e entrevistei Joãosinho Trinta quando proibiram sua imagem de Cristo Mendigo no desfile de carnaval. Pena que Joãosinho não tenha sobrevivido para ver os tempos do Papa Francisco, certamente muito mais abertos para o que, na época, foi tido como uma heresia.

Espero que no carnaval todos beijem muito, não percam tantos celulares, morram um pouco como na marchinha, mas não se esqueçam de sobreviver para o que nos espera. No auge desta crise de água e energia não viveremos apenas as cinzas do carnaval, mas também de um modelo de desenvolvimento que não dá mais pé. Sua falência visível nos ajuda a sair da ilusão da abundância e planejar a escassez. Será uma longa caminhada. A primeira etapa foi colocar Deus entre parênteses. A segundo é colocar o governo entre parênteses. Em outras palavras, as saídas dependem muito da própria sociedade, de sua capacidade de inventar.

Há 30 anos, num programa de televisão, apresentei a história de uma escola no Andaraí que deu como tarefa aos alunos reconstituir a história de um rio do bairro, praticamente morto. Ao longo de sua busca pelo rio, os meninos conseguiram reconstruir a memória do lugar, a partir de depoimentos dos mais velhos. E reconstituíram a vida cotidiana, muito mais rica e alegre com a presença do rio.

Com todo o valor que reconheço na ciência e na tecnologia, creio que é preciso que as pessoas voltem a gostar dos seus rios. Muitos, como os moradores de São Paulo e outras metrópoles, já nasceram sobre rios soterrados ou transformados em esgotos. Para alguns, a própria ideia de rio é associada a mau cheiro e águas imundas. O rio é alma de muitas cidades no Brasil. A maioria não se dá conta disso. Se a crise, pelo menos, conseguir despertá-la para a riqueza que corre em suas terras, terá cumprido um papel pedagógico.

Uma vez, apresentei um projeto criando um estado independente do Pantanal. Não era uma simples bravata. Havia base de apoio entre os pantaneiros, fiz várias visitas a Miranda, que seria a capital. Na ideia de autonomia, havia também embutida uma proposta de governo: o comitê de bacia. A ideia de governar por bacia era muito mais adequada para enfrentar a complexidade da região.

O Brasil terá de encontrar não só criatividade mas também novas formas de se organizar para encarar o problema. Assim como os carnavais, o clima mudou. Vivemos um período de catástrofes naturais, e todos trabalham pensando em administrar a escassez. É difícil despertar do sonho da abundância de recursos naturais. Ele alimenta o populismo, propostas mirabolantes, marqueteiros e mercadores de ilusões. Roubar muito e prometer o paraíso tem sido a fórmula da sobrevivência no poder. Só o PT teria recebido US$ 200 milhões, segundo um ex-diretor da Petrobras.

Estou seguro de que a realidade vai nos abrir o caminho de uma adequação nacional aos novos tempos. Mas poderíamos apanhar um pouco menos dela.

Vinicius Torres Freire - Dilma espera o Carnaval chegar

• Semana foi uma amostra grátis de desastres que podem se espalhar pelo ano inteiro

- Folha de S. Paulo

Dilma Rousseff deve estar ansiosa pelos dias de amnésia barulhenta ou retiro do Carnaval, pois seu governo samba na frigideira quente de várias crises. Na folga folgazã, talvez a chapa esfrie.

A semana que passou oferece uma amostra grátis de problemas que podem desorientar de vez este governo pelo resto do ano. Caso não se aprume, e tomara que se reoriente, esta administração que mal fez um mês pode se enredar numa espiral de crises políticas e econômicas que se realimentam.

Na semana, houve a debandada da diretoria da Petrobras e o tumulto da nomeação de seu novo presidente, apoteose que provocou um desfile de críticas à presidente da República, entre as quais a de alheamento da realidade.

Ainda nada se sabe do que Aldemir Bendine fará ou poderá fazer da petroleira. Mas sua indicação para o comando da empresa foi interpretada, na melhor das hipóteses, como a continuação das políticas que levaram a Petrobras à quase asfixia financeira e, ainda, das intervenções equivocadas de Dilma 1 na estatal. Dado o tamanho da crise, tal atitude mostraria quão alheada a presidente está do humor do país, ao menos do da elite que se ocupa dessas coisas e dos credores da Petrobras, para não dizer do governo mesmo.

Caso se confirme a hipótese de continuidade, prosseguirá a degradação do crédito da companhia, crise que continuaria a se espalhar por empresas dependentes e contaminaria o restante do ânimo da economia. Nesse caso, para nem falar dos rolos político-policiais, aumentaria a impressão de que o governo perdeu o controle da situação, o que, por sua vez, contribuiria para solapar ainda mais o prestígio político da presidente. Figuras fracas ficam sujeitas a abutres.

O tumulto no setor de petróleo, construção naval, civil e mesmo finanças pode piorar por outros motivos. A nova fase da Lava Jato levanta suspeitas contra mais empresas relevantes, que podem perder crédito e créditos, o que provocaria um dominó de inadimplências.

A nova CPI da Petrobras é em si mesma um nada. Mas trata-se de um exemplo adicional, como se fosse preciso, da animosidade do Congresso em relação à presidente. Isso à beira da denúncia dos políticos com as mãos sujas do Petrolão. O risco aqui é, literalmente, incalculável, e o governo até agora não mostrou que sabe como administrar a crise.

Como se não faltasse tensão, fica mais clara a reação defensiva-agressiva do PT ao novo jorro de acusações contra o partido ou ao menos contra seu tesoureiro. O PT começa a adotar posição de combate ruinoso, um tanto à maneira da época do mensalão: dane-se o teor das denúncias, o negócio é salvar o partido, como se fosse possível fazê-lo sem aceitar uma limpa.

Por fim, o governo Dilma Rousseff começa a pagar a conta da demagogia e de procrastinações eleitoreiras. Para 60% dos brasileiros, a presidente disse mais mentiras do que verdades na campanha. Entre as pessoas com ensino superior, renda maior que dez salários mínimos ou moradores de São Paulo, o descrédito da presidente passa de 70%.

Seu prestígio passou do nível do chão aonde foi no Junho de 2013. Isso quando ainda mal começam a pesar no dia a dia os efeitos da crise: tarifaço, inflação, impostos e desemprego maior.

Míriam Leitão - O custo da corrupção

- O Globo

Qual o custo da corrupção? Pergunta difícil de responder em números exatos. Hoje, o Brasil já sabe que o preço é intolerável: a maior empresa do país à beira de um precipício, o custo Brasil subindo, o aprofundamento da recessão, risco de contágio de inúmeras empresas. Apesar disso, o governo decidiu abrir a temporada de loteamento de cargos nas estatais e no segundo escalão.

Naquele terreno fugidio entre a economia e a política, as notícias passam e, às vezes, as pessoas nem somam o que acontece nos dois lados. Na política, a presidente está fraca porque foi derrotada na eleição para a Câmara dos Deputados. Além disso, sua articulação política conseguiu a proeza de não ter nenhum petista na mesa da Casa.

Na economia, a maior empresa do país corre perigo pelo saque comandado pelos indicados políticos. A presidente, então, para se fortalecer na política, manda seus articuladores dizerem que fará a distribuição dos cargos do segundo escalão e das empresas públicas em troca de apoio político. Mas se a maior crise do país vem justamente como efeito colateral do loteamento, como se pode falar em mais distribuição de cargos por esse mesmo critério?

Do ponto de vista contábil, os auditores tentam medir a corrupção e têm tido problemas. No demonstrativo financeiro da Petrobras foi dito que pode ser alguma coisa entre R$ 4,06 bilhões e R$ 88,6 bi. O primeiro número foi encontrado através de uma conta simples: 3% do valor dos contratos que pagaram comissão, segundo depoimento de Paulo Roberto Costa. O outro, a diferença entre o valor justo e o valor contábil de 31 dos 52 ativos analisados. Nem tudo é corrupção. Parte desse sobrepreço pode ser resultado de outras ineficiências. Mesmo assim se sabe que a corrupção leva à ineficiência. Para que um contratante, que teve que pagar propina para ganhar uma concorrência, terá interesse em ser eficiente? E o funcionário corrupto, que interesse terá em que o valor sobre o qual incide seu percentual seja menor? Os preços e custos vão para cima e para o alto sempre, em ambiente corroído pelo veneno da corrupção.

Não é trivial fazer o que a Petrobras está tentando junto com seus auditores e com a orientação técnica da CVM e da SEC: saber exatamente como calcular um custo que, pela sua natureza, foge à contabilidade. Nessa direção é que a Petrobras vinha trabalhando desde novembro do ano passado com a PricewaterhouseCoopers (PwC). Agora, a auditoria vai trabalhar com Aldemir Bendine e seus diretores. Qualquer que seja o compromisso que Bendine assumiu de reduzir o valor do abatimento nos ativos, ele terá que seguir normas técnicas dos órgãos reguladores.

Mas, quando houver o número exato da baixa contábil, ainda assim não será o custo da corrupção. O que impressiona neste caso revelado pela Operação LavaJato é que foi montado um conglomerado de corrupção. Havia uma holding e depois centros subsidiários de exploração, extração, refino e distribuição de propina. Portanto, a busca do dinheiro perdido é necessária, mas nunca estará completa.

Se todo o dinheiro fosse recuperado, se fosse possível encontrar um valor exato do que foi subtraído da Petrobras, ainda assim não seria o custo total da corrupção. Ela é muito mais cara. A Petrobras e o Brasil perderam reputação. Tente calcular o custo de reconstrução da imagem do país que permitiu que sua maior empresa fosse assaltada para que fossem instalados dinheirodutos para os partidos governistas. O Brasil precisará lutar contra a convicção de que é um país de corrupção endêmica, porque isso afasta investidores.

Se ainda assim fosse possível quantificar o dinheiro tirado da Petrobras, os sobrepreços causados direta ou indiretamente pelo ambiente de corrupção que se instalou na empresa, a deterioração da imagem da empresa e do país, o custo da piora do risco Brasil, não seria o preço total da corrupção.

Seria preciso contabilizar também o intangível custo da depreciação do ativo maior: a confiança na democracia. Como evitar que os brasileiros comecem a perder a fé na democracia? O que se vê são os intestinos de um esquema que transformou a mais mítica das empresas brasileiras em local de botim do partido que nos governa e seus aliados. Esse ataque à Petrobras nos tem tirado mais do que podemos calcular.

Geral e irrestrito – Editorial / Folha de S. Paulo

• Pesquisa Datafolha mostra degradação acentuada da avaliação de Dilma, Alckmin e Haddad; governantes precisam mudar de conduta

Um surto de irritação degradou a opinião dos brasileiros a respeito de seus governantes a um nível de desprestígio ainda maior que aquele registrado em junho de 2013.

Trata-se, porém, de um junho invisível, de uma crítica que não sobreveio do debate que emanou dos protestos nas ruas, mas da súbita consciência da extensão e das consequências das mentiras da campanha eleitoral. É o que revela pesquisa Datafolha publicada hoje.

O colapso da confiança transparece em particular nas expectativas econômicas, que se deterioraram de modo veloz e inédito em quase 20 anos de registros do instituto.

O sentimento de desesperança e desaprovação vem acompanhado de perigoso descrédito do poder público. A maioria da população afirma que as autoridades mentem a maior parte do tempo ou omitem informações essenciais.

Ao fim da campanha eleitoral do ano passado, os ânimos exaltados desde meados de 2013 pareciam desanuviar-se. O prestígio da presidente Dilma Rousseff (PT), do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), e do prefeito da capital paulista, Fernando Haddad (PT), recuperava-se no interregno de otimismo dos dias da votação.

Quando da reeleição, somente 20% dos eleitores tinham o governo Dilma como ruim ou péssimo. Ainda no início de dezembro, não se percebia, pelos dados do Datafolha, deterioração de sua imagem, exaltada no mundo mágico da propaganda política.

Agora, quando a vida real bateu à porta, 44% do eleitorado considera ruim ou péssima a gestão da petista, número que impressiona de duas maneiras. Primeiro, é muito pior, para Dilma, do que o verificado em meados de 2013, quando sua desaprovação saltou para 25%. Talvez mais importante, essa fatia dos entrevistados supera a dos que aprovam seu governo, meros 23% de ótimo e bom.

Em condição bem melhor que a da petista, Geraldo Alckmin viu sua avaliação positiva cair dez pontos (38% de ótimo/bom), numa situação semelhante à registrada em junho de 2013. Também Fernando Haddad sentiu efeito parecido: a parcela que reprova sua administração passou de 28% para 44%.

Dificilmente a imagem dos governantes terá sido arruinada por questões como corrupção na Petrobras, formação de um ministério medíocre, falta de água em São Paulo ou polêmicas urbanísticas paulistanas --a população já se deparava com elas em 2014.

A irritação deriva do fato de que o eleitorado se deu conta do engodo de que foi vítima e do custo social e econômico do embuste.

Eleitos em outubro, Dilma Rousseff e Geraldo Alckmin não tardaram a desmentir, na prática, o que vinham afirmando enfaticamente.

Vieram as medidas econômicas amargas, represadas pela demagogia irresponsável. Subiram as taxas de juros e anunciaram-se aumentos brutais do preço da eletricidade; houve reajuste na tarifa de metrô, trens e ônibus; despesas sociais foram cortadas, enquanto o governo Dilma encaminhava a elevação da carga tributária.

Tal saraivada traduz incúrias velhas e novas no trato das contas públicas, da infraestrutura de serviços, da inflação. A fatura dos descasos de anos e das manipulações promovidas em períodos eleitorais começou a chegar na vida cotidiana. O cidadão compreendeu o logro e calcula seus efeitos.

Não é de admirar a revolta.

No âmbito estadual, de forma dissimulada e parcial, o governo de São Paulo reconhece a gravidade da crise da água. A frustração das últimas esperanças de que haveria chuvas suficientes em janeiro e um apagão energético insuflaram o sentimento de crise.

Para 60% dos entrevistados pelo Datafolha, Dilma disse mais mentiras do que verdades na campanha eleitoral; no caso de Alckmin, são 44%, embora na capital seu descrédito seja maior: 57%. Além do mais, para 81% da população paulista, o governo divulga apenas as informações sobre a crise da água que são de seu interesse.

Os cidadãos têm visão realista do cenário, ao contrário do que se passa com os governantes. Para 65% dos entrevistados pelo país, é o caso de dar início ao racionamento de energia; entre os que foram ouvidos na região metropolitana de São Paulo, 60% são a favor do rodízio do fornecimento de água.

No que respeita à economia, os brasileiros estão alarmados como nunca nos últimos 20 anos. A inflação vai subir, de acordo com a opinião de 81% dos entrevistados. O medo do aumento do desemprego afeta 62% dos cidadãos --não era tão grande desde junho de 2001, quando a taxa de desemprego era o dobro da atual, pelo menos.

Tais números não traduzem a situação presente do emprego nem representam uma estimativa refletida da inflação, mas mostram que o brasileiro desiludido percebe o efeito que as medidas econômicas e a escassez de energia terão na sua vida e na atividade do país: um choque de desconfiança.

No conjunto, os números da pesquisa Datafolha revelam um cidadão frustrado e irritado, mas ainda assim capaz de perceber com mais clareza e responsabilidade do que os governantes a necessidade de implementar medidas de contenção das diversas crises.

Brasileiros que, na maioria, optam por decisões realistas, se tratados com respeito democrático; isto é, se bem informados, se não são privados do direito de debate das questões públicas. De outro modo, como agora, manifestam sua revolta por terem sido enganados.

A pesquisa traz um alerta claro.

Reforma é para melhorar – Editorial / O Estado de S. Paulo

Em julho de 2013, no calor das manifestações que tomaram conta do País, a presidência da Câmara dos Deputados criou um grupo de trabalho, sob a coordenação do então deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), para estudar e apresentar propostas referentes à reforma política. Desse grupo, saiu a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 352/13. Na terça-feira passada, em um dos primeiros atos como presidente da Câmara, o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) deu andamento à tramitação da proposta, pondo em votação diretamente no plenário a admissibilidade da PEC, como lhe permite o Regimento Interno da Casa, para acelerar o processo. O próximo passo é a criação de uma comissão especial para analisar a proposta.

Não há o que objetar à decisão do presidente da Câmara de dar prioridade à reforma política. Mas, tendo em vista o teor da atual proposta e as recentes declarações do deputado Eduardo Cunha - que disse ser perigosa a tentativa de criminalizar o financiamento privado de campanha -, essa pressa em pôr em andamento a tramitação da PEC 352/13 não parece estar muito sintonizada com os apelos da sociedade por uma nova política.

Além de prever o voto facultativo, o fim da reeleição (para presidente, governador e prefeito), a cláusula de barreira para partidos pequenos e a coincidência das datas das eleições a cada quatro anos, a PEC 352/13 mantém o atual sistema de financiamento das campanhas eleitorais, com a possibilidade de que pessoas jurídicas façam doações aos partidos políticos. E é aí que reside o perigo.

Se há uma mudança que pode significar uma efetiva melhora do sistema político brasileiro, essa mudança é a proibição do financiamento das campanhas eleitorais por parte das empresas. O motivo é simples: as empresas não têm direito a voto. E, no momento em que financiam campanhas eleitorais, as empresas assumem um protagonismo eleitoral que não lhes corresponde, ao influenciar o voto de quem detém o direito a ele - o cidadão.

Os direitos políticos correspondem ao cidadão. E daí provém a legitimidade do financiamento privado de campanhas eleitorais por parte das pessoas físicas. Excluir as pessoas físicas da possibilidade de patrocinarem as suas causas políticas seria limitar a sua participação política, participação esta que não se resume a votar, mas inclui - entre tantos outros aspectos - a promoção e divulgação das suas ideias políticas.

O motivo que leva a permitir o financiamento de campanhas eleitorais por parte de pessoas físicas é o mesmo que leva a concluir pela proibição do financiamento de campanhas eleitorais por parte de pessoas jurídicas. O critério está em ter ou não ter direitos políticos, já que fazer doações a partidos políticos é uma forma de participar do processo político.

Além do mais, o fim do financiamento das campanhas eleitorais por parte das pessoas jurídicas possibilitaria uma relação mais saudável entre empresas e governo. Atualmente, as grandes doadoras de campanha são as empresas com forte atuação em projetos públicos, e essa proximidade de interesses - mesmo que não seja ilegal - não contribui para a lisura do processo democrático.

Por tudo isso, é perigosa a atual redação da PEC 352/13. A proposta de emenda à Constituição implica mais do que uma mera manutenção do atual sistema de financiamento eleitoral. Significaria dar respaldo constitucional ao atual modelo.

E aqui pode estar o motivo da pressa de Eduardo Cunha - querer se adiantar ao julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) a respeito da constitucionalidade das doações de pessoas jurídicas aos partidos políticos. O processo no STF, no qual seis ministros já votaram a favor da proibição desse tipo de doação, está suspenso desde abril do ano passado, em razão de um pedido de vista do ministro Gilmar Mendes.

A PEC 352/13 seria uma reforma que deixaria o sistema ainda pior do que está, ao conferir status constitucional a um tipo de financiamento que contraria os princípios democráticos. E parece que não era bem isso o que a sociedade queria ao pedir por uma reforma política. Reforma é para melhorar, não para piorar.

Sob o símbolo de "Moch" – Editorial / Veja

A Operação Lava-Jato apurou que a organização criminosa instalada na Petrobras loteou as diretorias. Uma servia ao PMDB, outra ao PP e demais partidos da base aliada. A diretoria de Serviços, comandada por Renato Duque e Pedro Barusco, era exclusiva do PT.

Com a divulgação na semana passada do depoimento de Barusco dado à Polícia Federal em novembro de 2014, o foco da Lava-Jato recaiu sobre o PT, justamente no momento em que o partido comemorava 35 anos de sua fundação. Barusco estima que o PT tenha tirado em dez anos meio bilhão de reais em propinas cobradas por ele e Duque das empreiteiras investigadas no escândalo do petrolão. Vale repetir.

Meio bilhão de reais. Essa montanha de dinheiro foi extraída dos noventa maiores contratos de empresas com a Petrobras entre 2003 e 2013.

Barusco é aquele que se ofereceu para contar o que fez junto com Renato Duque na Petrobras e se prontificou a devolver ao Tesouro Nacional o equivalente a 100 milhões de dólares do montante desviado.

O PT surgiu no horizonte político em 1980 como uma estrela iluminada pela feliz conjugação da esquerda democrática com o sindicalismo de resultados.

Carismático, bom negociador e anticomunista, Lula completava o quadro de esperança do país, que se preparava para enterrar o regime militar, abrindo espaço para um quadro político dinâmico e consensual, totalmente diferente daquele polarizado entre esquerda e direita tradicionais, tão corruptas quanto dogmáticas. Há 35 anos o PT era um partido de ideias alinhadas com o que havia de mais universal, contemporâneo e inovador na esquerda mundial, a rejeição ao totalitarismo soviético, a disposição ao diálogo entre patrões e empregados e a convivência produtiva entre os governos e os mercados. Lula se insurgia contra os barões da esquerda dogmática. Em um comício como primeiro presidente do PT, ele disparou: "Aqueles que têm o privilégio de ler um belo livro de Marx ou Lenin confortavelmente deitados, evitem ditar regras aos trabalhadores".

A experiência de poder, em especial de poder federal, acabou com o que sobrara daqueles tempos heroicos. O PT, como tantas outras forças revolucionárias da história, sucumbiu à maldição de Saturno, o dito clássico segundo o qual as revoluções devoram os próprios filhos. O PT devorou seus ideais originais. A corajosa universalidade deu lugar ao nacionalismo canhestro.

O partido chegou aos 35 anos vergado sob o peso das ideologias retrógradas contra as quais se insurgia. Chegou mestre em fisiologismo, prática que prometera erradicar. Chegou com a imagem, justa ou não, de a mais corrupta organização partidária brasileira. Melancolicamente, o símbolo do PT aos 35 anos de idade é o "Moch", diminutivo de mochila, apelido entre os corruptos de João Vaccari Neto, tesoureiro do partido, que, na semana passada, foi levado "sob vara" a depor.

Essa operosa mochila levava a políticos do PT dinheiro vivo e sujo do esquema do petrolão. Triste efeméride para quem chegou ao Palácio do Planalto para consertar "tudo isso que está aí" e em doze anos de poder o que fez mesmo foi aderir às piores práticas da política e aprimorá-las.

Paulinho da Viola - Foi um rio que passou em minha vida

João Cabral de Melo Neto - Encontro com um poeta

Em certo lugar da Mancha,
onde mais dura é Castela,
sob as espécies de um vento
soprando armado de areia,
vim surpreender a presença,
mais do que pensei, severa,
de certo Miguel Hernández,
hortelão de Orihuela.

A voz desse tal Miguel,
entre palavras e terra
indecisa, como em Fraga
as casas o estão da terra,
foi um dia arquitetura,
foi voz métrica de pedra,
tal como, cristalizada,
surge Madrid a quem chega.

Mas a voz que percebi
no vento da parameira
era de terra sofrida
e batida, terra de eira.

Não era a voz expurgada
de suas obras seletas:
era uma edição do vento,
que não vai às bibliotecas,
era uma edição incômoda,
a que se fecha a janela,
incômoda porque o vento
não censura mas libera.

A voz que então percebi
no vento da parameira
era aquela voz final
de Miguel, rouca de guerra
(talvez ainda mais aguda
no sotaque da poeira;
talvez mais dilacerada
quando o vento a interpreta).

Vi então que a terra batida
do fim da vida do poeta,
terra que de tão sofrida
acabou virando pedra,
se havia multiplicado
naquelas facas de areia
e que, se multiplicando,
multiplicara as arestas.

Naquela edição do vento
senti a voz mais direta:
igual que árvore amputada,
ganhara gumes de pedra.

--------------------------------
João Cabral de Melo Neto (Recife, 9 de janeiro de 1920 - Rio de Janeiro, 9 de outubro de 1999) - Além de poeta, foi um diplomata brasileiro. Classificado como poeta da geração 45, terceira geração do modernismo, foi agraciado com diversos prêmios ao longo de sua carreira de escritor. Foi membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Pernambucana de Letras.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Opinião do dia – Aécio Neves

“Bendine é ligado ao mesmo governo que permitiu que uma quadrilha se instalasse na companhia e que faz o que pode para descredibilizar as investigações do esquema para, assim, blindar a presidente Dilma e Lula. A indicação dele sinaliza também que a interferência do governo na estatal irá continuar.”
-----------------------
Presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG). O Globo, 7 de janeiro de 2015

Dilma escolhe presidente do BB para chefiar Petrobras

• Opção por Bendine também tem como objetivo blindar o Planalto em CPI

• Presidente decidiu o sucessor de Graça sem ouvir ninguém, prática que vem se tornando cada vez mais comum

Natuza Nery, Andréia Sadi – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - Em uma decisão solitária, a presidente Dilma Rousseff nomeou nesta sexta-feira (6) Aldemir Bendine, 51, para o lugar de Graça Foster no comando da Petrobras. Ex-chefe do Banco do Brasil, o novo executivo assume a empresa na maior crise de sua história com o desafio de rever o plano de negócios da petroleira.

Segundo a Folha apurou, Bendine se dedicará a resolver os problemas de caixa e a apresentar, em curto prazo, números confiáveis relativos ao tamanho dos desvios derivados da corrupção.

A meta é considerada crucial para que o balanço da companhia possa, finalmente, ser auditado. Sem isso, a Petrobras perderá acesso a empréstimos e terá de ser socorrida pelo governo.

A indicação de Bendine, nome da estrita confiança da presidente, tem como objetivo adicional blindar minimamente o Planalto diante de uma CPI no Congresso.

Dilma tinha apenas dois dias para executar a substituição após a antiga diretoria se recusar a permanecer na companhia por mais tempo.

Apesar dos rumores de que a petista ainda buscava um nome na quinta (5), Bendine já estava confirmado no cargo desde o dia anterior.

Para evitar vazamentos à imprensa, algo que a tira do sério, pouquíssimas pessoas souberam da articulação.

Ela escolheu o sucessor da amiga Graça Foster sem ouvir ninguém, prática que vem se tornando cada vez mais comum à medida que as dificuldades do governo se aprofundam. Nem mesmo ministros próximos foram informados com antecedência, muito menos o ex-presidente Lula.

Além da confiança, Bendine assumiu a maior empresa do Brasil pela atuação bem sucedida à frente do Banco do Brasil. Sua indicação mantém intocada a influência do Planalto nas decisões da empresa e, ao mesmo tempo, amplia a interlocução da Petrobras junto ao mercado.

Bendine já demonstrou experiência em pegar uma instituição em apuros e reerguê-la. Foi assim no BB, sua casa desde os tempos de office-boy. A partir de 2009, quando assumiu, triplicou os ativos do banco. Foi alçado ao posto de presidente do BB para executar o plano do governo de reduzir os juros nos empréstimos e, assim, forçar bancos privados a fazer o mesmo.

Sua escolha fez as ações da Petrobras caírem quase 7%. Investidores esperavam solução nos moldes de Joaquim Levy, ministro da Fazenda sem proximidade política com Dilma, e leram a nomeação como sinal de que o governo continuará interferindo nas decisões da petroleira.

Críticos pontuam que a origem de desmandos administrativos nos últimos anos se deu justamente pelo grau de ingerência da presidente.

O exemplo mais evidente foi o controle do preço da gasolina, segurado a rédeas curtas para evitar contratempos políticos e impactos inflacionários no período eleitoral.

Bendine possui boas relações com o Bradesco --é próximo de seu presidente, Luiz Traduco. Na política, costuma frequentar o Instituto Lula.

Nos últimos meses, ele ganhou pontos junto à chefe ao liderar uma operação com bancos privados para salvar a Sete Brasil, empresa que toca a cadeia do pré-sal.

Muitas das empreiteiras acusadas de envolvimento no esquema de corrupção são parceiras da Sete. Para evitar o colapso da companhia, Dilma escalou Bendine para ajudar a destravar empréstimos.

A escolha da presidente pegou petistas de surpresa. "Ele não tem perfil para gerenciar uma crise dessa dimensão", disse um dirigente da cúpula da sigla. A oposição afirmou que o objetivo da indicação é blindar PT e governo das denúncias sobre a estatal.

No Banco do Brasil, um fiel escudeiro do Palácio do Planalto

• À frente do maior banco da América Latina, Bendine seguiu recomendações do governo federal e não se importou com críticas

Murilo Rodrigues Alves - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O engenheiro Ivan de Souza Monteiro costuma seguir um ritual antes de qualquer apresentação que faça em público: fica sozinho por alguns minutos, em silêncio, não atende telefone, não responde e-mail nem mensagens. Aqueles que trabalham com ele dizem que ele faz isso porque é tímido e fica nervoso. Mas quem o assiste não pode imaginar que haja ali qualquer traço de insegurança. É bem verdade, no entanto, que ele é mais seguro e falante nas rodas que se formam depois dos eventos.

Como vice-presidente de Gestão Financeira e Relações com Investidores do Banco do Brasil, Monteiro sempre se mostrou firme. É considerado um excelente e competente executivo por seus pares no mercado financeiro e também por boa parte de seus colegas de banco. Tem crédito perante investidores.

Assim como Aldemir Bendine, que agora assume a presidência da Petrobrás, Monteiro é considerado um executivo de carreira, que tem certo trânsito político que possibilitou a ele galgar postos no BB. Entrou no banco pela agência de Santa Rita de Sapucaí, em Minas Gerais, ainda na década de 80. Nos anos 2000, teve passagens pelas filiais de Nova York e Lisboa, onde foi gerente. Chegou a diretor comercial em maio de 2009 e poucos meses depois assumiu a vice-presidência, onde esteve até esta sexta-feira, 6.

Diferentemente de Bendine, Monteiro é considerado mais técnico que político. Sua origem é a "turma do banco" no Rio de Janeiro, onde viveu quase toda sua vida apesar de ter nascido em Manaus e ter feito faculdade em Minas.

Teria uma ligação natural com o PMDB, segundo afirmam algumas fontes. Como diz um ex-colega, "ele nunca foi ligado à esquerda". "Tem um estilo Levy", em referência ao ministro da Fazenda, Joaquim Levy, considerado um neoliberal pelos petistas.

Mas mesmo que seja visto com esse perfil a la "Chicago Boy", Monteiro sempre buscou durante entrevistas coletivas, quando apresentava resultados do BB, ou mesmo nas teleconferências com investidores, ter uma resposta cuidadosa para qualquer questão que pudesse afrontar políticas de governo. Nunca se esquivou de perguntas, apesar de não necessariamente responder o que lhe era perguntado.

Na última coletiva, depois da apresentação do balanço, foi provocado sobre se o aumento das provisões para perdas de devedores duvidosos naquele trimestre teria sido em razão dos empréstimos a Val Marchiori, a socialite amiga de Bendine que recebeu R$ 2,7 milhões. Sem titubear, respondeu: "Esse assunto é com ele", apontando para o assessor de imprensa e se retirando imediatamente do recinto.

O governo considera que a recepção negativa com o nome de Aldemir Bendine para a presidência da Petrobrás não pode ser considerada o melhor parâmetro para medir o sucesso do executivo à frente da estatal. A equipe de Dilma Rousseff lembra que a queda de 6,94% das ações preferenciais da companhia, que são as mais negociadas, ontem, foi menor do que o impacto nas ações do Banco do Brasil quando Bendine foi anunciado como presidente da instituição financeira - em 8 de abril de 2009, as ações do BB despencaram 8,15%.

Há quase seis anos, Bendine foi escolhido pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para comandar o BB com a condição de seguir à risca uma espécie de contrato de gestão: ampliar a participação do banco no mercado de crédito, oferecer melhores condições de empréstimo e ser mais agressivo com a concorrência. O ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, também determinou que ele orientasse o setor de seguros, área em que o BB estava atrás dos concorrentes. Seu antecessor, Antonio Francisco de Lima Neto, não seguiu a cartilha do Planalto e foi retirado do cargo.

À frente do BB, Bendine seguiu todas as recomendações do governo federal e não se importou com críticas de que o banco, sob sua gestão, se tornou um braço do governo na aplicação da política econômica. "Eu resgatei um pouco esse papel do Banco do Brasil enquanto agente de desenvolvimento econômico e social. Queria dizer: ele tem um papel de governo, de fato", disse, em entrevista ao Estado em agosto de 2013.

Ele deixa o comando do maior banco da América Latina, com volume de ativos que ultrapassa a marca de R$ 1,3 trilhão. O BB aumentou a participação no mercado em meio à retração dos bancos privados. Pelos dados mais atualizados - do 3.º trimestre do ano passado -, o BB tem a maior carteira de crédito entre as instituições financeiras brasileiras, correspondente a 21,1% do mercado de crédito nacional. É maior banco da América Latina, com mais de 100 mil funcionários e mais de 60 milhões de clientes.

Office-boy. Bendine nasceu em 1963 em Paraguaçu Paulista (SP). Graduado em administração de empresas, ingressou no BB em 1978, com 14 anos, como office-boy. Antes de assumir a presidência da instituição, era vice-presidente de Cartões e Novos Negócios de Varejo.

O novo presidente da Petrobrás tem laços políticos com o PT, apesar de não ser filiado à sigla. Entre seus padrinhos, está o ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini, que fez carreira no sindicalismo bancário. O Palácio do Planalto, ainda com Lula, colocou Bendine à frente do BB para influenciar mais diretamente as decisões da instituição pública com o objetivo de minimizar efeitos da crise econômica. Em 2012, quando o governo iniciou uma cruzada contra o alto custo do crédito no País, o BB foi o primeiro banco a ver espaço para reduzir os juros e as taxas bancárias, sendo seguido, pelos demais concorrentes.

Nem mesmo as polêmicas em que esteve envolvido diminuíram o prestígio dele com Lula e Dilma. Uma das últimas diz respeito a empréstimo do BB, com recursos do BNDES, aprovado para a socialite Val Marchiori (mais informações na pág. A7). Ele também pagou multa de R$ 122 mil à Receita Federal ao ter sido autuado por não informar a procedência de R$ 280 mil na declaração do Imposto de Renda.

O primeiro imbróglio foi em 2012, quando disputou o poder com Ricardo Flores, presidente da Previ (fundo de pensão do Banco do Brasil) na época. Dilma ameaçou demitir ambos, mas apenas Flores e o ex-vice-presidente Allan Toledo, que se aliou a Flores, foram defenestrados e perderam o poder.

Bendine tem carta-branca, mas ações despencam

As metas de Bendine

  • Novo presidente assume com carta-branca de Dilma para aumentar controle financeiro da estatal

Gabriela Valente – O Globo

Escândalos na Petrobras

BRASÍLIA - Com poucas horas no cargo, o novo presidente da Petrobras, Aldemir Bendine, traçou um plano para blindar a estatal do maior escândalo de corrupção do país. São três metas, segundo o novo presidente informou a fontes ouvidas pelo GLOBO. A missão mais urgente é resolver a questão contábil, que levou a empresa a não ter seu balanço financeiro auditado pela consultoria PricewaterhouseCoopers (PwC). Bendine deve passar o fim de semana lendo 800 páginas sobre as metodologias utilizadas na empresa para começar a ter noção do trabalho que tem de ser feito. E já avisou a alguns funcionários que urgência não significa trabalho malfeito.

Para isso, será feita uma avaliação de perdas e alguns testes de retorno financeiros sobre vários ativos. A nova diretoria ainda pretende fortalecer a área financeira com um novo plano de negócios. O terceiro objetivo é fazer com que a petrolífera atravesse a investigação da Operação Lava-Jato com o mínimo de danos. Bendine recebeu carta-branca da presidente Dilma Rousseff para fazer o que for preciso, até reformar o estatuto da Petrobras.

As tarefas mais árduas já foram repassadas a Ivan Monteiro, o novo diretor financeiro, segundo fontes do setor. O técnico era até ontem o vice-presidente de Finanças do Banco do Brasil, e subordinado a Bendine na instituição. A primeira avaliação do técnico foi que é preciso criar um processo financeiro mais confiável, como o que teria feito no BB. A primeira ação é resolver a questão do balanço, já que isso influencia diretamente na imagem da estatal no mercado financeiro. A divulgação das perdas de R$ 88 bilhões com corrupção na semana passada foi considerada uma "barbeiragem" pelo governo, que alega que a avaliação não seguiu a melhor metodologia para o cálculo.

Em segundo lugar, o objetivo é fortalecer a área financeira. Para isso, Monteiro - considerado pelo mercado um dos melhores na área - deve analisar a situação de caixa e promover novas captações para resolver problemas mais urgentes. A intenção é fazer um "novo mix" nas finanças da instituição. A nova diretoria quer rediscutir papéis dentro do corpo técnico. E, depois disso, criar um novo plano de negócios, de investimentos e de capital.

A terceira missão é enfrentar a Lava-Jato, mas a avaliação do novo presidente é que a empresa tem tratado a investigação com transparência e colaborado com a PF e o Ministério Público.

Antes da reunião de ontem do conselho da Petrobras, Graça Foster, que renunciou ao cargo de presidente da empresa dois dias antes, conversou com Bendine e se colocou à disposição para colaborar numa transição mais tranquila. Segundo funcionários da estatal, Graça está abalada emocionalmente com o escândalo e com a forma que a levou a sair da empresa, na renúncia coletiva da diretoria.

Bendine não participou da primeira parte da reunião do conselho da estatal e só entrou na sala após ter o nome aprovado. Enquanto o ex-ministro da Fazenda e ainda atual presidente do colegiado, Guido Mantega, conduzia a reunião que votava sua escolha, Bendine aguardava em uma sala ao lado. Segundo participantes, os acionistas minoritários se incomodaram quando souberam que o nome de Bendine havia sido veiculado pela imprensa como o novo presidente mesmo antes da votação.

Bendine foi convidado para o posto na quarta-feira, quando Dilma o chamou para uma conversa e apresentou a missão. No encontro, ela teria dado autonomia total para o executivo.

Lula vê ação para Dilma 'não concluir mandato'

• Em Belo Horizonte, ex-presidente conclama petistas, faz defesa de tesoureiro do partido e afirma que opositores buscam 'atalhos para o poder'

Ricardo Galhardo, Ricardo Della Coletta e Marcelo Portela - O Estado de S. Paulo

BELO HORIZONTE - O ex-presidente Luiz Inácio Lula usou boa parte de seu discurso de cerca de 40 minutos no evento de comemoração dos 35 anos do PT para distribuir alfinetadas a adversários e críticas à imprensa. Sem citar nomes, o presidente de honra da legenda entremeou a história da sigla desde sua fundação com diversas indiretas aos tucanos que, segundo o petista, não "querem mais esperar outra derrota" nas urnas e "apostam no caos" buscando "atalhos para o poder".

“Não é fácil um partido de esquerda governar um país importante como o Brasil. Eles não querem nem deixar concluir o mandato da Dilma, tentando criar todo e qualquer processo de desconfiança. Querem que o PT seja desacreditado na sociedade brasileira”, afirmou Lula, segundo a Agência PT de Notícias.

Apesar de a maior parte das falas terem sido lidas, Lula manteve a tradição e ao menos a abertura de suas declarações foi feita de improviso. E usou este momento para comparar as investigações em torno de desvio de recursos da Petrobrás com o mensalão, criticando a condução do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, para depor nas investigações da Operação Lava Jato mediante ordem judicial.

"Ontem (quinta) fiquei indignado. Tenho que ter cuidado para não passar aqui, nessa festa de 35 anos, a indignação. (Mas) seria mais fácil a Polícia Federal convidar nosso tesoureiro para se apresentar. Seria muito mais simples dizer que estou vendo o mesmo ritual que começou em 2012 no que chamaram de mensalão", disse. E direcionou críticas também à imprensa, que, de acordo com ele, mantém "um ritual" com renovação semanal de assuntos para atacar o PT.

Mas Lula direcionou mesmo suas baterias contra a forma como o partido tem sido tratado principalmente a partir da última campanha eleitoral, classificada pelo ex-presidente como "a mais difícil" enfrentada pela legenda. "Certamente, a mais suja. Aquela em que nossos adversários utilizaram as piores armas para tentar nos derrotar. Tentaram fraudar a vontade política da maioria, usando todos os seus recursos de comunicação para manipular, distorcer, falsear e até inventar episódios contra nosso partido, nosso governo e nossa candidata", disparou.

E, de acordo com o presidente, a derrota "despertou os mais baixos instintos" dos adversários. "Tiveram a ousadia de pedir recontagem dos votos, como se o Brasil ainda fosse aquela república das eleições a bico de pena. Tentaram impugnar a prestação de contas da campanha e barrar a diplomação da presidenta. Tentaram criar um ambiente de inconformismo com o resultado que se recusam a aceitar democraticamente", enumerou. E ressaltou que "a luta não acabou". "Nossos adversários não podem dizer qual é o seu projeto, porque é antinacional, contrário ao desenvolvimento. Eles só podem atacar o PT e o nosso governo com as armas da irracionalidade e do ódio", salientou.

E, em meio à leitura de trechos do manifesto de fundação do PT, relacionou as mudanças pelas quais o País passou após o partido chegar ao governo federal. Sem pontuar ações adotadas por Dilma nos primeiros dias do atual mandato criticadas por entidades sindicais e movimentos sociais, Lula fez uma comparação com o tratamento de um câncer pelo qual passou para defender medidas "duras" e "amargas" para "garantir avanços". Ao citar as sessões de quimioterapia e radioterapia a que teve que se submeter, disse que não houve "nada pior" na vida. "Mas era disciplinado e precisava para estar aqui bonitão", brincou.

Lula ainda deu um recado aos companheiros dizendo que "o verdadeiro problema do PT é que ele se tornou um partido igual aos outros", conclamando os correligionários a manter os ideais de fundação da legenda. E garantiu que o partido jamais vai "trair o compromisso com o povo ignorante, que o príncipe da Sociologia tratou assim", em clara referência a seu antecessor na Presidência da República, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso.

PT aplaude e Lula elogia Vaccari

Vaccari é aplaudido em reunião no PT e defendido por Lula

• Lula ataca imprensa, justiça e a oposição

• Na festa dos 35 anos, Dilma conclama partido a resistir ao ‘golpismo’ dos adversários: Não podemos vacilar’

Tatiana Farah e Thiago Ricci – O Globo

BELO HORIZONTE- Um dia depois de ser conduzido à força para depor na Polícia Federal e acusado de receber US$ 50 milhões de propina no esquema de corrupção da Petrobras, o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, foi aplaudido ontem no encontro do Diretório Nacional do partido, em Belo Horizonte, ao falar sobre o depoimento e afirmar que respondeu todas as perguntas dos policiais, sem deixar nenhuma sem resposta.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva também recebeu aplausos de petistas ao defender Vaccari. Em encontro a portas fechadas, Lula pediu apoio ao tesoureiro e, com a ressalva de que pessoas que cometem erros devem pagar, usou o seguinte argumento para afirmar que confia em Vaccari:

- Na dúvida, fique com o companheiro.

Lula classificou o depoimento coercitivo de Vaccari como "repugnante" e conclamou dirigentes a não vacilarem na defesa do partido e do tesoureiro.

As acusações contra o PT e Vaccari constam da delação premiada do ex-gerente da Petrobras, Pedro Barusco, na Operação Lava-Jato.

- Se a ficarmos quietos, a sentença já está dada. O PT vai ter que voltar pra luta. Não podemos permitir que quem não tem moral venha dar moral na gente - disse o ex-presidente.

Lula ainda disse aos correligionários ter aprendido que "há situações que não têm sustentação", e acrescentou acreditar que a denúncia do ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco é um desses episódios. O ex-presidente disse que não vai "admitir a criminalização das doações privadas ao partido" e acrescentou ter aprendido com o processo do mensalão que o julgamento "é político, não jurídico".

Confiança de Rui Falcão
Vaccari, por sua vez, anunciou que o partido fará corte de gastos. O discurso de Lula vai na mesma linha do que foi dito anteontem pelo presidente do PT, Rui Falcão, que afirmou que sequer perguntaria a Vaccari sobre supostos desvios de recursos porque tem "confiança de que ele nunca colocou dinheiro do bolso".

O deputado Arlindo Chinaglia afirmou que é preciso tomar cuidado com a "eventual exploração midiática" da condução coercitiva do tesoureiro.

- Evidentemente que quando o tesoureiro Vaccari vai depor de forma coercitiva, é preciso ter um cuidado quanto a uma eventual exploração midiática de fatos ruins. É preciso ter cautela - afirmou Chinaglia.

O novo líder do governo na Câmara, deputado José Guimarães (PT-CE), disse que é necessário recompor a base e organizar o partido e a militância. Guimarães também defendeu o ajuste fiscal do governo e afirmou que para isso era preciso dialogar com os movimentos sociais. Esta semana, o presidente nacional da CUT, Vagner Freitas, disse que o governo errou e retrocedeu em conquistas trabalhistas.

"O PT está em uma encruzilhada e precisa de mudanças", afirma um texto divulgado durante a reunião do diretório nacional do partido pela segunda maior força da sigla, o grupo Mensagem ao PT, do qual fazem parte o ex-governador Tarso Genro, o ministro José Eduardo Martins Cardozo e os integrantes da Democracia Socialista (DS), como os ministros Pepe Vargas e Miguel Rossetto. O documento acusa a mídia de formar um "cartel" e pede reação dos petistas. Para a Mensagem, a mídia "transformou política em crime".

"Ou aprofundamos o processo de transformação que desencadeamos na sociedade brasileira, produzindo alterações relevantes no sistema político partidário do país e que resultou nos governos Lula e Dilma, ou sucumbimos à moléstia que acometeu as legendas que nos precederam", afirma o texto.

A proposta, que não foi integralmente encampada pelo PT, diz ainda que as autoestimas dos brasileiros e do partido foram "sistematicamente demolidas pelo cartel da mídia conservadora que pretende converter a política em crime". O texto prossegue: "Esse cartel, verdadeiro obstáculo ao avanço da democracia e ao direito à informação, não suporta a altivez que conquistamos com os governos Lula e Dilma diante do mundo".

Fundo partidário menor
Vaccari frisou a necessidade de o partido em economizar recursos. Com 20 deputados a menos que na legislatura anterior, o partido viu encolher a cota do fundo partidário, recurso público do Orçamento da União distribuído aos partidos com base na representação da bancada na Câmara dos Deputados. O PT estima que deve deixar de receber, no mínimo, R$ 1 milhão mensais do Fundo Partidário.

Em festa do PT, Lula diz que desvios 'nos envergonham'

Lula critica PT e diz que partido tem se tornado igual aos outros

• Nos 35 anos da sigla, ex-presidente afirma que petistas praticam vícios que sempre criticaram

• Dilma defende estatal e diz que quem errou tem de pagar, mas que é preciso preservar a história da legenda

Catia Seabra, Andréia Sadi – Folha de S. Paulo

BELO HORIZONTE - Em um discurso para militantes no aniversário de 35 anos do PT, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva admitiu que o partido sofreu desgastes no governo, lamentou a repetição de desvios e disse que a sigla está se tornando igual a outras.

Lula esteve com a presidente Dilma Rousseff nas comemorações dos 35 anos do partido, em Belo Horizonte.

Segundo ele, o PT pratica vícios que sempre criticou na política tradicional. "É neste ambiente que alguns cometem desvios que nos envergonham. Precisamos dar um fim a essa situação", discursou, sem citar casos de corrupção, como a crise na Petrobras.

O ex-presidente lamentou que "o PT tem se tornado cada vez mais um partido igual aos outros". "Cada vez mais deixando de ser um partido de base para se transformar num partido de gabinete."

Segundo Lula, muitos petistas "estão mais preocupados em se manter nos cargos. E essa é a origem dos vícios da militância paga".

Ele comparou a adoção de medidas amargas na economia ao tratamento contra o câncer a que ele e Dilma foram submetidos. Para justificar, disse que os dois são obrigados a tomar medidas que não querem. "Faça o que tiver que fazer. Faça, Dilma. Um erro desastroso nosso seria não atender ao povo brasileiro."

Lula disse que ficou tão indignado com a "condução coercitiva" do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, para depor à Polícia Federal, que preferiu ler seu discurso.

"Eles estão repetindo o mesmo ritual que começou em 2005, quando começaram as denúncias que eles chamaram de mensalão", afirmou, acrescentando: "na campanha, Dilma foi vítima disso como poucas vezes vi ser".

Lula também criticou a atuação da imprensa. "Eles trabalham com a convicção de que é preciso criminalizar o partido, não importa se é verdade ou não é verdade. O que importa é a construção da narrativa".

Após chamar o ex-presidente FHC de "príncipe da sociologia", Lula disse que a oposição não tem autoridade para atacar o governo. "Não se incomodam do prejuízo que causaram à Petrobras e ao Brasil. Eles vão prestar contas à história".

Ao discursar, Dilma defendeu a Petrobras e, sem citar nomes, disse que quem errou tem que pagar, mas que é preciso preservar a história do PT. "Se tiver erro, aqueles que erraram paguem por eles. Mas devemos preservar a história deste partido e dos nossos governos."

A presidente não fez menção ao tesoureiro do PT. Ele estava presente no evento.

A petista disse que o partido tem que ter orgulho e não pode aceitar que "alguns" coloquem a Petrobras como "vergonha". Afirmou ainda repudiar a "tentativa de golpe contra a manifesta vontade popular", em recado a quem prega que ela seja alvo de processo de impeachment.

Ela defendeu apuração das irregularidades: "É fundamental que não deixemos repetir nenhuma irregularidade dentro da Petrobras".

Para oposição, interferência do governo continuará

• Líderes ironizam e criticam escolha política feita por Dilma

Adriana Mendes, Cristiane Jungblute e Chico de Gois - O Globo

BRASÍLIA - Para líderes da oposição, o principal motivo que levou a presidente Dilma Rousseff a escolher Aldemir Bendine foi a dificuldade de achar um nome que aceitasse afastar o Planalto dos escândalos da Petrobras.

A proximidade do executivo com o grupo político de Dilma e do ex-presidente Lula, num momento em que a empresa enfrenta sua mais grave crise de credibilidade, causou surpresa aos parlamentares, que defenderam a adoção de um mecanismo que obrigue as indicações para o comando da estatal a passar pelo crivo do Legislativo. E todos oposicionistas lembraram ainda as denúncias que envolvem o ex-presidente do Banco do Brasil.

- Bendine é ligado ao mesmo governo que permitiu que uma quadrilha se instalasse na companhia e que faz o que pode para descredibilizar as investigações do esquema para, assim, blindar a presidente Dilma e Lula. A indicação dele sinaliza também que a interferência do governo na estatal irá continuar - criticou o presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG).

Assim como Aécio, o presidente nacional do DEM, senador José Agripino Maia (RN), também foi irônico:

- Para substituir a presidente da Petrobras, a exigência maior era escolher alguém da total confiança de Dilma. Ponto. A escolha foi feita.

Os líderes da oposição foram unânimes em criticar a decisão da indicação política, ao invés de um técnico do setor que pudesse recuperar a empresa com independência e credibilidade do mercado.

Ex-líder do PSDB no Senado, Aloysio Nunes Ferreira (SP) ironizou a opção presidencial, afirmando que o novo presidente da estatal "entende tanto de petróleo como a Palmirinha", referindo-se a apresentadora de um programa de TV sobre culinária.

O deputado Júlio Delgado (PSB-MG), por sua vez, defendeu que seja aprovado um mecanismo que obrigue essas indicações a passarem pelo crivo da sociedade, via Legislativo. Assim, seria evitada, por exemplo, a ingerência política em um cargo estratégico como a presidência da Petrobras.

- A presidente Dilma pensou: ou explode o Brasil ou explodimos nós. Preferível explodir o Brasil - disse Delgado.

Presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) disse aguardar os desdobramentos e não quis comentar a indicação:

- Prefiro não opinar.

Os partidos começaram ontem a apresentar os nomes que irão compor a CPI da Petrobras na Câmara. O início da CPI se dará após o Carnaval, mas a expectativa é que todos os membros sejam indicados ainda na próxima semana.

CPI: PT quer emplacar relator
O líder do PT, Sibá Machado (AC), disse que irá brigar para emplacar um petista como relator. O nome, no entanto, ainda será definido até segunda-feira. Ontem, o PSD indicou os deputados Paulo Magalhães (BA) e Silas Câmara (AM) como titulares da comissão; o Solidariedade escolheu Paulinho da Força (SP); o PSDB terá o estreante Bruno Covas (SP), além de Izalci (DF) e Otávio Leite (RJ); pelo PR, estarão João Carlos Bacelar (BA) e Altineu Côrtes (RJ), outro estreante na Câmara; e o líder do PROS, Domingos Neto (CE), ligado ao ministro da Educação, Cid Gomes, optou pelo próprio nome para integrar a CPI.

Comando da estatal racha e 3 ficam contra escolhido de Dilma

• Votos contrários vieram de 'independentes'; demais membros do conselho foram escolhidos pelo governo

• Minoritários foram surpreendidos com a escolha; currículos de novos diretores vieram incompletos

Raquel Landim, Samantha Lima - Folha de S. Paulo

SÃO PAULO, RIO - Três membros do Conselho de Administração da Petrobras votaram nesta sexta-feira (6) contra a escolha de Aldemir Bendine para presidir a empresa. Ele teve seis votos a seu favor.

O racha no alto comando da estatal se deu em meio a mais grave crise vivida pela estatal, envolvida em denúncias de corrupção investigadas pela Operação Lava Jato.

Os votos contrários a Bendine, que até esta sexta-feira presidia o Banco do Brasil, vieram de Mauro Cunha e José Guimarães Monforte, que representam os acionistas minoritários da estatal, além de Silvio Sinedino, eleito pelos trabalhadores.

Eles declararam sua insatisfação com o processo de troca de comando da estatal conduzido pela presidente Dilma Rousseff depois que Graça Foster e todos os diretores renunciaram.

"É um episódio de desrespeito ao conselho. A União mais uma vez impõe sua vontade sobre os interesses da Petrobras, ignorando os apelos de investidores de longo prazo", disse Cunha, em nota.

Apenas esses três conselheiros são considerados independentes pelo mercado. Os demais foram escolhidos, direta ou indiretamente, pelo governo federal, que é o acionista majoritário.

Currículo incompleto
Segundo a Folha apurou, os conselheiros foram surpreendidos com a notícia da escolha de Bendine, que vieram a saber pela imprensa. Só foram informados oficialmente da escolha do novo presidente no meio da reunião realizada nesta sexta.

Os conselheiros então solicitaram que fossem distribuídos currículos dos postulantes aos cargos de presidente e diretores da maior estatal do país. Mesmo assim, os dados chegaram incompletos, segundo a Folha apurou.

Na reunião, os representantes do governo argumentaram que era preciso eleger uma nova diretoria rapidamente para não deixar a empresa acéfala.

A Petrobras não tinha sequer uma lista de possíveis nomes, porque o comitê de remuneração e sucessão da estatal não havia preparado.

O representante dos empregados, Silvio Sinedino, sugeriu que a diretoria da Petrobras fosse escolhida pelo governo numa lista tríplice apresentada pelos trabalhadores. A proposta não prosperou.

Os conselheiros dissidentes também estão preocupados com a escolha de Bendine, que, segundo eles, não conhece o setor de petróleo.

"O conselho de administração tem 10 membros, mas nós só tínhamos uma pessoa especialista em petróleo, que era a Graça. Agora não temos ninguém", disse um conselheiro, que pediu anonimato.

Havia uma expectativa no mercado de troca do atual conselho, mas não há sinais de que isso vá ocorrer em breve. Os outros sete membros do colegiado são: Guido Mantega e Miriam Belchior (ex-ministros); Marcio Zimmermann (secretário de Minas e Energia); Luciano Coutinho (presidente do BNDES), Francisco Roberto de Albuquerque (general da reserva) e Sérgio Quintella (vice-presidente da FGV); além de Graça Foster, que cedeu a vaga a Bendine.

Propina na BR distribuidora variava entre 5% e 10%

• Segundo Moro, Mário Goes atuou no esquema até fim de 2014

Cleide Carvalho – O Globo

CURITIBA- A propina cobrada de fornecedores da BR Distribuidora variava entre 5% e 10% do valor dos contratos - que, segundo investigações da Operação Lava-Jato, eram superfaturados para garantir lucro maior às empresas e repasse de "comissões" a diretores da própria empresa e da Petrobras, e a agentes públicos. O modelo da corrupção era o mesmo adotado na matriz: os fornecedores faziam pagamentos a empresas de fachada, por meio de falsos contratos de prestação de serviços, e um operador fazia a distribuição entre os beneficiados. Segundo o juiz Sérgio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, há provas de funcionamento do esquema na BR até o fim do ano passado.

O esquema na BR foi flagrado na 9ª etapa da Lava-Jato, batizada de My Way, em que 62 mandados de prisão e de busca e apreensão foram cumpridos pela PF, anteontem. Notas e contratos falsos, firmados com a empresa entre 2013 e 2014, mesmo depois de março, quando foi deflagrada a Lava-Jato, foram apreendidos na Arxo, fabricante de caminhões-tanque e tanques de armazenamento de combustíveis para aeroportos localizada no norte de Santa Catarina.

Entre as 26 empresas alvo de mandados de busca e apreensão quinta-feira, quatro eram ligadas ao operador Mário Goes, que teve prisão preventiva decretada pelo juiz Sérgio Moro. Eram usadas para emitir notas e fechar contratos sem prestar serviços. Goes não foi achado até ontem à noite e é considerado foragido. Segundo a PF, ele atuava na diretoria de Serviços da Petrobras - na distribuição de dinheiro para o ex-diretor Renato Duque e para João Vaccari, tesoureiro do PT -, e na BR Distribuidora. Em despacho, Moro se mostrou inconformado com a atuação de Goes:

"Perturba este juízo a existência de provas de que Mário Goes, na intermediação de propinas, teria atuado para Pedro Barusco e Renato Duque no passado e persistiria atuando (...) agora da Arxo até o final de 2014". A PF chegou a Goes unindo depoimentos de delações premiadas e dados passados voluntariamente por uma ex-funcionária da Arxo.

Em nota ontem à noite, a Petrobras Distribuidora afirmou que "está encaminhando aos responsáveis pelas investigações os documentos referentes à relação comercial com a Arxo Industrial do Brasil Ltda.".

Inflação atinge os básicos: alimentos, luz e transporte

• IPCA chega a 7,14% em 12 meses e a 1,24% só em janeiro, a maior taxa em 12 anos

Lucianne Carneiro - O Globo

A inflação este ano atinge gastos dos quais as famílias não podem fugir, principalmente as que têm renda menor: alimentos, transporte público e energia. Só esses três grupos de despesas foram responsáveis por dois terços da alta de 1,24% do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no mês passado, o dobro do peso dessas despesas no orçamento. A taxa de 1,24% de janeiro é a mais alta desde fevereiro de 2003, quando foi de 1,57%. Com o dado do mês passado, o resultado acumulado em 12 meses subiu para 7,14%, o maior desde setembro de 2011 (7,31%) e bem superior aos 6,41% de 2014.

A tarifa de energia elétrica subiu 8,27% e respondeu sozinha por 20% da inflação de 1,24%. E a alimentação continuou subindo com a seca e foi a maior influência entre os grupos de produtos, com alta de 1,48%. Já o transporte público subiu 5,07%. O destaque foi a alta de 8,02% do ônibus urbano, puxado pelo reajuste de tarifas em Rio e São Paulo.

- O mês de janeiro registrou aumentos significativos em três grupos muito importantes no orçamento das famílias, que são alimentos, habitação e transportes. São os gastos para comer, para morar e para se locomover - afirmou a coordenadora dos Índices de Preços do IBGE, Eulina Nunes.

Quando se considera o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) - que é a inflação para as famílias com renda entre um e cinco salários mínimos -, a alta dos preços foi ainda maior, de 1,48%, mais que o dobro da taxa de 0,62% de dezembro. No resultado acumulado em 12 meses, chega a 7,13%, bem acima dos 6,23% de 2014.

- Alimentos, energia e transportes são bens essenciais, não suprimíveis, o que acaba reduzindo o orçamento do consumidor. A tendência é que se reorganize as despesas, abrindo mão de outros itens não tão importantes - avalia a economista da Tendências Consultoria Adriana Molinari.

As donas de casa Bruna de Araújo e Tatiane Ribeiro se assustaram com as altas em carne, tomate, feijão e laticínios.

- Eu paguei R$ 20 em 1,5 quilo de acém. Levei um susto e estava na promoção. Nunca vi promoção assim - afirmou Tatiane.

Tatiane usa o vale-alimentação de R$150 do pai, que é motorista de ônibus, além do benefício do Bolsa Família. Já a estratégia de Bruna é aproveitar as promoções para lidar com a alta dos preços:

- Sempre acompanho os encartes.

Eletrodomésticos mais baratos
Parte desse ajuste no orçamento já está ocorrendo, segundo a técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Maria Andréia Parente. Ela aponta a queda de preços dos eletrodomésticos, e em vestuário:

- Janeiro é época de promoções de vestuário, mas os descontos foram maiores. Aos poucos, as pessoas tendem a reduzir os supérfluos , como laticínios e biscoitos, e nos bens de consumo.