domingo, 10 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Impacto do tarifaço no Brasil pode não ser tão dramático

O Globo

Qualquer programa de ajuda do governo precisa ter foco e, sobretudo, ser temporário

Não era apenas bravata. O Brasil foi alvejado por Donald Trump com a maior punição em seu tarifaço, uma sobretaxa de 50% nas exportações aos Estados Unidos (se até o fim do mês a Índia não ceder à pressão para que pare de comprar petróleo russo, será o único país sujeito a taxação igual). A fúria tarifária de Trump, vale lembrar, tem escala planetária. Como tarifas subiram para praticamente todos os parceiros comerciais americanos, o resultado será um rearranjo da economia global. Para reduzir os danos aos exportadores brasileiros, o governo federal terá de analisar caso a caso suas demandas.

O Tesouro não tem recursos sobrando, e o Executivo não deveria aumentar ainda mais o endividamento para socorrer todos os que passarem por dificuldade. Qualquer programa de ajuda deve ter foco e, sobretudo, ser temporário — afinal, sabe-se lá quanto tempo durarão as tarifas. Para vários segmentos, o sobressalto agudo poderá ser passageiro. O deslocamento das mercadorias para o mercado interno é sempre uma saída, e há dezenas de compradores externos além dos Estados Unidos.

Exportadores de café estão entre os que sem dúvida conseguirão encontrar novos mercados. Há escassez nos estoques mundiais, e a demanda se mantém inalterada. O setor tem tudo o que é preciso para buscar alternativas: tradição exportadora, contatos em vários países e mão de obra especializada em comércio internacional. Esse também é o caso da indústria de carnes. Com atuação marcante de grandes grupos empresariais, ela na certa tem mais capacidade de enfrentar as adversidades.

Em setores como a indústria têxtil, de calçados, frutas ou pescados, a situação é outra. Há grande participação de pequenas e médias empresas, mais suscetíveis a problemas como falta de capital de giro. As próximas semanas e meses serão desafiadores, em especial para empresas que trabalham com produtos perecíveis. Mesmo para essas, porém, o governo não deve antecipar linhas de socorro, sob o risco de desestimular a procura por novos mercados. Com o rearranjo no comércio global, é provável que oportunidades surjam.

Pós-verdade trumpista - Merval Pereira

O Globo

Quando o presidente dos Estados Unidos Donald Trump, em seu primeiro mandato, lançou o conceito de “verdade alternativa”, estava aberta a temporada que seria identificada como a da “pós-verdade”, termo que já fora usado anteriormente, mas tornou-se oficial quando assessores do recém-eleito presidente afirmaram que o número de pessoas que assistiram à posse presidencial em janeiro de 2017 foi maior do que na de Obama em 2009. Ao serem confrontados com outros dados, eles afirmaram que não estavam mentindo, mas apresentando “fatos alternativos”.

A “pós-verdade”, que já virara palavra do ano do dicionário Oxford, passou a definir a ação política de Trump, inclusive com o uso de “fake news” para atingir objetivos. Mentir em política sempre foi uma arma utilizada, mas o advento das redes digitais potencializou a disseminação de notícias falsas que antigamente chamavam-se de boatos, e hoje transformaram-se em “pós-verdade”.

Guerra invisível no centro da Terra - Míriam Leitão

O Globo

A COP no Brasil precisa superar seus desafios e ser bem-sucedida para enfrentar a guerra invisível provocada pelas mudanças climáticas

O Brasil estará amanhã na constrangedora situação de participar de uma reunião convocada pela ONU para discutir o custo exorbitante da hospedagem em Belém. O assunto deixou de ser um problema logístico para estar no centro do debate sobre o sucesso ou não da COP 30. A ganância e a falta de gerenciamento da questão podem destruir nossa chance de tornar bem-sucedida a primeira Conferência do Clima na maior floresta tropical do planeta. Há outros problemas. O governo Donald Trump não mandou um representante sequer para as reuniões preparatórias, o que derruba a expectativa de haver alguma participação dos Estados Unidos.

A guerra é a continuação da política por outros meios? - Antonio de Aguiar Patriota*

O Globo

O relógio simbólico que marca o risco de conflito nuclear nunca esteve tão perto da meia-noite

O general prussiano Carl von Clausewitz, que ajudou a derrotar Napoleão em Waterloo, era também um teórico da guerra. Seu nome ficou associado ao adágio segundo o qual a guerra é a continuação da política por outros meios. Será que essa ideia ainda faz sentido?

Até 1914-1918, a guerra era considerada atividade legítima para aquisição de território ou implementação de política externa. Em 1928, o Pacto Briand-Kellogg preconizou sua ilegalidade. Isso não impediu que Mussolini implodisse a Liga das Nações, nem que Hitler desencadeasse a Segunda Guerra Mundial. Determinados a impedir a repetição da tragédia, em 1945 os fundadores da ONU estabeleceram um sistema pelo qual o uso da força seria admissível apenas em autodefesa ou mediante autorização do Conselho de Segurança.

A Ferrogrão completa dois anos de vida só no papel - Elio Gaspari

O Globo

Completam-se amanhã dois anos do lançamento do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC), joia da coroa do governo Lula 3.0. Previa R$ 1,8 trilhão de investimentos. Na cumbuca, entrou o projeto da Ferrogrão. Trata-se de uma ferrovia com mil quilômetros de extensão, ligando as cidades de Sinop (MT) e Miritituba (PA). Pelo andar da carruagem, era fake news, pois nenhuma folha de papel saiu do lugar para permitir a discussão ou a realização da obra, prevista no Novo PAC para ser concluída em 2030.

Na melhor das hipóteses, a Ferrogrão ficou no ar por conta de um governo que não se mexe. Na pior, ela entrou no PAC para enganar a turma do agro.

A ferrovia — paralela à rodovia BR-163 já existente e asfaltada —, permitirá o escoamento de 50 milhões de toneladas de grãos anuais, com o frete estimado em R$ 150 por tonelada, metade do custo do mesmo frete por transporte rodoviário.

Admitindo-se que não se tratou de uma brincadeira, em dois anos Lula 3.0 não mexeu um só papel, nem discutiu um só tema relacionado com essa obra.

São muitos e dormentes os interesses contra a abertura de qualquer ferrovia. Se o governo teve de fato algum interesse na obra, nada melhor que abrir a discussão do projeto. Como se sabe, a luz do Sol é o melhor detergente.

Agressão externa e radicalização interna, arma-se a tempestade perfeita - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Comando da Câmara é presidencialista, essa autoridade não pode ser afrontada, ainda mais numa Casa cuja característica principal é o diálogo como método de formação de maiorias e não a força física

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), não tem a dimensão da sua responsabilidade histórica diante do impasse institucional que se arma a partir da crise diplomática e comercial do Brasil com os Estados Unidos. Seu comportamento durante as 30 horas em que um grupo de parlamentares bolsonaristas sequestrou a Mesa Diretoras da Câmara, em protesto contra a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, revela isso.

Fosse qualquer um dos que o antecederam, a resposta seria dura e imediata, à altura do poder e da liturgia do cargo que exerce. O comando da Câmara é presidencialista, essa autoridade não pode ser afrontada, ainda mais numa Casa cuja característica principal é o diálogo como método de formação de maiorias e não a força física.

O golpe avança - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Com dossiês e chantagens, os golpistas querem o Brasil refém de Donald Trump

O nosso Brasil, tão varonil, está se tornando refém da aliança Bolsonaro-Trump, que ataca e chantageia o Supremo, tenta controlar o Congresso, desqualifica a mídia, captura corações e almas na sociedade e joga o setor privado contra a parede, com o intuito cada vez mais claro de não só livrar Jair Bolsonaro da cadeia, mas de isolar o governo Lula e dominar o País em 2026. É um projeto muito mais ameaçador do que parece a olho nu.

Depois da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes, promoveram ataques coordenados a ministros do Supremo: um post ultrajante e sem precedentes da embaixada americana sobre “monitoramento” de quem apoia Moraes e um vídeo indecente de Eduardo Bolsonaro citando Gilmar Mendes e Cristiano Zanin. A intenção é deixar no ar a existência de dossiês para amedrontar o STF.

Candidato a chefe do mundo tem apoio no Brasil - Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

As semelhanças entre o 6 de janeiro de 2021 em Washington e o 8 de janeiro de 2023 em Brasília de nenhum modo são casuais

A ambição de mandar no mundo foi reafirmada pelo presidente americano, Donald Trump, com a imposição de um tarifaço de 50% à Índia, como “punição”, segundo se informou, por negócios com a Rússia. Muito usada nos últimos dias, a palavra punição é inadequada. Pode-se punir quem descumpre uma regra. Mas nenhuma norma internacional proíbe o comércio com a Rússia. Além disso, nenhum acordo atribui aos Estados Unidos o controle de parcerias comerciais de outros países. Desprezar o perigo de um pretenso castigo, no entanto, seria uma imprudência. Sem sujeitar suas decisões a controle estrangeiro, o presidente do Brasil deve estar atento a ameaças, um risco aumentado, agora, por alguns políticos – patriotas de quais países? – empenhados na busca de interferência externa.

Trump já atingiu seu objetivo no Brasil - Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Os dois lados do espectro político do Brasil trabalham pela escalada com os Estados Unidos

O governo americano não prepara novas sanções contra o Brasil. Donald Trump já atingiu o objetivo principal, de rebater para a esquerda o estigma autoritário. Diante disso, Lula e o grupo de Jair Bolsonaro voltaram a fomentar a escalada que interessa a ambos.

De acordo com minha apuração, o Departamento de Estado não tinha planos, até sexta-feira, de adotar novas medidas contra autoridades do STF e do Planalto. O Escritório do Representante de Comércio dos EUA também não recebeu instruções de estudar tarifa adicional contra o Brasil por importar da Rússia, como fez com a Índia.

Oposição se atrela a boia furada - Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Ação de radicais desarruma a cena da direita, que precisará rever sua política de alianças para 2026

A direita, descontada a extrema que merece outro tipo de qualificação, estava dando andamento razoável aos seus planos eleitorais para 2026, até que se viu engolfada pela crise do tarifaço e demais sanções.

Antes, apresentou-se ao debate, elegeu porta-vozes do projeto, na forma de candidaturas prévias de governadores e, no aguardo do desfecho do julgamento no Supremo Tribunal Federal, vinha cozinhando a fictícia postulação de Jair Bolsonaro (PL) de liderar a chapa presidencial.

A partir daí, rearrumaria as peças e daria início ao jogo. Isso na dependência do aprofundamento, ou não, do desgaste do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

As condições estavam mais ou menos dadas para uma campanha em que a direita entraria com a missão de administrar a abundância e a esquerda na condição de refém da escassez de possibilidades, atada à decisão de Lula.

Dólar segura a onda do Brasil - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Depois do choque do tarifaço, juros e moeda dos EUA voltam à tendência de queda, por ora

O tarifaço Trump-Bolsonaro causou febre nos mercados financeiros do Brasil em julho. Parece estar passando. As taxas de juros de prazo de dois anos ou mais estão à beira de voltar à linha da tendência de queda que vinha desde fevereiro, como se observa no atacado do mercado de dinheiro. O preço do dólar parece voltar à tendência de queda que se via desde abril, grosso modo.

Essa calmaria relativa ocorre durante a ofensiva "Blitzkrieg" do "duce" Donald Trump e de novo surto da insurreição permanente dos Bolsonaros e cúmplices. Portanto, pelo menos na visão da maioria dos donos e dos negociadores de dinheiro grosso, o risco de agravamento da guerra econômica de Trump e o golpismo sem fim dos Bolsonaros não têm peso suficiente para "fazer preço", para alterar correntes maiores que influenciam preços (câmbio, juros). Números piorados nas contas externas, de entrada de dólar ("fluxo cambial"), a ruindade porém estagnada das contas públicas e o tumulto político-eleitoral ora não fazem coceira nesse cenário.

Xandão está 100% certo - Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Críticos do ministro agem por mistura de miopia com mutreta

Alexandre de Moraes está obviamente certo em decretar a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro.

Bolsonaro não foi preso porque tentou um golpe de Estado depois de perder a eleição de 2022. Esse processo ainda está em andamento. Bolsonaro só deve ser preso por isso depois de condenado.

Foi preso agora em outro inquérito, instaurado porque Jair cometeu, com seus cúmplices Eduardo e Donald, a mais clara e evidente tentativa de obstrução de Justiça da história moderna: a maior superpotência do mundo tomou a economia brasileira como refém até que o Judiciário brasileiro aceite entregar para os Estados Unidos o direito de dizer que leis valem ou não valem em nosso território.

Um diagnóstico com brilho de pirita - Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Ninguém duvida da importância da diversidade de cérebros, nem minimiza os desestímulos paralisantes de verbas

Nem tudo que reluz é ouro, nem tudo que brilha em Harvard deve ser levado, acriticamente, a sério. É o que vem à mente após a leitura de um texto do renomado professor de filosofia e teoria social daquela universidade, Roberto Mangabeira Unger, brasileiro-americano. Ele compartilha o bom senso já generalizado de que o Brasil precisa deslocar-se do fornecimento de commodities físicas para o de serviços de conhecimento. Nisso é fundamental universidade de alto nível.

Até aí, reluz o argumento. Em seguida, porém, sustenta que entrave para o nível desejado é a dificuldade brasileira na contratação de professores estrangeiros. Ninguém duvida da importância da diversidade de cérebros, nem minimiza os desestímulos paralisantes de verbas e burocracia. Mas, para quem chefiou por duas vezes uma Secretaria de Assuntos Estratégicos, é surpreendente desconhecer a excelência das instituições nacionais que combinam ensino, pesquisa e extensão. Cabe especular se, no exercício daquelas funções, alguma vez se cogitou definir universidade como recurso estratégico.

O bolsonarismo no assalto ao Parlamento – Juliana Diniz

O Povo (CE)

A política democrática convive com a resistência, a irresignação e o dissenso, mas tudo isso só pode se dar legitimamente nos limites que a Constituição permite, do contrário, é de golpe que estamos falando

Em política, mais grave do que ser um líder fraco, é parecer fraco. Foi o que mostrou Hugo Motta na última quarta-feira. As cenas do presidente da Câmara dos Deputados tentando atravessar um amontoado de colegas até sua cadeira na mesa diretora da casa legislativa foram uma das mais deploráveis demonstrações de fraqueza que já se viu no Parlamento brasileiro. Impossibilitado de assumir seu posto diante da negativa de Marcel van Hattem, que ocupava a cadeira, Motta recuou, desmoralizado, sob comemorações dos parlamentares da oposição. Um vexame.

Poesia | Palavra mágica, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Moacyr Luz & Samba do Trabalhador - Beija-me (Ao Vivo No Bar Pirajá) ft. Rildo Hora

 

sábado, 9 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Não pode prosperar a barganha para blindar congressistas

O Globo

Fim do ‘foro privilegiado’ e PEC da Blindagem são despropósitos. País tem pautas mais urgentes a tratar

Foi nefasta a barganha costurada para pôr fim à inaceitável ocupação da Câmara e do Senado em protesto contra a decretação da prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro. O pacote negociado envolve a votação de projetos com o objetivo indisfarçável de blindar deputados e senadores de ações do Judiciário. Se já eram ideias ruins, ficaram piores quando líderes bolsonaristas admitiram terem sido objeto de negociação para acabar com o motim que paralisou o Parlamento.

Várias propostas já haviam sido discutidas quando o deputado Arthur Lira presidiu a Câmara. É o caso da PEC da Blindagem, que, além de exigir aval do Congresso para um parlamentar ser investigado, estabelece que sua prisão só pode acontecer em casos de flagrante ou crime inafiançável. Ideias dessa natureza não foram adiante por falta de apoio, porque são despropositadas e porque o país tem pautas mais urgentes. É lamentável que retornem agora.

O projeto de maior destaque tenta mudar o foro em que são julgados os políticos — tecnicamente chamado “foro por prerrogativa de função” e popularmente conhecido como “foro privilegiado”. A Constituição estabelece que presidente, ministros, parlamentares, governadores e outras autoridades sejam submetidos a julgamento em instâncias específicas, para evitar que processos judiciais se transformem em arma política. No início, o foro era especial até se o político já tivesse saído do posto, mas em 2018 o Supremo determinou que deve valer apenas para crimes cometidos no cargo e em razão dele. Em março, fez um ajuste na interpretação, estabelecendo que o processo deve ser mantido no tribunal em que começou a ser julgado mesmo depois de a autoridade deixar o cargo. A decisão foi sensata, pois era comum a autoridade renunciar quando estava prestes a ser julgada, para o processo recomeçar na primeira instância.

Agora, um dos objetivos da tentativa de extinguir o “foro privilegiado” é favorecer Bolsonaro, tirando do STF o processo em que é réu por tentativa de golpe de Estado. A estratégia não funcionará, pois a jurisprudência assevera que julgamentos em fase avançada não mudam de tribunal. Mas não há dúvida de que tiraria congressistas da mira da Corte, levando à primeira instância dezenas de processos — há 80 inquéritos só sobre emendas parlamentares.

As propostas estapafúrdias para blindar parlamentares podem abrir caminho a outros desvarios. É o caso da descabida anistia aos condenados pelo 8 de Janeiro ou de mudanças nas regras para impeachment de ministros do Supremo. No entender de oposicionistas, caso sejam aprovadas as mudanças no foro, uma vez longe da mira do STF, os parlamentares se sentiriam mais à vontade para aderir à agenda mais radical.

Não pode haver condescendência com a balbúrdia encenada no Congresso. A ocupação foi um atentado ao regimento e uma agressão à democracia. “Não vamos permitir que atos como esses possam ser maiores que o plenário e a vontade desta casa”, afirmou o presidente da Câmara, Hugo Motta. “A presidência da Câmara é inegociável.” É fato que, segundo os próprios bolsonaristas, ele não participou das negociações para o fim da ocupação.

Deputados e senadores precisam ter a responsabilidade de barrar no nascedouro pautas oportunistas, fruto de chantagem. Se a pantomima juvenil de ocupar o Congresso já foi um absurdo, a imposição de uma agenda legislativa sem cabimento é ainda mais nociva.

A disputa pela franquia Bolsonaro - Thaís Oyama

O Globo

Quem será o ungido que levará a tocha do bolsonarismo nas eleições de 2026?

Hermeticamente fechado em casa até segunda ordem, e sem perspectiva de sair desta para melhor com o julgamento de setembro, muito antes pelo contrário, Jair Bolsonaro está prestes a virar uma “ideia”. A afirmação de que fulano “não é mais uma pessoa, mas uma ideia” foi usada por integralistas nos anos 1930 para se referir ao líder do movimento de extrema direita e inspiração fascista Plínio Salgado. Lula copiou a frase em 2018, no discurso que fez antes de se entregar à Polícia Federal. Ironicamente, ela pode agora ser adaptada a seu adversário Bolsonaro — o quarto ex-presidente brasileiro a amargar a prisão, fato que leva qualquer um a se perguntar o que há de errado com este país.

Brasil, mostra a tua cara - Eduardo Affonso

O Globo

O país que o governo endossou não é o da diversidade, mas o dos estereótipos, da romantização da miséria

Você deve se lembrar: antes das eleições de 2018, o Jornal Nacional fez uma campanha em que pedia aos telespectadores vídeos sobre “o Brasil que eu quero”. Pela amostragem (cerca de 50 mil, de todos os cantos do país), os brasileiros queriam menos corrupção e mais segurança; mais cidadania e menos intolerância; mais educação e menos preconceito. Mais saúde, mais emprego. E políticos melhores. Sete anos, um ex-presidiário e um futuro presidiário depois, não resta dúvida: o brasileiro é, antes de tudo, um otimista, um inquilino da ilusão.

Dissuasão e resiliência - Cristovam Buarque

Nossa força será a construção de um país democrático e educado

A arrogância de Trump ao tentar intervir na política e na Justiça do Brasil não surpreende quem lembra da história. Um pouco antes do golpe de 1964, e depois dele, John Kennedy, Lyndon Johnson e Richard Nixon foram decisivos para a implantação dos anos de chumbo no Brasil, nos quais ocorreram cassações de parlamentares, fechamento do Congresso, manipulação do Judiciário, tortura e prisões. Desde então, nossa dependência diminuiu, mas chegamos a 2025 assustados diante da postura trumpista. O fato: não criamos poder de dissuasão para evitar ameaças, nem resiliência para enfrentar um presidente que ignore nossa força.

Golpismo permanente – Aldo Fornazieri

Os idiotas dos formalismos não querem proteger a democracia. Defendem a garantia da liberdade de conspiração, disfarçada de liberdade de expressão

A prisão domiciliar de Jair Bolsonaro tem suscitado um enorme debate jurídico acerca do acerto ou do exagero da medida decretada por Alexandre de Moraes. Imbricada com o debate jurídico está, também, uma discussão sobre a conveniência política da decisão. Existem prós e contras. Alguns críticos da prisão domiciliar concordam que Bolsonaro deu margem para que ela ocorresse, por violar medidas cautelares decretadas anteriormente pelo magistrado. O problema jurídico estaria nas próprias medidas cautelares, que supostamente teriam violado a liberdade de expressão do ex-presidente.

Esses críticos se esquecem de alguns aspectos centrais na vida pregressa de Bolsonaro. Como militar, ele já havia sido preso por quebrar as regras de disciplina e hierarquia por motivos salariais. Depois disso, ocorreu algo mais grave. Por volta de 1987, segundo reportagens da revista ­Veja, teria participado do planejamento de atentados a bomba em quartéis e outras unidades militares. Após uma investigação, uma Comissão do Exército decidiu pela sua expulsão. No entanto, ao julgar um recurso em sessão secreta, o Superior Tribunal Militar absolveu o então capitão. A expulsão foi anulada, e ele não foi preso. No ano seguinte, passou para a reserva.

Que o comprador tenha cuidado - Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

A concentração inédita no Dow Jones e as recompras de ações camuflam as altas no mercado

O Oráculo de Delfos, ou o Templo de Apolo, era um local visitado por peregrinos dos quatro cantos do mundo para consultar as pitonisas e saber qual era o seu destino, de sua família e de sua pátria. Hoje, procuram as pitonisas de Wall Street para saber qual o destino de seu dinheiro.

A pitonisa do J.P. Morgan, Jamie Dimon, adverte: pode haver um inferno a pagar… quando a gororoba bater no ventilador.

Até lá, outra pitonisa-chefe do ­Citigroup, Chuck Prince, cantou em 2007, antes de a gororoba do  subprime bater no ventilador: “Enquanto a música estiver tocando, você tem de se levantar e dançar. Nós ainda estamos dançando. A dança continua, nunca para”.

O processo de bolhas “especulativas” tem as mesmas características cíclicas e termina sempre estourando. Desde a bolha das tulipas, quebra da Bolsa americana em 1929, o crash da Bolsa americana em 1987, o boom e quebra das empresas pontocom em 2001, e crise da bolha ­subprime em 2008. Uma bolha “especulativa” sempre arrebenta, porém não sabemos o dia, muito menos o fato que faz a manada correr atrás do dinheiro e por quê.

Palpites sobre o SUS - Marcus Pestana

Chega, caros leitores, de falar sobre as estripulias de Donald Trump ou sobre a instabilidade política e institucional que ameaça a democracia brasileira. As crises conjunturais têm o condão de nos tirar atenção daquilo que realmente importa: as necessidades reais e básicas da maioria da população. Há enormes lacunas no Brasil que envolvem o cotidiano das pessoas nos campos da saúde, educação, moradia, saneamento, segurança, segurança alimentar, renda e emprego. E só temos tempo para discutir as ameaças e bravatas do Dr. Trump, as posturas do STF, as reações do ex-presidente, as repercussões no Congresso. Ou, qual a bolha ideológica irá radicalizar mais e nos alimentar de incertezas crescentes e informações parciais? 

Chamo este artigo de “palpites” porque estou destreinado, enferrujado. Afinal, faz mais de quinze anos que deixei a Secretaria de Saúde de Minas Gerais, que tive a honra de dirigir, acompanhado por uma equipe excepcional, de 2003 a 2010 - período mais feliz e produtivo de minha vida pública - e que deixou um legado até hoje referência nacional. 

O ataque ao Brasil pode ser um fator de mobilização -Roberto Amaral*



A natureza da agressão dos EUA ao nosso país é claramente intervencionista, política na origem e nos objetivos que persegue. A escandalosa coação ao Judiciário, imiscuindo-se em nossa domesticidade em nível jamais conhecido entre nações soberanas em paz, tanto quanto o “tarifaço”, atingindo em cheio nossa economia e anunciando desemprego, não se encerra em si mesma, pois muito está por vir, e o que nos espera poderá agravar-se se não encontrar a resistência de uma sociedade organizada, apta à mobilização e preparada política e ideologicamente.

Os idos de 2025 olham para 2026.

O projeto trumpista, apoiado pelo grosso da sociedade estadunidense, pelo seu Congresso, pela Suprema Corte, é movimento que visa a fortalecer, ampliar e dar consequência à marcha da extrema-direita em todo o mundo — fantasma que não é de hoje. Ele assombra a Europa, pervade a América Latina e agora volta ao comando dos EUA, mirando o resto do mundo.

Anistia para o Congresso - Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O sequestro bolsonarista do Parlamento ora serve de escada para que prospere a agenda geral de impunidade do Congresso. Não terá sido à toa a liderança de Arthur Lira nas negociações para que os sequestradores devolvessem a Câmara à República.

Câmara (mais ou menos) devolvida à República, à custa de mais um pouco de República.

A agenda produzida pelo fim do assalto é aula de oportunismo corporativista: a blindagem de políticos contra investigações e denúncias de natureza criminal. Uma antiga bandeira de Lira, que ele não conseguira fazer avançar quando presidente da Câmara – agora com boas chances de andar. Grandes as chances de que o bolsonarismo tenha servido de bucha mais uma vez.

Alarmismo comercial de Trump deve ser ignorado - Fareed Zakaria

O Estado de S. Paulo

EUA prosperaram com livre-comércio, mas presidente e seguidores dizem ter sido vítimas dele

Enquanto um mundo horrorizado assiste à derrocada de uma ordem econômica que lhe trouxe estabilidade e prosperidade por décadas, a pergunta que ouço em cada país é a mesma: por que os EUA, a nação que floresceu tão poderosamente sob este sistema, o está destruindo?

Quando explico que muitos americanos – incluindo o presidente – acreditam que os EUA foram vítimas deste sistema de livre-comércio, a resposta é perplexidade. “Como eles podem não ver o que é óbvio: que eles são os grandes vencedores?”, disse um alto funcionário estrangeiro.

O presidente Trump e o movimento trumpista moldaram essa narrativa com grande sucesso. Mesmo aqueles que se opõem a Trump tendem a admitir que, embora os americanos mais ricos e as maiores empresas tenham tido sucesso nas últimas décadas, a maioria da população viu sua renda estagnar, empregos serem transferidos para o exterior e os padrões de vida declinarem.

Encontro marcado - Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

Sem mudanças, STF continuará vulnerável a ataques dos que querem destruir a ordem constitucional

Os ataques da extrema direita ao Supremo Tribunal Federal são uma consequência direta da disposição da corte em defender a democracia. Suas deficiências, no entanto, colocam o tribunal e seus membros em situação de vulnerabilidade face aos inimigos da Constituição.

A presente ofensiva contra o Supremo não constitui um fato isolado. Nos últimos meses, tribunais franceses e israelenses também vêm sendo hostilizados e acusados de promover uma "caça às bruxas", por conduzirem processos contra Marine Le Pen e Binyamin Netanyahu. Até mesmo o Tribunal Penal Internacional, que investiga o premiê de Israel por crimes contra a humanidade, passou a sofrer retaliações.

O líder da esquerda mundial - Demétrio Magnoli

Folha de S. Paulo

Trump culpa o comércio aberto pelo suposto declínio dos EUA e engaja-se na missão de reverter a globalização

O paradigma do livre comércio, que nasceu com Adam Smith e David Ricardo, os "pais fundadores" do liberalismo, atingiu um apogeu na segunda metade do século 19, era do navio a vapor e das ferrovias. Entrou em colapso com a Grande Depressão, mas ressurgiu no pós-guerra, à sombra do Gatt (1947) e, décadas depois, da OMC (1995). A obra desses quase 80 anos encontra-se em demolição.

O Gatt (Acordo Geral de Comércio e Tarifas) foi firmado na moldura das instituições multilaterais impulsionadas pelos EUA. Suas oito rodadas de negociações, concluídas pelo estabelecimento da OMC (Organização Mundial de Comércio), basearam-se na cláusula de "nação mais favorecida" (MFN).

Os ataques 'patriotas' às instituições - Txai Suruí

Folha de S. Paulo

Em lockdown legislativo, deputados travam votações cruciais e prejudicam o funcionamento do Estado

O vergonhoso motim bolsonarista no Congresso, em mais um capítulo de sua escalada golpista, escancarou o desprezo de setores extremistas pelas instituições democráticas. Mascarados de defensores da liberdade de expressão e do país, esses não passam de inimigos do povo, pois atacam justamente o que garante seus direitos: a ordem constitucional.

A encenação repleta de bravatas, revela um projeto claro: atacar as instituições democráticas, enfraquecer o processo eleitoral e semear o caos para justificar uma agenda autoritária. Os mesmos que se dizem "patriotas" são os que cospem na Constituição, defendem torturadores e aplaudem o sufocamento das liberdades. Enquanto isso, o povo brasileiro, verdadeira vitima dessas manobras, assiste à farsa de quem nunca governou para maioria, mas apenas para seus interesses e os de seus aliados poderosos.

Bancada bolsonarista age como força auxiliar de Trump - Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Estimulados pelo ataque econômico e ideológico dos EUA, 'patriotas' já sonham com novo 8/1

Ao forçar sua prisão domiciliar, Bolsonaro repete o roteiro de uma vida de crimes.

O tempo no Exército, do qual tanto se orgulha, foi marcado pela desobediência –"um mau militar", anotou o general Geisel em documento de 1988– e sobretudo pelo plano de explodir bombas de dinamite nos quartéis, em 1987. Deputado do baixo clero de 1991 a 2018, enfrentou denúncias de superfaturamento em reembolsos da verba de combustível e de enriquecimento ilícito.

Na Presidência, extrapolou todos os limites. Com a ideia fixa de tornar-se ditador, quis por diversas vezes incendiar o país para facilitar seu plano. Sabotou as medidas de proteção durante a pandemia; aparelhou as instituições; usou a Abin para espionar e perseguir adversários; interferiu na PF para salvar um filho; desacreditou o sistema eleitoral; meteu a mão em joias árabes; falsificou o cartão de vacina; ao perder as eleições arquitetou com os generais palacianos um golpe que previa o assassinato do presidente eleito.

Netanyahu ataca Israel, de novo - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Decisão do governo de ocupar Cidade de Gaza vai contra os interesses de longo prazo de Tel Aviv

O premiê israelense, Binyamin Netanyahu, decidiu ocupar a Cidade de Gaza. Faz isso apesar das fortes objeções do comando militar israelense e do crescente isolamento diplomático do país. Isso é puro suco de Bibi, o apelido pelo qual é conhecido.

O compromisso do premiê é apenas consigo mesmo. E, para ser fiel a si, ele precisa manter-se no poder, a fim de adiar seu julgamento por corrupção. Para manter-se no poder, ele precisa preservar a coalizão de governo, que depende de partidos da extremíssima direita ultrarreligiosa.

E, para preservar a coalizão, ele precisa tentar contornar a decisão da Suprema Corte que pôs fim à isenção de serviço militar para os estudantes de "yeshivot" (escolas de religião) e prolongar a guerra, acenando com a possibilidade de reinstalar assentamentos judaicos em Gaza.

Caos no Congresso e prejuízo na economia - Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Alheios ao tarifaço, os deputados do motim até agora não se mexeram para propor nada em defesa do setor produtivo

A semana de caos em Brasília, com o motim da oposição no Congresso Nacional, não poderia ser melhor retratada na foto do repórter fotográfico Pedro Ladeira, estampada na Primeira Página desta Folha na edição da quinta (7).

No centro da imagem, o presidente da Câmara, Hugo Motta, totalmente rendido, desmoralizado, cercado por parlamentares com gestos ameaçadores, que pediam anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro e o impeachment do ministro do STF Alexandre de Moraes. A sua fisionomia é perturbadora.

Pouco antes, ele teve que passar pela humilhação máxima de não conseguir sentar na cadeira da presidência, ocupada pelo deputado Marcel Van Hattem (Novo). Motta só recuperou o comando da Câmara após uma bizarra negociação antipatriótica.

O golpe continuado - André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

O golpe de Estado passou a ser um crime continuado. Seus agentes continuam a fazer gestões aqui e no exterior para derrubar o governo e instalar a ditadura tantas vezes imaginada e verbalizada por Jair Bolsonaro

A audaciosa e inacreditável nota divulgada pela Embaixada dos Estados Unidos, em Brasília, demonstra que o governo de Washington está decidido a interferir na política interna brasileira. De repente, o assunto Bolsonaro virou tema relevante para Donald Trump. A nota da embaixada, que, no momento, está sem embaixador, afirma que está monitorando todas as pessoas próximas a Alexandre Moraes. "O ministro Moraes é o principal arquiteto da censura e perseguição contra Bolsonaro e seus apoiadores. Suas flagrantes violações de direitos humanos resultaram em sanções pela Lei Magnitsky, determinadas pelo presidente Trump", afirma a nota oficial.

Poesia | Embriaguem-se, de Charles Baudelaire

 

Música | Arlindo Cruz - O Show tem que continuar

 

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Não há alternativa à dependência de fertilizantes russos

O Globo

Investida tarifária de Trump para pressionar Putin expõe lado vulnerável do agronegócio brasileiro

As tarifas de 50% impostas por Donald Trump sobre produtos indianos acenderam um alerta no Brasil. Trump impôs a sobretaxa como forma de pressão para a Índia parar de comprar petróleo da Rússia. Dado o caráter mercurial da política tarifária americana, o receio é que, na tentativa de asfixiar a economia russa para forçar Vladimir Putin a assinar a paz com a Ucrânia, Trump mais uma vez volte os olhos ao Brasil. Estamos expostos em dois setores: transporte e agropecuária. Três em 10 litros de óleo diesel vendidos aqui são importados (a Rússia responde por 60%). Nos fertilizantes químicos, matéria-prima do agronegócio, a dependência é crítica: o Brasil importa 90%, tendo a Rússia como maior fornecedor, com 30%.

Com o estouro da guerra na Ucrânia em 2022, os russos foram alvo de sanções e passaram a vender diesel e petróleo com desconto. Importadores brasileiros não foram os únicos a aproveitar. Se Trump impuser restrições ao diesel russo, não faltam fornecedores alternativos. “O risco de desabastecimento no Brasil é próximo de zero”, diz o consultor de energia Adriano Pires. O maior problema será o custo alto e o impacto inexorável na inflação de um país onde o transporte rodoviário predomina.

A questão mais preocupante são os fertilizantes. A demanda brasileira tem crescido acima da global. A Rússia é um dos dois maiores produtores, e há poucos fornecedores alternativos. No curto prazo, uma saída seria importar mais de China, Canadá, Marrocos ou Egito. Mas, num momento em que outros países serão forçados a fazer o mesmo, haverá escassez e preços altos. O próprio agronegócio americano está preocupado. Quase metade do nitrato de ureia e amônio usado nos Estados Unidos vem da Rússia. No ano passado, o país importou mais fertilizantes russos que antes da guerra na Ucrânia.

A produção de fertilizantes exige uso intensivo de energia. Além de contar com reservas minerais, os russos têm gás barato para queimar. No curto e no médio prazos, não há saída: não só o Brasil, mas o mundo todo depende da Rússia para produzir alimentos. Mesmo que o Brasil explorasse o potássio que tem (em áreas de risco ambiental), dificilmente seria autossuficiente no médio prazo (foi esse, vale lembrar, o argumento usado pelo governo Jair Bolsonaro para fazer acenos a Putin quando o conflito eclodiu na Ucrânia). Para fábricas de fertilizantes se tornarem viáveis, o preço do gás teria de cair à metade. “Para diminuir a dependência, só com subsídio”, diz José Carlos Hausknecht, sócio da MB Agro Consultoria. “Mas até isso é difícil. Que empresa privada poria bilhões numa fábrica se a sobrevivência do negócio depende de vários governos honrarem o compromisso de manter gás barato?”

O governo até tem tentado incentivar o setor. A Petrobras anunciou investimentos de R$ 6 bilhões no segmento até o fim da década, e uma de suas subsidiárias deu o primeiro passo para retomar a produção de fertilizantes. Mas ainda são iniciativas tímidas.

Em três das quatro principais classes de fertilizantes, o Brasil depende de importações para suprir 90% da demanda. Não seria problema se o mundo não estivesse sujeito ao temperamento volátil de Trump. Não haverá solução rápida nem fácil, mas a relevância estratégica do agronegócio exige uma política consistente para fertilizantes. Tal desafio está claro desde o início da guerra na Ucrânia. A volta de Trump o torna mais urgente.