Ruan de Sousa Gabriel / O Globo
“Não importava quão comprometidos estivessem com a causa, nem Marx nem Jenny queriam ver as filhas condenadas a viver com aqueles tipos de homens que subiam a escada estreita da Dean Street, batendo à porta deles com a barriga vazia, mas com a cabeça cheia de sonhos radicais”, escreve Mary Gabriel em “Amor e capital”. O casal Marx sonhava que suas três filhas — Jenny, Laura e Eleanor — encontrassem maridos cultos e pudessem “constituir suas famílias sem preocupações financeiras ou políticas”. No entanto, as três escolheram tipos como o pai: revolucionários sem muito jeito para ganhar dinheiro.
Em 1872, Jenny se casou com Charles
Longuet, herói da Comuna de Paris. Inicialmente, Marx considerou Longuet “bom e
digno”, embora preferisse que a filha tivesse escolhido “um inglês e não um
francês que, combinado às qualidades nacionais de charme, naturalmente não
deixa de ter sua fraqueza e irresponsabilidade”. Segundo Gabriel, a senhora
Marx reclamava da indolência, das mentiras e da “baboseira francesa” do genro.
“Minha distinta filha merece coisa melhor”, escreveu numa carta.
Jenny e Longuet tiveram seis filhos, dos
quais apenas dois chegaram à vida adulta. Em 1880, após anistia aos communards,
Jenny acompanhou o marido de volta à França. Em uma carta a Laura, afirmou:
“nem a rotina maçante do trabalho fabril é pior do que os intermináveis
afazeres domésticos”.
Laura também se casou com um exilado político: Paul Lafargue. Nascido em Cuba e mestiço, Lafargue estudou medicina na França até ser expulso da universidade por pregar o socialismo. Exilou-se após a derrota da Comuna e, em Londres, conheceu Laura. Marx se incomodava com certa afobação de Lafargue perto de Laura, que atribuía ao “temperamento creole” do rapaz, e lhe remeteu uma carta duríssima. “Se na presença dela você for incapaz de amar de maneira condizente com a latitude de Londres, terá de se contentar com amá-la a distância”, escreveu o alemão, que ainda exigiu do rapaz “uma clara explicação de sua situação econômica”. Laura e Lafargue tiveram três filhos, mas nenhum sobreviveu à infância. Os dois dedicaram a vida à luta socialista e cometeram suicídio em 1911. Considerado pouco diligente pelo sogro, Lafargue é autor de “O direito à preguiça”.




























