quarta-feira, 2 de março de 2022

Paul Krugman*: Guerra, para que serve isso?

O Estado de S. Paulo

Mundo moderna é diferente de quando impérios se impunham pela conquista militar

O milagre ucraniano poderá durar pouco. A tentativa de Vladimir Putin de vencer rapidamente, numa boa, tomando grandes cidades com forças relativamente brandas, enfrentou grande resistência, mas os tanques e as armas mais pesadas estão a caminho. E apesar do incrível heroísmo do povo da Ucrânia, o mais provável ainda é que a bandeira russa seja eventualmente hasteada em meio aos escombros de Kiev e Kharkiv.

Mas mesmo se isso acontecer, a Federação Russa ficará mais fraca e mais pobre do que era antes da invasão. Conquistar não compensa. 

Por que não? Se olharmos para a história, veremos muitos exemplos de países que enriqueceram por meio do poderio militar. Os romanos certamente lucraram com a conquista do mundo helênico, assim como a Espanha com a conquista dos astecas e dos incas. 

Mas o mundo moderno é diferente — e por “moderno" quero dizer pelo menos a partir de um século e meio atrás. 

O autor britânico Norman Angell publicou seu famoso tratado “A grande ilusão” em 1909 argumentando que a guerra se tornara obsoleta. Seu livro foi amplamente mal interpretado, como se afirmasse que a guerra não poderia mais acontecer, hipótese que se provou horrivelmente equivocada nas duas gerações que se seguiram. Mas o que Angell afirmou, na verdade, foi que os vencedores de uma guerra não seriam mais capazes de obter nenhum lucro de seu sucesso. 

E ele certamente estava correto sobre isso. Todos agradecemos pelos Aliados terem prevalecido na 2.ª Guerra, mas o Reino Unido emergiu como uma potência diminuída, sofrendo em meio a anos de austeridade enquanto lutava contra escassez de divisas estrangeiras. Até mesmo os Estados Unidos tiveram um ajuste pós-guerra mais difícil do que muitos se dão conta, experimentando um período de aumentos de preços que ocasionaram inflação acima de 20%. 

Ana Maria Diniz: O paradoxo dos empregos

Valor Econômico

Onda de demissões voluntárias de um lado do mundo, desemprego recorde do outro e escassez generalizada de talentos em todo lugar: como desatar esse nó?

O mundo está de ponta cabeça! Vivemos um enorme paradoxo. É possível pensar que em uma ponta do planeta, a mais pobre, hemisfério sul em geral, o emprego seja a coisa mais desejada e sonhada pelas pessoas como algo quase inatingível? E que, na outra ponta, o canto mais rico e mais instruído da sociedade, daqueles que tiveram mais oportunidades na vida, inclusive de estudar, o trabalho formal esteja sendo desvalorizado e até mesmo desprezado? Chegamos ao absurdo de desejos tão opostos, numa sociedade que vive ao mesmo tempo, no mesmo planeta, na mesma era? Difícil de conceber essa ideia, mas é o que está acontecendo atualmente. A onda generalizada e global de demissões voluntárias está em escalada, em ritmo recorde, no mundo todo. Foi deflagrada em abril do ano passado uma avalanche monumental de abandono de empregos jamais vista. As pessoas estão pulando aos montes do barco do trabalho, até então, o "meio de transporte" que as levaria a uma vida melhor. E o mais surpreendente é que uma boa parte dos retirantes não sabe quando - nem se - irá voltar para o jogo. Mas, afinal, para onde estão indo essas pessoas? O que estão de fato buscando? Como vão se sustentar? São perguntas que ainda estão longe de ter respostas acertadas.

Tiago Cavalcanti*: Reflexões sobre o momento atual

Valor Econômico

Com essa resistência, ucranianos mostram que querem uma nova história e sua democracia liberal

O artigo de hoje será diferente. Já tinha escrito outro texto sobre a questão dos juros bancários para pessoas físicas no Brasil. Porém resolvi fazer uma reflexão pessoal sobre o momento atual que vivemos.

Desde o dia 24 de fevereiro que assistimos com preocupação a invasão da Ucrânia pela Rússia com alto custo humanitário, várias vítimas e o êxodo de famílias fugindo do sofrimento e da morte.

Quem diria que nos dias atuais iríamos enfrentar uma guerra como a que está acontecendo na Europa, após um longo período de integração econômica, cultural e de relativa paz na região?

O Brexit já foi para mim um evento inesperado e que me causou desconforto. O Reino Unido integrado à Europa fazia parte da vida que estávamos acostumados. O fluxo de pessoas gera também fluxos de ideias e de cultura, que geralmente vem acompanhado de relativo progresso econômico e social. Assim foi no Reino Unido no período anterior ao Brexit.

Martin Wolf*: Putin reacendeu velhos conflitos

Valor Econômico

Frequentemente as sanções são ineficazes. As impostas desta vez não serão

Ninguém sabe como isso vai terminar. Mas sabemos como tudo começou. Vladimir Putin montou um ataque não provocado a um país inocente. Ele cometeu o pior ato de agressão em solo europeu desde 1945 e justificou esse ato vil com mentiras ultrajantes. Ele também, no momento, uniu o Ocidente contra ele. Putin não é o primeiro tirano a confundir desejo de paz com covardia. Em vez disso, ele despertou a ira dos povos ocidentais. O resultado é uma série de sanções contra a Rússia tão impressionantes quanto justificadas.

Putin pode ser o homem mais perigoso que já viveu. Ele se dedica a restabelecer o império perdido da Rússia, indiferente ao destino de seu próprio povo e, acima de tudo, domina uma vasta força nuclear. Ainda assim a resistência, por mais arriscada que seja, é imperativa.

Paulo Sotero*: Um Brasil altivo e ativo, mas do lado errado

O Estado de S. Paulo

Não nos enganemos. A injustificável invasão da Ucrânia pela Rússia tem apoio tanto de Bolsonaro como de Lula

A incapacidade de nossas elites dirigentes de identificar o interesse nacional, que as impele a subir no muro sempre que a realidade impõe uma escolha clara, produziu um efeito surpreendente na guerra desencadeada pela criminosa invasão da Ucrânia pela Rússia. Desta vez, o Brasil optou – com firmeza – pelo lado errado.

Inspirado, senão incentivado, por seu mentor, Donald Trump, admirador declarado de Vladimir Putin, o líder brasileiro viajou a Moscou duas semanas antes do ataque para posar em casa de mediador, papel que não tem condição intelectual ou política para exercer. Na volta, justificou a viagem afirmando que ela fora motivada pela preservação de interesses comerciais do País – hoje reduzido a um fazendão exportador de matérias-primas agrícolas e minerais de baixo valor agregado.

Vozes dissonantes, como a do vice-presidente Hamilton Mourão, e inúmeras outras manifestações indicam que a sociedade brasileira não aprovou a embaraçosa sortida diplomática de Bolsonaro e está alinhada com a comunidade internacional na condenação da Rússia, patente desde o início do conflito e expressa pela esmagadora maioria dos países-membros das Nações Unidas na segunda-feira passada. Mas não nos enganemos.

Roberto DaMatta: Cinzas sem fogo e guerra

O Globo / O Estado de S. Paulo

Tenho uma memória nítida do meu primeiro carnaval. Dele, há uma velha foto dos anos 1940. Anos em que vivíamos em Maceió, Alagoas, e meu pai, sério e com mapas da Europa na mesa, ouvia pelo rádio os avanços das tropas aliadas derrotando Hitler. Mas hoje, com cinzas na cabeça, descubro que o “imperialismo” não é monopólio dos “ianques capitalistas” — lembram o “ianque, go home”? —, mas pertence também a uma Rússia putinista-comunista.

Na memória, a guerra e a invasão na Europa — as cinzas que abusadamente nos envolvem como um símbolo tenebroso do fim. Na fotografia, o testemunho do mel, que, como aprendi com Lévi-Strauss, contém o doce tão aguçado que se confunde com o fogo. O fogo dos “lábios de mel” da namorada sinalizadora da vida.

Na foto, estamos, meus irmãos e eu, fantasiados de pierrô, personagem clássico da commedia dell’arte. A julgar pelas nossas carinhas cinzentas, éramos a própria imagem do infeliz namorado da Colombina, que se apaixona pelo risonho e meloso Arlequim. Nossa “fantasia” de cetim preto — ornada com pompons brancos e encimada por um chapéu cônico usado quando antigamente as crianças eram castigadas —completa esse momento cinzento do meu primeiro carnaval.

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão*: Adeus papai!...Adeus, filho!...

O início do fim da guerra do Vietnam foi marcado por dois eventos impactantes. A foto da menina vietnamita correndo nua pela estrada, tentando escapar das bombas de napalm que explodiam atrás dela, e o assassinato, com um tiro no ouvido de um vietcong capturado, no meio da rua de Saigon, em frente as câmeras de televisão, dado pelo chefe de polícia. A opinião pública mundial foi despertada naquele momento para a desumanidade, a brutalidade e a insanidade das guerras.  Afinal, o respeito à vida humana e a diplomacia teriam evoluído muito. 

Há dois ou três dias, na divisa com a Ucrânia, uma mulher assistia a orientação dada aos jovens soldados russos, perfilados, prontos para a ocupação da Ucrânia. Avistando filho no meio da tropa, não resistiu: atropelou oficiais e guardas, invadiu a formação, abraçando-se a ele, chorando. O soldado manteve inicialmente a postura militar ereta, olhando para frente onde estava os superiores mas, de repente, também desabou em lágrimas abraçado à mãe. 

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Relatório da ONU sobre clima traça cenário alarmante

O Globo

Publicado na segunda-feira, o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU, conhecido pela sigla em inglês IPCC, deixa claro que os riscos do aquecimento global estão aumentando — e em alta velocidade. Pior: em breve, poderão se tornar maiores que a capacidade da humanidade e da natureza de se adaptar. O documento é resultado do consenso formado nos seis últimos anos por 270 cientistas de 67 países, inclusive o Brasil.

Nas discussões sobre o clima, muitas vezes a opinião pública acaba se sentindo perdida em meio a números e jargões obscuros. Para evitar confusão, basta lembrar que a bússola nesse debate é uma só: a temperatura. A média global já aumentou cerca de 1,1 °C desde o século XIX. O período pré-industrial, antes de a ação humana resultar na emissão de grandes quantidades de poluentes e na devastação de florestas, é usado como a base de comparação.

Caso nada seja feito daqui para a frente, chegaremos a 2100 em algum ponto entre 2 °C e 3 °C de aumento. O relatório do IPCC afirma que a meta estabelecida em 2015 no Acordo de Paris — garantir um aquecimento abaixo de 2 °C — não será suficiente para evitar o pior. Se o aumento de temperatura passar de 1,5 °C, os esforços de adaptação poderão falhar.

Poesia | Carlos Pena Filho: Soneto do desmantelo azul

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas,

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.

Música | Bloco da Saudade: Último Regresso

 

terça-feira, 1 de março de 2022

Merval Pereira: Carnaval, carnavais

O Globo

‘Existem no Brasil apenas duas coisas realmente organizadas: a desordem e o carnaval.’ Essa frase, atribuída ao barão do Rio Branco, é perfeita para explicar por que o carnaval aconteceu mesmo tendo sido oficialmente adiado devido à pandemia da Covid-19. O mesmo se deu há 110 anos, devido justamente à morte do próprio barão, o então ministro do Exterior, José Maria Paranhos Júnior, um apaixonado por carnaval e pela cultura brasileira.

No mês do centenário de morte do barão, que, aliás, manteve o título mesmo depois de proclamada a República, publiquei um texto na edição eletrônica do GLOBO que merece ser relembrado. O barão morreu no dia 10 de fevereiro de 1912, quando estava tudo pronto para o carnaval no dia 17 de fevereiro. O governo decretou luto oficial e transferiu o carnaval para o dia 6 de abril, o mesmo mês em que acontecerá nosso carnaval oficial.

Assim como há 110 anos, o carnaval da pandemia aconteceu em festas de rua, em lugares fechados e até mesmo com convites pagos, em vários estados e cidades. O adiamento do carnaval só aconteceu essas duas vezes, por razões de tragédias. A nova cepa Ômicron inviabilizou o carnaval oficial deste ano, assim como a morte do barão do Rio Branco provocou uma comoção nacional, com milhares de pessoas chorando na fila de seu velório. Muitos blocos desfilaram na data marcada, embora as lojas e repartições públicas estivessem fechadas e, depois do luto, outro carnaval começou.

Carlos Andreazza: Ustra nos costumes, Tarcísio na economia

O Globo

Bolsonaro palestrou para o mercado financeiro. Estava bravo. Tom em que apresentou o tripé por meio do qual pretende ser competitivo — e creio que será — em 2022: radicalizar contra o “establishment”, atacando sobretudo a credibilidade da urna eletrônica, para alimentar sua base de apoio sectária; radicalizar na sociedade com Ciro Nogueira/Arthur Lira/Valdemar Costa Neto, de modo a colher em votos a perversão do Orçamento em orçamento secreto para reeleição; e radicalizar na mobilização do sentimento antilulopetista, ora adormecido.

Palestrou para a mesma plateia que o ovacionara quatro anos atrás, então pré-candidato, enquanto desfilava sua agenda econômica: valorizar a banana do Vale do Ribeira, destinada a competir com a do Equador, e investir na transformação da Baía de Angra numa nova Cancún. Já havia Paulo Guedes, embora ausente do evento. Ausente, mas presença o suficiente — fiador o bastante — para que não houvesse dúvida, apesar das bananas e de suas cascas: Bolsonaro, “mito, mito!”, já era, meses antes do primeiro turno, o escolhido.

Míriam Leitão: Rússia sitiada na economia

O Globo

O ataque do Ocidente à Rússia de Vladimir Putin, na área financeira, foi sem precedentes, e o país foi arremessado de volta à crise de 1998, quando as moedas dos países emergentes sofreram colapsos seriais. Certamente o presidente Vladimir Putin subestimou a reação dos grandes países, nos quais depositou suas reservas. No fim do dia, o quinto da guerra que declarou contra a Ucrânia, seu Exército estava às portas de Kiev, seu Banco Central estava de joelhos, e sua população estava numa corrida contra o rublo. Putin acumulou US$ 630 bilhões de reservas para descobrir que o Manifesto Comunista, que deve ter lido nos tempos de espião soviético, continha o melhor alerta: “Tudo o que era sólido desmancha no ar”.

Luiz Carlos Azedo: Não adianta ficar Putin, a Ucrânia já ganhou

Correio Braziliense

Política e moralmente, o presidente russo já está derrotado; pode até ocupar Kiev, a capital ucraniana e berço histórico da própria Rússia, porém, cedo ou tarde, terá que bater em retirada

O samba vencedor de 1991 do Bloco de Segunda foi um dos melhores do Carnaval carioca daquele ano, empolgando a multidão que desfilou pelas ruas do Humaitá já na concentração dos foliões, a área de descarga dos caminhões que abastecem a Cobal de Botafogo. Era o início da chamada Era Collor de Mello, o breve, que havia sido eleito com a discurso de por o Brasil em sintonia com o mundo moderno. Progresso, civilização, o jovem presidente propunha ao Brasil retomar o rumo do futuro, a partir da abertura comercial e da ultrapassagem do velho modelo de substituição das importações pela integração competitiva à economia mundial.

Estado mínimo, privatizações, modelo de acumulação flexível, sua agenda neoliberal era polêmica, mas fracassou. O que não faltava para os blocos de rua, que ressurgiam com força por todo o Rio de Janeiro, era assunto para sambas e marchinhas. Por exemplo, o confisco da poupança, que fez naufragar o plano econômico da então ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, e do presidente do Banco Central (BC), Ibrahim Eris.

Eliane Cantanhêde: Dicotomia ou esquizofrenia?

O Estado de S. Paulo

Bolsonaro fala uma coisa, o Itamaraty faz outra. Neutralidade ou equilíbrio?

O mundo acompanha, estupefato, a dicotomia insana do Brasil diante da invasão russa na Ucrânia, que terá drásticas consequências por toda a parte. O presidente Jair Bolsonaro diz uma coisa, o Itamaraty faz outra. Ele anuncia “solidariedade” à Rússia e “neutralidade”, mas o Brasil votou contra a Rússia na ONU e o chanceler Carlos França corrigiu ontem na Globonews: a posição do Brasil “é de equilíbrio, não de neutralidade”.

Uma vez negacionista, sempre negacionista, e o Brasil tem o azar, ou a imprudência, de ter um presidente que deu de ombros para a pandemia, as vacinas, as enchentes na Bahia, a Amazônia em chamas, a Educação e a Cultura e agora trata de forma rasa, com uma ligeireza espantosa, uma guerra que atinge todo o mundo e terá altos custos para os brasileiros.

Felipe Salto*: Vícios privados, malefícios públicos

O Estado de S. Paulo.

Qualquer reforma administrativa deve começar por este ponto: a extinção de todos os privilégios

É preciso reverter a perda de bem-estar social derivada da captura do Estado por verdadeiros caçadores do erário. É hora de escancarar os custos das políticas públicas, para que a sociedade possa colocar na balança e comparar, por exemplo, uma isenção fiscal para um grupo de empresas ao pagamento de uma transferência social. Surrada, mas inescapável, a palavra chave é transparência. E, a partir dela, ações de governo para rever gastos ruins e abrir espaço para o que importa.

A ideia de que a ação autocentrada pode levar ao progresso econômico tem quase dois séculos e meio. É a lógica da “mão invisível”, de Adam Smith, segundo a qual as forças da oferta e da procura seriam vetores suficientes para o funcionamento da economia, mesmo na presença do egoísmo, digamos assim. O bom funcionamento dos mercados é, de fato, a base para estimular a atividade produtiva, que gera emprego e renda.

Hélio Schwartsman: Aventura está saindo caro para Putin

Folha de S. Paulo

No front econômico, as sanções vieram muito mais duras do que se antecipava

No cenário dos sonhos de Putin, suas forças já teriam tomado Kiev, a resistência dos ucranianos seria mínima e as sanções ocidentais não teriam ido muito além do embargo de alguns produtos. O governo do presidente ucraniano Volodimir Zelenski já teria caído, e o Kremlin estaria instalando um regime fantoche para substituí-lo. Se isso tivesse acontecido, o autocrata poderia gabar-se de ter feito a Rússia voltar a ser uma superpotência.

Joel Pinheiro da Fonseca: A 'complexidade' da questão russa não deve nos impedir de ver o óbvio

Folha de S. Paulo

Há quem busque artifícios para defender o lado moralmente errado

"Que falta de sofisticação condenar Putin! Não sabe que a situação no leste europeu é complexa?" Sem dúvida, é. A realidade é complexa, não há nada puramente bom ou puramente mau. Em meio aos incontáveis tons de cinza, contudo, é preciso fazer escolhas, e essas escolhas não são todas equivalentes.

Há quem recorra à complexidade para aprofundar nosso entendimento —e não tenhamos dúvida: tudo é complexo, até comprar pão na padaria. E há aqueles que buscam nos afundar em complexidades para defender —sem a coragem de admiti-lo— o lado moralmente errado.

Como bem apontado por Yuval Harari em artigo para a The Economist (9.fev), a ordem global liberal marcou uma mudança de valores: a conquista territorial deixou de ser bem-vista. A guerra é uma tragédia e não a aspiração legítima de uma sociedade. Desde 1945, nenhuma nação internacionalmente reconhecida foi apagada por conquista militar externa. É por isso que o mundo inteiro se levanta em coro para apoiar a Ucrânia, mesmo que intelectuais continuem a adular Moscou.

Alvaro Costa e Silva: Mentiras afrontosas

Folha de S. Paulo

O livro Limonov, de Emmanuel Carrère, lança luz sobre a invasão da Ucrânia

A invasão da Ucrânia me recordou "Limonov", o livraço de Emmanuel Carrère publicado em 2011. Carrère esbarrou num personagem real —Eduard Veniaminovich Limonov (1943-2220), ucraniano de nascimento cuja história vai da batalha de Stalingrado até os destroços do pós-comunismo na Rússia— que é o sonho de todo romancista.

O autor sente-se obrigado a explicar: "Não é um personagem de ficção. Ele existe. Eu o conheço". Também não é uma biografia. Está mais para reportagem selfie. Neto de imigrante georgiano que chegou à França nos anos 1920, Carrère aproveita a trajetória de Limonov para falar de si mesmo e das dificuldades em entender o mundo multipolar de seu protagonista. O cara era um enigma, um exemplo das incertezas e confusões da época atual. Como o ataque a Kiev, que não opõe combatentes de cores azuis e vermelhas; aponta uma zona cinzenta no mapa.

Cristina Serra: Mineração artesanal? Conta outra

Folha de S. Paulo

Se essa indústria fosse séria, condenaria a agenda que beneficia criminosos e pagaria o justo a atingidos pelos desastres

A mais recente novidade na fábrica de mentiras do dicionário bolsonarista é a tal da mineração artesanal, objeto de um decreto presidencial para formulação de políticas públicas para o setor. O decreto constrói uma realidade inexistente, como se a mineração no Brasil ainda estivesse no tempo da bateia.

O decreto é mais um exemplo da persistência do governo em legalizar práticas criminosas, como o garimpo em terras indígenas. Sobre esse assunto, é de grande relevância a investigação feita pelo Instituto Escolhas, "Raio X do Ouro", a respeito da extração e comercialização do ouro no Brasil (2015-2020). O relatório conclui que quase metade (229 toneladas) da produção nacional do período tem indícios de origem ilegal.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Fala de Bolsonaro sobre a Ucrânia envergonha Brasil

O Globo

Depois de dias de silêncio, o presidente Jair Bolsonaro aproveitou uma entrevista coletiva no último domingo para proferir suas primeiras declarações a respeito da guerra na Ucrânia — e, como esperado, foi extremamente infeliz em seu pronunciamento. Bolsonaro afirmou que o Brasil “não vai tomar partido”, defendeu as razões alegadas por Vladimir Putin para o ataque russo e disse que o Brasil adotaria uma posição neutra diante do conflito.

Nenhuma palavra de solidariedade aos civis ucranianos atingidos pelas armas de Putin (só ontem ele falou em oferecer vistos humanitários a refugiados). Nenhuma crítica à agressão russa ao território soberano da Ucrânia. Em vez disso, Bolsonaro fez apenas uma menção irônica ao presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky: “O povo confiou em um comediante para traçar o destino da nação”. Zelensky tem sido aplaudido no mundo todo por ter preferido cerrar fileiras com seus soldados na defesa do país a exilar-se.

Poesia | Joaquim Cardozo: Aquarela

Macaíbeiras chovendo
Cheiro de flor amarela;
Cheiro de chão que amanhece.
Estavas sob a latada
Quando te abri a janela.

Cheiro de jasmim laranja
Pelos jardins anoitece;
Junto a papoulas dobradas,
Num canteiro florescendo,
A tua saia singela.

Macaíbeiras chovendo
Cheiro de flor amarela...

Não sei se és tu, se eras outra,
Não sei se és esta ou aquela,
A que não quis nem me quer,
Fugindo sob a latada
Nessa tarde de aquarela.

Macaíbeiras chovendo
Cheiro de flor amarela...

Música | Alceu Valença - Madeira do Rosarinho (Capiba)

 

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Paulo Fábio Dantas Neto*: Putin em tempo de Bolsonaro: a esquerda brasileira e os abismos de duas esquinas

O fato incontornável da semana, candidato a ter longa vida, é a agressão militar da Rússia contra a Ucrânia, ato cujas causas e consequências cabe a análises especializadas detectar e estimar e cujo alcance destrutivo, nos sentidos político e humanitário, nenhum agente que exerça ou aspire exercer autoridade política, em qualquer lugar do mundo, tem direito de ignorar ou relativizar. É um novo desafio que se apresenta aos democratas brasileiros, já às voltas com uma devastação promovida por um autocrata interno. Palavras e gestos escolhidos para uma situação podem repercutir sobre a outra.

É imperativo que analistas voltados à compreensão dos cenários anterior e posterior à agressão russa usem informação qualificada, multilateral, o mais isenta possível de vieses e produzam interpretações equilibradas, dotadas de senso de objetividade. Tão imperativo quanto isso é não faltar, por outro lado, em declarações de líderes, partidos e outros agentes da política, a capacidade de se colocar, com clareza e senso de urgência, em oposição a um gesto político-militar imediato e concreto que liquida, por decisão unilateral do governo de um país, instituições e vidas humanas que importam a todos, seja no sentido da solidariedade entre indivíduos e entre povos, seja no da autopreservação de cada pessoa, ou país. São igualmente problemáticas, numa hora dessas, a contaminação ideológica de quem se propõe a ocupar o lugar de analista e a ausência, no caso de agentes políticos, da disposição subjetiva de encarar a agressão militar sob a orientação primordial de valores.

Nenhuma posição política realista precisa ou deve ser cancelada em emergências assim. Ao contrário, nessas situações-limite elas são ainda mais requisitadas, porém, o que delas se requer, como uma de suas premissas, é que não confundam uma saudável recusa à ideologia com sua diluição num varejo destituído de causas, o que denota, não política realista, apenas uma política pequena. Daí que a condenação da agressão não comporta meias palavras da parte de quem tem responsabilidade política.

Fernando Gabeira: Aventura humana do vírus à guerra

O Globo

Quando a pandemia entra em declínio, sopram ventos de guerra. A Rússia invadiu a Ucrânia e rompeu com a esperança global de que as fronteiras não sejam definidas pela força militar, mas por negociações diplomáticas.

Em 2018, estive em Moscou. Era Copa do Mundo, o que não impediu que eu conversasse com alguns russos sobre outros temas. A Ucrânia, para quase todos com quem falei, era tida como um pedaço da Rússia, uma perda dolorosa.

Putin decidiu completar a tarefa que iniciou em fevereiro de 2014, anexando a Crimeia. É indiscutível sua força militar. No entanto nem sempre a força bruta triunfa, apesar da admiração dos chamados realistas. Funcionou na Crimeia, não funcionou no Afeganistão.

Rússia e China parecem unidas no momento. Cada vez mais, cresce sua importância diante de um Ocidente perplexo. Ambas têm uma visão específica sobre democracia, direitos humanos, liberdades individuais.

Miguel de Almeida: No cercadinho com o inimigo

O Globo

Vivemos o tempo dos homens ocos, como lá atrás decretou T.S. Eliot. Também o aguçamento das mentiras, na visão de Marcel Proust ao ler as falsas notícias de vitórias francesas na Primeira Guerra Mundial. Em fuga das armadilhas fáceis das generalizações, Thomas Mann discordava de quem colocava o nazismo em igual patamar do comunismo.

— O nazismo é apenas o niilismo diabólico — teria declarado em 1949, alertando ainda que não era comunista.

Os três escritores passaram por guerras — Proust apenas pela Primeira Guerra (morreu em 1922). Já morando em Londres, Eliot, que era americano, permaneceu como professor e, em seu posto bancário, sem muitos percalços ao longo dos dois conflitos mundiais, somente decepcionado com a maldade humana. Basta ler “A terra desolada” e escutar seu mergulho no desencanto.

Pablo Ortellado: O Telegram cedeu

O Globo

Após ultimato do ministro Alexandre de Moraes, plataforma finalmente cumpriu uma decisão judicial brasileira

Depois de muita especulação sobre o que fazer com o Telegram, o ministro Alexandre de Moraes deu um ultimato e a empresa finalmente cumpriu uma decisão judicial brasileira. Em sua decisão, o ministro determinou a suspensão do canal do ativista bolsonarista Allan dos Santos, sob pena de multa de R$ 100.000 diários e a suspensão do aplicativo de mensagens no país, inicialmente por 48 horas. O Telegram, que sistematicamente se negava a atender decisões judiciais, cedeu e bloqueou no Brasil os canais de dos Santos. A mudança de postura da empresa terá grandes repercussões para o processo eleitoral no Brasil.

Marcus André Melo*: Bilhões e eleições

Folha de S. Paulo

Existe financiamento de partidos e campanhas em outras democracias?

Sempre houve muito dinheiro nas nossas eleições, e elas estão entre as mais caras do mundo. "Os gastos partidários são astronômicos, as despesas dos candidatos, elevadíssimas", escreveu Hermes Lima, em 1955.

Hoje estão ainda maiores; e a fatura continua a ser socializada. Até 2015, através de doações de empresas (ex. sobrepreço de contratos públicos); agora através de fundos públicos bilionários. A mudança tem elementos positivos —diminuição da influência corporativa sobre as eleições— mas os valores envolvidos, não. Remédio e veneno variam apenas na dose.

Celso Rocha de Barros: Esquerda e direita diante da Ucrânia

Folha de S. Paulo

Bolsonaro gostaria de unir-se à Otan, como os ucranianos, e instaurar uma ditadura como a de Putin

No que se refere à invasão da Ucrânia por tropas russas, duas coisas devem ser óbvias para a esquerda latino-americana: em primeiro lugar, ninguém precisa nos explicar que os Estados Unidos também são capazes de agressões imperialistas. Em segundo lugar, ninguém aqui aceita a ideia de que potências nucleares têm o direito de invadir países vizinhos que tentam sair de suas áreas de influência.

A Ucrânia é um país soberano que deve ter suas fronteiras preservadas.

Qualquer outra posição dentro da esquerda está errada. Não, uma vitória russa não será um triunfo do anti-imperialismo; será uma vitória do imperialismo russo.

Mirtes Cordeiro*: A paz e a liberdade como escudos para fazer a guerra

Sobre a guerra deflagrada contra a Ucrânia em pleno século XXI, o ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica, com sua grande sabedoria, fruto da experiência de vida, nos alerta a todos que querer resolver conflitos entre homens que habitam o mesmo espaço neste mundo, através da guerra, é indicativo de que ainda estamos na pré-história, apesar dos grandes avanços tecnológicos.

De 1945, quando acabou a Segunda Guerra Mundial, até a queda do Muro de Berlim (09.11.1989) – anunciando o fracasso da experiência do socialismo real instituído pela União Soviética (URSS), criada em 1922 por Lenin, então líder da Revolução Bolchevique -, a Europa ficou dividida entre o leste, que “pertencia” à União Soviética liderada pela Rússia, e o oeste, que “pertencia” aos países do ocidente participantes e vencedores da Segunda Guerra (EUA, Reino Unido e França).

O sentimento era de pertencimento mesmo, dados os níveis de obediência e restrições das quais se tinha notícia.

Ana Cristina Rosa: Com mulheres na cabeça

Folha de S. Paulo

O voto feminino no Brasil completou 90 anos na semana passada. Desde que a professora Celina Guimarães se alistou para votar em Mossoró, em 1927, e Alzira Soriano, primeira mulher eleita para um cargo público no país, assumiu a Prefeitura de Lajes, em 1929, ambos municípios do Rio Grande do Norte, muita coisa mudou. Em que pesem os avanços legais, o cenário nacional segue desfavorável e a participação das mulheres na política ainda é irrisória considerando o perfil demográfico brasileiro.

Denis Lerrer Rosenfield*: O Estado de bem-estar social

O Estado de S. Paulo

É uma falácia considerar que o valor da liberdade é representado pela direita, enquanto o da igualdade o seria pela esquerda

A discussão política acerca da esquerda e da social-democracia no Brasil é frequentemente confundida com o debate sobre a noção de Estado de bem-estar social, como se este fosse fruto da esquerda. Note-se, a respeito, que a trajetória histórica de constituição desta forma de Estado foi liderada por vários partidos, adotando todos os valores da democracia e da igualdade. Na Itália, sucederam-se vários governos de orientação democrata-cristã, muitas vezes com apoio dos comunistas e socialistas. Na Alemanha foram governos também de orientação democrata-cristã, alternando-se no poder no transcurso de décadas com governos social-democratas. Nada de essencial mudava nesta alternância política, salvo em questões menores, nenhuma delas comprometendo as liberdades, a democracia, as medidas sociais e a economia de mercado. Na França, governos de orientação gaullista se alternaram com governos socialistas, sem que os pilares do Estado fossem comprometidos. Em nenhuma destas alternâncias em diferentes países adversários políticos foram tratados como inimigos a serem eliminados.

Luiz Carlos Azedo: Ocidente e Oriente estão em luta pela hegemonia na Ucrânia

Correio Braziliense, 27.2.2022

O Estado de bem-estar social, que fora fundamental para suplantar o chamado “socialismo real”, entrou em crise e a democracia tem dificuldades de acompanhar as mudanças de uma economia globalizada

Quando Alexander Hamilton exortou os norte-americanos a decidirem se “as sociedades humanas são mesmo capazes de constituir um bom governo, com base na reflexão e na escolha, ou se estão condenados para sempre a ter organizações políticas que são fruto do acidente e da força” (O Federalista, nº 1), em 1787, no debate que levou à consolidação a Constituição dos Estados Unidos, traçou o curso da linha divisória que separa o Ocidente democrático do resto do mundo. Os países que foram capazes de seguir esse caminho constituíram bons governos e foram adiante, ampliando consideravelmente a sua influência mundial; os que tomaram outro rumo, como a Alemanha nazista e, mais recentemente, a antiga União Soviética, amargaram o declínio, a disfunção e/ou o colapso.

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EDITORIAIS

Senado acerta ao tomar iniciativa de regular criptoativos

O Globo

A Comissão de Assuntos Econômicos do Senado fez bem ao aprovar na semana passada um projeto de lei sobre transações com criptomoedas. O projeto tem dois pontos- chave: 1) estabelece que as prestadoras de serviços de criptoativos só poderão operar no país após receber autorização do Banco Central (BC) ou de outro órgão indicado pelo Executivo; 2) altera o Código Penal para tipificar fraudes com serviços de ativos digitais. A expectativa é que os investidores se sintam mais protegidos e que aqueles até agora reticentes possam começar a aplicar nesses ativos com segurança.

O universo das criptomoedas nasceu descentralizado e avesso à regulamentação. Alimentado por um sonho libertário, atraiu um sem-número de golpistas e o crime organizado, interessado em novas formas de lavar o dinheiro obtido como produto de atividades ilegais.

Muitos investidores, inebriados pela promessa dos altos retornos, se tornam presas fáceis dos faraós de pirâmides financeiras sem a menor sustentação. Como os brasileiros podem testemunhar por experiência própria, os golpes podem ser virtuais, mas os prejuízos logo assumem a forma de reais no saldo bancário.

Poesia | Manuel Bandeira: Poema de uma quarta-feira de cinzas

Entre a turba grosseira e fútil
Um pierrot doloroso passa.
Veste-o uma túnica inconsútil
feita de sonho e de desgraça…
o seu delírio manso agrupa
atrás dele os maus e os basbaques.
Este o indigita, este outro apupa…
indiferente a tais ataques,
Nublaba a vista em pranto inútil,
Dolorosamente ele passa.
veste-o uma túnica inconsútil,
Feita de sonho e de desgraça...

Música | Alceu Valença, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo: Banho de Cheiro