Os
capítulos são textos de diferentes tipos: por exemplo, há boas reconstruções
históricas, como as de João Villaverde e Rodrigo Brandão sobre o
presidencialismo brasileiro; ou a de Irapuã Santana sobre as políticas públicas
que preservaram a desigualdade racial herdada da escravidão. Há dois excelentes
textos sobre o estado de nossa esfera pública: um de Laura Karpuska e Vandson
Lima sobre accountability nas redes sociais e na imprensa e outro de Tai Nalon,
chefe da agência de checagem Aos Fatos, sobre o
problema das fake news.
Segundo o Censo
de 2010, dos 190.755.799 habitantes no território brasileiro, 42.275.440
pessoas eram evangélicas - o que equivalia a 22,2% do total. Já se passaram 12
anos, e muita coisa mudou no Brasil desde o último levantamento demográfico
realizado pelo IBGE.
Os institutos de
pesquisas que estão indo a campo para tentar estimar as preferências do eleitor
para o pleito de outubro têm encontrado um contingente de 24% a 26% dos
entrevistados que se dizem evangélicos. Muitos especialistas acreditam que o
índice real seja de quase um terço da população.
Baixar
rapidamente a inflação causaria um alto custo à economia
Com
o choque nos preços de petróleo, dos alimentos e dos metais causado pela
invasão da Ucrânia pela Rússia, o mercado está reestimando as suas projeções de
inflação para percentuais ainda mais altos. Muitos estão questionando: o Comitê
de Política Monetária (Copom) do Banco Central deveria jogar a toalha e
desistir de cumprir a meta de inflação de 2023?
A
julgar pelo histórico da diretoria do BC, comandada por Roberto Campos Neto,
isso é pouco provável. O Copom deverá manter o foco em trazer a inflação, que
chegou a 10,54% no período de 12 meses até fevereiro, ao objetivo de 3,25%
definido para o ano que vem. Mas é possível que passe a agir de forma mais
gradual, sem as altas agressivas que imprimiu na taxa Selic até fevereiro.
O
principal argumento dos defensores de uma convergência mais lenta da inflação
para a meta é que o sacrifício, em termos de perda de atividade econômica e de
alta do desemprego, seria muito alto. Mais recentemente, surgiu um novo
argumento, ligado à estabilidade financeira. A economia teria se moldado ao
ambiente de juros mais baixos, de um dígito, e uma alta muito forte da Selic
poderia desestabilizar empresas e o setor financeiro.
Na
invasão da Ucrânia, a Rússia retomou os seus protocolos militares empregados
nas guerras da Chechênia e da Geórgia
As
imagens de bombardeios russos a populações civis na Ucrânia são aterradoras.
Impossível não sentir desgosto e indignação moral. Se houve algum progresso na
Europa, após a Segunda Guerra Mundial, ele se deveu a um dizer não a soluções
militares, privilegiando conversações diplomáticas, mesmo no período mais agudo
da guerra fria. Formou-se um consenso em torno do Estado de Bem-estar Social,
voltado para o atendimento das necessidade individuais e coletivas. Logo, o
continente europeu – e não outras partes do mundo – foi preservado de conflitos
propriamente militares, podendo os membros dos vários Estados se dedicarem a
seus afazeres privados.
A
Europa do século 19, durante décadas, conseguiu privilegiar soluções
diplomáticas, graças a diplomatas da mais alta estirpe como Metternich,
Castlereagh e Talleyrand, conhecedores da história e da arte da negociação.
Após a destruição deste mundo, no final do século 19 e, depois, nas duas
guerras da primeira metade do século 20, parecia que um mundo novo viera para
ficar, com um não rotundo sendo dito às atrocidades da Segunda Guerra Mundial.
Congresso
elegeu neste sábado novo Diretório e nova Executiva nacionais
O
Cidadania elegeu neste sábado (12) o novo Diretório e a nova Executiva
nacionais. Foi o XX Congresso Nacional do partido, sendo o primeiro realizado
como Cidadania (10 foram como Partido Comunista Brasileiro e 9 como Partido
Popular Socialista, antecessores da nova formação política). Numa decisão
unânime, o atual presidente Roberto Freire foi reconduzido. Dizendo-se
contrariado pela possibilidade de reeleição, o senador Alessandro Vieira (SE)
não chegou a votar e anunciou sua desfiliação do partido.
Os
deputados Daniel Coelho e Rubens Bueno (PR), além da senadora Eliziane Gama
(MA) e Comte Bittencourt, que dirige o Cidadania no Rio de Janeiro, serão
vice-presidentes. Assume o cargo de secretário-geral do partido o presidente do
Cidadania alagoano, Régis Cavalcante. Os novos colegiados respeitam o
percentual de 30% de mulheres em órgãos de direção, como prevê o Estatuto, e
também tem representantes dos setoriais de Diversidade e Igualdade.
“Aquilo
que surgiu em 1922 [ano de fundação do PCB] tem uma linha mestra. Uma linha de
pensamento e intervenção na política, voltada para uma sociedade mais justa,
com valores de fraternidade, concepção humanista e visão internacionalista.
Para ter continuidade, processo de modernização é necessário e se impôs. E
tivemos coragem de fazer. Nós agora precisamos chegar ao século XXI. Esse ano é
fundamental pra definimos se queremos ser contemporâneos do futuro”, defendeu
Freire.
Responsável
por uma proposta inicial de novo programa para o partido, que será aperfeiçoada
em discussões ao longo do ano, Caetano Araújo, da Fundação Astrojildo Pereira
(FAP), disse que a busca do partido é por reapresentar, no Brasil, um movimento
que já ocorre em outros lugares do mundo, como a Europa, de convergência entre
sociais-democratas, verdes e liberais progressistas. Uma agenda que alie
inclusão social, sustentabilidade e responsabilidade fiscal.
“O
Cidadania é necessário para levar esse conjunto de posicionamentos à frente de
forma mais consequente do que os partidos maiores. Isso situa o Cidadania num
campo que tradicionalmente chamamos de esquerda, mas uma esquerda renovada. A
pauta tradicional das esquerdas era equidade e inclusão social. A pauta
ampliada é equidade, inclusão social, sustentabilidade, responsabilidade
fiscal, cosmopolitismo e democracia. Uma esquerda democrática moderna, atual”,
sustentou.
Freire
lembrou ainda a importância histórica do partido, desde os tempos do PCB.
“Esse
partido não tem tendências ou bancadas e interesses por mais que sejam
legítimos. O que construímos aqui é o órgão máximo da permanência do partido,
entendendo as particularidades, os problemas dos estados e municípios. Mas um
órgão nacional, com pensamento nacional. Nunca tivemos grande expressão
numérica, mas sempre fomos um partido respeitado. Podem contar a história do
povo brasileiro, mas se não falarem de nós, não estarão contando a verdadeira
história do povo brasileiro, como disse Ferreira Gullar”, avaliou.
‘SUS da Educação’
traz nova esperança para resgatar ensino
O Globo
Pode ter efeito
revigorante o projeto aprovado por unanimidade no Senado que institui o Sistema
Nacional de Educação (SNE), apelidado “SUS da Educação”. A proposta, que ainda seguirá
para a Câmara, regulamenta a colaboração entre União, estados e municípios na
gestão do ensino. A exemplo da Saúde, o SNE terá uma comissão tripartite, com
representantes das três esferas do Executivo, que decidirá sobre avaliações,
parâmetros de qualidade, compras, material didático, carreira dos professores
etc.
À União, caberá
coordenar, oferecer apoio técnico e financeiro a estados e municípios, além de
gerir o sistema nacional de avaliações. A ideia é, sem desrespeitar a autonomia
dos demais entes, permitir que as principais políticas educacionais do país
possam ser discutidas em conjunto pelas três esferas da administração, como
ocorre no SUS.
A pandemia de
Covid-19 expôs bons e maus exemplos de ação coordenada. Não há dúvida de que o
SUS, com todas as suas limitações, inclusive orçamentárias, respondeu de modo
competente ao desafio imposto pela mais letal pandemia dos últimos cem anos. O
maior obstáculo não foi a centralização, mas a gestão errática do Ministério da
Saúde, que abriu mão de seu papel de coordenação da crise sanitária, em muitos
momentos chegando a boicotar o trabalho de governadores e prefeitos. Na
vacinação, a partir do momento em que houve imunizantes disponíveis, o esquema
funcionou. O governo federal comprou as vacinas, os estados distribuíram os
lotes aos municípios, e as prefeituras aplicaram as doses.
Há quem acredite saber exatamente ‘o que
fazer’ e se dedique a convencer os demais a acreditar nisso em busca do poder
Começamos muito mal esta terceira década do
século 21. É assustador imaginar os desdobramentos desta crise, que transcende
em muito a questão ucraniana. Os horrores da guerra, o sofrimento causado ao
povo da Ucrânia, terão consequências globais, geopolíticas e econômico-sociais
que se projetarão por anos. As incertezas, os riscos e a volatilidade, que já
não eram pequenos, acentuaram-se sobremaneira com os choques de oferta, as
fortes pressões inflacionárias e a inevitável redução da taxa de crescimento global.
“É assustador imaginar que não sabemos
algo, mas mais assustador ainda é imaginar que, em geral, o mundo é dirigido
por pessoas que acreditam saber exatamente o que está acontecendo.” A frase de
Amos Tversky poderia ser estendida para incluir as pessoas que acreditam saber
exatamente o que fazer; e dedicam-se a convencer os demais a acreditar nisso –
como forma de chegar ao poder, nele continuar ou a ele voltar.
Bolsonaro já está no poder e nele pretende
continuar, para o que precisa obter 50% + 1 dos votos válidos nas próximas
eleições. Conta, para tanto, com o relato de seus feitos neste primeiro
mandato, turbinando a narrativa com o uso de sua ampla militância digital nas
redes sociais. Conta, também, com os instrumentos do poder – a prerrogativa de nomear,
demitir, cooptar, ameaçar, prometer e distribuir benesses. Esse poder do
incumbente não deve ser subestimado, principalmente quando se está disposto a
fazer o que for necessário, custe o que custar, para alcançar o objetivo de
mais um mandato. Pouco importa que outros não concordem, desde que representem
menos de 50% dos votos válidos. Se forem mais, é sempre possível alegar fraude;
o modelo Trump vem sendo seguido à risca, desde 2016.
Improvisação e ações populistas contra a
alta de preços podem ser mais danosas que os reflexos econômicos da aventura de
Vladimir Putin
Putin chegou atrasado, mas deu sua
contribuição ao desarranjo econômico do Brasil. A inflação brasileira, uma das
maiores do mundo, já superava 10% em 12 meses antes do primeiro tiro contra a
Ucrânia. Em janeiro, bateu em 10,38%. Em fevereiro, atingiu 10,54%, mas a
invasão do território ucraniano só começou no dia 24. A guerra e as sanções à
Rússia agravaram as condições de um mercado internacional já inflacionado.
Subiram as cotações de alimentos e do petróleo. A Petrobras acabou elevando os
preços do óleo diesel, da gasolina e do gás de cozinha, encerrando um estranho
congelamento mantido por 57 dias. A aventura russa abalou, finalmente, o dia a
dia dos brasileiros, mexendo nos preços, aumentando a insegurança de uma
economia emperrada e reforçando as tentações de jogadas populistas e de novos
desatinos eleitoreiros.
O futuro exige de nós esperança. Mas a
realidade a nega diariamente. A guerra transforma a Ucrânia em escombros e cria
um ambiente de hostilidade crescente entre potências que têm o poder de
destruir o planeta. Estão sendo desfeitos elos de décadas de cooperação. No
Brasil, o governo Bolsonaro e suas forças bombardeiam edifícios legais que a
democracia construiu em anos de debate, negociação e luta. Bolsonaro não age
nesta destruição do futuro sozinho. O presidente da Câmara dos Deputados,
Arthur Lira (PP-AL), é seu fiel escudeiro.
Lira colocou para votar a urgência de um
projeto hediondo, no momento em que, na frente do Congresso, manifestantes
pediam tempo para debater o assunto. O projeto permite mineração, exploração de
óleo, gás, hidrelétricas, plantação de transgênicos em terras indígenas. Lira
disse que criou uma comissão para debater o assunto. Não é verdade. Sua
comissão é para inglês ver. Ele está impedindo o debate e há outras tramas
sendo urdidas, como a de acoplar esse projeto a outro que já está com a
tramitação mais adiantada. Essa matéria define o futuro dos indígenas, mas
também o nosso futuro como país.
Para o bem de todos e felicidade geral da
nação, a Coalizão Brasil Clima, que reúne empresas, bancos e associações de
agricultores, dissociou-se dos agrotrogloditas e do garimpo ilegal que tentam
passar a boiada da mineração em terras indígenas por conta da guerra na
Ucrânia.
Na parolagem, o caso é simples: o Brasil
precisa de fertilizantes, eles vêm de lá e da Rússia. Cortada a linha de
comércio, seria necessário minerar o potássio que está em terras indígenas da
Amazônia.
Faz tempo que Jair Bolsonaro fala desse
potássio. É um aspecto de sua fixação em metais e produtos mágicos. Na
pandemia, cloroquina, fora dela, grafeno e nióbio. Indo mais adiante, uma
pesquisa para transmitir de energia por cima da floresta, sem cabos.
A Coalizão Brasil Clima bateu de frente
contra esse avanço nas terras indígenas, que tramita em regime de urgência na
Câmara. Para evitar que se passe a boiada, ela informa:
Preço de combustíveis em qualquer governo
depende de dólar, mercado mundial e política
O preço médio da gasolina sob Lula 2
era equivalente ao do governo Bolsonaro antes
da epidemia e até mesmo em fins de 2020. O diesel era um tico mais caro. O gás
de cozinha, mais barato. A guerra fez estrago decisivo. Trata-se aqui de preços
corrigidos pela inflação para o consumidor, o IPCA.
Sob Dilma 1 (que fez tabelamento informal e
teve dólar amigável) e Temer (que
liberou geral), diesel e gasolina eram mais baratos. A conta muda pouco se a
gente medir o poder de compra do salário
mínimo ou do salário médio em termos de combustíveis, vide gráfico.
Essa história dá o que pensar sobre preços
importantes, combustível e comida. Dependem de dólar e
preço mundial, sempre, e de políticas, várias com danos colaterais graves, como
tabelamentos e subsídios perversos.
Ex-presidente ainda quer Alckmin para
neutralizar discurso antipetista, mas tenta preservar bases
Lula abriu os braços para personagens de
campos políticos opostos na última semana. Num canto, o petista reconheceu o
avanço de suas negociações com Geraldo Alckmin e repetiu o interesse em ter o
ex-tucano como candidato a vice. De outro lado, ele enviou uma mensagem ao
Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto e prometeu dar
protagonismo ao grupo se vencer a eleição.
Esses dois aliados de Lula são mais do que
tímidos adversários políticos. Guilherme Boulos (PSOL), líder do MTST, já
acusou Alckmin de cometer uma barbárie ao
ordenar a remoção da comunidade do Pinheirinho, no interior de São Paulo. O
ex-governador, por sua vez, se referiu ao psolista como um
"desocupado" num debate presidencial de 2018.
Bolsonaro e deputados mercenários compõem
espécie de milícia especializada em política como negócio imoral
Todas as propostas
que partem de Bolsonaro ou mobilizam o seu empenho têm alguma
ordinarice, de seu interesse pessoal, como motivação básica. Nem por isso a
conduta por ele imposta à Presidência é o que mais compromete o futuro do
Brasil como país —no conceito do mundo e no seu próprio sentimento de país
envergonhado.
A aceitação
da tragédia nacional pela quase total coletividade dos influentes,
civis e militares, é ela mesma uma tragédia maior, por sua propagação
incorrigível no futuro.
Tornar
legal o garimpo em terras indígenas e a liberação prática do
desmatamento são favorecimentos diretos às milícias criminais, que invadem as
áreas preservadas, e ao empresariado que toma áreas imensas para plantio de
soja ou criação de gado.
Para que não haja mais guerras, devemos
travá-las como animais
Para que não haja mais guerras,
devemos travá-las como animais, sem fazer prisioneiros e sendo tão cruéis quanto
possível com o inimigo. Chocante? Hoje, sem dúvida, mas esse tipo de raciocínio
era relativamente comum até o início do século 20. Ele está presente, por
exemplo, nas reflexões que Leon Tolstói põe na boca do príncipe André, um dos
protagonistas de "Guerra e Paz".
É verdade que, à medida que Tolstói foi se
tornando um fanático religioso, também foi abraçando um pacifismo que soa menos
paradoxal a nossos ouvidos modernos. Mas talvez o príncipe André não estivesse
tão errado assim.
A decisão de Putin de invadir a Ucrânia
muito provavelmente será um destes casos de insensatez que os historiadores
futuro vão estudar
A insensatez é um processo, só pode ser
captada por filme, mas a guerra da Ucrânia conseguiu fazer uma foto que
concentra neste instante a falta de sensatez ao longo de décadas. Analisando
casos concretos, historiadora Barbara Tuchman publicou clássico sobre a
insensatez nas decisões políticas de governantes. Entre eles, a decisão de
Troia de aceitar o presente dos gregos, um cavalo cheio de soldados dentro; o
envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do Vietnam; a arrogância do Papa
esnobando um simples e jovem padre chamado Martin Lutero.
Na posse da nova diretoria da Academia
Brasileira de Letras (ABL), sexta-feira, enumerei alguns compromissos da
principal instituição cultural do país, que passo a enumerar:
Diversidade
“Nos últimos meses procuramos espelhar mais a diversidade brasileira ao
escolher os substitutos para as cadeiras vagas. Renovamos nossa crença no
empoderamento feminino elegendo a atriz Fernanda Montenegro, ícone da cultura
brasileira e representante do teatro que já deu à ABL, entre outros, o crítico
Sábato Magaldi e o dramaturgo Dias Gomes, cujo centenário comemoramos este ano.
Em Gilberto Gil celebramos a poesia e a identidade afrobrasileira, que sempre
esteve presente na Academia, desde o fundador Machado de Assis até o recente
presidente Domicio Proença Filho e grandes negros do mundo da cultura
brasileira, como Evaristo de Moraes Filho, Octavio Mangabeira e José do
Patrocínio, entre outros. Num momento em que a ciência nunca foi tão necessária
e ao mesmo tempo tão negligenciada pelas autoridades, elegemos o neurocirurgião
Paulo Niemeyer Filho, seguindo uma tradição de ter entre nós grandes médicos
como Oswaldo Cruz, Carlos Chagas Filho e mais recentemente Ivo Pitangui. A
visão humanística de José Paulo Cavalcanti, jurista e escritor, especialista em
Fernando Pessoa, e a visão modernizadora do economista, filósofo e escritor
Eduardo Giannetti da Fonseca foram as duas recentes homenagens feitas à
diversidade cultural do país, um pernambucano de raiz, o outro mineiro, com
atuação a partir de São Paulo”.
O fotógrafo não fotografa para si, mas para
os olhos que estão distantes. A definição é de Orlando Brito, o grande repórter
fotográfico de Brasília. Por quase seis décadas, ele transportou os olhos dos
leitores para a capital. Desvendou o teatro da política e foi testemunha ocular
da história do Brasil.
Nascido no interior de Minas, Brito migrou
para o Planalto Central em 1957, antes de a cidade ser inaugurada. Aos 7 anos,
ajudava o pai a levar tijolos aos canteiros de obra. Aos 14, servia cafezinho
na sucursal da Última Hora. Foi promovido a laboratorista, aprendeu a revelar
filmes, apaixonou-se pelo fotojornalismo. Em 1965, o acaso o presenteou com uma
oportunidade. A redação estava sem fotógrafos, e o garoto recebeu a tarefa de
acompanhar uma agenda do marechal Castello Branco. “A primeira foto que fiz foi
de um presidente”, contava. A estreia seria o prenúncio de uma carreira única
na imprensa.
Muito antes de o bicho homem tomar rumo
semelhante, os animais já se aglomeravam em grupos mais amplos do que as
famílias biológicas a que pertenciam. Fizeram bem, pois assim alongaram seu
tempo de sobrevivência no planeta. A natureza das espécies foi generosa também
com o ser humano, pois foi desse mesmo instinto de sobrevivência que deve ter
emergido algo tão monumental e fugidio a definições como a amizade. Melhor nem
pretender descrevê-la e recorrer logo a um desses filósofos da Antiguidade que
sabiam pensar e escrever sobre tudo. Certo estava Sêneca quando escreveu que a
amizade é um talento. E, como todo talento, um dom. Orlando Brito, o mais completo repórter fotográfico
brasileiro, tinha esse dom. Foi meu amigo. O verbo no pretérito perfeito dói.
Era impressionante a sua
capacidade de ler a alma dos políticos, suas verdadeiras intenções e agruras,
pela simples postura. Mestre do fotojornalismo, captava o instante certo
Sua filha única, Carolina, cuidou dele até
o último momento. Mobilizou a solidariedade dos amigos, acompanhou os cuidados
dos médicos, tentou convencer o pai a aceitar a nova situação sem se rebelar
contra os tubos e aparelhos que o mantiveram vivo nos hospitais públicos de
Brasília. O jornalista Orlando Brito foi sepultado ontem no Cemitério Campo da
Esperança, na Asa Sul, após 34 dias de muita luta. Depois de duas cirurgias no
intestino, em decorrência de um câncer, teve falência múltipla dos órgãos.
Morreu íntegro e pobre, como acontece com muitos jornalistas, no Hospital de
Taguatinga.
Orlando Péricles Brito de Oliveira nasceu
em 1950, em Janaúba, Minas Gerais. Como muitos jornalistas da sua geração,
começou a carreira muito jovem: em 1964, aos 14 anos, começou a trabalhar como
laboratorista no jornal Última Hora, uma porta de entrada das redações; as
outras eram a revisão e o trabalho de office boy. A profissão somente viria a
ser regulamentada em outubro de 1969. Fez carreira nos principais veículos do
país: O Globo, Jornal do Brasil e revistas Caras e Veja. Ao deixar a revista, criou
a agência de notícias Obrito News, organizou seminários, deu aulas, fez
conferências e palestras. Andou pelos cafundós do Brasil e pelo mundo afora,
mas especializou-se na cobertura política.
Não vou com a
cara de Vladimir Putin. Mas nem por isso considero Volodymyr Zelensky
intocável, um herói da humanidade
Todo mundo tem
meus telefone e endereço de email. Foi um princípio que Flora minha filha me
ensinou; se eu não gostasse da cara ou não quisesse atender, simplesmente não
tomava conhecimento da mensagem, ia adiante como se não tivesse recebido nada.
Depois, se fosse o caso, culpava a telefônica ou coisa parecida pela falha.
Sempre deu certo. Sobretudo em períodos como o atual, com uma guerra, suas
notícias chocantes e suas terríveis imagens a nos sobressaltar a todo momento.
Não acho que seja
um privilégio, não vejo graça nenhuma em disputar com parentes e amigos a visão
inaugural dos piores desastres humanos, dos restos de um hospital pediátrico em
Mariupol, hordas de mães ucranianas fugindo das bombas russas com seus bebês no
colo mal protegido. Ainda mais porque, fora a observação do horror evidente nos
rostos e nos gestos do povo da Ucrânia, não tenho como julgar o que se passa na
cabeça e no coração dos russos responsáveis ou não pelas batalhas dessa guerra.
Muitos deles podem ser também vítimas de seus comandantes mal intencionados.
O sobrevoo da
floresta em boa parte da Amazônia dá a impressão de um verde sem fim para
qualquer lado que se olhe. A vastidão da vegetação faz quem não conhece a
região perder a direção. Esse “mar verde” também tem efeito desorientador no
debate público ao provocar questões descabidas como: por que tanta gritaria dos
ambientalistas se ainda há tanta floresta? A resposta, mais uma vez, vem sendo
dada pela ciência.
Um estudo
publicado na semana passada na revista Nature Climate Change por três
pesquisadores de instituições europeias reforça a hipótese de que a Amazônia
esteja perto de um ponto em que a devastação será irreversível — ou “ponto de
não retorno” na tradução do inglês. A partir de certo nível de desmatamento, a
floresta provavelmente perderia a capacidade de se recompor e entraria em
autodestruição, sem que nenhuma ação humana pudesse reverter seu destino. Não
haveria árvores suficientes para manter o atual regime de chuvas.
Margarida Genevois não parou de trabalhar,
um só segundo, pela construção de uma sociedade mais justa
Margarida dificilmente termina uma frase
sem um sorriso, ainda que seus olhos possam estar expressando uma profunda
indignação. Nascida Bulhões Pedreira, tradicional família do Rio
de Janeiro, em 10 de março de 1923, deparou-se com o analfabetismo, a
desnutrição e a doença ao mudar-se com o marido, Lucien Genevois, para o interior
de São Paulo. Desde então, Margarida não parou de trabalhar, um só segundo,
pela construção de uma sociedade mais justa.
Nos anos 1970, combateu o arbítrio e a
violência de Estado. Com suas filhas, "correu da polícia". Foi a
primeira mulher a ter assento na Comissão de Justiça e Paz, que presidiu duas
vezes. Ali ouviu, em primeira voz, o depoimento de quem havia sido torturado e
dos familiares que buscavam desaparecidos.
Putin tem razão ao alegar que as promessas
da Otan não foram honradas
O mapa
da expansão da Otan pipocou
em todos os lugares, geralmente por iniciativa dos papagaios de Putin,
engajados na justificação da agressão à Ucrânia. No papel, impressiona: desde
1999, a aliança ocidental recebeu a adesão de 14 países, entre ex-integrantes
do bloco soviético e as três antigas repúblicas soviéticas do Báltico.
De fato, porém, a Otan ampliada é, como
diria Mao Tsé-tung, um tigre de papel.
Putin tem razão ao alegar que as promessas
feitas à URSS em 1990 não foram honradas. Na hora da reunificação alemã,
líderes americanos, britânicos e alemães asseguraram a Gorbachev que, com
exceção da Alemanha Oriental que desaparecia, a Otan não avançaria nenhum
milímetro rumo a leste.
Em nome de combater uma violação moral,
incorremos num punhado de outras
A grande surpresa na crise da Ucrânia foram
a rapidez e a firmeza com que a comunidade internacional respondeu à invasão
russa. Até então, o presidente Vladimir Putin vinha explorando com competência
as divisões entre americanos e europeus. A mudança decorre, acredito, de uma
troca de "framing" (enquadramento).
Enquanto se discutia a conveniência
geopolítica de a Ucrânia
integrar a Otan, a questão era tratada de forma pragmática, com
abertura para divergências e a possibilidade de matizes. Mas, depois que Putin
decidiu recorrer às armas para iniciar uma guerra de agressão contra um país
soberano, provocando a morte de civis inocentes, a invasão passou a ser vista
como uma violação moral. E isso faz toda a diferença.
Visão do titular da pasta sobre o mundo é
obscurantista e sombria
O pastor que ocupa o Ministério da
Educação, Milton Ribeiro, pouco fala, mas quando abre a boca sempre provoca
estupefação pela capacidade de expressar uma visão de mundo tão obscurantista e
sombria.
Seu palavrório incita a discriminação, a hostilidade e a violência contra a
população LGBTQIA+. Sendo titular do MEC, tudo o que fala, faz ou deixa de
fazer reverbera no tecido social, tem consequências concretas. Por isso, o ministro
precisa ser responsabilizado.
Situação do Brasil não é comparável à da
Rússia ou à da Hungria, mas é bom ficar de olho
É fácil se ver no meio de uma manifestação
ao caminhar pelas ruas de Budapeste, a belíssima capital da Hungria. De um lado
do rio Danúbio, em Buda, o partido ultraconservador Mi-hazank exibe seus
símbolos patrióticos. Do outro, em Peste, militantes antivacina prestam
solidariedade aos caminhoneiros canadenses. Todos os anos há uma enorme parada
gay, sem repressão policial.
Parece uma democracia, mas não é. Livros de
temática inclusiva são multados, uma universidade inteira acabou expulsa do
país por abrigar intelectuais críticos ao governo e a
Constituição foi reescrita para permitir a
reeleição eterna do Fidesz, o partido do primeiroministro Viktor Orbán.
Nas duas últimas semanas foram divulgados
os resultados anuais de dois rankings de democracia, o da revista britânica The
Economist e o do instituto V-dem, que é sediado em Gotemburgo, na Suécia. Tais
rankings são especialmente necessários em casos como o da Hungria, em que o
autocrata de plantão, Viktor Orbán, usa o manto da democracia para esconder um
duro regime autoritário. Os dois estudos estão anexados à versão digital da
coluna.
Escusado dizer que estou me referindo à
globalização engendrada pela pandemia e a agressão russa à Ucrânia
Na terça-feira passada (8/3), com sua
habitual competência, o embaixador Rubens Barbosa publicou neste espaço um
artigo apontando dramáticas vulnerabilidades do Brasil no tocante ao comércio
exterior, a áreas estratégicas e a inovação e segurança.
Com sua vasta bagagem, Rubens Barbosa
poderia ter estendido sua análise a mais umas 40 áreas. Não o fez, em parte por
falta de espaço, mas em parte também porque sua boa alma não lhe permitiu
empurrar os leitores para uma depressão mais profunda do que esta que já
estamos vivenciando. Eu gostaria de seguir seu sábio exemplo, mas preciso me
ater ao fato de havermos, agora sim, chegado à globalização. Não à globalização
com que muitos sonharam, conduzida como opção e mediante critérios nossos.
Escusado dizer que estou me referindo à globalização engendrada pelos dois pês
(PPS), a pandemia e a agressão russa à Ucrânia. No que se refere ao Brasil, a
pandemia já causou um belo estrago em nossas contas fiscais, mas teve o mérito
de nos ensinar uma certa humildade, mostrando-nos que, sem o resto do mundo,
muitos de nós morreriam por falta de imunizantes. A segunda, movida pelos
coturnos, tanques e mísseis russos, reduziu-nos à mais completa impotência.
Alguém consegue imaginar Fernando
Henrique Cardoso chorando copiosamente diante de pastores evangélicos e dizendo
que conduziria o país na direção que eles desejassem? Ou Lula? Ou Michel Temer?
Não, jamais. Trata-se de cenário impensável até três anos atrás. Agora, com
Bolsonaro, um episódio desse não apenas é possível como de fato aconteceu. O
presidente ofereceu a Nação brasileira a líderes evangélicos em cerimônia no
Palácio do Planalto na terça-feira passada. E o que se viu? O Congresso reagiu
com a força que a situação exigia? Não. O Supremo reagiu? Nada, ninguém se
mexeu. Bolsonaro confrontou um dos princípios fundamentais da Constituição, que
estabelece a laicidade do Estado, e ninguém se abalou.
Claro que Bolsonaro é um
oportunista, estava fazendo campanha no horário de expediente e jamais
conseguiria submeter o Estado brasileiro à vontade do grupo religioso que o
abençoava com promessa de votos. Mas a simples intenção de terceirizar o poder
concedido pelo eleitor é um absurdo que merecia a mais ampla desaprovação de
todos. Não houve admoestação porque ninguém mais dá bola para as seguidas
infrações ao bom senso e à ética e aos inúmeros crimes de responsabilidade
cometidos pelo presidente. O fato, contudo, escancara uma linha de ação que
Bolsonaro vem seguindo desde a sua posse e será mantida no caso da sua
reeleição. E se constitui em grande problema a ser enfrentado.
A menina de 9 anos corre, nua e descalça,
de braços abertos, gritando de dor, as costas queimadas por napalm. Outra
menina, de uns 5 anos — a esqualidez não permite avaliar bem sua idade — , está
no chão, também nua, o corpo pendido para a frente, observada de perto por um
abutre. O menino de 3 anos, camiseta vermelha, calças azuis, sapatinhos bem
amarrados, jaz de bruços, o rosto tocado pelas ondas.
Quem viu essas imagens não as esquecerá.
Kim Phuc, vietnamita, fugia de um bombardeio, em 8 de julho de 1972. A
sudanesa, cujo nome não se sabe, estava à beira da inanição e tomava fôlego, a
caminho de um posto de saúde, em 11 de março de 1993. Aylan Kurdi, sírio,
cruzava o Mediterrâneo numa viagem desesperada, até a madrugada daquele 2 de
setembro de 2015.
As fotos não puseram fim ao horror no
Vietnã, no Sudão ou na Síria, mas mostraram ao mundo a tragédia numa escala que
qualquer ser humano consegue apreender. Milhões de vítimas são algo impalpável
— uma criança ferida, morta ou à morte é um filho, um sobrinho, somos nós
mesmos.
É perturbador acompanhar o debate na
esquerda sobre a invasão à Ucrânia. Logo no começo do conflito, o perfil do PT
no Senado no Twitter publicou nota dizendo que “condena a política de longo
prazo dos EUA de agressão à Rússia e de contínua expansão da Otan em direção às
fronteiras russas”. Depois de ser criticada, a nota foi apagada, e
manifestações individuais de senadores petistas contrários à invasão foram
retuitadas. Mas a primeira nota ter saído mostra que forças relevantes no
partido consideram a invasão justificada. A nota oficial do PT, publicada dois
dias depois, reflete bem essa ambivalência, condenando uma solução militar, mas
não a invasão: “Entendemos que a solução do contencioso entre Rússia e Ucrânia
deve se dar de forma pacífica, utilizando todas as possibilidades de mediação
em fóruns multilaterais”. Em sites de esquerda, predomina o apoio à invasão
russa, em clima de torcida.
Muita gente, lá fora e aqui, está cometendo
um grande equívoco: pensar a Rússia como se fosse a União Soviética. Não é.
No tempo da URSS, Moscou tinha uma mensagem
não apenas para a Europa, mas para o mundo todo. O marxismo soviético era uma
construção completa: definia desde a organização da sociedade política, da
produção e distribuição de riqueza até a vida cultural.
Mais importante: essa ideologia era
partilhada mundo afora. Nos países já no âmbito da URSS, havia partidos,
militância e apoios locais ao marxismo soviético.
Não se tratava de uma “simples” dominação
externa, mas de identidade ideológica, pelo menos de parte das populações.
Mais ainda: em muitos países que estavam na
órbita do Ocidente, havia partidos comunistas de sólida representação popular.
Itália e França, por exemplo.
A sabedoria popular tem interessante forma
de se expressar através de ditados, que se repetem por décadas e gerações. “O
peixe morre é pela boca” aconselha administrar bem as palavras, não falar
demais.Uso o ditado popular para
realçar um sábio conselho para a vida, particularmente na política,
principalmente na era das frenéticas redes sociais. Mas existem outras
formulações populares como “Quem fala demais, acaba dando bom dia a cavalo”,
uma advertência àqueles que não sabem escutar, apenas falam, interditando o
diálogo. Ou, ainda, “Em boca fechada, não entra mosquito”, recomendando
prudência e ponderação nas opiniões.
Teve grande repercussão o evento envolvendo
o apresentador Monark, do canal de entrevistas FLOW, um dos de maior audiência
na internet, envolvendo também o deputado federal Kim Kataguiri (PODEMOS/SP). Refletindo
um liberalismo ingênuo e um anarquismo radical, defenderam a possibilidade de
existência de um Partido Nazista. Monark tem 31 anos e Kim, 26. Encontraram
forte resistência da deputada Tábata Amaral (PSB/SP), 28 anos, que também
estava no estúdio, e de forma consistente defendeu que não pode ter existência
legal uma corrente que assumidamente conspira contra a democracia, defende o
totalitarismo e carrega uma visão supremacista racial. Diga-se, de passagem,
que nenhum dos dois defendeu ou defende o nazismo. E que o FLOW era um programa
agradável, leve, inovador, descontraído. Vi várias entrevistas, era uma
proposta interessante. Mas a irresponsabilidade com as palavras e o descuido
com os conteúdos levaram à demissão do entrevistador e a um processo de cassação
do deputado federal. Às vezes, a agressividade exagerada, a arrogância de quem
acha que tudo sabe, a tentativa de ser excessivamente original, pode gerar um efeito
bumerangue e abater o autor do abuso de expressão.
Não se equilibra o mercado de petróleo no
improviso
O Globo
A guerra da Ucrânia afeta o preço do
petróleo e a inflação no mundo todo, mas cada país reage a seu modo. A Europa
debate como reduzir a dependência da energia russa. Estados Unidos e outros
países liberam seus estoques estratégicos, mas ao mesmo tempo discutem até que
ponto é razoável ampliar subsídios e isenções de impostos a combustíveis
fósseis — de quase US$ 1 milhão por minuto no planeta. No Brasil, a questão é
outra.
Pelas postagens de políticos nas redes
sociais, parece que vivemos num planeta à parte, e nosso problema se resume à
política de preços da Petrobras. Depois de semanas segurando aumentos, a
estatal enfim reajustou os preços nesta semana, mesmo assim aquém do patamar do
mercado internacional.
Não importa. Do governista Arthur Lira ao
oposicionista Luiz Inácio Lula da Silva, passando pelo presidente Jair
Bolsonaro, todos os matizes do espectro ideológico parecem encarar a empresa
como responsável pelos aumentos, apenas porque ela pratica os preços de
mercado. É como se o histórico desastrado de intervenções e desabastecimento
nada tivesse ensinado ao país.