terça-feira, 2 de julho de 2024

Andrea Jubé - PT e MDB: na eleição, a ocasião faz a aliança

Valor Econômico

Presidente não vai para o confronto para não se indispor com o aliado

Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comparou, recentemente, a eleição para a Prefeitura de São Paulo a “uma verdadeira guerra”, usou um tom acima em relação ao que pretende adotar com o MDB, um de seus principais aliados, na campanha eleitoral. Porque se o MDB - que comanda três ministérios no governo federal - é adversário do PT em palcos relevantes como São Paulo e Porto Alegre (RS), as duas siglas caminharão juntas em outras capitais e grandes municípios no pleito de outubro.

A aliança entre PT e MDB é tão antiga, que remonta aos anos 80, quando Lula e Ulysses Guimarães compartilhavam segredos entre os comícios das “Diretas Já”, e o atual presidente da sigla, Baleia Rossi, ainda estava concluindo o ensino fundamental.

Em 1984, Lula revelou a Ulysses - até hoje, o principal símbolo do MDB - o fogo amigo em curso contra ele. Os emedebistas de São Paulo armavam a traição ao “Senhor Diretas”, articulando apoio a Tancredo Neves para a Presidência da República, com o PT na aliança. Lula disse a Ulysses que os paulistas referiram-se a ele como o “Winston Churchill” do MDB, que dera o que tinha de dar.

Segundo o relato do episódio, que consta de “A história de Mora” (livro de memórias sobre Ulysses do jornalista Jorge Bastos Moreno), o emedebista histórico viu-se acuado e rendeu-se, tornando-se coordenador da campanha de Tancredo.

Pedro Doria - O Real funcionaria hoje?

O Globo

Democracias só resolvem problemas grandes se sociedades são capazes de se unir num projeto comum

Duas políticas públicas definem a Nova República, aquilo que a democracia brasileira melhor construiu desde o fim da ditadura. Foram o Plano Real e o Bolsa Família. Passamos as últimas semanas celebrando os 30 anos da primeira, mas pouco falamos de um dos elementos essenciais para seu sucesso: a imprensa. Porque, para além do instante de brilho da ideia dos economistas Persio Arida e André Lara Resende, no coração do Real estava a necessidade de ele ser bem compreendido pela sociedade. O Plano Real deu certo porque foi bem explicado, e isso ocorreu nas páginas de jornais e revistas, no rádio e, principalmente, nas telas de televisão. Compreender esse aspecto da história é importante porque ela nos impõe uma pergunta: será que seria possível hoje? Provavelmente a mesma ideia, hoje, não daria certo.

Míriam Leitão - Por que lembrar o Plano Real?

O Globo

Na tumultuada história monetária brasileira, existe o antes e o depois do Plano Real. E, por isso, este marco de 30 anos deve ser relembrado

Quando pedi a entrevista a Edmar Bacha sobre o real, na preparação de um documentário, ele perguntou: “O que deu no Brasil? O real fez 1,5, 15, 29 anos e tudo bem. Faz 30 e todo mundo quer falar disso?” Verdade. Isso pode indicar que o Brasil é cauteloso. Quer ter certeza antes de comemorar. Nessas três décadas, houve momentos de perigo em que a inflação ficou em dois dígitos, mas acabou voltando a ser controlada. Em qualquer pesquisa de opinião pública, quando perguntada, a grande maioria da população responde que está preocupada com a inflação. A atitude de permanecer vigilante é parte desse sucesso.

Luiz Carlos Azedo - Lula desafia o “instinto animal” do mercado

Correio Braziliense

O ministro Haddad tenta manter a ancoragem da economia, mas o que não faltam no PT são vozes discordantes. Os petistas vibram com as diatribes econômicas de Lula

Há 30 anos, no governo Itamar Franco, quando foi lançado o Plano Real, repórter do jornal O Globo em São Paulo, perguntei ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), então o candidato favorito à Presidência nas eleições de 1994, se ele torcia para o plano dar certo ou para dar errado? Lula se enrolou, disse que torcia para o plano dar certo, mas, infelizmente, achava que daria errado. Era a avaliação de seu vice, Aloizio Mercadante, e a da também da economista Maria da Conceição Tavares, recentemente falecida.

Como no samba Feitio de Oração, de Noel Rosa, em economia, quem acha vive se perdendo. É preciso fazer contas. O plano deu certo, e Fernando Henrique Cardoso, ex-ministro da Fazenda e candidato do governo à Presidência, acabou vencendo as eleições no primeiro turno. Foi uma campanha na qual o PT já havia cometido outros erros, entre os quais não apoiar o governo Itamar nem aceitar uma aliança com o PSDB, que implicaria ceder a vice e apoiar Mario Covas, em São Paulo, como desejava o então governador do Ceará, Tasso Jereissati.

Luiz Gonzaga Belluzzo - Nada de novo sob o sol: dólar x real

Valor Econômico

Sucessão de episódios de valorização/desvalorização cambial demostra que a almejada correção dos chamados desequilíbrios globais vai exigir regras não compatíveis com sistema atual

A continuada desvalorização do real nas últimas semanas deflagrou uma avalanche de opiniões a respeito do fenômeno monetário-financeiro internacional. Peço licença ao eventual leitor para sublinhar monetário-financeiro e internacional.

O pedido ao leitor deita raízes na sobrecarga de opiniões que se derramam em queixas que atribuem à irresponsabilidade fiscal os sucessivos e intensos declínios de valor do nosso Real diante do patrono do sistema monetário internacional, mister dólar.

Incursões na história: começamos com a estagflação dos anos 1970 do século passado. Naqueles tempos, a continuada desvalorização do dólar foi enfrentada com a elevação da policy rate deflagrada por Paul Volker em 1979. A elevação dos juros foi apresentada, então, como uma medida destinada a alcançar o objetivo doméstico de controle da inflação, mas o efeito mais relevante para a economia internacional foi a recuperação do papel do dólar como moeda-reserva.

Lula atribui alta do dólar a especulação e diz que governo tem de fazer "alguma coisa"

Por Fabio Murakawa e Jéssica Sant’Ana / Valor Econômico

O presidente não revelou qual sua ideia, mas disse que terá uma reunião na quarta-feira (3) sobre o assunto

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta terça-feira que a alta do dólar o preocupa, mas disse que o movimento é fruto de uma especulação. Ontem, a moeda americana atingiu R$ 5,65, o maior valor desde janeiro de 2022, fruto do cenário externo e das incertezas sobre a política fiscal do governo.

"Obviamente que me preocupa essa subida do dólar. Há uma especulação, há um jogo de interesse especulativo contra o real nesse país. Não é normal o que está acontecendo", disse Lula em entrevista à Rádio Sociedade, durante visita na Bahia nesta terça-feira (2).

Dora Kramer - Síndrome de oposição

Folha de S. Paulo

Presidente age mais como oposicionista que como o chefe da situação

O político Lula fez carreira apontando o dedo da acusação ao alheio. Perdeu três eleições presidenciais, ganhou outras três e a terceira vitória à chefia da nação parece ter incutido no cidadão Luiz Inácio da Silva a certeza de que é dono do monopólio da razão.

Ele exibe a convicção de que seus argumentos são mais certeiros que os fatos, por mais que as palavras se contraponham aos atos da realidade.

Chama de cretinos os que relacionam as turbulências na economia às suas declarações contra o Banco Central autônomo. Menospreza a necessidade de o governo conter despesas em prol do equilíbrio das contas públicas.

Hélio Schwartsman - A aposta errada

Folha de S. Paulo

Antecipar eleições legislativas contando com reação de moderados foi grande erro de cálculo

Emmanuel Macron apostou alto ao convocar eleições legislativas antecipadas e perdeu. Ao que tudo indica, ele imaginava que a perspectiva de a ultradireita conquistar maioria na Assembleia Nacional mobilizaria os eleitores para impedir tal desfecho. Foi com base nessa lógica —evitar a eleição de Marine Le Pen— que o próprio Macron se consagrou duas vezes presidente da França. Mas, desta vez, não funcionou.

A caminho do desconhecido político

The Economist / O Estado de S. Paulo

Maioria de ultradireita no Parlamento testará Constituição concebida para dar estabilidade ao país

Uma nova era dramática começou na França no domingo, quando o partido de direita radical de Marine Le Pen assumiu uma liderança maciça na votação do primeiro turno para a Assembleia Nacional. Seu Reagrupamento Nacional (RN) nunca esteve tão perto de governar o país. O partido garantiu 33,1% dos votos, segundo dados oficiais.

Antes do segundo turno, no próximo domingo, isso o coloca no caminho para conquistar de 230 a 280 assentos na Assembleia Nacional, que tem 577 lugares, ante aos atuais 88, e se tornar facilmente o maior grupo no Parlamento. Um resultado na ponta superior dessa faixa colocaria o RN perto de uma maioria geral de 289.

A eleição foi marcada pelo maior comparecimento no primeiro turno desde 1997. Os candidatos do RN ficaram em primeiro lugar em centenas de distritos eleitorais em todo o país: em seus antigos centros geográficos, como o chamado cinturão da ferrugem (industrial) no nordeste do país e no sul da França, bem como em lugares historicamente com pouco apoio, como a Bretanha. Em seu próprio distrito eleitoral em torno de Hénin Beaumont, na região de mineração do norte, Le Pen foi eleita no primeiro turno.

Eliane Cantanhêde - Barbas de molho

O Estado de S. Paulo

Se Lula replicar o enfraquecimento de Biden e Macron, quem lucra no Brasil?

O mundo anda tão louco que o presidente Emmanuel Macron convocou a antecipação das eleições parlamentares na França, para perder feio, assim como o presidente Joe Biden desafiou Donald Trump para um debate e para ser massacrado, a meses da eleição nos EUA. Só antecipa eleição e propõe debate quem sabe que vai ganhar e era evidente que eles iriam perder. Ou Macron e Biden têm uma estratégia supersofisticada, ou estão mal assessorados, ou fora da realidade ou, simplesmente, desesperados. A resistência internacional à extrema direita se enfraquece, assim como Macron, principal interlocutor do presidente Lula.

Carlos Andreazza - Nem ovo nem galinha

O Estado de S. Paulo

Dane-se a cronologia. Se Lula falou antes ou depois de o dólar ganhar mais corpo. Fala sempre

Não sei o que veio antes, o ovo ou a galinha. Sei que apalavra de presidente resulta. Em matéria econômica, faz preço. Tanto mais se acumulado o verbo. Lula sabe. “O problema não é que tem que cortar. Problema és aber se precisa efetivamente cortar ouse precisa aumentara arrecadação .”

Nem ovo nem galinha. Danes e acronologia. Se falou ante sou depois de o dólar ganhar mais corpo. Fala sempre. Antese depois. Quando provocado a tratar de corte de gastos. É como reage. Eleito o presidente do Banco Central (um exibido) como o adversário. E o dólar a expandira mordida.

Paulo Hartung - A urgência da segurança pública

O Estado de S. Paulo

Já passou da hora de agirmos efetivamente para enfrentar esse problema que é histórico, mas ganhou uma dimensão sem precedentes entre nós

Questões estruturais de nossa sociedade, a violência e a criminalidade acompanham o redesenho da vida nacional desde que migraram do antigo cotidiano rural para o dia a dia urbano. Também recrudesce como consequência crescente a sofisticação operacional, com articulações cada vez mais amplificadas e engenhosas. O crime organizado avança a tal ponto entre nós que se projeta como um poder paralelo e fora de controle.

Apesar de histórica, essa questão nunca entrou na agenda prioritária do País. No pós-redemocratização, enfrentamos desafios importantes como na saúde (SUS), educação (Fundeb), hiperinflação (Real) e renegociação da dívida externa. A segurança pública, seja na agenda dos Poderes, seja na academia, seja nas organizações da sociedade, ficou excluída dos debates e ações centrais. No entanto, não dá mais para esperar.

Jorge J. Okubaro - O mundo além do Copom

O Estado de S. Paulo

A alta do dólar em junho parece sintetizar em cifras um mês em que as coisas andaram mal para Lula e para seu governo

A cotação do dólar em R$ 5,59 no fechamento dos negócios na sextafeira, a mais alta desde janeiro de 2022, foi interpretada por muitos como o sinal mais óbvio de quanto o presidente Lula da Silva prejudica a economia. Ainda que disputas naturais no encerramento do semestre, cujos resultados podem balizar a liquidação de contratos futuros, tenham excitado o mercado e impulsionado o câmbio, Lula foi apontado como o responsável. Tornou-se alvo fácil nas últimas semanas.

A alta do dólar em junho, de 6,5% (de mais de 15% no ano), parece sintetizar em cifras um mês em que as coisas andaram mal para Lula e para seu governo. Derrotas num Congresso que foge de questões relevantes, ações da Polícia Federal contra um ministro de Estado, tentativas da direita (felizmente obstadas pela sociedade) de aprovar medidas retrógradas, ataques ao Banco Central (BC) são alguns eventos do mês.

Antônio Fausto Nascimento* - O tenentismo - um século do segundo cinco de julho

Na madrugada de 5 de Julho de 1924, tropas rebeladas do Exército, em São Paulo, se deslocaram ao quartel da Força Pública estadual, no bairro da Luz, onde instalaram o Estado Maior, sob comando do general Isidoro Dias Lopes. Começava a Revolução de 1924, mais sangrento episódio das revoltas tenentistas, que culminaram na Revolução de Trinta.

Em poucas horas, tropas federais, deslocadas de navio ao porto de Santos, tomaram a estrada de ferro São Paulo Railway, conseguindo chegar à estação de São Caetano, ainda pequena localidade paulista.

A noite, primeiro confronto entre rebeldes e legalistas na estação do Ipiranga, prosseguindo noutros pontos da Capital. Durante 23 dias de inverno rigoroso, a cidade de São Paulo e seus subúrbios sofreram a tragédia da guerra civil.

Poesia | Ode ao dois de julho, de Castro Alves

 

Música | Casuarina e Wilson Moreira - Senhora Liberdade

 

segunda-feira, 1 de julho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Abuso de emendas de relator se repete nas de comissão

O Globo

Opacidade do orçamento secreto volta a vigorar, apesar de o STF ter declarado a prática inconstitucional

No final de 2022, o Supremo Tribunal Federal (STF) declarou que as emendas ao Orçamento conhecidas pela sigla RP9 — ou “emendas do relator” — eram inconstitucionais. Sustentáculos do orçamento secreto, elas pecavam pela falta de transparência ao omitir o parlamentar responsável por destinar a verba. Os ministros da Corte entenderam que isso feria a Constituição. Na época, a então presidente do STF, Rosa Weber, declarou que o pagamento das emendas de relator era “recoberto por um manto de névoas”. De lá para cá, as RP9s acabaram, mas o nevoeiro não se dissipou. Só mudou de lugar.

Marcus André Melo - O operador e a máquina

Folha de S. Paulo

O maquinário das democracias atuais está caindo frequentemente nas mãos de mecânicos ineptos

Para Giovanni Sartori (1924-2017), a democracia consiste em um maquinismo e um conjunto de maquinistas que têm que pôr a máquina para funcionar. Mas quando nos queixamos da democracia e denunciamos sua crise geralmente focamos o maquinismo e esquecemos os operadores. Ou atacamos os maquinistas e esquecemos o maquinário.

O maquinismo é a estrutura constitucional do país. Embora defenda que o maquinário das democracias atuais é "decente", embora esteja "caindo frequentemente nas mãos de mecânicos ineptos". Sartori é cáustico em relação a nossa Constituição, que é repleta de "dispositivos quase suicidas" e "promessas irrealizáveis". (Sim, a carta de 1988 continha um dos mais bizarros dispositivos já incorporados a uma constituição: o tabelamento da taxa de juros).

Bruno Carazza - Trinta anos do Plano que não terminou

Valor Econômico

Lenta corrosão do poder de compra evidencia que estabilidade ainda está longe de ser alcançada

Hoje é dia de celebrar o trigésimo aniversário de um dos maiores feitos da história brasileira em termos de política econômica: o Plano Real.

Para se ter ideia do que isso significa, basta recorrer a um número. De janeiro de 1980, quando o atual índice oficial de inflação foi criado, até junho de 1994, o IPCA subiu 11.256.886.924.720,79914%. Isso mesmo: mais de onze trilhões por cento.

Explicar como era viver naqueles tempos de hiperinflação para os jovens de hoje, além de revelar nossa faixa etária, é também uma oportunidade para reconhecer como o Brasil mudou a partir daquele 1º de julho de 1994.

Alex Ribeiro - BC nada pode fazer sobre a alta do dólar

Valor Econômico

Mercado ainda não tem plena confiança do comprometimento com o controle da inflação do novo BC que será comandado por diretores indicados por Lula

O Banco Central nada pode fazer para impedir a tendência de alta da cotação do dólar. Se a autoridade monetária se arriscar a intervir com vendas de dólares, vai queimar reservas internacionais à toa e perder um pedaço de sua credibilidade na luta contra a inflação.

Na sexta-feira, quando o câmbio rumou para um novo patamar, encostando em R$ 5,60, havia alguma expectativa de que o Banco Central pudesse vender moeda estrangeira, seja à vista, seja por swaps cambiais.

Diogo Schelp - Um vício por outro

O Estado de S. Paulo

Congresso avança para multiplicar viciados em jogos de azar e reprimir usuários de maconha

O Congresso trilha um caminho ambíguo em relação a dois temas com impacto sobre a saúde pública, as relações familiares e a criminalidade. Avança no Senado, depois de aprovado na Câmara dos Deputados, o projeto de lei que legaliza cassinos, bingos, bicho, apostas online e outros jogos de azar. E chegou do Senado para discussão na Câmara a PEC que criminaliza a posse de qualquer quantidade de drogas. Os usuários, a critério do juiz, receberão penas alternativas.

Denis Lerrer Rosenfield - Enganação

O Estado de S. Paulo

Desde o início, Lula e Haddad se recusaram, um sem nenhuma sutileza, o outro com a pretensão de enganar os incautos, a fazer redução de despesas ou corte de gastos

Engana-se quem pensa que Lula da Silva e Fernando Haddad possuem ideias diferentes, embora um seja mais tosco e o outro mais refinado. Analistas do mercado e jornalistas ficaram desde a posse do novo presidente, até poucas semanas atrás, querendo diferenciá-los, fazendo do primeiro um irresponsável do ponto de vista fiscal enquanto o segundo colocaria nos trilhos as finanças públicas. Armou-se o palco de uma grande encenação, uns ganhando prestígio, outros, dinheiro. De repente, o teatro foi desmontado, a decepção apoderando-se de muitos. Não compreenderam um fato básico: eles formam um dueto.

Ricardo Henriques - Priorizar a gestão pública

O Globo

Países que são referência por seu desempenho têm sistemas de educação básica majoritariamente (ou exclusivamente) públicos. É importante lembrar disso à luz dos movimentos recentes de São Paulo e Paraná que, independentemente de suas intenções, reavivaram na imprensa o debate sobre uma suposta superioridade da gestão privada na busca pelos meios mais eficazes de melhorar os resultados de escolas públicas. Possíveis riscos à política educacional não decorrem, necessariamente, da concessão ao setor privado de serviços de construção, manutenção predial, limpeza ou vigilância, algo já comum. Um regime de contratação, se bem estruturado, pode resultar em melhores serviços, liberar tempo dos educadores, otimizar a relação com fornecedores e até economizar recursos públicos. Os riscos surgem de outros elementos e, apesar de diferenças de escopo e abrangência entre as duas propostas, existem três aspectos comuns.

Fernando Gabeira - Pantanal, a herança que vamos destruir

O Globo

Sabíamos do El Niño, do aquecimento global e de tudo mais. Houve incapacidade de planejamento e prevenção

Para quem não conhece, a palavra pantanal não transmite a riqueza desse bioma brasileiro. Mesmo se o descrevemos geograficamente como maior planície úmida do planeta, ainda dizemos pouco. É preciso navegar nos rios, conhecer sua gente, contemplar os bichos para sentir algo que pode ser descrito como um paraíso tropical.

São 652 espécies de aves, 264 de peixes, 102 de mamíferos e 40 de anfíbios. Isso também não quer dizer muito até ver o improvável voo do tuiuiú, ave que simboliza o Pantanal, uma onça-pintada que resiste na região, conhecer uma mulher que fala com jacarés, comer um dourado, um pintado, um pacu.

Miguel de Almeida - Pauta identitária de direita

O Globo

Politizaram a já anêmica educação brasileira sem oferecer qualquer alternativa didática

Não é apenas o bagrinho bolsonarista que é filhote das redes sociais. Sem esquecer o tiozão do zap e o Carluxo, hoje bem murcho (a rima vai de graça), a fauna conta ainda com os pais e mães no papel de censores. Despertados pela mafiosa ideia de escola sem partido, politizaram a já anêmica educação brasileira sem oferecer qualquer alternativa didática. Não valem as escolas cívico-militares. Seu garoto de recados é ambulante da má performance pátria na proficiência de matemática. Dele ouvimos:

— Se é 5% positivo + 4% negativo, crescemos 9%!

Embalado, acrescentou para aplauso dos bagrinhos:

— Isso é milagre, é uma coisa inacreditável!

Imagino como seria esse brasileiro no almoxarifado do Exército desafiado pelas quatro operações, tendo como braço executivo a intelectual da turma, Carla Zambelli, a que ameaçou mudar a política brasileira num giro de 360 graus. Na Câmara, a Comissão de Educação conta com o enciclopedismo da deputada, que ainda ceva enquete com a afamada obsessão: “Seu filho sofre violência ideológica na escola?”. Sim, implicam com ele porque é ponta-direita.

Extrema direita de Marine Le Pen sai na frente no 1º turno na França

Juliette Jabkhiro e Layli Foroudi / Valor Econômico

Porém, o resultado final no Parlamento ainda é altamente incerto por causa da maior taxa de participação dos eleitores em 38 anos

O partido de extrema direita Reunião Nacional (RN) de Marine Le Pen venceu o primeiro turno das eleições parlamentares da França neste domingo (30), segundo apontaram as pesquisas de boca de urna, mas o resultado final dependerá de intensas negociações ao longo da semana antes do segundo turno no próximo domingo.

O RN obteve entre 33% e 34,2%, segundo pesquisas de boca de urna dos institutos Elabe, Ifop, Ipsos, OpinionWay e Toluna Harris Interactive.

Isso coloca a extrema direita à frente dos rivais de esquerda e de centro, incluindo a aliança Juntos do presidente Emmanuel Macron, cujo bloco deve obter entre 20,3% e 22,4% dos votos. A Nova Frente Popular (NFP), uma coalizão de esquerda formada às pressas, deve conquistar entre 28,5% e 29,6% dos votos, segundo as projeções.

As pesquisas de boca de urna ficaram em linha com as pesquisas de intenção de voto antes do primeiro turno, mas forneceram pouca clareza sobre se o RN, anti-imigração e eurocético, será capaz de formar um governo para “coabitar” com Macron, um defensor do bloco europeu, após o segundo turno do próximo domingo.

Vinicius Torres Freire - Le Pen fica mais perto do poder com racha no pacto contra ultradireita

Folha de S. Paulo

Recusa do centro macronista em declarar apoio aberto à esquerda no 2º turno expõe divisão e pode facilitar caminho da Reunião Nacional

O muro de contenção da enchente de ultradireita na França está mais do que rachado. Tem buracos relevantes e pedaços feitos de areia, a julgar por declarações dos líderes dos partidos de centro e das minoritárias centro-direita e direita tradicional. Caso o eleitorado aceite as indicações das lideranças, pode ser que a Reunião Nacional (RN) fique mais perto de uma maioria na Assembleia Legislativa, ainda muito difícil.

Esse é o resultado político mais significativo do primeiro turno da eleição legislativa. Como previam as pesquisas, a RN, liderado por Marine Le Pen, teve cerca de 33,2% dos votos. A Nova Frente Popular, coalizão de esquerda, 28,1%. O Juntos, coalizão liderada por Emmanuel Macron, presidente da República, ficou com 21%. O Republicanos, da velha direita tradicional, gaullista, teve 10%.

Ultradireita lidera e leva Macron e esquerda a união no 2º turno

Renato Vasconcelos / O Globo

Coalizão governista e bloco de esquerda anunciaram iniciativas para tentar 'conter danos'

A vitória da extrema direita e de seus aliados no primeiro turno das eleições legislativas na França, com 34% dos votos, fez mais do que confirmar o favoritismo do Reagrupamento Nacional, de Marine Le Pen e Jordan Bardella, como já vinham apontando as mais recentes pesquisas de opinião. O sucesso eleitoral consolidou o partido, outrora marginal na política francesa, como uma força nacional capaz de chegar ao poder — imediatamente ou em 2027 — e testa a capacidade das forças de centro e esquerda superarem suas crises internas e dialogarem.

As reações imediatas dos partidos foram diversas. Macron fez um apelo a uma “aliança ampla, claramente democrática”. Gabriel Attal, seu protegido e atual primeiro-ministro, anunciou que os candidatos do partido que ficaram em terceiro lugar sairiam do 2º turno para facilitar a disputa com o Reagrupamento Nacional — mesma medida anunciada pelo líder do França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, que lidera a coalizão das forças de esquerda.

Poesia | Terra de Santa Cruz, por Adélia Prado

 

Música | Cristina Branco - Retrato em Branco e Preto

 

domingo, 30 de junho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Espírito do Plano Real é inspiração para outros desafios

O Globo

Derrota da hiperinflação mostra que soluções de problemas aparentemente intratáveis estão ao alcance do Brasil

O aniversário de 30 anos do Plano Real, amanhã, prova que o Brasil, quando unido em torno de uma meta, tem plena capacidade de superar a realidade mais adversa. A comemoração desmente a crença derrotista, popular em alguns círculos, de que os avanços por aqui são de pouca monta. Um exame do passado ensina que o maior dos problemas pode ser vencido se houver clareza de propósito e determinação. É preciso resgatar o espírito que animou o Real para encarar os desafios do futuro, independentemente da dificuldade que aparentem. Seu maior legado é comprovar o poder das ideias e da perseverança.

A nova moeda entrou em circulação em 1º de julho de 1994. Nos 12 meses anteriores, a inflação alcançara inacreditáveis 4.922%. Para as novas gerações, o número — mais de mil vezes o atual — pode soar abstrato. Na época, era bem concreto. A maioria dos assalariados, sem a proteção das aplicações financeiras, corria aos supermercados depois de receber, pois comida e itens básicos estariam mais caros no dia seguinte. Estocar alimentos era uma espécie de poupança. Passado o dia de pagamento, os varejistas ficavam vazios.

Merval Pereira - A voz do povo

O Globo

Em seu primeiro mandato, Lula teve o bom senso de dar continuidade à política de equilíbrio fiscal iniciada no governo FH e teve sucesso

Um dos maiores legados do Plano Real, trinta anos depois, foi fazer com que a sociedade compreendesse a importância do controle da inflação. O plano só deu certo porque a população já não aguentava mais viver sob a hiperinflação, e aceitou todas as mudanças, inclusive aprendeu a lógica da URV - Unidade Real de Valor -, ponto crucial para a implementação do plano.

O país viveu muitos anos sem entender que a desvalorização da moeda prejudicava o dia a dia da população, e por isso os governadores usavam e abusavam de seu poder para ganhar eleições. Ficou famoso o comentário atribuído ao então governador de São Paulo Orestes Quércia, ao eleger Luiz Antonio Fleury Filho seu sucessor no governo de São Paulo em 1990: “Quebrei o banco, mas elegi meu sucessor”.

Referia-se ao Banespa, um dos mais potentes bancos públicos do país, que Quércia utilizou para financiar obras na campanha para governador. Com o Plano Real, todos os bancos estaduais foram privatizados, mais uma das ações para consolidar o combate da inflação, pois, praticamente sem exceção, os bancos estaduais eram usados para ações políticas, especialmente em vésperas de eleição.

Esse detalhe de um vasto plano econômico demonstra que a sociedade em geral não ligava para os efeitos desses gastos públicos nas campanhas eleitorais, pois não entendiam que aqueles “investimentos” a longo prazo teriam como contrapartida o aumento da inflação, voltando-se contra ela.

Luiz Carlos Azedo - Para não sucumbir, Lula precisa adaptar-se à nova realidade

Correio Braziliense

Joe Biden, aos 81 anos, após perder o debate com Trump, resiste às pressões para desistir da reeleição. Repete o roteiro dos que não querem se retirar antes de o sol se pôr

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva completa hoje 546 dias de governo, 34 dias a menos do que o período em que esteve preso em Curitiba. São, portanto, 78 semanas, quase 18 meses e pouco menos do que um ano e meio de poder. Ao contrário de seus governos anteriores, divide o protagonismo político da nação com um Congresso conservador, que muitas vezes lhe dá uma invertida; um ex-presidente capaz de lhe fazer oposição de massas, o que antes era uma quase exclusividade do petismo; e governadores adversários — em São Paulo, Tarcísio de Freitas (PR); Minas Gerais, Romeu Zema (Novo); Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil); e Paraná, Ratinho Jr. (PSD).

Eliane Cantanhêde - O corte de gastos é para valer?

O Estado de S. Paulo

Das cinco medidas de Haddad e Tebet, sobra uma, a que não tem a ver com corte nem gasto

Além de descumprir uma regra elementar de política externa, ao apoiar Joe Biden contra Donald Trump e correr o risco de trazer problemas para o Brasil, o presidente Lula está desmontando, uma a uma, as medidas dos ministros Fernando Haddad e Simone Tebet para cortar gastos. Das cinco, sobra uma, exatamente a que não caracteriza corte nem gastos, só combate a fraudes, que deveria ser mera rotina.

Se Lula de fato aprovou a lista em reunião com os ministros, como anunciado, ele disse uma coisa em privado e está fazendo outra em público. Ou... é tudo um jogo de cena, em que os ministros assumem medidas impopulares, dando a Lula a chance de vetá-las. Eles levantam a bola, Lula corta, a torcida aplaude. O foco continua sendo na receita, os gastos ficam pra lá.

Elio Gaspari - A PF e o MP no teste das Americanas

O Globo

É nas duas instituições que se depositam as esperanças de que a maior fraude corporativa da história seja exposta ao público

Houve algo de teatral na operação da Polícia Federal (PF) para trazer de volta à vitrine o escândalo da rede varejista Americanas. Depois do vexame da Comissão Parlamentar de Inquérito, que não identificou responsáveis por um calote de R$ 47,9 bilhões, é nela e no Ministério Público que se depositam as esperanças de que a maior fraude corporativa da história de Pindorama seja exposta ao público. É coisa de R$ 25,2 bilhões.

Na sua expressão mais simples, já se sabe o seguinte:

1) Miguel Gutierrez, o CEO da Americanas por mais de uma década, tinha uma sala exclusiva no prédio da empresa, onde só ele entrava. A partir de julho de 2022, quando soube que seria substituído no comando da empresa, começou a transferir bens para parentes e vendeu ações da Americanas no valor de R$ 171,8 milhões. Com nacionalidade espanhola, Gutierrez deixou o Brasil em 2023. Na semana passada foi expedido um mandado de prisão contra o doutor.

Dorrit Harazim - O naufrágio?

O Globo

Pelo futuro dos Estados Unidos, presidente não deveria correr o risco de eleger Donald Trump

Faltam dois meses até a convenção nacional do Partido Democrata, marcada para os próximos dias 19 a 22 de agosto, em Chicago. O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, vencedor das arrastadas eleições primárias em que foi praticamente candidato único, aguardava apenas a consagração formal. A participação da escritora e líder espiritual Marianne Williamson foi efêmera, entrou em colapso na largada. E a tentativa do congressista pelo estado de Minnesota Dean Phillips, de 55 anos, para se manter no páreo chegou a ser considerada insolente pelos caciques do partido.

Tudo mudou ao longo dos 90 minutos de agonia e choque, na noite de quinta-feira, quando 47,9 milhões de telespectadores assistiram a um presidente dos Estados Unidos de esgar opaco, aspecto confuso e vulnerável, em busca de um raciocínio perdido. O naufrágio de Biden no primeiro debate com o oponente republicano, Donald Trump, sacudiu os democratas de alto a baixo. As primeiras horas após a debacle foram de “barata-voa”.

Bernardo Mello Franco - Apagão de Biden

O Globo

Debate escancarou fragilidade de democrata para milhões de eleitores americanos

O debate ainda não contava dez minutos quando Joe Biden sofreu o primeiro apagão. Questionado sobre o déficit público, o presidente tentou articular um raciocínio sobre impostos e o sistema de saúde. No meio da fala, cerrou os olhos, baixou a cabeça e pareceu esquecer o que queria dizer.

A desorientação se repetiu outras vezes ao longo do duelo televisivo. Com olhar perdido, Biden se enrolou com as palavras, teve lapsos de memória, deixou frases pela metade. Donald Trump tripudiou da situação e desafiou o rival a fazer um teste cognitivo. “Eu realmente não sei o que ele disse no fim da última frase. E acho que ele também não sabe”, debochou.

Vinicius Torres Freire - Derrotas de Macron são mais um capítulo do fracasso do centro liberal

Folha de S. Paulo

Presidente da França queria reduzir esquerda e direita a extremos minoritários

A ultradireita deve ter perto de 37% dos votos no primeiro turno da eleição legislativa da França, neste domingo. A coalizão de esquerda, ecologistas e centro-esquerda teria 29%. A coalizão de centro, liderada pelo presidente da República, Emmanuel Macron, ficaria com 20%. O que restou da centro-direita, 7%. É o que diziam pesquisas (Ifop, Ipsos).

Suponha-se que viesse a ser essa a composição da Assembleia Nacional, o que é bem incerto, dado o sistema eleitoral. Seria o resultado, em parte, do fracasso político de Macron.

Seria também mais um capítulo dos fracassos de público dos partidos de centro. Isto é, dessa convergência de centro-esquerda e centro-direita no centrismo liberal-tecnocrático, evidente desde os anos 1990 no mundo rico.

Macron teria de chamar a ultradireita para formar um governo minoritário, a Reunião Nacional, de Marine Le Pen. Apenas por milagre haveria aliança do "Juntos" de Macron com a salada da esquerda (socialistas, ecologistas e "França Insubmissa", esquerdona tradicional, majoritária nessa coalizão).

Míriam Leitão - O Plano Real e a democracia

O Globo

Um fio liga as duas maiores conquistas brasileiras: o real é obra da democracia e ajudou a consolidar a democracia

Persio Arida sempre diz que o Plano Real foi obra da democracia. Há um fio que liga as duas conquistas. A estabilização também consolidou a democracia. Vivíamos o caos monetário e se aquela devastação continuasse o país perderia a confiança nos governos civis. O próprio plano, ao ser explicado antecipadamente por Fernando Henrique e, depois, por Rubens Ricupero, virou uma obra coletiva. Não haveria sucesso do plano sem o povo. Conceitos complexos foram entendidos pela população. FHC chamou isso de pedagogia democrática.

A alta dos índices de preços ficou maior na democracia. Saiu do patamar das centenas para o de milhares por cento. Contudo, a gênese daquele horror econômico ocorreu na ditadura que escolheu, através da correção monetária, conviver com inimigo tão perigoso. Havia ainda a humilhante dívida externa também herdada dos militares. A destruição de valores que a hiperinflação produz, num país desigual, demoliria a confiança na democracia nascente. Seria fácil prosperar o discurso autoritário.

Roberto Luis Troster - 40 anos do real

Correio Braziliense

O correto seria falar do processo do real, e de 40 anos em vez de 30. A bem da verdade, começou em 1984, com a publicação do trabalho conhecido como proposta Larida, de Pérsio Arida e André Lara Resende

Mais do que plano, o correto seria falar do processo do real, e de 40 anos em vez de 30. A bem da verdade, começou em 1984, com a publicação do trabalho conhecido como proposta Larida, de Pérsio Arida e André Lara Resende, e teve como última medida a publicação do decreto presidencial oficializando a meta de inflação contínua em 3%, na quarta-feira passada, 26 de junho de 2024.

Não foi uma ideia mágica que fez a mudança. Foi um trabalho que combinou teoria econômica, habilidade política, aprendizado com os erros e criatividade. Além da proposta Larida, que inspirou o Plano Real, houve um processo de aprendizado com o Plano Cruzado, em 1986, depois o Plano Bresser, o Plano Verão, o Plano Collor I e o Plano Collor II. Todos fracassaram em acabar com a inflação, mas deixaram ensinamentos para a formulação do Plano Real.