quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Radicais do Vale do Silício terão acesso direto ao Salão Oval - Pedro Doria

O Globo

É difícil acreditar que um governo Trump agirá, o que aumentará a responsabilidade da União Europeia em proceder

Elon Musk estava exultante, na madrugada em que se confirmou a vitória de Donald Trump, quando subiu com o presidente eleito ao palco. Musk apostou alto naquela candidatura. Gastou US$ 44 bilhões na compra do Twitter, mudou seu nome para X, converteu a rede numa plataforma social para o trumpismo, se expôs. E Trump voltará à Casa Branca.

Ele não era o único, no Vale do Silício, em êxtase. O valor de criptomoedas como o Bitcoin disparou, ontem, animando um dos mais importantes fundos de investimento daquela região da Califórnia, a Andreessen Horowitz. Seus fundadores, preocupados com a regulação do cripto, também estavam entre os principais apoiadores do novo presidente no mundo digital. E, claro, há J. D. Vance, o vice-presidente eleito, indicado por outros tantos nomes grandes.

‘Brace for impact’ - William Waack

O Estado de S. Paulo

Não foi Donald Trump quem inaugurou, mas ele aprofunda a era das incertezas

Uma das imagens mais poderosas que orientaram os estrategistas republicanos nas três últimas eleições foi a do Voo 93, título de um famoso (para a direita americana) artigo publicado em 2016. Voo 93 se refere ao episódio, durante os ataques terroristas do 11 de Setembro, no qual os passageiros de um dos voos sequestrados se rebelam contra os terroristas e tentam invadir a cabine.

Os republicanos tinham de tomar o cockpit do avião Estados Unidos ou morrer, pregava a doutrina eleitoral. Pois eles acabam de conseguir. Tomaram o Legislativo, o Executivo e a Suprema Corte que já era conservadora antes das últimas eleições. Mas assumiram o voo no meio de uma era das incertezas.

São Tomé e o pacote fiscal do governo - Felipe Salto

O Estado de S. Paulo

Um bom programa consolidaria a boa gestão de Haddad e a ideia de que governos de esquerda não precisam ser fiscalmente irresponsáveis

As nossas avaliações na Warren Investimentos indicam que é preciso um corte de gastos de mais de R$ 40 bilhões para cumprir a meta fiscal de 2025. Isso, no entanto, levando em conta a banda inferior da meta e as despesas não consideradas para fins do compromisso legal. O pacote fiscal precisa sair logo e em bases relevantes. Muitos ainda seguem como São Tomé, aguardando para pôr as mãos nas chagas e comprovar a nova realidade.

A saber, a meta de resultado primário (receitas menos despesas sem considerar os gastos com juros) é igual a zero para 2025. Há uma banda inferior, de R$ 31 bilhões, espécie de permissão para entregar um déficit primário e mesmo assim não romper a lei. Na verdade, essa banda deveria ser usada apenas em casos excepcionais.

Os economistas premiados com o Nobel e o Brasil - Roberto Macedo

O Estado de S. Paulo

Seus conhecimentos sobre instituições no sentido ‘lato’ são úteis para entender o que se passa no País

Três economistas receberam o Nobel deste ano: Daron Acemoglu, Simon Johnson e James Robinson. O comunicado sobre o prêmio disse que ele foi dado por estudos de como as instituições da sociedade são formadas e afetam a prosperidade de um país. Instituições são tomadas num sentido lato, não sendo necessário que tenham, por exemplo, uma sede. Isto é, as elites de uma sociedade, por exemplo, constituem instituições. O Congresso é uma instituição política, mas as suas ações têm também impacto social. Um caso interessante é o das duas Coreias, que depois de sua divisão se tornaram países muito diferentes, a do Sul prosperando e a do Norte ficando para trás, pois seus líderes as conduziram de formas diferentes.

O nacionalismo de Biden e Trump - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Biden manteve política comercial trumpista; a seu modo, são nacionalistas econômicos

Joe Biden manteve a política de Trump 1 de cobrar mais imposto de importação de produtos chineses e estendeu neste ano a restrição para bens como carros elétricos e baterias, painéis solares, minérios estratégicos, aço, alumínio, material hospitalar (seringas!) e chips.

Em outubro, Biden autorizou a instalação de uma mina de lítio em Nevada, ao norte de Las Vegas. O empreendimento é detestado por ambientalistas e defendido por fábricas de carros, entre outros. O governo vai financiar parte da construção da mina; diz que o minério é estratégico para a segurança e para a economia do país. Cerca de 80% da produção mundial de lítio vai para a fabricação de baterias.

A mina pode quadruplicar a produção americana de lítio até 2028. Austrália, Chile e China, pela ordem os maiores produtores, fazem uns 90% da oferta mundial; Argentina e Brasil vêm a seguir. A extração do mineral é poluente, usa muita energia e água; por isso regulamentações complicam o negócio.

O PT à procura de novos rumos - Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Lula venceu de olho no retrovisor, prometendo a reconstrução, sem nenhuma proposta inovadora

Conhecidos os resultados das disputas municipais, instalou-se acesa discussão pública entre líderes petistas e intelectuais de esquerda sobre os rumos do partido, diante de uma votação que confirma a sua perda de espaço nos principais colégios eleitorais do país.

Importante para o destino do campo progressista, o debate chega com muito vigor e atraso de alguns anos. O impeachment que interrompeu o mandato da presidente Dilma Rousseff, os desmandos jurídicos da Lava Jato, seu uso pelas forças de extrema´direita e, finalmente, a vitória de Jair Bolsonaro em 2018 conduziram o PT a uma posição defensiva, na qual não parecia necessário –muito menos possível– que o partido refletisse sobre seus erros: a condução desastrada de política econômica depois de 2008, a condescendência em face da corrupção dos seus e dos aliados na coalizão de governo.

Vitória de Trump compromete projeto brasileiro para a COP30 e o G20 - Míriam Leitão

O Globo

O presidente novamente eleito Donald Trump sempre negou a mudança climática e manterá a mesma toada em seu novo mandato. Na primeira administração do republicano, ele tirou os EUA do Acordo de Paris, movimento inicial da mobilização global com estabelecimento de metas para redução de emissões de gases de efeito estufa. No atual momento, a conjuntura ficou muito mais grave. Com eventos climáticos cada vez mais extremos ficou claro que para cumprir o objetivo de conter o aquecimento global a um grau e meio será necessário aumentar as metas de redução dos gases de efeito estufa e é por isso que o Brasil está propondo a elevação das ambições, ou seja, das NDCs, como se denominam as metas nacionalmente determinadas, com o objetivo final de deter o aquecimento global a esse nível.

3 lições para Lula da vitória de Trump – Vera Magalhães

O Globo

Presidente brasileiro tem dois anos para evitar que Brasil replique EUA pela terceira eleição presidencial consecutiva

São inúmeras as diferenças entre os sistemas político e eleitoral, o funcionamento das instituições e a história democrática de Brasil e Estados Unidos. Mas o fato é que, desde 2016, os dois países têm vivido ciclos eleitorais semelhantes. A vitória inesperada de Donald Trump naquele ano foi sucedida pela ascensão metórica de Jair Bolsonaro dois anos depois. A derrota apertada do republicano em 2020 teve características muito semelhantes à sofrida pelo capitão reformado por aqui dois anos mais tarde. Agora, os Estados Unidos elegeram novamente Trump por uma margem maior que a prevista pelas pesquisas, e com crescimento do republicano em praticamente todo o país, não só nos ditos Estados vermelhos.

O assanhamento dos bolsonaristas com o feito inédito e ousado de Trump --reconduzido à Casa Branca sem esconder uma plataforma divisiva, revanchista, persecutória em relação aos adversários ou aos eleitores do outro lado e beligerante em relação a boa parte do mundo-- se deve a uma expectativa, que não deve se confirmar, de que sua vitória funcione como uma pressão sobre o Congresso e o STF brasileiros para livrar Bolsonaro da inelegibilidade. Mas esse é um assunto para outro texto.

Na nova eleição de Trump, o triunfo da perversidade - Cora Rónai

O Globo

Uma coisa é um voto de protesto numa figura pública duvidosa, outra é o voto num homem tão reconhecidamente perverso

“Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder.” Nunca pensei que um dia diria isso, mas a Dilma tinha razão. Nessa eleição, não houve ganhadores ou perdedores: todos perderam. Mesmo que Kamala Harris tivesse saído vitoriosa (o que teria sido, antes de tudo, um alívio imenso), a realidade é que seria impossível ignorar a quantidade de eleitores americanos – "estadunidenses" – que considerou normal votar em Donald Trump. Ou, dito de outra forma, que achou, e ainda acha, Donald Trump normal.

Vitória de Trump vinga excluídos da prosperidade americana - Fernando Canzian

Folha de S. Paulo

Quem olhar por alto os indicadores da economia dos Estados Unidos neste 2024 considerará uma tremenda injustiça a vitória do republicano Donald Trump sobre a democrata Kamala Harris, representante de um governo que deve entregar o país com taxas muito positivas.

Nos últimos meses, os EUA evitaram o pior: um "hard landing", ou seja, uma recessão para conter a inflação pós-pandemia. A transição para a normalidade vem se dando de forma suave e surpreendentemente boa.

Até setembro, a inflação em 12 meses subiu 2,1% (para uma meta de 2%), e a taxa de desemprego era baixíssima, de 4,1%. Só naquele mês, 254 mil novas vagas de trabalho foram geradas.

Os principais índices do mercado de ações do país, como o S&P 500 e o Nasdaq —em que o grosso dos americanos que têm dinheiro investem— acumulam valorização superior a 30% em um ano.

Trump ofereceu caos, pede poder e os EUA topam - Bruno Boghossian

Folha de S. Paulo

Eleição coroa mutação da direita e põe democracia diante de ecos ameaçadores

No discurso de vitória, Donald Trump reivindicou "um mandato poderoso e sem precedentes". Durante a campanha, o republicano pediu para voltar à Casa Branca com autoridade expandida. Explorou com destreza o rancor de setores abalados por transformações econômicas e sociais, prometendo ultrapassar os limites que fossem necessários para atendê-los.

Os americanos toparam fechar mais um negócio com o magnata. Os EUA deram a Trump uma eleição confortável até nos estados-pêndulo que haviam sido responsáveis por sua demissão em 2020. Ofereceram ao republicano uma maioria no Congresso para cumprir suas promessas mais perigosas.

Trump voltou a capturar uma classe trabalhadora frustrada, desinteressada em esperar por uma mudança que os democratas não foram capazes de entregar, a despeito de bons números da economia. O republicano reuniu um grupo mais diverso do que em sua primeira eleição, melhorando o desempenho entre eleitores latinos e homens negros.

Vitorioso de novo, Trump não é um acidente da história - Carlos Eduardo Lins da Silva

Folha de S. Paulo

Republicano representa vigorosamente o pensamento e as convicções de uma porcentagem significativa da população dos EUA

Em 16 de junho de 2015, Donald Trump, milionário da construção civil e celebridade da mídia com seu programa "O Aprendiz", anunciou das escadas rolantes de sua dourada Trump Tower que iria se candidatar à Presidência dos EUA. Muita gente achou que não passava de mais um de seus lances para valorizar sua imagem e aumentar sua fama.

Nos primeiros meses, houve até um debate no meio jornalístico sobre se a imprensa deveria cobrir sua campanha na seção de política ou de entretenimento.

Depois de sua vitória em 2016 e nos anos seguintes, muitos passaram a considerá-lo um acidente da história, um tropeço passageiro na sólida caminhada da democracia americana prestes a celebrar 250 anos em 2026.

Agora, com sua recondução para um novo mandato, parece claro que essa interpretação é equivocada e ingênua. Trump representa vigorosamente o pensamento e as convicções de uma porcentagem significativa da população do país: de 25 a 33% dos cidadãos com direito a voto e cerca da metade dos que efetivamente exercem esse direito.

Vitória de Trump representa risco elevado para o Brasil e para o governo Lula - Matias Spektor

O Estado de S. Paulo

Retorno de Trump é ameaça para o Brasil menos pelas diferenças ideológicas entre ele e Lula, e mais por causa do pacote de políticas que o republicano Trump pretende implementar

A vitória de Donald Trump nas eleições desta semana representa um risco elevado para o Brasil e para o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O principal perigo não reside nas diferenças ideológicas entre os dois presidentes, mas no pacote de políticas que Trump pretende implementar, com impacto econômico direto sobre o Brasil.

Para seu segundo mandato, Trump já contratou um cenário inflacionário, decorrente do fechamento progressivo do país ao comércio internacional e da imposição de restrições à entrada de imigrantes no mercado de trabalho americano. Mesmo que essas políticas sejam aplicadas com menos intensidade do que sugere a retórica de campanha, elas inviabilizarão a redução da taxa de juros por parte do Federal Reserve (Fed), o banco central americano.

O centro-direita deu um passo à frente - Ricardo Leitão

O Brasil que saiu das eleições municipais é um país conservador, com líderes políticos do centro-direita que se fortaleceram com o resultado das urnas: Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo; Ratinho Jr., governador do Paraná; Romeu Zema, governador de Minas Gerais; Ronaldo Caiado, governador de Goiás, e Eduardo Paes, prefeito reeleito do Rio de Janeiro. Administram estados e cidade (Paes) do Sudeste e Centro-Oeste, regiões mais ricas e populosas, que concentram os maiores colégios eleitorais. Na eleição presidencial de 2026 – quando serão inevitavelmente ouvidos – movem-se desde já orientados por dois objetivos: vencer a aliança de partidos da esquerda liderada pelo PT e impedir a candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência da República, apoiada pela extrema direita.

O resultado das eleições municipais lhes favorece. A esquerda só venceu em duas capitais, com João Campos, do PSB, no Recife, e Evandro Leitão, do PT, em Fortaleza. Em todas as outras capitais, os partidos de esquerda (PT, PSB, PCdoB, Psol e PDT) elegeram o menor número de candidatos desde 1985, ano em que todas as sedes estaduais passaram a ter eleição direta para o Executivo. Os partidos de esquerda chegaram a controlar oito das nove capitais nordestinas em 2004; agora vão governar apenas duas. Na eleição municipal passada, em 2020, o PT não elegeu nenhum prefeito de capital em todo o País. 

Hidrogênio Verde: O Potencial do Brasil na Economia do Futuro - Cláudio Carraly*

O hidrogênio verde é um pilar essencial na transição para uma economia de baixo carbono, contribuindo para a redução das emissões de gases de efeito estufa e o cumprimento de metas climáticas globais. Diferente do hidrogênio cinza, produzido a partir de combustíveis fósseis e responsável por altas emissões de CO2, o hidrogênio verde é obtido por eletrólise da água utilizando eletricidade de fontes renováveis, como solar e eólica, o que elimina a emissão de poluentes e gera apenas oxigênio.

A Agência Internacional de Energia - IEA projeta que o hidrogênio verde poderia fornecer até 24% das necessidades energéticas globais até 2050, contribuindo para uma redução de até 20% nas emissões de CO2, no entanto, seu custo de produção ainda é um desafio, sendo significativamente mais elevado que o do hidrogênio cinza e azul (produzido com captura de carbono na atmosfera). A redução desses custos é crucial para a viabilidade econômica e expansão do uso do hidrogênio verde.

Poesia | Quando olho para mim, de Fernando Pessoa

 

Música | Chico Buarque - Cálice

 

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

É preciso alterar projeto de emendas parlamentares

O Globo

Na forma como foi aprovado, texto não impõe transparência a toda destinação de recurso

É com base nos princípios constitucionais de transparência, moralidade e publicidade que o Supremo Tribunal Federal (STF) tem tentado disciplinar as emendas parlamentares. Essas linhas do Orçamento permitem aos congressistas obter em Brasília verbas para suas bases eleitorais. É verdade que os recursos são destinados segundo interesses paroquiais, e não por necessidade ou critérios técnicos. Mesmo assim, é um mecanismo comum nas democracias. Nos últimos dez anos, porém, as emendas tiveram um crescimento explosivo no Brasil, quase 550% em termos reais. Hoje representam ao redor de 20% das despesas livres da União no Orçamento, patamar sem paralelo no mundo. Os abusos ficaram evidentes no escândalo que ficou conhecido como “orçamento secreto”.

Em 2022, sob a presidência da então ministra Rosa Weber, o Supremo declarou inconstitucionais as “emendas do relator”. Elas eram opacas — por omitir o parlamentar responsável pelo destino das verbas — e permitiam às lideranças do Congresso alocar verbas bilionárias segundo interesses políticos de ocasião, abrindo flanco a desvios e corrupção. Fechada uma porta, os congressistas encontraram outra: inflaram as “emendas de comissão”, verbas destinadas pelos colegiados temáticos do Congresso, também sem identificar os responsáveis. Elas saltaram de R$ 474 milhões em 2022 para R$ 15 bilhões neste ano.

Observações sobre a cultura brasileira hoje - Ivan Alves Filho*

À memória de Vladimir Carvalho, um brasileiro raro.

Em matéria de cultura, tenho me deparado, pelo Brasil, com produções de grande valor. Vamos tentar examinar isso de perto.

Na música popular, há violeiros notáveis, como Chico Curió, da histórica Tiradentes/MG, autor de belíssimas valsas e modinhas, na linha da melhor tradição mineira. Como Helena Meireles estava na linha das melhores tradições musicais pantaneiras. Ainda em Minas, como não se maravilhar com o trabalho dessa imensa cantora Titane? A dupla Pena Branca e Xavantinho recolheu o que o nosso cancioneiro tinha de melhor, em interpretações magistrais. Outro violeiro de Minas Gerais com muita dedicação à música de raiz foi o estupendo Renato Andrade. Roberto Corrêa também é um mestre mineiro. De certa forma, todos são filhos de Tião Carreiro, de Montes Claros, norte do estado de Minas Gerais. Em São Paulo, temos Renato Teixeira e suas lindas composições. No Mato Grosso do Sul, Almir Sater. Infelizmente perdemos um grande nome, Rolando Boldrin: além de ator e compositor, Boldrin apresentava um dos maiores programas culturais da televisão, o Sr. Brasil. A cantora e pesquisadora musical Inezita Barroso também manteve um belíssimo programa na TV Cultura, intitulado Viola, minha viola. Atilio Bari apresenta há anos o seu Persona, também na TV Cultura. Imprescindível. No Rio de Janeiro, admiro ainda o talento de Eduardo Dusek: sua interpretação de Serra da Boa Esperança é simplesmente antológica. E nunca podemos perder de vista as referências. Ainda em forma, Eliana Pittman é uma referência e tanto para minha geração e com ela participei uma vez de um programa na antiga TV Educativa do Rio de Janeiro, Sem Censura. Tem o talento de uma Dalva de Oliveira ou de uma Elizeth Cardoso. O mesmo eu diria da Alcione, a Marrom, e de Fafá de Belém. Isso, sem falar em Clara Nunes, de vida tão breve. Uma pianista, cantora e arranjadora que também impressiona pelo seu talento é Maíra Freitas, do Rio de Janeiro. Na Bahia ainda temos o Olodum, grupo tão bem representado por João Jorge e Marcelo Gentil. Isso, sem aludir ao extraordinário Elomar Figueira de Melo, baiano do sertão. Diana Pequeno é outra cantora excepcional e também baiana de nascimento, assim como Virgínia Rodrigues. Todas essas pessoas citadas acima na área da música resgatam uma tradição de qualidade que vem de Sílvio Caldas, Orestes Barbosa, Noel Rosa, Nelson Gonçalves, Tito Madi, Lúcio Alves e Roberto Ribeiro. Felizmente, ainda temos Caetano Veloso, Milton Nascimento, Fagner e Paulinho da Viola para dar uma certa continuidade a isso, com suas vozes tão melodiosas e marcantes.

A mensagem das eleições – Roberto DaMatta

O Globo

Não seria tempo de governar menos para a parentela, partido, ideologia, e mais para as carências das cidades e do povo anônimo, relevante apenas no período eleitoral?

A mensagem destas eleições não seria a reformulação de implacáveis polos? Elas não apresentam o desejo de tempos mais igualitários e democráticos? Eleição que nas brutais cadeiradas e repugnante má-fé confirma nossa dificuldade de competir como iguais, vendo os adversários como alternativa, e não como inimigo?

O equilíbrio dos eleitores, comprovando que sabem votar, expressa a domesticação das dualidades negativas que vão dos “dois Brasis” — o desenvolvido e o subdesenvolvido — ao clássico e messiânico “litoral/sertão”; assenta-se na oposição da casa/rua, do sabido/trouxa e chega ao cósmico Fla-Flu de Nélson Rodrigues.

No meu entender, o resultado eleitoral estampa o velho “nem um nem outro”. É sinal dos estertores para a polarização, sempre embrulhada em redes de relações pessoais, entre uma esquerda santificada e pura, destinada a cuidar do povo pobre e do pobre povo, contra uma direita satânica, compromissada com o mercado e com o imperialismo ianque.

Eleições viraram guerra dos sexos - Vera Magalhães

O Globo

A depender de quem vencer, Trump ou Kamala, a vida das mulheres nos EUA será profundamente diferente, o que coloca em xeque o pilar democrático da igualdade

Um dos muitos aspectos perturbadores da distópica eleição presidencial americana que se encerrou nesta terça-feira de forma absolutamente imprevisível foi que o abismo entre gêneros esboçado nos últimos pleitos virou plataforma escancarada. A depender de quem vencer, Donald Trump ou Kamala Harris, a vida das mulheres nos Estados Unidos será profundamente diferente, e isso é, por si só, um golpe de morte na ideia de democracia, que tem a igualdade de direitos como um de seus princípios basilares.

A maneira como, a despeito dos protestos veementes que eclodiram em todo o país depois que a Suprema Corte revogou a jurisprudência firmada desde o caso Roe vs. Wade, nos anos 1970, a chapa Trump-Vance não esconde a intenção de cercear ainda mais os direitos reprodutivos é um sinal claro de que os republicanos abriram mão de falar com o conjunto do eleitorado, e nem chegam a ver essa estratégia como risco eleitoral.

O que Lula pode esperar dos EUA - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Declarações de Lula em relação às eleições norte-americanas podem criar facilidades ou dificuldades adicionais ao relacionamento diplomático com os Estados Unidos

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma aposta alta ao anunciar publicamente seu apoio à candidata democrata a presidente dos Estados Unidos, Kamala Harris, e apontar o ex-presidente Donald Trump como uma ameaça à democracia. Esse posicionamento foge à tradição diplomática brasileira de manter distância regulamentar das disputas de poder de outros países, mas não foi a primeira vez que Lula fez isso. Fez aposta semelhante nas eleições da Argentina, onde apoiou o peronista Sergio Massa. Perdeu: foi eleito o ultraliberal Javier Milei.

Itamaraty agora corre atrás do prejuízo. A Argentina é o nosso terceiro parceiro comercial, o segundo da nossa indústria. Os Estados Unidos são o segundo mercado, sendo o primeiro para nossas exportações de manufaturados. Como na Argentina, as declarações de Lula em relação às eleições norte-americanas não influenciarão o resultado da eleição, mas podem criar facilidades ou dificuldades adicionais no relacionamento diplomático com os Estados Unidos, dependendo de quem ganhasse. Eram dois cenários distintos.

A eleitorcracia contra o mundo - Cristovam Buarque*

Correio Braziliense

Os eleitores não escolhem o melhor presidente para fazer um mundo melhor no futuro, apenas o que melhora o seu ao redor nacional no imediato. As eleições nos EUA mostram essa visão

Por muitos séculos, as tribos de seres humanos não percebiam que o mundo existia; cada grupo étnico se sentia único. Aos poucos, o mundo foi se transformando na soma-de-países diferentes que conviviam ou disputavam em guerras entre eles. O mundo passou a ser percebido maior do que cada país, mas suas populações não eram integradas. 

Nas últimas décadas, o mundo ficou integrado econômica e culturalmente, diversas entidades foram sendo criadas para promover a cooperação entre países em fóruns internacionais. É muito recente a atual realidade em que cada país é um pedaço-do-mundo. A foto desde o espaço trouxe a percepção de que a Terra é um território unificado e com recursos limitados. O planeta deixou de ser apenas um conceito de astronomia e se transformou na casa de todos os humanos. As mudanças climáticas passaram a ser vividas em qualquer parte do globo, mostrando que a humanidade não é mais apenas um conceito filosófico. Pela primeira vez, os seres humanos perceberam que têm um destino comum que não respeita fronteiras nacionais. As migrações em massa mostram que a busca por sobrevivência não respeita as distâncias nem as fronteiras.

Governo Lula 3 chega à metade sob pressão - Fernando Exman

Valor Econômico

Sem resolver a questão fiscal, eventual mudança na condução da política cambial deve gerar novo motivo de estresse

O governo Lula 3 chega à metade sob pressão, buscando reposicionar-se na política e, também, na economia. Em ambas as frentes a taxa de câmbio está em foco.

Mas, se há ainda muito tempo até a virada de ano, por que se fala no Congresso e no mercado que, na prática, o governo já chegou à metade?

São dois os motivos. O primeiro é o fim do pleito municipal, que fortaleceu o centro e a direita, e está exigindo inflexões do Palácio do Planalto desde já.

Líderes petistas começam a reconhecer que o resultado das eleições evidencia a dificuldade do partido em manter por perto a classe média que votou no presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2022. Esse é um obstáculo que a sigla necessita transpor até 2026, tendo em vista a campanha à reeleição, e para tanto precisará apresentar novas ideias programáticas que atendam a essa parcela da população.

Haddad com os ministros errados – Elio Gaspari

O Globo

Sabe-se lá o que vem por aí no pacote de corte de gastos armado em Brasília. A notícia de que Lula e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, reuniram-se com seus colegas da Saúde, Educação e Trabalho assusta. A lâmina parece apontada na direção errada.

Começando pelo Ministério do Trabalho, sabe-se que, nas últimas semanas, a ekipekonômika andou soprando por Brasília uma tunga engenhosa. Quem fosse demitido sem justa causa perderia uma porção da multa de 40% sobre o FGTS a que tem direito, paga pelo patrão. O engenho da tunga estava em descontar esse dinheiro avançando sobre aquilo que receberia pelo salário-desemprego, outro direito. Exposta, a tunga foi desmentida pelo Planalto e condenada pelo ministro do Trabalho, que ameaçou ir embora.

Presidente do PSB diz que corte de gastos do governo tem de poupar área social - Fábio Zanin

Folha de S. Paulo

Carlos Siqueira afirma que redução a ser anunciada pela gestão Lula não pode prejudicar os mais pobres

O presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira, diz que o corte de gastos previsto pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva deveria poupar a área social.

"É uma decisão da equipe econômica. Mas tem que cortar onde não for prejudicar os mais pobres. Tem que ter critérios, não pode pode atingir áreas como saúde e educação", afirma.

Entre os pontos estudados pelo governo Lula no pacote de redução de despesas estão mudanças no seguro desemprego e um limite para o aumento de gastos, que poderiam afetar recursos para as áreas sociais. Como mostrou o Painel, o pacote deve gerar queixas no PT e demais legendas de esquerda.

"Temos autoridade para tratar desse assunto, porque todos os nossos governos são superavitários. Tem que cortar onde não prejudique a população", afirmou Siqueira.

Redução das despesas, agenda que se impõe - Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Será preciso escolher entre manter ou não manter o arcabouço fiscal, ambas as opções com elevado custo político

Na imprensa, como em outros negócios que operam nos sete dias da semana, é comum ser perguntado aos trabalhadores se “preferem” trabalhar no Natal ou no Ano Novo. Não existe a opção “nenhum dos dois”.

Mal comparando, é a situação em que se encontra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva: manter ou não manter o arcabouço fiscal, ambas as opções com elevado custo político. Mas é necessário escolher.

Para mantê-lo, será preciso adotar medidas impopulares que podem dar discurso à oposição e embaralhar projetos políticos para 2026. Esse é o caminho para a redução de juros e a preservação do ciclo de crescimento econômico.

Lugar de fala é lugar de cale-se - Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

O identitarismo perde feio em eleições, mas continua soberano nas universidades

Quando escrevi esta coluna, eu ainda não sabia o resultado da eleição presidencial americana, mas você, caro leitor, provavelmente já sabe. Independentemente de quem venceu essa disputa, que pode influenciar decisivamente a eleição brasileira em dois anos, há questões que já estão claras para quem acompanha as cada vez mais frequentes competições em que a extrema direita se apresenta com grandes chances de vitória.

A mais evidente delas, que afeta tanto as retóricas eleitorais quanto as perspectivas de políticas públicas e mudanças legislativas futuras, é a crise de popularidade da ideologia identitária. Para quem acompanhou a campanha americana, saltam aos olhos tanto o recuo na retórica identitária de Kamala Harris quanto o avanço, agora sem filtros, da agenda anti-identitária de Donald Trump. Como tudo ali é baseado em dados e cálculos eleitorais, o afastamento de Harris dessa retórica e o discurso cada vez mais agressivo de Trump contra o identitarismo são sinais claros de que essa pauta tem sido mais útil eleitoralmente à extrema direita do que aos progressistas.

Boulos e a esquerda na encruzilhada – Bruno Boghossian

Folha de S. Paulo

Fatalismo do deputado não é um delírio, mas pureza ideológica não vai resolver tudo

Guilherme Boulos deu alguns passos em direção ao centro na última campanha. Tentou suavizar bandeiras para não ser engolido pela rejeição a seu histórico político. A experiência talvez tenha sido frustrante demais: o deputado não apenas foi derrotado como saiu das urnas afirmando que a esquerda não deveria fazer concessões daquele tipo.

Boulos escolheu o lado em que seguirá na encruzilhada sobre os rumos da esquerda. Em entrevista a Mônica Bergamo quatro dias após a eleição, ele se queixou de "setores do PT" que defendem o caminho do centro para resistir ao avanço da extrema direita. Para o deputado do PSOL, essa opção seria "um suicídio histórico".

O plano de Haddad e Tebet - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Ajuste 'estrutural' fica para um dia, contas ainda estarão doentes, mas dá para conter crise

Fazenda e Planejamento terão de fazer mágicas e milagres a fim de apresentar um plano de redução do ritmo de aumento de gastos que não seja sabotado por governo e PT, que seja aprovado por Lula da Silva, que não seja avacalhado no Congresso e que convença os credores da dívida pública.

É difícil, mas Fernando Haddad e Simone Tebet podem até conseguir aprovar medidas que, como dizem os médicos, coloquem o paciente em situação "estável" (pode estar ruim, mas parou de piorar, com sinais vitais em níveis aceitáveis).

Nos últimos 12 meses, a despesa do governo federal, em termos reais (descontada a inflação), somou R$ 2,32 trilhões. Sem precatórios de pessoal, custeio e capital, foi de R$ 2,22 trilhões. Vamos considerar aqui a despesa sem precatórios. É apenas um exercício para facilitar a discussão (precatório é outro rolo grande). Não há juros nessa conta (que são "pagos" com mais dívida). A receita foi de R$ 2,1 trilhões.

Picotando os clássicos - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Decisão de Flávio Dino que manda tirar de circulação quatro obras jurídicas por preconceito configura censura

Não escrevo hoje sobre a eleição americana porque qualquer coisa que eu dissesse ficaria irrecuperavelmente velha num ritmo ainda mais acelerado do que o do já efêmero jornalismo diário. Volto, portanto, minhas baterias contra Flávio Dino.

O ministro do STF determinou a retirada de circulação de quatro obras jurídicas com conteúdo discriminatório contra mulheres e homossexuais. Os quatro títulos são todos da mesma dupla de autores, os gêmeos Luciano e Fernando Dalvi, que, junto com a editora, também foram condenados a pagar indenização de R$ 150 mil por danos morais coletivos.

Reale Jr. vê ‘sequestro’ do Orçamento pelo Legislativo

Matheus Lara, Pedro Lima /O Estado de S. Paulo

Ex-ministro da Justiça critica a distribuição de emendas pelo Executivo e afirma que o País vive um momento de ‘podridão’

O jurista Miguel Reale Júnior fez duras críticas ontem ao que chamou de “sequestro” do Orçamento do País pelo Legislativo por meio das emendas parlamentares. Para o ex-ministro da Justiça, o Brasil vive um momento de “podridão”, em que o interesse público deu lugar ao interesse particular de deputados e senadores.

“O Legislativo pôs a mão no Orçamento. Se já é difícil para o Executivo cumprir seu papel com as despesas obrigatórias, com esse sequestro de receita por parte do Legislativo, o Executivo fica com as mãos atadas”, disse o jurista no encerramento do 9.º Seminário Caminhos Contra a Corrupção, promovido pelo Estadão e pelo Instituto Não Aceito Corrupção (Inac). “Estamos vivendo uma podridão, vendo o dinheiro indo para o ralo, vendo ações que priorizam atendimento pessoal de parlamentares. Acabou o interesse público, este é o quadro.”

Uma reunião com 21 anos de atraso - Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

Iniciativa de Lula vai fracassar porque a Segurança é refém do corporativismo das polícias

Quando assumiu a Secretaria Nacional de Segurança Pública, em 2003, Luiz Eduardo Soares tentou montar o que chamava de “um pacto pela paz”, que levaria à criação do SUSP, o Sistema Único de Segurança Pública. Tudo parecia possível. No começo de 2002 — lembrou o antropólogo em artigo assinado com o professor Manuel Domingos —, Lula fora bem recebido por tucanos, como Aécio Neves, que elogiaram o pacote anticrime petista.

Segundo Soares, “o plano não idealizava a racionalidade técnica e apontava para ajustes de instituições públicas às determinações constitucionais”. Dois anos antes, a resolução 160 da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo instituíra o Sistema Estadual de Coleta de Estatísticas Criminais. Soares queria o mesmo: dados confiáveis que servissem para retratar o funcionamento do sistema.

Cadeias cheias e ruas perigosas - Nicolau da Rocha Cavalcanti

O Estado de S. Paulo

Essa realidade não é fruto do acaso, mas de modos de proceder incorporados como normais, apesar de seus nefastos efeitos

Temos a terceira maior população carcerária do mundo – prendemos muitas pessoas, investimos muitos recursos públicos aí –, mas não somos um país seguro. Há um alto índice de criminalidade e de insegurança, que afeta a vida das pessoas, das famílias, das empresas, dos negócios, de todo o País. Entender e enfrentar as causas desse cenário de disfuncionalidade do sistema de Justiça penal é, a meu ver, um imperativo cívico e ético, um cuidado necessário com a coletividade: com o presente e o futuro do Brasil.

A melhoria do sistema de Justiça penal não é uma missão impossível. Neste momento, por exemplo, o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ) tem a oportunidade de corrigir um antigo erro seu e melhorar significativamente a qualidade das investigações que embasam as ações penais. Não adianta processar e prender muita gente, se os processos penais são superficialmente instruídos, se eles não desvendam a dinâmica do crime, se eles não prendem quem deveria ser preso.

O colapso das ferrovias - Almir Pazzianotto Pinto

O Estado de S. Paulo

A prioridade dada às rodovias não justifica o abandono das ferrovias, que deveriam ser vistas como o principal meio de transporte de cargas pesadas e de passageiros à longa distância

Nos altos escalões da República nada se diz sobre o colapso da malha ferroviária, um dos pontos fracos da nossa precária infraestrutura, responsável pela baixa produtividade do Brasil.

A rede se estende de forma descoordenada ao longo de 30.129 quilômetros (km), distribuídos entre 22 Estados e o Distrito Federal. A maior parte se destina a transporte de cargas, como minério de ferro. É reduzido o número de quilômetros explorados para deslocamento de passageiros. A maior extensão se registrou na década de 1960, quando alcançou 38.287 quilômetros. Na Mensagem ao Congresso Nacional relativa ao ano de 1956, o presidente Juscelino Kubitschek declarava existirem 37.100 quilômetros, “sendo 2.880 km em bitola de 1,60 metro, 33.120 km em bitola de 1,00 metro e 1.060 km em bitolas inferiores a 1 metro”. Também relacionava as ferrovias em fase de construção (página 418).

Poesia | Elegia 1938, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Juliana Linhares - Tareco e Mariola