sexta-feira, 19 de setembro de 2008

A era de incertezas passa a ser a era de ansiedade


Paul A. Samuelson*
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A humanidade se assemelha mais à avestruz do que à coruja, famosa pela sabedoria. Tanto na moderna macroeconomia quanto na moderna geopolítica, os otimistas acham que já podem vislumbrar o começo de melhores dias futuros.

Afirma-se que os Estados Unidos e seus aliados “derrotaram” os talebans no Afeganistão. Será que fizemos isso mesmo? Esses inimigos extremistas costumam voltar à vida como a Fênix, incessantemente.

Observe-se, ainda, que o envio de mais tropas americanas ao Iraque neste momento parece fortalecer a esperança racional de que a cooperação do Iraque caminha para seu autogoverno, o que justificaria uma futura saída dos militares americanos do país. Entretanto, estrategistas experientes não se surpreenderiam se os benefícios desse reforço evaporassem daqui a seis meses.

Na França, De Gaulle entendeu do pior modo possível os altos e baixos dos franceses na Argélia e no Vietnã. Os presidentes Eisenhower, Kennedy, Johnson e Nixon aprenderam igualmente graves lições no Vietnã. No fim, sem vitórias nem honras exageradas, todo o sangue e os recursos sacrificados para derrotar o governo de esquerda daquele país resultaram vãos.

Segundo esse mesmo esquema na geopolítica, sucessos temporários seguidos por graves derrotas podem parecer óbvios nas atuais crises financeiras globais. O Federal Reserve (Fed, banco central americano) e os bancos centrais de outros países foram obrigados a entrar em ação a fim de aliviar a situação na oferta de crédito. Não fizeram isso para salvar irresponsáveis instituições de crédito hipotecário e mutuários dos prejuízos dos seus investimentos. Mas, lembrando a gravidade da queda das economias globais durante a Grande Depressão, os governos de hoje agiram rapidamente para proteger a economia dos ventos adversos da recessão.

Quando o fundo de hedge Long Term Capital Management foi contemplado com um resgate preparado pelo Fed, em 1998, o motivo alegado foi a preservação da prosperidade do investidor médio.

Os seguidores do presidente Herbert Hoover em 1929 e do secretário do Tesouro Andrew Mellon criticam todos esses resgates do governo porque alegam que estimularão um “perigo moral” - ou seja, um aumento do risco futuro dos investimentos em razão das expectativas de ajuda imerecida.

A maior parte de meus colegas macroeconomistas é jovem demais para lembrar da Grande Depressão. Na época, eu ainda não havia me formado na conservadora Universidade de Chicago e pude sentir isso dentro e fora da escola.

Então aprendi algumas lições permanentes: (1) O capitalismo puro não pode evitar alguns ciclos econômicos. Tampouco pode-se contar com o “laissez-faire” dos mercados para cuidar dos próprios males. (2) As decisões do Fed de elevar ou baixar os juros de curtíssimo prazo a fim de se “proteger contra os ventos” adversos podem conter indefinidamente a volatilidade da real macroatividade do pequeno investidor. Não é uma quimera acadêmica. Desde 1989, nós e o mundo desfrutamos de fato de uma forma de “Grande Moderação”: altos e baixos mais modestos nos ciclos econômicos. (3) Entretanto, nas épocas de turbulência mais profunda, as correções adotadas pelos bancos centrais em suas metas das taxas de juros de curto prazo tornaram-se cada vez mais impotentes. Taxas de juros próximas de zero só servem para encorajar a acumulação e não para gastar dinheiro. (4) Finalmente, em épocas de graves choques do lado da oferta, como agora e na década de 70, quando os preços do petróleo da Organização dos Países Exportadores de Petróleo podem quadruplicar da noite para o dia, ao mesmo tempo em que as colheitas e a produção de metais são afetadas e os preços das matérias-primas se encontram em uma bolha de alta, a economia sofre uma “estagflação” maléfica.

Infelizmente, o mesmo ziguezague de otimismo e pessimismo é endêmico na batalha entre as paridades do dólar americano e as do euro, do iene japonês ou do won coreano. Um mês atrás, uma ligeira melhora das exportações americanas provocou a recuperação do dólar em relação ao euro e às outras principais moedas.

Algo que pode ser impressionante para especuladores irresponsáveis.

Entretanto, o gráfico dos déficits de longo prazo do balanço de pagamentos dos EUA em geral, mostra apenas certa ondulação em sua crônica tendência à alta. Se isso provoca pesadelos em Warren Buffett, talvez as massas americanas de consumidores contumazes também devessem prestar alguma atenção ao fato.

Se os economistas tivessem sido informados, em 2007, da gravidade da “tempestade perfeita” (provocada pela concorrência de poderosos fatores) dos mercados financeiros que ocorreu em 2008, acredito que teríamos previsto racionalmente uma recessão americana muito pior em 2008, do que tivemos até agora. O que nos tranqüiliza um pouco.

Mas quanto tempo durará? Nada de pânico! Acho que deveremos esperar uma maior debilidade macroeconômica para o futuro, que poderá persistir até o fim de 2009. Hoje, ficamos sabendo do colapso do Lehman Brothers. Aprovo totalmente a decisão de não ajudá-lo a sair do buraco, ao contrário do que foi feito com o Bear Stearns.

Corporações gigantescas como o Citigroup e o American Investment Group (do setor de seguros) mais uma vez foram profundamente afetadas.

Enquanto ninguém se preocupava de resgatar a Merrill Lynch, a maior corretora de varejo dos EUA, ela foi engolida pelo Bank of American.

O ex-presidente do Fed Alan Greenspan admitiu publicamente que nossa “tempestade perfeita” de meados de setembro, em Wall Street, é uma dessas coisas que só acontecem “uma vez em cada século”. É estranho, portanto, que no dia 16 o Fed tenha se recusado a cortar um pouquinho sua taxa de juros, e que nada tenha mencionado sobre nova ajuda ao crédito.

Se esse foi apenas um pecado venial e não mortal, mesmo assim, na minha opinião, é a primeira falha de Ben Bernanke para lembrar que, acima de tudo, a razão de ser do banco central é ser a instituição de empréstimos de última instância, quando uma sociedade de mercado democrática é atingida pela calamidade mais grave.

Espero que o dr. Bernanke prove que tinha razão, e ficará provado que eu estava errado.

*Paul A. Samuelson escreve para o ‘Tribune Media’

Alta do dólar vai pressionar a inflação

Andrea Vialli
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A valorização do dólar nos últimos dias - especialmente ontem, quando a moeda americana subiu 3,3% e fechou o dia valendo R$ 1,93 - já traz o risco de impacto sobre os indicadores de custo de vida do País e conseqüente pressão sobre a inflação em 2008. Ontem, na máxima do dia, a moeda americana chegou a valer R$ 1,96. Ao longo do mês de setembro, o dólar acumula alta de 18,2%, e chegou ao maior valor desde setembro de 2007.

“A alta do dólar traz dois impactos importantes: um é a pressão sobre os preços livres, como o dos itens importados, por exemplo. O outro impacto é sobre os preços administrados por índices de inflação como o IGP, que são referenciais de preços de contratos como aluguéis,seguros e tarifas públicas”, explica o economista Márcio Nakane, coordenador técnico da Tendências Consultoria.

Segundo ele, os dois tipos de impacto têm pesos semelhantes sobre a inflação - em média, a cada 10% de elevação do dólar, existe um impacto de 1% no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). “Ou seja, primeiro ocorre uma pressão sobre os preços no atacado, no IGP, que depois é repassada para o varejo”, afirma Nakane.

No entanto, ele avisa que esse cálculo é uma simulação e não leva em consideração outras forças em atuação na economia. “Há muitas coisas acontecendo. Ao mesmo tempo que o dólar sobe, há fatores que podem amenizar o impacto inflacionário, como a queda das commodities e a elevação dos juros”, observa.

De acordo com Nakane, ainda é cedo, no entanto, para prever o comportamento da moeda americana nos próximos dias e seu impacto efetivo sobre a inflação. “A pressão vai existir sim, mas é muito difícil prever o quanto neste momento. O dólar a R$ 1,90 é reflexo dos acontecimentos da semana.”

Para Luiz Jurandir Simões Araújo, professor de finanças da FEA/USP, é provável que o dólar se mantenha entre R$ 1,85 e R$ 2,00 nas próximas semanas. “Mas isso não deve nos prejudicar muito porque os fundamentos da economia brasileira não mudaram. Nosso navio não tem furo no casco.”

Segundo o professor, a alta do dólar deve pressionar a inflação, mas é uma oportunidade para as empresas exportadoras venderem mais. “Os exportadores podem aproveitar esse momento para vender mais. Mesmo se os países ricos importarem menos, os emergentes estão em expansão.”

'Alguém precisa pôr o mercado para funcionar'

ENTREVISTA - Alexandre Schwartsman: Ex-diretor do BC
Leandro Modé
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Quando o Brasil iniciou, em janeiro de 2004, a política de recomposição de reservas cambiais, o diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central (BC) era Alexandre Schwartsman, atualmente economista-chefe do Banco Santander para América Latina.

Para o especialista, o BC acerta ao “emprestar” (verbo que, neste caso, para ele, é mais preciso do que vender) dólares ao mercado. “É para esse tipo de situação que servem as reservas.” No início de 2004, o País tinha, sem contar o dinheiro do Fundo Monetário Internacional (FMI), cerca de US$ 20 bilhões em reservas. Hoje são quase US$ 210 bilhões.

Como avalia a decisão do BC de vender dólar?

Não é uma venda de dólar. É uma venda com compra, ou seja, o BC vende agora com o compromisso de que as pessoas que compraram vão revender para ele no futuro. É um empréstimo em dólar. A idéia é suprir o mercado no momento em que falta liquidez.

Como está a liquidez?

Vivemos uma situação no sistema financeiro internacional na qual quem tem liquidez sentou em cima. Realmente empoçou. Os mercados interbancários lá fora travaram. Quem tem recursos obviamente tem de segurar, pois não sabe se os terá de volta caso empreste. Essa dinâmica lá fora levou a uma contração de crédito global.

As reservas vão cair com isso?

Em princípio, isso não implica redução das reservas, porque o dólar sai, mas depois volta. Durante um tempo, claro, as reservas ficarão menores. O objetivo do BC não é ganhar dinheiro com isso, mas vai ganhar (porque cobrará um juro mais alto de quem tomar o empréstimo do que a remuneração dos títulos do Tesouro dos EUA, onde está aplicada a maior parte das reservas brasileiras).

Para isso servem as reservas?

Para isso, entre outras coisas. Nos momentos em que falta liquidez, é preciso ter alguém com condição de pôr o mercado para funcionar.

Qual a tendência para o dólar?

É para cima. O fundamental é a perspectiva para os preços das commodities. Com a desaceleração global, os preços de commodities devem, na melhor das hipóteses, ficar estáveis. Mas provavelmente vão cair. É um dos principais fatores que pressionam o câmbio para cima.

"O mercado não se regulará sozinho" (George Soros)

Osmar Freitas Jr
Correspondente em Nova York
DEU NO JORNAL DO BRASIL

Promovendo em Londres o livro "O novo paradigma para o mercado financeiro: a crise de crédito de 2008 e o que ela significa", o megainvestidor George Soros disse ao JB que a culpa de tudo é do "fundamentalismo de mercado", e que "estamos nos encaminhando para o olho da tempestade, ao invés de sair".

George Soros: caminhamos para o olho da tempestade

Investidor critica fundamentalismo e defende mercado sob supervisão

O megainvestidor George Soros, chairman do Soros Fund Management, é mestre em aproveitar oportunidades. Nas crises, ele demonstra sair-se muito bem. No difícil momento atual, por exemplo, este húngaro-americano de 78 anos, tem às mãos um best seller pontual em sua chegada. O livro The New Paradigm For Financial Markets: The Credit Crisis of 2008 and What it Means (O novo paradigma para o mercado financeiro: a crise de crédito de 2008 e o que ela significa), lançado em maio, chegou bem a tempo para estourar nas vendas. E traz uma visão muito particular do sistema financeiro, passado ou contemporâneo.

Soros, em meio à tormenta, não se limita apenas a exibir sua obra como prova de profecia correta, mas continua com sua fina análise do que está ocorrendo na economia a cada exato momento. Promovendo seu livro em Londres, o investidor falou sobre o histórico da crise e o que deve ser feito para corrigi-la.

Processo histórico

– Para se entender esta crise é preciso se levar em conta o processo histórico. Eu examino em meu livro como ele se desenvolveu. Eu opino que, além da bolha imobiliária – o gatilho que disparou esta crise financeira atual, há também uma "Super Bolha", que vem acontecendo há 25 anos.

Margareth Thatcher

– Na verdade, ela começou em 1980, quando Margareth Thatcher foi eleita primeira-ministra do Reino Unido, e Ronald Reagan, presidente dos Estados Unidos. Foi quando passou a imperar o que chamo de Fundamentalismo de mercado. Trata-se da crença de que é melhor para os mercados que sejam deixados aos seus próprios cuidados. Que eles são seus melhores reguladores. Isso passou a ser um dogma ideológico.

Nova fase

– Baseado nisso, criou-se uma nova fase da economia: a globalização do mercado financeiro. E, o que é importante, a liberalização do mercado. Agora, como este dogma é uma falsa idéia – já que os mercados não tendem a se auto-regular – nós tivemos uma série de crises financeiras. Isso teve grande impacto em aspectos particulares do sistema financeiro. A primeira crise decorrente deste dogma foi a dos bancos internacionais, quando o México ameaçou declarar moratória em sua dívida (1982). Esta ameaça forçou as autoridades a salvar o sistema. Para isso, aglutinaram os bancos e os encorajaram a rever as regras e emprestar mais para os países devedores em perigo de moratória. Dinheiro este, suficiente para o pagamento dos juros destas dívidas.

Prejuízos ocultos

– Para conseguir que os bancos tapassem os buracos em suas balanças de pagamento, estas instituições receberam permissão para buscar novos modos de fazer dinheiro. Também foram encorajados a jogar estes prejuízos para fora de suas folhas de balanço, e repassar, vender papéis das dívidas para outros, para recuperar recursos. Assim, imaginava-se que fossem compensados.

Plano Brady

– Oito anos depois, o Plano Brady (1989) foi introduzido, o que permitiu que os países devedores a reduzir suas dívidas. Neste momento os bancos rolaram suas perdas, mas a este ponto eles já tinham reservas suficientes para aguentar o baque.

Liberalização

– Assim tivemos a primeira vez que a liberalização de regras foi ativada. No passado, toda a história do Banco Central foi uma série de crises. A cada uma delas, as autoridades examinaram o que havia dado errado e remoldaram o sistema para que aquele problema particular não ocorresse mais. Mas em 1982, pela primeira vez, a resposta foi somente a liberalização de regulamentações.

Grande Depressão

– A partir da Grande Depressão, toda a estrutura de regulamentações imposta, basicamente, congelou o sistema bancário, colocando-o numa camisa de força. Mas a partir de 1982, este conjunto de regras foi desmantelado – seguindo o dogma a que me referi anteriormente.

O fundamentalismo de mercado acreditava que quanto menos regulamentações, melhor. Caiu até mesmo os diferenciais que caracterizavam um banco de investimentos. Regras após regras foram sendo abandonadas.

Caixa de Pandora

– O resultado foi o surgimento de um mercado financeiro disfuncional, com segmentos particulares completamente sem supervisão e fazendo negócios absurdos. O resultado foi uma caixa de pandora criada por agentes do mercado financeiro, que envolveram todos os elementos deste ambiente.

Fundamentalismo

– Esta crise demonstra, mais uma vez, que o fundamentalismo de mercado é errado, suas premissas não funcionam e deve ser abandonado. O mercado e suas instituições devem obedecer regulamentações e ser supervisionados. Espero que isto esteja nos planos imediatos das autoridades econômicas. Do contrário vamos continuar navegando de crise em crise, com anarquia criada pelo mercado.

Saída distante

– De todo modo, temo que não estejamos nem perto de sair da crise. Não passamos ainda o pior. Acho que estamos nos encaminhando para o olho da tempestade, ao invés de saindo dela.

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1091&portal=

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Um país inseguro


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO

NOVA YORK. As pesquisas eleitorais, que aqui nos Estados Unidos são realizadas às dezenas e praticamente todos os dias, geralmente por telefone, poderiam ser questionadas pelos padrões brasileiros, muito mais rigorosos, mas na verdade servem para indicar a tendência do eleitorado, mesmo que a margem de erro seja quase sempre maior que três pontos percentuais. Em uma eleição apertada como essa, em que as variações são mínimas, elas servem para medir a temperatura da campanha, mais do que para apontar um presumível vencedor.

É assim que ontem havia pesquisa mostrando Obama novamente na frente, com dois pontos percentuais sobre McCain, como havia outras mostrando o republicano na frente, também dentro da margem de erro. A conclusão é que não se pode dizer hoje quem vencerá a eleição, que promete ser tão apertada quanto a de 2000.

A eleição presidencial deste ano tem ingredientes únicos, que dão à campanha um toque dramático que há muito não se via. É a primeira vez que um candidato negro tem chances reais de chegar à Presidência da República, e a disputa eleitoral se dá em meio a uma crise econômica sem precedentes. Por isso, mais que as qualidades pessoais de cada candidato, está em disputa a capacidade de inspirar confiança no eleitorado assustado com o futuro.

Os "swing states", isto é, os estados que não são historicamente republicanos ou democratas e que podem mudar de voto a cada eleição, são, nesse clima de equilíbrio, os definidores da eleição.

Como no sistema eleitoral americano o candidato que vence no voto popular leva todos os votos dos delegados correspondentes àquele estado, já há indicações de que McCain lidera no voto popular, mas Obama tem mais delegados, justamente o contrário do que aconteceu na eleição polêmica de 2000, quando George W. Bush venceu com menos votos populares que Al Gore.

Há uma característica interessante na atual campanha: a maioria do eleitorado prefere o Partido Democrata, provavelmente repudiando os oito anos de governo republicano que levou o país à bancarrota econômica e à guerra.

Mas, o candidato republicano McCain conseguiu superar essa rejeição partidária, e surge como o preferido dos eleitores em diversos pontos, como o mais bem preparado para lidar com a crise econômica ou política externa, e o melhor "comandante-em-chefe" para o momento do país.

No início da campanha, o sentimento de que os democratas seriam a solução para o país estava combinado com a empolgação pelo que representava de novo a candidatura de Barack Obama.

Hoje, esse sentimento ainda existe, mas está bastante desgastado, enquanto McCain está conseguindo, mesmo à custa de uma campanha que pode ser considerada agressiva e muitas vezes distorce a verdade, distanciar-se do Partido Republicano e se colocar como um agente de mudanças mais confiável do que Obama.

Desde que se dispôs a assumir o papel de ser o candidato da mudança em Washington e agora em Wall Street, mesmo que esse papel não corresponda a seu histórico político, McCain tem conseguido apaziguar um eleitor que quer mudança, mas teme a inexperiência de Obama. Ou, por outra leitura, teme eleger um presidente negro. Ou acha que é muita novidade junta, o primeiro presidente afro-descendente e ainda por cima inexperiente.

O candidato democrata está trabalhando firme nos estados que podem mudar seus votos para reverter um quadro que, no momento, o favorece mais devido ao seu partido do que a seus predicados - ao contrário do que acontecia meses atrás.

Os quatro grandes estados considerados estratégicos para uma vitória são os alvos das duas campanhas. Ohio e Flórida, onde Bush venceu em 2004, e Pensilvânia e Michigan, onde venceu o candidato democrata John Kerry, são exemplos típicos de estados que têm que ser mantidos pelas duas candidaturas. Perder em um deles pode significar a derrota final.

Exemplos de estados importantes e a mudança de votos nos últimas eleições:

New Hampshire (Bush em 2000, Kerry em 2004 e até o momento Obama);

Colorado (Bush em 2000 e 2004 e até o momento Obama);

Novo México (empate em 2000, Bush em 2004 e até o momento Obama);

Ohio (Bush venceu por menos de 1% e hoje há pesquisas mostrando Obama liderando por dois pontos e outras colocando McCain à frente por 3 pontos);

Flórida, onde Bush venceu em 2004 e hoje o jogo está literalmente empatado, como em 2000, quando a eleição foi decidida pela recontagem de votos lá.

Em alguns estados, quando os candidatos "nanicos" são incluídos, a disputa apertada pode mudar o vencedor. O independente Ralph Nader, o libertário Bob Barr e a candidata verde Cynthia McKinney, juntos, têm um total de 7% dos votos em Indiana, 6% em Ohio e 5% na Carolina do Norte.

Pelas contas da CNN, Obama teria hoje 233 delegados e McCain teria 189, enquanto 116 votos ainda estariam em disputa.

Já o site Politico.com dá um resultado mais apertado, com Obama tendo 153 delegados e McCain, 139. Incluindo os votos indecisos, Obama acabaria sendo eleito com 273 votos, apenas três a mais do que o necessário, e McCain teria 265 delegados, cinco a menos.

A não ser que algum tropeço mude o ritmo da campanha, ou que alguma revelação faça os eleitores desacreditarem de um dos candidatos favoritos, os debates que começam na sexta-feira, dia 26, poderão definir a posição dos eleitores.

A última fronteira


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Até outro dia mesmo os suplentes ocupavam 13% das cadeiras do Senado. De repente já são mais de 20% os integrantes da bancada dos senadores sem-voto em uma das Casas do Poder da representação popular, conforme mostra levantamento publicado terça-feira no Estado.

Talvez suas excelências que engavetaram na Comissão de Constituição e Justiça proposta para a mudança nas regras da suplência - aprovada no ano passado - não tenham se dado conta, mas estamos perto de alcançar a marca dos senadores biônicos criados pelo general presidente Ernesto Geisel como uma das formas de conter o avanço da representação oposicionista ao regime militar.

Possivelmente também não tenham vislumbrado outro significado: o Congresso, que já entregou ao Executivo e ao Judiciário a tarefa de legislar e nos últimos tempos tratou de desmoralizar as comissões de inquérito abrindo mão da prerrogativa de fiscalização, agora vai aos poucos abandonando também sua função de representar.

Finge que não vê, e com isso alimenta o avanço gradativo dos suplentes mostrando-se indiferente à delegação recebida no voto. No caso dos senadores, majoritário.

O primeiro impulso é fazer uma comparação com os governadores imaginando como seria a reação se quase um quarto deles resolvesse transferir de uma só vez os cargos aos vices. Mas o exemplo não serve, porque os vices bem ou mal são eleitos.

Os suplentes chegam ao Senado por razões aleatórias e, no entanto, votam, dão opiniões, podem mudar o rumo de decisões, recebem todas as benesses destinadas ao senador sem precisar para isso de um só voto.

Se a prática é absurda mesmo como exceção, quando começa a virar norma configura-se uma deformação completa da razão de ser do Parlamento.

Segundo as regras do Pacote de Abril de Geisel, os biônicos - assim chamados por chegarem ao Senado por indicação, não por eleição - ficavam com um terço das cadeiras.

Hoje, dos 81 senadores, 19 são suplentes, não tiveram um voto, são indicados pelos motivos mais convenientes ao titular da chapa, ocupam 23% das cadeiras e, nesse ritmo, logo chegam ao terço preconizado pela concepção constitucional da ditadura.

Podendo ultrapassar a margem, chegar, por exemplo, à metade do colegiado, quem sabe até mais, porque não há impedimento legal. Basta o dono da cadeira apresentar uma desculpa qualquer para deixar alguém em seu lugar brincando de senador.

O caso do senador Fernando Collor é emblemático por recente e por mostrar que nem a passagem pela Presidência torna o político imune a ligeirezas institucionais.

Eleito em 2006, Collor tomou posse em 2007 e, de lá para cá, já tirou duas licenças. Na primeira, para “fazer palestras”, assumiu o primo, Euclides Mello. Agora, na segunda vez, outra prima, Ada Mello, brincará de senadora por 90 dias enquanto Collor trabalha como cabo eleitoral do filho no interior de Alagoas.

Como ele, muitos outros jogam os votos recebidos no lixo, dão de ombros à legitimidade invocando a escora da legalidade e deixam a democracia se estuporar.

Foice no escuro

O ministro da Justiça, Tarso Genro, achou “desnecessária” a prisão do delegado Romero Menezes, diretor-executivo da Polícia Federal, mas dirigiu a crítica só à decisão do Ministério Público.

Talvez porque o cargo o impeça, o ministro não apontou nada de anormal na maneira como a ordem de prisão foi executada. Esta sim, com um dispensável e inusitado quê de espetáculo. Peças bem menos importantes nas estruturas de poder recebem tratamento mais fidalgo na forma de um aviso para afastamento a pedido. Os procuradores não têm nada a ver com a produzida cena de valentia, fruto do embate interno na PF.

Mares navegados

Fora do páreo, Paulo Maluf se destaca na eleição paulistana no papel de renegado e virou, por si, uma “denúncia”. O PT explora suas antigas relações explícitas com os adversários, mas não está livre de algum deles, amanhã ou depois, resolver lembrar acordos eleitorais tácitos feitos no passado.

Em momentos, por motivos e de maneiras diferentes, todos eles fizeram o circuito do malufismo.

Gilberto Kassab foi secretário de Planejamento na gestão Celso Pitta, hoje faz de conta que não foi, mas, se a guerra enveredar por aí, o saldo mais alto na conta dos constrangimentos é do PSDB.

O partido, não o candidato Geraldo Alckmin, vice de Mário Covas quando uma decisão da cúpula nacional produziu a imagem mortal: o então presidente Fernando Henrique em outdoors espalhados por São Paulo inteira lado a lado com Maluf, oponente de Covas que suava para se reeleger governador.

Alckmin na época foi vítima, mas hoje seria complicado condenar a decisão partidária porque se apresenta ao eleitor como o legítimo portador do estandarte PSDB.

A AIG, o rolo e o Titanic


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - Se Antonio Delfim Netto se anima a escrever, como o fez ontem, que "a situação da economia americana continua extremamente confusa", o que posso acrescentar?Poderia relembrar que faz alguns séculos que escrevo neste espaço que o cassino em que se transformou o capitalismo precisava de regulamentação. Agora, todo o mundo diz a mesma coisa, até os dois candidatos presidenciais nos Estados Unidos, país que tem horror coletivo à intervenções do governo.

John McCain, o republicano, chegou a dizer que foi forçado a aprovar a estatização da AIG porque, do contrário, "milhões de pessoas (...) teriam suas vidas destruídas por causa de ganância excessiva e corrupção [dos gestores]".

A continuar essa marcha batida de estatizações, Hugo Chávez ainda vai substituir o rótulo dado a George Walker Bush. Sai "demônio", entra "companheiro.

Ironias à parte, o tamanho do rolo armado no cassino foi detalhado justamente por Maurice Greenberg, que vem a ser o executivo-chefe da AIG, em entrevista para o "site" do Council on Foreign Relations de Nova York: contou que levaria aproximadamente dez anos para desembaralhar de maneira ordenada os contratos da empresa agora estatizada.

Na era dos contratos em papel, cópia em papel-carbono, até daria para entender. Não muito, mas daria. Com computadores, precisar de dez anos para desatar os nós é confessar um rolo realmente federal.

Resta rezar, como pede candidamente o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, para que não seja verdadeira a previsão do jornal britânico "The Daily Telegraph".Equiparou o que ocorreu nas últimas 48 horas ao momento seguinte à colisão do Titanic com o iceberg.

Os passageiros continuaram brincando no convés, inadvertidamente. Sobraram poucos para contar a história do que viria depois.

Lula vive tormentas em mar tranqüilo


Maria Inês Nassif
DEU NO VALOR ECONÔMICO


O governo Lula há seis anos sobrevive a tormentas nadando em mar tranqüilo. Embora a imagem possa parecer estranha, é a que mais expressa um período histórico em que as crises políticas rodopiam pela superestrutura da sociedade sem contaminar a base social do governo; e a bonança econômica não apenas mantém a base social como impermeabiliza o mercado financeiro, que desde o início do governo Lula não se deixa levar pelas ondas de pânico engendradas no meio político-institucional, nem as alimenta. Por certo, esse período histórico terá que ser estudado a fundo no futuro, pela interessante soma de fatores exógenos e das escolhas feitas pelos agentes políticos. A crise financeira que se abateu sobre os EUA e causa rebuliço em todo mundo pode alterar a equação, mas os seis anos em que ela funcionou não serão apagados facilmente da história.

As escolhas do primeiro governo Lula foram responsáveis em grande parte pela neutralização do mercado financeiro, que alimentou ondas de pânico durante a campanha eleitoral até quase quebrar o país. De início, na era Antonio Palocci, uma política monetária ortodoxa e uma política fiscal apertada conviveram com uma política social mais universalista. O Bolsa Família, pelas suas características, teve grande impacto econômico em comunidades mais pobres e foi um fator dinâmico numa economia contida pela ortodoxia; o mesmo papel desempenhou o crédito consignado. A recuperação econômica começou de baixo, na base da pirâmide. As escolhas feitas pelo governo foram a de manter o status quo do setor financeiro, proporcionando juros reais em altos patamares, e não travar um ciclo de crescimento que se iniciava agora nas camadas mais pobres da população beneficiadas por programas sociais. A era Guido Mantega foi marcada por uma outra solução de compromisso: a mesma política monetária ortodoxa, garantida pela presença de Henrique Meirelles no Banco Central, que convive, todavia, com uma política fiscal mais elástica, que deu um espaço maior para o crescimento econômico e democratizou, de alguma forma, os benefícios de uma economia que antes crescia pouco e beneficiava preferencialmente o mercado financeiro, com juros fartos, e a população de baixa renda. É certo, todas essas escolhas foram ajudadas por uma conjuntura externa benéfica - mas o cenário interno favorável certamente tem se prolongado por conta das decisões de política.

Essa solução de compromisso na economia, todavia, não livrou o governo Lula de uma alta pressão política. O presidente está ilhado na sua alta popularidade de 64% (soma das avaliações ótimo/bom governo), segundo pesquisa Datafolha do último dia 12. A elite política e o quadro burocrático dos poderes da República (que não deixa de fazer parte da elite política) atuam intensivamente como agenciadores de crise e de "explosões de pânico", que são sistematicamente amplificadas e alguns momentos dão a impressão de que têm força suficiente para derrubar a República, para depois sumirem no espaço como bolhas de sabão. Lula tem uma maioria na Câmara obtida com um bloco de partidos inorgânicos e heterogêneos; uma relação de amor e ódio com o seu partido, o PT, que perdeu substância orgânica no governo mas ainda tem força suficiente para não ser considerado imprescindível; é minoritário no Senado e lá lida com uma oposição mais raivosa, que ecoa e alimenta as explosões de pânico; tem no Supremo Tribunal Federal (STF) uma militância exagerada do seu presidente, Gilmar Mendes; lida com uma divisão permanente nos quadros da Polícia Federal (PF), cuja atuação tem ganhado cada vez mais importância institucional.

Ainda assim, não se pode dizer que Lula sobreviva exclusivamente dos bons ventos na economia. O presidente tem um patrimônio político próprio, consolidado nas faixas inferiores de renda. O avanço de Lula sobre esse eleitor se deu na proporção direta do afastamento dessa parcela da população dos chefes políticos locais, que tradicionalmente dependiam desse voto. Houve um descolamento na política tradicional que beneficiou o presidente. Como a luta política se deu intensamente nas instâncias institucionais - um tiroteio constante entre partidos, governo, STF, polícias e mídia - essa população, descolada do político que antes era o agente local da crise, ficou à margem das ondas de pânico geradas pelos atritos entre os poderes e entre os agentes políticos.

Um presidente sobreviver a sucessivas ondas de pânico e, ao final, ostentar 64% de popularidade, é razão suficiente para que se considere esse momento histórico como o mais rico do período pós-democratização. Governistas ou não, petistas ou antipetistas, as pessoas envolvidas na política devem ficar atentas para o fato de que se vive um momento onde as relações sociais com a política estão encontrando outros paradigmas. O país pode encontrar, nesse momento, a oportunidade histórica de romper com tradições políticas que são deletérias e definir outros parâmetros de relação do eleitor com a política. Isso significa que o poder tem que aprofundar o processo de mudança de suas relações com o cidadão; e a oposição, assumir uma relação mais orgânica com seu eleitor. Quando as explosões de pânico não causam pânico, o mais inteligente é privilegiar relações políticas mais racionais. E mais racional entrar na luta política para ganhar o poder pelo voto.

Maria Inês Nassif é editora de Opinião. Escreve às quintas-feiras

Crise pode estar no auge, diz economista

Vera Saavedra Durão, do Rio
DEU NO VALOR ECONÔMICO

O economista e professor do Instituto de Economia (IE) da UFRJ Fernando Cardim, especializado na área financeira, teme que a crise financeira internacional esteja vivendo hoje seu momento mais perigoso. "O risco de quebra da seguradora AIG, a maior do mundo, abre uma frente nova na crise", observa.

Em sua análise, a quebradeira dos bancos de investimento representa perdas para investidores, mas a falência de seguradoras - instituições financeiras que mais negociam os "Credit Default Swaps" (CDS), derivativos que dão proteção ao sistema bancário inadimplência de tomadores - pode deixar os bancos sem proteção.

Ao perceberem que seu hedge não existe mais, os bancos americanos, incluindo os principais - podem contrair violentamente o crédito, até mesmo o crédito ao consumidor que move a economia dos Estados Unidos, abrindo caminho para uma recessão brutal e até mesmo depressão nos moldes da de 1929. "Mas, este é o pior cenário, tudo vai depender da intervenção do governo americano na AIG", diz Cardim.

Para ele, o importante é que as conversas entre a seguradora e o governo já começaram. Mas, como Bush tem baixa popularidade e está em fim de governo, o economista teme que ele não tenha legitimidade para dar a ajuda necessária para socorrer o sistema. "O que seria o pior dos mundos".

O Brasil, no cenário desenhado por Cardim do ponto de vista financeiro, está por enquanto assistindo ao derretimento dos mercados de arquibancada, pois os bancos brasileiros são pouco ou nada expostos a derivativos vendidos no exterior, como títulos "subprimes" e CDS. "A dívida pública, via títulos do Tesouro, paga muito mais que os "subprimes". Afinal, os juros brasileiros são os mais altos do mundo e acabam, nessa hora, servindo de blindagem para a crise".

Para Cardim, o risco de o país ser contaminado pela crise está na área comercial, no déficit em conta corrente. "Se houver recessão lá fora as exportações brasileiras vão encolher. O que dificulta financiar o déficit. E o governo pode ser obrigado a apelar para as reservas num momento de iliquidez dos mercados. É hora do BC definir uma política cambial", diz o pós-keynesiano.

A seguir, os principais trechos da entrevista de Cardim ao Valor.

Valor: O sr. espera uma piora da crise financeira global?

Fernando Cardim: O que estamos assistindo agora no mercado financeiro dos EUA é altamente preocupante. Em menos de duas semanas, após o governo Bush injetar US$ 200 bilhões nas duas casas hipotecárias, quebra o Lehman Brothers, quarto maior banco de investimento local, é vendido preventivamente em apenas dois dias o Merrill Lynch, banco de investimento independente. E, de ontem para hoje, a maior seguradora do mundo, a AIG está ameaçada. Isto abre uma frente nova na crise. As seguradoras são grandes fornecedoras de CDS para os bancos comerciais. [O CDS é um derivativo de crédito que serve como seguro. Quando os bancos fazem empréstimos e o tomador não paga ele recorre à seguradora para recuperar o valor do empréstimo]. Uma quebradeira nas seguradoras pode significar que a segurança do sistema bancário está sem proteção, os bancos estão nus.

Valor: E o que pode acontecer?

Cardim: Se os bancos comerciais perceberem que não têm para onde apelar, que estão sem a proteção que imaginavam, podem partir para uma contração de crédito violenta nos EUA, afetando o crédito ao consumidor (que move a economia americana) e podendo levar a uma recessão brutal até mesmo a uma depressão nos moldes da crise de 1929.

Valor: Na sua avaliação, os Estados Unidos ainda não estão em recessão?

Cardim: Há uma desaceleração visível mas, se houver um choque de crédito duro, em vez de desacelerar, a atividade econômica cairá mesmo na recessão e forçaria uma intervenção do governo em escala maior, que pode não funcionar por conta da paralisia política de um fim de governo e véspera de eleições. A paralisia e falta de legitimidade do governo podem impedir a implantação de medidas mais amplas de sustentação da economia. Este seria o pior dos mundos.

Valor: Mas o Tesouro americano já não está conversando com a AIG?

Cardim: Ainda bem que isto já está acontecendo. O Tesouro sabe dos riscos que o mercado financeiro está correndo se a AIG for pelo ralo. Por isso acho que este é de longe o momento mais perigoso da crise.

Valor: Os grandes bancos brasileiros não trabalham com derivativos externos?

Cardim: Nos títulos "subprime" os bancos brasileiros não têm nada. Eles não compram estes ativos, pois a dívida pública, no caso os títulos do Tesouro (LTNs), paga mais que os "subprimes". A atividade principal dos nossos bancos no exterior é administrar fundos "off-shore" [recursos de terceiros] no Caribe, por exemplo. Os derivativos vendidos pelos bancos americanos atraem muito os bancos europeus, que os adquirirem para aumentar suas receitas, mas no Brasil os bancos não fazem este tipo de negócio porque os juros são tão altos que não precisam buscar investimentos lá fora. Por incrível que pareça, a combinação perversa de real valorizado e juro alto está protegendo o sistema bancário local da turbulência externa.

Valor: De onde pode vir algu- ma contaminação da turbulência global?

Cardim: O risco a que estamos mais sujeitos é o risco comercial. Uma contração mais grave da economia dos Estados Unidos pode levar nossas exportações a perder demanda (física). Já estamos com um déficit em conta corrente de US$ 17 bilhões no primeiro semestre. Ele está crescendo rapidamente. Quanto mais a economia crescer, mais este déficit vai crescer por conta das importações. O Brasil combate o déficit se endividando. Com contração de crédito externo fica difícil captar, vamos ter que apelar às reservas para reduzir o déficit, o que reduz nossa proteção. É hora de o BC definir uma política cambial como parte do nossa arsenal de defesa contra a crise. Se não temos esta política, o câmbio fica exposto às turbulências e pânico dos mercados. O risco do Brasil é por aí. Do lado financeiro em si a exposição dos bancos brasileiros é pequena e o peso dos bancos estrangeiros no país é muito reduzido. O mercado de capitais ainda é pouco expressivo e muito atrelado às bolsas externas, por isso sofre tanto. Mas não chega a ser dramático, as perdas das empresas podem ser compensadas pelo BNDES. Na hora em que tudo treme, como ocorre hoje nos EUA, o Estado é quem salva.

Lessa vê crise profunda e Brasil sem salvaguardas

Mair Pena Neto
DEU NA REUTERS


RIO DE JANEIRO - Ex-presidente do BNDES, o economista Carlos Lessa traça um perfil sombrio para os efeitos da crise financeira sobre o Brasil e acha que o país não tem instrumentos para se proteger.

"O Brasil vai entrar pelo cano porque não possuimos salvaguarda nenhuma. Os 200 bilhões de dólares (em reservas internacionais brasileiras) que o Meirelles (presidente do Banco Central) bate no peito são pó em relação ao tamanho da crise que está se avizinhando", disse Lessa à Reuters.

Para ele, o Brasil só conseguiria reter a parte de capitais de curto prazo elevando a taxa de juros, mas a situação externa vai puxá-los para fora do país.

Lessa acha que a atual crise reproduziu em escala mundial o que aconteceu no Japão nos anos de 1990, quando a acumulação financeira se baseou em valores inflacionados dos imóveis que não se sutentaram. "Isso gerou uma crise imobiliária de proporções colossais. Os imóveis mais caros do mundo viraram pó. Até hoje o Japão não se recuperou desse golpe", afirmou.

Segundo ele, o que aconteceu nos Estados Unidos foi parecido. O ganho financeiro se remunerou sem a correspondente geração de economia real, rompendo os limites do jogo econômico.

"Se a economia real caminha separada da acumulação financeira, como aconteceu lá e no Japão, você estabelece uma precariedade na construção e chega um momento em que ela cai."

BOLHINHA E BOLHONA

A extensão da atual crise é difícil de prever, na opinião de Lessa, mas sugere ser muito mais profunda do que se imaginava.

"De qualque maneira virá um novo período de estagnação mundial, o que para o Brasil é muito ruim", avaliou, apontando a falta de um projeto nacional de desenvolvimento para compensar a dificuldade externa.

Para Lessa, o mínimo que vai acontecer ao Brasil será a inflação, já que a taxa de câmbio foi o principal instrumento para combatê-la.

"Na hora em que o jogo financeiro começa a puxar os recursos para fora, a taxa de câmbio se desvaloriza. É o que está acontecendo, o real já está se desvalorizando ante o dólar", citou Lessa. Ele ressaltou a ironia de a moeda brasileira estar se desvalorizando perante o dólar, "que está à beira do crack", quando a economia norte-americana vai mal e a brasileira está indo bem.

O ex-presidente do BNDES no primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva alertou para a criação de uma bolha de crédito no Brasil que pode estourar se a economia deixar de crescer.

"Um carro é financiado em 90 prestações baseado em que as pessoas pagarão se a economia crescer. Mas se não crescer e houver desemprego, não pagarão", advertiu.

O economista considera insustentável subordinar o crescimento econômico ao endividamento em massa das famílias. "A dívida das famílias só é um bom ativo para os bancos se elas continuarem a ter renda. A situação é similar à bolha de crédito imobiliário norte-americano. Só que a nossa é uma bolhinha e a deles é uma bolhona."


"O governo brasileiro precisa ser responsável" (FHC)

DEU NA GAZETA MERCANTIL

"Eu nunca vi nada igual". Os desdobramentos da crise econômica nos principais mercados do mundo, que a cada novo acontecimento evidenciam tons cada vez mais sombrios, mostram que o Brasil, como todo o resto do globo, não tem como passar incólume. Na avaliação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o País está hoje em melhores condições do que nas crises anteriores, "mas não pode haver descuidos". E aproveitou para alfinetar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, para quem a economia brasileira está blindada.

"É um momento delicado, o governo precisa ter responsabilidade e gastar menos, não dá para falar que não seremos afetados", disse, dando como exemplo a bolsa brasileira, que ontem voltou a registrar uma queda de 6,74%, acompanhando a tendência dos mercados mundiais. No ano, a Bovespa acumula queda de quase 30%.

Ainda na avaliação do ex-presidente, que participou ontem do Programa do Jô Soares, da Rede Globo, a falta de crédito internacional preocupa, principalmente por afetar os investimentos. "O BNDES está sobreemprestado, quem precisar de dinheiro agora terá dificuldades, ninguém está emprestando nada para ninguém."

Quanto sobre de quem é a culpa, FHC vai com a maioria: o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush e o ex-presidente do Federal Reserve, Allan Greenspan "e todos aqueles que deveriam fiscalizar e não fiscalizaram".

Segundo ele, o governo Bush foi fiscalmente irresponsável, elevando o total da dívida em 6% do PIB norte-americano. "A crise atual é resultado da exuberância irracional", disse. "Bush finge que não é com ele, aliás não é só ele que faz isso", ironizou, noutra alfinetada a Lula.

Ele destaca o fato de o governo norte-americano e os bancos centrais europeus estarem socorrendo instituições financeiras quebradas, diferença crucial em relação à crise de 1929. "Contando EUA e Europa, foram jogados nos mercados financeiros mais de US$ 1 trilhão, praticamente o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil".

FHC declara-se surpreso com o fato de o candidato democrata Barack Obama não estar disparando nas pesquisas de intenções de voto, diante da crise republicana.

"Acho que é por causa do racismo do norte-americano", disse, acrescentando, no entanto, que agora, com o arrefecimento da situação econômica, o debate em torno da sucessão nos EUA deverá ficar mais sério. "Vemos um governo republicano estatizando, acho até que ele não fez isso intencionalmente".

Para Conceição, Brasil tem "baixo risco real"

Catherine Vieira, do Rio
DEU NO VALOR ECONÔMICO

Tentar crescer na defensiva será o desafio para os países a partir de agora, na visão da economista Maria da Conceição Tavares. Ela diz que embora exista um colapso do crédito externo, o Brasil está numa posição privilegiada e defende que há e continuará existindo recursos internos para financiar os investimentos, que podem chegar a uma taxa de 21% em 2010. "Nosso mercado não depende de dólar e isso é uma novidade. Não nos ocorreu nunca na história do Brasil. Hoje somos um país de baixo risco real, o que é raríssimo", disse.

Para Conceição, por ironia e porque o país está numa fase de "muita sorte", a política econômica dos ortodoxos acabou fazendo um favor ao país. "Foi por conta desses juros altos que nossos bancos não se aventuraram nessas trapalhadas todas nas quais os bancos estrangeiros embarcaram e que agora estão gerando esse colapso", afirmou.

Segundo a economista, os recursos públicos e da poupança forçada dos trabalhadores, que dão lastro aos financiamentos de bancos como o BNDES, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil, são robustos. "O emprego e a formalização estão aumentando, então é provável que os fundos de pensão dos trabalhadores cresçam e nenhum deles se meteu nessas aventuras em que os americanos se meteram", disse. "Os recursos fiscais também crescem a medida que o país cresce e investe, o que eleva o autofinanciamento", completa.

Para ela, é provável que as proporções de origens dos recursos internos fiquem semelhantes, com o auto-financiamento em 50%, a poupança forçada dos trabalhadores em 30% e os recursos fiscais com o restante. "Tudo isso está aqui no mercado nosso", afirma.

Nesse cenário, Conceição, que participou do lançamento do segundo número da publicação "Memórias do Desenvolvimento", do Centro Internacional Celso Furtado, concordou com a projeção feita pelo superintendente do BNDES, Ernani Torres, de que a taxa de investimento vá chegar a 21% do PIB em 2010. "Mas não é para passar muito disso não, não me venham com essa taxa de investimento chinesa", ponderou. Para ela, "taxas muito altas acabam mal, como ocorreu na Rússia".

De bom humor e "em casa", ela fez a alegria da platéia que a assistia ontem, num auditório do BNDES, com suas análises e tiradas. Para Conceição a crise atual nasce da excessiva falta de regulamentação do mercado dos EUA, que ganhou força a partir da década de 90 e avalia que, no cenário atual, os Estados Unidos não são mais o país hegemônico.

"Pode ser ainda dominante, o dólar ainda pode ser a referência, mas a hegemonia acabou, eles dizem "A", os chineses dizem "B" e outros dizem "C". Eles não exportam mais seu modelo de mercado para o mundo como ocorreu antes", disse, notando que, apesar das ações do Fed, a crise segue seu caminho. "O mundo vai ter agora uma multipolaridade e não é uma novidade, o capitalismo já viveu muito tempo sem hegemônicos".

Ela defende que os liberais continuarão existindo, mas não ditarão as regras absolutas. "Vamos voltar a ter uma etapa mercantilista, para mim está claro. A etapa liberal já estourou, acabamos de chegar ao fim da dita", afirmou. "A idéia da ordem mundial, era bom vocês esquecerem. Vamos viver um belíssimo período de uma grande desordem."

'Brasil viveu bolha que agora se esvazia' (Juan Pablo Fuentes)

Juliana Rangel
DEU EM O GLOBO

Responsável pela cobertura da América Latina no site Economy.com, braço de análise da agência classificadora de risco Moody"s, o economista Juan Pablo Fuentes diz que o "Brasil viveu uma pequena bolha, na época de bonança, que agora se esvazia". Ele prevê um 2009 mais difícil, mas nada como uma crise.

Como o senhor avalia a intervenção do Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) na AIG? Os mercados reagiram mal...

JUAN PABLO FUENTES: Sem nenhuma empresa privada disposta a ajudar, o Fed não tinha saída a não ser resgatar a AIG. O problema é que essa ação ressaltou a gravidade da crise.

A Bolsa, no Brasil, já caiu 28% no ano, mais que Dow Jones, Nasdaq e outros mercados americanos e da América Latina. Por quê?

FUENTES: Não há nada de errado com o Brasil. Este movimento de venda a que estamos assistindo é global. A única razão para a Bovespa estar caindo mais rápido é que, no período de bonança, também subiu mais. A Bovespa ainda tem ganhos de 44% (em dólar) na comparação com o fim de 2005, e o Dow tem alta de apenas 1%. A Bovespa viveu um pequeno período de bolha, agora está se esvaziando.

Em quanto tempo a Bolsa se recupera?

FUENTES: Não esperamos uma correção muito severa, apesar de acharmos que os mercados não chegaram às suas mínimas. Assim que as coisas se estabilizarem, as ações no Brasil irão subir aos poucos, mas não antes de 2009.

Qual é a melhor forma de os brasileiros lidarem com a crise?

FUENTES: Com a alta dos juros no Brasil, os títulos do governo parecem uma boa opção para investidores locais. Eles devem ter em mente que o movimento de venda na Bovespa é causado por investidores estrangeiros que estão fugindo de ativos mais arriscados. Eles não distinguem o Brasil do Chile ou do México. Para eles, todos são emergentes e, conseqüentemente, oferecem maior risco. Já os brasileiros devem lidar com isso de forma diferente, pois entendem melhor a economia do país.

O diretor do FMI Dominique Strauss-Kahn disse que esta crise não tem precedentes...

FUENTES: Essa realmente é uma crise sem precedentes. Em 2001, o que aconteceu, foi uma leve recessão. A crise atual tem características similares à de 1929, mas não deverá provocar uma depressão como a de 1929.

O crescimento dos países da América Latina ficará comprometido?

FUENTES: A região continua com força, em sua maior parte. O crescimento de países como Brasil, Chile e Peru continua surpreendentemente robusto. As más notícias: o cenário externo está se deteriorando muito rápido. Isso vai pôr muita pressão sobre a América Latina, já que os preços das commodities vai cair e a demanda externa também. Adicionalmente, o custo de financiamento para a região vai subir. 2008 será ainda bom ano para a região e para o Brasil, em particular. O de 2009 será mais difícil. Mas não estamos prevendo uma crise.
O ministro Mantega disse que, se fosse alguns anos atrás, o Brasil agora estaria de quatro. O senhor concorda?

FUENTES: Absolutamente. O Brasil está em excelente forma para encarar a turbulência atual dos mercados. Mas o desafio será muito maior nos próximos meses.

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1090&portal=

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Populismo na crise


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO

NOVA YORK. A crise que tomou conta da economia americana está transtornando a campanha eleitoral, sem que os dois candidatos principais tenham condições de dar respostas consistentes aos desafios que terão pela frente, se eleitos. O candidato democrata Barack Obama conseguiu, não por ação própria, tirar da sua frente a vice republicana Sarah Palin e reverter o ambiente político a seu favor. Mas, além de culpar a administração Bush e, por osmose, McCain, pela crise, não tem nenhum plano consistente para apresentar ao eleitor, a não ser a promessa de corte de impostos para a classe média. Como seu vice, senador Joe Biden, foi escolhido para preencher uma falha sua na política externa, não há ninguém na campanha para ajudá-lo em outro ponto fraco, a economia.

Mais uma vez a senadora Hillary Clinton é lembrada como uma alternativa mais útil à candidatura Obama neste momento de crise econômica. Ela, colada ao sucesso do governo do marido Bill Clinton na rearrumação da economia, já havia se mostrado durante as primárias mais efetiva ao lidar com aspectos da crise imobiliária do que Obama. Embora tenha tido acessos de populismo econômico, ao defender a redução do preço da gasolina durante o verão, tendo sido criticada por Obama.

O candidato republicano John McCain já havia confessado durante as primárias que não entendia muito de economia, e tinha para orientá-lo Phill Graham, um economista defensor radical da desregulamentação da economia, a ponto de ter criado um problema político para a campanha, ao acusar os cidadãos americanos de terem se transformado em um bando de "choramingões" no início da crise imobiliária.

O comentário acabou obrigando-o a sair oficialmente da campanha, mas há informações de que ele continua tendo voz ativa na parte econômica. Como Sarah Palin não preenche esse espaço vazio na campanha - ela preencheu outros, especialmente na direita fundamentalista dos republicanos -, resta a McCain tentar reinventar-se.

E ele está usando surpreendentemente um tom populista que nada tem a ver consigo, e nem com o Partido Republicano. Há exemplos de candidatos a presidente que escolheram Wall Street como o grande inimigo, mas geralmente são democratas.

Franklin Roosevelt, assumindo em meio à Grande Depressão, criticava os "inescrupulosos trocadores de dinheiro", e Harry Truman, assumindo o governo com a morte de Roosevelt, seguiu na mesma batida acusando "os sanguessugas que têm escritório em Wall Street".

Buscando ficar longe de George W. Bush, especialmente no que se refere à economia, McCain tem se ligado a outros republicanos que tiveram mais sucesso a seu tempo, como Ronald Reagan.

Ou então outro Roosevelt, o Teddy, seu grande herói que, paradoxalmente, tornou-se o presidente mais novo dos Estados Unidos, ao assumir o cargo aos 42 anos, com a morte de William Mckinley. McCain será, aos 72 anos, o presidente mais velho, caso seja eleito.

Mas ele se vê refletido na imagem de independente de Roosevelt, um verdadeiro "maverick". Mas a linguagem de McCain sobre a crise financeira de Wall Street não se encaixa em nenhum manual republicano, e abre imensas incoerências em sua campanha, a começar por ele próprio, que nunca antes tivera nenhum tipo de atitude no Congresso a favor de uma regulamentação mais dura no mercado financeiro.

Quando ele se refere aos "gatos gordos" de Wall Street, que saem dos empregos com os bolsos forrados de dinheiro por pacotes de indenizações milionárias de empresas falidas, ele finge esquecer que uma de suas principais assessoras econômicas é Carly Fiorina, que saiu com U$42 milhões do cargo de CEO da empresa de informática Hewlett Packard.

Os dois candidatos, aliás, têm problemas em tratar do assunto, já que estão sendo regiamente financiados por empresas de Wall Street, embora de maneira indireta, devido às regras da eleição americana que impedem que empresas financiem diretamente candidatos. O ex-CEO da Fannie Mae, Jim Johnson, foi um dos responsáveis pela escolha do vice do Obama.

De acordo com diversos levantamentos, empresas de investimento doaram milhões de dólares para ambas as campanhas.

Empregados da Merryl Linch e seus familiares, o banco que foi vendido antes de quebrar para o Bank of America, doaram cerca de U$300 mil para a campanha de McCain, mais de U$100 mil do que doaram a Obama, de acordo com o Centro de Política Conseqüent, uma ONG independente. Já os empregados do Lehman Brothers, antes de quebrar, haviam doado três vezes mais para a campanha democrata.

A vitória dos democratas nas eleições congressuais, após a reeleição de Bush em 2004, foi marcada por acentuados tons populistas, que nos EUA tem mais a ver com uma certa irresponsabilidade fiscal, uma política fiscal mais frouxa, gastar mais e tributar mais.

A primeira coisa que os republicanos fazem ao chegar ao poder é cortar imposto dos mais ricos, enquanto os democratas procuram oferecer isenções de impostos para a grande classe média americana.

Os democratas teriam competido como verdadeiros "populistas econômicos", e foram muito criticados por deixarem que o populismo superasse a ideologia. Nesta fase da campanha presidencial, quem está tentando atuar como populista econômico é o candidato republicano John McCain.

Está transformando sua candidatura num monstro disforme, que aceita o fundamentalismo religioso e o populismo econômico.

Ele disse certa vez que preferia perder a eleição a perder uma guerra por seu país. Nesta reta final, está mostrando que faz tudo para vencer a eleição presidencial.

O popular Lula


Zuenir Ventura
DEU EM O GLOBO

Todas as tentativas de explicar a popularidade de Lula têm recorrido à sociologia, e fracassaram. Talvez seja hora de tentar a psicologia. Em vez de sócio-análises, psicoanálises. Por que não consultar os entendidos em alma coletiva, os que conhecem os mecanismos de afinidade e identificação, os mistérios do carisma? O que não se pode mais é desqualificar o seu sucesso, alegando, como faziam antes muitos inconformados, que tudo se devia à ignorância das classes baixas, aquela gente mal informada que não lia jornal e, portanto, não dispunha de sentido crítico. E que, além do mais, vivia do Bolsa Família.

O que dizer agora da última pesquisa do Datafolha? Além de mostrar uma aprovação recorde em todas as regiões do país - 64% de ótimo/bom, quando há seis meses era de 55% - o levantamento traz uma novidade: a adesão dos mais ricos e dos mais escolarizados. Os primeiros eram 43% em março último e hoje são 57%; os segundos pularam de 47% para 55%.

Li várias declarações de oposicionistas. Um atribuiu o fenômeno à consolidação de projetos como o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento); outro alegou o fato de o presidente estar permanentemente em campanha. Um terceiro citou o crescimento de 6% do PIB no primeiro semestre, um quarto, a estabilidade econômica. É possível que seja um pouco de tudo, mas será só isso? Houve quem dissesse que a cooptação da elite é passageira, vai terminar quando a crise financeira dos EUA chegar ao Brasil. E houve até quem decretasse, como o senador Sérgio Guerra, presidente do PSDB, que "a oposição no Brasil foi revogada, saiu de moda", quando na verdade o que perdeu sentido foi essa oposição sistemática e implicante, incapaz de reconhecer seus erros, e muito menos os acertos do adversário. Que gosta de polemizar com o sucesso alheio e acha mais divertido gozar os tropeços gramaticais e as metáforas do presidente do que admitir seu extraordinário poder de comunicação. Lula é popular pelo que faz, mas também pelo que diz e pelo que é.

A interpretação mais original foi a do líder do PSDB na Câmara, deputado José Aníbal. Ele descobriu que o alto prestígio do presidente se deve à "sorte" - sorte de terem aparecido novas reservas de petróleo. "O povo está achando que a descoberta do pré-sal é a solução de todos os problemas e põe isso na conta do Lula", reclamou. Aníbal parece não ter percebido o risco de sua tese estimular a crença de que a sorte está do lado de Lula, não da oposição, que, em conseqüência, seria azarada. Num país em que as pessoas têm horror a pé-frio, imagina se corre a lenda de que Lula é pé-quente e nele nada de ruim cola, a exemplo dos escândalos do seu governo. Sua popularidade só tenderá a crescer. Assim, com a oposição ajudando, ele vai acabar elegendo até um poste, como já se diz hoje.

Na curva do Tietê


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O fundo do poço, na política, tem mola. Já devolveu à luz muita gente dada como perdida, ejetou o presidente Luiz Inácio da Silva incólume da crise do mensalão e, apenas por essa peculiaridade, seria precipitado vaticinar que o PSDB chegou lá para ficar.

Talvez o eleitor não tenha entendimento tão rigoroso a respeito do que se passa com os tucanos na eleição municipal de São Paulo, mas certamente há de ter uma sensação de estranheza diante de um partido que escolhe brigar consigo mesmo na eleição municipal mais importante do País.

Isso às vésperas de uma campanha presidencial em que esse partido terá de enfrentar os 64% de aprovação popular do presidente Lula, com a pretensão de lhe arrebatar a prerrogativa de eleger o sucessor.

Trata-se de dar conta de um recado gigantesco, qualquer um percebe a olho nu. Qualquer um menos as experientes e aparentemente alfabetizadas excelências da matriz do tucanato. Cegas e surdas às óbvias conseqüências do engalfinho em que se enfiaram na disputa pela Prefeitura de São Paulo, nessa altura dariam sorte se ficassem mudas.

Pelo menos teriam uma chance de não destruir por completo todos os argumentos para convencer o eleitorado brasileiro a dar a era Lula por encerrada a partir de janeiro de 2011.

No momento, o PSDB está enterrando seu discurso para a campanha presidencial na curva da eleição paulistana. E o problema não é o que o candidato oficial do partido, Geraldo Alckmin, diz do postulante no paralelo, Gilberto Kassab, muito menos o que ambos falam a respeito da oponente petista, Marta Suplicy.

Aliás, nada soa mais falso hoje na boca de um correligionário de Alckmin ou de Kassab que a assertiva sobre o PT ser “o verdadeiro inimigo”. Marta, no máximo, é uma adversária.

O xis da questão está nas incongruências autodestrutivas do PSDB. Não interessa quem cometeu o pecado original: se Alckmin ao insistir na candidatura, se José Serra ao não fazê-lo desistir, se as inteligências partidárias ao deixarem as coisas correrem frouxas, por inércia ou atrito de ambições.

Importa o resultado. E este expõe o seguinte cenário: o candidato oficial do PSDB bate pesado na administração comandada de fato pelo mais provável candidato do partido à Presidência e elogia o presidente do qual o partido se diz opositor.

Uma amostra recente do horário eleitoral de São Paulo é suficiente. No programa propriamente dito, Alckmin aponta como exemplos da terra arrasada patrocinada por Kassab a Saúde e a Educação, duas pastas ocupadas por tucanos; no comercial, o candidato critica o PT, mas ressalva: “Lula, tudo bem”.

Ora, se com “Lula, tudo bem”, se com a máquina da prefeitura administrada pelo PSDB tudo vai mal, se o partido se deixa conduzir sem reclamar (por tolice ou oportunismo) ao terreno do adesismo, é de se perguntar: qual razão teria o eleitor para discordar?

E assim vai o PSDB gastando patrimônio com bobagem, fechando os poucos espaços abertos ao contraditório, deixando órfão o eleitorado divergente.

Por nada

Nas altas esferas tucanas há quem aconselhe o governador José Serra a fazer uns agrados a Minas Gerais. Não ao mundo oficial nem ao exclusivamente social; mas a uma esfera intermediária, representativa (pelo menos supostamente, na visão paulista) do “espírito mineiro”.

Uma idéia seria Serra visitar Itamar Franco para dizer muito obrigado pelo que o ex-presidente fez em prol da entrada dos medicamentos genéricos no mercado.

“Ele não fez nada”, acrescenta o conselheiro, lembrando que agradecer também não custa nada e para um candidato fica muito simpático.

União civil

Em vias de perder o controle sobre a cidade do Rio de Janeiro, o DEM não está nem aí para a derrota da deputada Solange Amaral, candidata do prefeito Cesar Maia.

Se título de eleitor carioca tivesse, gente poderosa do partido presidido por Rodrigo Maia (deputado federal, filho do prefeito) confessa: votaria sem pestanejar em Eduardo Paes, candidato do governador Sérgio Cabral.

Nada, porém, na vida ocorre por acaso. Cria política de Cesar, ex-secretário-geral do PSDB, Paes foi ungido ao posto sob a proteção de José Serra e hoje está no PMDB, cuja adesão à candidatura Gilberto Kassab incluiu compromisso de apoio a Serra em 2010.

Acerto por ora restrito à seção paulista do partido.


Eduardo Paes é amigo do peito de Aécio Neves, um evidente espelho para o dândi que Sérgio Cabral resolveu incorporar depois de anos à procura de um modelo.

Em trajetória descendente no Rio - eleitoral e partidariamente falando -, o PSDB quer entrar na campanha presidencial com um patrimônio não muito inferior a 30% dos votos.

No início apostou no apoio a Fernando Gabeira, mas já está convencido de que peixe na quantidade necessária só dá no mar do Palácio Guanabara.

Um copo pela metade


Nas Entrelinhas :: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

Forte no jogo político pelo alto, Dilma tenta se tornar uma candidata robusta na base, o que não aconteceu até agora. É aí que entra o marketing

A grande popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cujo governo atingiu 64% de avaliação positiva (bom e ótimo), é um assunto fora de discussão. O mesmo não acontece com a possibilidade de transferir esse prestígio para a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), na sua sucessão em 2010. É como um copo pela metade. Os governistas dizem que está quase cheio; a oposição, quase vazio. Que variáveis podem de fato encher ou esvaziar o copo de Dilma? São sobretudo três: o cenário econômico, a política de alianças e a pegada eleitoral da candidata.

A estratégia

Para o diretor-presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, o copo está quase vazio. Ele não acredita na possibilidade de Lula transferir seu prestígio para Dilma. “Lula tem uma trajetória única. Escapou de morrer de fome no Nordeste, viajou de pau-de-arara para São Paulo, foi engraxate, perdeu um dedo no torno mecânico, comandou greves quando ninguém vazia isso, foi preso pela ditadura, fundou um partido, disputou e perdeu três eleições para presidente da República e venceu duas”, resume. Qual a ligação de Dilma com a história de Lula? Quase nenhuma. Isso significa que ela não tenha uma biografia política? É claro que não. Mas tem uma história diferente, é a jovem estudante que virou guerrilheira, foi presa e torturada, cuja maior proeza foi “expropriar” o cofre do ex-governador paulista Ademar de Barros, criador do “rouba mas faz”. Sua militância política nem de longe será capaz de produzir um carisma semelhante ao de Lula.

Como, então, encher o copo de Dilma? Primeiro, garantindo um cenário econômico que lhe seja favorável, com a inflação sob controle, o país crescendo, os programas sociais aos mais pobres e grandes obras para todo lado. Tal cenário favoreceria o continuísmo, o desdobramento da gestão de Lula com a eleição de uma pessoa identificada com suas realizações. Segundo, com a aglutinação das forças políticas que apóiam o governo em torno de Dilma, o que implica em consolidar seu nome nas bases do PT, fazer uma boa amarração com o PMDB e outros partidos aliados e remover a candidatura do deputado Ciro Gomes (PSB). Terceiro, com o marketing político, transformar a executiva da burocracia estatal, perfil de Dilma, na “fazedora de obras” e no trator eleitoral.


As contingências

Com a régua e o compasso do Palácio do Planalto, essa arquitetura pode até dar certo, pois o ambiente é favorável. Mas também pode dar errado. Toda a estratégia sofre fricção, mesmo a bem sucedida. É no seu curso que os obstáculos aparecem. Um problemão é a mudança no cenário econômico. Até aqui, o Brasil tirou de letra a crise financeira norte-americana, mas a situação está ficando cada vez mais estranha. A economia brasileira enfrenta razoavelmente bem a turbulência, mas os prognósticos são de que o país crescerá menos nos próximos anos. Tudo vai depender da China. Se continuar crescendo, o Brasil terá mais chances de manter a economia aquecida.

A segunda contingência é a unidade do bloco governista. O PT reivindica a cabeça de chapa porque é o partido do presidente e sairá das eleições mais robusto. Mas é cedo para falar em uma onda vermelha que varre o país. A cúpula petista espera conquistar as prefeituras de Rio Branco, Porto Velho, Palmas, Fortaleza, Recife e Vitória com facilidade. Porém, terá que suar a camisa para ganhar em Salvador, São Paulo e Porto Alegre. Se conseguir, é o suficiente para impor a candidatura de Dilma aos aliados e remover a candidatura de Ciro Gomes (PSB). Entretanto, isso não significa garantir o apoio do PMDB, partido que gosta de cristianizar os candidatos e apoiar aquele que está ganhando. A legenda tradicionalmente deriva nas eleições de acordo com as conveniências locais de seus caciques.

E falta o principal: combinar com o eleitor. Segundo Montenegro, Lula pode transferir por gravidade de 12% a 15% de intenções de voto para Dilma, não mais do que isso. É o tal copo pela metade. O risco é de uma escolha errada. Forte no jogo político pelo alto, Dilma tenta se tornar uma candidata robusta na base, o que não aconteceu até agora. É aí que entra o marketing político. Se fracassar, por mais incrível que hoje pareça, a oposição terá chances reais de vitória.

Lula nas alturas

Marcos Coimbra
Sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


Com crescente competência, o presidente estabelece uma relação cada vez mais sólida com a pessoa comum, falando como ela, agindo como “qualquer um” agiria

Com a divulgação da mais recente pesquisa nacional do Datafolha, confirmou-se o que era esperado. Lula está nas alturas, com sua popularidade batendo todos os recordes, mesmo os seus, que já eram os mais exuberantes desde quando se começou a pesquisar de maneira sistemática a opinião pública no Brasil.

Há diversas coisas a comentar sobre como chegou à situação atual, em que duas, de cada três pessoas, de Norte a Sul do país, consideram seu governo como “ótimo” ou “bom”. Segundo os dados da pesquisa, as diferenças regionais e socioeconômicas se tornaram quase irrelevantes, ao contrário do que eram faz pouco tempo, quando seu desempenho nas camadas de renda e escolaridade mais altas era significativamente inferior, assim como na Região Sul e nas capitais.

Se chama atenção o tamanho de sua avaliação positiva, é ainda mais notável quão pequena se tornou a negativa. Somando quem é de opinião que seu governo é “ruim” e “péssimo”, chegamos a apenas 8% do total. Menos que um em cada 10 cidadãos brasileiros reprova sua atuação. O que quer dizer que mais de 90% não está insatisfeita com ele.

Ou seja, Lula virou uma espécie de unanimidade nacional.

As razões para isso vêm sendo objeto de especulação faz tempo, ainda quando sua aprovação era menor. Têm a ver com várias coisas. A comparação com seus antecessores (com quem a história tem sido cruel) e as expectativas não muito elevadas que a população tinha a respeito de seu governo são duas.

O bom momento que a economia brasileira vive é outra, de evidente relevância para explicar essa aprovação. Para muitos especialistas, o momento poderia até ser melhor, se o governo agisse de forma diferente. Mas, para o cidadão comum, o mais importante é que poderia ser pior, como, aliás, foi nos vários últimos anos. A conjugação de mais oportunidades de trabalho com mais acesso ao consumo, mesmo em patamares relativamente modestos, é infalível para levantar a popularidade de qualquer governo.

Há, ainda, muita coisa que o governo faz que recebe a aprovação das pessoas, especialmente de pessoas de renda menor (mas não apenas delas). Quase todas integram a política social, com o carro puxado pelo Bolsa Família, englobando ações na educação e no apoio a comunidades carentes em regiões pobres.

Salvo elas, as pesquisas disponíveis mostram que a avaliação do governo, área por área, nunca alcança os níveis que tem no conjunto. Uma a uma, as notas que recebem as diversas políticas são sempre menores que a do governo como um todo. Em outras palavras, o todo é maior que a soma das partes.

É porque, na avaliação do governo, as pessoas avaliam também o próprio Lula. Com crescente competência, ele estabelece uma relação cada vez mais sólida com a pessoa comum, falando como ela, agindo como “qualquer um” agiria. Assim, afasta tudo de negativo (até mesmo os erros de seu governo, como a crise de infra-estrutura que vivemos) e se apropria do que é positivo (até mesmo coisas para as quais sua contribuição é pequena, como as descobertas de petróleo).

Conjunturalmente, a isso se soma que Lula se beneficia muito do período eleitoral que vivemos. Com sua popularidade nas alturas, ninguém o critica e legiões de candidatos lutam para se identificar com ele. Sem exagerar, pode-se dizer que Lula tem, hoje, uns 20 mil cabos eleitorais espalhados pelos 5.800 municípios brasileiros, contando apenas os candidatos a prefeito.

Isso é bom? Não haver, para todos efeitos, oposição, faz bem a um país? Ou é melhor que ela exista, para fazer com que o governo ande mais depressa e chegue logo aonde precisa chegar.

Tomara que, assim que passem as eleições, as oposições retomem seu papel.

Na expectativa da onda vermelha


Rosângela Bittar
DEU NO VALOR ECONÔMICO


Nas eleições municipais de 2004, portanto antes de estourar o escândalo do mensalão, que desnudou e desestabilizou o partido, o PT fez a previsão de que elegeria mais de mil prefeitos em todo o país. Anunciou a meta e correu para conquistá-la, mas acabou ficando em menos da metade. Os pouco mais de 400 prefeitos eleitos, que representavam, na verdade, uma conquista extraordinária do partido, pois lograra dobrar as prefeituras que possuía à época, transformaram-se em um resultado frustrante. O partido saiu da eleição como se tivesse sido derrotado. Esta inversão de expectativa é o que o PT quer evitar na disputa municipal de 2008.

Por isto, não quer e não está falando em metas e números, mas as tem, sim, e espera, no mínimo, varrer o país com sua onda vermelha. Novamente a marca das mil prefeituras é um objetivo, e desta vez, para atingi-lo, o caminho foi traçado detalhadamente, apesar das negativas.

Na segunda-feira, o Grupo de Trabalho Eleitoral do PT fez uma análise parcial do desempenho até aqui e chegou à conclusão de que o partido vai muito bem nesta campanha. Um dos integrantes da cúpula partidária define, revelando a euforia que em público todos tentam conter, o que lhes vai ao pensamento: "O PT vai ter um sucesso absoluto".

E este êxito se deve não a uma só estratégia, mas a uma combinação de várias delas, analisadas por integrantes do comando da legenda. A quebra do tabu das alianças foi uma delas. Ainda há muitas cidades estratégicas onde o PT radicalizou sua velha posição de não ceder postos a aliados, mesmo que melhor posicionados, mas a regra geral não foi esta. No Rio, por exemplo, o partido não quis dar apoio à candidata Jandira Feghali, do PCdoB, e ficou com o seu candidato, Alexandre Molon, isolado e amargando um constrangedor sexto lugar na preferência do eleitorado.

Em Porto Alegre, a candidata petista Maria do Rosário acaba de ser ultrapassada por Manuela D"Ávila, do PCdoB, e o partido não admitiu, ali, em nenhum momento, somar seu eleitorado para eleger facilmente um aliado. Em Goiânia, a decisão de aliar-se ao PMDB, ficando este partido na cabeça de chapa, foi sofrida e aprovada no diretório por apenas um voto de diferença. Em Belo Horizonte, se o prefeito Fernando Pimentel (PT) não se rebela contra a decisão da cúpula, estaria o PT fora da chapa do candidato Márcio Lacerda, do PSB, que parece ter plenas condições de vencer no primeiro turno.

No interior do país houve também muitas exceções à nova postura sobre alianças. Agora, já às vésperas da votação, por exemplo, ainda tem petistas impugnando alianças do partido que há meses fazia campanha em coligação com legendas com quem divide o governo federal, tirando as chances suas e dos aliados. Na cidade goiana de Formosa, a 80 quilômetros da sede nacional do partido, nas vizinhanças do Distrito Federal, o PT forçou o PR, esta semana, a mudar o candidato a vice-prefeito porque decidiu sustentar candidatura própria.

Esta reincidência no isolamento partidário, segundo avaliações da cúpula, não é, porém, a tônica desta eleição. Seria possível contar os municípios onde o PT lançou sozinho um candidato, ou que o PT saiu só com os aliados de esquerda. O PT considera que está, nesta campanha, mais junto com a base do governo do que jamais esteve.

A segunda estratégia que, esta sim, tem se revelado arrasadora para os adversários do partido é que o PT descobriu-se destinatário principal do prestígio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e está conseguindo colar sua imagem à de Lula. As avaliações mostram que Lula, não necessariamente, transfere sua popularidade para o partido, razão pela qual todos os candidatos de siglas da base de apoio ao governo federal exploram a proximidade com o presidente. Mas o PT está sabendo explorar bem o fato de ser o partido do presidente e, em localidades absolutamente essenciais ao conforto político de Lula, ele próprio está se envolvendo no embate.

Uma terceira estratégia que estaria permitindo colher vitórias este ano foi a decisão de vários candidatos, em cidades mais arejadas, de abrir o seu programa de TV para que personalidades não petistas possam também falar. O exemplo analisado foi o de São Paulo, onde, segundo dirigentes partidários, o PMDB de Orestes Quércia, que apóia o candidato à reeleição, Gilberto Kassab (DEM), foi contestado pelo PMDB do escritor Fernando Morais, uma cria política de Quércia que com ele rompeu e agora pede votos, na TV, para a candidata Marta Suplicy.

Os candidatos, nesta avaliação, tornaram-se mais abertos para permitir que pessoas com nichos eleitorais definidos tenham espaço na sua propaganda política.

E, mais um caminho eleitoral trilhado pelo partido, foi levado adiante um processo de filiação qualitativa ao PT. O partido não se recusou a permitir que filiado novo se transformasse em candidato, desde que suas perspectivas fossem boas. A campanha seletiva de filiação levou para o PT pessoas bem qualificadas, diz um integrante da cúpula, tanto do ponto de vista moral quanto eleitoral. "Foram pessoas com boa representação social". Há casos exemplares até em cidades da região metropolitana de São Paulo.

Destas estratégias emerge o mesmo pragmatismo que levou o presidente Lula a fazer alianças à esquerda e à direita, no Congresso. Foi também o pragmatismo que levou a direção petista a definir uma política de distribuição de dinheiro para a campanha de quem tem realmente chance, faltando três semanas para a votação. Fora disso, haverá apenas um teatro para marcar posição, até o fim, uma prática muito difundida no passado que o PT acredita estar superando nesta disputa.

As avaliações feitas agora apontam também a possibilidade de sucesso, no futuro, destas estratégias testados nesta campanha. Partidos de oposição estão acompanhando o trabalho do partido e sabem que não têm e dificilmente conquistarão o mesmo nível de organicidade, pragmatismo, e obsessão que caracterizam esta campanha de fortalecimento nacional do PT que, avaliam petistas e não petistas, chegará muito forte a 2010.

O PT evita falar no assunto, mas espera uma onda vermelha em outubro, com a eleição de mil prefeitos em todo o país.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

Nem é oposição nem o partido do governo


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL


É compreensível que os dirigentes e demais abrigados na barraca do PT tentem passar para o eleitor que o sortilégio da legenda que curtiu o calvário da oposição conta com o apoio da imensa maioria da população.

Pena que a esperta versão seja metade verdade e a outra banda uma conversa de esperto para enganar os trouxas. Pois, a evidência que passa pelo raciocínio que não fatiga os neurônios é que na bagunça do quadro partidário, em que se encaixa o flagrante da campanha para prefeitos e vereadores, não há oposição com o mínimo de consistência nem o PT é o grande partido que se apresenta como o favorito na maioria das capitais e municípios.

No caso da tresloucada oposição, o seu martirológio começou antes da posse de Lula para o primeiro mandato, em 2002, quando foi montado no Congresso o balcão para a compra e aluguel de votos para a composição da maioria parlamentar – que é acachapante na Câmara e com os seus riscos no Senado, no pobre Senado dos senadores de garupa, que se "elegem" sem um único voto, como suplentes dos verdadeiros donos dos mandatos.

Com a crise ética que assola o Legislativo e contamina os três poderes, caiu a máscara no descaro dos acertos no toma-lá-dá-cá da cooptação do PMDB e dos avulsos que se bandearam em grupos ou no varejo das unidades.

A fragilidade da oposição pode ser conferida no flagrante das rachaduras e contradições da campanha municipal. Minoritária e dividida na sopa de letras das siglas que não se entendem nos Estados e batem cabeça nos municípios, os líderes dos partidos desistiram da elementar providência de fechar em torno de um candidato para evitar os atritos internos. Nem em Minas foi possível carimbar a popularidade do governador Aécio Neves, como a solução natural, enquanto em São Paulo o governador José Serra não se entende com o antecessor Geraldo Alckmin que, por sua vez, mirou no prefeito Gilberto Kassab (DEM), um aliado que virou alvo.

Na largada da campanha para a sucessão de Lula, o instinto de sobrevivência deverá tanger a oposição para o apoio ao candidato único, com os lanhos das brigas internas.

O governo é o presidente Lula, com a popularidade disparando com a velocidade das sondas espaciais para o recorde de 62% de aprovação e a liderança inquestionável sobre o PT e os demais 15 partidos ou filhotes de siglas que desfilam na parada do apoio ao governo. Uma aliança amarrada com todas as embiras dos interesses atendidos e do empenho de senadores e deputados federais em renovar o mandato, um dos melhores empregos do mundo, que rende mais de R$ 100 mensais com os subsídios, vantagens, benefícios do balaio generoso que escancara o saque ao cofre da viúva.

As especulações de sempre sobre os resultados das eleições de prefeitos em 5.562 municípios e de cerca de 400 mil vereadores (que desperdício!) ajudam a passar o tempo e a aquecer o debate no Congresso.

Desde a restauração do regime democrático, com a derrubada do Estado Novo de Getúlio Vargas, em 29 de outubro de 1945, com a interrupção dos quase 21 anos da ditadura militar do rodízio dos generais-presidente, e a nova temporada de eleições para valer, a partir da eleição indireta de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral em 15 de janeiro de 1985 – o presidente que não tomou posse – de José Sarney a Lula em seus dois mandatos, raras eleições não tiveram os seus resultados antecipados pela nítida preferência das ruas.

Mas, nunca com a certeza de que o presidente elegeria quem ele quisesse. E Lula quer a ministra-candidata Dilma Rousseff. O PT vai a reboque.

A oposição não sabe onde o galo canta


José Nêumanne
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Diz o presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), que “a oposição foi revogada, saiu da moda”. O reconhecimento prévio do malogro neste ano eleitoral reproduz, com exatidão e sinceridade, a situação política esdrúxula que o País vive. E também ajuda a explicar tal fiasco, pois a autocondenação à morte mostra que o prócer, a exemplo dos colegas de bancada, sabe que o galo canta, mas não tem idéia de onde fica o poleiro do qual todo dia este saúda o Sol. O desabafo de Guerra traduz desalento e é também uma confissão de impotência, que resulta da própria incompetência, não apenas para combater o fenômeno que a tirou de moda, mas também para compreender a cena política, condição básica para que a partir de tal compreensão se esbocem as linhas-mestras para enfrentar e resolver o problema. A maior tragédia da oposição brasileira hoje não é a eficiência do governo, mas a própria ineficiência para perceber e atuar.

O patamar a que galgou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva - de 64% de popularidade, segundo a última pesquisa Datafolha - não pode ser produto apenas de sua inegável sorte: resulta também de sua capacidade rara de se comunicar com os segmentos mais pobres e numerosos da população. Para isso usa a própria vivência e, da mesma forma, recorre a uma intuição admirável. Além da fortuna, a virtude de saber conciliar o levou ao governo depois de três derrotas seguidas em duas disputas contra o tucano Fernando Henrique e outra com o alagoano Fernando Collor. Isso não é inusitado na história política do Brasil independente. À capacidade de dom Pedro II de atender a liberais e conservadores - facilitada pelo fato de que, segundo glosava uma quadrinha popular no século 19, nada mais igual a um saquarema que um luzia no poder, apelidos jocosos dados pelo povo aos grupos que se revezavam no poder no Segundo Império - deveu-se a longevidade de seu reinado. Do talento do gaúcho Getúlio Vargas para reunir grupos na aparência antagônicos sob seu tacão - os latifundiários do PSD com os proletários do PTB - dependeu outra bem-sucedida aliança, tal como a primeira fundida no chumbo em que se imprimia o Diário Oficial: a conciliação pela via da nomeação.

A diferença entre nosso atual caudilho e os modelos históricos aqui lembrados é que ele realizou a primeira conciliação antes de alcançar o poder, ao submeter à disciplina partidária e a seu comando carismático grupos antes irreconciliáveis da esquerda armada, ao lado de lideranças sindicais e líderes da esquerda eclesiástica. Sob o estandarte socialista da mudança de “tudo o que está aí”, mas com um discurso conservador na economia, para não afugentar o voto da classe média e da classe operária especializada, ele subiu a rampa do Palácio do Planalto. No poder, mesmo não sendo um profundo conhecedor da história política nacional, aproveitou-se magistralmente das lições dos grandes conciliadores, radicalizando experiências de união nacional que já tinham sido ensaiadas, mas nunca levadas a cabo até o ponto em que ele as praticou. Foi além de Eurico Dutra e do próprio Getúlio, que montaram Gabinetes de união nacional. E conseguiu de antigos adversários políticos aparentemente inconciliáveis - de egressos da ditadura, como Paulo Maluf, José Sarney e Delfim Netto, a fisiológicos notórios, como Severino Cavalcanti, Jader Barbalho e Renan Calheiros - o que negara a Itamar Franco no grande acordo feito na pós-queda da República de Alagoas. De fato, essa mentalidade de mosqueteiros de fancaria (“todos por cada um e ninguém pelo povo”) se repete monotonamente nos palácios brasileiros desde a Independência. Mas Lula lhe deu consistência e vigor: Fernando Henrique, seu antecessor também nisso (os quadros de seus dois governos se repetem no atual, numa monotonia enervante), jamais teria estômago para fazer a defesa vigorosa que o presidente faz de políticos e práticas inconfessáveis - de Severino Cavalcanti aos “mensaleiros”.

Lula ganhou a primeira eleição prometendo ser diferente dos adversários e a segunda, garantindo que estes eram farinha do mesmo saco onde escondeu seus companheiros apanhados em flagrante em delitos catalogados ao longo de todo o Código Penal. Para isso contou com a ajuda dos opositores, que lhe entregaram as batatas da vitória no instante em que se negaram a sacrificar a cabeça do então presidente nacional do PSDB, Eduardo Azeredo (MG), flagrado em crime idêntico aos de que foram acusados “companheiros” do quilate do ex-presidente do PT do presidente José Genoino e de seu principal organizador, José Dirceu. A elite oposicionista, incapaz de enxergar um palmo além dos narizes empoados de seus baluartes, não foi capaz de compreender o fato.

Lula não dormiu sobre os louros do triunfo nas urnas, conseguido pelos próprios méritos e pela incompetência dos adversários: seu oponente, Geraldo Alckmin (PSDB-SP), conseguiu o feito de ser menos votado no segundo turno que no primeiro. E no segundo governo faz mais do mesmo, ao repetir a fórmula testada e aprovada de encher os cofres dos banqueiros e a barriga dos miseráveis. Essa fórmula mágica, capaz de içar candidaturas municipais do limbo ao topo (como as de João da Costa, no Recife, e Luiz Marinho, em São Bernardo do Campo), produz efeito de avalanche ameaçando sepultar os sonhos oposicionistas de voltar ao Planalto em 2010. Mas, a bem da verdade, Lula nada tem que ver com a lambança de seus adversários Geraldo Alckmin (PSDB) e Gilberto Kassab (DEM), únicos responsáveis pelo oxigênio injetado na candidatura petista de Marta Suplicy no maior município do País. A eleição paulistana prova que a oposição sai da moda por méritos de Lula e deméritos próprios. Doses de adesão alheia e da falta de visão dela mesma é que podem vir a revogá-la.

José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde

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