domingo, 21 de setembro de 2008

Hora do chimpanzé


Alberto Dines
DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

O apocalipse adora disfarçar-se, fingir que o pior já passou. Os sinais de otimismo dessa sexta-feira são mais preocupantes do que as evidências de hecatombe do último fim de semana. Se o processo econômico tem algo de humano, antropomórfico, pode-se dizer que a euforia é mais letal do que o ceticismo.

A bolha que começou estourar em fevereiro de 2007 e continuou rolando por mais 17 meses foi fabricada pelo "mix" euforia-irresponsabilidade que reeditou em setembro de 2008 a quinta-feira negra de 24 de outubro de 1929.

O jornalista-banqueiro Alcides Amaral, ex-presidente do Citibank teve a coragem de colocar o dedo na ferida nesta quinta-feira num contundente artigo no Valor Econômico. Enquanto sofisticados analistas escondiam-se atrás da esfarrapada desculpa da falha sistêmica - que não explica coisa alguma - Amaral apontou com precisão as falhas humanas que provocaram o tsunami.

A mais importante situa-se na área da detecção. O Senhor Mercado -criatura-divindade inventada por exaltados idólatras - atribuiu-se a responsabilidade de criar os seus próprios radares e todos acreditaram nas suas avaliações. A ninguém ocorreu colocar sob suspeita não apenas os ratings, mas a própria credibilidade enquanto agências autônomas. Sustentadas pelo mercado financeiro jamais seriam suficientemente estridentes para avisar que o sistema corria o risco de desabar.

E aqui Alcides Amaral chega à outra das brutais falhas humanas que causaram o maior rombo na economia mundial desde o crash de 1929: a "filosofia do bônus". Ao invés de pagar polpudos salários o mercado adotou o sistema de bônus para recompensar os mágicos capazes de produzir exuberâncias em rapidíssimos lances. Balanços anuais aptos a indicar políticas sustentáveis foram trocados pelos balancetes mensais ou trimestrais onde o que importa são "resultados" imediatos. Um grupo de golden boys ficou milionário da noite para o dia enquanto milhões de tomadores de empréstimos e certamente seus descendentes estão condenados à inadimplência.

O jornalista Nicholas Kristof, do New York Times, aponta números estarrecedores: nos tempos da estabilidade, presidentes de empresas financeiras ganhavam salários de 30 a 40 vezes o salário de um funcionário médio. Ao longo do turbilhão especulativo que deveria terminar agora, o salário dos presidentes das grandes companhias cotadas em bolsa passou a ser 344 vezes maior do que o dos trabalhadores médios. Richard Fuld, que continua presidente do Lehman Brothers, botou no bolso, entre 1993 e 2007, quase meio bilhão de dólares. O jornalista fez as contas: 17 mil dólares por hora para jogar pela janela uma instituição de 164 anos construída em cima de rígidas noções de pudor e respeitabilidade.

O perigo representado pela quase euforia desta sexta-feira está no poder deletério da roleta. Pequenos curativos nos tremendos rombos só servirão para maquiar a situação e enfraquecer a determinação de substituir o irresponsável laissez-faire em vigor pela disposição de regulamentar o mercado e torná-lo confiável. Sobretudo para convertê-lo numa instituição a serviço da sociedade e não mais a serviço dos interesses de um bando de adolescentes de todas as idades, igualmente delirantes.

O nome do jogo agora é credibilidade. O diagnóstico de falha sistêmica é insuficiente porque o problema é anterior, conceitual. O sistema capitalista não está em discussão, não existe outro para substituí-lo. O que se tornou imperioso é a sua readaptação a um mundo policêntrico, necessariamente equilibrado, minimamente equitativo.

Não há mais lugar para corsários. Os mecanismos do Estado de Direito devem funcionar em todas as esferas, o império da lei deve valer para todos, depositantes e depositários. O contribuinte não pode ser penalizado pela insanidade e vocação criminosa de alguns financistas que não têm mandato para cuidar do interesse público. Não é justo que a poupança de uma família japonesa seja torrada para bancar o dominó consumista nos subúrbios americanos. Ou que projetos de desenvolvimento nacional sejam comprometidos pela inclinação perdulária daqueles que se apoderaram dos canais de circulação de riqueza.

A noção de perigo coletivo é indispensável para criar uma disposição efetiva de mutualismo. Isso pressupõe a aposentadoria dos tradicionais totens de Wall Street. Hora de mandar para o zoológico o urso deprimido, símbolo da baixa e o seu rival, o touro indomável, efígie das altas. Antes que todos se convertam em dinossauros e desapareçam, melhor convocar um chimpanzé, para coçar a cabeça e pensar.

» Alberto Dines é jornalista

Os queridinhos do presidente

Eleições 2008
Luiz Carlos Azedo
Da equipe do Correio

Lula fará o possível para ajudar o PT a ganhar as disputas municipais na Grande São Paulo. Região é estratégica para diminuir a força do governador tucano José Serra, candidato a presidente em 2010

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fará o que puder para apoiar os candidatos do PT na Grande São Paulo, a começar pela campanha da ex-ministra Marta Suplicy, que tenta voltar à prefeitura da capital. Lula pretende se engajar também nas campanhas petistas de Guarulhos, Osasco e municípios do chamado ABC, principalmente São Bernardo, Santo André, São Caetano, Diadema e Mauá, redutos históricos do partido.

Lula quer fortalecer o PT em São Paulo e, assim, neutralizar a vantagem estratégica que o governador do estado, José Serra (PSDB), tem com o eleitorado paulista como candidato tucano a presidente da República em 2010. A jóia da coroa é a capital, onde Marta Suplicy lidera a disputa, mas corre o risco de perder no segundo turno.

As simulações na capital paulista, segundo a pesquisa Datafolha divulgada quinta-feira passada, mostram que Marta está tecnicamente empatada no segundo turno com o prefeito Gilberto Kassab (DEM), que concorre à reeleição, e com o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB). Na avaliação da cúpula petista, no cenário atual, Marta só vence as eleições se receber um forte empurrão de Lula, que hoje tem uma avaliação positiva na capital que suplanta em muito a da ex-prefeita.

Se o segundo turno fosse realizado hoje, 46% dos eleitores da capital paulista votariam na candidata do PT e 45% optariam pela reeleição do democrata. Há uma semana, Marta obteve 48% e Kassab, 44%. A simulação de uma disputa com Geraldo Alckmin mostra um empate entre os dois, com 47% de intenções de votos para cada um, resultado igual ao da pesquisa anterior. A participação de Lula na campanha de Marta neste fim de semana é que vai dizer se o presidente realmente é capaz de transferir seus votos para a ex-prefeita (leia mais na página 4).

Primeiro turno

Marta continua em primeiro lugar na preferência dos eleitores paulistanos, com 37% das intenções de voto, segundo pesquisa realizada pelo Datafolha em 17 e 18 de setembro. O segundo lugar segue disputado por Alckmin e Kassab, ambos com 22%. O ex-prefeito Paulo Maluf (PP) tem 7% e Soninha (PPS), 3%. Ivan Valente (PSol) atinge 1% das intenções de voto. Anaí Caproni (PCO), Ciro (PTC), Edmilson Costa (PCB) e Renato Reichmann (PMN) não chegaram a 1% das menções. Levy Fidelix, do PRTB, não foi citado. Se a eleição fosse hoje, 4% votariam em branco ou anulariam o voto, mesmo percentual dos que não saberiam em quem votar. Foram ouvidos 1.666 eleitores da cidade de São Paulo, a partir dos 16 anos de idade.

O jogo paulista

São Bernardo

Os candidatos Orlando Morando (PSDB) e o petista Luiz Marinho (foto) estão empatados tecnicamente com 27% e 26%, respectivamente, segundo o Ibope. Alex Manente (PPS) tem 15%, seguido por Evandro de Lima (PTdoB) e Aldo Santos (PSol), ambos com 1%. Brancos ou nulos somam 9% das intenções de voto. A margem de erro também é de quatro pontos percentuais e foram consultadas 504 pessoas entre 26 e 28 de agosto. A pesquisa está registrada sob o número 7/2008 na 174ª Zona Eleitoral de São Bernardo.

Osasco

O prefeito petista Emídio de Souza lidera a disputa pela prefeitura com 42,3% de preferência do eleitorado, seguido por Celso Giglio (PSDB), que tem 30,3%. O ex-prefeito e atual deputado federal Francisco Rossi (PMDB) tem 10,2%. Délbio Teruel (PDT) aparece com 1,4%, segundo pesquisa do Instituto Brasmarket, registrada em cartório com o número 05/2008, e realizada entre 3 e 5 de setembro. Foram ouvidos 801 eleitores e a margem de erro é de 3%. A pesquisa revela que 15,1% ainda não decidiram o voto ou pretendem anulá-lo.

Guarulhos

O petista Sebastião Almeida lidera a disputa pela prefeitura, com 25% de intenções de voto, contra o candidato do PV, Jovino Cândido, que concorre à reeleição e tem 18%. Carlos Roberto (PSDB) vem com 14% (entre 10% e 18%). Ou seja, há empate técnico tanto entre o primeiro e o segundo, quanto entre o segundo e o terceiro. Jorge Tadeu (DEM) aparece em quarto lugar com 5%, seguido de Adriana Afonso, com 3%. Adílson Valente (PCd B) e Orlando Fantazini (PPS) têm 1% cada, Edson Albertão (PSol) vem com 0,3%. No total, 9% dizem que não votam em nenhum candidato, enquanto 25% responderam não saber. A disputa deve ir para o segundo turno. O Instituto Opinião, contratado pelo jornal Guarulhos Hoje, ouviu 600 eleitores entre 6 e 8 de setembro. A pesquisa foi registrada como o número 07/2008, na 176ª Zona Eleitoral.

Santo André

Vanderlei Siraque (PT) lidera com 33% das intenções de voto, mostra o Ibope. Newton Brandão (PSDB) tem 15%, seguido por Aidan Ravin (PTB) empatado com Raimundo Salles (DEM), ambos com 13%. O levantamento foi realizado entre 26 e 29 de agosto e está registrado na 156ª Zona Eleitoral do município, sob o número 1220/08.

São Caetano

O prefeito de São Caetano, José Auricchio Jr. (PTB), disparou na pesquisa do Ibope: tem 72% dos votos. O segundo colocado, Horácio Neto (PSol), aparece com 5% das intenções. O petista Jayme Tortorello aparece na última colocação, com 3%. Como a margem de erro é de cinco pontos percentuais, os dois estão tecnicamente empatados. Brancos ou nulos somam 7%. A sondagem foi feita entre 25 e 27 de agosto com 350 eleitores e está registrada na 166ª Zona Eleitoral da cidade, sob o número 068/2008.

Diadema

Mário Reali (PT) e José Augusto da Silva Ramos (PSDB) estão com 40% e 35%, respectivamente, e tecnicamente empatados, porque a margem de erro do Ibope é de 4%. Em terceiro está o candidato do PMN, Ricardo Yoshio, com 5%, Foram feitas 504 entrevistas entre 26 e 28 de agosto. A pesquisa está registrada sob o número 05/08 na 222ª Zona Eleitoral de Diadema. Mauá

O petista Oswaldo Dias lidera com 44% das intenções de voto, segundo o Ibope. Francisco Carneiro (PSB), o Chiquinho do Zaíra, aparece tecnicamente empatado com Diniz Lopes (PSDB),com 19% e 14%, respectivamente. A margem de erro é de quatro pontos percentuais. A sondagem foi realizada com 504 pessoas entre 26 e 28 de agosto e está registrada na 217ª Zona Eleitoral, sob o número 1320/08.

Ribeirão Pires

O prefeito de Ribeirão Pires, Clóvis Volpi (PV), tem 59% das intenções de voto. O tucano Valdírio Prisco tem 13%, e o petista Mário Nunes aparece em terceiro, com 5%. A pesquisa do Ibope foi realizada no município entre 25 e 27 de agosto, tendo sido registrada na 183ª Zona Eleitoral de Ribeirão Pires, sob o número 05/2008.

Rio Grande da Serra

O tucano Adler Teixeira (PSDB), o Kiko, tem 69% das intenções de voto. O segundo colocado, Carlos Augusto César (PT), o Cafu, aparece com 13%. Nilson Gonçalves (PR) é o último colocado, com 2%. Brancos e nulos somam 5% e a margem de erro é de cinco pontos percentuais. A pesquisa está registrada sob o número 581/08

Líder, Eduardo Paes quer Lula neutro

Luciana Nunes Leal
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Ex-tucano teme que presidente queira retribuir apoio de Crivella

A participação intensa do governador Sérgio Cabral na campanha eleitoral, a farta arrecadação, que já ultrapassa R$ 3 milhões, o bom tempo na TV e a promessa de uma inédita parceria da cidade com o governo federal deram ao candidato do PMDB à Prefeitura do Rio, Eduardo Paes, a liderança na disputa. A vaga praticamente assegurada no segundo turno, porém, não tranqüiliza o ex-tucano. No comando da campanha, a grande preocupação é garantir a neutralidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Com cinco candidatos de partidos aliados na briga, Lula optou por ficar fora do primeiro turno no Rio. Até agora, apesar da subida de alguns candidatos, as pesquisas indicam maior possibilidade de segundo turno entre Paes, aliado recente, e o candidato do PRB, senador Marcelo Crivella, antigo parceiro do presidente. É aí que entra a apreensão dos peemedebistas.

Em 2005, como deputado do PSDB e integrante da CPI dos Correios, Paes foi implacável nas acusações a integrantes do governo Lula. Crivella ficou ao lado do presidente. Agora, o temor dos peemedebistas é de que Lula compense, no segundo turno, a solidariedade do senador, até para agradar ao vice-presidente José Alencar, também do PRB.

“Não vou criar constrangimento para o presidente Lula. Ele tem sido corretíssimo. Não dá para pedir outra coisa que não seja a eqüidistância”, disse Paes na quarta-feira, acomodado na van que o levava de um ponto a outro da zona norte carioca, onde fez uma série de caminhadas, muitas delas longe da imprensa. É o corpo-a-corpo “sem patrulha”, nas palavras do candidato. A estratégia de Paes é divulgar apenas um, no máximo dois, compromissos de campanha por dia. O resto faz parte da agenda reservada.

Com poucos assessores e candidatos a vereador e muitos cabos eleitorais distribuindo bandeiras e cartazes, Paes segue o modelo da campanha vitoriosa de Cabral em 2006: dá atenção especial aos idosos, cumprimenta as mulheres com beijo na mão, conversa como se encontrasse velhos conhecidos.

Questionado sobre o peso do governador em seu desempenho nas pesquisas, Paes não tem dúvidas: “Cem por cento. Ele foi fundamental.” Cabral, cada vez mais presente no programa de TV e na agenda de campanha de fim de semana, terá atuação decisiva também no segundo turno, não só para negociar apoio dos candidatos derrotados como para tentar garantir a distância de Lula da sucessão carioca.

Para o governador, tamanho empenho na campanha de Paes se justifica. Além de tentar garantir um aliado na prefeitura, ele acredita que sair vitorioso na capital lhe dará mais visibilidade no cenário nacional. Em 2010, no entanto, o plano de Cabral ainda é buscar a reeleição. Se for confirmada a disputa entre Crivella e Paes, o prefeito Cesar Maia (DEM), antigo aliado e padrinho político do peemedebista, provavelmente ficará com o candidato do PRB. Uma vantagem para Paes é o fato de que Cabral tem em seu governo partidos que hoje estão em outras candidaturas, como PT e PSB, mas que tenderiam a se aliar ao PMDB no segundo turno.

DIFICULDADES

Além da dúvida sobre o comportamento de Lula, a cautela da equipe de Paes se justifica também pelo fato de que o candidato ainda tem dificuldades em alguns pontos da cidade, apontadas em pesquisas internas encomendadas pelo PMDB. Em bairros da periferia com grande influência da Igreja Universal do Reino de Deus, da qual Crivella é bispo licenciado, e em grandes favelas, como o Complexo da Maré, Paes está em desvantagem. Por outro lado, os peemedebistas animam-se com o crescimento na zona oeste e também na zona sul, onde é forte o candidato do PV, Fernando Gabeira, em coligação com o PSDB.

Em três semanas, Paes subiu 15 pontos no Ibope, passando de 12% para 27%. Crivella caiu 5 pontos, de 28% para 23%. Pesquisa do Datafolha divulgada na sexta-feira confirmou tendência de queda de Crivella e mostrou Paes isolado na liderança.

O candidato do PMDB faz uma campanha rica. Até agora, arrecadou R$ 3,165 milhões, equivalentes a 68,3% da arrecadação de todos os adversários juntos. O maior doador é o empresário Eike Batista, com R$ 500 mil. Empresas da construção civil e imobiliárias também são colaboradoras.

Sempre que indagado sobre a aparente incoerência entre o comportamento na CPI dos Correios em 2005 e a defesa de Lula que faz agora, além do fato de já ter passado por outros quatro partidos (PV, PFL, PTB e PSDB), Paes diz que esses são seus “maiores pecados”. Ele não esconde o fato de ter sido afilhado político do prefeito Cesar Maia e também fala com orgulho da sólida formação liberal, dos tempos do PFL - hoje DEM.

Hoje, Paes se define como “político de centro, com visão importante do papel do Estado”. Fiel ao atual aliado, cita o governador fluminense como político que admira. “Estou numa fase Sérgio Cabral”, define. Entre os estrangeiros, cita o presidente dos Estados Unidos Franklin Roosevelt e o primeiro-ministro britânico Winston Churchill. Acha o ex-primeiro-ministro espanhol Felipe González “fantástico”, o ex-presidente americano Bill Clinton “sensacional” e a senadora Hillary Clinton “maravilhosa”.

TUCANOS

Embora tenha deixado o PSDB, Paes tem entre os tucanos não só amigos, mas colaboradores de campanha, como o vereador Luiz Guaraná e o deputado estadual Pedro Paulo. “Tenho muito orgulho dos apoios. Também não crio constrangimentos para aqueles do meu partido que não estão comigo”, diz Paes.

Entre os peemedebistas ausentes da campanha está o ex-governador Anthony Garotinho. Adversário de Cabral - embora militem na mesma legenda -, Garotinho avisou ao candidato que não participaria da campanha. Preferiu concentrar-se no esforço de eleger a filha Clarissa vereadora e a mulher Rosinha, ex-governadora, prefeita de Campos.

Segundo turno deve se generalizar

Raphael Bruno
DEU NO JORNAL DO BRASIL

Nas maiores cidades, apenas em Curitiba e Goiânia o prefeito deve ser eleito no dia 5

Faltam apenas duas semanas para as eleições municipais, mas, nos maiores colégios eleitorais do país, poucas cidades conhecerão o prefeito que as irá comandar nos próximos quatro anos já no primeiro turno. Na reta final da campanha, crescem não só as especulações sobre possíveis apoios na segunda rodada da disputa eleitoral, como também a troca de duras críticas entre prováveis aliados no futuro próximo. Vale tudo por um lugar ao sol, ou melhor, na urna, no próximo dia 26 de outubro, data marcada para a realização do segundo turno. Hoje, PT e PMDB seriam os partidos que mais emplacariam candidatos em dez das principais cidades do país.

Municípios como Curitiba e Goiânia, onde as eleições caminham para para um desfecho já no primeiro turno, são exceções entre as grandes cidades brasileiras. Na capital paranaense, nem mesmo todo o apoio do ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, à candidata do PT e sua esposa, Gleisi Hoffmann, ameaça a reeleição do atual prefeito, Beto Richa (PSDB), que soma 74% da preferência do eleitorado, de acordo com último levantamento Ibope. Em Goiânia, o também candidato à reeleição, Iris Resende (PMDB), lidera com percentuais semelhantes e não aparenta dar muitas chances ao segundo colocado Sandes Júnior (PP).

– Num cenário de quadro partidário fragmentado como o nosso, é preciso analisar caso a caso as eleições que serão resolvidas no primeiro turno – observa o cientista político da Universidade de Brasília (UnB), Leonardo Barreto. – Geralmente, é necessário a combinação de uma série de fatores, como candidatos partindo para reeleição, avaliações positivas elevadas por parte da população e o apoio da máquina pública. Quando as eleições têm mais atores novos, fica mais difícil.

Atrás dos apoios

A perspectiva de que os pleitos municipais não se resolvam no primeiro turno já colocou muita gente em busca de aliados para a segunda rodada das eleições. Em Belo Horizonte, após a ascensão meteórica do candidato apoiado pelo prefeito Fernando Pimentel (PT) e pelo governador Aécio Neves (PSDB), Márcio Lacerda (PSB), seus principais adversários, Jô Moraes (PCdoB) e Leonardo Quintão (PMDB), fizeram um pacto de apoio mútuo em caso de segundo turno.

– Estamos com esse entendimento há uns 15 dias – admite Jô Moraes, revelando que há uma boa possibilidade de que o acordo se amplie para outros candidatos que podem sair derrotados no primeiro turno, como Sérgio Miranda (PDT). – Nos debates estamos sempre chamando a atenção para a importância de um segundo turno, dada a necessidade de que Belo Horizonte enfrente um processo democrático efetivo.

O rival Márcio Lacerda, que ao que todas as pesquisas indicam até o momento angariou todos os apoios que precisava para ser eleito já no primeiro turno, disfarça.

– Estamos nos empenhando para um bom desempenho nas urnas no dia 5 de outubro e temos certeza que os eleitores farão uma escolha consciente e livre que irá beneficiar toda a população de nossa cidade – diz. – Os eleitores é que decidirão se haverá ou não segundo turno e nós vamos continuar trabalhando sem nos preocupar, no momento, com esta questão.

Crivella polemiza

No Rio de Janeiro, o candidato do PRB, Marcelo Crivella, causou polêmica recentemente ao declarar que havia realizado acordo semelhante ao da capital mineira com Jandira Feghali (PCdoB), o que foi negado pela candidata. Mas, dada a proximidade de Crivella do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o cenário mais provável é que a parceria se concretize, com o acréscimo ainda do PT, de Alessandro Molon, no grupo que irá enfrentar o atual líder nas pesquisas de intenção de voto, Eduardo Paes (PMDB), caso Jandira não alcance o segundo turno.

Já Eduardo Paes, figura mais ligada ao PSDB, onde era deputado federal e esteve até outubro do ano passado, sonha em contar com o apoio da legenda e de Fernando Gabeira (PV). E, embora sua saída do ninho tucano não tenha sido das melhores, o ex-partido já apoiou, por exemplo, no segundo turno das eleições para governador do Estado em 2006, o grande patrocinador da candidatura do peemedebista, o governador Sérgio Cabral.

– É prematuro falar em apoio no segundo turno – esquiva-se um tucano carioca de elevada plumagem. – Tem que aguardar, ainda está muito cedo. Mas qualquer movimento de apoio no segundo turno não pode ser por questões pessoais, mas sim programáticas.

A declaração pode ser entendida como uma sinalização de que eventual apoio de Gabeira no segundo turno não poderá ficar restrito à preferência do candidato do PV e terá que passar por negociações partidárias. Mas o tucano não perde o tom vencedor e garante que este será sim o critério utilizado, mas por Gabeira, para angariar possíveis apoios à sua candidatura no segundo turno.

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1093&portal=

sábado, 20 de setembro de 2008

A grande questão


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO

NOVA YORK. O desafio que se coloca para a campanha do candidato democrata Barack Obama é convencer o eleitorado de que a nova versão que o senador republicano John McCain está construindo para sua imagem pública não corresponde à realidade. Ou se, ao contrário, McCain conseguirá convencer os eleitores de que essa nova versão corresponde a uma necessidade do momento. O mesmo que disse o presidente Bush ontem, ao anunciar o pacote que deu alívio aos mercados internacionais: "Intervir no mercado não é desejável, mas desta vez não havia outra solução", explicou o presidente americano.

O McCain contrário à liberdade do mercado financeiro, e favorável a uma regulamentação menos flexível para controlar as irresponsabilidades que foram cometidas em busca do lucro máximo, simplesmente é uma novidade forjada durante a campanha, em busca da simpatia do eleitor de classe média, que, por sua vez, anda em busca de segurança.

Na verdade, o aprofundamento da crise econômica pegou o Partido Republicano no contrapé, e obrigou a Casa Branca a adotar medidas de intervenção no mercado financeiro em intensidade tamanha que deixaram de ser pontuais para se tornarem sistêmicas, revogando todo o credo dos conservadores na força do mercado.

O presidente George W. Bush, que já entrara para a História como um dos piores presidentes dos Estados Unidos devido à guerra do Iraque, corria o risco de acrescentar ao seu currículo a pecha de ser o responsável pela quebra do sistema financeiro internacional.

Um papel que até agora era exercido pelo presidente Herbert Hoover, que, um ano depois de ter sido eleito, teve que comandar um país quebrado financeiramente pelo crash de 1929 da Bolsa de Valores de Nova York.

Entregou ao seu sucessor Franklyn Roosevelt um país em recessão, da qual só saiu muitos anos, vários planos econômicos, uma Guerra Mundial e quatro mandatos presidenciais depois.

O democrata Roosevelt substituiu o republicano Hoover e entrou para a História como o homem que tirou os Estados Unidos da profunda crise econômica à custa de uma intervenção governamental forte para financiamento da indústria, criação de empregos, de programas de seguro social e controles rígidos do mercado financeiro.

A legislação protetora foi sendo flexibilizada com a chegada do governo republicano à Casa Branca em 2000, na certeza de que a desregulamentação traria maior produtividade ao setor financeiro.

Essa postura teve no então senador Phil Gramn seu mentor no Senado, e no senador McCain, de quem Gramn era uma espécie de guru econômico, um defensor permanente. O senador Joe Biden, candidato a vice de Obama, ressaltou essa parcela de culpa dos republicanos dizendo que "a mentalidade de cowboy" da era Bush retirou as proteções dos investimentos dos pequenos poupadores, deixando o caminho livre para os especuladores.

Por isso, a intervenção governamental na área financeira retira dos republicanos, e da campanha de McCain em particular, o mote de redução da ação do governo. No mais recente anúncio de propaganda de sua campanha, McCain fala na ampliação do papel do governo caso Obama seja eleito, com todos os efeitos que ela traz consigo, como o aumento dos impostos.

Até aqui, o governo reduzido, deixando para o empreendedorismo do cidadão o papel de alavancar o progresso do país, foi o principal mote da campanha republicana. Já não é mais possível culpar os democratas pela ampliação dos poderes do Estado, e nem pelo aumento do déficit público que as intervenções governamentais provocarão.

Mas, pelo menos McCain não terá um partido democrata culpando o governo pelo gasto do dinheiro do contribuinte, já que as medidas anunciadas ontem pela Casa Branca têm mais adeptos entre os democratas do que entre os próprios republicanos. E o pacote governamental depende basicamente dos democratas, que têm a maioria, para ser aprovado.

O fato de o candidato democrata Barack Obama não ter apresentado um plano alternativo, e sim ter incentivado a busca de um acordo no Congresso para aprovar o plano do governo Bush, só demonstra sua concordância com as medidas que estão sendo anunciadas. É uma atitude sensata, embora possa parecer ao eleitor médio indecisão.

Ao mesmo tempo, McCain anunciou a criação de uma nova agência que fiscalizará, em um eventual governo republicano, o mercado de hipotecas e o financeiro, para monitorar as atividades dos bancos e prevenir problemas antes que eles aconteçam.

A crise financeira que atingiu o sistema bancário americano, levando de roldão o mercado internacional, não teve repercussões no dia-a-dia do americano médio, que, ao contrário, sofreu as conseqüências diretas da bolha imobiliária que a gerou.

Por isso, no curto prazo, as perdas ficarão maquiadas, e o governo republicano pode até sair da crise com a fama de tê-la enfrentado com sucesso. O futuro presidente dos Estados Unidos, seja ele quem for, é quem vai ter que enfrentar as conseqüências desse aumento do déficit público, seja através de corte de gastos, seja com aumento dos impostos.

Mas, na campanha eleitoral, dificilmente ficará claro para o eleitor médio qual a melhor solução. Talvez os debates possam esclarecer qual dos candidatos está mais preparado para enfrentar os problemas futuros.

Glória sem cidadania


Teresa Costa D'Amaral
DEU EM O GLOBO

O Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência (IBDD) ganhou 5 medalhas de ouro nos Jogos Paraolímpicos de Pequim, por isso talvez eu tenha conquistado o direito de ser lida com boa-fé por quem se emocionou com os atletas brasileiros.

Lutei todas as lutas com o Tenório e o Eduardo, nadei todas as provas com o André, joguei toda partida de futebol com o Zeca, o Vanderson, o Antonio e o Adriano. Velejei pelos mares com o Darke e o Rossano. Vivi cada medalha com alegria.

Mas outros motivos me levam a falar. Um deles, o fato de o IBDD ser o único clube de esporte para pessoas com deficiência que realiza um trabalho permanente de prática desportiva e construção da cidadania. Cada um dos nossos atletas tem apoio social, treinamento, orientação profissional, bolsa, seguro-saúde, preparação física, nutricionista.

A maioria dos atletas brasileiros volta de uma paraolimpíada sem emprego, sem patrocínio. Este ano nem o tradicional prêmio por medalha eles ganharam do Comitê Paraolímpico Brasileiro!

Os clubes e os atletas sobrevivem sem apoio. São pelo menos um milhão de reais mensais garantidos por lei para o CPB aplicar no esporte para pessoas com deficiência, mas o CPB não realiza com adequação e transparência esse investimento, e como não é nem órgão de governo nem ONG, vive no limbo da fiscalização do esporte em que quase tudo é permitido.

Existe em cada atleta muito de esforço pessoal e de infinita vontade de vencer. Não posso negar, existe uma confusa bolsa-atleta do Ministério do Esporte. Mas como seria poderoso todo o imenso volume de recursos, se não se perdesse no mal-organizado apoio às confederações, nas bem-organizadas viagens dos cartolas, na farsa da relação de marketing com empresas. O Lars Grael já se pronunciou contra.

Importante dizer que as confederações estão falidas. A CBDC, que representa o desporto para cegos, fez no início do ano uma rifa para tentar pagar a dívida de mais de um milhão de reais que contraiu para fazer os Jogos Mundiais, etapa indispensável para Pequim. A Abradecar, de desporto em cadeira de rodas, fechou por desvios e dívidas. A Ande, desporto para paralisados cerebrais, mal sobrevive, o próprio IBDD já emprestou dinheiro para ela.

Decisão equivocada do CPB fez com que o Caco, nosso atleta, medalha de ouro em Atlanta, não competisse porque é desafeto de dirigentes. Outra decisão infeliz fez com que as TVs abertas não transmitissem as competições.

Os Jogos de Pequim não foram o que poderiam ter sido para a nossa luta. Mas conquistamos cada brasileiro que viu nossa força. Fizemos muito, muito, por esforço pessoal de cada atleta, poderíamos ter feito mais e melhor se houvesse consistência na construção dessas conquistas. E persistiu a irresponsável aplicação dos recursos destinados ao esporte paraolímpico. E mais infelizmente não posso dizer, ou porque minha responsabilidade como administradora do IBDD não permite ou porque nossa assessoria jurídica não deixa.

TERESA COSTA D"AMARAL é superintendente do Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência (IBDD).

A delação legalizada


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL

COM A MESMA DESENVOLTURA de outras proezas, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, defendeu na CPI do Grampo a "discussão" sobre a virtual revogação do sigilo da fonte, um das normas éticas fundamentais do exercício da profissão de jornalista, em especial do jornalismo político. A proposta do ministro de todas as Armas é de tal maneira estapafúrdia, de amoralismo cínico e despropositado que não merece ser discutida ou levada a sério. Mas, repudiado pela categoria, a começar pelas entidades de classe, como a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), o Sindicato dos Jornalistas e o apoio da Academia Brasileira de Letra (ABL) e de todos os sensibilizados pela defesa da liberdade de imprensa. Nas minhas seis décadas de exercício como repórter político jamais trai uma fonte ou delatei o informante que em mim confiou. E, de logo, deixo claro de público que jamais revelarei a fonte que acreditou na minha dignidade. Quaisquer que sejam as conseqüências de uma recaída na esterqueira da ditadura.

Lula na sua campanha e na da Dilma

Como o presidente Lula conserva as barbas grisalhas, não cultiva o hábito do dialogo matinal com o espelho, enquanto espalha com o pincel o sabão pelo rosto e com a confiável gilete ou a navalha caída em desuso raspa os fios que enfeiam a fisionomia. Não precisa conferir a cada dia os índices de auto-estima, que disparam em velocidade superior aos dos seus índices recordistas de popularidade nas pesquisas que batem no teto de 62%, e com a pinta que alcançará os 70% com gosto doce da virtual unanimidade. E, se o comedimento nunca foi uma das características do seu temperamento, a série de êxitos emplacados pelo governo ativou os neurônios da confiança no seu esquema para as duas campanhas eleitorais.

A que se arrasta na gaiatice cafona do programa eleitoral e promete favorecer o bloco governista de 16 siglas, com o tempero democrático de esparsas vitórias oposicionistas, inclusive em capitais importantes. O ruído das comemorações e análises da eleição de prefeitos e vereadores será sufocado pelo vagalhão que desabará na praia com especulações, manobras, acordos e rompimentos sobre as eleições de 2010 para o sucessor de Lula, governadores, senadores e deputados federais.

E é aí, no gramado das decisões que Lula treina, para consolidar e ampliar a vitória que considera certa, favas contadas. Quem presta atenção nos conchavos do jogo político e distrai-se com as embaixadas e chutes a gol do presidente-artilheiro acompanhou a escalada nas mudanças do seu temperamento.

Lula diz o que lhe vem à cabeça na autolouvação delirante dos seus feitos, a bater recordes mundiais com a facilidade com que se descasca uma tangerina. E não está nem aí para críticas de uma oposição que está brigando mais para dentro, engasgada na rala sopa de siglas, do que com o adversário nacional, solto no ringue. Promessas e fanfarrices na agenda de todos os dias.

Na efusiva e recente amizade de infância com o governador fluminense, Sérgio Cabral, promessas atropelam a enxurrada de louvação: "Não tenho medo de dizer que Sérgio pode passar à História como o melhor governador que este Estado já teve". E, para enfeitar o buquê prometeu copiar o modelo do projeto das Unidades de Pronto-Atendimento (UPA) para construir 500 no Brasil até 2010. Nem precisava, pois, como o presidente alardeia, "nestes dois anos de mandato, em parceria com Sérgio Cabral, estamos fazendo mais pelo Rio do que foi feito nos últimos 30 anos".

Nos intervalos das folgas, cuida do PT que, depois da temporada dos escândalos do mensalão, do caixa 2, da compra de ambulâncias superfaturadas está mais dócil do que um cordeirinho. Na última rodada de conversa palaciana, o candidato escolhido para presidir o Partido dos Trabalhadores a partir de agosto de 2006 é o amigo de longa militância e seu chefe de gabinete, Gilberto Carvalho.

A ministra Dilma Rousseff não cria problemas e só dá satisfações ao presidente. Vestiu a blusa de candidata e tira excelentes notas no cursilho prático no Palácio do Planalto. Bem humorada, atenciosa, falante e com excelente desempenho nos palanques das viagens do presidente. Nem a pífia campanha da seleção de Dunga esquenta a sua cabeça. Ao contrário, deu razão aos seus reparos de peladeiro nos tempos de torneiro-mecânico em São Bernardo do Campo.

Poder arreganha dentes para nós


Milton Coelho da Graça (*)
DEU EM COMUNIQUE-SE

Quanto mais avança a democracia, quanto mais avança a tecnologia, mais o poder quer xeretar nossas vidas e menos aceita que os jornalistas descubram e divulguem um pouquinho do resultado dessa xeretice.

Por que o ministro da Justiça não mandou um projeto de lei ao Congresso com penas mais duras para violações do sigilo bancário dos cidadãos, como aquela ordenada pelo ex-ministro Antonio Palocci (e respeitosamente cumpridas por dirigentes de estatais) contra o pobre caseiro da casa de diversões mais famosa de Brasília?

Por que Legislativo e Judiciário nada fizeram depois que João Paulo Cunha, presidente da Câmara Federal, graças a informações obtidas por grampos, mandou parar a enxurrada de convocações de empresários pela Comissão de Fiscalização de Atividades Financeiras, onde eram polidamente “escalpelados”?

E, porque nada fizeram, o “Coringa” dessa Comissão continuou subindo na vida. Agora, como presidente da Constituição e Justiça, a mais importante nas duas casas do Congresso, é o pior espinho parlamentar contra o presidente Lula, exigindo sempre um “presentinho” para dar andamento a qualquer iniciativa do Governo. O mais recente “presentinho” exigido é o fundo de pensão Real Grandeza, dos funcionários de Furnas, um dos mais bem administrados do país.

Estou contando tudo isso antes que seja aprovado esse projeto provavelmente elaborado de comum acordo entre os três poderes da República (embora Lula esteja calado). O ministro Tarso Genro explicou hoje (sexta, 19/9): “Quem diz que o texto abre brecha para punir jornalistas não leu o projeto ou não teve clareza jurídica e técnica para compreendê-lo”.

Ministro, li umas três ou quatro vezes. Reconheço que talvez não tenha clareza jurídica para compreender o que V. Exa. pretende. Mas os únicos textos ministeriais que às vezes não consigo compreender são os do ministro Mangabeira Unger.

Em quase 50 anos de carreira, sempre entendi bem todos os outros. E está claríssima a intenção de impor medo e punir qualquer investigação jornalística que se inicie ou inclua informações obtidas através de um e-mail ou grampo, referentes a um tema de interesse público, mesmo que a matéria não reproduza nem se refira a essa origem. “Utilizar o RESULTADO de interceptação” é bastante vago para nos sujeitar a prisãode quatro anos e multa, com anuência e até aplauso, suspeito, de uma significativa parcela do Judiciário.

O projeto modifica o artigo 151 do Código Penal. O parágrafo 1º e seu inciso II (clique aqui para conhecer bem a ameaça) estão cuidadosamente redigidos. As palavras “imprensa” e “jornalista” não aparecem, mas é a nós que se referem.

E já está no forno outra paulada, desta vez anunciada pelo ministro Nelson Jobim, visivelmente entusiasmado pelas fotos com uniforme de combatente. O alvo é o sigilo da fonte.

Todo governante sonha com a absoluta fidelidade do aparelho de Estado, mas a democracia depende vitalmente da lealdade de cada funcionário público o interesse do Estado e da legalidade constitucional acima dos desejos de superiores hierárquicos. Quando o governante usa uniforme e a lei não nos protege, ele não apenas sonha, baixa o sarrafo.

Falo de cadeira porque peguei um mês no DOI-CODI e uma condenação a seis meses no presídio do Hipódromo, por fazer com outros companheiros um jornal clandestino (Notícias Censuradas) quando o ditador Médici proibiu a divulgação de notícias sobre uma epidemia de meningite e prejudicou o combate à doença. Se os médicos no Rio e em São Paulo tivessem baixado a cabeça e não divulgassem o que estava acontecendo, teria havido um número ainda maior de mortes.

Mencionei lá em cima que o presidente Lula até agora está calado sobre esses dois temas. Tenho sincera esperança de que ele ordenará “meia volta volver” a todos os ministros, parlamentares e juízes que sonham com um Brasil sem jornalistas xeretas.

(*) Milton Coelho da Graça, 78, jornalista desde 1959. Foi editor-chefe de O Globo e outros jornais (inclusive os clandestinos Notícias Censuradas e Resistência), das revistas Realidade, IstoÉ, 4 Rodas, Placar, Intervalo e deste Comunique-se.

Dois descasamentos e um funeral


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


SÃO PAULO - Falou-se muito, desde o início da crise mal chamada de "subprime", no "decoupling", ou descasamento, entre as dificuldades do mundo rico e a robustez das economias emergentes. Mas o que ocorre, ao menos até agora, são dois descasamentos e um funeral.

O casamento vem se dando nos mercados financeiros: as Bolsas caem e sobem sincronizadamente, como prova a formidável gangorra desta semana, que termina gloriosamente, com os mercados salvos pelo Estado no qual quase cravaram a estaca de madeira.

Um dos descasamentos ocorre na vida real, exatamente aquele que se discutia. Os emergentes sofrem menos até agora do que os ricos.

Basta citar um título perdido no pé da página B10 desta Folha: "Crescimento da Argentina se desacelera para 7,5%".

Quando se sabe que pelo menos três países da Europa (Reino Unido, Alemanha e Espanha) embicam para a recessão, um crescimento de 7,5% não deveria ser chamado de desaceleração. Menos ainda quando se dá em um país que também escapou da estaca de madeira brandida com sanha pelos "palpiteiros", como o presidente Lula bem chamou as entidades financeiras que assombravam os emergentes, mas não foram capazes de prever o seu próprio funeral.

Agora o mais interessante na história toda é o descasamento entre a economia real e a economia financeira. Coloque sempre um baita "até agora" em todas as afirmações, caro leitor. Mas, por enquanto, quebraram, só nos Estados Unidos, três das cinco grandes instituições financeiras não ligadas a bancos.

Mas não quebrou, nem nos Estados Unidos, nem em outros países, uma Microsoft, um Wal-Mart, uma Ford, ou General Motors, ou Volkswagen, ou Fiat.
Não quebrou nem o quitandeiro da esquina, em Londres ou em São Paulo. A ver quanto dura. Tomara que para sempre.

A República inexistente

Fernando Rodrigues
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - O Palácio do Planalto em peso, nesta semana, decidiu levar adiante um projeto de lei propondo punição aos meios de comunicação que se atreverem a divulgar o conteúdo de escutas telefônicas ilegais. O texto será dinamitado no Congresso, mas a audácia anti-republicana do lulismo fica outra vez explicitada.

Não existe um caso recente de escândalo nacional cuja execução de escutas ilegais tenha sido responsabilidade da mídia. Criminosos praticam a ilegalidade. Passam a chantagear os grampeados. Como o jornalismo nasce onde começa o interesse contrariado, muitas vezes o público tem a sorte de ter acesso inaudito ao que se passa nos porões do poder.

Um exemplo emblemático ocorreu em 1998. Uma quadrilha grampeou empresários, ministros e o presidente da República às vésperas do leilão de privatização das empresas de telefonia. Ao divulgar o conteúdo dessas escutas ilegais, a mídia cumpriu sua missão de bem informar. O público conheceu algo antes circunscrito a um grupo diminuto de pessoas.

O projeto antigrampo de Lula não é apenas limitador da liberdade de expressão e de informação. É também omisso por não tratar da raiz do problema: o baixo investimento e a desídia da companhias telefônicas na área de segurança dos dados pessoais dos usuários.

Para impedir funcionários de quinto escalão de venderem dados sigilosos por R$ 500, as telefônicas teriam de gastar muito dinheiro.

Segurança interna e controle rigoroso exigiriam treinamento de pessoal e rígidos sistemas de vigilância.

A lei proposta por Lula não toca nesse tema. Seria inconveniente para o Palácio do Planalto incomodar empresários tão generosos durante períodos eleitorais.É mais cômodo inflar uma lei inútil. O governo finge estar preocupado. Imagem, Lula sabe, é tudo.

Partidos de esquerda são os mais rejeitados nas capitais

DA AGÊNCIA FOLHA

Os partidos que se consideram mais à esquerda são os enfrentam a maior rejeição de eleitores nas capitais, de acordo com as pesquisas de intenção de voto. Em 12 das 26 capitais, PSTU, PSOL ou PCO têm candidatos líderes em rejeição -em uma das capitais, esses partidos não têm candidato.

O PSTU, que prega a expropriação de grandes empresas, lidera a rejeição em sete capitais. Entre os partidos fora desse espectro político, o DEM é o que tem mais candidatos rejeitados: quatro. Os dados são de oito pesquisas do Datafolha e de 18 do Ibope. Os entrevistados, além de dizer em quem votariam para prefeito, respondem sobre quem não escolheriam de jeito nenhum.

Neste quesito, três são candidatos à reeleição como prefeitos: Duciomar Costa (PTB), em Belém, Serafim Corrêa (PSB), em Manaus, e João Henrique (PMDB), empatado com ACM Neto (DEM) em Salvador.

Para o PSTU, a rejeição é provocada por campanhas feitas sem "marqueteiros". "A gente não é mercador de ilusões. A gente trata a realidade tal qual ela é e apresenta alternativa", diz Kátia Telles, candidata da legenda em Recife. Em pesquisa do Datafolha, ela é rejeitada por 38% dos eleitores -está junto ao candidato Cadoca (PSC), com 41%.

Kátia, porém, diz que vem sendo bem recebida na campanha e que tem muita receptividade em alguns setores, como sindicatos.

Para a direção do PSOL, com alta rejeição em seis capitais, uma causa possível é a falta de um "enraizamento" do partido. "É apenas a nossa primeira eleição municipal", disse Miguel Carvalho, presidente da sigla em São Paulo.

Segundo cientista político Marcus Figueiredo, do Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro), o eleitorado tende a se afastar de posições radicais que, segundo ele, são mantidas por esses partidos.

"Eles adotam um tom denuncista. Ficam em um discurso de marcar posição política", afirma Figueiredo.

Depois do vendaval


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Arrombada a porta das divergências internas no PSDB na primeira etapa, no segundo turno da eleição municipal paulistana o governador José Serra entra em cena para tentar consertar os estragos e mergulha "de cabeça" na campanha.

Seja quem for o finalista, Geraldo Alckmin ou Gilberto Kassab, trabalhará com igual intensidade: grava nova participação no horário eleitoral, discursa (com entusiasmo?) nos eventos e marca presença ao lado do candidato, em regime de dedicação quase exclusiva.

O governador de São Paulo não superestima a influência do produto do embate municipal com o PT na construção de sua candidatura a presidente em 2010. Mas tampouco subestima o significado político de uma vitória para o presidente Luiz Inácio da Silva nem menospreza os aborrecimentos de uma relação cotidiana com Marta Suplicy na prefeitura.

Reside basicamente nesses dois motivos o imperativo de ganhar.

A administração das mágoas partidárias propriamente ditas fica para depois, inclusive porque os meios e modos de fazer os curativos dependerão do resultado.

Se Alckmin vencer, sai forte internamente. Nessa altura do empate com Kassab nas pesquisas, não tanto quanto acreditou ao insistir na candidatura contra os planos iniciais do governador de aproveitar a eleição municipal para oferecer um horário nobre ao DEM no Sudeste e abrir um espaço de apoio à sua candidatura presidencial no PMDB.

Ainda assim, fica em situação confortável porque terá uma estrutura de poder onde abrigar seus correligionários.

Se for Kassab o oponente de Marta Suplicy na etapa final, o cenário desenhado pelo lado do governador Serra é bem menos tenebroso que o esperado pelos aliados de Alckmin.

Estes jogam hoje como se não houvesse mais pontes a serem preservadas. Atacam o herdeiro-executor de uma administração montada pelo governador, certos de que, se não investirem no tudo para ir ao segundo turno agora, ficarão com nada amanhã em virtude de uma aposta errada.

Na verdade, duas, se considerada também a insistência de Geraldo Alckmin em disputar a Presidência em 2006 com Lula no lugar de Serra.

Apesar de todos os pesares, o clima no Palácio dos Bandeirantes não é de retaliação. Claro, a amenidade é estudada e tem uma escala de gradação. No nível mais alto, Serra faz pose olímpica. Não deixa transparecer um pingo de desagrado e age como se não tivesse havido atropelo algum.

Já seus auxiliares não aderem com tanta disciplina ao lema "o que não tem remédio, remediado está". Reclamam dos "exageros", falam em "desespero", "traição", mas, no essencial, seguem a linha do governador e não tratam Alckmin como peça fora do jogo político, mesmo na eventualidade de ser eliminado já em 5 de outubro.

Não que não preferissem ver Alckmin pelas costas de uma vez por todas. Mas não lhes resta outra saída além do discurso da recomposição porque, a preço de hoje, ele ainda é a escolha viável do partido para disputar o governo do Estado em 2010.

Quanto aos "radicais" de parte a parte não se vêem atritos incuráveis. Os alckmistas, se derrotados, não resistiriam aos apelos da mão estendida, caso essa disposição ao "diálogo" por parte dos serristas não seja fruto de desprendimento meramente tático.

O DEM, de Gilberto Kassab, entende-se direto com José Serra em linha completamente sem ruídos. O partido ganhou um destaque jamais sonhado em São Paulo, ficou contente de ver Serra atuando dois tons aquém do limite da responsabilidade partidária no embate Alckmin-Kassab e, agora, está mais interessado em influir na articulação para a sucessão presidencial.

Na prática, o quadro evidentemente não será tão cor-de-rosa quanto a teoria escrita em feitio de conciliação. Mas não sobra alternativa: se a inimizade é irremediável que pelo menos os negócios sejam tratados à parte.

Novo endereço

Aposta é tucana e corroborada por ala significativa do petismo: o prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, deixa o PT para disputar o governo de Minas Gerais em 2010 por uma das duas legendas: PSDB ou PSB. De todo modo, estaria perfeita e definitivamente integrado ao grupo do governador Aécio Neves.

O problema de Pimentel são as feridas abertas no PT por causa da aliança dele com Aécio para eleger Márcio Lacerda agora, na capital. A sessão municipal apoiou o prefeito, mas a estadual e nacional ficaram contra, o que lhe retira a chance de obter a legenda para disputar o governo.

A menos que o presidente Lula resolvesse intervir para manter no partido um de seus quadros mais qualificados, hoje com aprovação popular de 76%.

Mas isso dependeria de dois pré-requisitos: Pimentel querer ficar e de Aécio apoiá-lo aceitando de bom grado entregar ao PT o governo do segundo colégio eleitoral do País exatamente quando o PSDB tentará voltar à Presidência da República.

Lula assume campanha de candidata do PT em Natal

Cida Fontes, enviada especial do Estado

Ao fazer isso, presidente nacionalizou campanha, comprou briga com aliados e rachou os partidos de sua base


NATAL - Ao assumir de forma ostensiva a campanha da candidata do PT, Fátima Bezerra, à prefeitura de Natal, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nacionalizou a campanha, comprou uma briga com aliados e rachou os partidos de sua base política no Rio Grande do Norte. "O presidente tem todo o direito de apoiar quem quiser, mas só espero que ele tenha senso de discernimento para participar da campanha como cidadão e não como presidente da República ou do PT", reagiu a candidata do PV, deputada estadual Micarla de Sousa, que, apesar de enfrentar a estrutura das máquinas federal, estadual e municipal, lidera as pesquisas de intenção de voto.

Enquanto Lula patrocinava a aliança entre os contrários da política potiguar - PT, PMDB e PSB - Micarla se associava ao DEM, que faz oposição cerrada a Lula no plano nacional. Sua campanha é sustentada por cinco partidos da base aliada (PV, PTB, PR, PP, PMN). Irritados, os deputados federais cobraram recentemente uma interferência do ministro de Relações Institucionais, José Múcio, filiado ao PTB. Foi em vão, a aliança se consolidou e Micarla ficou isolada. Lula, por sua vez, se transformou no maior garoto-propaganda de Fátima Bezerra, aparecendo nas inserções e nos programas no rádio e TV pedindo votos para a companheira.

"A campanha está federalizada e causando constrangimento para nós. É como se estivéssemos disputando a presidência da República", afirmou o presidente do PR, deputado João Maia, seguindo na mesma linha do presidente da Assembléia Legislativa, Robson Faria (PMN). Dos oito deputados federais do Rio Grande do Norte, seis são integrantes da base aliada e três não apóiam Fátima Bezerra, mas sim Micarla. A presença forte de ministros do PMDB e do PT em Natal para reforçar a campanha da petista não agradou aos aliados de Micarla. "Se eles continuarem vindo depois das eleições, Natal vai virar uma Suíça", ironizou João Maia.

Micarla, de 38 anos e dois filhos pequenos, tem popularidade em Natal e sabe usar a comunicação - herdou de seu pai a TV Ponta Negra, repetidora do SBT. "O presidente Lula veio a Natal contrariando suas próprias palavras", atacou Micarla, ao destacar a promessa que Lula fez aos aliados: ficar fora da campanha onde a base aliada não estivesse unida. "Desejo que o presidente seja responsável", cutucou a candidata do PV, afirmando que, caso seja eleita, não aceitará retaliações por parte dos governos federal e municipal.

Micarla sempre esteve politicamente com a governadora Wilma de Faria, do PSB, que agora está apoiando a candidata petista. E, segundo disse, continua votando a favor de Wilma na Assembléia Legislativa. Mas em relação ao prefeito de Natal, Carlos Eduardo Alves, do PSB, primo do senador Garibaldi Alves e do deputado Henrique Eduardo Alves, ambos do PMDB, o rompimento perdura há dois anos. Após ser eleita vice-prefeita de Carlos Eduardo, em 2004, com apoio de Wilma de Faria, Micarla brigou com ele, deixou a prefeitura e se elegeu deputada estadual em 2006.

Ao se juntar ao DEM, Micarla passou a ser qualificada de "oposição" pelos adversários políticos. Mas não se intimida com os ataques nem com o acordo com o líder do DEM, senador José Agripino. "A experiência política e administrativa do DEM em Natal só ajudam", afirmou se referindo a Agripino, que já foi governador do Estado.



Líder em Porto Alegre, Fogaça prescinde do apoio de Lula

Sinara Sandri - REUTERS

PORTO ALEGRE - Enquanto aliados disputam o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e até oposicionistas tentam mostrar proximidade, o candidato à prefeitura de Porto Alegre, José Fogaça (PMDB), não tira proveito de ser de um partido da base do governo e faz campanha alheio à popularidade de Lula.

Líder nas pesquisas de intenção de voto desde o início da campanha, Fogaça aposta mais nas lideranças locais e nas alianças que montou para reforçar sua candidatura.

"Estamos disputando a eleição da capital dos gaúchos. A estratégia é fincar pé nas questões locais e não vincular com o (quadro) nacional", disse Clóvis Magalhães, coordenador da campanha de Fogaça, à Reuters.

Segundo Magalhães, a opção está associada a uma "coerência com o município", e a ênfase se baseia na formação da aliança que sustenta Fogaça e que inclui o PDT e PTB, partidos de grande expressão estadual e que já tiveram experiências na administração da capital.

Além disso, boa parte das lideranças peemedebistas gaúchas tem tradição na defesa de estratégias de construção partidária e de não alinhamento aos governos federais. Em 2006, protagonizaram um movimento em defesa da candidatura própria nas eleições presidenciais e lançaram o então governador Germano Rigotto como pré-candidato, em uma disputa interna que acabou sendo vencida pelo ex-governador do Rio, Antony Garotinho.

"O presidente Lula é fundamental como parceiro para o desenvolvimento de Porto Alegre e o PMDB é o maior parceiro do governo Lula, nem por isso o reivindicamos como cabo eleitoral", disse Magalhães.

ADVERSÁRIO COMUM
Fogaça concorre à reeleição e lidera a disputa, com 33 por cento das intenções de voto, segundo pesquisa Datafolha feita nos dias 17 e 18 de setembro. Por enquanto, assiste de camarote a uma disputa acirrada entre as deputadas federais Manuela D'Ávila (PCdoB) e Maria do Rosário (PT) pela outra vaga no segundo turno. As duas estão rigorosamente empatadas, com 18 por cento da intenções de voto, e brigam pela exclusividade do vínculo com o presidente Lula.

Manuela e Maria do Rosário aparecem emboladas desde as primeiras pesquisas. Na reta final da campanha, as equipes fazem avaliações positivas, acirram às críticas aos adversários, mas já indicam oposição a um possível governo Fogaça como o caminho para superar hostilidades e formar uma aliança no segundo turno.

"Estamos dentro dos limites do debate político e (os ataques feitos na campanha) são perfeitamente superáveis. Com certeza, teremos uma aliança das forças que estão na oposição a Fogaça", disse Adalberto Frasson, coordenador de campanha de Manuela, à Reuters. A avaliação é compartilhada pelo lado do PT, que, apesar das restrições aos PPS -- que integra a chapa de Manuela e é considerado "privatista" e herdeiro da tradição política do ex-governador Antônio Brito -, aposta em um realinhamento com o PCdoB.

"Nosso adversário é o Fogaça. Também acreditamos que seja o adversário dos comunistas", disse Rodrigo Oliveira, coordenador da campanha de Maria do Rosário, à Reuters.



O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1092&portal=

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Rio de Janeiro: disputa acirrada pelo 2º lugar


Cláudia Lamego e Fábio Vasconcelos
DEU EM O GLOBO

No Datafolha, Paes lidera com 26%; já Crivella, Jandira e Gabeira estão embolados

A18 dias da eleição, embolou a disputa pela prefeitura do Rio, mas pelo segundo lugar. Pesquisa Datafolha encomendada pela Rede Globo e pela "Folha de S.Paulo" mostra que o candidato do PMDB, Eduardo Paes, subiu um ponto mas consolidou-se na liderança, com 26% das intenções de voto. Em segundo lugar aparece Marcelo Crivella (PRB), que tinha 21% e caiu para 18%. O senador, porém, está tecnicamente empatado com Jandira Feghali (PCdoB), que foi de 12% para 13%. O candidato do PV, Fernando Gabeira, vem logo atrás, já que subiu três pontos e hoje tem 11%. Com este resultado, ele fica tecnicamente empatado com Jandira, porque a pesquisa tem margem de erro de três pontos percentuais, para mais ou para menos.

Em quinto lugar, Solange Amaral (DEM), candidata do prefeito Cesar Maia, caiu dois pontos e agora tem apenas 5%. Em seguida, surge Alessandro Molon (PT), que subiu um ponto, passando para 4%. Chico Alencar (PSOL) foi de 4% para 3% e Paulo Ramos passou de 1% para 2%. Em branco e nulos somam 11%, e 6% dos eleitores disseram que não sabem em quem vão votar ou não opinaram. Filipe Pereira (PSC) e Eduardo Serra (PCB) atingem 1%, cada. Já Antonio Carlos (PCO) e Vinicius Cordeiro não pontuaram.

Gabeira comemorou a divulgação dos números, dizendo que agora aparece para o eleitorado como candidato viável para ir ao segundo turno. Ele disse acreditar que quem o considerava bom candidato, mas estava indeciso, agora vai mudar.

- Estou crescendo, e isso é bom para que as pessoas acreditem que posso chegar ao segundo turno. Acredito que vou crescer ainda entre os indecisos. A disputa vai ser muito emocionante, voto a voto - disse Gabeira.

O candidato disse que estava perdendo eleitores para o chamado voto útil contra o senador Crivella. Gabeira afirma que pode conseguir votos de outros adversários também.

- Preciso fazer com que o voto útil não seja contra mim. Vou continuar trabalhando por mais eleitores.

Crivella tem a mais alta rejeição: 34%

Eduardo Paes, que pela primeira vez lidera fora da margem de erro, também comemorou o resultado:

- Vejo com muita alegria, mas com humildade, porque tem muito trabalho pela frente. Pelo que leio nos jornais, existe equilíbrio das intenções de voto em todas as classes sociais. Acho que isso é muito bom.

Com os dados, Jandira disse estar convencida de que vai disputar o segundo turno.

- Essa possibilidade vem se reafirmando a cada pesquisa. Temos um número de indecisos enorme na pesquisa espontânea do Rio. Além disso, tenho sentido o carinho das ruas.

Procurado, Crivella não quis comentar a pesquisa.

Nas simulações de segundo turno, Eduardo Paes ganha dos dois principais adversários. Com Crivella, o placar ficaria em 53% a 32% para o peemedebista. Se fosse contra Jandira, ele venceria por 48% a 37%. Se a disputa fosse entre Jandira e Crivella, a candidata ganharia por 47% a 36%.

Crivella é o candidato mais rejeitado, com 34% de eleitores que não votariam nele de jeito nenhum. Solange e Gabeira vêm em seguida, com índices de 26% e 22%, respectivamente. Molon tem 18% de rejeição e Paes, 15%. Filipe Pereira é rejeitado por 14%; Chico Alencar por 13%; Vinicius Cordeiro e Paulo Ramos com 12%, cada, Eduardo Serra com 10% e, com a menor taxa de rejeição, Antonio Carlos (6%). (O site do Datafolha não tinha ontem à noite o índice de rejeição de Jandira).

O Datafolha entrevistou 930 eleitores entre os dias 17 e 18 de setembro. A pesquisa foi registrada no Tribunal Regional Eleitoral do Rio sob o número RPE 32/2008.

Só mudou o padroeiro

Editorial
DEU NO JORNAL DO COMMERCIO(PE)

Desde que morreu, em julho de 1934, o padre Cícero Romão Batista, de Juazeiro do Ceará, virou padroeiro dos políticos, cabo eleitoral predileto em todas as campanhas municipais. Fotos do candidato ao lado do padre, santinhos recorrendo ao apoio dele eram indispensáveis, assim como calendários com a foto do mais carismático religioso dos sertões nordestinos, associado ao pretendente do cargo público. Na eleição municipal deste ano, porém, os políticos têm um novo padroeiro: no lugar do padre cearense, o pernambucano presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. É impressionante a multiplicação da foto de Lula sorridente, majestático em sua pose de presidente da República, ao lado de candidatos de todas as tendências. Da mais tradicional direita à mais aguerrida esquerda, exceto, claro, seus arquiinimigos Psol e PSTU. Até candidatos do partido de Maluf – aparentemente incompatível com a idéia de um presidente do PT – disputam o direito de se apresentar como prefeito, ou vereador, de Lula.

Se não havia estudos bem fundamentados para mensurar em votos o peso da foto do Padre Cícero, nas eleições municipais deste ano dá para fazer algumas aproximações e associar o crescimento de candidatos na mesma proporção de sua identificação com o presidente da República. O caso do Recife é emblemático. O atual prefeito seguramente tem boa aceitação, o governador, idem, mas é o padroeiro Lula que parece fazer a balança pesar mais para um lado, assim como vem acontecendo em todos os municípios onde o lugar do Padre Cícero foi ocupado por Lula. Fica faltando, porém, avaliar o que representa de transformação essa troca de santinhos. Se nos 70 anos em que foi apresentado como patrono de candidatos a prefeitos ou vereadores nenhum avanço substancial pode ser associado ao patrocínio do Padre Cícero, é interessante se questionar o que pode mudar com a troca.

O que parece é que nada aponta para avanços no gerenciamento municipal da quase totalidade dos municípios. Aqui em Pernambuco, por exemplo, o que aconteceu de significativo está sendo a definição de grandes pólos econômicos a partir da iniciativa privada impulsionada pelos poderes públicos estadual e federal, como é o caso do complexo industrial-portuário de Suape, que transforma Ipojuca num dos cinco maiores, mais dinâmicos e como maior economia do Estado, o pólo de confecções, que dá a Caruaru um perfil de capital do Agreste, os grandes empreendimentos do agronegócio que fazem de Petrolina a capital do Sertão, ou, em processo de instalação, o grupo da Perdigão/Batavo, levando para Bom Conselho e vizinhanças uma pujança nunca imaginada.

Tudo isso a partir do capital privado que se instala com ânimo e gera mudanças substanciais, como nunca sonhou qualquer gerente da coisa pública municipal, mesmo quando há potencial, porque sua ação se esgota em quatro, no máximo oito anos, faltando alguns componentes fundamentais, como a continuidade da obra, a busca de projetos estruturadores, a capacidade de articulação microrregional para a identificação de vocações econômicas. Atitudes que não acompanha, sequer como manifestação de boa intenção, a propaganda dos candidatos locais ao lado do presidente da República. Não há explicação para a presença do padroeiro, a não ser o fato de ser ele o realizador do mais bem sucedido programa de transferência de renda da história do Brasil, o Bolsa-Família.

E é aí onde se explica o “milagre” do santo Lula, destronando o Padre Cícero do Juazeiro: o Bolsa-Família chega onde nunca chegou qualquer programa de governo: os excluídos na mais rigorosa expressão do termo, porque estavam fora inteiramente do mercado de consumo. Com o programa – que no vulgo é tratado como “o dinheiro de Lula” – passa a haver renda, consumo, e a inevitável dependência, o medo mesmo, de que não votando em Lula, ou contra ele, também desapareça o benefício. O problema que permanece, porém, é que essa renda não é suficiente para ativar a economia local de forma a gerar a atração de investimentos que, aí sim, mudariam o perfil das comunidades onde as coisas continuam como no tempo em que o principal padroeiro era o Padre Cícero.

Desconversa desafinada


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Vista assim do alto, a Babel reinante no ambiente federal parece sintoma de uma grave crise. De repercussão institucional, até. Observada mais de perto, porém, a cena de autoridades falando idiomas diferentes entre si nos revela um quadro mais prosaico: desorganização e ausência de liderança na coordenação e formação de consensos no governo.

Na ausência do árbitro, cada um joga como pode, como quer ou como sabe. A pelada do momento impressiona porque envolve o Ministério da Defesa, a agência de inteligência da Presidência e a Polícia Federal. Mas, no fundo, é a mesma de sempre.

Pertence àquela zona obscura onde coisa alguma tem conseqüência, localizada entre duas áreas de competências e metas bem definidas: a condução da economia segundo o manual da “herança maldita” e a central de produções de eventos eleitorais tocada pessoalmente pelo presidente da República em regime de dedicação quase exclusiva.

Entre um discurso e outro, justiça seja feita, o presidente Luiz Inácio da Silva faz algumas paradas, reúne o staff, toma a decisão ao molde pedido pela ocasião e parte para o próximo palanque. Tudo muito bom, não fosse a vida real uma fonte de desconfortos.

Como este agora em que o aparato de segurança do Estado apresenta-se ao País em situação de completa insegurança. Apenas pela oportunidade de enxergar isso com clareza é que não se pode considerar totalmente perdidos os 20 dias transcorridos desde a comprovação pública da interceptação ilegal de um telefonema entre o presidente do Supremo Tribunal Federal e o senador da República.

Não fora por essa preciosa demonstração de transparência, seria correta a constatação de volta à estaca zero.

Foram quase três semanas de muito movimento e falatório, ao fim das quais a razão apresentada pelo ministro da Defesa para justificar a “providência imediata” de afastar a diretoria da Abin é desmentida pela perícia da Polícia Federal.

Para todos os efeitos, Lula tomou aquela atitude porque o ministro Nelson Jobim o convenceu de que a agência comprara equipamentos de escuta, extrapolando suas atribuições legais.

Pois bem: depois de assistir calado ao Exército, à PF e aos diretores afastados da Abin negarem fé à afirmação do ministro da Defesa, o presidente vê desmontado o fundamento da própria decisão: os equipamentos não podem fazer escutas telefônicas.

A menos que se admita a possibilidade de o laudo do Instituto Nacional de Criminalística da PF ser uma fraude ou de Jobim conhecer outro tipo de aparelhagem que não a examinada, só há uma conclusão possível: ou o presidente foi induzido ao erro ou induziu ele próprio a Nação ao equívoco.

A primeira hipótese deixa Lula na posição de marionete. Ainda que o presidente jamais tivesse ouvido falar no avanço desenfreado dos grampos em Brasília, da publicação da denúncia na Veja até o anúncio da decisão, teve praticamente três dias para se informar e refletir.

Como não é crível que um presidente há quase seis anos no poder, com dotes de transformação e conhecimento profundo da realidade brasileira nunca antes vistos neste País, se deixasse levar dessa maneira, sem nem conferir o “dado concreto”, a lei da gravidade nos leva à segunda hipótese.

Não que o presidente tenha posto sua decisão deliberadamente a serviço de um falso (segundo a PF republicana) testemunho por esporte. Foi por hábito mesmo. Ou melhor, no caso, por alteração repentina na maneira usual de gerência de crises.

Publicada a denúncia, dessa vez não dava para negar, levar em banho-maria e ir adiando as coisas até a escolha de um bode expiatório de menor porte para protagonista do habitual epílogo sem desfecho.

No sábado à tarde, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, avisou que chamaria o presidente “às falas”. Na segunda-feira de manhã o presidente o recebeu, na mesma noite anunciou o afastamento da diretoria da Abin.

Segundo versão publicada já nos jornais do dia seguinte, baseado em “evidências contundentes” apresentadas por Nelson Jobim na véspera. De acordo com a Polícia Federal, não eram evidências nem tampouco contundentes.

Desde o começo parecera um arranjo feito às pressas para atender à demanda do Supremo por um gesto além dos costumeiros pedidos de investigação profunda.

Só que havia interesses e corporações diversos envolvidos. Não se tratava de petistas disciplinados dispostos a pagar as contas em silêncio.

Mexeu-se com estruturas mais antigas. Nem o Exército, nem a PF nem a área de inteligência funcionam na lógica partidária, mas, assim como o partido, têm instinto de sobrevivência e partiram para as respectivas defesas.

Sem a intenção de criar problemas ao Palácio do Planalto. Não era uma ofensiva contra, mas a defensiva expôs o desencontro. No afã de cobrir um santo, deixaram-se dois a descoberto: a desorganização do governo e os grampos propriamente ditos, a respeito dos quais nunca mais se falou.

Apoio oficial à união de homossexuais


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL


Agora é para valer: nunca, desde o marechal Deodoro da Fonseca a Fernando Henrique Cardoso, passando pela ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas e pelos quase 21 anos dos cinco generais-presidente da ditadura militar, um presidente da República ousou tanto como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na fantástica entrevista concedida ao canal oficial da TV Brasil, na estréia do programa 3 a 1.

Com a ênfase da voz impostada para a solenidade do recado à posteridade, Lula defendeu com apaixonada ênfase a união civil entre homossexuais e condenou a hipocrisia com que o tema é tratado pelos que fogem do debate, com medo de dizer o que pensam.

Em dia inspirado, só titubeou uma vez ao driblar com ginga de corpo à pergunta se pretendia enviar ao Congresso projeto de lei abrindo a janela para a oficialização da união entre homens e mulheres.

Mas compensou a esquiva com o vigor com que desnudou as sua opinião pessoal, que é a do Presidente da República: "Temos de parar com a hipocrisia porque a gente sabe que existe". Não deixou o verbo no ar e foi adiante: "Tem homem morando com homem, mulher com mulher e muitas vezes vivem bem, de forma extraordinária". Achou que ainda era pouco e emendou de primeira: "Constroem uma vida juntos, trabalham juntos e por isso sou favorável".

O presidente não quis deixar pedra sobre pedra no pedestal da sua militância pela causa. E virou a chibata para a surra nos adversários da felicidade conjugal do casal gay: "Porque os políticos que são contra não recusam os votos deles, por que o Estado brasileiro não recusa os impostos que eles pagam?" A pergunta, como que formulada diante do espelho, ricocheteia na justificativa frouxa e óbvia: "O importante é que sejam cidadãos brasileiros, respeitem a Constituição e cumpram com seu compromisso com a nação". E arrematou com o recado da despedida: "O resto é problema deles e eu sou defensor da união civil".

Já se pode prever, sem a pimenta da malícia, que o presidente Lula será o grande homenageado das próximas paradas gays. Com toda a justiça.

Mas como estava com a mão na massa, da união civil entre homossexuais, o presidente passou, sem mudar a toada, para a defesa da legalização do aborto.

Começou por invocar a coerência de exatos 26 anos da "posição de tratar o aborto como questão de saúde pública". Moderou a cadência para a ressalva explícita: "Se você perguntar para mim, presidente Lula, o senhor é contra ou a favor do aborto? Sou contra, minha mulher é contra, mas o Estado tem de dar atendimento".

E mais não disse nem lhe foi perguntado.

Os próximos dias esclarecerão se o presidente Lula decidiu renovar o estilo de campanha para a disparada na reta final ou se apenas viveu o seu momento de desabafo para desfazer dubiedades que o aborreciam.

Não cabe o balanço da dúvida quanto a sua inabalável certeza de que nada abalará a sua popularidade recordista e em ascensão nas pesquisas, nas alturas de 62% e da eleição da ministra-candidata Dilma Rousseff, em 2010, para sucedê-lo. Uma candidata feita em casa, imposta pela sua liderança e aceita ou engolida pela virtual unanimidade do PT, com pequenas ranhuras no bloco dos aliados.

Mais dia, menos dia, todos acertarão o passo na marcha para as urnas. A crise que tensiona os mercados do mundo não preocupa o presidente que já combinou com o ministro Guido Mantega, da Fazenda, que ela será "imperceptível pelos brasileiros".

Portanto, nada a temer. Nem o repique da crise econômica ou a oficialização da união civil entre homossexuais. E também a legalização do aborto.

O governo é pra frente, moderno, puxa o cordão.

A realidade se impõe


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO

NOVA YORK. Tudo indica que os fatos econômicos são tão evidentes e agressivos que mesmo os preconceitos contra o candidato democrata Barack Obama estão sendo superados. A tendência do conjunto de pesquisas voltou a ser favorável a ele, e a crise econômica está fazendo com que o passado de John McCain cobre um pesado pedágio. O furacão Palin, como ficou sendo conhecida a vice da chapa do republicano John McCain, foi varrido do centro da cena política pelo furacão econômico, que não está deixando pedra sobre pedra em Wall Street e similares pelo mundo.

O senador John McCain, que tenta se distanciar do fracasso da gestão Bush, acabou irremediavelmente ligado a um outro frustrado presidente republicano, Herbert Hoover, em cujo governo deu-se a quebradeira da Bolsa em outubro de 1929 que desencadeou a Grande Depressão nos anos seguintes. Hoover entraria para a história pela insistência em dizer, no dia seguinte à "quinta-feira negra", que "o negócio básico do país, isto é, a produção e distribuição de commodities, está em bases sólidas e prósperas".

Praticamente o mesmo que McCain disse e repetiu nos últimos dias: "Os fundamentos de nossa economia são fortes". Ao mesmo tempo, a transformação de McCain em um campeão da regulamentação dura dos mercados financeiros está fazendo com que seja relembrado o caso da Lincoln Savings & Loan Association, que quebrou devido a uma série de procedimentos irregulares.

Em sua biografia, McCain se lamenta pelo caso, e admite que ele fará parte de sua história "até a tumba", o que está realmente acontecendo. Como um fantasma do passado, a investigação do comitê de ética do Senado que levou a que cinco senadores, entre eles McCain, fossem acusados de tentar interferir no processo aberto pelo Federal Home Loan Bank Board, está sendo relembrada a todo momento.

McCain foi advertido naquela ocasião, início dos anos 1990, pelo comitê de ética do Senado por ter agido de maneira imprudente no episódio, e outros senadores foram censurados. Em sua biografia, McCain admite que não deveria ter ido a uma reunião em que a questão foi discutida com os investigadores, e que deveria ter saído quando um deles disse que os senadores não deveriam insistir na defesa da instituição, mesmo sabendo que o assunto estava sendo encaminhado para a Justiça.

O problema maior de McCain foi a revelação de que ele e sua mulher Cindy eram amigos íntimos de Charles Keating, o dono da Lincoln Savings, de cujo avião corporativo se utilizavam para passar fins de semana nas Bahamas, e eram até sócios em um shopping center. Em meio ao processo, McCain teve que ressarcir as viagens de avião.

Com boa vontade, se poderia dizer que McCain aprendeu com o episódio e mudou de posição com relação ao mercado financeiro. Mas, essa é uma interpretação que não bate com os fatos. Seu principal assessor econômico até recentemente, Phil Gramn, foi o senador responsável pelo movimento que fez com que a legislação financeira fosse gradativamente flexibilizada. Saiu oficialmente da campanha depois de dizer que o que havia no país era uma "recessão mental", e de chamar os cidadãos que reclamam da crise econômica de "choramingões".

James Galbraith, economista da Universidade do Texas, onde Gramn se formou, o definia como "o mais agressivo advogado de todo instrumento predatório e ganancioso do setor financeiro, um aprendiz de feiticeiro da instabilidade e do desastre no sistema financeiro".

A situação de John McCain está tão delicada, diante da atitude do governo americano que dá sinais trocados a cada dia da crise, que o candidato republicano elogiou em um dia o fato de o governo não ter acudido o banco Lehman Brothers, e dois dias depois foi obrigado a também elogiar o resgate do grupo de seguros AIG.

Desorientados estão também os congressistas do Partido Republicano, que não estão sendo consultados pelo governo e são surpreendidos pelas medidas anunciadas. O líder da minoria, Whip Roy Blunt, fez questão de registrar que a base parlamentar do governo não está entendendo a estratégia do governo, "se é que existe uma".

E criticou a intervenção do governo tanto na AIG quanto anteriormente nas duas gigantes das hipotecas, Fanny Mae e Freddy Mac, que feririam o cerne do pensamento econômico conservador, que é o livre mercado.

O fato é que, se Obama teve uma mudança no comportamento político desde que foi indicado oficialmente como candidato democrata à Presidência, sendo acusado de ter cedido ao establishment de Washington e à direção partidária, colocando sua candidatura mais para o centro ideológico do que mantendo-a na esquerda do partido, de onde provém, McCain passou por uma transformação maior ainda. E se Obama conseguiu manter uma base homogênea na sua linha de conduta, mesmo com algumas mudanças, o mesmo não aconteceu com McCain.

O senador republicano teve sua vitória nas primárias baseada no fato de ser um republicano "light", quase um democrata ou, quem sabe, um independente. Com a péssima fama do governo Bush, o eleitorado republicano buscou no moderado McCain uma alternativa à renovação proposta pelo democrata Obama.

A escolha da vice Sarah Palin foi feita para marcar a independência da candidatura em relação à direção partidária, mas também para dar à base radical dos conservadores um motivo para votar na chapa.

A novidade foi tão grande que pareceu mudar os rumos da campanha, até que a realidade da crise econômica falou mais alto do que a fantasia que os republicanos estavam apresentando a seu público. O próprio McCain, tentando reinventar-se como adversário do establishment de Washington e agora de Wall Street, é um monstrengo pouco plausível. Tudo indica que a realidade é por demais dura para ser mascarada por uma proposta claramente falsa.

Mico federal


Miriam Leitão
DEU EM O GLOBO

Crise sistêmica é aquilo que os bancos centrais fazem qualquer loucura para evitar. O ex-presidente do BC, Armínio Fraga, disse que "com certeza pode-se chamar o que está acontecendo de crise sistêmica". O alívio ontem veio pela informação de que o governo americano pode absorver todo o mico imobiliário. Isso mostrou que o Tesouro e o Fed farão qualquer coisa para evitar a crise sistêmica.

Derivativos piores da expressão - como systemic disaster, por exemplo - passaram a ser usados pela imprensa, americana e inglesa, para definir o quarto dia em que tudo o que parecia impossível continuava acontecendo. No fim, veio o alívio: a informação de que as autoridades americanas estão estudando intervenção mais forte e mais permanente para evitar o desastre. Entre as possibilidades, a criação de uma agência para absorver todo o lixo hipotecário que o mercado não consegue digerir. O mesmo expediente de estatização do prejuízo produzido pelo mercado financeiro foi usado na crise das instituições de poupança e empréstimo, no fim dos anos 80.

Armínio Fraga, na entrevista que me concedeu na Globonews, disse que acha que é uma boa idéia, desde que se punam os maus administradores e, se houver fraude, que se puna criminalmente quem a cometeu. Ele disse que uma ação mais forte é inevitável para interromper o ciclo vicioso que está se formando, de liquidação de posições, que leva a crise cada vez mais fundo, a um ponto que não precisa ser explorado, porque se sabe o final.

- Se deixarem a coisa correr solta, mais bancos vão quebrar. Não acredito que vão deixar a coisa correr. Eu já passei por um banco central. Você olha para o abismo, vê lá embaixo as pedras e decide não correr o risco de deixar cair.

O abismo e as pedras foram criadas pelo próprio mercado. Ontem, pela primeira vez, as autoridades se deram conta de que um dos absurdos continuava acontecendo: a venda a descoberto das ações dos bancos. Assim, quem quer especular vende a descoberto. Não tem a ação, mas vende apostando na queda. Isso é um ambiente perfeito para os boatos.

- Quem vende, quer que a ação caia e, por isso, dissemina o boato. Agora isso começará a ser contido - explicou Álvaro Bandeira, da Ágora.

Ontem, o maior fundo de pensão americano, o Calpers, avisou que não vai mais "alugar" ação para esse tipo de operação. Em Londres, as autoridades decidiram suspender esse tipo de operação até 2009.

É um espanto que os reguladores americanos não tenham proibido esse foco de especulação há mais tempo. O mercado fez ao longo do boom que antecedeu esta crise várias outras maluquices que acabaram produzindo a crise, que vai acabar batendo no bolso do contribuinte.

Armínio acha que o argumento de que não é justo que o contribuinte pague a conta deve ser visto também por outro ângulo.

- As conseqüências de não salvar uma instituição como a AIG podem ser gravíssimas do ponto de vista social e econômico. A solução da AIG faz sentido. É uma solução que pune de forma radical os acionistas, pune os investidores, mas protege o sistema. A economia precisa de dinheiro circulando como o sangue no corpo da gente.

Para Armínio, esta foi a pior semana desta crise que já tem um ano e que se prolongará nos próximos trimestres. Ninguém discordaria. Uma semana em que o Lehman Brothers quebrou, o Merrill Lynch foi vendido às pressas, a AIG foi estatizada, o Morgan Stanley entrou na linha de tiro e todo o sistema parecia às vésperas do colapso. O dia ontem começou com uma megainjeção de dinheiro no mercado por uma ação conjunta dos bancos centrais, que não teve poder para resolver o problema. Logo depois, a volatilidade retomaria seu ritmo.

- Esta semana foi a pior de todas. Quem tinha dinheiro, e queria procurar um porto seguro, tinha que comprar títulos do Tesouro americano e, com isso, a taxa dos títulos chegou a zero e a alguns momentos negativos. Isso significa que o investidor estava pagando um prêmio ao Tesouro para ele ficar com o dinheiro - disse Armínio.

O governo brasileiro acordou ontem para a crise. Apesar de não ter nada com isso diretamente, o Brasil chegou a ter alta de 71% do risco-país. Ele estava, no começo do ano, em 212, anteontem chegou a 370 e ontem caiu para 323. O dólar saiu do nível de R$1,60 para R$1,96. Caiu, e fechou, em R$1,93, mas no mês já subiu 18%. E só caiu depois que o Banco Central anunciou uma operação de venda de dólar à vista e recompra no mercado futuro. Bancos vendidos em dólar tiveram que zerar posição.

Para se ter uma idéia de como o Brasil está despreparado para a crise, por falta de capacidade das autoridades de entenderem minimamente o que se passa, basta lembrar que na terça-feira o presidente Lula disse que a crise americana iria afetar o Brasil de forma "imperceptível". O ministro da Fazenda, Guido Mantega, fez pior com sua desastrada declaração de que o consumidor deveria comprar e se endividar, isso em pleno olho do furacão da crise. Essa visão alienada da realidade chocou-se com os fatos. Ontem mesmo o Banco Central brasileiro estava vendendo dólar para conter a alta. Melhor faz o BC, que tem a noção da gravidade da crise e dos contágios aleatórios do mundo globalizado.

Parem o mercado, querem descer


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - Dois momentos, separados por escassos 14 meses, dão uma idéia perfeita da marcha acelerada da crise global.

Momento 1 - Na cúpula do G8, em junho de 2007, o governo alemão, o anfitrião de turno, queria que fosse discutido algum tipo de código de conduta para os agentes do mercado financeiro, em especial para os "hedge funds", esses que apostam em diferentes ativos para se proteger caso uma (ou mais de uma) das apostas dê errado. Seria uma espécie de auto-regulação.

Explicava à época o ministro alemão de Finanças, Peer Steinbrueck, que tais fundos especulativos representam "um risco sistêmico".

Por quê? Simples: "Alguns deles estão alavancados cinco, seis ou até sete vezes, o que significa que os credores podem ser seriamente prejudicados se um desses fundos se tornar insolvente", explicava Steinbrueck.

Ou seja, previa tudo o que viria logo depois (a crise, então chamada modesta e incorretamente de "crise das subprime", estourou em agosto, dois meses depois). Os Estados Unidos rejeitaram a proposta alemã. Deu no que se vê.

Momento 2 - O presidente da poderosa Confederação Espanhola de Organizações Empresariais, Gerardo Díaz Ferrán, fez anteontem a seguinte declaração: "Creio na liberdade de mercado, mas, na vida, há conjunturas excepcionais. Pode-se fazer um parêntesis na economia de livre mercado".

Passou-se, pois, em meros 14 meses, de uma proposta de auto-regulação, típica medida de mercado, à impossível hibernação do próprio mercado.

Não se aceitou a primeira porque os governos, todos, têm medo do mercado e não o enfrentam.


E, para executar a segunda, seria preciso que houvesse um estadista disponível no mercado de governantes capaz de apresentar alguma idéia, uma que fosse, para organizar a farra. Você conhece algum?

Para OMC, crise afetará saldo comercial do País

Jamil Chade, GENEBRA
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Estagnação da UE e dos EUA reduzirá exportações

A crise mundial deverá afetar diretamente a capacidade do Brasil de manter o superávit comercial, avaliam economistas da Organização Mundial do Comércio (OMC). Eles já estão até reduzindo a estimativa de expansão das exportações e importações brasileiras em 2008.

Com a Europa entrando em recessão e os Estados Unidos em situação difícil, a perspectiva é de que comprem menos. Mais de 45% das exportações brasileiras são para esses dois mercados. Ao mesmo tempo, as importações não dão sinais de queda brusca, pelo menos por enquanto.

Para completar, a crise deve ainda reduzir os preços internacionais de minérios. No setor agrícola, a OMC prevê uma safra positiva em muitos mercados, o que deve também reduzir os preços internacionais. Dados da OMC confirmam que, em 2007, a alta nos preços foi fundamental para a balança comercial do País.

Michael Finger, economista da OMC, confirma que o crescimento de 4,5% previsto no início do ano para o comércio mundial será reavaliado. “Já estamos fazendo esse trabalho, com base nos novos dados de crescimento do PIB para o ano.” O secretário-geral da Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento e Comércio (Unctad), Supachai Panitchpakdi, confirma. “A crise financeira pode se transformar em crise de comércio. O sistema comercial mundial será duramente afetado, como já começamos a ver. O comércio precisa ser financiado.”

Dados da União Européia (UE) indicam que o comércio com os Estados Unidos e o Japão foi reduzido nos seis primeiros meses do ano diante da desaceleração em Washington e Tóquio. Para o mercado americano, as exportações européias caíram 4%, mesmo índice das vendas para o Japão.

Os 27 países da UE tiveram déficit somado de 21,5 bilhões em julho, ante 13,6 bilhões no mesmo mês de 2007. O buraco não é maior graças aos países emergentes, cuja economia continua crescendo. Em parte, o crescimento do Brasil explicaria a ameaça ao superávit. O País incrementou em 12% as exportações para a Europa nos seis primeiros meses do ano, com 17 bilhões de euros. As importações aumentaram 20%.

A China se distanciou dos Estados Unidos e hoje é a maior fornecedora de bens para o mercado europeu. Entre janeiro e junho, Pequim exportou 111 bilhões para a UE, um aumento de 15% em relação ao ano anterior. Já os europeus exportaram 16% mais para os chineses neste ano, ante 24% mais para a Rússia.