domingo, 27 de fevereiro de 2022

Merval Pereira: Brasil em cima do muro

O Globo

A guerra da Ucrânia será “longa”, segundo o presidente da França, Emmanuel Macron, e o Brasil terá que tomar uma posição firme na medida que os países democráticos ocidentais vão assumindo cada vez mais a defesa da Ucrânia, enviando até mesmo armamentos.

Ao mesmo tempo em que assinou a declaração do Conselho de Segurança da ONU contrária à invasão russa, o Brasil se recusou a apoiar uma moção da OEA no mesmo sentido, seguindo países como Nicarágua e Cuba. A alegação técnica é que a Ucrânia não está nas Américas, o que é verdade, mas o apoio simbólico ao país invadido seria um gesto  que refletiria a posição brasileira com mais firmeza, deixando de lado a sensação de equilibrismo numa situação que não admite rodeios.

Putin já  afirmou que o fim da União Soviética foi a "desintegração da Rússia histórica". A escalada de Putin, na tentativa de conquistar toda a Ucrânia, reflete seu pensamento geopolítico. Ele já declarara anteriormente que o fim da União Soviética foi "o maior desastre geopolítico do século 20".  Segundo ele, 25 milhões de russos nos novos países independentes “de repente se sentiram desconectados da Rússia, uma grande tragédia humanitária".

Eliane Cantanhêde: Na paz e na guerra

O Estado de S. Paulo

A Rússia invade a Ucrânia, o mundo reage e Bolsonaro está em outro planeta

Enquanto a Bahia afundava em dor, lama e mortes, o presidente Jair Bolsonaro gastava R$ 900 mil para andar de jet ski no lindo mar azul de Santa Catarina. Enquanto o mundo afunda em ameaças e incertezas com a guerra na Ucrânia, Bolsonaro faz motociatas por aí. Para que serve um presidente? Para curtir a vida e fazer campanha?

Na definição do ex-chanceler Celso Amorim, a posição brasileira é “esquizofrênica”. Bolsonaro lava as mãos, como quem não tem nada a ver com isso, o vice Hamilton Mourão radicaliza, defendendo o “uso da força” contra a Rússia, e o Itamaraty faz contorcionismos em busca de racionalidade.

Rolf Kuntz: Bolsonaro, Orbán e Putin

O Estado de S. Paulo

Admirador de chefões autoritários, o presidente prefere passear de moto a falar sobre um ato de banditismo internacional

Dois chefões autoritários, um de direita, outro com carteirinha de comunista, foram visitados e afagados pelo presidente Jair Bolsonaro em sua última excursão fora do Brasil. O de direita, Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, foi saudado num discurso de inspiração fascista, com referência a valores comuns: Deus, pátria, família e liberdade. Ao outro, Vladimir Putin, presidente da Rússia, Bolsonaro se declarou solidário, apesar da conhecida ameaça de ataque à Ucrânia. A invasão, com forças de terra, mar e ar, ocorreu na semana seguinte.

Atacada a Ucrânia, Bolsonaro evitou comentar o assunto, enquanto o Itamaraty publicava uma nota vergonhosa, conclamando as partes a “negociações conducentes a uma solução diplomática da questão”. O agredido tem de negociar com o agressor? Os dois são culpados pela violência? Não houve espaço ou tinta para uma palavrinha de censura a um ato de banditismo? O vicepresidente Hamilton Mourão fez uma declaração séria, comparando o ataque russo ao expansionismo nazista, mas foi desautorizado. “Quem fala sobre o assunto é o presidente da República”, disse Bolsonaro, mas quem esperou sua fala perdeu tempo.

José Augusto Guilhon Albuquerque*: A candidatura de Bolsonaro tem jeito?

O Estado de S. Paulo

Pode ele reconhecer os erros, corrigir sua trajetória e se empenhar em entender as necessidades vitais do povo brasileiro?

A conduta do presidente assusta o Planalto e desafia seus opositores, pois parece haver consenso entre as elites dirigentes. Ou ele muda de atitude – para de provocar controvérsias irrelevantes, de se opor a pautas majoritárias na população, para de hesitar diante de decisões vitais para a parte mais vulnerável do eleitorado, e começa a governar seriamente – ou não chegará ao segundo turno.

Interpretar suas motivações parece ser urgente. Mas não se pode abrir a cabeça das pessoas e observar o que se passa lá dentro. Para entender o comportamento de um político, antes de especular sobre conversas de bastidores ou declarações de intenções, convém observar... o seu comportamento.

Muitos são os registros das condutas de Jair Bolsonaro como oficial do Exército e como parlamentar, e acompanhamos seu comportamento público durante três anos de mandato presidencial. As questões relevantes a observar nessas funções seriam: saber se seu comportamento segue um padrão ou é errático; em que consiste esse padrão, se houver; e qual é seu objetivo.

É preciso saber se existe continuidade de padrão entre essas funções ou em que consistiriam as eventuais mudanças de padrão e de objetivo. Resta, ainda, saber se é possível o presidente alterar sua conduta, tornando-a compatível com uma candidatura competitiva no segundo turno de 2022.

Ruy Castro: Contar votos ou canhões

Folha de S. Paulo

Canhões são uma metáfora, mas não muito longe da realidade. Quem vai sair da frente para o outro atirar?

A familiaridade com que discutimos se haverá ou não um golpe no Brasil, antes, durante ou depois das eleições, é quase inédita. Em 1964, deu-se um golpe sob o pretexto de que o outro lado —o governo— estava preparando o seu, embora, como se constatou, ele não tivesse nenhuma condição para isso. Os vitoriosos não precisaram disparar um tiro. Agora, não. A ameaça vem de quem não apenas detém o comando efetivo da força como está há anos atiçando e munindo uma força paralela para agir a seu favor.

Bruno Boghossian: Deu zebra

Folha de S. Paulo

Pressão de religiosos é insuficiente quando grupo se distancia dos interesses do centrão

Pastores fizeram uma operação para barrar a liberação de cassinos, bingos e jogo do bicho no país. O esforço não deu resultado: a proposta avançou na Câmara e contou até com o apoio de parlamentares que integram a bancada evangélica. Dos 180 deputados do grupo, só 83 votaram contra a legalização da jogatina.

O placar mostra que, embora barulhenta e numerosa, essa bancada enfrenta limitações de coordenação e mobilização. No papel, um de cada três deputados faz parte da frente parlamentar evangélica, mas são poucos os casos em que esses políticos agem unidos ou incluem a religião no cálculo de suas votações.

Integram formalmente a bancada evangélica desde o ex-ator pornô Alexandre Frota (PSDB) até o deputado Altineu Côrtes, líder do PL de Jair Bolsonaro. Os dois votaram a favor da liberação dos jogos. Também é signatário da frente parlamentar o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP), que comandou a aprovação do texto e disse que as críticas à proposta partiam de "grupos sectários".

Bernardo Mello Franco: A folia da jogatina

O Globo

O carnaval começou mais cedo para a turma da jogatina. Na madrugada de quinta, a Câmara aprovou um projeto que legaliza cassinos, bingos e caça-níqueis. A folia também incluiu o jogo do bicho, cujos chefes passaram a se aliar às milícias.

A operação foi pilotada por Arthur Lira. Ele desengavetou um texto apresentado há 31 anos e comandou sua aprovação em apenas três horas. O deputado defendeu a proposta com um argumento que poderia ser usado em favor da liberação das drogas: “Todos nós sabemos que isso existe. Mas tem que existir na clandestinidade?”.

Estudos da Polícia Federal, da Receita Federal e da Procuradoria-Geral da República mostram que a questão não é tão simples. Bingos e cassinos são instrumentos poderosos para a lavagem de dinheiro do crime organizado. “Seria pueril imaginar que a legalização vai acabar com a corrupção”, alertou a PGR em 2016.

Vinicius Torres Freire: A Guerra de Putin e a política nos EUA

Folha de S. Paulo

Crise na Ucrânia altera debate sobre clima, energia importada e ameaça estrangeira

Joe Biden preocupa-se com quantas mulheres vai nomear para o Banco Central. Seu Partido Democrata se ocupa de quais pronomes pessoais usar com pessoas LGBTQ+ —ou não. Quer cortar a despesa militar e fazer uma transição para a "economia verde" que sujeita o país a caprichos de estrangeiros, de quem depende para ter energia bastante ou a preço razoável.

A direita tradicional americana cai assim de pau em Biden, acusado também de molenga com Vladimir Putin. Sim, a direita tradicional e letrada do Partido Republicano. Os trumpistas vão além. Elogiam Putin e querem deixar a Rússia para lá, pois o problema seria a China.

Percebe-se por que Jair Bolsonaro lambe as botas de Putin: porque pegou gosto lambendo a sola de Trump.

A direita tradicional e parte dos democratas querem que Biden arranque o couro de Putin até para mostrar à China que não está para brincadeira e que não vai tolerar nem sinal de ucranização de Taiwan. Querem também que o governo derrube restrições ambientais à produção de petróleo e gás, de modo a tornar os EUA independente e capaz de vender a energia de que seus aliados precisam, dane-se a transição verde. Enfim, diz que os americanos devem se preparar para uma nova Guerra Fria, o que implica ter ideias diferentes sobre autossuficiência econômica em itens estratégicos, alterar a política de alianças regionais (exigindo mais fidelidade) e mudar suas bases militares para perto das fronteiras inimigas, da Rússia em particular.

Janio de Freitas: Fabricantes de crises letais

Folha de S. Paulo

A culpa na ocupação na Ucrânia tem muitos donos

A preliminar de todas as turbulências em que se envolveram Estados Unidos e europeus, desde o fim da União Soviética, espera há três décadas a compreensão desses países para tentarem solucioná-la: o comunismo acabou como nação e como movimento, mas os Estados Unidos continuaram contra a Rússia o que era a guerra contra o comunismo. Por quê?

O tema não entra em consideração, por certo pelo temor da reação americana. Onde houve proximidade, entendimentos e interesses da Rússia, os Estados Unidos puseram sob acusações, pressão e riscos.

Assim foi sacrificada, reiteradamente, a oportunidade de convivência menos letal e mais inovadora entre as forças dominantes do mundo.

A Rússia extinguiu os saldos da experiência de convívio equânime de Gorbachev e mesmo de Ieltsin, e assumiu sua contraparte nas confrontações.

A colaboração na aventura espacial foi a exceção da regra, mais por necessidades temporárias dos americanos que por associação de sinceridades promissoras.

Elio Gaspari: Putin já foi o motorista Vladimir

O Globo / Folha de S. Paulo

Outro dia, antes do início da guerra na Ucrânia, o jornalista americano Thomas Friedman escreveu que o melhor lugar para se acompanhar a crise é tentando entrar “na cabeça de Vladimir Putin”.

Diversas pessoas já tentaram mapear essa cabeça, da alemã Angela Merkel à ex-secretária de Estado americana Madeleine Albright. O presidente russo é frio como cobra.

Em dezembro de 1989 ele estava na sede da KGB, em Dresden, na falecida Alemanha Oriental, quando uma multidão se aproximou da casa. Ele foi para o portão, disse que era um intérprete e recomendou que fossem embora, do contrário seus compatriotas atirariam. Deu certo, mas não havia atiradores.

Dois anos depois a Alemanha Oriental se acabara, a União Soviética derretera e a Rússia perdera cerca da metade de seu Produto Interno. Putin havia voltado para São Petersburgo e trabalhava com o prefeito da cidade. Para fechar o orçamento familiar, fazia bicos como motorista. Lembrando essa época numa entrevista, foi breve: “É desagradável falar sobre isso, mas infelizmente foi o caso”.

Míriam Leitão: Cenas do passado e desordem mundial

O Globo

O ultraje e a infâmia que o mundo tem visto, com tropas russas na Ucrânia, trouxeram a sensação de que o presente havia sido tragado pelo passado, para as cenas de horror como a dos tanques soviéticos ocupando Praga, em 1968, ou o tempo ainda mais primitivo das guerras medievais de conquistas de território. O que aconteceu tem efeitos concretos para o mundo e para o Brasil, na política e na economia. O péssimo governo brasileiro se refletiu no vexame de uma diplomacia que levou dois dias para acertar o tom.

No curto prazo, a crise criada pela Rússia piora muito a conjuntura, segundo o economista José Roberto Mendonça de Barros. A guerra vai elevar os custos de vários produtos. De fertilizantes a combustíveis, de trigo a alumínio. E se a Ucrânia não puder plantar a próxima safra, que se inicia ao fim do degelo? Se o país estiver desorganizado, pela guerra imerecida e indesejada, cairá a oferta de milho e trigo. A Rússia sob sanções também terá mais dificuldades de vender seu trigo. Bielorrússia, de onde partiram os ataques a Kiev, é fornecedora de fertilizante, como Rússia e Ucrânia. Não haverá boa safra sem os três países.

Dorrit Harazim: Guerra tem dono

O Globo

A História é como uma faca: você pode usá-la para cortar pão, mas também para matar. O falecido Fritz Stern, eminente estudioso da História da Alemanha, dizia o mesmo de analogias históricas — elas tanto podem jogar luz e clareza sobre um tema como gerar contendas envenenadas de insensatez. No caso da invasão da Ucrânia por uma Rússia imperiosa presidida pelo czar moderno Vladimir Putin, tem as duas coisas. Com mandato eleitoral para ficar no poder até 2036, quando fará 84 anos, Putin decidiu recuperar pelo menos algumas zonas de influência perdidas com a implosão da União Soviética. Ou, pelo menos, tentar inverter os últimos 30 anos de arrogância militar por parte dos Estados Unidos e dos países europeus reunidos na Otan.

Para tanto, recorreu a uma “guerra de escolha”, e não “de necessidade”, repetindo terminologia usada por Richard Haass, presidente do Council on Foreign Relations de Nova York. Ao contrário das “guerras de escolha”, que em geral terminam mal para quem as lança, Haass designa como “guerra de necessidade” o recurso à força para a proteção da sobrevivência ou dos interesses vitais de um país. Cita como exemplo a entrada dos Aliados na Segunda Guerra Mundial. Decididamente, não é o caso da Rússia de 2022. O rolo compressor com que Putin atropelou a soberania territorial do país vizinho deixou não só 45 milhões de ucranianos sem chão — seja em fuga, seja de coquetel molotov em mãos —, como estonteou o planeta.

Cacá Diegues: A guerra de cada um

O Globo

Nossa guerra interna, no Brasil, é sobretudo contra a morte de crianças, pobres e pretos

Confesso que não esperava ver nos jornais notícias de uma guerra como essa entre Rússia e Ucrânia. Concordo que é preciso acompanhá-la de perto, para tentar descobrir suas origens e a justiça delas. Para saber sobretudo como podemos ajudar o mundo a se livrar de episódios insensatos como esse.

Menos glamourosa que a invasão da Ucrânia pelo Exército russo, uma outra notícia falou das contas de bilionários em 2021. Pois, por essas novas contas, Mark Zuckerberg, o jovem proprietário da Meta, dona do Facebook, caiu para o 14º lugar no ranking dos ricos festejados pela revista Fortune. Mas Zuckerberg não precisa sofrer horríveis pesadelos por causa disso. Esse acidente em suas finanças não significa que periga ele ter que passar o chapéu na missa de domingo para ver se recupera um pouco o valor de seu cofre. Ele pode continuar a levar a vida que levou até agora, um pouco mais discretamente para não escandalizar ninguém, até recuperar a posição do Facebook e de seus irmãos digitais.

Cristovam Buarque*: Risco do antismo

Blog do Noblat / Metrópoles, 26.2.2022

Foi este antismo que levou forças democráticas a se recusarem a incluir Lula e o PT na composição de uma frente nacional contra Bolsonaro

O setor de relações internacionais do PT cometeu o erro de apoiar a invasão da Ucrânia pela Rússia. Esta posição se explica pelo antiamericanismo que caracteriza a visão do mundo dos petistas. Se a Rússia enfrentava os Estados Unidos, então ela estava certa. Este é o perigo do “antismo”: pensar contra sem levar em conta as especificidades que ocorrem em cada momento, sem considerar que o mundo não é apenas branco e preto, nem percebendo as mudanças que acontecem.

Da mesma forma que o antismo do PT leva a erros deste tipo, as forças democráticas têm errado, ao longo de meses, por verem a política Brasília sob o antipetismo. Sabem do risco da reeleição de Bolsonaro, mas se negam a barrar esta reeleição em aliança com o PT. Deixam também de perceber que o PT e Lula de hoje podem ser diferentes do que eram há alguns anos atrás.

Luiz Carlos Azedo: Existe muita empatia entre Putin e Bolsonaro

Correio Braziliense, 26.2.2022

O verdadeiro teor da conversa privada entre os dois em Moscou é um iceberg, não ficou restrita à venda de carne e à compra de fertilizantes. Existe muita semelhança entre ambos

Todos os homens do Kremlin — os bastidores do poder na Rússia de Vladimir Putin, de Mikhail Zygar (Vestígio), é um livro-reportagem com detalhes reveladores sobre o círculo íntimo de Putin e sua longa permanência no poder. É a história de um líder ardiloso e perigoso, mas também de um grupo que assumiu o controle da Federação Russa. Putin “se tornou rei por acaso”, levado ao poder por oligarcas e políticos regionais, que o acolheram ao mesmo tempo em que manipulavam seus medos e ambições. Com o tempo, demonstrou uma habilidade incomum para se manter no poder e assumir o controle do grupo com mão de ferro, em meio a intrigas, conspirações e muita corrupção.

Putin assumiu com apoio do grupo de Boris Yeltsin, que promoveu reformas liberalizantes radicais, contra os comunistas, que ainda eram fortes no Parlamento, cujo candidato era Ievgeni Primakov, um antiamericano radical e revanchista. Ataques terroristas em Moscou e o conflito na Chechênia catapultaram a candidatura do ex-diretor da FSB, a antiga KGB. A imagem de líder jovem e modernizador, que seduziu o público doméstico, não convenceu o Ocidente. Seu projeto inicial de integração da Federação Russa à União Europeia, inclusive à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), foi rejeitado pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e pela primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

O custo da guerra

Folha de S. Paulo

Ataque à Ucrânia cria risco de quadro recessivo global, que impacta o Brasil

Com a ofensiva armada pela Ucrânia em curso e o anúncio de sanções econômicas à Rússia por parte das potências ocidentais, começam a se desenhar os impactos econômicos da guerra, que devem ocorrer em múltiplas frentes.

O primeiro e mais evidente é o salto das cotações de petróleo e gás, além de outras matérias-primas. No dia da invasão ao território ucraniano, o preço do barril de petróleo chegou a US$ 103, o maior desde 2014 —recuando quando ficou claro que o pacote de sanções europeias e americanas não atingiria o setor de energia.

Mesmo assim, a ação russa põe em risco as linhas de suprimento e, no caso do gás, a infraestrutura de transporte na Europa.

Com a maior inflação desde os anos 1980 e juros em alta no Ocidente, um choque adicional poderia levar a economia global a um quadro recessivo. Os bancos centrais teriam a inglória tarefa de endurecer a política monetária em meio à piora do emprego.

O problema será maior quanto mais tempo durar o conflito militar. No caso europeu, o encarecimento brusco do gás e, no pior cenário, a interrupção parcial ou total da oferta, implicaria forte contração da atividade industrial.

Poesia | Joaquim Cardozo: Território entre o gesto e a palavra

Entre o gesto e a palavra: território escondido dentro de mim
Marcas de mortas visões; tentativas, indecisões, regozijos,
Entre o gesto e a palavra. Território:
Um silêncio, um gemido, um esforço imaturo
Possibilidade de um grito, modulação de uma dor.
— Ritmos mais doces que os das águas,
— Ternuras mais íntimas que as do amor
Entre o gesto e a palavra. Território
Onde as idéias se ocultam e os pensamentos se perdem
Os conceitos se escondem, os problemas se dissolvem
Entre o gesto e a palavra. Território.
— Os problemas da escolha, os princípios;
Transcendências: transparências, mediante
Uma luz que não se acende, existem
No território contido entre o gesto e a palavra.
— Um axioma, um lema, um versículo, um fonema,
Uma ameaça, uma tolice, o som velar, o eco,
Talvez a estátua de uma atitude.
Estão no campo depois do gesto
E antes da palavra.
Também estás para mim, amiga, entre esses dois expressivos
Entre alguma coisa de mímico ou de sonoro
Alguma coisa que é aceno ou que é voz:
Entre o de mim e o de ti: Tu estou
Tu vivo
Tu falo
Tu choro
Estás, mesmo que entre nós dois não exista
Um aparato gramático — uma sentença verdadeira
— ou uma síntese poética
Ilusória expressão com que se conformam os ingênuos —
Mesmo que a palavra se reduza a simples gesto verbal
Entre o gesto e este gesto há um infinito real.

Música | Getúlio Cavalcanti: Um Bonde chamado desejo

 

sábado, 26 de fevereiro de 2022

Marco Aurélio Nogueira*: A democracia desafiada

O Estado de S. Paulo.

A democracia representativa está com dificuldade de acompanhar as mudanças aceleradas da vida moderna

Há um reconhecimento geral posto na mesa: a democracia representativa está sendo atacada por diferentes vetores, perde qualidade e parece abandonada pelos cidadãos. O espectro da “crise da democracia” se agita por todos os cantos. O Brasil não é exceção.

Será assim mesmo? A democracia representativa conhece de fato uma crise?

Convivemos com um maremoto de imprecisões terminológicas e de entendimentos dissonantes na linguagem da vida cotidiana. É o que acontece, por exemplo, quando se confunde democracia com liberdade ou quando se pensa que democracia significa ausência de regras, limites e obrigações. A democracia é vista como irmã xifópaga do liberalismo, mas não se valorizam com igual desenvoltura seus laços fundamentais com a reforma social, o socialismo e a social-democracia, que foram igualmente estratégicos para os avanços da ideia democrática no último século.

A situação atual está cortada por uma crise de assimilação. A democracia representativa está com dificuldade de acompanhar as mudanças aceleradas da vida moderna, que a desafiam. Precisa se adaptar a elas, mas nem sempre consegue fazer isso de maneira criteriosa, com reformas corajosas, ou seja, de maneira ativa e criativa, sem resignação e fatalismo.

Antes de tudo, a democracia sente os efeitos da mercantilização geral da vida, da prevalência unilateral do mercado como cultura, fator de organização e valor. Tudo se converte num sistema de “trocas” e vantagens competitivas, dissolvendo as ações de tipo cooperativo. Os próprios custos das transações políticas são extrapolados e não ajudam a que se governe melhor.

Bolívar Lamounier*: O triângulo invertido dos sonhos de Lula

O Estado de S. Paulo

Memória da diarquia e da saga das Diretas Já é essencial para abrir uma fresta no nosso sombrio destino a partir de 2023

O governador João Doria ainda não percebeu que, insistindo em se candidatar à Presidência da República, em vez de postular a reeleição, entregará São Paulo de mão beijada ao PT. Lula deve estar rezando o terço várias vezes por dia para que Doria faça exatamente isso, e sorrindo de contentamento ao ver que Doria logo chegará ao ponto de não retorno.

Em política, 20 anos são uma eternidade. Em 2002, todos os ventos sopravam a favor de Lula. Hoje, sopram na direção contrária. Lula provavelmente vencerá com um pé nas costas, mas o panorama que descortinará a partir do Planalto é o de um país em escombros. No Congresso, uma maioria amorfa e subserviente de nada lhe servirá; ao contrário, será uma maioria disposta a tudo para arrancar nacos em seu minguante erário. As massas que antigamente o idolatravam não irão às ruas com o mesmo entusiasmo.

Guardo na memória uma instigante palestra feita dez anos atrás na Fundação Fernando Henrique Cardoso pelo ex-presidente uruguaio Julio María Sanguinetti. Do alto de sua experiência e de seu conhecimento das realidades de nossa triste América Latina, ele observou que o populismo viceja quando a economia vai bem, mas emagrece e sai de cena quando ela vai mal. Todo líder populista precisa de recursos financeiros em abundância, pois é com dinheiro (público, obviamente) que ele compra políticos dispostos a controlar de dentro para fora o Parlamento, e líderes sindicais, estudantes e padres de esquerda, que o façam de fora para dentro.

Oscar Vilhena Vieira* : A grande farsa

Folha de S. Paulo

Apropriação da linguagem de direitos humanos e de liberalismo democrático se torna cada dia mais comum

A apropriação da linguagem dos direitos humanos e do liberalismo democrático por setores reacionários e autoritários, com o objetivo de defender posturas antiliberais e justificar comportamentos contrários aos direitos humanos, tem se tornado cada dia mais comum, não apenas no Brasil.

A imagem de Bolsonaro, com sua gravata adornada de fuzis, bradando a defesa da liberdade contra ministros do TSE –que têm se desdobrado na defesa da integridade do pleito eleitoral–, embora farsesca, é emblemática dessa estratégia de invocar os direitos e valores liberais com a finalidade de subvertê-los.

A defesa das armas, das milícias, da devastação ambiental, da primazia da religião, do discurso de ódio, assim como a insurgência contra a vacina, o distanciamento social ou a máscara, vêm sendo sistematicamente conjugadas a partir de uma distorcida gramática de direitos.

São tempos estranhos, depois de uma vida abjurando e hostilizando os direitos humanos, grupos radicais passaram a invocá-los na defesa de suas pautas autoritárias, discriminatórias e excludentes, colocando em risco não apenas um amplo rol de direitos dos demais membros da comunidade, como as próprias instituições de defesa desses direitos.

Dora Kramer: Cerco ao centro

Revista Veja

Lula e Kassab dão sinais de que atuam juntos para assegurar embate entre PT e Bolsonaro

Luiz Inácio da Silva e Gilberto Kassab não deixam a menor dúvida. São dois políticos graduados e doutorados em astúcia no ramo. Por isso mesmo o primeiro não dá por decidida a parada eleitoral de outubro apesar da folgada dianteira; o segundo não põe fé sincera num embate diferente do indicado desde já nas pesquisas e ambos sinalizam a execução de uma operação casada. Parecem atuar juntos para obstruir o caminho da dita terceira via.

Se o bloqueio será exitoso, veremos. Política, notadamente a brasileira, não se submete a regras perenes. Muda, diz a tradição, na cadência das nuvens. Mas, hoje, o que temos nos quatro principais colégios eleitorais do país é um quadro de cerco às chamadas forças de centro.

No primeiro, São Paulo, firma-se candidatura própria do PT ao governo na pessoa de Fernando Haddad, com a retirada da cena estadual de Geraldo Alckmin, que estava apalavrado com o PSD de Kassab para se filiar e concorrer ao Palácio dos Bandeirantes, mas cogita integrar a chapa de Lula como candidato a vice-­presidente.

No segundo colégio eleitoral, Minas Gerais, o PT articula apoio ao prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, do PSD. No terceiro, Rio de Janeiro, o apoio do PT seria a Marcelo Freixo, do PSB, com morde e assopra que talvez possa mudar de posição o prefeito Eduardo Paes (PSD). No quarto colégio, a Bahia, Lula já admite abrir mão do senador Jaques Wagner na disputa ao governo para apoiar a candidatura do senador Otto Alencar. De qual partido? PSD de Gilberto Kassab.

Murillo de Aragão: O peso político dos evangélicos

Revista Veja

Os fiéis foram determinantes nas últimas eleições presidenciais

Na medida em que o debate eleitoral se intensifica, os principais candidatos buscam se acertar com segmentos importantes de eleitores. Com mais de 30% da população de 210 milhões de brasileiros, os evangélicos são determinantes para a eleição do presidente da República. No pleito de 2014, o voto desse rebanho — que chegou a ser cortejado por Aécio Neves (PSDB) — foi essencial para Dilma Rousseff se reeleger. Em 2018, também foi determinante para a vitória do presidente Jair Bolsonaro. Na pesquisa do Datafolha de 4 de outubro daquele ano, 48% dos evangélicos declaravam voto no então candidato do PSL. O porcentual representava mais que o dobro do segundo colocado, Fernando Haddad (PT), que obteve apenas 18%.

Recentemente, segundo pesquisa do PoderData divulgada dias atrás, Bolsonaro continua liderando entre os evangélicos. Hoje o presidente venceria Lula por 44% a 32%. Ou seja, a distância dele para o candidato do PT, que em 2018 era de 30 pontos porcentuais, caiu para apenas 12 pontos. Atento à perda de terreno em um importante segmento de sua base social, Bolsonaro prepara uma série de encontros com as principais lideranças das igrejas e com parlamentares da poderosa “bancada evangélica”.

João Gabriel de Lima: Os tanques e o sonho europeu

O Estado de S. Paulo

Quando há um conflito, a vida de gente comum é atropelada pela geopolítica

Numa crônica publicada na última edição da revista Monocle, o escritor ucraniano Artem Chekh descreve um passeio pela noite de Kiev. Era dezembro e, depois de comer uma pizza, ele e a mulher, Irina, observam as luzes natalinas na Praça Sofia. Constatam que as danceterias Killer Whale e Closer seguem lotadas em pleno inverno. Espantamse com a fila no Mustafir, e planejam voltar lá algum dia para comer os famosos pasteizinhos chineses do restaurante.

Artem participou das manifestações da Praça Maidan que, em 2014, derrubaram um governo fantoche de Moscou. No ano seguinte, alistou-se para lutar contra os russos. A experiência rendeu seu livro mais famoso, Zero Absoluto. Quando escreveu a crônica da Monocle, Artem temia ser convocado novamente. Pensava também em Irina, que trabalha com filmes. Ainda seria possível fazer cinema numa Ucrânia invadida?

Cristina Serra: O apocalipse Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Ele tem os seus quatro cavaleiros do apocalipse

Declaração do secretário-geral da Presidência, Luís Eduardo Ramos, remeteu-me aos quatro cavaleiros do apocalipse, citados em textos bíblicos. O general de pijama encrespou-se com os ministros Luís Roberto Barroso e Edson Fachin, ex e atual presidente do TSE, que condenaram ataques ao sistema eletrônico de votação.

Ramos disse que Bolsonaro "está sentado nessa cadeira [da Presidência] por missão de Deus" e que tem recebido críticas "muito duras". Por isso, Ramos afirmou sentir-se no direito de levantar dúvidas sobre a "isenção e imparcialidade de futuros processos".

Hélio Schwartsman: Justiça Eleitoral tem sua utilidade

Folha de S. Paulo

É bom ter indivíduos sem vínculos partidários para organizar eleições

Vivo falando mal da Justiça Eleitoral, que completou 90 anos. Ela é, na minha avaliação, excessivamente autoritária e intervencionista. Tais críticas não me impedem de reconhecer que é uma mão na roda poder contar com um corpo de indivíduos sem vínculos partidários para organizar eleições. Pela inversa, seria um problema se incumbíssemos candidatos e legendas de gerenciar os aspectos mais concretos dos pleitos.

O tamanho da encrenca potencial pode ser observado olhando para os EUA, país que tem muito a ensinar em termos de democracia, mas nada em termos de eleições. Os EUA utilizam o voto distrital majoritário para definir os representantes dos estados na Câmara e a composição dos legislativos locais. A cada dez anos, os estados precisam redesenhar os distritos, para acompanhar a evolução demográfica captada no Censo.

Demétrio Magnoli: O Império que não quer cair

Folha de S. Paulo

A ambição de Putin é restaurar a Grande Rússia, começando pelo núcleo com Belarus e Ucrânia

"É tudo culpa de Lênin", pontificou outro Vladimir, Putin, no sinistro discurso que pronunciou na TV russa anunciando o reconhecimento da independência dos enclaves separatistas do Donbass. O líder da Revolução Russa teria fabricado a Ucrânia, privando a Rússia de seu berço cultural. A história putínica é lenda destinada a justificar uma guerra de agressão, mas ilumina um dilema de cem anos.

Nas suas linhas gerais, o mapa atual da Europa foi desenhado pelos tratados que encerraram a Grande Guerra, entre 1918 e 1920. Sob o impacto dos nacionalismos e do programa de Woodrow Wilson, nasceram os Estados-Nação.

As novas entidades, supostamente ancoradas na língua e na tradição, foram esculpidas a partir das ruínas dos impérios que desabavam. Desapareceram os impérios Alemão, Austro-Húngaro e Turco-Otomano. Contudo, graças ao triunfo dos revolucionários bolcheviques, sobreviveu o Império Russo, apenas convertido na URSS. "Império vermelho", mais que uma expressão retórica, é a descrição precisa da conservação de um fóssil no permafrost do Estado soviético.

Ascânio Seleme: Sustinho bom

O Globo

Ninguém ignora que muitos do PT estão contando com o ovo muito antes do primeiro esforço da galinha, mas uma boa chacoalhada pode colocar as coisas no lugar

Um próximo interlocutor de Lula definiu com uma boa frase o quadro político atual, com pesquisas que mostram um revigoramento da candidatura de Bolsonaro e um exagerado otimismo que muitos líderes petistas evidenciam em entrevistas e conversas privadas. “As novas pesquisas dão um sustinho bom nesta turma que anda com salto muito alto”. Tem alguma razão o político, que pertence a um partido de centro, mas que transita bem em todas as esferas. Susto, ou sustinho, funciona como freio de arrumação. Como uma boa chacoalhada pode colocar as coisas no lugar. Ninguém ignora que muitos do PT estão mesmo contando com o ovo muito antes do primeiro esforço da galinha.

Carlos Góes: Funcionalismo na década perdida

O Globo

Boa parte das carreiras federais ganha mais que o cidadão médio. E as privilegiadas pelo presidente tiveram os maiores aumentos

No último mês, eclodiram reivindicações salariais no funcionalismo federal. Frente a uma proposta ventilada pelo governo de conceder reajuste salarial aos policiais federais e policiais rodoviários federais, outras categorias reagiram.

Houve protestos em Brasília. Os servidores do Banco Central paralisaram suas atividades. Ministros do Supremo Tribunal Federal alertaram que reajustes para categorias particulares poderiam gerar uma série de ações na Justiça.

Mas como o salário dos servidores públicos se compara ao resto dos contribuintes?

Os dados mais abrangentes sobre a renda de profissões distintas vêm da Receita Federal. Todo ano, a Receita processa os dados do Imposto de Renda de Pessoa Física (IRPF) e publica tabulações contendo a renda média declarada por ocupação dos declarantes.

Carlos Alberto Sardenberg: Contra as democracias

O Globo

Nikolai Patrushev é o chefe do Conselho de Segurança Nacional da Rússia e o principal ideólogo da “turma” de Vladimir Putin, um grupo de ex-membros da KGB que comanda o governo. Sua visão básica: o Ocidente pretende esmagar a Rússia, impondo-lhe “agressivamente os valores neoliberais que contradizem nossa visão de mundo” (citado em The Economist, edição de 19 a 25 de fevereiro).

Qual visão de mundo? Não é a volta do comunismo, até por razões pessoais. É dinheiro. Esses ex-agentes da KGB, como o próprio Putin, acumularam fortunas quando caiu o regime soviético e foram introduzidas reformas capitalistas. Acumularam não pela capacidade como investidores. Foi roubo.

Primeiro, nas privatizações das grandes estatais. Aqueles funcionários tiveram acesso privilegiado a informações e a “moedas de privatização”, como títulos da dívida pública, vendidos a preço de banana e aceitos a preço de ouro na compra das estatais.

Depois, seguiram ganhando concessões “informais” de negócios nas áreas de energia, infraestrutura e bancos, principalmente.

Em resumo, um caso de capitalismo de amigos, levado ao limite.

Pablo Ortellado: Impasses do PL das Fake News

O Globo

O Projeto de Lei 2.630/2020, apelidado de PL das Fake News, vive tantos impasses, que é difícil saber onde vai parar. Ele pode tanto ser aprovado na semana depois do carnaval como ser engavetado. Pode vir a ser um robusto marco regulatório ou também terminar como um conjunto mal-ajambrado de regras ruins. Há pelo menos quatro grandes impasses.

O primeiro é a moderação de conteúdo em mídias sociais. Facebook, Twitter e outras precisam moderar o que é publicado pelos usuários — apagar, reduzir o alcance ou rotular conteúdo que viola os termos de uso dos serviços. Sem moderação, as plataformas seriam inundadas por spam, pornografia e discurso de ódio.

Marcus Pestana*: Quando o carnaval chegar

Em 1972, tivemos o lançamento do musical de Cacá Diegues “Quando o Carnaval Chegar”, estrelado por Nara Leão, Maria Bethânia, Hugo Carvana, Chico, entre outros. Na trilha sonora destaca-se a música tema, onde Chico Buarque diz: “Quem me vê apanhando da vida, duvida que vá revidar. Tou me guardando pra quando o carnaval chegar”, “Eu tenho tanta alegria, adiada, abafada, quem dera gritar. Tou me guardando pra quando carnaval chegar”. Parece até uma alegoria da eterna espera brasileira pelo dia em que a alegria do carnaval abraçará em definitivo a maioria da população do país, superando a surra diária e a alegria abafada e adiada.

Este ano a Mangueira e a Portela não irão pra avenida, não haverá abadás e blocos de Axé e o Galo da Madrugada não varrerá as ruas de Recife, graças à pandemia que nos assola há dois anos. Será um momento de descanso e reflexão. É justo, pois, tentar imaginar o que nos reserva 2022. E certamente, não haverá monotonia pelos sinais que temos até aqui.

Eduardo Affonso: Hoje era para ser carnaval

O Globo

Hoje era para ser carnaval. Haveria foliões por todo lado, e as Defensorias Públicas, mídias ninjas e afins já teriam colocado o bloco na rua. Depois de cancelar marchinhas e adereços de índio, de cigana, talvez investissem contra o etarismo estrutural mal disfarçado na expressão velha guarda (da Portela, da Mangueira, do Salgueiro) ou pedissem o banimento da Terça-Feira Gorda (óbvia manifestação de gordofobia). Ao longo da semana, seria a vez de problematizar o desfile das campeãs (deplorável elogio à meritocracia, que desconsidera e naturaliza a desigualdade entre as escolas) e o reinado de Momo na Marquês de Sapucaí, com o Império Serrano, a Imperatriz Leopoldinense (evidência da perpetuação dos valores da elite aristocrática, monárquica, escravagista). Haveria uma infinidade de Fridas nos blocos progressistas da Zona Sul e negas malucas a mancheias (com palhaços, aqualoucos, travestis e melindrosas) nos blocos populares do Centro, do subúrbio, da Zona Norte, da Zona Oeste.

Alvaro Costa e Silva: Carnaval só para ricos

Folha de S. Paulo

A festa de 2022 ficará na lembrança como a mais triste e revoltante da história

O Carnaval deu um passo de caranguejo na tentativa de driblar a pandemia e, ao mesmo tempo, garantir o lucro dos empresários. É como se tivéssemos regredido a 1840, quando foi realizado o primeiro baile carnavalesco no Rio. Quatro anos depois o sucesso já cobrava seu preço. A ceia, os vinhos e os refrescos continuavam a ser servidos aos dançarinos, mas a entrada custava o dobro, passando de 2.000 para 4.000 réis.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Guerra traz incerteza à economia global

O Globo

Enquanto se assiste aos bombardeios e ao desespero de civis na Ucrânia, invadida pela Rússia nesta semana sem ter cometido nenhuma provocação, os analistas tentam avaliar as consequências do conflito na economia global. É tarefa árdua, praticamente impossível, porque depende da resposta a uma pergunta: quais são os planos de Vladimir Putin? Além dele, aparentemente ninguém sabe.

Se Putin decidir mudar o governo ucraniano e, em seguida, mandar suas tropas retroceder às bases, o efeito econômico será menor. Caso decida aumentar o escopo da guerra para redesenhar o mapa geopolítico da Europa, o estrago será imenso, no mínimo uma nova recessão global. É um cenário menos provável, mas longe de impossível. Diante da incerteza, as principais Bolsas de Valores sofreram queda acentuada nesta semana. Foram surpreendidas pela invasão, mas ainda não estão numa situação que denote a proximidade de uma crise financeira.

O certo é que a economia mundial cresceria mais neste ano sem a guerra na Ucrânia. Por não saber o que esperar, consumidores e empresários, principalmente nas regiões mais próximas, perdem esperança no futuro e tendem a adiar planos de consumo e investimento. Quanto mais tempo a guerra levar para acabar, maior será a corrosão da confiança.

A Europa depende do gás russo para gerar energia, sobretudo a Alemanha e a Itália. O inverno europeu, agora próximo do fim, foi ameno. O estoque de gás na região está em nível superior ao previsto pelos analistas. Por isso a questão do abastecimento perdeu urgência, pelo menos no curto prazo. Mas não se tornou irrelevante. Um conflito prolongado a tornaria prioritária. Por ora, o mais imediato é o temor de descontrole maior da inflação já em alta, como resultado da escassez dos produtos exportados pela Rússia — como gás, petróleo e grãos.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade: Um homem e o seu Carnaval

Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensão.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.
O pandeiro bate
É dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.
Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente

Música | Hino do Galo da Madrugada