terça-feira, 3 de julho de 2018

Opinião do dia: Luiz Werneck Vianna

“Fixada a observação no movimento das estruturas da societas rerum o cenário é, pois, o de mudança que se faz indicar no terreno dos fatos, como ilustra o conjunto de importantes reformas já introduzidas na vida econômica, a maioria delas de caráter irreversível. Contudo, se o olhar se desloca para o plano das ideias e das concepções do mundo, o curso da mudança, embora tenha havido nas últimas décadas uma altamente significativa expansão do estrato dos intelectuais nas universidades e nas atividades artísticas, definha e apresenta um cenário desalentador de mesmice e de pouca criatividade.

Na economia, numa das sociedades mais desiguais do planeta, tivemos de esperar a notável obra de Thomas Piketty, de edição recente, para que a produção dos especialistas se voltasse para esse tema estratégico. Nas ciências sociais, desprendemo-nos da excelsa tradição que vinha de um Gilberto Freyre, de Florestan Fernandes, de Fernando Henrique Cardoso, de Raymundo Faoro, Roberto DaMatta, entre tantos nomes que se dedicaram a interpretar o País, para instalar em seu lugar os estudos identitários, que, embora importantes, certamente não têm a relevância do que foi o mainstream da reflexão disciplinar, tão necessário nesta hora em que se faz imperativa a busca de novos rumos.”

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Luiz Werneck Vianna, sociólogo da PUC- Rio. ‘Os intelectuais e a aranha’, O Estado de S. Paulo, 1/7/2018.

Míriam Leitão: Vitória do México

- O Globo

Uma vitória indiscutível nas eleições de domingo deu ao México um rumo claro. O novo presidente, Andrés Manuel López Obrador (AMLO), não apenas ganhou por larga margem, como seu partido, Morena, conquistou a prefeitura da Cidade do México e a maior bancada nas duas casas do Congresso. O país fortaleceu a sua jovem democracia e fez um realinhamento partidário pelo voto.

Durante a campanha o discurso de AMLO foi ambíguo e com toques populistas e nacionalistas. Apesar da oposição de grande parte dos empresários, o mercado financeiro não mostrou especial estresse com a vitória que já era esperada. No seu primeiro pronunciamento, ele foi conciliatório do ponto de vista político e tranquilizador na economia.

O México tem uma história política difícil. Ocorrer uma alternância de poder, sem acusações de fraude, com os derrotados reconhecendo o resultado logo no primeiro momento, com o eleito falando em governar “para todos os mexicanos”, é uma vitória. O México viveu durante 70 anos o regime de partido único. Em 2000, passou a ter três partidos competitivos. Agora terá oito partidos com representação no Senado e nove na Câmara. A vitória de ontem alterou a composição das forças, mas mesmo com sua grande bancada o Morena terá que fazer coalizão para aprovar projetos.

AMLO prometeu atacar a corrupção, a violência e a pobreza. Tarefa superlativa. O México tem alto nível de corrupção, que se entranhou no aparelho de Estado e nas estatais, principalmente na Pemex, durante as décadas em que o PRI governou o país. A corrupção era o pressuposto para essa continuidade. Como López Obrador quer mais e não menos presença do Estado na economia, poderá neste ponto ter o oposto do que busca. A violência é endêmica e derivada do controle territorial dos cartéis do tráfico. A pobreza é outro dos flagelos do México.

Eliane Cantanhêde: A volta de quem não foi

- O Estado de S.Paulo

O que, afinal, Dilma Rousseff tem a defender na campanha ao Senado pelo PT em Minas?

O anúncio da candidatura de Dilma Rousseff ao Senado por Minas Gerais é duplamente, digamos, curioso. Ela, como Lula, é tecnicamente inelegível. E como vai defender o seu legado na Presidência da República durante a campanha?

Quem esqueceu de como Dilma manteve a possibilidade de disputar eleições, apesar do impeachment? No último segundo do segundo tempo, os então presidentes do Senado, Renan Calheiros, e do Supremo, Ricardo Lewandowski, fizeram um acordão e inventaram a novidade.

Pela letra fria das leis e da Constituição, presidente da República que sofre impeachment se torna automaticamente inelegível durante oito anos, como ocorreu com Fernando Collor de Mello, e ninguém jamais questionou. Ele cumpriu pacientemente sua quarentena, antes voltar à política com mandato de senador.

Collor era Collor, o inimigo número um da Nação, que na reta final não tinha mais aliados, só adversários. Já Dilma tinha por trás o padrinho Lula e o PT, um dos maiores partidos do País, então com 13 anos de Presidência. Por causa de Lula e do partido, Renan e Lewandowski deram um jeitinho e Dilma manteve o direito de se candidatar.

Dilma nasceu em Minas, mas fez carreira política no Rio Grande do Sul e praticamente estabeleceu residência no Rio de Janeiro. Como vai fazer campanha em Minas, um dos três Estados mais importantes e mais politizados? Vai defender o seu próprio legado, desastroso? Ou o do governador Fernando Pimentel, seu amigão, que enfrenta problemas na Justiça e encerra o mandato com uma baita crise econômica, até atraso de salários de funcionários?

Raymundo Costa: O PT sobe as apostas para ficar com o PSB

- Valor Econômico

Lula quer colocar Ciro Gomes no colo da direita

Apesar da vantagem relativamente confortável de Ciro Gomes, a disputa pelo apoio do PSB na eleição presidencial não está definida e responde por uma das mais encarniçadas batalhas dos bastidores da sucessão. Teoricamente, Geraldo Alckmin (PSDB) e Marina Silva (Rede Sustentabilidade) também estão no páreo, mas as chances de ambos, a esta altura, é igual a zero. O jogo é entre PT e PDT, e as apostas podem dobrar nos próximos dias.

Passa nas cogitações do PT um lance ousado: apoiar a candidatura à reeleição do governador de São Paulo, Márcio França, do PSB. A proposta ainda não foi feita a França, circula num meio muito restrito do petismo e somente será formalizada se houver uma indicação concreta do PSB de que pode aceitá-la. Difícil para França, diante do desgaste do PT em São Paulo. Difícil até para o PT, que tem um candidato próprio ao governo. Mostra, porém, a disposição com que o PT entrou na queda de braço pelo apoio nacional do PSB ao candidato do partido.

O PT e Lula disputam em diversas frentes ao mesmo tempo. Algumas estão praticamente perdidas, como o registro da candidatura do próprio Lula da Silva a presidente. Sem ele na cabeça de chapa, a hegemonia do PT na esquerda está seriamente ameaçado. Os nomes mencionados para substituí-lo mal passam dos 2% nas pesquisas e não empolgam os petistas e seus candidatos aos governos e Legislativo. No momento (segundo turno é outra história), embora Marina tenha a liderança da centro-esquerda, nas pesquisas, a ameaça à hegemonia do PT atende pelo nome de Ciro.

Nas escaramuças dos bastidores, o PT tem jogado para matar, isolar ou pelo menos jogar Ciro no colo da direita. Ao mesmo tempo que negocia apoios com o PSB e o PCdoB, o candidato do PDT mantém abertos os canais com o bloco de partidos que giram na órbita do presidente da Câmara, Rodrigo Maia - DEM, PP, PRB e SD. A tendência é que esses partidos se juntem ao PSD, PTB e PPS em torno de Geraldo Alckmin (PSDB), mas Ciro Gomes é uma alternativa concreta que não deve ser desconsiderada. E é onde o PT quer o ex-ministro da Integração Nacional de Lula.

O apoio do PT a Ciro já esteve na cogitação do próprio Lula, mas o ex-presidente nunca mais demonstrou o entusiasmo que já teve com o seu ex-ministro antes de ele começar a proferir diatribes contra os hábitos petistas - e de Lula - no mensalão e no petrolão. Para o PT, que sempre quis eliminar a concorrência à esquerda, o desânimo de Lula com Ciro foi um alívio. A disputa agora é interna e também renhida. Embora os candidatos indicados por Lula larguem com algo em torno de 2% nas pesquisas, o apoio do ex-presidente pode catapultar um deles para o segundo turno.

Bruno Boghossian: Bolsonaro e o Supremo

- Folha de S. Paulo

Ao sugerir aumento de 11 para 21 ministros, capitão avança sobre regras vigentes

A ditadura militar se insurgiu contra o STF em 1965. Irritado com decisões que favoreciam presos políticos e frustravam a repressão, o governo aumentou de 11 para 16 o número de ministros da corte.

O ministro Juraci Magalhães (Justiça) disse, sem constrangimento, que o regime escolheria juízes “à altura [...] das necessidades da Revolução”, neutralizando os votos dos ministros indicados por outros presidentes.

Prevendo entraves a seus planos de poder, Jair Bolsonaro (PSL) propõe uma diluição ainda mais intensa da corte. Na semana passada, ele disse que gostaria de ampliar a quantidade de cadeiras de 11 para 21.

“É uma maneira de botar dez isentos lá dentro. Da forma como eles têm decidido as questões nacionais, nós realmente não podemos sequer sonhar em mudar o destino do Brasil”, declarou à TV Cidade, de Fortaleza.

A ideia lembra regimes autoritários que avançam sobre outros poderes e se valem de um discurso inflamado para impor suas vontades. Em 1931, Getúlio Vargas aposentou seis ministros do STF para livrar a corte da influência da antiga elite política.

Bernardo Mello Franco: O exemplo do México

- O Globo

A esquerda venceu no México. Andrés Manuel López Obrador apresentou um programa nacionalista, declarou guerra à desigualdade e anunciou que governará “primeiro para os pobres”. Sua eleição já é histórica. Ao tomar posse, ele despejará os dois partidos que se revezam no poder há 89 anos.

O novo presidente imitou a guinada de Lula em 2002. Suavizou o discurso para conquistar a classe média e cortejou o mercado com a promessa de respeitar os contratos e manter o equilíbrio fiscal. Copiou até a ideia do “Lulinha paz e amor”, ao se reapresentar como “AMLOve”.

Ao festejar a vitória, ele chamou todos os mexicanos à “reconciliação”. Foi um gesto para distensionar o país e exorcizar o fantasma do autoritarismo. Na campanha, os adversários tentaram associá-lo aos regimes de Cuba e da Venezuela.

Nada indica que Obrador seguirá esses exemplos. Ele já atraiu um partido conservador para sua aliança e fechou parcerias com o empresariado ao governar a Cidade do México. Além disso, terá que negociar com os Estados Unidos, que consomem quase 80% das exportações do país.

Isso não significa que a relação com Donald Trump será um mar de rosas. O novo presidente prometeu rever concessões do petróleo e anunciou que retomará investimentos na estatal Pemex. Isso contraria os interesses das gigantes americanas, que aumentaram a presença no México.

A mensagem de Obrador foi capaz de mobilizar um eleitorado descrente com a política. Ele encerrou a campanha com um grande ato que lotou o estádio Azteca. A esquerda brasileira se animou com a vitória, mas há muitas diferenças em relação à política daqui. Obrador se elegeu por um partido novo, o Morena, e usou o combate à corrupção como mote de campanha. 

Nossos partidos de esquerda não se renovaram e ainda têm muitas contas a acertar no departamento da ética. Jair Bolsonaro quer aumentar o número de vagas no Supremo Tribunal Federal. A ideia é inspirada no AI-2, baixado pela ditadura militar em 1965. Na versão original, o texto também extinguiu os partidos, acabou com as eleições diretas e autorizou a ditadura a cassar os direitos políticos de qualquer brasileiro por dez anos.

Joel Pinheiro da Fonseca: Evitar o pior

- Folha de S. Paulo

Nossa cultura e nosso sistema político favorecem o centro, longe dos extremos ideológicos

Enquanto o hexa vai se tornando mais e mais palpável, a grande decisão que nos aguarda em outubro, nas urnas, segue indefinida. Tenho para mim que a prioridade, mais do que defender algum candidato específico, seja impedir que dois populistas avancem para o segundo turno.

Entendo populismo —que pode ser de direita ou de esquerda— como tendo pelo menos um desses dois elementos: apostar na divisão do Brasil como estratégia eleitoral e de sustentação do poder e propor soluções mágicas para os grandes desafios que temos diante de nós. Para o populista, ele próprio é a solução.

Ter alguma noção clara do que fazer e do como fazê-lo —escolher bons assessores e ministros, capacidade de negociar com o Congresso— são detalhes que ele superará apenas por ser quem é, pela força de seu ego e seu carisma. Quem discordar é inimigo.

Merecemos um segundo turno com propostas melhores do que calote da dívida como solução da crise fiscal ou porte de armas como solução da segurança. Além disso, a polarização da sociedade —por ora atenuada pela Copa— já chega a níveis insuportáveis. Se tivermos que escolher entre dois extremos, será uma eleição mais feia do que a de 2014, com as máquinas de geração de mentiras das redes sociais trabalhando a todo vapor.

Luiz Carlos Azedo: O mexicano e Neymar

- Correio Braziliense

Neymar entrou em campo com disposição de apanhar sem reclamar, como o personagem de Jack London. Foi perseguido, derrubado, chutado, mas não perdeu a cabeça nem se acovardou

Jack London, cujo verdadeiro nome era John Griffith Chaney (1876-1916), escreveu mais de 50 livros, alguns viraram roteiros de cinema, como Chamado selvagem, talvez o mais conhecido. Foi o primeiro escritor norte-americano realmente popular e mundialmente conhecido, o que só não o deixou rico porque gastava demais. Seus biógrafos acreditam que era filho do astrólogo William Chaney. Flora Wellman, sua mãe, uma professora de música e espiritualista que alegava receber o espírito de um chefe indígena, vivia com Chaney em São Francisco. Ele exigiu que ela fizesse um aborto e negou qualquer responsabilidade pela criança quando ela se recusou. Em desespero, Flora tentou suicídio, ficando superficialmente ferida ao atirar em si mesma. Quando o bebê nasceu, Flora entregou-o à ex-escrava Virgínia Prentiss, que criou o autor de Caninos brancos e O lobo do mar, e se tornou a principal referência para London.

As aventuras extremas narradas por London mostram quase sempre o homem como lobo do homem e em luta pela sobrevivência frente aos elementos da natureza, muitas das quais foram realmente vividas por ele. Alcoólatra e brigão, London percorreu os Estados Unidos e o Canadá como vagabundo, pegando carona em trens. Foi operário, mineiro e militante socialista. Marinheiro, caçou focas no Pacífico e participou da corrida do ouro no Alasca na virada do século. Influenciou toda uma geração de escritores, alguns dos quais também tiveram uma vida romanesca, como John dos Passos, John Steinbeck, Ernest Hemingway e Jack Kerouac. London morreu após uma overdose de morfina autoaplicada, no dia 22 de novembro de 1916, aos 40 anos. Teve uma vida urgente, coerente com suas palavras: “Não desperdiçarei meus dias tentando prolongá-los. Usarei meu tempo”.

Materialista, seu último romance, dedicado à mãe, é o Andarilho das estrelas, que muitos consideram uma conversão ao kardecismo. Inspirado pelo relato verídico de um ex-detento da penitenciária de San Quentin, o livro versa sobre um prisioneiro do começo do século 20 que aprende um meio para escapar à tortura da camisa de força a que era constantemente submetido. Através de técnicas de auto-hipnose, concentração mental e extremo domínio da vontade, ele consegue produzir o fenômeno que os parapsicólogos chamam de “desdobramento” e que, na linguagem mística, é conhecido por “viagem astral”. Ao entrar nesse estado de consciência, ele não apenas supera a dor física, como também alcança uma outra dimensão: a viagem às suas vidas passadas, às suas encarnações anteriores.

Ricardo Noblat: Candidatos à vaga de Temer nem crescem nem caem há 6 meses

- Blog do Noblat| Veja

O que pode acontecer

Levantamento realizado pela empresa de consultoria política Arko Advice, tendo como base todas as pesquisas de intenção de voto para presidente da República realizadas desde janeiro pelos institutos Datafolha, Ibope, MDA, Paraná Pesquisas, Vox Populi, DataPoder 360 e Ipespe, aponta que houve poucas alterações no cenário eleitoral durante o primeiro semestre do ano.

Sem Lula (PT), Jair Bolsonaro (PSL) lidera com cerca de 20% das intenções de voto. Trata-se de um percentual significativo para a largada, observa o levantamento. Ocorre que Bolsonaro não agrega novos eleitores desde janeiro. Nem atrai apoio de outros partidos.

Chama a atenção a proximidade dos índices de Marina Silva (REDE), Ciro Gomes (PDT) e Geraldo Alckmin (PSDB), candidatos que, em função da média da margem de erro das pesquisas (em torno de 2,5 a 3,0 pontos percentuais), estão tecnicamente empatados em segundo lugar.

Um pouco atrás, mas só um pouco, está Álvaro Dias (Podemos), que, no limite da margem de erro, empata com Ciro e Alckmin. Uma incógnita cerca o desempenho de Fernando Haddad (PT). Na média das pesquisas ele aparece, hoje, com cerca de 2% das intenções de voto. Mas nas sondagens do Ipespe que o põem ao lado do nome de Lula, a intenção de voto em Haddad sobe para cerca de 11%.

Quer dizer: o ex-prefeito de São Paulo tem sido subavaliado nas sondagens até aqui. Ele tem espaço para crescer e alcançar Marina, Ciro, Alckmin e Álvaro. A candidatura de Henrique Meirelles (PMDB) não deslancha. Há seis meses se mantém com menos de 2% das intenções de voto. Também ainda há muita gente “sem candidato”, uma vez que cerca de um terço do eleitorado se diz indecisa ou disposta a votar branco ou nulo.

A sucessão de Michel Temer continuará imprevisível pelo menos até que acabe a Copa do Mundo na Rússia e comece no final de agosto o horário de propaganda eleitoral no rádio e na televisão. Segundo o estudo da Arko Advice, o mais provável é que o segundo turno da eleição reúna um representante da esquerda/centro-esquerda (Marina, Ciro ou Haddad) e outro da centro/centro-direita (Alckmin, Álvaro Dias ou Bolsonaro). A ver.

Quase 65% ainda não têm candidato a presidente, em outubro

Para 64,5% dos eleitores, nenhum dos 28 pré-candidatos os representam

Redação | Diário do Poder

Levantamento do site Diário do Poder junto às pesquisas realizadas no primeiro semestre, em todo o País, mostra que 64,5% dos eleitores não se sentem representados por qualquer um dos 28 pré-candidatos a presidente, até agora lançados. Isto porque 39,5% ainda esperam por um novo nome para definir seu voto e cerca de 25% dos eleitores já definiram que vão mesmo votar nulo para presidente, em outubro. A informação é da Coluna Cláudio Humberto, do Diário do Poder.

A intenção de voto para presidente, apurada em pesquisa, reflete apenas o percentual do candidato sobre os 35% dos votos já definidos.

A soma dos votos em Jair Bolsonaro (PSL), Marina Silva (Rede) e Ciro Gomes (PDT), nas pesquisas, está longe do total de votos indefinidos.

A indefinição tem deixado os partidos atordoados. Alguns como PT, MDB e PSDB, têm mais de um nome cogitado para presidente.

Com Lula ficha suja e preso, a pulverização de candidaturas pode propiciar que um candidato dispute o 2º turno com resultado baixo.

Cenário incerto faz siglas adiarem convenções

Dificuldades para formar coligações obrigam partidos a empurrar definição sobre candidaturas para o prazo final estipulado pela lei

Felipe Frazão Isadora Peron / O Estado de S. Paulo.

BRASÍLIA - A indefinição das candidaturas à Presidência da República e a dificuldade dos pré-candidatos em atrair partidos para suas coligações vão retardar a realização das convenções partidárias neste ano. A menos de 20 dias do início do prazo legal para definir oficialmente os candidatos, a maior parte dos dirigentes ainda não tem data marcada para os encontros e fala em realizá-los no limite, às vésperas do início da campanha.

O período estipulado pela Justiça Eleitoral vai de 20 de julho a 5 de agosto. A campanha começa 11 dias depois, em 16 de agosto. Na eleição presidencial de 2014, seis partidos realizaram suas convenções logo na primeira semana do período determinado pela legislação (entre 10 e 30 de junho, à época): MDB, PSDB, PV, PSC, PSTU e PRTB – e somente o MDB, que naquele ano ainda era PMDB, não teve candidato próprio.

Dos partidos que pretendem lançar candidatos próprios em 2018, o PT adiou a convenção que pretendia chancelar a précandidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mesmo com ele condenado e preso na Operação Lava Jato. O evento estava previsto para 28 de julho. Agora, o mais provável é que ocorra em 5 de agosto, sem a presença de Lula no palanque.

O PSDB, do ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin, deve realizar sua convenção também na reta final, a primeira semana de agosto. Uma ala do partido queria que o encontro fosse feito em 21 de julho, mas Alckmin não conseguiu fechar alianças e não quer fazer uma convenção esvaziada, sem ter um candidato a vice para anunciar. “Ou vai ser a primeira ou a última”, disse ele.

Cortejado por Alckmin e Ciro Gomes (PDT), o DEM deve anunciar a desistência de lançar o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (RJ), como candidato próprio, mas não tem previsão de quando realizará seu encontro nacional. “Primeiro, vamos definir nosso caminho, depois, a data da convenção”, disse o presidente da sigla, o prefeito de Salvador, ACM Neto.

Perillo sugere aliança do PSDB com Meirelles

Coordenador da campanha de Alckmin diz que acordo seria ‘inovação’; ex-ministro da Fazenda rejeita ideia

- O Estado de S. Paulo.

BRASÍLIA - Coordenador da pré-campanha do ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) à Presidência, o ex-governador de Goiás Marconi Perillo sugeriu ontem uma aliança de seu partido com o MDB para que o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles dispute a eleição como candidato a vice na chapa do tucano. Ao Estado, o précandidato emedebista à Presidência rejeitou a proposta e sugeriu que o PSDB possa apoiá-lo no segundo turno.

“O momento agora é de um líder democrático como o Alckmin e seu partido, PSDB, mais as lideranças políticas e um expressivo representante de mercado com vivência e experiência política como é Henrique Meirelles”, disse Perillo durante palestra a investidores do mercado financeiro na sede da XP Investimentos, em São Paulo.

Perillo cita ex-ministro de Lula como possível vice de Alckmin

Além de Aldo Rebelo, coordenador aponta nomes de DEM e PRB

Luís Lima e Cristiane Jungblut | O Globo

-SÃO PAULO E BRASÍLIA- O coordenador político da pré-campanha de Geraldo Alckmin (PSDB), Marconi Perillo, citou ontem três nomes que podem ocupar o posto de vice do tucano na disputa pela Presidência: o deputado federal Mendonça Filho (DEM), o ex-ministro Aldo Rebelo (Solidariedade), que integrou os governos Lula e Dilma, e o empresário Flávio Rocha (PRB). Os três são de partidos de centro-direita e do Nordeste, perfil defendido por Alckmin na semana passada. Rebelo e Rocha também estão se apresentando como presidenciáveis.

O ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles, pré-candidato do MDB, foi outro a ser elogiado por Perillo durante a palestra na XP Investimentos, em São Paulo. O coordenador, no entanto, reforçou que a preferência do PSDB é buscar um nome dentro do bloco de partidos que inclui DEM, PP, Solidariedade e PRB. Mais tarde, disse que a aliança com Meirelles é “bem improvável no momento”.

— No passado, ele (Perillo) falou que chegou a defender o nome de Meirelles como vice de Alckmin, mas afirmou que, hoje, não defende mais. Ele garantiu que esses eram os três nomes que estavam circulando nas conversas — disse um dos participantes do evento.

Segundo relatos de quem esteve na palestra, Perillo avalia que a indicação de um desses três nomes ajudaria a reunir na aliança do PSDB partidos do centrão, dando “musculatura suficiente” para Alckmin chegar ao segundo turno. O pré-candidato considera garantidos até agora os apoios de PSD, PPS, PTB e PV, embora nenhum deles tenha sido anunciado oficialmente.

Alckmin faz ofensiva para ter apoio do DEM

Pedro Venceslau | O Estado de S. Paulo.

A menos de um mês para o início das convenções partidárias, auxiliares do ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin, pré-candidato à Presidência pelo PSDB, elegeram o DEM como o parceiro prioritário neste momento na costura por apoios para a eleição presidencial.

A expectativa é de que o DEM suba no palanque tucano logo após a Copa do Mundo, o que abriria caminho para adesões de outros partidos do centro, como o Solidariedade e o PRB.

O presidenciável do PSDB vai jantar amanhã, em Brasília, com líderes das três siglas. O encontro, marcado para ocorrer na residência de Marcus Pereira, presidente do PRB, é considerado decisivo por tucanos. Ainda nesta semana, Alckmin deve ter conversas reservadas com os principais caciques do DEM para tratar de alianças estaduais que podem abrir caminho para um acordo nacional.

Superada essa etapa, o DEM vai abrir um debate interno sobre nomes que podem ser indicados como vice na chapa de Alckmin. O PSDB está agindo com cautela para não melindrar os possíveis aliados e, por isso, deixa em aberto o posto de vice.

As declarações do ex-governador Marconi Perillo (PSDB-GO) favoráveis à dobradinha entre Alckmin e Henrique Meirelles (MDB) na eleição não foram combinadas com o ex-governador, mas não lhe desagradaram. A fala de Perillo, que assumiu a coordenação política da pré-campanha, foi vista como gesto necessário ao mercado e, ao mesmo tempo, ao MDB, que voltou ao radar de Alckmin.

Encontro define rumo do centrão na eleição

União dos seis partidos para disputa presidencial está perto do fim

Jeferson Ribeiro | O Globo

Uma reunião na próxima quinta-feira com líderes de PP, DEM, PRB, Solidariedade, PSC e PR deve definir o destino que os partidos vão seguir na eleição presidencial. Apesar de o discurso oficial, mantido há meses, sustentar que o bloco vai caminhar junto, a união está perto de terminar. Há divergências sobre qual pré-candidato receberá apoio — Ciro Gomes (PDT), Geraldo Alckmin (PSDB) ou Alvaro Dias (Podemos) —, o que deve ser determinante para o rompimento. O PR, mais descolado, está próximo de Jair Bolsonaro (PSL).

As seis legendas têm, juntas, 174 deputados, um financiamento eleitoral superior a R$ 650 milhões e quase um terço do tempo da propaganda eleitoral gratuita na televisão. A possibilidade de usar esta força em conjunto para influenciar um futuro governo, no entanto, esbarra em divergências internas.

— O que nos une à possibilidade de formarmos um bloco de mais de 200 parlamentares no ano que vem, podendo escolher o presidente da Câmara e tirar o controle do poder de PSDB, MDB e PT, que tiveram o comando da política desde a redemocratização. O que nos divide é a escolha de um candidato nestas eleições — disse o presidente de um dos partidos.

Uma tentativa de manter o bloco unido foi a filiação do empresário Josué Gomes, filho do ex-presidente José Alencar, ao PR. Ele era visto como um possível vice, mas pesquisas mostraram que Gomes tinha pouca viabilidade eleitoral.

Luiz Gonzaga Belluzzo: Balzac e a desindustrialização

- Valor Econômico

A escalada industrial da China tornou a situação da indústria do Brasil ainda mais desvantajosa

Nos anos 80, a economia brasileira foi submetida à regressão industrial e econômica deflagrada pela crise da dívida externa e suas consequências: escassez de divisas, enormes déficits fiscais, alta inflação com indexação generalizada e crise monetária.

A chamada "década perdida" foi marcada por forte restrição externa. Isso suscitou a queda pronunciada da relação entre as importações e o PIB, que chegou à incrível cifra de 3%. Trata-se de um fechamento "forçado" da economia. Nesse ambiente de caos econômico, o Brasil deixou de incorporar os novos setores e, portanto, as novas tecnologias da chamada Terceira Revolução Industrial.

A estabilização do nível geral de preços levada a cabo em meados dos anos 1990 livrou a economia brasileira da hiperinflação, mas não teve forças para eliminar a herança dos malfadados anos 1980. As condições em que foi realizada a estabilização custou ao Brasil uma combinação perversa entre câmbio valorizado e juros estratosféricos, com graves prejuízos para o crescimento e a diversificação da indústria.

O "afastamento" das transformações manufatureiras globais nos legou insuficiências em vários setores: infraestrutura de telecomunicações móveis, PCs, computadores portáteis, tevês de plasma e LCD, câmeras digitais, componentes eletrônicos, para não falar da robótica, dos novos materiais e da nanotecnologia.

Ana Carla Abrão: O Espírito Santo

-O Estado de S.Paulo

No setor público não há desemprego, há muitos direitos e poucos deveres

Nas minhas andanças Brasil afora para falar sobre eficiência da máquina pública, várias perguntas surgem ao final. A depender da audiência, o tom vai da indignação a uma concordância envergonhada. Nas piores situações, a descrença toma conta. Como se o Brasil não tivesse mais jeito.

Outro dia, em evento em Vitória do Espírito Santo, passei quase uma hora discursando sobre as distorções do modelo atual de gestão pública e elencando o rol de incentivos errados que regem o atual sistema. As consequências já são bem conhecidas: perda de eficiência, baixa produtividade, péssimos serviços e a desvalorização do servidor público. Mas dessa vez, ao abrir para as manifestações da plateia, me deparei com uma pergunta diferente do padrão. Numa audiência quase que totalmente composta por servidores públicos, me questionaram sobre o que esperar do futuro em um País cujos jovens tinham como ambição prestar um concurso público, qualquer que fosse, ao invés de empreender e gerar empregos.

Eu ainda não tinha pensado no problema por esse ângulo. Afinal, a motivação principal para uma reforma do Estado e a revisão do modelo de funcionamento da máquina pública em particular, é a melhoria dos serviços públicos. Ao alocar os recursos de forma mais eficiente, garantimos melhores resultados para a população como um todo, em particular para a que mais precisa do Estado. Assim atendemos melhor o cidadão – hoje desconsiderado em boa parte das decisões em todas as esferas de poder – e saímos do buraco fiscal cavado nos últimos anos.

Denise Neumann: Sem renda, emprego e crédito fica mais difícil

- Valor Econômico

Ganho salarial perdeu ímpeto, o que afeta a retomada

Muito antes da greve dos caminhoneiros e do aumento da tensão com a guerra comercial que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, resolveu travar com a China, Europa e outros parceiros comerciais, o ritmo da retomada ensaiada pela economia brasileira já era fraco.

Em fevereiro, a projeção para o Produto Interno Bruto (PIB) era de 2,9%, mas os dados de indústria, varejo e serviços dos primeiros meses levaram a uma primeira rodada de revisões para baixo, movimento acentuado com o cenário externo de maio-junho e do longo bloqueio das estradas, que derrubou de vez o pouco de otimismo que havia se instalado no Brasil.

Renda, emprego e crédito se comportaram abaixo do esperado e ajudam a explicar porque o país cresceu menos.

Nos primeiros meses de 2018 a renda real parou de crescer e os trabalhadores começaram, inclusive, a registrar queda do poder de compra. O rendimento médio real dos ocupados no trimestre encerrado em maio foi 0,6% inferior ao do trimestre encerrado em fevereiro. E o ganho em relação a um ano antes foi inferior a 1%, bem abaixo dos 3% de um ano antes. Ou seja, o ritmo de ganho dos salários - e consequentemente da massa salarial - perdeu ímpeto e hoje pode ajudar menos a retomada do que ajudou em 2017.

Fernando Montero, economista-chefe da Tullett Prebon, lembra que a renda mais fraca também é explicada por um aspecto técnico. O IBGE reportou que um rendimento muito acima do padrão (R$ 1 milhão) entrou na pesquisa em 2016, o que influenciou o ganho do ano passado e, por efeito-base, reduz o rendimento médio este ano. Mas além dessa questão técnica, Montero pondera que a principal ajuda dada pela queda no nível de inflação já "passou"; o salário mínimo foi corrigido em 1,8%; e agora veio a cesta básica, cujo custo subiu de R$ 653 para R$ 705 de maio para junho - R$ 52 a mais para comprar os mesmos produtos.

Mediocridade com otimismo: Editorial | O Estado de S. Paulo

Mediocridade será a marca da economia brasileira nos próximos três anos, segundo as projeções do mercado, e até essa expectativa embute algum otimismo. Para crescer 2,50% em 2019 e repetir esse desempenho até 2021, com a inflação mais ou menos contida e investimento estrangeiro em alta, o País terá de chegar ao terceiro ano do próximo governo sem um desastre nas contas públicas e sem apavorar o mercado com o risco de um calote. Se o novo presidente será capaz de garantir esse mínimo de segurança, ou mesmo se terá uma clara percepção do desafio, ninguém pode dizer neste momento. Quanto a 2018, as previsões continuam sombrias, indicando uma atividade pouco mais intensa que no ano passado, quando os negócios começaram a sair da recessão. O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) deve ficar em 1,55%, segundo a mediana das projeções coletadas na última pesquisa Focus do Banco Central (BC). Quatro semanas antes, sem o choque da crise no transporte rodoviário, as estimativas ainda apontavam uma expansão de 2,18% – uma perspectiva já pouco estimulante, embora melhor que a atual.

Um horizonte mais distante é uma das marcas da pesquisa Focus em novo formato, divulgada ontem pela primeira vez. Agora se publicam projeções até 2021, três anos à frente, cobrindo todo o período das metas de inflação já definidas. Na semana passada foi fixada a meta de 3,75% para vigorar dentro de três anos. As projeções de inflação indicam 4,10% para 2019 e 4% para os dois anos seguintes. O número apontado para 2021, portanto, está um pouco acima do alvo, mas dentro da tolerância de 1,5 ponto porcentual.

Para este ano a pesquisa registra as projeções de 4,03% e 4,16%, mais altas que as da semana anterior e bem maiores que as de quatro semanas antes (3,65% e 3,75%). Aqui aparece outra inovação. O relatório apresenta, em linha separada, a mediana das estimativas de inflação resultante de revisões nos cinco dias úteis até a coleta. Isso permite uma atualização maior de parte das informações e uma indicação mais precisa de tendências.

Futuro incerto: Editorial | Folha de S. Paulo

Estudo aponta o Brasil como um dos países mais imprevidentes do mundo

O Brasil é um dos países que menos poupam no mundo, mostra um novo estudo publicado pelo Banco Mundial. Um de cada três brasileiros diz ter feito alguma economia no ano passado, mas somente 11% reforçaram suas reservas pensando no longo prazo, para permitir uma velhice menos insegura.

No mundo desenvolvido, 71% dos adultos guardaram dinheiro com esse objetivo, diz o relatório. Entretanto até nações menos avançadas poupam mais do que o Brasil, cuja taxa aparece abaixo da média dos emergentes, de 16%.

Parte da explicação está na generosidade do sistema previdenciário nacional. Para muitos trabalhadores pobres, o piso equivalente a um salário mínimo representa a garantia de que manterão o padrão de consumo na aposentadoria, ou até mesmo a possibilidade de alcançar renda mais elevada.

Mesmo quem recebe acima disso na ativa consegue preservar parcela significativa dos seus ganhos ao deixar o mercado, o que desestimula a formação de reservas.

Embora a maioria dos brasileiros se comporte de forma imprevidente, a disposição dos que poupam parece ter resistido à crise econômica. Especialistas suspeitam que a recessão pode até ter levado muitos a guardar, com medo do futuro.

É possível que as transformações em curso no emprego tenham efeito semelhante. A maior parte das pessoas que encontraram ocupação nos últimos anos teve que aceitar trabalho sem registro em carteira profissional ou abrir negócio próprio para ganhar a vida.

Sem contar com a proteção garantida pelo sistema oficial de seguridade, muitos poderão se sentir encorajados a separar fatias maiores da sua renda para reduzir riscos durante a velhice.

Supremo sepulta de vez a contribuição obrigatória: Editorial | Valor Econômico

Por maioria de 6 votos favoráveis e 3 contrários, o Supremo Tribunal Federal reafirmou a constitucionalidade do fim da contribuição sindical obrigatória herdada da era Vargas, um dos pontos mais importantes da reforma trabalhista, e pôs um ponto final em 19 ações que buscavam reinstituí-la, a maior parte delas movida pelos sindicatos.

A principal luta das entidades sindicais após o início da vigência da reforma, em novembro, foi tentar reaver na Justiça o direito de cobrar de todos os membros de uma categoria o correspondente a um dia de salário. Com a derrota, abrem-se mais capítulos de disputa judicial, desta vez para dar o direito aos sindicatos de estabelecerem em assembleia uma contribuição negocial a ser cobrada não apenas dos associados, mas de todos os beneficiários de acordos salariais. Em princípio, essa contribuição ou outra qualquer, seja com que nome for, não poderá ser imposta ao trabalhador, que tem individualmente de concordar com a cobrança para que ela possa ser feita. A questão já está nos tribunais.

Desde que a reforma entrou em vigor, sindicatos patronais e de trabalhadores viram suas receitas encolher drasticamente com a ausência do imposto sindical. Os sindicatos mais representativos terão condições de sobreviver, embora cortando custos. Boa parte deles está ligado à Central Única dos Trabalhadores. A CUT defendeu o fim do imposto em 2003 e 2012, com base na luta pela independência sindical que esteve em sua origem. Quer, porém, substitui-lo pela contribuição assistencial e faz coro com outros sindicatos menos pujantes nessa tentativa de obter receitas alternativas.

A questão central da inelegibilidade de Lula: Editorial | O Globo

Rejeitados os diversos recursos para libertar o ex-presidente, aproxima-se o momento da aplicação da Lei da Ficha Limpa, o que a defesa quer retardar

Preso Lula, por força da jurisprudência restabelecida pelo Supremo do cumprimento de pena a partir da condenação em segunda instância — como vigorou de 1941 a 2009, voltando em 2016 —, aproxima-se o momento da deliberação sobre a inelegibilidade do ex-presidente.

Pelo texto da Lei da Ficha Limpa, não há dúvida: condenado em segunda instância fica inelegível por oito anos. Mas nada é simples com Lula, devido às forças políticas, partidárias e ideológicas que se movem com ele. E, como no Brasil há infinitas possibilidades de recursos, temos o festival de idas e vindas na forma de habeas corpus e todo tipo de questionamento, principalmente depois de decretada a prisão do ex-presidente.

Como é da natureza petista, tudo é usado com fins políticos, visando a tentar furar a Lei da Ficha Limpa abaixo da linha d'água, para que Lula, líder nas pesquisas eleitorais, possa se candidatar novamente à Presidência, a fim de se livrar do cumprimento da pena por corrupção e lavagem de dinheiro e ainda resgatar o PT. Há muita gente e interesses na dependência desta operação. Daí existirem reflexos até no plenário do Supremo.

Deve-se registrar o desentendimento havido na defesa do ex-presidente, em que o advogado Cristiano Zanin, o defensor, digamos, mais orgânico de Lula — é genro de Roberto Teixeira, dono da banca de advocacia que o representa, compadre histórico do ex-presidente — discordou da ideia de Sepúlveda Pertence, ex-ministro do STF, agregado à defesa, de propor à Corte a alternativa da prisão domiciliar, para retirar Lula da cadeia de Curitiba.

Zeca Pagodinho: Quando a gira girou

Fernando Pessoa: As lentas nuvens fazem sono

As lentas nuvens fazem sono,
O céu azul faz bom dormir.
Bóio, num íntimo abandono,
À tona de me não sentir.

E é suave, como um correr de água,
O sentir que não sou alguém,
Não sou capaz de peso ou mágoa.
Minha alma é aquilo que não tem.

Que bom, à margem do ribeiro

Saber que é ele que vai indo...
E só em sono eu vou primeiro.
E só em sonho eu vou seguindo.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Opinião do dia: Fernando Henrique Cardoso*

“O Brasil exige: sejamos radicais. Mas dentro da lei: que a Justiça puna os corruptos, sem que o linchamento midiático destrua reputações antes das provas serem avaliadas. Não sejamos indiferentes ao grito de “ordem!”. Ele não vem só da “direita” política, nem é coisa da classe média assustada: vem do povo e de todo mundo. Queremos punição dos corruptos e ordem para todos, entretanto, dentro da lei e da democracia.

O País foi longe demais ao não coibir o que está fora da lei, o contrabando, o narcotráfico, a violência urbana e rural, a corrupção público-privada. Devemos refrear isso mantendo a democracia e as liberdades antes que algum demagogo, fardado ou disfarçado de civil, venha a fazê-lo com ímpetos autoritários.”

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*Sociólogo, foi presidente da República. ‘Sejamos radicais’, O Estado de S. Paulo e O Globo, 1/7/2018

Marcus André Melo: Direita envergonhada

- Folha de S. Paulo

Políticos brasileiros, que em outros países se definiram como de direita, rejeitam o termo

“Direita envergonhada” (“abashed right”, no original) foi a expressão utilizada pelo cientista político Timothy Power, da Universidade Oxford, para referir-se ao paradoxo de os políticos brasileiros —que em outros países se auto definiriam como de direita— recusarem essa qualificação.

Duas década após a publicação do seu livro “The Political Right in Post-Authoritarian Brazil: Elites, Institutions and Democratization”, Penn State University Press, 2000, (A Direita Política no Brasil Pós-Autoritário: Elites, Instituições e Democratização), ocorre curiosa inversão: a normalização do nosso sistema partidário, pela emergência de partidos e setores autodefinidos como de direita e ultraconservadores, tem causado perplexidade descabida.

O fenômeno da direita envergonhada não é novo, muito menos brasileiro. Albert Thibaudet registrou na década de 1930 o que chamou de sinistrismo: a diferenciação do sistema partidário na França pela proliferação de novos partidos, sempre pela esquerda. O termo direita, argumentava, havia adquirido conotação pejorativa devido à associação com a monarquia e à idolatria da república.

O mesmo aconteceu no Brasil e na América Latina em que a qualificação de direita passou a ser associada aos regimes militares e ao autoritarismo (tolerado na agenda pública em sua versão à esquerda).

O sinistrismo mudou: nas últimas décadas há uma tendência de afastamento dos antigos modelos de partidos socialistas e comunistas. Brasil, África do Sul e Índia são as únicas democracias em que ainda existem partidos comunistas não reformados com presença ativa na arena pública.

Fernando Limongi: Mata-mata

- Valor Econômico

Negociações para alianças entram em sua fase final

Durante a semana, as negociações para a formação de coligações ganharam intensidade. Sob a pressão do calendário eleitoral, os candidatos intensificaram os contatos, pois o limite para acertar os acordos acaba na primeira semana de agosto.

Um aspecto essencial dessa definição é a articulação entre os dois planos da disputa, o nacional e o estadual. Uma candidatura presidencial forte se estrutura a partir dos palanques com que conta nos Estados. O inverso também tende a ser verdade, isto é, candidatos fortes aos governos estaduais precisam se alinhar a candidatos viáveis à presidência.

Para por as coisas de uma forma diferente: nenhum partido brasileiro lança candidato à presidência e a todos os governos estaduais. Para vencer, é preciso concentrar forças e recursos, fazendo acordos que envolvem a troca de apoios. Por meio dessas negociações e acordos se reduz o número de candidaturas viáveis oferecidas aos eleitores, tanto na disputa presidencial quanto nas estaduais.

Em geral, em cada estado, somente duas ou três grandes coligações apresentam candidaturas competitivas ao governo. Nas últimas eleições, salvo raras exceções, as coligações viáveis foram comandadas por quatro partidos, a saber, PT, PSDB, MDB e PSB.

Dadas as inúmeras peculiaridades dessa eleição, as negociações para formar coligações travaram. A indefinição do PT, sem dúvida alguma, contribuiu de forma decisiva para o atraso. Todos aguardam a definição do competidor mais forte. E o competidor mais forte está preso e não poderá ser candidato. O partido de Lula insiste nele e resiste a indicar seu vice ou um provável sucessor.

Tirar Lula da prisão e garantir sua candidatura passou a ser o único objetivo do PT. Tudo gira em torno do ex-presidente ou passa por ele. Não há um negociador autorizado sequer e todos aguardam ansiosamente as diretivas do líder que, por enquanto, precisam ser deduzidas por recados e notas que envia desde o cárcere.

Celso Rocha de Barros: Unger

- Folha de S. Paulo

Meio poético, pensador ligado a Ciro precisa de coautor que escreva em prosa

Nesses anos todos de participação na vida política nacional, Roberto Mangabeira Unger ainda não mostrou para o público brasileiro o que Harvard viu nele. Apoiou o Ciro, rompeu com o Ciro, fez oposição radical ao Lula, virou ministro do Lula, voltou para o Ciro, e, nessa confusão toda, ninguém entendeu exatamente o que ele quer da vida.

É uma pena, porque Unger é um pensador bastante original e interessante, respeitado por pensadores do porte do filósofo Richard Rorty, do historiador Perry Anderson, do economista Dani Rodrik. Se você não lê a Ilustríssima (por que não, ô?) talvez não saiba quem são esses sujeitos, mas garanto que é gente bem inteligente.

A utopia de Unger é a seguinte: um sistema econômico de mercado em que o governo atue muito pesadamente para que todo mundo seja capaz de se mover entre as condições de assalariado qualificado, profissional independente e associado em cooperativas de gente igualmente qualificada.

Parece uma utopia liberal, mas Unger acredita que isso só será possível se o Estado for muito atuante na economia: mexendo na política educacional, na oferta de crédito, na alteração da lei dos contratos, no fornecimento da rede de segurança para quem se der mal no mercado.

O Estado que faria isso tudo também seria diferente. Unger quer uma democracia de alta intensidade, com plebiscitos, referendos, participação da população na gestão dos fundos públicos.

Mary Zaidan: Os donos da bola

- Blog do Noblat | Veja

As regras do STF são mais frouxas do que as da Fifa

Derrotada pela França, a Argentina exige a realização de um novo jogo para tentar vencer. E, enquanto a nova partida não é marcada, se comporta como campeã da Copa.

Parece absurdo – e é. Mas tem sido esse o comportamento dos vencidos no STF quanto à possibilidade de início do cumprimento da pena de condenados em segunda instância.

Sempre que podem – em decisões monocráticas ou no voto na segunda turma, onde três dos cinco ministros perdoadores e perdedores têm assento -, eles desacatam a decisão suprema da Corte para impor seus entendimentos ou vontades. Conduta que se agudizou depois de Lula ir para a cadeia.

A prisão pós-condenação em segunda instância, que vigorou por décadas antes de ser revogada por dádiva da Constituição de 1988, foi votada e autorizada pela maioria dos ministros por duas vezes, a última delas em 2016, por 6 x 5. Placar tão apertado quanto o 4 x 3 que eliminou a Argentina.

Mas as regras do STF são mais frouxas do que as da Fifa e, pior, podem ser alteradas enquanto a bola rola.

Com a já anunciada mutação de voto de Gilmar Mendes, sabe-se que a decisão em vigor será alterada, possivelmente em setembro, quando Dias Toffoli, reprovado em exames para magistratura, assumirá a Presidência do Supremo no lugar de Cármen Lúcia.

Toffoli foi voto vencido. Mas, assim como Marco Aurélio Mello, tem agido por conta própria contra a prisão sem a exaustão dos recursos em instâncias superiores, prática que garante impunidade quase eterna aos que têm dinheiro a rodo para as bancas milionárias de causídicos.

Cida Damasco: Na mesma trilha

- O Estado de S. Paulo

Candidatos divergem sobre saídas, mas já discutem a sério ajuste e reformas

Mesmo em meio à dispersão de interesses provocada pela Copa e como de costume sob desconfiança, as pesquisas eleitorais poucas vezes foram aguardadas com tanta ansiedade como agora. E fora do circuito eminentemente político. Situação mais do que compreensível, diante das incertezas que cercam a disputa pela Presidência, a pouco mais de três meses das eleições. As incertezas chegam ao ponto de incluir quem vai iniciar a corrida – não apenas quem chegará à vitória.

Espera-se que finalmente o PT ponha na mesa o nome do substituto de Lula – que, preso há três meses, ainda lidera as pesquisas, com cerca de um terço das intenções de voto. No território tucano, todo santo dia aparece alguém com alguma alternativa para substituir Geraldo Alckmin, visto que o ex-governador continua empacado bem abaixo da marca dos 10%. Também há dúvidas se o MDB levará adiante a candidatura de Henrique Meirelles, que não sai do 1% das intenções.

No meio desse emaranhado, mercados e setores produtivos tentam se animar com os candidatos à disposição e mudam de cá para lá e de lá para cá, a cada vez que aparecem novos indícios nas pesquisas. Já houve entusiasmo com Meirelles, Alckmin e, na falta de perspectivas mais favoráveis para os dois candidatos, até alguma “simpatia” por Jair Bolsonaro (PSL). Sem falar das meteóricas passagens dos outsiders Luciano Huck e Joaquim Barbosa.

A queridinha da vez é Marina Silva (Rede), que ficou tecnicamente empatada com Bolsonaro (com 13% das preferências, frente a 17% do deputado), e à frente de Ciro Gomes (PDT), com 8%, no cenário sem Lula da última pesquisa CNI-Ibope. Embalados pelo resultado, os mercados reagiram bem: a Bolsa subiu 1,6% na quinta-feira e o dólar, depois de um esticão, estabilizou.

Angela Bittencourt: Cai chance de reformista disputar 2º turno eleitoral

- Valor Econômico

Selic sobe após eleição; lucro das empresas deve cair

Inflação mais pressionada, encerramento do ciclo de flexibilização monetária nos Estados Unidos, crescente protecionismo comercial e choque na oferta de petróleo são variáveis que justificam a piora do equilíbrio de riscos na economia global e a queda do interesse dos investidores internacionais por ativos financeiros de mercados emergentes observada nos últimos quatro meses. O Brasil está inserido nesse contexto, mas tem a administrar os seus próprios pesadelos.

Após um primeiro trimestre mais fraco - com o Produto Interno Bruto (PIB) em alta de 0,4% ante 1% esperado por analistas -, os dados econômicos ensaiaram melhora em abril. Mas quase certamente essa melhora será neutralizada pelos efeitos negativos da greve dos caminhoneiros que parou o país.

A greve poderá afetar, inclusive, o resultado da eleição presidencial, na avaliação do estrategista do UBS Wealth Management, Ronaldo Patah. Em entrevista à coluna, ele afirma que perspectivas mais sombrias para a economia já tiveram impacto sobre os brasileiros que irão às urnas. E informa: a grande maioria dos brasileiros acredita que a "economia piorou" em relação a meses atrás e pretende votar em um "líder forte com vontade de mudar" o status quo.

"As chances de um candidato reformista chegar ao segundo turno da eleição presidencial são agora menores do que eram antes da greve", afirma. O cenário base do UBS tem agora 60% de chance de que o próximo presidente seja um "quase reformista". Isto é, alguém sem forte convicção sobre as reformas que devem ser feitas no país para consertar a economia.

Ricardo Noblat: O peso da camisa nas eleições de outubro

- Blog do Noblat | Veja

A ameaça que pesa sobre as três mais antigas

Na política como no futebol certas camisas pesam, e as outras importam menos. A do PMDB, a mais antiga, só uma vez favoreceu de modo avassalador os que a vestiam. Foi em 1986 quando o partido, no embalo do Plano Cruzado que congelara preços e salários, elegeu 22 governadores em 23. Em 1989, na primeira eleição presidencial depois de 21 anos de ditadura, o candidato do PMDB colheu insignificantes 4,7% dos votos.

Uma única vez mais o PMDB disputou com candidato próprio a presidência da República, e perdeu feio. Limita-se desde então a vender seu tempo de propaganda eleitoral no rádio e na televisão a quem pagar mais caro e, adiante, seu apoio a quem queira governar. Este ano, finge estar disposto a concorrer com a candidatura de Henrique Meirelles. Irá rifá-la para sair rodando a bolsa por aí e amigar-se com várias ao mesmo tempo.

Foi de uma costela do PMDB que nasceu o PSDB. Mas não foram os méritos do PSDB que o levaram a governar o país por oito anos seguidos. Deve-se isso ao Plano Real, bancado pelo presidente Itamar Franco, que domou a inflação e distribuiu renda. O Real elegeu e reelegeu Fernando Henrique Cardoso. Ao desvalorizar-se diante do dólar, em 2002 ajudou a eleger Lula que amargava três derrotas consecutivas a presidente.

O peso da camisa do PSDB garantiu-lhe apenas a posição de “sparing” favorito do PT nos últimos 14 anos. Neste, o PSDB está ameaçado de ficar de fora do ringue do segundo turno da sucessão presidencial. Seu candidato tem como referência o fato de ter nascido em Pindamonhangaba e governado São Paulo quatro vezes. Nada contra a cidade e o Estado. O problema de Alckmin é que ele é um candidato analógico.

Como parece destinado a voar com a desenvoltura e elegância das galinhas, não encontra quem queira lhe fazer par. A três meses das eleições, a não ser que desista delas, está condenado a ir até o fim, para a glória improvável ou a derrota previsível. O PSDB não pariu ninguém capaz de substitui-lo a essa altura. O candidato natural do partido foi soterrado pela ganância e falta de escrúpulos. Quem não tem tu, vai tu mesmo, portanto.

Onde se perdeu a camisa, aí é que se procura. A do PT desbotou depois de 38 anos de uso, a parte mais recente deles de mau uso. A lama que jorrou dos dutos da Petrobras deixou o PT ante dois caminhos: reinventar-se, o que passaria pela admissão dos seus erros, ou manter-se como era. A prisão de Lula e o aborto de sua candidatura adiou a reinvenção, será que um dia ela virá. O PT irá às urnas com o discurso e a postura de sempre.

O substituto de Lula, a ser lançado na undécima hora, dirá: “Eu sou Lula”. E o algoz do PT dirá do fundo do cárcere: “Eu sou ele”. Pouco tempo haverá para que o truque encante quem se quiser deixar encantar. Além de velha, desbotada e pesada, a camisa do PT tem tudo para despedir-se esfarrapada de uma competição de curta distância como será a de outubro próximo. Foi assim nas eleições municipais há dois anos.

Ivanir dos Santos: Justas e necessárias

- O Globo

Sistema de cotas faz parte das políticas de reparação às minorias representativas da nossa sociedade

No dia 19 de junho, estava previsto na Assembleia Legislativa do Rio a votação do projeto de lei, enviado pelo governo do Estado, que propõe a prorrogação por mais dez anos, no mínimo, do sistema de cotas para ingresso em universidades estaduais. Mesmo adiada a votação, provavelmente para o mês de setembro ou outubro, vale aqui uma brevíssima reflexão sobre o assunto. Sancionada no Estado do Rio de Janeiro em 11 de dezembro de 2008, a Lei 5.345/ 2008 é fruto dos processos de resistências e lutas dos movimentos negros em busca de equidade e igualdade na sociedade brasileira.

Longe de ser um privilégio, a lei de cotas aprovada pelo estado fluminense assegura que: tem direitos às cotas nas universidades públicas estaduais estudantes que se autodeclaram negros e indígenas, com 20% das vagas; alunos da rede pública de ensino, com 20% das vagas, e pessoas portadoras de deficiência e filhos de policiais civis e militares, bombeiros militares e inspetores de segurança e administração penitenciária, mortos ou incapacitados em razão do serviço, com 5% das vagas.

Ingressar em uma universidade pública gratuita, para muitos alunos negros, indígenas e/ou de redes públicas de ensino é um grande sonho, mas, diante das configurações sociais, em que muitos desses alunos são arrimo de família e dividem suas horas de estudos com intensas jornadas de trabalho, esse sonho pode ficar no meio do caminho. Caminho esse construído com dificuldades num país que foi o último a erradicar o trabalho escravo e que não foi capaz de fomentar política inclusiva para negros e negras recém-libertos. Assim, precisamos compreender que o sistema de cotas, somado à lei 11.645, que institui a obrigatoriedade do ensino das histórias e das culturas africanas, indígenas e afrobrasileiras, contribuindo para visibilidade histórica das populações marginalizadas, faz parte das políticas de reparação às minorias representativas da nossa sociedade. E que tem como alicerce as políticas de ações afirmativas inclusivas fomentadas pelos movimentos negros brasileiros.

E, em contraponto ao que até então se poderia pensar, o número de evasão dos alunos cotistas é ínfimo se comparado ao número de alunos cotistas que concluem os cursos de ensino superior. Segundo os dados apresentados pela Sepplir (Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial), em três anos, entre 2012 e 2015, 150 mil negros ingressaram em universidades por meio de cotas, diante de uma realidade, em 1997, em que o percentual de jovens negros, entre 18 e 24 anos, que cursava ou havia concluído o ensino superior era de 1,8%, e o de pardos, 2,2%. Em 2013, esses percentuais já haviam subido para 8,8% e 11%. Acredito que precisamos continuar trabalhando e fomentando ações que possam promover as ações afirmativas em nossa sociedade.

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Ivanir dos Santos é babalaô e doutor em História Comparada pela UFRJ

Fernando Gabeira: Com alma

- O Globo

Hoje, no Brasil, só se fala no jogo com o México. Talvez o mesmo não seja verdadeiro por lá. Ontem foi dia de eleições presidenciais, e a esquerda estava bem à frente, com Andrés Manuel López Obrador. No passado, as eleições mexicanas eram decididas nos bastidores de um partido, o Revolucionário Institucional (PRI). Agora, são para valer.

Foram eleições sangrentas, pois lá, como aqui, a violência é um fato cotidiano. Quarenta e oito pessoas — candidatos ou pré-candidatos — foram assassinadas no processo, entre elas, oito mulheres. O México que joga contra o Brasil talvez não esteja preocupado com Cavani, Lukaku ou Mbappé, e sim com o presidente Trump, que é o principal adversário no horizonte.

Os argentinos deram adeus. Ao contrário de grande parte dos brasileiros, tenho simpatia por eles. Pelo menos no passado, jogavam com alma, e isso é o bastante para me conquistar. Assim como Santo Agostinho em relação ao tempo, sei o que é alma, mas, se me perguntarem, não consigo definir.

Talvez possa falar de algumas expressões de alma, uma centelha, um brilho, uma garra, que não são idênticos ao talento e à técnica. Desde menino observo a alma, essa substância invisível, translúcida, e todos os golpes que o avanço econômico aplicou nela. A rígida divisão de trabalho, burocráticos prazos, tudo isso contribui para que se façam as coisas sem alma.

Charles Chaplin, de certa forma, toca no tema no filme “Tempos modernos”, de 1936. Hoje, a situação não é a mesma, mas o trabalho tornou-se supérfluo. Como buscar sentido no ofício, se o futuro aponta para a sua destruição?

Não queria tratar desse tema com pretensões intelectuais. Baseio-me na torcida do Flamengo, que não pode ser acusada de grandes voos teóricos. Basta olhar a história do clube para constatar que muitos ídolos não o foram precisamente pelo talento e pela técnica.

Celebrizado pela canção de Jorge Ben, Fio Maravilha chegava ao gol com emoção e raça. Só não entrava com bola e tudo por humildade. Fio Maravilha, nós gostamos de você. Depois dele, Obina, com o mesmo jeito atrapalhado, mas uma grande vontade e o carinho da torcida, apesar da técnica precária e de uma tenebrosa pontaria.

O futebol, como tudo, evoluiu, tornou-se mais ensaiado, mais cientificamente estudado. Talvez não exista mais lugar para Fios e Obinas. Fio Maravilha tornou-se entregador de pizza em São Francisco. Se conseguir se divertir com os bondes como se divertia com a bola, subir ladeiras abraçado numa marguerita com o fervor com que entrava nas áreas, nem tudo estará perdido.

Não se trata de negar a excelência e o avanço científico. Suspeito que o hipotético encontro de um time de hoje com um time do passado resultaria em goleada. Não creio que a vida possa ser sintetizada num jogo. Mas, se pudesse, o futebol seria muito melhor candidato do que o xadrez.

Num dia como hoje, portanto, ganhem ou percam, mas, por favor: com alma. Isso é decisivo não só contra o México, mas sobretudo contra os belgicanos, como dizia um locutor antigamente.

Talvez realize-se aí o duelo entre os dois melhores do mundo na atualidade. Há pouco espaço para cai-cai, estilista, limpeza de pele, pensem que no sofri etc. Seremos nós contra eles, e o mundo dos amantes do futebol olhando.

Demétrio Magnoli: Rússia, campeã do mundo

- O Globo

A Arena Baltika custou US$ 300 milhões e abriga 35 mil espectadores. Inaugurada para a Copa do Mundo, serviu como palco para quatro jogos. Depois do Inglaterra x Bélgica, quinta passada, receberá os jogos do time local, que atraem cerca de quatro mil torcedores. Nenhum brasileiro ficará chocado com a história de mais um elefante branco das Copas. Esse, porém, é diferente. Kaliningrado, onde se situa, é um exclave circundado por terras da Polônia e da Lituânia: um fragmento de Rússia separado do território nacional pela implosão da URSS. Intensamente militarizado, o exclave sedia a Frota do Báltico e cumpre a função simbólica de fortaleza russa entalhada no mundo da Otan. O elefante branco não tem finalidades esportivas, mas geopolíticas.

“Putin quer exibir Kaliningrado como um poderoso bastião militar contra a expansão da Otan rumo ao leste e mostrar um exclave mais próspero do que realmente é”, explicou William Courtney, um ex-representante americano em negociações militares com a Rússia. Na antiga URSS, os grandes investimentos não tinham sentido econômico, mas obedeciam à lógica de ostentar o poderio estatal. A Arena Baltika inspira-se nessa tradição soviética, retomada pelo putinismo. De fato, do ponto de vista da Rússia, toda a “Operação Copa” não se inscreve na lógica dos negócios, mas na da política.

O futebol entrelaçou-se à política desde que as bandeiras entraram em campo, na primeira Copa. No segundo evento, realizado na Itália, em 1934, sob o regime fascista, ergueram-se os novos estádios de Turim (batizado “Mussolini”), Roma, Bologna, Bari, Florença, Livorno e L’Aquila com o propósito de exteriorizar o poderio industrial do país. Depois da vitória final italiana, o jornal Il Popolo D’Italia, porta-voz do governo, celebrou a “visão de harmonia, disciplina, ordem e coragem” refletida pela atuação da equipe nacional.

Militância antiprivatização: Editorial | O Estado de S. Paulo

Na quarta-feira passada, o ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF), concedeu, em duas ações, medidas cautelares contrárias às privatizações, em clara interferência do Poder Judiciário em seara alheia. Numa das ações, o relator justifica a urgência da liminar alegando o empenho do governo federal em levar adiante o Programa de Parcerias de Investimentos, aprovado na Lei 13.334/2016. É o uso deliberado da caneta do Judiciário para fazer oposição ao Executivo.

Proferida numa ação proposta pelo governo de Alagoas contra a União, a primeira liminar retira a empresa Companhia Energética do Estado de Alagoas (Ceal) do leilão de privatização de distribuidoras da Eletrobrás, previsto para o próximo dia 26 de julho. De acordo com o edital de venda, a Ceal tem patrimônio líquido negativo de R$ 573,8 milhões, endividamento de R$ 1,46 bilhão e prejuízo acumulado nos últimos cinco anos de R$ 923,6 milhões. Diante dessa situação financeira periclitante, a União decidiu licitá-la pelo valor simbólico de R$ 50 mil. O governo de Alagoas alega, no entanto, que teria direito a receber R$ 4 bilhões pela venda da Ceal.

Apesar do irrealismo do pedido, o ministro Lewandowski concedeu a liminar, numa decisão que, além de acrescentar incertezas a um processo de privatização absolutamente necessário, obriga o contribuinte a continuar custeando dívidas bilionárias de estatais mal administradas.

STF instável é motivo de preocupação nas eleições: Editorial | Valor Econômico

Para não fugir à regra, o Supremo Tribunal Federal (STF) encerrou o semestre judiciário tomando medidas de impacto, a maioria delas muito polêmicas, sobretudo no que diz respeito aos assuntos econômicos e à Operação Lava-Jato. No primeiro caso, enquadra-se, por exemplo, a liminar concedida pelo ministro Ricardo Lewandowski suspendendo o leilão das concessionárias de energia elétrica, nos três níveis de governo, sem prévia autorização do Legislativo.

Espécie de líder sindical no Supremo, Lewandowski é o mesmo ministro que, no final do ano passado, concedeu liminar mandando o governo pagar o aumento dos servidores públicos concedido ainda pela ex-presidente Dilma Rousseff e que o Palácio do Planalto, temendo o impacto nas contas públicas, suspendera por meio de uma medida provisória. Liminar, é bom que se diga, que até hoje não foi julgada em caráter definitivo pela mais alta instância judiciária do país.

Ficou para as calendas.

Também agora no fim do semestre judiciário, o ministro Edson Fachin, em outro movimento favorável ao sindicalismo, tentou restaurar o imposto sindical obrigatório, mas foi derrotado pela maioria dos ministros do STF, que considerou constitucional a mudança feita na legislação trabalhista pelo Congresso Nacional.

O ministro Ricardo Lewandowski é apenas um exemplo da sem-cerimônia com que o Supremo interfere na decisão de outros poderes. Grande parte das vezes por meio de decisões monocráticas. Neste semestre, os órgãos colegiados (as duas turmas e o plenário) julgaram 6.169 processos, enquanto os 11 ministros que integram o Tribunal proferiram 58.203 decisões monocráticas. Ou seja, individuais, como aquela que assegurou o pagamento do aumento aos servidores - e o governo que se virasse para arrumar recursos para honrar a folha salarial.

A imagem que passa o Supremo é a de que o interesse dos ministros prevalece sobre o que seria básico, o melhor interesse da Justiça. Vê-se isso claramente agora quando está em jogo o futuro da Operação Lava-Jato. Quando interessa ao ministro Edson Fachin, relator dos processos, ele envia os julgamentos à Segunda Turma do Supremo, da qual é parte integrante; quando percebe que será derrotado, imediatamente recorre ao plenário.

O comportamento das duas turmas do Supremo é neurótico. O preso da Lava-Jato tem mais chances de ser solto ou mandado para casa com tornozeleira eletrônica, se cair na Segunda Turma. Na primeira turma, suas chances praticamente desaparecem.