quinta-feira, 20 de maio de 2021

Merval Pereira - Não há chance de dar certo

- O Globo

Além das mentiras já comprovadas do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, que o noticiário em tempo real já explora desde ontem, e os jornais de hoje estão certamente aprofundando, os depoimentos à CPI da Covid até agora estão desvelando a maneira primitiva com que as decisões não são tomadas no governo Bolsonaro.

Juntando com a operação da Polícia Federal realizada ontem sobre a venda ilegal de madeira para os Estados Unidos, denunciada pelo próprio governo americano, temos a prova cabal de que não é apenas a questão ideológica que interfere na formação de um governo totalmente disfuncional.

O (ainda?) ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e diversos escalões do Ibama, inclusive seu presidente, foram apanhados por uma investigação sigilosa que incomodou Bolsonaro, que fez trocas no Ministério da Justiça e na Polícia Federal na tentativa de controlar as instituições do Estado brasileiro e viu-se surpreendido com a independência da PF.

Um exemplo típico, e fundamental, dessa disfuncionalidade é a crença de que as palavras de Bolsonaro nas redes sociais e nas lives fazem parte apenas do seu “etos político”, e não representam orientações do governo. Ao explicar a famosa frase “um manda, outro obedece”, Pazuello disse que era “uma frase de internet”, isto é, uma resposta para ajudar o político Bolsonaro, que estava sendo criticado por seus seguidores nas redes sociais porque o Ministério da Saúde havia anunciado a compra da CoronaVac, a “vacina chinesa” do Doria.

Malu Gaspar - Coisa de internet

- O Globo

Depois de muito tentar se esquivar da CPI da Covid, o ex-ministro da Saúde e general Eduardo Pazuello conseguiu no Supremo Tribunal Federal um habeas corpus para ficar em silêncio e evitar se incriminar. Mas a ordem do ministro Ricardo Lewandowski foi expressa: Pazuello podia, sim, ficar quieto sobre as coisas em que se envolveu, mas não podia mentir quanto aos atos de outras pessoas.

Criou-se então um dilema para o general. Ficando em silêncio, ele estaria dando à CPI o roteiro de seus crimes. E, não podendo mentir para proteger terceiros, seria obrigado a apontar as responsabilidades de Jair Bolsonaro no fracasso do combate à pandemia. Pazuello tinha ainda a opção de ficar quieto o tempo todo. Não teria sido o primeiro a fazê-lo numa CPI. Mas investiu-se de brios de militar e decidiu que não passaria para a história como um covarde. E, assim, produziu uma inovação simbólica dos tempos que vivemos: a “coisa de internet”.

Cada vez que alguém o questionava a respeito de uma ordem de Bolsonaro contra a vacina ou pela adoção da cloroquina como instrumento de política pública, lá vinha Pazuello dizendo que aquilo era “coisa de internet”, “postura de internet” ou algo do gênero.

Cora Rónai - Somos todos idiotas

- O Globo

Nós idiotas que ficamos em casa fazemos o possível para evitar que o vírus circule. É pouco, de fato, mas é o que podemos fazer

Sendo uma das idiotas que não saem de casa, na gentil descrição do senhor Presidente da República, tenho tido muito tempo para pensar na vida; o que me leva, invariavelmente, a concluir que, num mundo de idiotas, o melhor a fazer é não pensar.

Todos nós, idiotas, estamos cansados. Do isolamento e das restrições da pandemia, da solidão e da monotonia, mas, sobretudo, das notícias que nos chegam a respeito dos outros idiotas, aqueles que se rebelam contra as máscaras, não respeitam distanciamento social e acham que vírus se combate no grito.

Eles não aprenderam que, além dos cientistas que desenvolvem vacinas, ninguém pode fazer nada de concreto contra uma pandemia.

Nós idiotas que ficamos em casa fazemos o possível para evitar que o vírus circule. É pouco, de fato, mas é o que podemos fazer. Ficar em casa quando se pode ficar em casa não é desdouro nem falta de coragem, é consciência social: quanto menos gente houver nas ruas menos o vírus estará em circulação e menos pessoas serão contaminadas.

Ricardo Noblat - Pazuello chegou mentindo na CPI da Covid-19 e saiu mentindo

- Blog do Noblat / Metrópoles

General, ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello mentiu para se defender, mentiu para defender Bolsonaro, e hoje continuará mentindo

Missão dada ao general da ativa Eduardo Pazuello, missão cumprida. Quando nada porque, segundo ele, manda quem pode, obedece quem tem juízo. Obrigado a depor na CPI da Covid-19, ele cumpriu a missão que lhe deram de blindar o presidente Jair Bolsonaro – afinal, quem manda em todos que o servem é o presidente, e Pazuello, ajuizado, sempre respondeu “sim, senhor”.

Pazuello entrou no Congresso para mentir a seu favor e a favor do presidente, e saiu de lá mentindo ao negar que tivesse passado mal, tamanho foi o esforço de disfarçar o nervosismo por mais de cinco horas. Foi como se tivesse esquecido de desativar o modo mentira. “Não passei mal. Não aconteceu nada. Amanhã o depoimento continua”, disse aos jornalistas ao despedir-se.

O general é um homem frágil. Não aguenta pressão. E a mentira cobrou seu preço. Alertado por um assessor da CPI, o médico e senador Otto Alencar (PDS-BA) encontrou Pazuello sentado em um sofá, com os pés no chão e muito pálido. Deitou-o e, em seguida, o pôs na Posição de Trendelenburg, onde a parte superior do dorso é abaixada e os membros inferiores elevados.

Maria Cristina Fernandes - A CPI e o levante do Estado contra o Estado

- Valor Econômico

PF, Abin e órgãos de controle ameaçam jogo do presidente na CPI

O depoimento do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello foi precedido de um levante do Estado contra o Estado. Dias antes, o presidente da República falhara nas duas tentativas de mobilização a seu favor num momento em que se vê acuado pela Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid. Teve uma fria recepção do Alto Comando do Exército na discreta visita que lhe fez na semana passada e assistiu a pífia manifestação no sábado, em Brasília, em que apareceram mais caminhões e cavalos que apoiadores. Na véspera do depoimento mais aguardado da CPI, veio o levante, em três frentes.

O “Antagonista” revelou o edital que permitiria a compra pelo Ministério da Justiça, em pregão eletrônico, de um sistema de processamento de dados que permite cruzar informações de redes sociais de mais de 15 mil alvos. Entre os usuários beneficiários estariam as secretarias de segurança pública de 13 unidades da federação. Horas depois, o “UOL” revelaria que, por obra e graça do vereador Carlos Bolsonaro, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) havia sido excluída do rol de instâncias que teriam acesso ao novo sistema.

Também na noite que antecedeu o depoimento, o “Jornal Nacional” revelaria indícios de fraudes em contratos do Ministério da Saúde no Rio durante licitações conduzidas durante a gestão Pazuello. A superintendência do ministério no Rio, conduzida por um coronel, contratou, sem licitação, empresários que já foram condenados pela Justiça Militar em fornecimento à Aeronáutica.

E, finalmente, na manhã em que Pazuello era aguardado na CPI, Brasília foi sacudida pela operação da Polícia Federal que resultou em busca e apreensão na casa e no gabinete do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, no afastamento do presidente e da diretoria do Ibama e na quebra de sigilos bancário e fiscal de todos. A investigação apontou desvio de conduta dos alvos na validação de madeira ilegal exportada.

Fabio Graner - Economia acelera, mas renda do trabalho patina

- Valor Econômico

Secretaria de Política Econômica projeta para este ano queda de 0,45% na população ocupada com carteira assinada e de 2,4% na renda real dos trabalhadores

Apesar da projeção mais alta de crescimento para o Produto Interno Bruto (PIB), a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Economia projeta números piores para o mercado de trabalho neste ano. O cenário é de uma queda na população ocupada com carteira assinada de 0,45% e, na renda real dos trabalhadores, recuo de 2,4%.

Os números, baseados na Pnad Contínua do IBGE, compõem a grade de parâmetros econômicos que o governo utiliza para a cada bimestre projetar receitas e despesas. E, nesse caso, são piores do que a SPE trabalhava em março - quando previa alta de 2% na população ocupada e queda de 1,7% na renda real.

O subsecretário de Política Macroeconômica da pasta, Fausto Vieira, explicou ao Valor que os números mais baixos refletem os dados realizados até o momento, mas não significam que não há recuperação do mercado de trabalho. “Os dados são uma média do ano, que tem números [realizados] mais baixos, mas existe uma tendência de recuperação e isso é muito claro na grade de parâmetros”, disse.

Pedro Cavalcanti Ferreira* / Renato Fragelli** - Governo fraco, soluções ruins

- Valor Econômico

Paralisia é resultado de um governo sem maioria parlamentar, chefiado por um político tosco sem convicções claras

Uma leitura atenta do noticiário nacional, ao longo das últimas semanas, identifica sintomas eloquentes de uma sociedade que, envolta em conflitos internos, mergulhou voluntariamente na estagnação há quatro décadas. Somente as eleições de 2022 oferecem alguma esperança de correção de rumo, mas o quadro atual não permite alimentar grandes esperanças.

A reforma tributária, o mais importante item da pauta econômica em debate no momento, encontra-se num atoleiro. O relatório da Comissão Mista da Reforma Tributária divulgado pelo relator, deputado Agnaldo Ribeiro, mostra que o Congresso vem amadurecendo a compreensão do complexo tema. Até questões que costumam suscitar resistências de pessoas tão bem intencionadas quanto mal informadas, como a necessidade de haver uma alíquota única do IVA para todos os bens e serviços comercializados num mesmo município, parecem ter sido compreendidas por muitos legisladores.

Mas a aprovação de uma reforma tecnicamente consistente, sem graves concessões que comprometam sua eficácia, exigiria uma liderança e habilidade políticas inexistentes num governo capitaneado por Bolsonaro. Como pior do que manter temporariamente a desordem tributária atual seria aprovar definitivamente uma reforma ruim, tudo indica que o tema ficará para um futuro governo.

Maria Hermínia Tavares* – Incentivo à degradação

- Folha de S. Paulo

A destruição do licenciamento ambiental atesta o quanto o Brasil bolsonaresco descarta o futuro

Patrocinado pelo centrão, saiu da Câmara rumo ao Senado o projeto que, a pretexto de modernizar o arcabouço de regras que norteiam o licenciamento ambiental no Brasil, praticamente destrói o pilar da Política Nacional de Meio Ambiente.

Se virar lei na versão atual, o projeto 37/2004 abrirá alas para a insegurança jurídica, ao transferir a estados e municípios o poder de definir o processo de concessão de licenças.

Ao introduzir exceções à obrigatoriedade do licenciamento ou facilitar a sua obtenção, multiplicará as chances de danos ambientais graves --do desmatamento à poluição do ar e dos rios por atividades industriais mal concebidas e a catástrofes semelhantes às que destruíram Mariana e Brumadinho, poucos anos atrás. Finalmente, elevará à enésima potência os riscos a que já estão submetidos os povos indígenas e quilombolas à medida que isentar de licenciamento os territórios ainda em processo de demarcação.

Bruno Boghossian - Mentiras de Pazuello na CPI são quase uma admissão de culpa

- Folha de S. Paulo

General tenta reescrever história porque sabe que realidade incrimina o governo

Eduardo Pazuello prestou um serviço à CPI da Covid. No primeiro dia de depoimento do general, os senadores queriam saber detalhes sobre a sabotagem do governo à negociação de vacinas e sobre a tentativa de empurrar cloroquina para a população. O ex-ministro mentiu tanto sobre esses assuntos que praticamente entregou aos investigadores uma admissão de culpa.

O general sabe o que fez à frente do Ministério da Saúde. Na CPI, ele tenta reescrever essa história porque sabe que a realidade é uma coletânea de atos que contribuíram para o agravamento da pandemia. Pazuello tentou se proteger e blindar o chefe Jair Bolsonaro, mas acabou mostrando que o governo tem medo de seus próprios delitos.

Vinicius Torres Freire - Governo Bolsonaro passa a ter mais problemas com a polícia

- Folha de S. Paulo

Apesar da letargia ou colaboração das instituições, aparecem os rolos bolsonarianos

O governo de Jair Bolsonaro deve ter problemas com a polícia por causa da CPI da Covid, a não ser que os senadores encomendem uma pizza bem podre ou que procuradores não despertem inquietos do seu sono profundo dos anos bolsonaristas. Pode ter mais coisa no mafuá, mas ainda há grande conivência das instituições, que estão disfuncionando.

A Polícia Federal bateu na porta de Ricardo Salles, vulgo Boiada, e turma Investiga corrupção na facilitação de contrabando de madeira ilegal. Um dos coronéis de Eduardo Pazuello engavetou a investigação de dispensas de licitação esquisitíssimas em obras do Ministério da Saúde, esclarecimento solicitado pela Advocacia-Geral da União, caso revelado pelo Jornal Nacional da Globo.

O TCU está com uma auditoria quase pronta sobre as omissões do Ministério da Saúde no combate à epidemia. O caso, porém, é meio ignorado pela “opinião pública” e ainda não apareceu no palco da CPI.

William Waack - Ordens e internet

- O Estado de S. Paulo

Jair Bolsonaro conduz um governo confuso e desarticulado

É notório que Jair Bolsonaro governa para e pela internet. Com resultado que está ficando muito nítido pelos trabalhos da CPI da Covid: a existência de uma espécie de dualidade de mando com prejuízos diretos no combate às diversas crises. O pecado original foi o papel importantíssimo das redes sociais na vitória dele em 2018. São ferramentas indispensáveis para ganhar eleições, mas instrumentos precários para governar – e é pensando nelas que Bolsonaro baseia suas ações.

“Postagens na internet não são ordens”, disse seu ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, ao depor na CPI da Covid num esforço bem orientado por advogados para desmentir o óbvio. Sim, no caso do governo Bolsonaro, são ordens (mas em juridiquês não são). O próprio Pazuello postou um célebre vídeo – na internet – ao lado de Bolsonaro, dando conta de que um manda (o presidente) e o outro (o general intendente) obedece.

“Mas era coisa de internet”, desculpou-se Pazuello. O efeito é o mesmo: Bolsonaro consagrou essa dualidade de mando dentro do próprio governo. Dedicado como sempre à atividade de animador de redes digitais, suas “ordens” que não são “ordens” servem no mínimo (com muita boa vontade) para criar confusão interna. No caso da pandemia, a CPI foi razoavelmente bem-sucedida também em demonstrar a existência de uma estrutura paralela de assessoramento governamental que, no fundo, é a avaliação de quais conteúdos obtêm melhor resposta nas redes digitais que Bolsonaro pretende atingir.

Eugênio Bucci* - O cerco à universidade

- O Estado de S. Paulo

Quando é bombardeada pelo poder como se fosse inimiga da Pátria, Aras piora o ambiente

No início do mês a Reitoria da Universidade de São Paulo (USP) recebeu uma representação em nome do procurador-geral da República, Augusto Aras. No documento, os advogados de Aras reclamam de textos publicados na imprensa e nas redes sociais por um professor de Direito da USP, Conrado Hübner Mendes, que, na visão deles, ofenderiam o atual chefe do Ministério Público Federal. A peça jurídica dedica quatro de suas 11 páginas a discorrer sobre o curriculum vitae da autoridade que se declara ofendida; em seguida, enumera o que afirma serem acusações inverídicas; e, ao final, requer que o caso seja levado à Comissão de Ética da USP para as providências que julga devidas.

Com efeito, o professor Conrado Hübner Mendes, doutor em Direito e Ciência Política, embaixador científico da Fundação Alexander von Humboldt, pesquisador reconhecido pelos pares em temas como Direito Constitucional, Poder Judiciário e autonomia acadêmica, tem feito críticas duras ao Supremo Tribunal Federal e ao Ministério Público. Suas colunas semanais no jornal Folha de S.Paulo e seus posts no Twitter alcançam leitores em audiências diversas. A democracia garante-lhe a liberdade de expressão. De outra parte, por óbvio, quem se sinta injustamente atacado tem o direito, também democrático, de buscar formas de reparação. Até aí, nada de novo sob o sol – ou nada de novo sob a treva que nos tem sido mais frequente.

O que a mídia pensa: Opiniões / Editoriais

 

EDITORIAIS

Depoimento para blindar Bolsonaro não convence

O Globo

Um desavisado que ouvisse o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuellofalando de sua gestão ontem na CPI da Covid poderia imaginar que estava noutro país, tão róseas as tintas usadas por ele para pintar o quadro do combate à pandemia. A realidade, sabemos, exibe tons mais soturnos.

Ficou claro que o objetivo de Pazuello era um só: blindar o presidente Jair Bolsonaro. Mesmo que, para isso, precisasse se expor. Chegou ao absurdo de dizer nunca ter recebido orientação de Bolsonaro na pandemia. Ora, o presidente que recorre ao STF contra medidas de restrição, brada contra o isolamento social, incentiva a cloroquina e chama de “canalha” quem desdenha o “tratamento precoce” nunca orientou o ministro? Acredite quem quiser.

Os senadores não engoliram. Lembraram que Bolsonaro desautorizou Pazuello publicamente no episódio da CoronaVac. “Um manda, o outro obedece”, disse o então ministro. Ontem afirmou que o chefe falava para as redes sociais, não dava ordem. Se não mentiu ontem, então quem mentiu na ocasião foi Bolsonaro, quando disse ter mandado cancelar a compra da vacina.

Pazuello não conseguiu evitar contradições. Afirmou que as negociações para comprar vacinas da Pfizer nunca foram interrompidas, ao contrário do que disseram o ex-secretário de Comunicação Fabio Wajngarten e o ex-CEO da empresa Carlos Murillo. Argumentou que o obstáculo eram as cláusulas “assustadoras” impostas pela farmacêutica e citou pareceres da AGU e da CGU. O senador Eduardo Braga o confrontou com os pareceres, sem obstáculo nenhum à compra da vacina.

Ao falar sobre Manaus, Pazuello disse que só tomou conhecimento da falta de oxigênio em 10 de janeiro. O presidente da CPI, Omar Aziz, afirmou ter recebido informações do governo do Amazonas de que ele fora informado no dia 7. Pazuello continuou negando. Alegou desconhecer negociações para usar avião dos Estados Unidos no transporte de oxigênio. A senadora Eliziane Gama mostrou documentos atestando que o ministério sabia do fato.

Música | Joyce Cândido e João Bosco - Rancho da Goiabada (João Bosco e Aldir Blanc)

 

Poesia | Mario Benedetti - Não desistas

 

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Vera Magalhães - O dilema de Pazuello diante da CPI

- O Globo

Não foi nada boa para o general Eduardo Pazuello a sequência de depoimentos que antecedeu sua participação na CPI da Covid.

Quando ele deu o primeiro sinal de que estava tremendo na base, pedindo para adiar sua inquirição, escrevi por aqui que a esperteza poderia engolir o esperto: quando finalmente se sentasse diante dos senadores, já haveria um arcabouço maior de indícios de que sua gestão à frente do Ministério da Saúde contribuíra decisivamente para agravar o número de casos e mortes no Brasil em razão da Covid-19.

Não deu outra. Vendo o cerco se fechar, o general — é sempre importante salientar a patente, porque ela foi uma razão para sua nomeação por Jair Bolsonaro e agora se mostra incompatível com a hesitação do detentor — voltou a pedir arrego, desta vez ao Supremo Tribunal Federal.

Foi deferido o habeas corpus para que permaneça em silêncio, mas com uma ressalva colocada estrategicamente por Ricardo Lewandowski: ele tem o direito de não se incriminar, mas não pode usar a liminar para se recusar a responder sobre a responsabilidade de outrem.

Bernardo Mello Franco - A mutação dos bolsonaristas

- O Globo

A CPI da Covid produziu uma mutação nos bolsonaristas. Diante dos senadores e das câmeras de TV, os defensores do capitão perdem subitamente a valentia. Passam a falar baixo, renegam suas bravatas e fingem esquecer o que já disseram.

Na semana passada, o fenômeno ocorreu com Fabio Wajngarten. Conhecido pela agressividade nas redes sociais, o publicitário afinou ao usar o microfone. Adotou um tom humilde, quase servil, para tentar escapar ileso do depoimento.

O ex-secretário de Comunicação se disse vítima de “boatos maldosos” sobre a intermediação da compra de vacinas. No entanto, perdeu a memória ao ser questionado sobre um termo usado pelo ex-ministro Eduardo Pazuello. “Não sei nem o que significa pixulé”, desconversou. “Melhor assim, não é?”, ironizou o senador Renan Calheiros.

Ontem a foi a vez de Ernesto Araújo sofrer um surto de amnésia. Pivô de múltiplas crises com a China, o ex-chanceler jurou que nunca criou atritos com Pequim. Renegou até o artigo em que se referiu ao coronavírus como “comunavírus”, endossando a teoria conspiratória de que os chineses teriam lucrado com a pandemia. “Vossa excelência renega o que escreveu. Aí, não dá!”, protestou o senador Omar Aziz.

Em outro momento, Ernesto disse que o ideólogo Olavo de Carvalho não era o guru da sua política externa delirante. “O senhor de fato é um homem muito ousado, muito corajoso”, debochou a senadora Kátia Abreu, antes de chamar o ex-ministro de “negacionista compulsivo”.

Zeina Latif - Uma DR com a agropecuária

- O Globo

Os números da agropecuária destoam do resto da economia. Ocorreu uma combinação excepcional de fatores: o comércio mundial recuperou-se rapidamente; a China elevou suas encomendas – com rápido controle da Covid-19, recomposição de rebanho suíno depois da peste africana e recrudescimento da guerra comercial EUA-China –; e erros de política econômica produziram uma depreciação do real (25% em 2020) que destoou do ocorrido na média das moedas de emergentes, em parte beneficiadas pela valorização das commodities.

O quadro é de ganha-ganha para o setor, com aumento de volume exportado (5,7% nos últimos 12 meses até março sobre igual período anterior), de preços de exportação (3,1%) e preços internos (52% no atacado em abril na variação anual).

O resultado é que o valor adicionado da agropecuária em termos reais (desconta a inflação) teve aumento de 2% em 2020, ante recuo de 4,1% do PIB. O crescimento em termos nominais foi de notáveis 35%, enquanto o PIB nominal ficou praticamente estagnado (0,6%).

Ricardo Noblat - À espera da nova onda do vírus, e na torcida para que não venha

- Blog do Noblat / Metrópoles

Média de mortes só faz cair, mas a média de novos casos de infecção subiu nos últimos 15 dias

Acendeu a luz amarela em gabinetes de autoridades médicas de Estados populosos. No país, a média de mortes caiu continuamente nos últimos 30 dias. Mas a média de casos subiu nos últimos 15 dias com a circulação recorde de pessoas, diz Atila Iamarino, doutor em ciências pela Universidade de São Paulo.

No momento em que o país soma mais de 430 mil mortes pela Covid-19 e somente 12% da população adulta está completamente imunizada contra o coronavírus, nove em cada dez brasileiros com 18 anos ou mais (91%) pretendem se vacinar ou já se vacinaram, aponta pesquisa Datafolha. Mas falta vacina

Os números da pesquisa confirmam a tendência de crescimento da adesão à imunização. Em dezembro último, os pró-vacinas somavam 73%. Em janeiro, após a aplicação das primeiras doses, o percentual deu um salto para 81%. Chegou a 89% em abril, no pico da segunda onda da pandemia. Mas falta vacina.

O governo Bolsonaro foi ágil em importar e fabricar drogas ineficazes contra a Covid-19, e inepto em comprar vacinas. Dispensou 240 milhões de doses, 70 milhões nas seis ofertas da Pfizer, mais 170 milhões oferecidas pela

O ritmo de vacinação está sendo lento demais, na opinião de 7 em cada 10 pessoas entrevistadas pelo Datafolha. Mas a lentidão se explica: falta vacina. Sobram drogas que não funcionam.

Hélio Schwartsman - No Oriente Médio, uma guerra sem saída

- Folha de S. Paulo

É difícil desarmar as duas partes e aproximar as narrativas

Já acreditei que o processo de paz entre israelenses e palestinos baseado na ideia de dois Estados teria sucesso. A ducha de água fria não foram as negociações frustradas de Camp David (2000) ou Annapolis (2007), mas a leitura de "The Two-State Delusion" (a ilusão dos dois Estados, de 2015), de Padraig O'Malley.

Uma nota biográfica é necessária. O'Malley é um especialista em negociações de paz. Ele não só estuda conflitos que um dia pareceram insolúveis como ajuda a encontrar uma saída para eles. Participou dos processos de pacificação na Irlanda do Norte e na África do Sul. Depois, se debruçou sobre o conflito israelo-palestino —e foi derrotado por ele. As conclusões a que chegou estão no livro, que é bem lúgubre.

Bruno Boghossian – Arquitetura do morticínio

- Folha de S. Paulo

Ernesto Araújo desenhou Itamaraty que funciona como peça auxiliar do negacionismo

Ernesto Araújo disse na CPI da Covid que nunca recebeu orientações para rejeitar parcerias que poderiam ajudar o país a produzir vacinas. Não foi necessário. A comissão já mostrou que a arquitetura do governo Jair Bolsonaro tornou praticamente impossíveis os esforços do país para salvar vidas na pandemia.

A política externa desvairada de Ernesto não foi uma exceção. A tensão contínua entre o Brasil e a China na negociação de insumos para fabricar imunizantes só existe até hoje porque o governo transformou o Itamaraty num joguete da direita radical.

O ex-chanceler tentou disfarçar, mas sabe que a diplomacia pode ajudar ou atrapalhar articulações desse tipo. No início da sessão, ele mesmo disse que o governo recebeu vacinas "graças à qualidade das nossas relações com a Índia". Depois, precisou reconhecer que a bajulação permanente a Donald Trump não havia rendido frutos nessa área.

Ruy Castro - A arte de fazer perguntas

- Folha de S. Paulo

Diante de um entrevistado mentiroso, os repórteres, ao contrário da CPI, não têm poder de prisão

Nas últimas semanas, recorri à minha já quase secular trajetória pela imprensa para cometer dois artigos (“Perguntas à queima-roupa”, 7/5, e “Pequeno manual para a CPI”, 12/5), em que tentei passar a possíveis interessados —os senadores da CPI da Covid, por exemplo— algumas dicas sobre como fazer perguntas. Afinal, é delas que vivem os jornalistas, e alguns tiveram a sorte de trabalhar em veículos em que a entrevista era uma grande atração.

Um deles, a antiga Playboy, cujas entrevistas passavam tal seriedade que mesmo os mais alérgicos a elas, como Frank Sinatra e Miles Davis, aceitaram concedê-las. A própria edição brasileira, em sua melhor fase, nos anos 80 e 90, entrevistou empresários, candidatos à Presidência e até suas maiores inimigas: as feministas. E por que eram tão boas as entrevistas de Playboy? Porque seus repórteres tinham cláusulas pétreas a seguir na elaboração da pauta e na sua aplicação. Eis algumas.

Vinicius Torres Freire – Novo alerta de tsunami na epidemia

- Folha de S. Paulo

Há indícios de novo repique da Covid em SP, como em outubro, dezembro e fevereiro

O tsunami de 2004 matou 228 mil pessoas em países banhados pelo Oceano Índico. Desde então, nos acostumamos a ouvir que, depois de um sismo submarino, foi dado um alerta de tsunami. Em geral, nada mais triste se passa. Um dia, porém, acontece algo como Fukushima, quando as ondas gigantes acabaram por causar 18 mil mortes.

O estado de São Paulo deveria dar um alerta de tsunami na epidemia de Covid. Pode ser que nada ainda pior aconteça, mas há sinais preocupantes nos últimos dez dias, por aí.

Nos dados dos cientistas do Observatório Covid-19 Brasil, já era possível notar uma variação preocupante desde 2 de maio. O “nowcasting”, a “previsão instantânea” desde então apontava uma alta de casos graves de SRAG semanais. A informação mais recente deles é de 9 de maio.

O número de novos casos notificados aumenta desde 8 de maio, pelos dados publicados pelo Seade, o “IBGE paulista”. Por si só, não é um bom indicador. Mas o número de novas internações em UTIs dos hospitais estaduais aumenta desde 9 de maio. A média de internados em terapia intensiva praticamente parara de despiorar fazia uma semana e começou a subir desde domingo. O número de mortes voltou a crescer desde sábado.

Armando Castelar Pinheiro* - As nuvens e o cenário eleitoral

- Valor Econômico

A polarização interessa tanto a Bolsonaro como a Lula, mas cenário pode mudar

A pesquisa do Datafolha divulgada há uma semana sugere um quadro eleitoral bem definido, com forte polarização entre o presidente Bolsonaro e o ex-presidente Lula, com grande vantagem para este último. Juntos, os dois respondem por 74% das intenções de voto dos que declararam sua preferência, com os restantes 26% pulverizados entre outros seis candidatos. A vantagem de Lula é clara: tem quase o dobro das intenções de voto de Bolsonaro, sua taxa de rejeição é bem menor (36% x 54%) e, segundo a pesquisa, venceria com facilidade no segundo turno, com 72% a mais de votos que o atual presidente.

A polarização interessa tanto a Bolsonaro como a Lula e há uma chance grande de que ela sobreviva até as eleições. Por outro lado, a ida às urnas é só daqui a 17 meses e, na memorável metáfora de Magalhães Pinto, ex-governador de Minas Gerais, “política é como nuvem, você olha e ela está de um jeito, olha de novo e ela já mudou”.

O que pode mudar esse quadro? Penso que pelo menos três fatores podem influir nessas preferências de voto: o avanço da vacinação, a recuperação da economia doméstica e o cenário externo.

Fernando Exman - Primeiro tinha a farda e depois veio o fardo

- Valor Econômico

Militares esperam que Pazuello receba tratamento digno

Sempre instigante observar quando aqueles que chegam ao poder maldizendo o “sistema” - e depois dele tentam se servir com o objetivo de permanecerem no topo da cadeia alimentar - são colocados frente a frente com as estruturas tradicionais da política. O desfecho costuma ser o mesmo: a liturgia lhes é imposta, por bem ou por mal, e as instituições se sobressaem. A CPI da Covid já apresenta cenas desse filme, ao qual o eleitor assiste desde 2018.

Apenas parte do roteiro é conhecido, como os trechos em que o presidente Jair Bolsonaro ganha a eleição com um discurso lastreado no sentimento de aversão à política de grande parte da população e depois precisa reestruturar seu posicionamento. Abandonou uma bandeira, mas manteve o barco governista flutuando.

Parlamentares e governadores também enfrentaram a dura realidade vivida fora das redes sociais. Wilson Witzel, ex-governador do Rio de Janeiro, durou pouco tempo no cargo. Foi expelido temporariamente da vida pública pelas instituições que tanto desdenhou. Em Santa Catarina, o governador Carlos Moisés foi mais habilidoso e sobreviveu ao impeachment.

Daniel Rittner - A Israel imaginária do universo bolsonarista

- Valor Econômico

Comparações com o Holocausto ofendem comunidade judaica

Identificados frequentemente como base de apoio do presidente Jair Bolsonaro, pelo engajamento de integrantes da comunidade desde a campanha eleitoral e pelo uso recorrente de bandeiras de Israel em atos pró-governo, muitos judeus querem livrar-se do rótulo de que são uma “massa uniforme” vinculada ao bolsonarismo.

Para algumas entidades judaicas e expoentes da comunidade, isso reflete desconhecimento e ignora um incômodo cada vez maior com episódios recentes que relativizam o Holocausto ou até flertam com antissemitismo.

No caso mais escandaloso, Roberto Alvim foi demitido da Secretaria Especial de Cultura após discurso com estética nazista e reproduzindo falas de Joseph Goebbels. Ex-ministros compararam ações da Polícia Federal e medidas de isolamento social, na pandemia, com a Noite dos Cristais e com campos de concentração. Um neoaliado relacionou os judeus com a prática de infanticídio. Símbolos apropriados por neonazistas já apareceram em manifestações.

Rosângela Bittar - O mal já está feito

- O Estado de S. Paulo

Já são conhecidos, em extensão e profundidade, os desastres produzidos por Pazuello

As consequências vêm sempre depois, costumava avisar o prudente e discreto Marco Maciel para conter ousadias de efeito imprevisível. Hoje, quando se iniciar a sessão plenária da CPI da Covid, a máxima, óbvia, será contrariada. As consequências já aconteceram. São conhecidos, em extensão e profundidade, os desastres produzidos pelo depoente, ex-ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello. Os riscos que representava já se materializaram.

O papel de executor de ordens exercido pelo general foi constatado em registro público. O mandante tem notória identidade. Os resultados da performance do executor e do mandante são expostos em números indiscutíveis: 436 mil mortos, 15 milhões de infectados, uma exposição iminente do País à terceira onda da pandemia. A que se deve acrescentar o falho plano de vacinação, em vigor, e as projeções pouco críveis para o futuro. Além da reincidência agressiva do presidente da República, que insiste no negacionismo irracional.

A consequência menos letal, porém politicamente delicada, também já emergiu: o desgaste à imagem do Exército.

Andreza Matais - ‘Um manda, outro obedece, leva Bolsonaro à CPI

- O Estado de S. Paulo

Se adotar a estratégia do silêncio ou das meias-palavras na CPI da Covid, o general Eduardo Pazuello passará a bola, inevitavelmente, para o presidente Jair Bolsonaro. O gesto do ex-ministro da Saúde de não colaborar com a comissão e não falar pode ser interpretado, sob certo ângulo, também como postura de alguém que rejeita defender o presidente. Nesse caso, o oficial da ativa se comportará em benefício de sua própria sobrevivência e não em prol de um governo.

É uma mensagem que o próprio general e toda a equipe de estrategistas do Planalto não conseguem controlar. Toda vez que deixar uma pergunta sem resposta e selecionar o que pretende rebater, Pazuello demonstrará que não tem nada a falar, pois, como deixou claro, algumas vezes apenas cumpriu ordens. Logo, quem tem de prestar contas aos senadores e ao País é seu ex-chefe no governo e atual chefe militar, o presidente da República.

Rafael Cortez*- Programa voltado a caminhoneiros reflete lógica política

- O Estado de S. Paulo

O desenho de uma política econômica em um ambiente de perda de capital político do governo é bastante desafiador, por conta do crescente distanciamento entre o diagnóstico da equipe econômica e as decisões, de fato, aprovadas pelo presidente. O próprio ministro da Economia, Paulo Guedes, já sinalizou a diminuição do apoio do presidente Jair Bolsonaro à agenda liberal que, neste momento, estaria em 65%.

Curiosamente, esse distanciamento entre decisões de governo e a política econômica ideal ocorreu simultaneamente à aproximação do governo com o Poder Legislativo, resultando na eleição de nomes para o comando das Casas legislativas que seriam mais próximos da atual administração.

O caminho desse distanciamento é razoavelmente simples: a perda de popularidade presidencial aumenta a sensibilidade do governo às demandas particulares de sua base de apoio partidário e entre os agrupamentos econômicos e sociais. Os caminhoneiros representam um grupo especialmente privilegiado na luta por influência nas decisões do governo, por conta do simbolismo da categoria em relação ao presidente e diante de potencial mobilização que, no limite, reforçaria a leitura de falta de governança.

Fábio Alves - Inflação mundial no pico

- O Estado de S. Paulo

Por enquanto, bancos centrais de países desenvolvidos estão mantendo o sangue frio 

A inflação deu um salto tão forte em vários países em abril, pressionada pela alta nos preços de matérias-primas e de produtos que enfrentam gargalos na oferta, que muitos analistas já esperam que o índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) global atinja neste ano seu maior nível desde 2011, quando subiu 3,9%.

O ritmo de aceleração dos preços nos Estados Unidos, por exemplo, reduziu para níveis atípicos o diferencial da inflação com o Brasil. O CPI americano subiu de 2,6% em março para 4,2% em abril, na taxa acumulada em 12 meses, enquanto o índice oficial no Brasil – o IPCA – passou de uma alta anual de 6,1% em março para 6,76% em abril. O diferencial de inflação americana e brasileira caiu de 3,5 pontos porcentuais em março para apenas 2,56 pontos em abril.

Vários países – desenvolvidos ou emergentes – estão enfrentando fenômenos semelhantes de pressão da inflação: a alta nas cotações das commodities, por conta da maior demanda da China por minério de ferro e soja, por exemplo, elevou o preço da alimentação e de outros itens influenciados por matérias-primas mais caras.

Outro fator em comum foi a pandemia do coronavírus, que provocou a escassez de muitos bens em razão de a cadeia de produção global ter sido seriamente afetada por restrições de mobilidade social e também pela contaminação da força de trabalho. Está faltando estoques de vários produtos no mundo.

Roberto DaMatta* - Sair do Brasil

- O Estado de S. Paulo

Graças a um governo errático, brigar com o Brasil como se ele fosse uma pessoa física ganhou legitimidade

Penso que todo mundo sempre quis sair mais do seu país do que de sua sociedade. Vamos para Paris ou New York, mas sentimos falta da comida e das fofocas, esses símbolos de nossos costumes. Morar é bom, mas viver é uma m...! - como confirmava Tom Jobim.

Muitos deram adeus às suas pátrias por motivos trágicos, e os Estados Unidos são prova de uma coletividade cuja população é feita de milhões de netos e filhos de imigrantes - de nativos que por livre vontade ou por motivos dramáticos foram obrigados a deixar sua terra natal. 

No Brasil, este desejo é um paradoxal desabafo, geralmente feito em família ou entre amigos. Ele se amplia e se reduz de acordo com épocas históricas e governos. Nas ditaduras (tanto a de Vargas quanto a militar), muitos deixaram o País por perseguição política. 

Ser obrigado a sair da terra onde se nasceu é “perder o chão”. Equivale a morrer ou ser encarcerado. Não se trata apenas de uma cruel punição política. É um assassinato espiritual decretado com o paradoxo de o morto continuar vivo. Veda-se o direito de participação, mas, de fato, esta interdição bloqueia a vida do condenado, impedindo-o de usufruir das muitas dimensões cruciais de todas as vidas. Como um paradoxo, porém, o banido pode retornar com mais potência, como foi o caso modelar do Conde de Monte Cristo e de outros degredados políticos. Antigamente, era a excomunhão que transformava alguém em um leproso social; hoje, Deus foi substituído pela política como credo. Neste sentido, vale lembrar que o exílio, tanto em Roma quanto na Grécia dos velhos tempos, era mais fatal do que a morte.

O que a mídia pensa: Opiniões / Editoriais

EDITORIAIS

Só Ernesto Araújo não viu dano nos ataques à China

O Globo

O ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo pediu demissão em 29 de março, sob forte pressão de parlamentares que o acusavam de prejudicar, com sua política torta e declarações estapafúrdias, a compra de vacinas para o Brasil. Expoente do bolsonarismo de raiz, solapou em dois anos a credibilidade da diplomacia brasileira erguida em décadas. Apesar disso, em seu depoimento na CPI da Covid, enalteceu sua gestão, descreveu uma realidade paralela que não existe e negou seus ataques à China, de conhecimento público. “Jamais provoquei atritos com a China”, disse o ex-chanceler, que já se referiu ao Sars-CoV-2 como “comunavírus”.

A desfaçatez provocou reação. O presidente da CPI, Omar Aziz, foi preciso: “Vossa excelência está faltando com a verdade. Se quiser, leio alguns trechos que o senhor escreveu, inclusive bateu boca com o embaixador chinês”. A senadora Kátia Abreu, uma das protagonistas da queda de Araújo, o chamou de “negacionista compulsivo” e “omisso”. Afirmou que ele foi uma “bússola” que nos dirigiu “para o caos, para um iceberg, para um naufrágio”.

Em longo depoimento, Araújo se esmerou em negar suas ações à frente do Itamaraty. A despeito dos malabarismos, não conseguiu evitar expor o presidente Jair Bolsonaro. Confirmou que as gestões do ministério para facilitar a importação de insumos para produção de cloroquina tiveram a participação de Bolsonaro, um dos maiores defensores do uso da droga no tratamento da Covid-19, embora estudos científicos comprovem que ela é ineficaz contra a doença e pode causar efeitos adversos.