quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Vera Magalhães: Escolha seu governo

O Globo

Está em cena um espetáculo engraçado, protagonizado por Jair Bolsonaro, seus ministros e representantes no Congresso.

Trata-se de uma peça em que cada um se finge de desavisado enquanto todos sabem que o governo promove, em mais de uma frente, a discussão de propostas que visam, artificialmente, reduzir o preço dos combustíveis para que o tanque eleitoral do presidente saia da reserva e seu carro rode mais alguns quilômetros.

Antes mesmo de Flávio Bolsonaro tascar sua impressão digital na tal PEC Kamikaze, já se sabia que vinha da Casa Civil uma versão menos suicida de proposta, que aportou na Câmara.

Ainda assim, Paulo Guedes topa, de novo, encenar o ato em que o ministro da Economia luta contra moinhos de vento e tenta defender os cofres públicos de uma “bomba” armada logo ali do lado, pelo seu chefe e pelos seus colegas.

Do jeito que Guedes pinta o quadro de infortúnios que o impediram de fazer as reformas que imaginou e de vender as empresas que prometeu, o último responsável é Bolsonaro. Na sua frente estão o Congresso, a imprensa, os economistas “social-democratas” e sabe-se lá mais quem.

Pois não é nenhum desses personagens secundários que está no palco, quando as luzes rapidamente se apagam, e a cena da peça muda, tratando de, mais uma vez, promover benesses eleitoreiras à custa de um estica e puxa no Orçamento da União.

Elio Gaspari: Temer, vítima do ‘lava-jatismo’

O Globo

Em março de 2019, o mundo parecia outro. Sergio Moro reinava como ministro de Bolsonaro, Donald Trump recebia o capitão no jardim da Casa Branca e admitia a possibilidade de o Brasil entrar para a Otan. Eram os tempos da Operação Lava-Jato. Ela tinha fases, sempre com nomes pitorescos: Erga Omnes, Vidas Secas, Saqueador ou Calicute. Aquela batizada como Radioatividade foi a 16ª e tratava de negócios em torno da construção da usina nuclear de Angra 3.

No seu rastro, a pedido do Ministério Público, o juiz Marcelo Bretas, encarnação carioca da República de Curitiba, determinou a prisão preventiva de Michel Temer e mais sete pessoas. A decisão tinha 46 páginas, amparando-se em tratados internacionais e na defesa do bem público. Naquele angu, abundavam insinuações, e faltava carne. Seu texto continha pelo menos 20 vezes a palavra “parece”, mas o espetáculo estava garantido.

Numa quinta-feira, o ex-presidente da República foi detido na rua e mandado para a cadeia sem ter sido indiciado, denunciado, condenado ou sequer ouvido. Tudo a partir do que o juiz dizia ser “uma análise ainda superficial” dos fatos.

Luiz Carlos Azedo: Arrocho na Lei Rouanet é um duro golpe contra a cultura

Correio Braziliense

Desde a campanha, Bolsonaro defende mudanças na lei, pois crê que a política cultural é uma forma de dominação da esquerda

No mês do centenário da Semana de Arte Moderna, a cultura nacional sofreu um duro golpe do governo federal, que mudou as regras da Lei Rouanet e reduziu a capacidade de financiamento da nossa indústria cultural. É mais um elemento do ambiente político e ideológico tóxico que estamos vivendo, pautado pelo obscurantismo da política oficial. Não à toa, ocorre num momento tão simbólico como essa efeméride.

Marco da história de São Paulo, que emergia como centro dinâmico da economia brasileira e polo hegemônico da Primeira República, a Semana de Arte Moderna de 1922 foi uma ruptura com o parnasianismo, o simbolismo e a arte acadêmica, que iria se somar e influenciar outras manifestações modernistas, que ocorriam no Rio de janeiro e outras capitais do país. Agora, parece que o governo quer fazer a roda da história voltar para trás e inviabilizar teatros, cinemas, a música, o audiovisual e, principalmente, a vida profissional de artistas, diretores e produtores culturais.

Bruno Boghossian: Emergência eleitoreira

Folha de S. Paulo

Bolsonaro está disposto a gastar o que for preciso para reduzir chances de derrota nas urnas

Os políticos que mantêm Jair Bolsonaro de pé montaram uma operação para dar fôlego à campanha do presidente. Num pacote generoso, integrantes do governo deram aval a duas propostas no Congresso para cortar tributos sobre combustíveis, criar um auxílio-diesel para caminhoneiros e ampliar subsídios para a compra de gás de cozinha.

As bondades devem ter um custo estimado em mais de R$ 100 bilhões, segundo o Ministério da Economia –que é contra as medidas. Os cálculos dão uma ideia do buraco em que o Palácio do Planalto enxerga a candidatura de Bolsonaro a esta altura da disputa pela reeleição.

Fernando Canzian: Traição final


Folha de S. Paulo

Ele prepara agora a traição a seus eleitores do mercado

Entre todos os embustes vendidos pelo então candidato Jair Bolsonaro na campanha de 2018, o mais bem disfarçado talvez tenha sido o seu aceno ao mercado, personificado na biografia de Paulo Guedes, escolhido para atrair empresários e bancos para o seu lado.

Nos campos político e pessoal, um deputado medíocre e ignorante como Bolsonaro talvez não produzisse mesmo nada melhor do que a sujeição humilhante ao centrão e posicionamentos contrários aos dos eleitores de quem depende, como demonstrou seu negacionismo versus a aderência da população às vacinas.

O resultado é que Bolsonaro entra em sua campanha à reeleição pequeno, desmoralizado e sem ter onde se agarrar.

Lançados tardiamente, mesmo seus principais programas sociais, o Casa Verde e Amarela e o Auxílio Brasil, seguem muito identificados com o Minha Casa, Minha Vida e o Bolsa Família, ambos criados por Lula.

Apesar do valor médio de R$ 400, mesmo o Auxílio Brasil atual é muito inferior, em reais e em abrangência, em relação ao montante recebido pelos mais pobres anteriormente, reforçando o "efeito piora". No geral, o que o presidente entrega em seu último ano é um país em estagflação, crescendo quase nada e inflacionado. Nada menos promissor.

Hélio Schwartsman: Na crise da Ucrânia, Putin tem razão

Folha de S. Paulo

Ele não quer que o país vizinho integre a aliança militar ocidental

Vladimir Putin é um autocrata e são fortes as suspeitas de que esteja envolvido em crimes graves, incluindo assassinatos consumados e tentados.

O presidente dos EUA, Joe Biden, já o chamou ao vivo de assassino. Documentos oficiais do governo britânico chegaram a conclusão semelhante após investigar o homicídio de um ex-espião soviético que vivia em Londres. Mais diplomática, a ex-chanceler alemã Angela Merkel culpou o Kremlin (evitando nomear Putin) pelo envenenamento do dissidente russo Alexei Navalni. Basicamente, é difícil manter com o dirigente russo um relacionamento que não seja tóxico.

Bernardo Mello Franco: Aquela canção do Roberto

O Globo

Em 2013, estrelas da MPB lançaram uma cruzada para proibir a circulação de biografias não autorizadas. O movimento foi liderado por Roberto Carlos, que já havia pedido a prisão do autor de uma obra que não o agradou.

Nove anos depois, a elite da música brasileira quer barrar as paródias musicais nas eleições. O caso também está ligado às idiossincrasias do Rei. Sua gravadora processou um candidato que ousou imitá-lo na TV.

A controvérsia surgiu na campanha de 2014, quando o deputado Tiririca fez piada com a música “O Portão”. No hit original, o cantor anunciou: “Eu voltei/ Agora para ficar/ Porque aqui/ Aqui é o meu lugar”. No horário eleitoral, o palhaço brincou: “Eu votei/ De novo vou votar/ Tiririca, Brasília é o seu lugar”.

O juiz Márcio Teixeira Laranjo, da 21ª Vara Cível de São Paulo, não achou graça. Condenou o deputado a indenizar a gravadora EMI e acrescentou que programa eleitoral “não é — ou não deveria ser — programa humorístico”. A sentença seria anulada por unanimidade pela Terceira Turma do STJ.

Cristovam Buarque*: Flores da epidemia

Correio Braziliense

Em seu posfácio ao livro “Um Tempo para não Esquecer”, o doutor José de Jesus Camargo diz que a diplomacia pode ter perdido um grande talento, mas a medicina ganhou, quando Margareth Dalcolmo, a autora, optou pela carreira médica. As letras também ganharam, porque o livro une conhecimento médico ao talento de escritora. Não é por acaso que esta médica começa sua apresentação, lembrando que antes de iniciar os artigos do livro “recorreu a releituras seminais em minha formação” para dar o testemunho de um tempo que ficará para sempre. As páginas desses 81 artigos, que se unem por um fio condutor, descrevem o que vivemos, no inesquecível período entre abril de 2020 e novembro de 2021.

Logo no início, Margareth lembra como começaram “estes tempos duros que marcaram, indelevelmente nossas vidas e que, podemos dizer, deram início ao século XXI”. Sua formação médica aparece na descrição da doença e seu enfrentamento, a formação literária surge em dezenas de citações apropriadas, não apenas de cientistas e médicos, também de escritores, filósofos, dramaturgos.

Paulo Delgado*: Liberais clássicos, nova esquerda e cidadão comum

O Estado de S. Paulo

O País deveria apostar em um novo padrão de maioria política formado por princípios e programas, e não em promiscuidade

Eles não são alguém que devolveu o troco errado. São os que chegam ao poder com uma mentira na alma. Com as pessoas vivendo numa ampulheta, dominadas por um materialismo existencial que faz o tempo passar por influência dos outros – a vida finge ser um jogo de opostos.

A emoção tem partes vis que quando entram em nossa vida com a falsa familiaridade de notícias de massa é difícil perceber o que está acontecendo. Em assuntos feitos para uso de outros, os sentimentos que transmitem ocupam uma sala grande e mal iluminada da nossa emoção. Na sociedade de públicos manipulados, o que influencia você mecanicamente dificilmente é a seu favor.

O excesso de informação disponível dificulta à pessoa viver a simplicidade da vida moral e a tranquilidade de seguir sua vocação. A ideia, por exemplo, de que somos puro produto de questões econômicas e políticas, como a parte mais importante de tudo, não se aplica a todas as situações da vida. O coração humano é insondável e pode ser levado ao abismo pela simplificação em moda.

Daniel Rittner: Prioridades legislativas do ano na infraestrutura

Valor Econômico

Setor privado vai a Lira e Pacheco com lista de prioridades

Um grupo de dez associações empresariais pretende levar nos próximos dias aos presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), um apelo para que sete projetos de lei em fase adiantada de análise sejam colocados para votação.

A avaliação do setor privado é que esses projetos são essenciais para acelerar o investimento em infraestrutura no país e já estão com tramitação muito avançada para ficarem abandonados em um ano eleitoral. O trabalho de organizar a lista de prioridades legislativas coube ao deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), que obteve um compromisso de apoio de vários parlamentares - da esquerda à direita - para essa iniciativa. Ele já pediu agenda para Lira e para Pacheco, junto com as entidades empresariais, na expectativa de sensibilizá-los.

Raphael Di Cunto: Congresso convicto da vitória de Lula

Valor Econômico

Desonerar gasolina é a mais nova solução mágica (e errada)

Políticos de diferentes matizes, da esquerda à direita, voltaram para o Congresso do recesso em suas bases eleitorais convencidos de que o ex-presidente Lula (PT) vencerá a eleição em outubro. O sentimento é de que o “timing” para construção de uma terceira via já passou e que há hoje uma forte aversão dos eleitores ao presidente Jair Bolsonaro (PL), seja pela condução desastrosa da pandemia, seja pela inflação alta, seja pela economia parada.

Um deputado do Centrão que pretende ingressar no PL para colar na imagem de Bolsonaro na campanha, principalmente por questões locais, diz que o presidente tem força no interior, mas está muito desgastado nas grandes cidades. A população está cansada do discurso beligerante, irritou-se com a negação das vacinas e vê seu dinheiro minguar com as seguidas altas de alimentos, moradia e combustíveis. Para nenhum desses casos, afirma, parece haver solução próxima.

Nilson Teixeira: Brasil precisa de um estadista

Valor Econômico

Por saber que a sociedade está dividida, Lula precisará atrair uma coalizão suprapartidária

Muitos participantes de mercado, que nas eleições passadas defenderam sua candidatura, passaram a rejeitar a reeleição de Jair Bolsonaro. Inicialmente, havia a crença de que surgiria um nome que uniria os eleitores que rejeitam o presidente Bolsonaro e o ex-presidente Lula, cenário que sempre me pareceu improvável. Mais recentemente, a polarização entre os dois candidatos tornou-se a cena dominante, com uma expectativa de vitória de Lula. Mais do que isso, vários especialistas argumentam agora que esse resultado não seria o desastre previsto anteriormente.

A imagem de Lula no exterior é mais positiva do que na percepção da maioria dos investidores locais. Essa leitura não está restrita apenas aos políticos. Ambientalistas, por exemplo, lembram do governo Lula como um período de avanço nas ações de proteção ao meio ambiente. Do mesmo modo, investidores estrangeiros argumentam que foi um período de crescimento elevado, mesmo cientes dos benefícios do cenário global benigno para os países emergentes e produtores de commodities. Uma parte desse grupo entende que Lula traria tempos melhores de volta, pois seu governo anterior obteve grau de investimento, expressiva elevação de reservas internacionais, forte expansão do mercado de capitais, autonomia do banco central, superávits primários, aumento da renda e do consumo das famílias.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Caso Monark expõe limites da nova comunicação

O Globo

Foram deploráveis, abjetas e devem ser repudiadas com a máxima veemência as declarações feitas na última segunda-feira por Bruno Aiub, alcunhado Monark, que o levaram a ser demitido do podcast que ele próprio fundara. Num episódio em que recebeu os deputados Tabata Amaral (PSB) e Kim Kataguiri (Podemos), Aiub defendeu a legalização de um partido nazista no Brasil e o direito de quem for “antijudeu” a manifestar suas opiniões (apenas Tabata o contestou com a energia necessária). Pior ainda foi ter alegado que estava “bêbado”, num mal-ajambrado pedido de desculpas emitido depois que os patrocinadores começaram a abandoná-lo.

Não foi a primeira vez que Aiub proferiu uma barbaridade do tipo. Em mensagem no ano passado, ele questionava se a expressão de ideias racistas deveria ser crime. Aiub pode achar o que quiser a respeito. A democracia brasileira já tomou sua decisão por meio das várias leis e sentenças judiciais que consideram crime o racismo, o antissemitismo, a homofobia e outros discursos de ódio.

Não pode haver espaço no Brasil ou em qualquer país decente para a defesa de um regime que implantou o extermínio em escala industrial. Não se trata de “debate” ou “discussão” entre vários pontos de vista que devem ser protegidos. Nas palavras certeiras de uma mensagem da embaixada da Alemanha sobre o episódio: “Defender o nazismo não é liberdade de expressão. Quem defende o nazismo desrespeita a memória das vítimas e dos sobreviventes desse regime e ignora os horrores causados por ele”.

Poesia | Antonio Machado - Cantares

Tudo passa e tudo fica
porém o nosso é passar,
passar fazendo caminhos
caminhos sobre o mar

Nunca persegui a glória
nem deixar na memória
dos homens minha canção
eu amo os mundos sutis
leves e gentis,
como bolhas de sabão

Gosto de ver-los pintar-se
de sol e graná voar
abaixo o céu azul, tremer
subitamente e quebrar-se...

Nunca persegui a glória

Caminhante, são tuas pegadas
o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
se faz caminho ao andar

Ao andar se faz caminho
e ao voltar a vista atrás
se vê a senda que nunca
se há de voltar a pisar

Caminhante não há caminho
senão há marcas no mar...

Faz algum tempo neste lugar
onde hoje os bosques se vestem de espinhos
se ouviu a voz de um poeta gritar
"Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar"...

Golpe a golpe, verso a verso...

Morreu o poeta longe do lar
cobre-lhe o pó de um país vizinho.
Ao afastar-se lhe vieram chorar
"Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar..."

Golpe a golpe, verso a verso...

Quando o pintassilgo não pode cantar.
Quando o poeta é um peregrino.
Quando de nada nos serve rezar.
"Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar..."

Golpe a golpe, verso a verso.

Música | Joan Manuel Serrat - Cantares

 

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Merval Pereira: Federações, um passo à frente

O Globo

Não há razão para que o Supremo Tribunal Federal (STF) não atenda ao pedido dos partidos para que o prazo para a formação de federações seja em agosto, como previsto na legislação aprovada pelo Congresso, e não em abril, como definiu o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Luís Roberto Barroso.

A isonomia desejada por Barroso com a data final para as definições das candidaturas e mudanças de legenda não é necessária e, ao contrário, pode atrapalhar a composição das federações. Passado o prazo de 2 de abril, teremos um quadro mais claro da disputa eleitoral, e os parlamentares poderão levá-lo em conta para compor as federações partidárias, uma das ideias mais importantes surgidas na nossa legislação sobre partidos.

O STF já tem um antecedente crítico quando impediu a implementação das cláusulas de barreira, anos atrás, na intenção de proteger as siglas menores, e abriu a porteira para a criação de uma enxurrada de novas legendas sem nenhum compromisso com a higidez do sistema partidário, que só fez se deteriorar.

Eliane Cantanhêde: Lula-Alckmin, o grande lance das eleições

O Estado de S. Paulo

Lula vai além das esquerdas, Alckmin recupera protagonismo, o PSDB murcha

Só falta anunciar a data do casamento do petista Lula com o ex-tucano Geraldo Alckmin, o principal lance da eleição de outubro. Não é nada, não é nada, trata-se de uma aliança entre o PT e um setor do PSDB, depois de os dois partidos se estranharem desde as primeiras eleições diretas pós-ditadura, em 1989, e polarizarem ferozmente a política nacional de 1994 a 2018.

O movimento confirma a força de Lula na eleição e o ocaso dos tucanos, que têm passado, a herança bendita da era FHC, mas podem não ter futuro. Convém a Lula, que amplia sua candidatura para além das esquerdas, e a Alckmin, que ganha uma janela de oportunidades. Mas pode selar o início do fim do PSDB.

Em prévias, candidatos, coordenadores e eleitores se comprometem com o resultado e apoiam o vencedor. Não no PSDB. Quem foi contra o vitorioso João Doria já no dia seguinte buscava alternativas e seu real adversário, o também governador Eduardo Leite, é até sondado para concorrer por outra sigla.

Se o nome do principal partido de centro tem 2% e alta rejeição e há um estouro da boiada no horizonte, isso fortalece a profecia autorrealizável de que “não tem jeito”. A terceira via fica ainda mais distante e a nova onda são as federações partidárias. Se amanhã o Supremo mantiver março como prazo, não dá tempo de nada. Se prorrogar, também não muda muita coisa.

Luiz Carlos Azedo: Aliança de Lula com Alckmin aprofunda racha do PSDB

Correio Braziliense

A decisão de reservar a vice para o tucano, que foi o candidato à Presidência pelo PSDB em 2018, amplia o apoio à candidatura petista, principalmente em São Paulo, ensanduichando João Doria

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva praticamente consolidou sua aliança com o ex-governador tucano Geraldo Alckmin, que deve mesmo ser o vice de sua chapa, indicado pelo PSB. A retirada da candidatura do senador Humberto Costa (PT) ao governo de Pernambuco facilitou o acordo entre os dois partidos. Permanece a pendência entre o ex-governador Márcio Franca e o ex-prefeito Fernando Haddad em relação à disputa pelo Palácio dos Bandeirantes, candidatura postulada também por Guilherme Boulos, do PSol. Entretanto, isso não será mais empecilho para a aliança nacional. O que subiu no telhado foi a federação entre o PT e o PSB por causa das dificuldades regionais, que têm provocado trocas de acusações entre dirigentes dos dois partidos.

A decisão de reservar a vice para Alckmin, que foi o candidato à Presidência pelo PSDB nas eleições passadas, amplia o apoio à candidatura de Lula, principalmente em São Paulo, ensanduichando ainda mais o governador João Doria, o pré-candidato tucano, que não consegue sair dos 2% de intenção de voto nas pesquisas. Além de sinalizar para a elite paulista a disposição de fazer um governo de centro-esquerda, mina as bases municipais de Doria, que sempre se identificaram com Alckmin, desde a época em que era vice do governador Mario Covas.

Agora, Lula se movimenta também em direção ao senador José Serra (SP), outro líder histórico do PSDB. Apesar dos problemas de saúde, que inclusive o obrigaram a se licenciar, cedendo a cadeira no Senado para seu primeiro suplente, José Aníbal, Serra tem revelado a interlocutores que deseja concorrer à reeleição. Um acordo com Serra, outro ex-governador paulista, praticamente garantiria a vitória de Lula em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país.

Ricardo Mendonça: A responsabilidade dos militares

Valor Econômico

Fardados terão muita dificuldade se tentarem apagar os rastros de entusiasmo e participação no governo Bolsonaro

Abre aspas: “Meu voto é pro Bolsonaro. O Bolsonaro representa a democracia, representa a liberdade. O Haddad representa a ditadura, representa o fascismo, representa nazismo, representa racismo, divisão do país em cores e regiões. Então é a hora da opção ‘o gigante acordou’, o Brasil vai votar Bolsonaro. Que é para reverter essa situação e tirar o atraso do tempo perdido com toda essa gente corrupta. Muito obrigado.”

A declaração de voto reproduzida acima, gravada em vídeo em algum momento entre o primeiro e o segundo turno da eleição de 2018 e colocada na internet, não é de um bolsonarista extremado de rede social. É do general do Exército Brasileiro Carlos Alberto Santos Cruz.

Santos Cruz não teve a carreira militar bloqueada sob as gestões do partido do personagem que ele reputava representar a ditadura, o fascismo, o nazismo e o racismo. Também não consta que, mediante algum exame de consciência, tenha oferecido qualquer tipo de resistência às sucessivas promoções que, naquela época, lhe conduziram ao topo da carreira.

Entre o primeiro dia do governo Lula, em 2003, e a data do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, Santos Cruz foi comandante da 13ª Brigada de Infantaria Motorizada, depois subiu para comandante da 2ª Divisão do Exército e subcomandante de Operações Terrestres do Exército.

Pedro Cafardo: Com sua licença, uma digressão otimista

Valor Econômico

Possibilidade de período de prosperidade pós-pandemia dependerá da atitude de governos tanto de países ricos quanto dos pobres

A situação atual no mundo e principalmente no Brasil permanece tão assustadora que precisamos pedir licença ou desculpas antecipadas para fazer digressões otimistas sobre o futuro próximo.

Vamos a uma. Quem tem fé pode rezar e quem não tem, torcer para que o período pós-pandemia, ansiosamente esperado, seja semelhante ao pós-Segunda Guerra Mundial. A ômicron ainda atinge todo o planeta e aterroriza o Brasil em razão do estúpido negacionismo governamental. Apesar disso, as gerações atuais, depois de dois ou três sofridos anos da covid-19, talvez tenham a chance de saborear uma reprise dos “Anos Dourados” que sucederam o maior conflito bélico da humanidade, de 1939 a 1945, quando morreram 60 milhões de pessoas.

A guerra sanitária atual, felizmente, não terá essa mesma dimensão em matéria de mortes - até agora as perdas são de 5,8 milhões de pessoas no mundo. Mas há a possibilidade de que os “Anos Dourados” se repitam, dependendo da atitude de governos tanto de países ricos quanto dos pobres.

Maria Clara R. M. do Prado: Bancos Centrais, de volta ao básico?

Valor Econômico

Só os EUA podem dar-se ao luxo de elevar endividamento público sem se preocupar com a forma de financiá-lo

Há cerca de 26 anos, Alan Greenspan, então presidente do Fed, cunhou a expressão “exuberância irracional” a propósito do aumento extraordinário e sem fundamento observado nos preços das ações de empresas ligadas à internet. Seguiu-se dali uma política monetária de juros baixos e de apoio aos investidores que haviam tomado risco em excesso com vistas a amenizar os efeitos recessivos que o estouro da bolha das “dot.com” poderia causar na economia americana.

Desde então, a política monetária do Fed passou a ser guiada por decisões discricionárias, tomadas ao sabor dos ventos com potencial para comprometer o crescimento e o funcionamento do mercado. Em 2007 e 2008, como se sabe, a discricionariedade foi levada ao limite com a série de medidas de resgate às instituições financeiras no rastro da crise dos empréstimos alavancados sobre créditos imobiliários de baixa capacidade de retorno, os chamados “sub prime”.

A decisão de injetar liquidez no sistema financeiro com a compra de títulos de toda a ordem, públicos e privados, inchou os balanços não só do Fed, mas do BCE (Banco Central Europeu) e do Bank of England. Teve também o efeito de acentuar nos bancos e nas instituições financeiras em geral a garantia de que, não importa o que fizessem nem para quem emprestassem, sua solvência estaria protegida.

Alvaro Gribel: Trégua não diminui o risco

O Globo

A entrada de recursos estrangeiros não é exclusividade do Brasil e pode mascarar riscos em momento de aumento de gastos em ano de eleições

A queda do dólar e a entrada de investidores estrangeiros na Bolsa brasileira neste início de ano podem levar o Congresso e o governo a uma interpretação equivocada. A de que o mercado financeiro não está preocupado com as propostas de subsídio dos combustíveis e os seus impactos sobre as contas públicas. O capital que chega ao país este ano é atraído pelo bom momento dos preços das commodities e pelo aumento da Taxa Selic, o que beneficia ações de bancos e instituições financeiras. O risco para o país é o Congresso se aproveitar dessa “trégua” dos investidores para ampliar ainda mais as despesas e pressionar a dívida.

O economista-chefe do banco digital Modalmais, Álvaro Bandeira, explica que, na visão do mercado financeiro, o ano eleitoral será de ampliação de gastos, independentemente da Bolsa e do câmbio. Por isso, há pouca reação negativa neste momento diante das PECs que circulam no Congresso. O Orçamento, explica, está nas mãos de políticos do centrão, que já deram demonstrações de que farão o que for preciso para ajudar na reeleição do presidente Jair Bolsonaro. Ele acredita que essa piora do quadro fiscal já estava “na conta” dos investidores desde o ano passado, com a mudança na PEC dos Precatórios e seus efeitos sobre o teto de gastos.

Joel Pinheiro da Fonseca: Dedo na ferida

Folha de S. Paulo

Não fazer nada para tolher alguns excessos é permitir que a mentira e o extremismo tomem conta do debate público

Não foram poucos os alertas que circundaram minha coluna da semana passada: foi-me avisado inúmeras vezes que grande parte do público não entende ironia. Naquele texto, parti de ressalvas razoáveis à liberdade de expressão irrestrita e cheguei, passo a passo, à defesa da censura prévia total exercida por um conselho de notáveis.

Fui massacrado, acusado de ser um comunista defensor de ditaduras. Príncipes de duas famílias reais lideraram o coro: Luís Philippe de Orleans e Bragança e Carlos Bolsonaro. O texto suscitou respostas e comentários tanto no jornal como fora dele, nas redes, por colunistas da casa: Thiago Amparo, Leandro Narloch, Lygia Maria. E o coroamento se deu na coluna do ombudsman do jornal, José Henrique Mariante. Para ele, o texto tinha um tom beligerante. Mas a beligerância esteve toda nas reações a ele, e não foi à toa.

Cristina Serra: Querem apagar a história do Brasil

Folha de S. Paulo

Assusta nova tentativa de eliminar registro histórico da Comissão Nacional da Verdade

Um país pode ser analisado pela maneira como lida com o seu passado. Se dependesse do governo atual, a memória da ditadura de 1964 já teria sido sumariamente apagada, em linha com o queixume do ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas sobre a Comissão Nacional da Verdade (CNV): "Foi uma facada nas costas".

O que assusta agora, em mais uma tentativa de eliminação do registro histórico, é sua origem em uma decisão judicial. O juiz federal Hélio Sílvio Ourém Campos, de Pernambuco, determinou que sejam cobertas por uma tarja todas as menções ao nome de Olinto de Souza Ferraz no relatório da CNV, sob a guarda do Arquivo Nacional, instituição quase bicentenária, tesouro da nossa memória.

Alvaro Costa e Silva: O tesão de matar

Folha de S. Paulo

O tesão de matar virou um estilo de vida

Em 1958, o chefe da polícia no Rio de Janeiro, general Amaury Kruel, compôs uma equipe especial de combate ao crime com carta branca para agir, tendo à frente o detetive Milton Le Cocq, que havia integrado a guarda pessoal de Getúlio Vargas e cuja morte resultou na criação da Scuderie Le Cocq, nascida sob a marca da vingança e da caça ao assassino Cara de Cavalo —executado em 1964 com mais de cem disparos.

Cara de Cavalo foi um dos primeiros bandidos midiáticos. Também endeusada pela imprensa, a Scuderie Le Cocq —que se transformou em associação e teve mais de 7.000 seguidores espalhados pelo país— introduziu o extermínio de marginais como prática da polícia. Parte da população aplaudiu a nova ordem.

Carlos Andreazza: O caso Moïse

O Globo

Moïse Mugenyi Kabagambe foi torturado e morto em 24 de janeiro. Naquele mesmo dia, depôs Jailton Pereira Campos, atendente no quiosque Tropicália. Não sabemos o que declarou. Sabemos que, a 1º de fevereiro, prestaria novo testemunho, este conhecido — e sob a intenção de “retificar o termo anterior”. A razão: “esclarecer melhor os fatos narrados”, pois não teria conseguido “extrair de forma clara o seu depoimento”.

No vídeo conhecido sobre a barbárie, Jailton aparece, pedaço de pau na mão, em conflito iminente com Moïse. Teria sido ameaçado pela vítima, que, a certa altura, pega uma cadeira como arma. Outro dado relevante: Moïse abre a geladeira. Essa é igualmente a base narrativa dos depoimentos dos três matadores. Jailton teria sido ameaçado. Moïse, alterado, queria pegar cerveja, e não lhe fora permitido.

Ninguém poderá dizer que se trata de estratégia combinada. Mas é incontornável que, do ponto de partida em que Moïse seria agressor incontrolável, avança-se — nos quatro depoimentos — à configuração dele como tipo violento, beberrão e drogado, que estaria dormindo na areia e “queria subtrair bens do quiosque”. Seria ainda mentiroso. Diz Jailton “que o proprietário [do quiosque] não devia nenhum valor à vítima”.

Zuenir Ventura: A causa do cansaço

O Globo

Alguns otimistas esperavam que o quarto Ministério da Saúde do governo Bolsonaro fosse oferecer resultado melhor, já que seria preenchido por um médico, o cardiologista Marcelo Queiroga. Esqueciam o que o ocupante anterior do cargo, o general Eduardo Pazuello, havia afirmado publicamente: “Um manda, e o outro obedece”. O presidente é quem manda. Sentado ao lado, o alvo da declaração deu um amplo sorriso de apoio.

Se precisasse de confirmação, ela viria com a CPI da Covid, que apontou em seu relatório final o presidente Bolsonaro como um dos principais responsáveis, senão o principal, pela maior tragédia sanitária da história do país, que já havia causado 600 mil mortes. Pesaram então sobre ele a acusação de nada menos que nove crimes, entre os quais charlatanismo e prevaricação.

O que há de mais impactante na recente pesquisa revelada pela jornalista Evelin Azevedo, promovida pela Associação Médica Brasileira (AMB) em parceria com a Associação Paulista de Medicina (APM), é que a maioria dos participantes (51%), a própria classe, reprova a condução da pandemia pela atual gestão. Trinta e quatro por cento classificaram a atuação como péssima; 16,6%, ruim; e 21%, como regular. Apenas 14,6% dos médicos têm a pasta como referência para indicar um tratamento. A maior parte (65,1%) se baseia na orientação das sociedades de especialidades e associações médicas.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Bolsonaro deveria adiar visita à Rússia

O Globo

Com mais de três anos de governo, tanto críticos de Jair Bolsonaro quanto seus seguidores provavelmente concordam que ele não é afeito à diplomacia, nem se importa em ser inconveniente. Essas duas características — vistas por uns como defeitos, por outros como qualidades — estão evidentes agora que o presidente prepara uma viagem a Moscou. Programada para os dias 14 a 17, a visita está prevista para um momento de enorme tensão entre, de um lado, a Rússia e, do outro, Estados Unidos e seus aliados da Organização do Tratado do Alântico Norte (Otan). É iminente o risco de invasão militar russa da Ucrânia.

A diplomacia americana já deu seu recado: é contra a viagem neste momento. Europeus também não veem razão no encontro de Putin com Bolsonaro. Este insiste em dizer que a visita se restringirá às discussões sobre as relações bilaterais. Fala o óbvio. É evidente que a diplomacia brasileira deve manter sua independência em relação a todos os atores no conflito. E que existe uma agenda comum a explorar com a Rússia, país de características semelhantes ao Brasil com quem mantemos relações tímidas diante das possibilidades. Também está claro que o presidente do Brasil não deve tentar influir no conflito internacional em curso.

O que Bolsonaro não leva em conta é o contexto. Um autocrata como Vladimir Putin na certa tentará usar o encontro para passar a imagem de que não tem somente a China ao seu lado. Seria péssimo para o Brasil, país a que os Estados Unidos conferiram o status de aliado militar fora da Otan, que pleiteia um lugar na Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) e cuja proximidade de americanos e europeus tem lastro histórico e cultural.

Poesia | Joaquim Cardozo: A tarde sobe

Ao rés da Terra o tempo é escuro
Mas a tarde sobe, se ergue no ar tranqüilo e doce
A tarde sobe!
No alto se ilumina, se esclarece.
E paira na região iluminada.

Sobe, desfaz a trama de entrelaços
Superpostos na maneira dos esquadros
Sobre o chão aos poucos escurecendo.
Sobe: No meio da parte densa.

Sobe alva, serena para as estrelas
Que irão em breve aparecer,
Luzindo, no princípio da noite;
No espaço branco em que se completa
Preenchendo o centro e a esquerda
Branco que saiu limpo
De um fundo escuro de hachuras.

A tarde sobe!
Sobe até o zênite dando aos que passam
A paz e a serenidade do entardecer.

A tarde sobe pura e macia!
As linhas de baixo se inclinam
Se afastam e vão deixá-la subir.

Música | Coral Edgard Moraes - Valores do Passado

 

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Fernando Gabeira: A Matrix bolsonarista

O Globo

Às vezes, acho que estou preso numa Matrix bolsonarista. Matrix é o nome de um filme muito discutido no mundo. O personagem Neo (Keanu Reeves) descobre que vive num mundo de sonhos. Seu corpo físico está dentro de um casulo, ao lado de outros casulos nos quais as pessoas sonham sua existência. Elas foram colocadas nesses casulos por senhores robôs, para que tenham vidas de sonhos e se sintam em paz.

O governo Bolsonaro transcorreu, em sua maior parte, durante a pandemia, que limita nossos movimentos, reduz contatos físicos e, com seus ataques intermitentes, impede o planejamento do trabalho.

Em vez de sonhos, quase todos os dias Bolsonaro nos oferece algo muito errado para que possamos exercitar nosso bom senso. Ele posta pornografia e pergunta o que é golden shower, ele imita pessoas morrendo de falta de ar, combate vacinas, insulta jovens repórteres, aparece emporcalhado de farinha e anuncia que arrotou — enfim, é um repertório inesgotável para que possamos ter algo a condenar, expressando um pouco de sensatez, antes que caia a noite e descansemos para a indignação do dia seguinte.

Tudo isso se passa num contexto em que nossas vidas são atropeladas por um turbilhão de notícias, um tsunami de embates virtuais, um incessante toque do celular, anunciando que algo de novo chegou.

No passado, era mais fácil. Lembro-me de que acordava bem cedo, lia todos os jornais para fazer a pauta do JB. Saia para almoçar no Degrau, onde sempre estava o cronista Carlinhos de Oliveira, e, de vez em quando, Tom Jobim falava longamente de passarinhos.