sexta-feira, 18 de março de 2022

Vera Magalhães: Petrobras, PF e o 'aqui mando eu'

O Globo

Diz o ditado popular que água mole em pedra dura tanto bate até que fura. A erosão de praticamente todas as instituições do país no governo Bolsonaro segue a lógica de gotejar persistentemente líquidos tão corrosivos quanto intervencionismo, falta de respeito a ritos e processos e a sobreposição de interesses privados (familiares) sobre os públicos até abrir buracos que depois serão difíceis de fechar.

No momento, a Polícia Federal e a Petrobras, a maior companhia do país, são os alvos desse ataque insidioso que já atingiu, em diferentes momentos, as Forças Armadas, o Ministério Público Federal, a Abin e tantas outras corporações.

Em nenhuma dessas tentativas para minar a independência e a autonomia de braços importantes do tecido republicano, Jair Bolsonaro fez questão de esconder que a lógica que lhe serve é exigir alinhamento bovino dos indicados e ter o direito de opinar, quando não de intervir abertamente.

A Petrobras não é uma instituição do Estado, e sim uma empresa de economia mista e capital aberto, mas, ainda assim, é vista pelo presidente da República como um puxadinho de seu gabinete, que deve agir conforme seus desígnios eleitorais.

Luiz Carlos Azedo: Mercado perde confiança na política monetária

Correio Braziliense

Pressões inflacionárias atrapalham os planos de reeleição de Bolsonaro, que imaginava entrar no processo eleitoral de vento em popa, com a economia em recuperação, gerando novos empregos

Para o mercado financeiro, a principal âncora da economia, a política de juros, virou uma biruta de aeroporto na última reunião do Conselho de Política Monetária (Copom), que aumentou a taxa básica de juros de 10,75% ao ano para 11,75% ao ano, mas sinalizou que a Selic vai a 12,75% em maio. A expectativa gerada é de que o arrocho monetário não vai parar por aí e a economia pode mergulhar numa nova “grande depressão”.

Essas preocupações decorrem do papel cada vez mais subalterno do ministro da Economia, Paulo Guedes, nas decisões econômicas do governo, o que se reflete, inclusive, na demora para aprovação de dois diretores do Banco Central (BC) pelo Senado. O presidente da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) da Casa, senador Otto Alencar (PSD-BA), engavetou as duas indicações para os cargos de diretor de política econômica e diretor do sistema financeiro, com o argumento de que o governo está sem líder no Senado, desde a saída do senador Fernando Bezerra (MDB-PE) do cargo.

César Felício: TSE pode mudar plano dos grandes partidos

Valor Econômico

Parlamentares temem que teto de gastos com campanha por deputado varie só de acordo com inflação acumulada desde 2018

A polêmica sobre a quantidade de dinheiro público que será gasta pelos candidatos nas eleições deste ano ainda não terminou.

Cresce nos corredores do Congresso a sensação de que uma surpresa poderá vir do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) até o fim de maio. O rumor é de que a resolução a ser baixada pela Justiça determinando o teto de gastos para as candidaturas proporcionais não terá crescimento similar à quase triplicação que foi feita do fundo eleitoral, de R$ 1,7 bilhão para R$ 4,9 bilhões, em meio a uma enorme resistência da sociedade, dado o despropósito evidente de um aumento dessa magnitude.

O diabo mora nos detalhes e a providência divina também. Coube ao Legislativo determinar o valor do fundo eleitoral deste ano. A verba para a eleição portanto cresceu e muito. Mas cabe ao Judiciário, desde 2018, determinar o teto de gastos por cargo. Ou seja, não há garantia de que a despesa permitida seguirá a mesma proporção.

A informação com que parlamentares trabalham é que o cálculo de gastos será feito apenas com a correção pela inflação da inflação acumulada desde 2018. Isto significa que cada candidato a deputado teria direito a gastar R$ 3,2 milhões, em valores de hoje, uma vez que foi de 24,8% a inflação acumulada pelo IPCA desde junho de 2018, data da última resolução do TSE fixando os gastos por campanha, Como a inflação está em alta, este valor deve subir um pouco mais nos próximos meses, mas não escapará muito disso.

José de Souza Martins*: A duração das cotas raciais

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Estamos no beco sem saída de estruturas sociais do passado. O regime de cotas não nos liberta desse passado, embora faça justiça tópica a uma parte dos desvalidos

Neste 2022, cumpre-se o prazo de dez anos para a revisão da lei que estabeleceu o regime de favorecimento de algumas categorias raciais e sociais no acesso às universidades públicas e às escolas técnicas federais. O que abriu uma disputa política tanto em relação à própria continuidade desse direito excepcional quanto em relação à sua eventual reformulação.

A adoção do regime de cotas para ingresso nas universidades públicas brasileiras começou com uma brincadeira política em 20 de novembro de 1993, dia da Consciência Negra. Estudantes, já universitários, da PUC e da USP, deram a chamada “pendura” no restaurante de um dos melhores hotéis de São Paulo. Comeram, beberam e não pagaram a conta como ato de reivindicação de reparação em nome dos negros que, durante vários séculos, foram escravos das fazendas brasileiras.

A manifestação revelou grande força simbólica e se desdobrou em movimentos sociais em favor da adoção do regime de cotas para ingresso nas universidades públicas. A manifestação deu sentido à relevância das ações afirmativas nas reformas sociais necessárias num país politicamente bloqueado à superação de suas estruturas sociais arcaicas.

Maria Cristina Fernandes: Pragmatismo americano sacode a Venezuela

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Em meio à guerra na Ucrânia, Caracas recebe primeira delegação americana desde o fim das relações diplomáticas há três anos

A guerra na Ucrânia tinha explodido havia dez dias quando Juan Sebastian González desembarcou em Caracas para encontrar o presidente Nicolás Maduro. Colombiano de Cartagena, filho de um executivo de empresa petrolífera, González deixou seu país aos 6 anos. Cresceu em Nova York, graduou-se na Universidade de Georgetown, em Washington, fez carreira na diplomacia e tornou-se assessor do então vice-presidente Joe Biden.

Desde o ano passado, é o diretor para as Américas do Conselho de Segurança Nacional e principal assessor de Biden para a América Latina. Ao tomar posse, aos 44 anos, González disse que sua política para a Venezuela teria dois pilares, direitos humanos e combate à corrupção: “Vamos atrás de cada dólar que tenha sido roubado do povo venezuelano”.

Passados 14 meses de sua posse, González encabeçou a primeira missão oficial americana à Venezuela desde o rompimento das relações diplomáticas entre os dois países, em 2019. Naquele ano, Washington negou reconhecimento à reeleição de Maduro, proclamou o líder da oposição, Juan Gaidó, como o presidente legítimo e impôs sanções ao petróleo venezuelano.

Claudia Safatle: Dados preocupantes que vêm da Coreia

Valor Econômico

País asiático era, até então, modelo de controle da covid-19

Não vem da China, mas da Coreia do Sul, os dados mais preocupantes sobre a pandemia da covid-19. O repique nos últimos dias da doença na Coreia do Sul está intrigando os pesquisadores e médicos sanitaristas brasileiros. Os gráficos publicados abaixo dão a dimensão da mudança de sinal do país asiático, até então considerado como modelo de controle da doença. A taxa de vacinação da população é 87,55% dos que tomaram a primeira dose e de 86,63% dos que cumpriram todas as etapas da imunização.

Para ter uma ideia da progressão das estatísticas relativas à doença na Coreia, no dia 14 de março eram 309.769 novos casos de covid-19 e 200 mortes. Ontem, segundo informações atualizadas, já era mais do que o dobro de novos casos, que chegaram a 621.328, e as mortes haviam, também, mais do que duplicado para 429 pessoas.

Reinaldo Azevedo: Terceira via é uma quimera da negação

Folha de S. Paulo

Na ordem democrática, Lula e Bolsonaro são mesmo equivalentes?

A direita democrática ainda não conseguiu encontrar o seu lugar na eleição presidencial deste ano. Sei que muitos, à esquerda, acabaram de dar um risinho de canto de boca: "Direita democrática? Isso é como cabeça de bacalhau. Dizem que existe, mas ninguém vê".

Pois é. Cá nas minhas considerações, não se trata de uma fantasia. Mas ela não pode ser refém dos próprios equívocos. Se a prosa não mudar de rumo —e tenho dúvidas sinceras se haverá tempo—, o segundo turno entre Lula e Bolsonaro está contratado. Hoje, Lula é franco favorito e poderia vencer no primeiro turno. Mas a eleição não é hoje.

Há vários fatores concorrendo para tal quadro, que não chamo "polarização" —outra bobagem. Uma das causas determinantes está na tentativa de se criar uma quimera da negação: a "terceira via". Tratar-se-ia de um ser híbrido que, a um só tempo, carregasse virtudes de Bolsonaro (havendo alguma...) e de Lula, mas destinada a não ser nem uma coisa nem outra.

Bruno Boghossian: Medo não enche barriga

Folha de S. Paulo

Presidente depende de plataforma dupla, com socorro econômico e discurso político

Quem ouviu o último discurso de Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto não teve nem sinal de que o governo havia acabado de lançar um torpedo de R$ 150 bilhões para ajudar sua reeleição. Em 30 minutos, o presidente atacou governadores, repetiu suspeitas sobre as urnas eletrônicas e disse estar diante de uma disputa do "bem contra o mal".

Não partiu de Bolsonaro nenhuma palavra sobre um pacote considerado crucial pelos políticos que tocam a campanha do presidente. O governo liberou até R$ 1.000 do FGTS para 40 milhões de pessoas e antecipou o 13º de 30 milhões de aposentados e pensionistas. Além disso, ampliou a margem de empréstimos consignados, que miram até as famílias de baixa renda do Auxílio Brasil.

Hélio Schwartsman: Pobre Brasil

Folha de S. Paulo

Num país decente, tentativa de censura derrubaria ministro

A única coisa que a Constituição de 1988 proíbe duas vezes é a censura, banida de nosso ordenamento jurídico tanto no artigo 5º, IX como no artigo 220. Com muito boa vontade, dá para discutir se um representante do Poder Judiciário, isto é, um magistrado, pode, em nome da preservação de outros direitos fundamentais, proscrever uma obra artística. Eu entendo que não, mas reconheço que esse é um ponto em que o debate é legítimo.

Ruy Castro: Uma ou duas Rússias

Folha de S. Paulo

O que comunas históricos achariam dessa Rússia que disputa os últimos hambúrgueres do McDonald's?

As imagens chocaram o mundo: multidões tomando as lojas do McDonald's em toda a Rússia, disputando os últimos hambúrgueres e sacos de batata frita antes do fechamento decretado pela rede em protesto contra a invasão da Ucrânia por Vladimir Putin. Os que conseguiam chegar aos balcões pediam dez ou 20 sanduíches para viagem. Um cidadão algemou-se à porta de uma unidade em Moscou, tendo de ser libertado à força pela polícia e levado pedalando o ar.

O choque se deve a que, por boa parte do século 20, a Rússia simbolizou a resistência aos prazeres fúteis do capitalismo. Não era bem a Rússia, como sabemos, mas a União Soviética, embora, para milhões, uma e outra fossem a mesma coisa. Dizia-se que os jovens russos podiam não ter a Coca-Cola, o cachorro quente e a sacanagem no banco de trás do carro emprestado pelo pai, mas não sentiam falta porque tinham escola, comida, emprego na fábrica e liberdade para idolatrar o camarada Stálin.

Vinicius Torres Freire: Pacote eleitoral de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Medidas misturam laranjas com jaca velha, crédito com dinheiro novo e mera antecipação de recursos

"Em ano eleitoral, pacote do governo injeta R$ 150 bilhões na economia", a gente lia e ouvia na tarde desta quinta-feira (17). Era o noticiário do anúncio do "Programa Renda e Oportunidade", de Jair Bolsonaro.

É cascata.

É propaganda do governo, que soma um rolo de dinheiros diversos. Pode até aliviar a vida muito dura de muita gente, por pouco tempo, talvez o bastante para render uns pontos de pesquisa ou votos. Isso se o trem de crise que vem na contramão não atropelar ainda mais a vida dessas pessoas.

Quem está fazendo a conta de "inflação suga tantos bilhões da economia"? O salário médio real deve cair de novo neste ano, tanto mais quanto piores foram os efeitos da crise mundial causada pela guerra e pelo arrocho dos juros.

O "pacote de R$ 150 bilhões" mistura laranjas com jaca velha, crédito com dinheiro novo e mera antecipação de recursos.

Flávia Oliveira: Inflação, a vida pela hora da morte

O Globo

A tempestade perfeita no ambiente global — alta nas cotações de petróleo e gás, valorização recorde das commodities agrícolas, aumento de preço e risco de escassez de fertilizantes químicos — já fez o Ministério da Economia revisar de 4,7% (dentro da meta) para 6,55% (bem acima do teto, de 5%) a estimativa do IPCA para o Brasil em 2022. O Banco Central, para conter a escalada dos preços, elevou a taxa básica de juros para o maior nível em meia década (11,75% ao ano) e prometeu adicionar mais um ponto percentual na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em maio. Se o petróleo chegar a dezembro em US$ 100 por barril — ontem voltou ao patamar de US$ 106 —, o IPCA terminará o ano em 6,3%. É o governo Jair Bolsonaro reconhecendo oficialmente o que toda família brasileira já sabe: a vida está pela hora da morte.

Rogério Furquim Werneck; Triunfo do populismo

O Globo / O Estado de S. Paulo

A disputa presidencial polarizada nas eleições deste ano está longe de ser um embate entre direita e esquerda

É preciso ter clareza sobre a real natureza do risco político a que estará submetida a condução da política econômica nas eleições de outubro.

Quando se trata de outras dimensões de política pública — relacionadas, por exemplo, a educação, saúde, segurança pública, costumes, cultura e meio ambiente — faz algum sentido perceber a disputa presidencial polarizada, entre Bolsonaro e Lula, como um embate entre direita e esquerda.

No que tange à condução da política econômica, essa percepção de um embate entre direita e esquerda até chegou a fazer sentido na eleição de 2018, pelo menos para quem se deixou cair no conto de que Bolsonaro passara a ser um discípulo convicto e disciplinado de Paulo Guedes.

Pedro Doria: Na Ucrânia, mas sem celular

O Globo / O Estado de S. Paulo

Durante a primeira semana após a invasão russa da Ucrânia, a vida de Bobuubi e sua família só não foi pesadelo maior porque sua comunidade, no Twitch, o salvou. Ele é um streamer. Seu trabalho, sua profissão, é jogar videogames ao vivo. Seu rosto aparece pequenino num canto da tela, o jogo preenche o resto. Bobuubi é polonês, mas vivia na Ucrânia, próximo à fronteira russa. Streamers costumam ter games preferenciais — no caso dele, é “Escape from Tarkov”, um detalhado simulador de guerra baseado no conflito entre Rússia e Chechênia. O público de Bobuubi estava assistindo ao vivo quando as primeiras bombas reais começaram a cair perto de onde ele estava. Ele se despediu emocionado. Precisava encontrar a família e fugir.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Não há justificativa plausível para o orçamento secreto

O Globo

É difícil encontrar adjetivos para descrever as manobras do Congresso que tentam deixar nas sombras o dispositivo conhecido por “emenda do relator”, ou pela sigla RP 9, usado para destinar bilhões do Orçamento a interesses paroquiais dos parlamentares, sem a menor transparência nem fiscalização. Uma nova tentativa de manter opaco o passado do orçamento secreto aconteceu na quarta-feira. O Senado encaminhou ao Supremo Tribunal Federal (STF) um pedido de prorrogação por 90 dias do prazo para divulgar os nomes dos parlamentares beneficiados por essas emendas em 2020 e 2021.

Uma semana antes, o alvo foi o futuro. Em desafio ao bom senso e à decisão do próprio STF, a Comissão Mista de Orçamento (CMO) determinou que não seria obrigatório revelar todos os deputados e senadores agraciados pelas emendas de relator. Caberá aos parlamentares decidir se querem ser identificados como autores da destinação da verba. É um escárnio.

As iniciativas do Congresso são um problema por pelo menos três motivos. Primeiro, e acima de tudo, porque são contrárias à Constituição, que exige transparência na alocação dos recursos públicos. Segundo, porque dificultam o combate à corrupção. As emendas do relator, usadas pelo governo como moeda de troca para garantir apoio, somam valores gigantescos. Em 2020, totalizaram R$ 19,7 bilhões. No ano passado, R$ 16,7 bilhões. Estão orçadas em R$ 16,5 bilhões neste ano eleitoral. Já foram identificados vários casos de sobrepreço em obras financiadas com esse dinheiro, mas continua em segredo o nome dos parlamentares que destinaram as verbas. A terceira razão é a falta de critério nos gastos, distribuídos sem base em estudos técnicos reconhecidos.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade: Os velhos

 

Música | Coral Edgard Moraes - A vida é um carnaval

 

quinta-feira, 17 de março de 2022

Merval Pereira: Ciclo de negócios

O Globo

A batalha do presidente Bolsonaro com a Petrobras pelo preço da gasolina, do diesel e do gás resume o que historicamente acontece no Brasil em anos eleitorais. Também a distribuição de verba pública para a população, como o repasse do dinheiro do FGTS e o novo Bolsa Família turbinado, está incluída em estudos que mostram quão poderoso é o efeito de políticas de rendas nos períodos eleitorais.

As maiores quedas de pobreza acontecidas no Brasil nos últimos anos se deram em anos eleitorais. São planos, porém, que geram custos sociais traduzidos em desemprego mais alto e renda mais baixa. Historicamente, nos últimos 40 anos pelo menos, a utilização de políticas monetárias, fiscais e cambiais com claros objetivos político-eleitorais gera “Ciclos Políticos de Negócios” (CPNs), cuja principal característica é a redução do desemprego em períodos pré-eleitorais, resultante de políticas cujo objetivo seria proporcionar um ambiente positivo capaz de influenciar o resultado eleitoral.

Malu Gaspar: Populismo na largada

O Globo

Todo mundo sabia que a economia seria o tema central da eleição de 2022. Mas quiseram a subida do dólar, a guerra na Ucrânia e a consequente alta na inflação que os dois principais candidatos à Presidência da República fossem confrontados já sobre temas centrais como a política de preços para os combustíveis ou a importância das reformas em seus futuros governos.

Estamos atravessando uma quadra capaz de delimitar os rumos da campanha. Se a cotação do petróleo escalar demais, será impossível conter o preço dos combustíveis e o efeito cascata sobre a inflação, o que favoreceria Lula e sepultaria as chances de Bolsonaro.

Do contrário, se o valor do barril de petróleo parar de subir, e o governo conseguir estabilizar os preços dos combustíveis sem quebrar as contas públicas, o presidente ganha um respiro. Todos os movimentos têm sido feitos de olho nesse cenário, e o que se tem visto até agora é puro populismo.

Míriam Leitão: Juros em alta e economia fraca

O Globo

Os juros subiram aqui e nos Estados Unidos. E vão continuar subindo. Nos dois países, as taxas foram elevadas não por causa da guerra, mas para combater a inflação que já estava alta, antes de o primeiro tanque russo tomar a estrada para Kiev. Contudo, aqui e lá a pressão inflacionária e o cenário econômico pioram muito com a guerra. O Fed deixou claro que este é o início do ciclo que pode incluir mais outras seis elevações com movimentos mais fortes do que o 0,25 ponto percentual aprovado desta vez. O Copom subiu a taxa em um ponto percentual, avisou de uma próxima alta da mesma magnitude e alertou que tudo piorou na economia internacional.

Há diferenças importantes. O Brasil está estagnado, e os Estados Unidos, crescendo. O Brasil tem alto desemprego e os Estados Unidos estão com o mercado de trabalho aquecido. Tanto que esse foi um dos motivos alegados pelo próprio presidente do Fed, Jerome Powell, para elevar os juros. Lá a taxa estava próxima de zero, e aqui já subiu muito e agora foi para 11,75%. Para um país, como o Brasil, cuja previsão de crescimento não passa de meio por cento é uma enormidade.

Luiz Carlos Azedo: Conspiração e desespero na terceira via

Correio Braziliense

Apesar das adversidades eleitorais e da conspiração dos aliados, Doria não dá, até agora, nenhum sinal de que pretende desistir. Pelo contrário, aposta na saída de Eduardo Leite do PSDB

Uma operação de cerco e aniquilamento da pré-candidatura do governador de São Paulo, João Doria, como havíamos antecipado, está em pleno curso. Praticamente todas as lideranças da chamada terceira via se articulam para substituí-lo pelo governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, como o candidato unificado da terceira via. As conversas de bastidores no Congresso incluem, também, os deputados da bancada paulista aliados do vice Rodrigo Garcia.

Derrotado por Doria nas prévias do PSDB, Eduardo Leite acredita que o cavalo está passando arreado para sua candidatura à Presidência, desta vez, para valer. Na primeira oportunidade, quem montou foi o governador paulista, que não está conseguindo bom desempenho na corrida presidencial. Doria empacou nas pesquisas. No levantamento do instituto Quaest/Genial, divulgado, ontem, pela CNN, Doria aparece empatado com o deputado André Janones (Avante), ambos em quinto lugar, com 2% de intenções de votos.

Bruno Boghossian: O domínio da direita

Folha de S. Paulo

Presidente busca posto de candidato dominante na direita, apesar de ameaça da inflação

Jair Bolsonaro sentiu em 2020 um primeiro aperto em sua eterna campanha pela reeleição. A demissão de Sergio Moro e a gestão mortífera da pandemia desorganizaram seu campo político. Em abril, o presidente caiu para 20% das intenções de voto numa pesquisa Ipespe, enquanto o ex-juiz e o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta somavam quase 30%.

A ideia de fabricar uma direita não bolsonarista para a sucessão do presidente tomou fôlego naquele momento, mas não chegou inteira ao ano da eleição. Números recentes de diversos institutos sugerem que o próprio Bolsonaro reconquistou parte dos eleitores que flertavam com outros candidatos que correm (ou já correram) em sua raia.

Ruy Castro: Não perca: debates sem Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Para não comparecer, ele estará em viagem oficial ao exterior ou internado com nó nas tripas

Nas brechas do noticiário sobre a Ucrânia, os jornais e TVs tentam cobrir as manobras dos políticos brasileiros rumo às eleições —a luta para conquistar aliados, garantir apoios e assegurar votos nos redutos deste ou daquele líder. O objetivo de qualquer político é o poder, e o de Jair Bolsonaro é o poder absoluto. Ele sabe que, sem a imunidade do trono, pegará 600 anos. Daí estarem todos em campanha. Menos Bolsonaro. Apenas finge estar.

No fundo, sua preocupação com as eleições sempre foi superficial. Se não fosse, não teria ficado sem partido pela maior parte do mandato e se dedicado a, dia sim, dia não, ofender enormes massas de eleitores, como gays, mulheres, negros, artistas e estudantes. Há pouco, cuspiu em milhões de católicos ao dizer para os suspeitos evangélicos de sempre que levará o país "para onde eles quiserem". Mesmo sua preocupação com o preço da gasolina é perfunctória. É jogo para a galera, por causa da crise internacional —se colar, colou. Votos não contam.

Maria Hermínia Tavares: Palavras de mulher

Folha de S. Paulo

Oito em cada dez estão insatisfeitas com o tratamento que recebem da população

Na semana passada, pelo transcurso do Dia Internacional da Mulher, o Brasil teve de se haver de novo com manifestações patéticas, típicas do clamoroso reacionarismo do presidente, dessa vez secundado pelo procurador-geral da República. Um e outro incapazes de entender o valor da igualdade de direitos entre mulheres e homens numa sociedade civilizada, muito menos os avanços na matéria nas últimas décadas.

Eis por que merece leitura atenta o "Observatório Febraban 2022 – mulheres, preconceito e violência", que apresenta os resultados de uma sondagem com 3.000 brasileiras, esmiuçando seus pontos de vista sobre diferentes dimensões das iniquidades de gênero no país.

Vinicius Torres Freire: Arrocho dos juros vai mais longe

Folha de S. Paulo

Em ritmo mais lento, Selic vai subir mais; BC manda recado para Bolsonaro

A dose do remédio vai ser menor, mas o tratamento vai mais longe. O Banco Central aumentou a taxa básica de juros de 10,75% ao ano para 11,75% ao ano, mas quase prometeu que a Selic vai a 12,75% em maio. Afora milagres na política e na economia do Brasil e do mundo, não vai parar aí: 13% é um piso. O arrocho monetário se aproxima daquele que se viu em 2015, na Grande Recessão.

Pode ser ainda pior, a depender do que vai ser da guerra, do nível de maluquices da campanha eleitoral e do que vai fazer Jair Bolsonaro com o gasto público.

O BC sempre faz alertas "fiscais". Isto é: diz que mais despesa e dívida crescendo sem limite implicam juros mais altos. Mas deu um recadinho extra no comunicado desta quarta-feira.

William Waack: A guerra da Ucrânia e as ideias

O Estado de S. Paulo.

O conflito significa muito mais para o Brasil do que preço de combustíveis

Quando se trata das decisões de Vladimir Putin a questão não é de geopolítica, argumenta o historiador Timothy Snyder (bestsellers no Brasil: Terras de Sangue e Na Contramão da Liberdade). Pois, em termos geopolíticos, diz ele, tudo o que Putin conseguiu invadindo a Ucrânia foi acelerar a vassalagem da Rússia diante da China.

A guerra lançada por Putin é em torno de uma ideia nascida de interpretação errônea de “fatos” históricos, enfileirados para satisfazer as convicções místicas do chefe oligarca em Moscou. Nesse sentido, Snyder lança um grande desafio para a escola do “realismo” na interpretação das relações entre as potências, segundo a qual os únicos fatores que realmente importam são poder e segurança.

Celso Ming: Mais um aperto nos juros

O Estado de S. Paulo.

O Banco Central se conteve em aumentar os juros básicos (Selic) em apenas um ponto porcentual, de 10,75 % para 11,75% ao ano, apesar da nova disparada da inflação, que levou muitos analistas a apostar em aperto mais forte. São os juros mais altos desde fevereiro de 2017.

Preferiu se ater à indicação adiantada em fevereiro, bem antes do início da guerra, que puxou para o alto os preços do petróleo, das matérias-primas e que recomeça a atrapalhar os fluxos de produção e distribuição. Em compensação, o Banco Central avisou que poderá aumentar mais na próxima reunião.

A inflação é mundial e preponderantemente de custos.

Não é provocada por aumento de emissões de moeda nem pelo aumento da demanda.

Adriana Fernandes: Fritura a gasolina

O Estado de S. Paulo.

Silva e Luna deve cair porque é improvável que a Petrobras recue do aumento

Jair Bolsonaro foi aconselhado pelos seus principais ministros a manter o general Joaquim Silva e Luna à frente da Petrobras, mas segue o mesmo roteiro que levou à demissão de Roberto Castelo Branco em fevereiro de 2021, após o quarto aumento no preço dos combustíveis anunciado pela estatal, o que na época irritou imensamente o presidente.

Bolsonaro frita Silva e Luna num caldo quente feito à base de gasolina. É questão de tempo a queda do general, que o presidente colocou há um ano no comando da Petrobras acreditando que iria resolver o problema da alta dos combustíveis na marra. Já naquele momento, o presidente era alvo das críticas de apoiadores pela alta dos preços.

Maria Cristina Fernandes: Movimento do eu-sozinho

Valor Econômico

Para ampliar, não basta a Lula colocar Alckmin de vice e prometer um bis no legado

O conjunto das pesquisas publicadas nas últimas semanas demonstrou que a terceira via tornou-se uma questão de dogma ou fé. Cristalizada, a polarização mostra, por um lado, um governo mobilizando o tesouroduto a serviço da reeleição. E, por outro, um ex-presidente que sustenta o favoritismo no gogó do legado. Arrisca dar sorte ao azar.

A formulação que agregou o ex-governador Geraldo Alckmin foi a que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está à frente de um movimento e não de um partido. A ideia é reproduzir o apelo à democracia que moveu Tancredo Neves na abertura.

Naquele momento mobilizaram-se lideranças, partidos, movimentos sociais, sindicatos, empresários e banqueiros para levar para dentro do colégio eleitoral o desejo de mudança da campanha pelas eleições diretas. Por isso, quando Tancredo morreu, não houve retrocesso.

Cristiano Romero: Democracia exige fim do racismo e da desigualdade

Valor Econômico

Brasil flerta com ditaduras porque não cuida de seu povo

Em 1953, apenas 25, de cada cem crianças brasileiras, estavam na escola. Nossos pais contavam que naquela época a escola pública era “muito boa”. Não se conhece ninguém que tenha desmentido essa afirmação porque seria chato confrontar os próprios pais com um argumento irretorquível: como pode ser qualificado de bom um sistema de ensino que atende a demanda de apenas 25% dos estudantes do ensino básico?

Brasileiros, temos o péssimo defeito de tomar como certo o que é profundamente errado. E, assim, vamos nos iludindo a serviço de grupos de interesse específico numa sociedade onde o país é rico, mas a riqueza é concentrada nas mãos de pouquíssimos. Em pleno século XXI, cidadãos pertencentes à elite cultural do país defendem como verdadeiro, por exemplo, o pior dos mitos disseminados neste canto do planeta: o de que somos uma democracia racial.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Ocidente deve apostar no caminho da paz

O Globo

A guerra na Ucrânia já mudou o mundo. Antes, a União Europeia acreditava ser possível manter uma relação pacífica com a Rússia baseada na interdependência econômica; havia décadas, os alemães mantinham gastos militares num patamar baixo; existiam dúvidas sobre o futuro da cooperação militar entre americanos e europeus. Passadas três semanas da invasão russa, tudo isso caiu por terra.

Não se sabe como o conflito terminará. Vladimir Putin esperava ganhar com rapidez. Pelo plano original, suas tropas seriam recebidas como libertadoras, e Volodomyr Zelensky, o presidente ucraniano, fugiria para o exílio. Não deu muito certo. As Forças Armadas russas mostraram ser menos eficientes do que se imaginava. Foram registrados problemas de planejamento, logística e equipamentos. Os ucranianos têm — até aqui — resistido. Mas a disparidade militar é tão grande que, mesmo com dificuldades, as tropas russas avançam, provocando mais mortes de civis e mais destruição.

Para deter isso, é preciso apoiar possíveis alternativas para Putin assinar um tratado de paz quanto antes. O rascunho de acordo, em 15 pontos, sobre o qual os negociadores se debruçavam ontem parecia apontar uma saída.

Poesia | João Cabral de Melo Neto: Discurso do Capibaribe

Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.

Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.

Música | Escola de Samba Mangueira 2022

 

quarta-feira, 16 de março de 2022

Vera Magalhães: Reacionarismo com aparato estatal

O Globo

O reacionarismo histérico, impulsionado por notícias falsas e pela disseminação da narrativa segundo a qual a cultura e a educação estavam sob uma espécie de ditadura progressista que minava os valores da família, foi um dos ingredientes fundamentais para a eleição de Jair Bolsonaro em 2018.

Peças de publicidade à primeira vista toscas demais para ser críveis, como a que dizia que Fernando Haddad havia distribuído mamadeiras com bicos em forma de pênis em creches quando fora prefeito de São Paulo e, se eleito presidente, “nacionalizaria” a prática, cumpriram o circuito tradicional das fake news naquele pleito: nasciam em grupos do Facebook, se espraiavam pelo WhatsApp e paravam, aqui e ali, em postagens de políticos, que lhes emprestavam ares de verossimilhança.

Esse caldo de cultura do submundo das redes sociais e dos aplicativos de mensagens, que tenho chamado aqui de Bolsoverso, teve reflexo nas ruas, com ofensivas de grupos como o MBL, que promoveu o boicote e a vandalização de uma exposição, a “Queermuseu”, em 2017 e 2018.

Bernardo Mello Franco: Ventos do Chile

O Globo

A esquerda brasileira está encantada com Gabriel Boric. A posse do presidente do Chile foi festejada como um sinal de novos ventos na América Latina. Mas o fenômeno que o levou ao poder dificilmente se repetiria por aqui.

Ex-líder estudantil, Boric foi eleito aos 35 anos, idade mínima para disputar a Presidência no Chile e no Brasil. Aqui o campo progressista vai às urnas com dois veteranos. Ciro Gomes tem 64 anos. Está na quarta tentativa de chegar ao Planalto. Lula tem 76. Será candidato pela sexta vez.

A renovação chilena não se limita à mudança geracional. Boric se elegeu com bandeiras que mobilizam os jovens, como o feminismo, a defesa dos povos indígenas e o aumento da participação popular.

Elio Gaspari: Um caso de lavajatismo piorado

O Globo / Folha de S. Paulo

Deve-se aos repórteres Artur Rodrigues e Rogério Pagnan a revelação de que abriu-se a caixa-preta das maracutaias envolvendo a concessão de rodovias de São Paulo. A Ecovias, uma das maiores empresas do setor, reconheceu a existência de um cartel e propinas em 12 concessões entre 1998 e 2015. Em 2020, a Ecovias assinou um acordo cível com a Promotoria paulista e aceitou devolver à Viúva R$ 650 milhões, dos quais R$ 400 milhões em obras e R$ 250 milhões em dinheiro. A empresa cobra os pedágios mais caros do estado: R$ 30,20 para carros.

Nessa bocarra operavam pelo menos dez parlamentares filiados a quase toda a extensão do arco partidário. Alguns deles vendiam proteção numa comissão parlamentar de inquérito.

Dessa boa iniciativa resulta um detalhe inquietante: o Ministério Público e o Judiciário não revelam o nome do representante da Ecovias que fez um acordo de colaboração premiada. Mais: procurada, a Ecovias recusou-se a comentar a colaboração de seu representante.

Luiz Carlos Azedo: Bolsonaro recupera expectativa de poder

Correio Braziliense

O governo passou a operar em modo eleitoral, com adoção de medidas para mitigar os efeitos da pandemia e da inflação no bolso dos brasileiros

O ato realizado, ontem, pelo Partido Liberal (PL), do ex-deputado Valdemar Costa Neto, que filiou 16 deputados à legenda, mostra que o presidente Jair Bolsonaro está recuperando a expectativa de poder, que, em grande parte, havia se transferido para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em razão do favoritismo do petista nas pesquisas de opinião. Entre os novos filiados, estão a deputada Carla Zambelli (SP), o cantor baiano Netinho e o jogador de vôlei Maurício de Souza. O PL passou a ter a maior bancada da Câmara, com 65 parlamentares.

A maioria dos parlamentares que ingressaram no PL deixou o União Brasil, partido que resultou da fusão do PSL com o DEM. Bolsonaristas de primeira hora, como Coronel Tadeu (SP), Sanderson (RS) e Hélio Lopes, conhecido como Hélio Negão (RJ), estão no pacote de filiações, esperadas desde quando o presidente Bolsonaro ingressou na legenda comandada por Valdemar Costa Neto, em novembro passado. Naquela ocasião, por causa da lei de fidelidade partidária, somente o senador Flávio Bolsonaro (RJ) havia ingressado na legenda.

Hélio Sshwartsman: Lula faz política, Bolsonaro só reage

Folha de S. Paulo

Lula olha também para a governabilidade a partir de 2023

Se há algo que Luiz Inácio Lula da Silva sabe fazer, é política. E ele vem jogando bem. Está de olho não só na vitória eleitoral em outubro (pré-requisito para qualquer outra coisa) mas também na governabilidade a partir de 2023. Por isso, vem trabalhando para ampliar tanto quanto possível seu arco de alianças. Mira não só a esquerda, que já ganharia por gravitação, mas também o centro e a direita republicanos.

É nessa conjuntura que convidou o ex-tucano Geraldo Alckmin para ser seu vice, mantém conversações com Gilberto Kassab e vai distribuindo agrados a evangélicos. Para os que, como eu, ainda acreditam que a laicidade do Estado é um valor, dói ver o PT emprestando apoio ao projeto de lei que quer proibir o uso da palavra "bíblia" "fora de contexto". A arte da política, porém, consiste justamente em trocar posições em questões consideradas menos urgentes por apoio para os objetivos tidos como estratégicos.

Bruno Boghossian: Em busca de um alvo fácil

Folha de S. Paulo

Bolsonaristas ficam pendurados em agenda moral para compensar um déficit de realizações do governo

Na ausência de alvos fáceis, o bolsonarismo costuma recauchutar polêmicas do passado. Desta vez, o Ministério da Justiça fez uma jogada ensaiada com políticos conservadores e proibiu a exibição de um filme de 2017. A manobra expõe um governo que depende da mesma guerra cultural que Jair Bolsonaro explorou para chegar ao poder.

Ninguém tentou esconder que a censura seria usada como arma política. No fim de semana, aliados de Bolsonaro denunciaram uma cena de "Como se Tornar o Pior Aluno da Escola" em que o vilão pede que duas crianças o masturbem. O secretário da Cultura, Mario Frias, entrou na campanha e prometeu agir contra o que chamou de afronta às famílias.

Vinicius Torres Freire: Bolsonaro começa sua guerra da reeleição

Folha de S. Paulo

Governo vai gastar de modo disfarçado, fazer favores e reagir à maré de crise mundial

Os efeitos da desordem mundial vão bater no Brasil pelo menos na forma de inflação mais alta até às vésperas da eleição, perto de 9% ao ano até agosto. Se a crise ou a inflação pararem por aí, vai sair barato. Mas Jair Bolsonaro não vai ficar parado, como já deveria ser fácil perceber.

Por mais que não vá conseguir levar o crescimento muito além do zero, pode salvar alguns votos que iriam pelo ralo com uma recessão. Mais relevante, pode distribuir benefícios localizados, "pessoais", que ao menos possam render uma boa impressão, ainda que não dê conta da carestia e da queda dos salários.

Bolsonaro começa gastando R$ 20 bilhões em combustíveis, na verdade deixando de arrecadar tal valor de impostos a fim de baratear o diesel. Sabe-se lá quanto desse desconto vai chegar nos tanques, mas é um pequeno impulso fiscal (gasto do governo que estimula a economia) e um "gesto".