domingo, 22 de maio de 2022

Muniz Sodré*: O enigma da terceira via

Folha de S. Paulo

Por que 'terceira' se só uma das candidaturas é de polo extremo?

Palavras cruzadas, charadas e pequenos enigmas são velhos recursos de jornais e revistas para entreter certas classes de leitores. Mas quando coisas dessa ordem se estendem à esfera política, o interesse público é obrigatoriamente mais amplo.

Exemplo marcante vem de especulações de natureza diversa a propósito de uma "terceira via" na eleição. Ninguém explica por que seria terceira, considerando-se que, entre as existentes, só uma é polo extremo, longe da expectativa democrática de restauração civil.

Talvez ajude imaginar um jogo em que uma bola corra sozinha em campo sem que se saiba por quê, à espera de alguém que a agarre e lhe dê uma definição. Até agora, em nenhum momento, ninguém se arriscou a resolver o enigma, embora a bola continue correndo, aparentemente refratária, como mercúrio: já driblou muita gente.

Um chute inicial foi dado pelo ex-governador gaúcho. Embora tenha apoiado a eleição do atual presidente, se apresentou ainda no cargo como virtual opositor federal. Como costuma acontecer com os políticos convictos de que é dispensável a formulação de um projeto nacional, o postulante reduziu a provável expectativa de uma carta de intenções ao tamanho de um cartão de visitas, em que simplesmente fazia uma honesta declaração de gênero.

Luiz Carlos Azedo: Bolsonaro quer privatizar Petrobras e explorar a Amazônia

Correio Braziliense / Estado de Minas

Não se deve subestimar o apelo eleitoral dessa agenda: 49% são contra a privatização da Petrobras, 38% são favoráveis , porém, 67% apoiariam a privatização se resultasse na redução do preço dos combustíveis

Em busca da reeleição, o presidente Jair Bolsonaro acena para o mercado financeiro e aos investidores estrangeiros com uma radical agenda liberal, na qual a privatização da Eletrobras seria apenas um passo inicial. As joias da coroa são a venda da Petrobras, a empresa símbolo do nacionalismo brasileiro, e a entrega da exploração das reservas minerais e da biodiversidade da floresta ao bilionário Elon Musk — dono das empresas SpaceX, Tesla e Starlink.

Na sexta-feira, em São Paulo, na companhia de Bolsonaro e do ministro da Comunicação, Fábio Faria, o articulador de sua visita, Musk anunciou o lançamento de um programa de internet via satélite que pretende conectar 19 mil escolas em áreas rurais e promover o monitoramento ambiental “mais tecnológico” na Amazônia. O empresário sul-africano é aliado do ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump e tem a intenção de comprar o Twitter, por US$ 44 bilhões (R$ 225 bilhões), seu mais importante negócio em andamento, “para garantir a liberdade de expressão nas redes sociais”.

Não se deve subestimar o apelo eleitoral dessa agenda para Bolsonaro. Divulgada na sexta-feira, pesquisa Ipespe contratada pela XP Investimentos revelou que 49% dos entrevistados são contra a privatização da Petrobras, 38% são favoráveis e 13% não souberam ou não responderam, porém, 67% apoiariam a privatização se resultasse na redução do preço dos combustíveis. Além disso, a cartada em relação à Amazônia pode matar dois coelhos: neutralizar as pressões internacionais contra o desmatamento da Amazônia e tornar irreversível a exploração econômica da floresta por grandes empresas de tecnologia e biotecnologia.

Vinicius Torres Freire: Quem paga a conta de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Governo precisa de mais fundos para obter votos e quem vai pagar é o país, com menos crescimento e mais dívida

Arthur Lira (PP-AL) colocou uma faca no pescoço de estados e municípios com o objetivo de baixar impostos sobre combustíveis e talvez sobre energia elétrica, comunicações e transportes. Ameaça também um calote nas distribuidoras de eletricidade (as que vendem a energia para o consumidor).

Lira quer baixar a inflação na marra e a curto prazo a fim de melhorar as chances eleitorais de Jair Bolsonaro e turma. Outras promessas do governismo, como o reajuste da tabela do Imposto de Renda, reafirmada ainda em abril, foram para o vinagre, assim como a ideia de subsidiar diesel e gasolina, cara e inviável, mas ineficaz.

O governo precisa, pois, com urgência, de mais fundos para obter votos.

As ameaças de Lira custariam dezenas de bilhões, teriam efeito de curto prazo na inflação, dariam algum dinheiro para consumidores e deixariam mais problemas econômicos para o próximo governo.

Lira é o presidente da Câmara, sultão do centrão, senhor de todas as emendas e regente do governo Bolsonaro. Ameaça colocar em votação nesta semana um projeto que, no fim das contas, baixa o ICMS sobre combustíveis, eletricidade, comunicação e transportes. Um outro suspende reajustes contratados da conta de luz. O governo e o comando de Senado e Câmara fazem pressão para que os estados reduzam o ICMS sobre o diesel.

É incerto que tais projetos passem. Mas a chantagem está na mesa.

Bruno Boghossian: A economia nas mãos do centrão

Folha de S. Paulo

Ministro diz que fica em 2º mandato, mas sobrevivência depende dos partidos aliados

Paulo Guedes entregou as chaves do Ministério da Economia para o centrão. Num evento com investidores, o chefe da pasta afirmou que pode continuar no cargo em 2023, mas reconheceu que essa permanência não depende só da reeleição de Jair Bolsonaro. A condição, segundo ele, seria a vitória de uma coalizão de centro-direita –uma maneira cerimoniosa de descrever os partidos que mantêm o governo de pé.

A lógica de Guedes é a seguinte: Bolsonaro "ganhou sozinho" a eleição de 2018, mas a tal aliança de centro-direita avançou e passou a apoiar uma agenda de reformas no Congresso. Não é bem assim, mas o ministro indica que esse consórcio será o responsável por ditar o ritmo da agenda econômica num eventual segundo mandato do presidente.

Na prática, Guedes reconheceu (talvez por acidente) que precisa do centrão para continuar no poder. Não é pouca coisa, considerando a aversão que nutria pelos congressistas no início do governo e a indiferença com que os políticos do grupo encaram o ministro desde então.

Aí entra um arranjo que parece preservar a convivência entre os dois lados. No mesmo salão em que avisou que pretende ficar no cargo, Guedes citou a privatização da Eletrobras como exemplo dessa gestão. Só não mencionou que, para aprovar o projeto, o ministério teve que dar aval a uma série de penduricalhos elaborados para atender aos interesses políticos do centrão.

Janio de Freitas: A Amazônia saindo do Brasil

Folha de S. Paulo

Acordo entre Bolsonaro e Musk contraria interesses nacionais

As Forças Armadas estão postas por Bolsonaro, determinados militares e empresários sob um teste que não espera aquele a que responderão nas eleições. Até que o resolvam, estão invadidas por uma contradição interna que as deixa à mercê de interesses descomunais. E nisso arrastam o próprio país, estando em jogo riquezas nacionais de grande importância e a própria segurança territorial brasileira.

É notório que o centro da visão geopolítica dos militares está na presumida ambição dos países-potências de apropriar-se da Amazônia. Ideia fixa no Exército, daí vem o descaso pelas questões ambientais amazônicas e pelos indígenas, predominando a concepção de um território protegido por ocupação de pecuária, agricultura extensiva e mineração. Os Estados Unidos são o motivo maior da suposição militar, apesar de citados apenas em situações de especial reserva, por conveniência até da sedução que suscitam nos integrantes das Forças Armadas.

Bolsonaro e seu governo levaram a aplicação da proposta militar para a Amazônia ao nunca imaginado. Não só em razão da influência do Exército na composição e na orientação governamentais. Há também as facilidades para exploração criminosa da riqueza natural por garimpeiros ilegais, madeireiros idem, contrabandistas, invasores de terras indígenas e do patrimônio público para fazendeiros e agroindustriais. E, criação no atual governo, a interseção de milícias urbanas nessa criminalidade amazônica. Agora se arma o grande avanço. Ou, mais claro, inicia-se a perda da Amazônia.

Eliane Cantanhêde: Hora de explicar o óbvio

O Estado de S. Paulo.

Democracia é democracia, liberdade de expressão é liberdade de expressão, covid é covid, vacina é vacina

Antes sorrateiramente, agora ostensivamente, o presidente Jair Bolsonaro usa uma estratégia sofisticada e audaciosa para inverter o jogo e dizer que ele é o verdadeiro democrata e quem ataca a democracia são os outros, os adversários e as próprias instituições. Uma estratégia demoníaca.

Na denúncia-crime de Bolsonaro contra o ministro Alexandre de Moraes, o “Messias”, “mito” e “democrata” o acusa de abuso de autoridade e de ataques à liberdade de expressão, à Constituição e à democracia. Não é pra rir! É para ficar cada vez mais alerta, porque é esse tipo de inversão da realidade que Bolsonaro usa e seus robôs, virtuais ou de carne e osso, replicam na internet – inclusive como comentários de leitores. Ele cria a realidade paralela, sua tropa replica sem pensar.

Na realidade real, é Bolsonaro quem ataca urnas eletrônicas (sem mínimas evidências de fraude em décadas), o TSE e o Supremo e já entrou com pedido de impeachment de Moraes no Senado, tentou denúncia-crime contra ele no Supremo e insiste na PGR.

Foi também Bolsonaro quem fez homenagem no Planalto a condenado pelo STF e, no 7 de Setembro, anunciou a intenção de descumprir decisão judicial. De tão grave, a ameaça mobilizou até o ex-presidente Michel Temer para apagar o incêndio. Logo, é ele, Bolsonaro, quem ameaça instituições, eleições e a democracia.

Rolf Kuntz: Um dia de motociata para seis sem governo

O Estado de S. Paulo

Presidindo sem governar, Bolsonaro obedece à norma do repouso no sétimo dia como se houvesse produzido nos outros seis.

Trabalhar cansa, escreveu Cesare Pavese no título de um poema. As mesmas palavras foram usadas como título de um livro – Lavorare Stanca – publicado em Florença em 1936, quando o poeta vivia numa casa vigiada pelo regime fascista. É difícil dizer se Jair Bolsonaro leu esse livro, ou qualquer outro, e se ele realmente gosta de anapestos. Mas sua passagem pela Presidência parece marcada por aquele título, e, mais que isso, por um horror à cultura talvez maior que o dos antigos líderes fascistas. Quanto à cultura, seu desapreço é evidente na rejeição da ciência, no desmonte do Ministério da Educação e na devastação da área cultural do governo, entregue a um defensor do uso da Lei Rouanet para financiar a promoção da posse de armas.

Trabalhar cansa, concordarão letrados e iletrados. O Criador, segundo a Escritura, cessou o trabalho no sétimo dia, convertido depois pelos homens em dia de repouso e oração. Religioso à sua maneira, o presidente Bolsonaro reinterpretou a regra, preservando o repouso e dispensando a causa do cansaço. Assim, depois de mais uma semana improdutiva, o presidente permitiu-se um passeio de moto aquática no Lago Paranoá. Liderou um desfile de embarcações, numa exibição batizada como “lanchaciata”. Foi uma variação da costumeira “motociata”, mas só mudaram os veículos e o ambiente.

Bernardo Mello Franco: O negócio de Musk

O Globo

Em visita ao Brasil, Elon Musk foi recebido por governo de joelhos

Enquanto seu principal adversário desfrutava a lua de mel, Jair Bolsonaro convocou a imprensa para divulgar um novo relacionamento. “É o início de um namoro. Tenho certeza que vai acabar em casamento brevemente”, anunciou. O capitão se referia ao flerte com o bilionário Elon Musk, que fez uma visita-relâmpago ao Brasil na sexta-feira.

Em campanha à reeleição, Bolsonaro tirou o dia para bajular o homem mais rico do mundo. “Poderíamos chamá-lo de mito da liberdade”, derramou-se. Ele definiu o anúncio da compra do Twitter, um negócio de US$ 44 bilhões, como um “sopro de esperança”. “A vinda dele é um marco para todos nós”, proclamou, antes de condecorá-lo com uma medalha.

O ministro Fábio Faria, que organizou a visita, foi ainda mais longe na vassalagem. “Todos no Brasil te amam”, disse a Musk. Não era só o complexo de vira-latas, identificado por Nelson Rodrigues como um traço da psiquê nacional. Os bolsonaristas cortejam o bilionário porque têm muitos interesses em jogo. Os mais visíveis estão ligados à regulação das redes.

Míriam Leitão: Em teu nome, ó Liberdade

O Globo

Muitos crimes têm sido cometidos em nome da liberdade no Brasil atual. Trancafiar as crianças em casa com seus pais e preceptores foi o crime da semana aprovado pela Câmara dos Deputados. É um retrocesso de séculos. Parlamentares que se dizem liberais tiram a liberdade da criança e do adolescente de exercer seus direitos à educação plural e à convivência com pessoas da sua idade. Alivia um pouco o horror saber que alguns municípios estão na direção certa. Priscila Cruz, do Todos pela Educação, cita Sobral, Teresina e Recife como cidades que aumentaram o números de horas de aula para compensar o atraso da pandemia.

É trágico o legado da pandemia na educação. É assim no mundo todo, mas um relatório divulgado pelo FMI mostrou que o Brasil é o terceiro pior país do G-20 em termos de impacto da pandemia. Está na frente apenas da Indonésia e do México em termos de impacto da pandemia. Olhando pela economia, o Fundo diz que se o efeito da Covid-19 não for corrigido, o Brasil sentirá os reflexos na renda e na desigualdade. Foram 279 dias sem aula.

Michel Temer*: O que é pacificar?

O Estado de S. Paulo

Ataques a adversários, a conquistas de governos anteriores e à ordem democrática são atentado à nossa Constituição

O Brasil precisa de pacificação, sob pena de perderse no redemoinho de intolerância que vem guiando as lideranças políticas neste período de pré-campanha eleitoral. Até onde chegaremos com tanta inadequação?

Pacificar o País é um imperativo constitucional, grifado logo no preâmbulo da Constituição de 1988 como compromisso de buscar “a solução pacífica das controvérsias”. Ataques e ameaças a adversários, a conquistas de governos anteriores e à ordem democrática, incluindo a desarmonia entre os Poderes, são, portanto, atentado à nossa Constituição e conduzirão o País ao precipício da falta de unidade e esperança. Afinal, se o outro, sendo adversário, torna-se inimigo, não chegaremos a uma solução pacífica.

As consequências do conflito aberto e sem limites são muitas e diversas, atingindo os interesses do País e de seu povo em diversos campos. A governabilidade é uma das primeiras a sofrer com este clima de guerra, pois dificultará bastante ou mesmo impossibilitará futuramente a aprovação de projetos no Congresso Nacional, se as condições de diálogo e negociação política não forem dadas. Não se trata de exagero, pois a toada por enquanto transforma o debate político numa luta do bem contra o mal, mudando, curiosamente, a representação de um e de outro lado, a depender de quem é o orador ou o entrevistado.

Rodrigo Pacheco: Em defesa da democracia e da harmonia entre os Poderes

O Globo

Os artigos 1º e 2º da Constituição Federal são concisos e guardam conceitos oriundos de uma longa evolução histórica. Ambos resgatam doutrinas que se opõem ao autoritarismo e que, atualmente, representam características de nações civilizadas. O Artigo 1º define que a República Federativa do Brasil é um Estado Democrático de Direito. O Artigo 2º determina que os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário deverão ser harmônicos e independentes. Desses conceitos, quero me ater à interligação de democracia e harmonia entre os Poderes, com o objetivo de reafirmar esses valores constitucionais como imperativos da proteção aos direitos e às liberdades da população.

Na Grécia Antiga, o incômodo com o governo tirânico deu origem a um novo regime de governo, chamado democracia. Em grego, democracia significa poder político (kratos) do povo (demo). O conceito do que é um governo democrático não é único. Passou por amplo desenvolvimento histórico até chegar ao que hoje entendo mais adequado: a democracia constitucional. Em poucas palavras, na democracia o titular do poder soberano é o povo, que o exerce diretamente (democracia direta) ou por meio de seus representantes eleitos (democracia representativa). A democracia constitucional adiciona à soberania popular a necessidade de que sejam respeitados os direitos fundamentais, sobretudo das minorias, e de que o poder seja limitado pela Constituição.

Cristovam Buarque*: Derretimentos previsíveis

Blog do Noblat / Metrópoles

O noticiário desta semana anunciou pelo menos três derretimentos no mundo

O mais óbvio, e mais preocupante no longo prazo, porque o mais ameaçador para toda humanidade, é a confirmação do derretimento das geleiras nas montanhas dos Andes. Este fato mostra a olho nu a tragédia do desequilíbrio ecológico, provocando mudanças climáticas que levam ao aquecimento da temperatura e à elevação no nível dos oceanos, com todas suas consequências.

Faz 60 anos que a humanidade dispõe de informações prevendo esta catástrofe, desde quando o grupo de estudos Clube de Roma publicou seu famoso primeiro informe, no início dos anos 1970. Lamentavelmente, todos sabem que a tragédia está acontecendo e em breve se transformará em catástrofe, mas pouco se faz de concreto para evitá-la. Como se no lugar de cidadãos do mundo, fossemos atores de uma peça teatral escrita por um dramaturgo.

O que a mídia pensa: Editoriais / opiniões

Editoriais

Desigualdade social explodirá sem atenção à educação

O Globo

Por ter sido um dos países que mantiveram as escolas mais tempo fechadas durante os piores momentos da pandemia, o Brasil criou uma bomba-relógio capaz de levar a desigualdade às alturas se não for desarmada.

Os ganhos médios ao longo da vida dos estudantes brasileiros serão 9,1% menores na comparação com um cenário sem pandemia, afirma um relatório recente do Fundo Monetário Internacional (FMI). Das 20 maiores economias do mundo, o Brasil é a 16ª pior, atrás de Rússia, China, Turquia, África do Sul, Argentina e Índia. A fatia da população mais afetada será a que frequenta o ensino público. Nos últimos dois anos, ela sofreu com aulas remotas mal preparadas, falta de computadores e de acesso à internet. Desde a volta do ensino presencial, tem recebido apoio insuficiente para recuperar o tempo perdido.

Há, obviamente, exceções. Niterói (RJ) é um dos municípios com política de auxílio para tentar garantir a volta dos que abandonaram o ensino médio porque precisam cooperar com a renda da família. Sobral (CE) é um dos destaques no apoio psicológico. O Estado de São Paulo preparou um material específico para facilitar a recomposição de conteúdos.

Num país de dimensões continentais e grandes desníveis de desenvolvimento regional, contudo, exemplos isolados não bastam. É chave o papel de coordenação do governo federal. Desgraçadamente, o Ministério da Educação não está à altura do desafio. Estamos em maio de 2022 e ainda sem um programa. O MEC promete um para logo. Se cumprir o que diz, ainda assim terá chegado tarde.

O FMI reconhece que a ciência econômica ainda tem muito a aprender sobre as consequências de longo prazo da crise de proporções gigantescas que se abateu sobre a área da educação. Porém algumas previsões dependem apenas do raciocínio lógico. Quando entrarem no mercado de trabalho, os filhos de famílias ricas (os que tiveram aulas remotas de qualidade) ocuparão postos que requerem mais habilidades. Confirmada a futura escassez de profissionais preparados, é provável que esses cargos pagarão salários mais altos do que hoje. Quem tiver lacunas na formação terá chances maiores de acabar num mercado informal mais congestionado, recebendo salários menores.

Poesia | Ascenso Ferreira: Trem de Alagoas

 

Música | Elba Ramalho: Frevo Mulher

 

sábado, 21 de maio de 2022

Merval Pereira: Bolsonaro inferniza o país

O Globo / CBN

O presidente Jair Bolsonaro diz que não é contra a democracia, mas ataca individualmente os ministros, quando não ataca a instituição em si.  Agora afirmou que os ministros Barroso, Fachin e Alexandre de Moraes infernizam o país. Na verdade, é ele que inferniza o país, não dá um dia de trégua. Não temos um dia de paz aqui desde que assumiu. É a maneira dele atuar politicamente, tentando criar problemas com as instituições, estabelecendo a cizânia. E é cansativo nesta tentativa permanente de subverter a ordem; ele é o próprio subversivo, porque não respeita nada, só pensa no que interessa a ele, a reeleição. Ontem, numa solenidade no TST, numa plateia formada pela classe jurídica aconteceu uma situação emblemática, com uma salva de palmas prolongada quando o nome do ministro Alexandre de Moraes foi anunciado, e o único que não aplaudiu foi Bolsonaro - apesar de ter cumprimentado o ministro na chegada. Foi indicativo significativo de solidariedade do judiciário ao ministro, de afirmação de que a justiça está acima de qualquer poder e não pode ser contestada.

Ascânio Seleme: Os empresários e a eleição presidencial

O Globo

O apoio do setor a Bolsonaro já foi maior, mas o presidente ainda consegue arrancar alguns aplausos e vivas

Altamiro se orgulha da sua trajetória profissional. Ele começou a trabalhar ainda menino. Aos dez anos garimpava no interior de Minas Gerais. Foi depois faxineiro, trabalhou numa empresa de material de construção e representou uma indústria de tintas na região em que morava, até reunir algum dinheiro e virar pequeno empresário. Montou então uma loja de artigos de R$ 1,99, quando aquilo era febre no Brasil, e foi ainda contrabandista de bugigangas que trazia do Paraguai para abastecer sua loja e a dos concorrentes. Hoje, com 54 anos, é dono de uma empresa de transportes de pessoas. Seu orgulho é ter conseguido vencer mesmo sem estudar. Fez apenas o primeiro grau. “Parei de estudar porque tive de trabalhar”, afirma. É bolsonarista mas não sabe bem porquê.

O apoio dos empresários brasileiros a Bolsonaro já foi maior, mas o presidente ainda consegue arrancar desse grupo aplausos e vivas, como ocorreu na reunião dos supermercados na semana passada. Os graúdos da Faria Lima já foram mais efusivos, enquanto os menores seguem com algum entusiasmo, talvez por sentirem-se mais próximos do candidato. Não que isso seja uma regra, mas os grandes estão tirando o pé da canoa da extrema direita mais rapidamente porque entendem melhor o perigo crescente de radicalismo e rompimento institucional que ela representa. E, claro, de olho nas consequências inevitáveis para os negócios.

Pablo Ortellado: Fraude nas urnas é teoria da conspiração

O Globo

A insistência do governo na tese de que as urnas eletrônicas foram fraudadas é estranha. As evidências apresentadas são muito frágeis, e os mecanismos adotados pela Justiça de supervisão e escrutínio parecem mais que suficientes. Por isso analistas supõem má-fé do governo, que, sabendo que a alegação é falsa, insistiria nela apenas com o intuito malicioso de preparar um golpe de Estado. Mas há motivos para supor que ele pode acreditar na tese na forma de uma teoria da conspiração.

O maior estudioso das teorias da conspiração, Joseph Uscinski, as define como a crença, contrariada pela autoridade epistemológica (a ciência, o jornalismo profissional ou a Justiça), de que fenômenos complexos que prejudicam o bem comum são explicados de modo adequado pela ação de um pequeno grupo de indivíduos poderosos agindo em segredo.

Embora a teoria da conspiração precise de algum tipo de evidência para sustentá-la, ela não aceita ser contestada pelos fatos, não admite ser “falseada”. Pistas, indícios e suspeitas, não importa quão frágeis, são capazes de manter a crença viva. Evidências contrárias, mesmo que contundentes, são rejeitadas. Os fatos se moldam à convicção.

Eduardo Affonso: Camões, poeta e profeta

O Globo

Que Nostradamus, que nada! Quem profetizou sobre os eventos neste Brasil do ano da graça de 2022 foi Luís Vaz de Camões, o maior poeta vivo da língua portuguesa (morreu em 1580 apenas para os leitores ingratos).

Está tudo lá, no soneto “Amor é um fogo que arde sem se ver”, publicado há 424 anos sob o disfarce de ser apenas mais um poema a respeito da servidão amorosa.

“Fogo que arde sem se ver” é uma metáfora para Simone Tebet — a senadora sul-mato-grossense que não falta ao trabalho (compareceu a 95% das sessões), não rasga dinheiro público (gastou só cerca de 40% da verba de gabinete e da cota parlamentar), nem responde a processo judicial. Teve atuação firme na CPI da Covid e tem baixa rejeição. Pode crescer e aparecer. A menos que o vice seja o Aécio, porque aí incinera tudo.

“Ferida que dói, e não se sente” é referência a Lula. Responsável pelos maiores escândalos de corrupção da nossa História, há quem acredite que “não tem, nesse país, uma viv’alma mais honesta”. Mas sejamos justos: pelo menos uma vez não faltou com a verdade — foi quando disse que no Congresso havia 300 picaretas. Tanto havia que comprou vários deles, assim que teve oportunidade.

Carlos Alberto Sardenberg: A democracia pode funcionar mal

O Globo

Não existe democracia sem Parlamento eleito pelo povo. Num país continental como o Brasil, é também conveniente que os entes regionais tenham representação nacional.

O sistema político brasileiro atende a esses dois requisitos. A Câmara dos Deputados representa o povo. O Senado representa os estados, que formam a Federação.

Ditaduras costumam fechar parlamentos ou instalar simulacros que só existem para chancelar as decisões do líder do momento. Exemplo: o assim chamado Congresso Nacional do Povo da China.

Nosso Congresso, reunião das duas Casas Legislativas, funciona livremente. Assim, a despeito de Bolsonaro, temos uma democracia em funcionamento.

Ocorre que os parlamentos podem funcionar bem ou mal. Criticá-los, nesses casos, não é atentar contra a democracia, mas, ao contrário, defender não apenas sua existência, como também sua eficácia. Sim, eficácia.

Os líderes da maiores ditaduras do momento, Xi Jinping e Vladimir Putin, sustentam suas críticas à “democracia ocidental” com o argumento de que não são eficazes nas políticas de desenvolvimento. E por quê? Porque o sistema seria muito lento para tomar decisões. E aqui se completa o argumento autoritário: essa lentidão viria justamente de as decisões precisarem passar pelo Parlamento e obter aval da Justiça.

Oscar Vilhena Vieira*: Confronto e erosão como método

Folha de S. Paulo

Essa concepção tribal de política foi descaradamente plagiada pelo bolsonarismo

Bolsonaro pratica uma concepção primitiva de política, baseada no confronto, na intimidação dos adversários e no arbítrio, em detrimento de uma política fundada na competição eleitoral, no debate público e na legalidade.

Essa concepção tribal de política, defendida por Carl Schmitt, que marcou a ascensão de regimes totalitários nos anos 1930, repaginada pela extrema direita norte-americana nas últimas décadas —com sua idolatria fálica às armas, à supremacia racial e a ideias liberticidas—, foi descaradamente plagiada pelo bolsonarismo.

Para os praticantes dessa concepção pervertida de política, a democracia constitucional —que pacifica e institucionaliza a competição política e impõe limites jurídicos àqueles que exercem poder— aparece como um entrave inaceitável ao poder soberano devendo, portanto, ser suprimido. A verdadeira soberania, de acordo com Schmitt, não pode ser confinada pela Constituição, pelo império do direito. Ela somente se expressa no contexto do estado de exceção.

Demétrio Magnoli: A opinião embargada

Folha de S. Paulo

A preferência pelo eufemismo é um traço clássico da linguagem estatal-burocrática

Investigando o "declínio" da língua inglesa, George Orwell escreveu: "ela torna-se feia e imprecisa porque nossos pensamentos são tolos, mas o desmazelo de nossa linguagem facilita-nos desenvolver pensamentos estúpidos". O raciocínio aplica-se ao português e especificamente à Folha, que escolheu a palavra "embargo" para noticiar o advento da censura interna de opinião (13/5).

A preferência pelo eufemismo é um traço clássico da linguagem estatal-burocrática. Num jornal de extensa tradição, é coisa incomum. Não contente com um eufemismo, a Folha dobrou a dose, batizando uma PIP (Polícia Identitária do Pensamento) como Comitê de Inclusão e Equidade, composto por 17 jornalistas anônimos (mas identificados por cor e gênero).

Imprecisa, a notícia nada esclarece sobre a extensão da influência da PIP nas decisões de censura interna. Fica claro, porém, que as duas iniciativas procedem da mesma fonte: o clamor da IRUD (Igreja Racialista dos Últimos Dias) e do grupo auxiliar Jocevir (Jornalistas pela Censura Virtuosa) pela supressão de artigos opinativos não alinhados com a teologia das políticas de raça.

A renúncia ao pluralismo de opiniões, uma violação direta do Projeto Folha, decorre da "reação à publicação de um texto de Antônio Risério, em que o antropólogo acusa negros de racismo contra brancos". O texto não foi selecionado aleatoriamente: proibi-lo cumpre uma função política específica.

Cristina Serra: Elon Musk e a eleição no Brasil

Folha de S. Paulo

Sua passagem por aqui soa outro alarme sobre os riscos de manipulação em outubro

Bolsonaro recebeu Elon Musk com rapapés e tapete vermelho, em cena de vassalagem vira-lata explícita. Como se sabe, Musk negocia a compra do Twitter e já avisou que a liberdade de expressão absoluta na rede social, sem qualquer moderação, está acima de tudo. Música para os ouvidos das milícias digitais e sinal verde para a pregação golpista e os discursos de ódio.

Musk anunciou que quer reverter o banimento de Donald Trump, expulso do Twitter por ter insuflado extremistas contra a confirmação de Joe Biden, em janeiro de 2021. A ação resultou na invasão do Capitolio e na morte de cinco pessoas.

Homem mais rico do mundo, dono de um império de empresas de alta tecnologia, que vão dos carros elétricos à pretensa colonização de Marte, Musk é um oligarca de perfil ególatra e megalômano.

Ficou famoso seu tuíte sobre o golpe na Bolívia, contra Evo Morales, em 2019. Respondendo à crítica de um seguidor, tuitou: "Nós daremos golpe em quem quisermos. Lide com isso." A Bolívia tem as maiores reservas de lítio do mundo, mineral essencial para as baterias de carros elétricos fabricados pela Tesla.

Alvaro Costa e Silva: Bolsonaro e Vargas Llosa

Folha de S. Paulo

Primeiro romance do Nobel peruano denuncia violência e corrupção em colégio militar

Seria um assombro, na melhor tradição do realismo mágico. Mas vamos supor que aconteça: animado com o apoio que recebeu de Mario Vargas Llosa, Bolsonaro resolve adiar os passeios de moto e jet-ski e reservar 15 minutos por dia para ler o Nobel. Escolhe "A Cidade e os Cachorros" (ou "Batismo de Fogo", o outro título com que a obra foi traduzida entre nós), primeiro romance do escritor que, ainda bem jovem, resolveu tornar-se o Faulkner do Peru.

Bolsonaro não entende bem os diferentes pontos de vista narrativos, o discurso indireto livre e a mistura entre passado e presente. Mas reconhece, ao virar uma página depois de lamber a ponta do dedo, algo familiar: a palavra coturno. O esforço sobre-humano é recompensado quando ele finalmente percebe que a história se passa em um colégio militar. Aquele ambiente é o seu, pensa o presidente, ali um menino aprende a ser homem.

Para Doria, ‘ninguém tem o direito de desmerecer, desqualificar’ as prévias

Sob pressão para retirar candidatura, ex-governador de São Paulo afirma ainda que não pretende mudar de partido

Théo Mariano / O Estado de S. Paulo.

Goiânia - Pressionado por partidos da terceira via a desistir de sua pré-candidatura ao Palácio do Planalto, o ex-governador João Doria defendeu ontem, ao falar para filiados do PSDB, o resultado das prévias que definiram seu nome como presidenciável da sigla. “Dezoito mil pessoas votaram em nosso nome e vencemos as prévias. Ninguém tem o direito de desmerecer, desqualificar e não atender o anseio daqueles que fazem o nosso partido, vocês, militantes do PSDB”, disse Doria durante visita a Goiânia (GO).

O ex-governador afirmou ainda que “não conversou e não conversa” com nenhuma outra legenda, numa sugestão de que não pretende mudar de partido, mesmo diante da pressão interna por sua desistência da disputa presidencial. “Não tenho, não tive e não terei outro partido”, declarou.

Nesta semana, os presidentes de PSDB, MDB e Cidadania deram aval ao nome da senadora Simone Tebet (MDB-MS) como candidata única desses partidos na chamada terceira via. A indicação, no entanto, ainda precisa ser referendada pelas executivas nacionais das legendas. O ex-governador de São Paulo resiste e tenta se manter como presidenciável.

Questionado ontem por jornalistas, em Trindade (GO), se aceitaria ser vice na chapa presidencial de Simone Tebet, o tucano afirmou apenas estar “dialogando”. “Estamos dialogando, sempre conversando. O diálogo é a base da democracia”, disse Doria.

Bolívar Lamounier*: Certezas e dúvidas certíssimas

O Estado de S. Paulo

A necessidade de uma reforma constitucional ulula a nossos ouvidos de manhã à noite, mas sabemos todos que há pequenos senões.

Conto com a compreensão do leitor para a catadupa de repetições que vou despejar no artigo de hoje; com esta covid-19 que se arrasta, mas não acaba, este frio dos infernos e as hipóteses eleitorais que somos forçados a considerar para outubro, não vejo como um ser humano possa ter uma ideia original.

Sobre a eleição, ganhe Lula ou Bolsonaro, de uma coisa podemos ter certeza: não haverá reforma política. Dando de barato que o eleito, uma vez empossado no dia 1.º de janeiro de 2023 para um mandato de quatro anos, dará tratos à bola sobre como se reeleger em 2026, podemos marcar no calendário que antes de 2027 nenhuma reforma será discutida seriamente.

Vejam vocês que coisa extraordinária. Não há sobre a face da Terra país mais aferrado a aberrações (como o Colégio Eleitoral) que os Estados Unidos. Mas nesse ponto nós os deixamos a comer poeira. Reeleição para um mandato de quatro anos, vá lá, a gente faz o possível para engolir, mas nós chegamos ao cúmulo de admitir que o inquilino, tendo descansado durante quatro anos, tente retornar ao Planalto para fazer mais quatro anos de estragos. Entre as 80 ideias de reforma que discutimos desde o Congresso Constituinte, essa é a mais branda, a mais razoável, a que não ofende ninguém, mas nem dela queremos saber. E o pior: em toda a América Latina, parece que todos os inquilinos só pensam nisto, o terceiro mandato, seja na base da rasteirada ou por qualquer outro meio.

Claro, Lula e Jair Bolsonaro sempre podem nos causar alguma surpresa, e qualquer um tem o direito de acreditar no que quiser. Seja um, seja o outro, se quiserem acreditar, acreditem no que quiserem. Creiam de pés juntos que teremos uma reforma institucional de fazer inveja a Hamilton, Jefferson e Jay, os três “federalistas” que prepararam a ratificação da Constituição. Creiam que Jair, com sua serenidade e seu realismo, convencerá os investidores externos a trazerem trilhões de dólares para dar um jeito em nossa infraestrutura e retomar o crescimento econômico. Lula, se não igualar Jair em tirocínio, ao menos descobrirá uma forma confortável de subir na carroceria do caminhão quando lhe der vontade de fazer discursos por este nosso Brasil afora.

João Gabriel de Lima: A conversa que virou briga de rua

O Estado de S. Paulo

Desconfie do governo que diz que a solução para o país é destruir o outro lado, seja de esquerda ou de direita

Por que não conseguimos mais conversar sobre nosso país? Em que momento o debate político desandou em briga de rua? Essas perguntas provocativas conduzem O Diálogo Possível, oitavo livro do ensaísta Francisco Bosco. Dado que nenhum problema complexo tem solução simples, são múltiplas as respostas para as questões levantadas na obra.

“Vivemos uma época em que, mais que discutir assuntos seriamente, queremos pertencer a uma tribo política”, diz Bosco, entrevistado no minipodcast da semana. “As pessoas preferem lacrar a debater. É mais fácil. É só compartilhar os memes certos e os autores certos, mesmo que as citações sejam mentirosas.”

Na era das redes – “com as quais conviveremos ainda por muito tempo”, segundo Bosco – os significados das diversas posições políticas se perderam. Dependendo de quem usa as palavras, “liberal” ou “socialista” podem virar xingamentos – quando, na verdade, são apenas maneiras diferentes de promover inclusão social.

Vera Rosa: Varal da polarização ‘vende’ Lula e Bolsonaro

O Estado de S. Paulo

Um varal com fisionomias sorridentes de Jair Bolsonaro e de Luiz Inácio Lula da Silva, amarrado em postes diante do Memorial JK, em Brasília, é o retrato da polarização na campanha eleitoral. Penduradas ali, toalhas de praia com as fotos do presidente e de seu maior adversário na disputa são vendidas por R$ 60.

A crise econômica atrapalha as vendas, muita gente pechincha, mas o movimento aumenta no fim de semana. “Cadê a canga da terceira via? Virou fantasma?”, perguntou o ex-deputado Marcus Pestana, pré-candidato do PSDB ao governo de Minas, ao passar pelo local. Ninguém sabia, naquela calçada, o que era terceira via.

Defensor de uma candidatura única do chamado “centro democrático” para a sucessão de Bolsonaro, Pestana avalia, porém, que é o PSDB, e não o MDB, quem deve liderar a chapa, caso queira se manter no mapa político. “Se houver fragmentação, será a crônica da morte anunciada”, disse o ex-deputado, um dos coordenadores das prévias tucanas.

Vinicius Torres Freire: O estelionato no preço da energia

Folha de S. Paulo

Bolsonaro quer jogar a conta da inflação da energia no colo de alguém a fim de se salvar na eleição

"Nós já saímos do inferno [da inflação]", disse Paulo Guedes nesta quinta-feira (19). A carestia está feia mesmo é na Holanda e na Inglaterra, afirmou o ministro da Economia.

Parece que Jair Bolsonaro e seus cúmplices no Congresso não pensam assim. Em desespero, a cada dia aparecem com ideias alopradas de meter a mão em preços, empresas ou na receita dos estados a fim de evitar aumentos de eletricidade e combustíveis pelo menos até a eleição.

Não vai dar certo, a baderna da economia vai aumentar, com prejuízos gerais, e os reajustes podem ser ainda maiores depois da eleição. É uma mistura de estelionato eleitoral, burrice e incompetência até na demagogia.

Na quarta-feira, Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara, disse que o Congresso vai suspender o reajuste da conta de luz se o governo não arrumar uma solução para os aumentos, que na média nacional devem ficar em torno de uns 19%. Nesta quinta-feira, Lira disse que vai colocar em votação na semana que vem um projeto que define telecomunicações, energia, combustíveis e transportes como "essências". Assim, a alíquota de ICMS desses serviços não poderia passar de 17% ou 18%, a depender do estado.

Marcus Pestana*: Estado e privatizações

Esta semana o TCU autorizou a privatização da Eletrobras. A empresa é responsável por 30% da geração de energia, possuí 40% das linhas de transmissão e é a maior empresa de energia da América Latina. É uma empresa de capital aberto, sendo o governo federal o controlador, com 72% das ações.

Privatização sempre foi assunto polêmico. Há muitos preconceitos ideológicos envolvidos no tema. Na verdade, o usuário de energia, sejam famílias ou empresas, ao acender o interruptor de luz ou ligar uma tomada na parede não se pergunta se a geração, transmissão e distribuição é feita por uma estatal ou por uma empresa privada. Oque querem é segurança no fornecimento, qualidade, tarifa justa e acesso.

Os obstáculos ideológicos à privatização não resistem ao teste da história. A primeira hidrelétrica da América Latina foi fruto do empreendedorismo do empresário schumpeteriano Bernardo Mascarenhas, que, em 1889, ergueu o Complexo Hidrelétrico de Marmelos, em Juiz de Fora, para gerar energia para sua indústria têxtil e para a cidade. Portanto, a energia elétrica no Brasil nasceu de um investimento privado.

No presente, existem diversas operações privadas na área. Um exemplo, também da Zona da Mata mineira, é o Grupo Energisa S.A., fundado em 1905, com sede em Cataguases, que atende a 16 milhões de brasileiros, com excelente nível de satisfação de seus clientes. Isto demonstra que a questão central não é a energia ser estatal ou privada. O que importa é ter boa contratação e regulação.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Editoriais

Bolsa Família sofreu retrocesso ao se tornar Auxílio Brasil

O Globo

O Bolsa Família é citado dentro e fora do Brasil como exemplo de política social bem-sucedida. De forma direta ou indireta, atingia 40 milhões de brasileiros carentes, garantindo subsistência a um custo relativamente baixo, em torno de 0,4% do PIB. Para alcançar o objetivo estratégico de quebrar a transmissão da miséria de geração a geração, mantinha foco e exercia cobrança de contrapartidas dos beneficiários — visitas periódicas ao posto de saúde, vacinação em dia e frequência escolar dos filhos. O registro de desvios sempre foi mínimo.

Por tudo isso, é extremamente preocupante a deterioração da qualidade dessa política pública exitosa desde que foi transformada no Auxílio Brasil, o programa eleitoreiro criado pelo presidente Jair Bolsonaro para chamar de seu e ostentar nos palanques. Em vez de persistir na trajetória que assegurou ampliação, evolução e êxito do Bolsa Família ao longo dos governos Fernando Henrique, Lula e Dilma, Bolsonaro tem promovido uma razia nos princípios que sempre o regeram.

O desmonte se acentuou a partir da pandemia. Como o auxílio emergencial distribuído em 2020 e 2021 destinava-se a parcela maior da população, o coronavírus serviu de pretexto para a suspensão da cobrança de contrapartidas daqueles que recebiam o Bolsa Família. Ao mesmo tempo, criou-se uma pressão maior no caixa do Tesouro. Para o lançamento do Auxílio Brasil, com valor estipulado em R$ 400 sem nenhum tipo de critério ou embasamento técnico, o custo do programa passou a cerca de 1% do PIB, sem que houvesse ganho correspondente na eficácia. Eis uma das razões para a ruptura do teto de gastos no Orçamento deste ano.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade: Consolo na Praia

 

Música | Joyce Cândido: Feitio de Oração (Noel Rosa e Vadico)