sábado, 6 de janeiro de 2024

Pablo Ortellado - Chamando as coisas pelo nome

O Globo

Lembrar o 8 de janeiro é especialmente importante diante do revisionismo torpe

Na próxima segunda-feira comemoraremos o primeiro aniversário dos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. A data precisa entrar no calendário cívico brasileiro, como parte de nossa memória democrática, da mesma maneira como nos lembramos com pesar do 31 de março de 1964.

Lembrar o 8 de janeiro é especialmente importante diante do revisionismo torpe que quer fazer parecer que houve apenas uma manifestação pacífica de cidadãos, sem liderança e sem armas. De acordo com essa leitura mentirosa, o vandalismo foi cometido por petistas infiltrados, estimulados pela negligência das forças de segurança.

Miguel Reale Júnior* - Democracia e diversidade

O Estado de S. Paulo

Infantaria do 8/1 foi composta por pessoas simples, movidas por temas de costumes que se misturavam ao medo inoculado do ‘comunismo identitarista’

Dia de sol em Brasília, Lula da Silva subia a rampa do Palácio do Planalto junto a representantes da multiplicidade de nossa população, como o cacique Raoni Metuktire, o menino preto e a catadora de papéis, sendo difícil prever, nessa festa da democracia, que o palácio seria invadido por horda fantasiada com as cores da Pátria.

Causa tristeza relembrar o vandalismo destruidor das sedes dos Três Poderes, mas é revigorante saber ter sido a oportunidade de reafirmação do Estado de Direito. Oito de janeiro é a data da resiliência democrática.

Como se deram os fatos? Houve autores intelectuais, financiadores, instigadores e executores, ou seja, pessoas por detrás dos acontecimentos, e milhares na linha de frente, muitos seduzidas pelo discurso de ódio, o que não os desculpam em nada. A cada categoria foi instaurado um inquérito.

Dora Kramer - Para não esquecer

Folha de S. Paulo

O 8/1 deveria entrar no calendário como dia de unidade em defesa da legalidade

O ato de segunda-feira em Brasília marcará o primeiro ano desde o infamante ataque às instituições do regime democrático. É importante que esse 8 de janeiro de 2024 não se perca na história, que se repita ao longo do tempo e o acontecido de 2023 se eternize na memória da nação.

É preciso que o levante contra a sede dos três Poderes da República se torne inesquecível nas mentes dos brasileiros sejam quais forem suas tendências políticas, afetivas, religiosas ou em que estágio de exacerbação emocional estejam.

O que houve ali atinge a todos. É indispensável, por isso, que a compreensão desse todo alcance primordialmente autoridades responsáveis pelo bom andamento dos trabalhos da República. Tanto as ligadas ao governo como as de oposição.

Ricardo Rangel - Alexandre é otimista demais

Revista Veja

Em sua imperdível entrevista, o ministro do STF se esquece de Thomas Jefferson

Mais completo e minucioso relato feito até agora sobre a intentona bolsonarista de janeiro passado, a entrevista do ministro Alexandre de Moraes, do STF, a VEJA é absolutamente imperdível.

O único senão é a “nota 10” que o ministro dá ao grau de estabilidade política no Brasil hoje. É natural que Alexandre dê nota tão alta: é seu papel pôr a bola no chão, tranquilizar o público e não botar azeitona da empada do golpismo.

Mas a nota 10 é excessivamente otimista.

A contamização golpista em vastos setores do eleitorado, das Forças Armadas, da Polícia Rodoviária Federal, das Polícias Militares e do Congresso Nacional não mudou. E o problema das redes sociais, instrumentalizadas pelo bolsonarismo para disseminar fake news e estimular o ódio e a sedição, está longe de estar equacionado.

Luiz Gonzaga Belluzzo* - De boas intenções…

CartaCapital

O ano mal começou e somos obrigados a ouvir o sermão contra os governos “gastadores”

Já nas saudades do Natal e do Réveillon, em 2 de janeiro, a Folha de S.Paulo brindou seus leitores com uma manchete de primeira página: “Dívida global bate recorde e cria trava para Brasil baixar juros e crescer mais”. A matéria do jornalista Fernando Canzian apresenta os dados coletados e elaborados pelo Institute of International Finance (reproduzidos nestas páginas).

No livro Dinheiro – O Poder da ­Abstração Real cuidei do trabalho de ­Richard Duncan The New Depression: The ­Breakdown of the Paper Money ­Economy. Nessa obra, Duncan examina as tendências e mudanças no endividamento dos setores da economia norte-americana entre 1945 e 2007. O autor assinala que, nesse período, nos Estados Unidos, a participação relativa dos setores – governo, empresas, famílias – no endividamento mudou radicalmente. Em 2007, a dívida pública caiu para 10% da dívida total. Um declínio expressivo, mas não surpreendente. A dívida pública abandonou os píncaros alcançados durante o esforço de guerra e declinou naqueles de prosperidade que acompanharam os 30 Anos Gloriosos. Não houve mudança na participação do endividamento do setor corporativo. Permaneceu inalterado em 13%. Os desenvolvimentos notáveis e críticos vieram no setor de famílias e no setor financeiro.

Poesia | A Felicidade - Vinicius de Moraes com narração de Mundo dos Poemas

 

Música | BEIJA-FLOR Carnaval 2024 - Samba Enredo

 

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Crise financeira dos municípios exige controle de gastos

O Globo

Qualquer nova ajuda federal precisará estar condicionada à adoção de regras que favoreçam equilíbrio no caixa

As prefeituras fecharam o ano de 2023 com déficit estimado em R$ 4,7 bilhões, de acordo com estimativa de técnicos da Frente Nacional de Prefeitos noticiada pelo GLOBO. Entre janeiro e outubro, o déficit foi de R$ 2,3 bilhões, e o último bimestre concentra pagamentos vultosos e o décimo terceiro salário do funcionalismo. Pelos números do Banco Central, os municípios acumularam R$ 10,9 bilhões no vermelho nos 12 meses encerrados em outubro.

As prefeituras atribuem a deterioração nas contas à queda na arrecadação do ICMS depois que o Congresso aprovou reduções nas alíquotas para combustíveis e energia antes das eleições de 2022. Mas em junho o Supremo Tribunal Federal mediou um acordo para a União compensar estados e municípios em R$ 27,5 bilhões pelas perdas. De acordo com a Confederação Nacional dos Municípios (CNM), as medidas de compensação — que também incluem a recomposição do Fundo de Participação dos Municípios — poderão alcançar R$ 14 bilhões em 2023.

Entrevista | Carlos Melo: ‘A tentativa de golpe acabou sendo um grande tiro no pé’

Cientista político ressalta atuação dos três Poderes e da comunidade internacional na resposta à intentona bolsonarista

Por Lucas Ferraz / Valor Econômico

A seguir os principais pontos da entrevista de Carlos Melo ao Valor:

Valor: Como o senhor vê o Brasil um ano depois do 8 de Janeiro?

Carlos Melo: Com certo alívio. Poderia ser muito pior. O 8 de Janeiro não deu certo, houve uma tentativa de golpe e escapamos. Um ano depois, poderíamos estar em situação muito complicada. De alguma forma, o país conseguiu sair com sabedoria desse processo. Quero destacar a inteligência do presidente Lula, porque parecia tudo uma cilada. Qual cilada? Ele chamar uma operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) para colocar o Exército na rua e perder o controle. Soubemos depois que, se não era o Alto Comando ou o Exército institucionalmente, havia muitos oficiais, coronéis, majores, generais, muitos generais da reserva, todo mundo envolvido. Havia setores das PMs. Então poderia ser muito ruim. Houve certa sagacidade do presidente de não cair nisso e fazer uma intervenção civil conduzida pelo Ministério da Justiça, por meio do Ricardo Cappelli, que foi uma figura importante. Ele teve postura e autoridade. Poderíamos estar nesse momento numa quadra histórica complicada, de perigo para os civis e com a democracia em perigo. Eles tentaram o que tentariam em algum momento, se não fosse o 8 de janeiro, seria 15 de janeiro, 16 de fevereiro, sei lá. Algumas instituições agiram, como o STF. Algumas porque a Procuradoria-Geral da República (PGR) se omitiu.

Valor: O termo “golpe” é questionado pelos bolsonaristas. Do ponto de vista da ciência política, que elementos temos para dizer que houve uma tentativa de golpe?

Melo: Um motivo simples: você ocuparia o centro do poder em Brasília, a Praça dos Três Poderes. E aí o recurso às Forças Armadas, por meio da GLO, poderia se voltar contra o presidente eleito. Não foi um golpe porque não aconteceu, mas houve uma tentativa. Há elementos clássicos, como o virtual envolvimento das Forças Armadas. Parecia haver um roteiro para que isso ocorresse, para que setores das Forças Armadas se mobilizassem ou se amotinassem.

Entrevista | Maria Hermínia Tavares de Almeida: ‘Líderes estiveram à altura e foram fiéis à Constituição’

Para professora da USP, mimos de Bolsonaro à Forças Armadas não se traduziram em apoio à ruptura institucional

Por Lucas Ferraz / Valor Econômico

A seguir os principais pontos da entrevista de Maria Hermínia Tavares de Almeida ao Valor:

Valor: Como a senhora vê o Brasil um ano depois do 8 de Janeiro?

Maria Hermínia Tavares de Almeida: O tumulto de 8 de Janeiro foi parte de uma tentativa de golpe tabajara. O ex-presidente Jair Bolsonaro, durante meses, tratou de desacreditar as instituições eleitorais. Perdidas as eleições, incentivou os acampamentos de seguidores fanáticos, na frente dos quartéis, pedindo intervenção militar. Tendo adulado militares e PMs durante todo o mandato, parece claro que o ex-presidente, lá de Miami, imaginava que uma arruaça de grandes proporções pudesse fazer com que as Forças Armadas finalmente comparecessem para impor a ordem e, consequentemente, impedir de alguma forma o governo Lula. Deu errado.

Valor: É possível arriscar um lugar para o 8 de Janeiro na história política brasileira?

Vera Magalhães - Uma extrema direita que vive do caos

O Globo

Grupos como o MBL só vicejam na confusão; sem um presidente que dá ao público doses diárias de tumulto, as opções vão escasseando

A revelação feita pelo ministro Alexandre de Moraes da existência de exortações, em grupos bolsonaristas, a seu assassinato mostra o grau de doutrinação extremista a que foram submetidos os seguidores do ex-presidente mais predispostos à radicalização.

Um ano depois da explosão de insanidade golpista de 8 de janeiro de 2023, com mais de 30 condenados e outros tantos em julgamento, o que restou a essa extrema direita órfã de seu líder máximo, mas ainda viciada em estímulos ao ódio à esquerda? Factoides como a ideia de fazer uma CPI para investigar um religioso que dedica a vida a cuidar dos mais pobres.

Difícil imaginar a instalação de uma forca em plena Praça dos Três Poderes, onde seria executado o presidente da Corte eleitoral. Mas a veiculação dessa ideia desarrazoada em grupos fechados de mensagens e no submundo das redes sociais tem a função justamente de destravar os instintos mais primitivos de uma turba alimentada a discurso de ódio em doses diárias ao menos desde 2017, quando o bolsonarismo surgiu mais claramente como movimento antipolítica em plataformas como o Facebook.

José de Souza Martins* - Fragilidade do marco temporal

Valor Econômico

Nas culturas indígenas, o território é um instrumento da vida, não um mero instrumento de enriquecimento

O marco temporal é a limitação de durabilidade de direito que o Brasil oficial e branco decidiu sobrepor ao direito originário dos nossos indígenas às terras de vários modos reconhecidas como suas desde o período colonial. Aprovado, a maior parte de seus artigos foi vetada pelo presidente da República. Mas o veto foi derrubado pelo Congresso.

Um defensor desse marco argumenta que sem ele 15% do território nacional seria entregue a 1 milhão de indígenas, enquanto 85% caberiam a 206 milhões de brasileiros. Ou seja, uma suposta injustiça. O argumento é descabido: a imensa maioria desses 206 milhões não indígenas não tem acesso à terra nem o terá porque o mercado os exclui da possibilidade de tê-la. São 5 milhões os estabelecimentos agrícolas. Quando muito, uns 25 milhões de pessoas são deles proprietárias. Terra é aqui instrumento de injustiça social, não de injustiça tribal.

Bernardo Mello Franco – Um palanque contra o padre

O Globo

Perseguição a religioso combina discurso de ódio, uso de fake news e ataque a direitos humanos

Em outubro de 2020, o Papa Francisco ligou para um padre brasileiro que sofria ameaças. No dia seguinte, o pontífice disse ter conversado com um “mensageiro de Deus”. Falava de Júlio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo da Rua de São Paulo.

O padre é conhecido pelo trabalho em defesa dos excluídos. Dedica-se a trabalhadores sem-teto, menores abandonados, dependentes químicos. Gente que vive na miséria na cidade mais rica do país.

Além de distribuir donativos, Lancellotti denuncia abusos e humilhações praticadas por agentes do Estado. Por isso tornou-se alvo de campanhas difamatórias. A mais recente é liderada pelo vereador Rubinho Nunes, do União Brasil.

Flávia Oliveira - Sacudindo a cidade

O Globo

Quinho foi uma estrela do carnaval do Rio, da cultura do Brasil

A última vez que vi Quinho foi em 14 de janeiro de 2023. Ele foi um dos homenageados com uma estrela na Calçada da Fama do Baródromo, o bar temático dedicado ao carnaval das escolas de samba do Rio de Janeiro. Já emagrecido pela doença, o ídolo do Salgueiro — e de todos que amamos a festa — apareceu vestido de branco, com o inconfundível suspensório e gravata vermelhos, chapéu Panamá. Cantou um punhado de sambas com Paulinho Bandolim e músicos. Ao fim, emocionado, agradeceu à fonoaudióloga, também presente, pelos exercícios que lhe permitiram soltar a voz, mesmo debilitado. Foi tão bonito de ver.

Fernando Gabeira - O ano de pensar as cidades

O Estado de S. Paulo

Vivemos majoritariamente nas cidades, e é nelas que as tragédias climáticas mais nos castigam no momento

Com tantas eleições importantes, o ano de 2024 não será simples. A começar pelos Estados Unidos, onde Donald Trump pode vencer as eleições, e a promessa chinesa de fortalecer a estratégia de anexar Taiwan.

No Oriente Médio talvez a guerra não fosse tão influenciada por uma virada nos EUA. Mas tudo indica que importantes mudanças virão. Benjamin Netanyahu já foi derrotado em sua lei que controlava a Justiça e pode ser alvo de uma comissão ainda neste ano. A tradição em Israel é a de constituir rigorosas comissões para apurar falhas de segurança, e a do 7 de outubro foi gigantesca.

A própria guerra dificilmente vai durar o ano inteiro. Há sinais de cansaço. Um jornal de Israel anunciou que a presença em Gaza vai custar em torno de US$ 20 bilhões nos próximos meses. Parte da tropa começa a ser retirada, principalmente porque não há mais o que destruir na infraestrutura do Hamas e na própria Faixa de Gaza.

Eliane Cantanhêde - Haddad, sobrevivente ou austericida?

O Estado de S. Paulo

Haddad X Gleisi: visão econômica, conveniência eleitoral e disputa por 2030

Fernando Haddad, o sobrevivente, vai evoluindo para Fernando Haddad, o “austericida”, confirmando a avaliação de um assessor próximo, que vive o dia a dia do Ministério da Fazenda: “Centrão? Que nada! Duro mesmo é conversar com o PT e a Gleisi Hoffmann”. O embate fratricida tem três frentes: a visão econômica, a conveniência eleitoral e a disputa pelo coração do presidente Lula e pela indicação para a eleição presidencial de 2030.

O PT e Gleisi, que foi chefe da Casa Civil de Dilma Rousseff, têm visão econômica mais para Dilma do que para Lula 1 e 2.

Haddad evoluiu para mais pragmatismo e respeito aos indicadores macroeconômicos e à responsabilidade fiscal como fatores fundamentais para o crescimento do País e também para a justiça social. O embate vem desde o início de 2023, passando pela desoneração dos combustíveis, âncora fiscal e agora o déficit zero, além da tática de combate aos juros estratosféricos.

Bruno Boghossian – As elites do golpe

Folha de S. Paulo

Tabelinha entre Bolsonaro e seus generais contra as urnas teve influência direta sobre atos golpistas

Trinta invasores do 8 de janeiro foram condenados pelo STF. Cerca de 150 acusados pelos ataques esperam julgamento. Um único homem foi denunciado pelo financiamento dos atos. E nenhum integrante das elites políticas e militares que instigaram uma insurreição foi incomodado até aqui.

Um ano depois, os processos das ações golpistas estão praticamente restritos àquele domingo. O personagem mais graduado a receber uma punição foi o ex-ministro Anderson Torres —preso pela omissão como secretário de Segurança no dia 8, não pelo envolvimento nos ataques às urnas ou pela elaboração da célebre minuta do golpe.

Vinicius Torres Freire - Trump, Milei, prefeitos e o Brasil

Folha de S. Paulo

Eleições nos EUA e outras, o destino de Milei e disputa municipal podem mudar ventos políticos

Este 2024 deve ser de economia morna no Brasil e no mundo e de política quente por muita parte.

Donald Trump pode voltar a ser presidente dos EUA, caso não seja impedido de se candidatar, o que também seria muito relevante.

Cada vez mais mussoliniano ou, melhor, mais putiniano, é mais capaz e decidido de manipular o "sistema" e derrotar o "deep state" que, diz, o impediu de restaurar a grandeza americana. A eleição vai ferver o ano inteiro, dado o rolo judicial; as primárias começam em janeiro.

No que diz respeito aos interesses do público brasileiro, a escolha do presidente americano deve ser a mais chamativa. Deve ser uma definição que pode mudar a direção dos ventos e percepções também das elites políticas brasileiras.

Hélio Schwartsman - Gula obscena

Folha de S. Paulo

Aumento das verbas destinadas ao fundo eleitoral deste ano contraria interesse público

É meio escandalosa a decisão do Parlamento de reservar R$ 4,9 bilhões do Orçamento para o fundo eleitoral destinado aos partidos no pleito deste ano. Nas eleições municipais de 2020, a verba foi de R$ 2 bilhões. E vale recordar que isso é só parte da conta. As milionárias despesas com o horário de rádio e TV, por exemplo, são pagas por meio de abatimento nos impostos das empresas de telecomunicações.

Ruy Castro - Tu focas, eu não foco

Folha de S. Paulo

'É o verbo mais feio da língua', diz um leitor; mas as pessoas continuam focando dia e noite

Numa coluna recente ("Simples assim", 28/12), sobre palavras e expressões que nos têm infernizado, citei o verbo focar. Sei que, neste quesito, estou em total minoria ---as pessoas gostam dele e focam com a maior naturalidade. Foi-se o tempo em que se usava enfocar, focalizar ou pôr em foco. Hoje foca-se dia e noite sobre qualquer assunto. Daí que, para minha surpresa, um leitor me escreveu para concordar e, talvez radicalizando, decretou: "É o verbo mais feio da língua". E, para provar seu ponto, mandou-me o verbo conjugado nos mais diferentes tempos e modos. Eis alguns.

Poesia | Poemeto irônico - Manuel Bandeira

 

Música | MOCIDADE Carnaval 2024 - Samba Enredo

 

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Combate ao crime exige respeito à evidência empírica

O Globo

É lamentável desprezo às câmaras em fardas e louvável iniciativa que reverteu a proliferação de armas

No combate à violência, governos não deveriam abrir mão de políticas públicas de sucesso comprovado. É o caso das câmeras acopladas a uniformes de policiais, estratégia usada com bons resultados no exterior e em pelo menos oito estados brasileiros. Não só para reduzir as mortes causadas pela polícia, mas também para proteger os próprios agentes de acusações infundadas, dando mais transparência às ações contra o crime.

Infelizmente o governador paulista, Tarcísio de Freitas (Republicanos), tem desprezado os avanços do programa implantado em gestões anteriores. Afirmou que não investirá em novas câmaras nas fardas, sob a alegação de que não oferecem segurança ao cidadão. Ora, os números mostram que, entre 2019 e 2022, seu uso contribuiu para reduzir em 76,2% os civis mortos em operações policiais (nos quartéis onde não eram usadas, a queda foi de 33,3%). Diversas pesquisas científicas corroboram a eficácia da política.

A incoerência fica maior quando se observam os números atuais. No ano passado, primeiro do governo Tarcísio, os civis mortos por PMs em serviço aumentaram 34%, para 333, de acordo com levantamento do portal g1 com base nos dados do Ministério Público. No ano anterior, haviam sido 248, patamar mais baixo já registrado.

Merval Pereira - Pós-Lula

O Globo

Vivemos o que parece ser o epílogo do presidencialismo de coalizão — tal como cunhado pelo cientista político Sergio Abranches—, que perdeu a eficácia e a funcionalidade

Se o Congresso levar adiante a ameaça de derrubar o veto do presidente Lula ao calendário de liberação de emendas parlamentares, estará dado o passo, talvez definitivo, para a ruptura institucional que se vislumbra há algum tempo no tenso relacionamento entre Executivo e Legislativo. As emendas, que serviram como instrumento do Executivo para controlar os acordos no Congresso, mormente no primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, agora tornam-se a arma do Legislativo para retirar de seu antigo controlador o poder que lhe resta de ditar os rumos do governo, até administrativos.

Seria uma decisão claramente inconstitucional, que impediria o Executivo de gerenciar o Orçamento no que é possível ainda controlar, já que as emendas hoje são impositivas e o pagamento seria compulsório de acordo com os interesses dos parlamentares, e não os da administração pública. Se o impasse for rompido por uma negociação que mantenha o veto, mas garanta a liberação da verba ainda no primeiro semestre, como querem os parlamentares, teremos superado um obstáculo, mas nada indica que estará superada a crise de relacionamento, pois os parlamentares querem ter controle sobre o próprio orçamento, que não necessariamente corresponde ao projeto político do governo em exercício.

Míriam Leitão - O intenso debate do clima no Brasil

O Globo

Negociador-chefe do ambiente, embaixador André Corrêa do Lago, avalia que este ano o país deve fazer um grande debate nacional sobre os desafios que enfrentará na questão climática

O embaixador André Corrêa do Lago, negociador-chefe de clima e meio ambiente do Brasil, acha que 2024 é fundamental para o debate interno brasileiro na área ambiental. Ele alerta que para a agricultura brasileira o “ponto de não retorno” da Amazônia será uma tragédia. Por outro lado, diz que a delegação brasileira que vai às COPs é sobretudo da sociedade civil, do setor privado, dos estados e municípios. “A mudança do clima no Brasil está realmente integrada no debate nacional e isso faz do Brasil um país contemporâneo.”

Eu o entrevistei ontem na GloboNews para falar das três COPs, a que acabou em Dubai, a deste ano no Azerbaijão, e a que ocorrerá em Belém, em 2025. Secretário de Clima, Energia e Meio Ambiente do Ministério das Relações Exteriores, ele está de volta ao posto de negociador que exerceu por muito tempo e explica a maneira como o Brasil foi recebido no retorno às negociações do clima.

Simon Johnson e Daron Acemoglu* - Offshore sujo ameaça a democracia

Valor Econômico

Restrição a paraísos fiscais e cobrança mais por transparência nos fluxos financeiros transnacionais deve ser uma prioridade política do G7 em 2024

As democracias em todo o mundo enfrentam duas grandes ameaças: uma crise de legitimidade e regimes autoritários cada vez mais agressivos. O que liga ambos e os tornam muito mais perigosos é o pernicioso efeito das transferências de dinheiro sujo, especialmente aquelas que circulam por meio de paraísos fiscais offshore e jurisdições com excessivo sigilo financeiro. Restringir estes paraísos fiscais e exigir mais transparência nos fluxos financeiros transfronteiriços deveria ser uma grande prioridade política para todos os países do G7 em 2024.

A ameaça interna à democracia é uma erosão da legitimidade. Nas economias industriais, como EUA e Europa, as novas tecnologias, o aumento dos fluxos de capitais transfronteiriços e a redução das barreiras ao comércio aumentaram a produtividade média e criaram o crescimento econômico ao longo do último meio século, mas os benefícios desse crescimento não foram amplamente compartilhados. A desigualdade nesses países aumentou drasticamente desde meados da década de 1970, com milhões de pessoas sentindo-se agora deixadas para trás.

O apoio à democracia está sendo minado pela crença de que o jogo econômico é “manipulado”, com as pessoas que já são poderosas e privilegiadas ganhando mais - por vezes às custas do resto. Embora essa crença possa ser exagerada, está de acordo com a realidade da evasão fiscal.

Assis Moreira* - Um Brasil mais leve para a concorrência global

Valor Econômico

Brasil precisa ficar mais ágil na corrida com os outros países nesse universo da neoindustrialização e incertezas geopolíticas

Após deixar em março a presidência do Novo Banco do Desenvolvimento (NDB), o Banco do Brics, para dar lugar à Dilma Rousseff, Marcos Troyjo passou a lecionar na Universidade de Oxford, na cátedra antes ocupada por Iván Duque, ex-presidente da Colômbia, e também no Insead (França). Nesse período, ele visitou 18 países em contatos com autoridades, investidores e acadêmicos, e os questionamentos sobre o Brasil foram inevitáveis.

Para Troyjo, a convergência de crises atualizou a noção de policrise, com a pandemia mais grave que o mundo experimentou desde a gripe espanhola, depois a situação geopolítica mais delicada na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, com a invasão da Ucrânia pela Rússia, e uma economia mundial que ainda não se recuperou na esteira de frouxidão fiscal e monetária que levou o centro macroeconômico mundial a fortes turbulências inflacionárias.

Maria Clara R. M. do Prado - O valor agregado nas exportações

Valor Econômico

Defesa de maior participação de produtos industrializados na pauta de exportações volta a ganhar espaço, mas Brasil parece fadado a ser especializado no setor primário

De acordo com as últimas estimativas do governo, a balança comercial brasileira fechou o ano passado com saldo positivo de US$ 95,96 bilhões, um recorde que ultrapassou todos os prognósticos. O resultado, que se deveu à queda da ordem de 11,3% nas importações (devido a preço), representou incremento de 59,1% sobre o superávit comercial de US$ 61,525 bilhões em 2022 e reforça a zona de conforto nas contas externas do país.

Ao contrário do que se dizia, a redução da taxa de crescimento da China não tem afetado negativamente o comportamento da balança comercial brasileira. Ainda é cedo para se prever o futuro tendo em vista as incertezas a respeito do rumo que tomará o comércio internacional, se será mais ou menos intervencionista ou se tenderá para os acordos bilaterais ao invés dos regionais. Nem mesmo se sabe se será possível salvar a Organização Mundial do Comércio (OMC) da estagnação na qual mergulhou nos últimos anos.

William Waack - Em busca de contrapeso

O Estado de S. Paulo

Na queda de braço com o Congresso o governo espera ajuda do Judiciário

A decisão política de Lula de enfrentar o Congresso via vetos revela um componente abrangente. Parece que ele não entendeu que preside um governo de minoria.

A falta de uma maioria no Legislativo – algo que o presidente reconhece em público – não explica, sozinha, a questão. Nesse sentido, aliás, o Brasil apenas repete a experiência recente de vários países na América do Sul, não importa o campo ideológico do chefe do Executivo.

É gritantemente óbvio que a falta de votos no Congresso, somada ao inédito avanço do poder do Legislativo sobre o Executivo, cria imensas complicações políticas. Agravadas pelo fato de que o governo não dispõe de decisivo apoio político e/ou social quando Lula fala de raposas tomando conta do galinheiro.

Felipe Salto* - A privatização do Orçamento público

O Estado de S. Paulo

A falta de planejamento, que já se pode classificar como um problema antigo do País, combina-se agora com o uso descarado dos espaços fiscais pelo Legislativo

Sob uma ótica relativamente moderna, o processo orçamentário deve orientar-se por resultados, e não pela disputa por recursos e carimbos. Contudo, a ausência de planejamento tem levado à privatização do Orçamento público, guiada por interesses cada vez menos associados ao desenvolvimento econômico integrado da Nação. Nem os programas orçamentários são avaliados e melhorados nem o espaço discricionário é usado adequadamente.

Uma análise da proposta orçamentária da União para 2024 pode ser útil. A Lei Orçamentária Anual ainda não havia sido sancionada até o envio desta coluna para os editores. Por isso, trabalho com as informações do relatório exarado pela Comissão Mista de Orçamento do Congresso.

Roberto Macedo* - Problema das emendas parlamentares se agravou

O Estado de S. Paulo

Valor de emendas tem aumentado muito, equivalendo no Orçamento de 2024 aos recursos destinados ao PAC

Mas por que constituem um problema e qual a natureza desse agravamento? O principal problema é de natureza política. Já fui candidato a deputado federal e aprendi que o voto de opinião sobre um candidato é prejudicado pela existência de muitos deles. Quando isso ocorre é difícil escolher, e em economia houve quem ponderou e chamou essa situação de “quando mais é menos”. A pessoa faz a escolha e fica insegura quanto à conveniência dela. O ideal seria o voto distrital, em que em cada distrito haveria, se tanto, meia dúzia de candidatos viáveis nas eleições para o Legislativo, e não centenas deles, como ocorre hoje. O debate entre eles contribuiria para esclarecer suas qualidades.

Aprendi também que os prefeitos e vereadores municipais têm grande influência nos resultados das eleições estaduais e federais, dada a sua relação com os eleitores locais, em torno dos quais passam a atuar como cabos eleitorais. Certa vez, conversando sobre minha candidatura com o ex-governador de São Paulo Mário Covas, ele disse que “iria me arranjar uns prefeitos”, mas faleceu logo depois.

Celso Ming - 2024 e o que está por vir

O Estado de S. Paulo

No último domingo, esta Coluna observou como as projeções econômicas feitas no início de 2023 para todo o ano deram errado. As apostas de analistas e consultores ficaram longe do alvo. Como a dinâmica dos fatos nem sempre coincide com as previsões dos entendidos, é melhor não se apegar a números frios, mas tentar avaliar as tendências. Então, vamos lá.

Na área externa, a balança comercial tem tudo para continuar a dar show, especialmente pelo forte superávit da balança comercial (exportações menos importações) continuará alavancada pelo aumento das exportações de petróleo e de grãos, a despeito dos estragos de safras agrícolas que poderão ser provocadas pelo fenômeno El Niño.

Vinicius Torres Freire - Milei quer revolução por decreto

Folha de S. Paulo

Presidente quer aprovação integral de pacote porque recebeu mandato das urnas

Por alguns meses, discutiu-se qual seria o plano econômico de Javier Milei para a Argentina. No limite, um grande problema de seu programa seriam enormidades tais como acabar com o Banco Central e a dolarização.

Milei ainda diz que esses dois objetivos são o ponto final de sua administração. Mas isso que pareciam duas reviravoltas terminais parecem mais abstrações perdidas na névoa do futuro. A revolução de Milei é agora.

Não há ainda ou propriamente um plano econômico, nem mesmo um projeto de dar cabo do déficit do governo, um objetivo central.

Existe é um plano de virar o país do avesso de tal modo que essa Argentina refeita quase por decreto terá estabilidade de preços, ganhos de produtividade e crescimento duradouro.

Não há plano de implementação progressiva, articulado com a sociedade, metas, mudanças institucionais que fundamentem o próximo passo, nada disso. A ideia é explodir esta Argentina de fato decrépita e esperar que, quando os seus pedaços voltarem ao chão, todos se encaixem, de modo novo e funcional.

Conrado Hübner Mendes* - Tarcísio quer ver pobre morrer mais

Folha de S. Paulo

Câmeras corporais aumentam segurança e atrapalham corrupção institucional

"Qual a efetividade da câmera corporal na segurança do cidadão? Nenhuma."

Tarcísio de Freitas não é burro, nem cínico, nem charlatão. É apenas mais um governador paulista, com dinheiro no banco, em tom tecnocrático, resumindo a política de segurança pública brasileira: matar pobres, preferencialmente pretos. E crianças por bala "perdida", código para irresponsabilização do Estado gravado com sangue na cartilha retórica da polícia.

Enquanto outros governadores falavam "quem não reagiu está vivo" e "a polícia vai atirar para matar", Tarcísio adota o idioma da efetividade. Só faltou revelar para qual fim. Câmeras corporais instaladas em uniformes policiais dificultam o projeto histórico de "efetividade" da letalidade.

Bruno Boghossian - O primeiro teste da segurança

Folha de S. Paulo

Balanço com possível redução no número de mortes ajudaria a desmontar mitos, mas números ainda devem dizer pouco

Pouco antes de mudar de emprego, Flávio Dino fez uma promessa. Na sabatina para a vaga no STF, ainda em dezembro, o ministro se referiu a dados preliminares e anunciou que o país terminaria 2023 com uma queda nas mortes violentas intencionais. "Com a graça de Deus, neste ano nós vamos ter redução", disse.

Animado com os números coletados nos últimos meses, o governo resolveu mergulhar de cabeça no debate da segurança pública. O tema, antes tratado com uma dose cavalar de hesitação no entorno de Lula, virou prioridade no Ministério da Justiça e foi o foco do primeiro vídeo de propaganda divulgado pelo Palácio do Planalto em 2024.

Maria Hermínia Tavares* - Onde mora o perigo

Folha de S. Paulo

A polarização é obra de lideranças e sua sobrevida e intensidade dependerão muito do incerto futuro de Bolsonaro e da disposição da direita de buscar rotas mais civilizadas

A polarização política inquieta todos quantos aspiram a uma democracia sólida e estável para o país. A lembrança da invasão da Praça do Três Poderes pelas hordas bolsonaristas, a completar um ano na segunda-feira que vem, serve de alerta para os riscos de novas sortidas da direita radical. Contorná-los requer clareza sobre os perigos da divisão dos brasileiros entre "nós" e "eles".

Recomendo, por oportuno antes de tudo, o último episódio de 2023 do podcast "Fora da política não há salvação", no qual o cientista político Claudio Couto (FGV-SP) entrevista seu colega Antonio Lavareda (Ipesp), reconhecido estudioso da opinião pública. Retomo aqui algo daquela proveitosa conversa.

Ruy Castro - O pior dos três mundos


Folha de S. Paulo

O Brasil teve Jânio, Collor e Bolsonaro, um de cada vez. Com Milei, a Argentina pode ter os três de uma vez

Por acaso em Buenos Aires na semana das eleições na Argentina, tive vários déjà-vus diante da vitória de Javier Milei. Por mais que seu adversário Sergio Massa fosse um desastre, era óbvio que, ao votar em Milei, os argentinos não sabiam o que estavam fazendo. Nós sabemos. Do seu tipo de político, já tivemos no Brasil três devastadoras amostras: Jânio Quadros (1961), Fernando Collor (1990) e Jair Bolsonaro (2019).

Assim como estes, Milei se promove como um antipolítico, caído do céu para fazer uma faxina. Cada qual com seu gimmick: Jânio tinha uma vassoura como símbolo, Collor disparava contra os "marajás" e Bolsonaro se fazia de vestal. Milei se exibe com uma motosserra. E cada qual tinha um estilo da comunicação: Janio falava pelos "bilhetinhos", Collor, pela televisão, e Bolsonaro, pelas redes sociais. Talvez Milei use seu falecido cachorro como boneco de ventríloquo.

Poesia | A esperança - Fernando Pessoa

 

Música | Samba-enredo do Império da Tijuca para o Carnaval 2024