domingo, 24 de março de 2024

Hélio Schwartsman - Olhe de novo

Folha de S. Paulo

Livro destrincha os efeitos psicológicos da habituação e defende que aprendamos a nos desabituar

A Lava Jato não passa de uma criação da CIA. Essa asserção e variantes são demonstravelmente falsas, mas petistas as repetem tão amiúde que já há quem as tome por verdadeiras. O nome do fenômeno é "efeito da verdade ilusória", que pode ser definido como a tendência de acreditar que informações falsas estão corretas após exposição repetida. Incrivelmente, funciona.

"Look Again" (olhe de novo), de Tali Sharot e Cass Sunstein, explica essa e outras facetas da habituação, um dos mais fascinantes atributos da psique humana. Tecnicamente, a habituação é uma forma de aprendizado, caracterizada pela diminuição da intensidade com que respondemos a um estímulo à medida que a exposição se prolonga. A habituação é uma bênção e uma maldição.

José Paulo Cavalcanti Filho* - Camões, 500 anos

Revista Será?

Luís Vaz de Camões veio da pequena nobreza – assim se dizia, na época, dos nobres sem casas nem títulos em Portugal. Desde jovem, passava dias e noites pelas ruas entre pedintes, arruaceiros, prostitutas, desvalidos. Ou nas tabernas. E escrevendo versos, quando possível, às vezes em troca de gorjeta. Ou comida. 

Era conhecido, pelas incontáveis rixas em que se metia, como Trinca-Fortes. Em uma delas, na noite da procissão de Corpus-Christi, golpeou com espada o pescoço de Gonçalo Borges, cárrego (responsável) dos arreios do rei. Acabou preso no tronco. Libertado por Carta Régia de Perdão, em 7 de março de 1553, teve que pagar quatro mil réis para caridade e foi obrigado a ir servir na Índia. Seria mudança definitiva, em sua vida. Um destino jamais sonhado por seus pais – Simão Vaz de Camões, capitão de nau; e Ana de Sá, dos Macedo de Santarém, doméstica.

Em torno dele, quase tudo é incerto. Sabe-se, dos serviços que prestou na armada portuguesa, que nasceu em Lisboa – ou Coimbra, ou Santarém, ou Alenquer. Talvez em 1523 ou, mais provavelmente, em 1524 (havendo ainda que sugira começos de 1525). Tendo a lei portuguesa 1540, de 02/02/1924, definido que teria sido em 05.02.1524, agora completando essa data 500 anos. Estudou em Coimbra, entre 1542 e 1545, com o tio dom Bento de Camões, prior do Convento de Santa Cruz. Até que voltou para Lisboa. Mas a carreira das armas, logo percebeu, era mesmo das poucas opções que lhe restavam. 

Poesia | Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, de Luís de Camões

 

Música | Elis Regina - O Mestre-Sala dos mares (João Bosco e Aldir Blanco)

 

sábado, 23 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Calamidade no saneamento perdura no Brasil

O Globo

Ao enfraquecer legislação, governo contribuiu para manter população em condição insalubre por mais tempo

É desolador o quadro traçado no último ranking sobre o saneamento nas cem maiores cidades brasileiras do Instituto Trata Brasil. No ritmo verificado pelo estudo — alta de 55,8% para 56% na coleta de esgoto e de 51,2% para 52,2% no tratamento —, a universalização levará décadas, com consequências nefastas para a população e para o meio ambiente. Diariamente, o equivalente a mais de 5,2 mil piscinas olímpicas de eflúvios sem tratamento é despejado na natureza. Das 20 cidades com pior classificação, 11 estão nesse grupo há dez anos.

Os 20 municípios mais bem colocados estão espalhados pelo Brasil. Maringá (PR) está em primeiro lugar. São Paulo, em sétimo, é a capital na melhor situação. Uberlândia, em quinto, é a melhor cidade em Minas Gerais, e Niterói, em sexto, no Rio. Em comum, essas cidades investiram e investem altos valores per capita em saneamento. Não existe outra alternativa para a insalubridade.

Carlos Góes - O fim do milagre chinês?

O Globo

Talvez você tenha lido alguma notícia sobre a crise migratória na fronteira dos Estados Unidos com o México. Mas eu duvido que o leitor consiga adivinhar a nacionalidade que teve mais crescimento no número de detenções migratórias: os chineses.

Ao fim de 2023, o número de imigrantes chineses detidos na fronteira era quase 600% maior do que no mesmo período do ano anterior. Mas como há um crescimento percentual tão forte no número de pessoas que estão saindo de um país que está a 11 mil quilômetros para imigrar por terra? Eu, que moro nesta fronteira, também me fiz essa pergunta.

Pablo Ortellado - Hipocrisia americana

O Globo

A esperança é que o Senado pare e reflita sobre os vários impactos da proibição do aplicativo nos Estados Unidos

Na semana passada, a Câmara dos Estados Unidos aprovou com folgada maioria um projeto de lei que obriga a empresa chinesa ByteDance a vender o TikTok ou a sair do mercado americano. O projeto ainda precisa da aprovação do Senado, mas a votação muito expressiva na Câmara, com raro apoio bipartidário, mostrou que a proposta tem boas chances de prosperar. Biden sinalizou que, uma vez aprovado o projeto, não o vetará. Se implementada, a medida consolidará uma perigosa dinâmica de balcanização do mercado de tecnologia, seguindo divisões geopolíticas.

O banimento do TikTok foi proposto por um deputado republicano sob a alegação de que a difusão de um aplicativo controlado por uma nação adversária dos Estados Unidos trazia riscos à segurança nacional. No debate, dois tipos de argumento se destacaram. O primeiro é que a ByteDance, por ser chinesa, responderia em última instância ao Partido Comunista da China e poderia, a qualquer momento, transferir dados de cidadãos americanos ao governo chinês. Além disso, alegou-se que o TikTok poderia alterar o algoritmo de apresentação dos vídeos na plataforma, manipulando o debate político nos Estados Unidos.

Eduardo Affonso - Um cálculo estrutural

O Globo

Bolsonaro seria fruto de uma engrenagem perversa, análoga àquela que gera machistas estruturais, racistas estruturais

Já não há mais qualquer dúvida (se é que algum dia houve) de que Jair Bolsonaro tenha tramado, costurado, alinhavado e arrematado um golpe — não consumado por motivos de incompetência (sem trocadilho) generalizada. Diante dos depoimentos prestados à Polícia Federal por ex-colaboradores e das provas encontradas em gavetas e celulares, não lhe será possível recorrer à tradição milenar de negar até o fim, contra todas as evidências. Nem reabilitar a tática que se popularizou há alguns anos e alegar que o golpe não era seu, mas de um amigo.

Carlos Alberto Sardenberg - Aniversários, de vida e de morte

O Globo

Judiciário não apenas abateu a operação de Curitiba, mas afastou do cenário todo o sistema de combate à corrupção

A Lava-Jato estaria completando dez anos se não tivesse sido abatida pelo Judiciário, incluindo, principalmente, o Supremo Tribunal Federal. Não apenas abateu a operação de Curitiba, mas afastou do cenário todo o sistema de combate à corrupção.

Formou-se uma ampla aliança de políticos dos velhos métodos, da direita à esquerda, com empresários, todos apanhados em corrupção, para interromper a Lava-Jato e, mais, eliminar seus efeitos. Condenações à prisão, multas, devolução de dinheiro, acordos de leniência, tudo isso vem sendo anulado. Ninguém foi absolvido. Simplesmente os processos foram anulados, com base no cipoal de formalidades da Justiça. Provas, mesmo evidentes, foram declaradas imprestáveis.

Esse pessoal, portanto, comemora uma morte.

Mas há quem lamente. São aqueles — entre os quais me incluo — que observam nesse retrocesso a volta da velha política e do capitalismo dos amigos. Nesse regime, prosperam não as empresas mais produtivas, mas as que pagam as maiores propinas.

Bolívar Lamounier* - Ainda a reforma política

O Estado de S. Paulo

Sem Plano Marshall, com imprestáveis partidos e nenhuma liderança comparável à de De Gaulle ou Mário Soares, entre nós o semipresidencialismo resultaria numa sesquipedal anarquia

Não expressarei desânimo, porque não é de meu feitio, mas cautelas e advertências sempre se fazem necessárias. Uma breve vista d’olhos sobre o atual cenário brasileiro permite discernir ao menos cinco riscos e entraves a meu juízo incontrovertíveis:

1) a chance de retomarmos o crescimento econômico com rapidez e em bases sustentáveis é muito menor que a acelerada subida do nível de conflitos na sociedade, perceptível, desde logo, pelo aumento da criminalidade e por aberrações como o recorde do feminicídio atingido em 2023;

2) incapaz de enxergar um palmo adiante do nariz, o Brasil não percebe que poderá despencar num buraco profundo dentro de 15 ou 20 anos; refiro-me, aqui, à “armadilha do baixo crescimento”;

3) para superar a mencionada armadilha, não basta aumentar o investimento e, além do mais, não conseguiremos fazê-lo na escala necessária;

4) isso posto, além de aumentar o investimento e a produtividade do trabalho, teremos de fazer, gostando ou não, reformas enérgicas na máquina do Estado, fortalecer o setor privado e aumentar, sem vacilação, o nível de abertura da economia ao exterior (comprar mais e vender mais);

5) além das reformas acima referidas, de caráter estrutural, teremos de reformar o sistema político, embora saibamos que a Constituição de 1988 bloqueou quase tudo o que poderíamos imaginar a esse respeito.

Oscar Vilhena Vieira* - Pessoa jurídica não tem cor

Folha de S. Paulo

STF contribui para reduzir a detecção de violações nas relações de trabalho

Em 1905, a Suprema Corte norte-americana declarou inconstitucional lei do estado de Nova York que estabelecia limites à jornada de trabalho nas panificadoras. Para a maioria dos juízes, a legislação consistia numa interferência inaceitável no "direito de livre contratação entre empregadores e empregados". Não caberia ao estado, mesmo sob o fundamento de proteger o bem-estar dos trabalhadores, interferir na autonomia da vontade dos contratantes. Coube ao grande juiz Oliver W. Holmes, pai do realismo jurídico, apontar que seus colegas estavam transformando suas opiniões sobre a economia em direito.

Alvaro Costa e Silva - PL passa com louvor na prova do golpe

Folha de S. Paulo

Chefe do partido milionário, Valdemar acusa deputados e Bolsonaro

Baseado nas informações de que a estrutura do PL foi utilizada para manter Bolsonaro no poder após a eleição de Lula, o Ministério Público de Contas junto ao TCU pediu a inclusão do partido como réu numa ação civil que solicita que os envolvidos em atos golpistas sejam condenados a pagar R$ 100 milhões. Para a maioria dos mortais, é uma fortuna. Para o grupo chefiado por Valdemar Costa Neto –que só de fundo para as eleições municipais tem à disposição R$ 863 milhões–, é troco.

O que se deduz das investigações da Polícia Federal é que o PL se qualifica como um dos eixos do golpe civil-militar que deu com os burros n’água. Um plano que, apesar da febre negacionista que hoje acomete seus articuladores e defensores, poderia sim ter se desfechado, com consequências previsíveis, uma das quais o fechamento do Congresso.

Dora Kramer - Questão de estilo

Folha de S. Paulo

Nísia e Lewandowski não se encaixam nos perfis ideais aos cargos que ocupam

Na turbulência que assola o Ministério da Saúde, o presidente da República acerta em dois pontos: na resistência em ceder às pressões para abrir a pasta ao balcão de negócios e nas cobranças que faz por melhoria no desempenho.

Luiz Inácio da Silva deu respaldo a Nísia Trindade contra o apetite de governistas e oposicionistas que pretendem derrubar a ministra para tomar posse da poderosa estrutura. Isso não a exime de fazer frente à cobrança de Lula.

Hélio Schwartsman - O presidente e os puxa-sacos

Folha de S. Paulo

Em 2022, antes da posse, Lula pediu para ser criticado, afirmando que não precisava de tapinhas nas costas

Lula criticou a imprensa, que qualificou ironicamente como "gloriosa" e "democrática". Para o presidente, os meios de comunicação não divulgam adequadamente as realizações de seu governo. Ele pediu então a seus ministros que o façam.

A declaração contrasta com uma outra, de dezembro de 2022, dada entre a eleição e a posse. Ali, falando a simpatizantes, ele pediu para ser criticado: "Eu sei que vocês vão continuar nos ajudando e cobrando. Isso é importante. Não deixem de cobrar. Porque se vocês não cobram, a gente pensa que está acertando.E muitas vezes a gente está errando e continua errando porque as pessoas não reclamam. Vou dizer em alto e bom som. Nós não precisamos de puxa-sacos. Um governo não precisa de tapinhas nas costas".

Demétrio Magnoli - O STF diante do golpe de verdade

Folha de S. Paulo

Julgamentos dos líderes do golpe dirão quem somos como nação

Sabemos, hoje, que o golpe de verdade seria assestado em dezembro de 2022, não no 8 de janeiro de 2023. A trama foi virtualmente desvendada, por meio de provas documentais e testemunhais. O que o STF fará com os golpistas?

Compara-se, geralmente, o 8 de janeiro de Brasília com o 6 de janeiro de 2021 de Washington, o dia da invasão do Capitólio pelas hordas de Trump. As semelhanças saltam à vista de todos: um presidente autoritário contestando sua derrota eleitoral, a invasão dos edifícios-símbolos do poder democrático por uma turba de vândalos. Contudo, há uma diferença crucial entre os dois eventos: no 6 de janeiro deles, Trump ainda ocupava a Casa Branca; no nosso 8 de janeiro, a presidência já havia sido transferida a Lula.

Luiz Gonzaga Belluzzo*- Economias e insatisfações crescem

CartaCapital

Em sua configuração atual, o capitalismo escancara a incapacidade de entregar o que promete aos cidadãos

As pesquisas de opinião apontam insatisfação dos cidadãos americanos e brasileiros com suas vidas, a despeito do bom desempenho de suas economias. Desempenho revelado pelo crescimento do PIB, criação de empregos, aumento no valor médio das remunerações insuflado pela expansão da massa de rendimentos.

Em artigo na Folha de S.Paulo, Paul Krugman não esconde sua perplexidade diante do desgosto dos cidadãos americanos com as realizações exibidas nos dados que festejam as proezas da economia de Joe Biden.

Há que indagar as razões que promovem esse descompasso entre as cifras positivas da economia e as percepções negativas de contingentes significativos das sociedades.

Um vídeo distribuído pelo WhatsApp apresenta declarações de cidadãos americanos, políticos conservadores, senhoras e senhoritas idem. Começamos com Donald Trump:

Marcus Pestana* - Qualidade de vida no ambiente urbano

Insisto aqui na importância estratégica para o país das escolhas que faremos nas próximas eleições.

Para além das políticas públicas estruturantes, há um trabalho rotineiro, repetitivo, pontual, a que se deu o nome recentemente de zeladoria. Nos meus tempos de vereador e secretário municipal não chamávamos assim. Mas é verdade, uma das facetas – não a única – do prefeito municipal é ser um zelador, um sindico do condomínio chamado cidade.  Cuidar da limpeza pública, ter uma eficiente operação tapa-buracos, limpar os bueiros, manter bem parques e jardins são tarefas obrigatórias e primárias de todo gestor municipal. 

Orlando Thomé Cordeiro* - Propaganda eleitoral em rádio e TV ainda é relevante?

Correio Braziliense (22.3.2024)

Também não faltam pesquisas com dados que ajudam nessa reflexão. Para tanto, destaco a seguir aspectos de duas, cujos resultados foram divulgados em 2023

Há alguns anos, analistas têm procurado entender as novas bases da comunicação em tempos de redes sociais. Também não faltam pesquisas com dados que ajudam nessa reflexão. Para tanto, destaco a seguir aspectos de duas, cujos resultados foram divulgados em 2023.

A primeira em julho, da empresa YouGov, referência internacional em pesquisas de mercado on-line, que apresentou um estudo com avaliação sobre o perfil de consumo de notícias pela população brasileira. O resultado mostra que 64,2% acessam a TV, enquanto 55,4% escolhem as redes sociais. Já o rádio é a fonte para 30% dos respondentes.

Cristovam Buarque* - O golpe da democracia

Correio Braziliense (20.3.2024)

O artigo do Luiz Carlos Azedo deste domingo nos provoca a refletir sobre a farsa de certos gestos políticos que tentam repetir fatos históricos. A tentativa de golpe no final do governo Bolsonaro é um exemplo claro desta interpretação como farsa: ficará como opera bufa, mas por muito pouco ela não teve sucesso, e o simples fato de ter sido tentada, demonstra a fragilidade da democracia. Porque, depois de 40 anos, o regime democrático ainda não tomou as medidas necessárias para vacinar as FFAA contra o vírus golpista que a contamina desde o início da República.

Poesia | Aniversário, de Fernando Pessoa

 

Música | Fundo de Quintal, Luiz Carlos da Vila - Doce refúgio

p> 

sexta-feira, 22 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Lula precisa de feitos, não de comunicação

Folha de S. Paulo

Datafolha mostra que se esvaiu saldo entre aprovação e reprovação ao petista; governo deveria cuidar do Orçamento

Pesquisa realizada pelo Datafolha detectou alguma piora da avaliação de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A queda do prestígio do presidente é mais notável no saldo entre avaliações positivas e negativas.

Em dezembro, a parcela do eleitorado que considerava o governo Lula ótimo ou bom atingia 38%; no levantamento deste março, são 35%. Já aqueles que avaliam a gestão como ruim ou péssima passaram de 30% para 33%.

Trata-se, a rigor, de variações no limite da margem de erro da pesquisa. A diferença entre aprovação e reprovação, entretanto, caiu de 8 pontos para meros 2 pontos percentuais —no melhor momento de Lula 3, em junho de 2023, o saldo chegava a 10 pontos.

Fernando Abrucio* - Bolsonaro é o Brasil autoritário

Valor Econômico

O ‘mau soldado’ que começou a vida pública planejando um atentado nunca deixou de elogiar a ditadura e torturadores, e as elites políticas nunca deram um basta nesse comportamento

Todo mês de março vem a lembrança do golpe de 1964. Desta vez, sua fatídica realização completa 60 anos. Pensar sobre esse ato é recordar de um regime que por duas décadas sufocou a liberdade, torturou e matou inimigos políticos. O Brasil tem, hoje, o maior período democrático de toda sua história, mas o autoritarismo ainda não foi banido de vez de nossas práticas políticas e sociais. A trajetória política de Bolsonaro, especialmente nos últimos anos, é a melhor síntese dessa batalha inconclusa, certamente com avanços, mas enfrentando ainda grandes desafios na tentativa de banir a lógica autoritária.

Falar de autoritarismo significa lidar com três formas de manifestação desse fenômeno. A primeira é a mais evidente e diz respeito ao funcionamento das instituições. Eleições livres e competitivas, separação e controle mútuo dos Poderes, salvaguardas federativas dos estados e municípios, bem como a garantia institucional dos direitos dos cidadãos, inclusive os que representam minorias políticas ou sociais, são os principais elementos de uma democracia. Foi aqui que o Brasil avançou mais, com um sistema político que pode estar longe de ser perfeito, mas que foi fundamental para evitar um novo golpe de Estado em 2022. Mas será que nossa institucionalidade preservaria o regime democrático com um novo Bolsonaro ou a volta dele ao poder?

Se houve a possibilidade da quebra democrática com Bolsonaro, é porque algumas lideranças políticas e sociais supõem que se possa rasgar a Constituição e organizar a tomada ilegal do poder. Essa é uma segunda camada do autoritarismo, que envolve as crenças e práticas de atores e instituições estratégicas, como as Forças Armadas, a classe política, juízes, empresariado e líderes sociais de cunho secular ou religioso, para ficar nos principais grupos. Instituições não se movem sozinhas e como as elites e políticos atuam sobre elas é um aspecto-chave para a consolidação democrática.

José de Souza Martins*- O fim de ciclo político?

Valor Econômico

A coragem dos processos, dos inquéritos e das comissões parlamentares de inquérito podem restituir ao Brasil a soberania que o autoritarismo usurpador substituiu pela técnica antidemocrática das “fake news” e da boçalidade

O levantamento do sigilo de numerosos depoimentos de civis e militares ouvidos no processo da tentativa de golpe de Estado de Jair Bolsonaro e seus ajudantes aparentemente fecha um ciclo de tensões e impasses políticos que teve início na circunstância da renúncia do presidente Jânio da Silva Quadros, em 1961.

Aquele foi um período agudo da Guerra Fria e da hegemonia americana na América Latina, sobretudo como consequência da Revolução Cubana. Uma revolução que não era comunista, mas movida pelo afã moral e político de completar a independência do país e libertá-lo da condição de cassino e prostíbulo de Miami.

Os americanos cometeram o grave engano político de irritarem-se com o atrevimento dos cubanos liderados por Fidel de se libertarem da dominação do que havia de pior no capitalismo de periferia. Decretaram o boicote aos produtos da ilha e negando-lhes até mesmo fornecimento de remédios. Aos revoltosos não restou alternativa senão a de aliarem-se aos russos e ao risco da guerra nuclear.

Os países latino-americanos tiveram seu destino alterado pela polarização entre EUA e URSS. Situação descabidamente persistente na melancólica ascensão do bolsonarismo. E no mais melancólico governo que resultou de técnicas antipolíticas de criação de fantasias que convencessem a grande massa da população brasileira partidarizável, mas não politizada, de que o país estava à beira do abismo vermelho.

César Felício - PSDB e PDT, sozinhos, rumam para o abismo

Valor Econômico

Encolhem a tal ponto, que a sobrevivência de ambos à cláusula de barreira em 2026 já é posta em dúvida

Dois partidos que costumam ter o que dizer nos processos eleitorais brasileiros parecem estar rumo ao abismo, na janela das filiações partidárias para participar da disputar da eleição municipal, que se encerra em outubro. Encolhem em praça pública o PSDB e o PDT, especialmente o primeiro, a tal ponto que a sobrevivência de ambos à cláusula de barreira em 2026 já é posta em dúvida por outros caciques partidários, que pressentem o cheiro de sangue. Não por outro motivo os dois partidos começaram as negociações para uma federação a curto prazo.

Maria Cristina Fernandes - Falso sumiço de móveis desafia presidente a se fiar no real sentido da polarização

Valor Econômico

Desgaste, que já seria inevitável, é potencializado pelas pretensões eleitorais de Michelle Bolsonaro

“Descobrimos que o crucifixo é dele mesmo. Recebeu de presente. Pqp. Matérias furadas na internet”. Esta mensagem saiu às 17h44min do dia 9 de março de 2016 do celular do ex-procurador federal Deltan Dallagnol para seu colega Orlando Martello.

Chegava ao fim, dessa maneira, uma das histórias mais dramáticas da Lava-Jato, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi acusado de furtar um crucifixo, supostamente de Aleijadinho, do gabinete da Presidência no Palácio do Planalto.

Se a Lava-Jato foi atrás de uma “fake news”, o presidente Lula a produziu, na precipitação de relacionar o casal Bolsonaro ao sumiço de móveis do Palácio do Alvorada. O bolsonarismo sapateia em cima do caso. O ex-presidente diz que seu sucessor fez uma falsa comunicação de furto e a ex-primeira dama diz que a acusação foi uma cortina de fumaça para a compra de móveis sem licitação. A Presidência gastou R$ 200 mil para repor os móveis que só agora foram encontrados.

Luiz Carlos Azedo - Política externa virou eixo de disputa com oposição

Correio Braziliense

Os ventos também mudaram em Washington, porque a inação de Biden em relação a Israel começa a ter repercussão eleitoral e dividir as opiniões dos democratas

Por força de diversas contingências, que ainda estão em movimento, e da diplomacia pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que parece enrijecida, a política externa brasileira perdeu consenso nacional e se tornou um dos eixos de disputa da oposição com o novo governo, ao lado de outros temas como segurança pública, educação, saúde e costumes, para citar os mais em evidência.

No caso da política externa, o fato novo é a ida dos governadores de São Paulo, Tarcísio de Freitas (PR), e de Goiás, Ronaldo Caiado, a Israel para hipotecar solidariedade ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, com o qual posaram sorrindo, na terça-feira, num contraponto aberto à política externa brasileira. Nesta quinta-feira, ao lado dos governadores brasileiros, o ministro das Relações Exteriores israelense, Israel Katz, aproveitou a presença de ambos para novamente classificar como “antissemita” a fala do presidente Lula comparando a morte de civis em Gaza ao Holocausto. Os dois gestores visitaram Israel a convite de uma ONG e de empresários brasileiros.

Eliane Cantanhêde - É pra rir ou pra chorar?

O Estado de S. Paulo

A economia e o governo até vão bem, o que vai mal é o presidente, que fala muito e mal

É bem possível que os ministros não entendam nada de comunicação, mas o grande problema do governo não é esse, mas, sim, que o presidente Lula se comunica excessivamente e mal, dando uma bola fora atrás da outra. As duas últimas vindo a público são a história do sumiço de 261 móveis, obras e objetos do Alvorada e a notícia de que, ora, ora, o governo Lula decreta cem anos de sigilo para 1.339 pedidos de informação, como Bolsonaro fazia, sob chuvas de protestos.

Vera Magalhães - Governo derrapa em decifrar eleitor-esfinge

O Globo

A percepção a respeito do governo parece sofrer com uma desconfiança geral a respeito de qual o projeto de Lula para o país

Lula começou a semana cobrando que seus ministros entreguem e falem mais, admitindo que o governo está perdendo a batalha da comunicação, sobretudo no ambiente digital, mas ontem resolveu se lembrar de um antigo culpado de sempre quando qualquer governante enfrenta problemas de popularidade: a imprensa.

Se alguma crítica pode ser feita ao jornalismo na gestão Lula 3 é a oposta: os arroubos golpistas de Jair Bolsonaro, os ataques sistemáticos do ex-presidente e de seus apoiadores à imprensa, à ciência, à cultura, ao meio ambiente e aos direitos humanos, entre outros, talvez tenham feito a cobrança aos novos ocupantes do poder demorar mais e adotar um tom bem mais ameno que em governos anteriores, de diversos partidos, inclusive do próprio PT.

Para além de ironizar a “gloriosa imprensa democrática”, portanto, caberia ao presidente entender o que os números das pesquisas mostram. Só a comunicação ineficaz não parece dar conta de explicar por que aqueles que aprovam e os que repelem o governo Lula são em praticamente igual número, uma vez que a economia —que costuma ser o principal vetor de humor da população — vai bem como há anos não ia.

Bernardo Mello Franco - O ministro e a sobrevivente

O Globo

Um dia depois de anunciar que a delação de Ronnie Lessa foi homologada, o ministro Ricardo Lewandowski recebeu a única sobrevivente do atentado que matou a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes.

Assessora do PSOL, Fernanda Chaves acompanhou deputados do partido em audiência com o ministro. “Ele não me conhecia. Ficou claramente impactado quando me apresentaram”, conta.

“Comecei dizendo que a homologação foi a notícia mais importante desde a prisão dos dois executores. Sobretudo para quem acompanha este processo como vítima de tentativa de homicídio e sobrevivente”, afirma.

Fernanda relatou a Lewandowski que o atentado de 2018 mudou sua vida para sempre. “Quando você não sabe de onde veio, não sabe do que se proteger”, explica. “Saber que um dos investigados tem foro no STF me causa ainda mais ansiedade, já que trabalho há anos no meio político. Isso significa que circulo entre figuras que podem estar comprometidas no crime.”

Flávia Oliveira - Salve o almirante negro

O Globo

Não é inédito no Brasil que a cultura faça por grandes figuras o que a História, a Justiça, o Estado não fizeram

Coube à escola de samba carioca Paraíso do Tuiuti no carnaval 2024 a mais recente homenagem a João Cândido Felisberto. Num ato adicional de reparação, o carnavalesco Jack Vasconcelos escalou o entregador Max Angelo dos Santos para encarnar o líder da Revolta da Chibata (1910) no segundo dia de desfiles do Grupo Especial na Marquês de Sapucaí. Mais de um século depois do motim de marinheiros contra castigos físicos aplicados pela Marinha em plena República, o morador da Rocinha foi chicoteado com uma coleira de cachorro por uma madame de São Conrado, bairro limítrofe à comunidade. Resquícios de um país forjado na escravidão.

A ex-jogadora de vôlei Sandra Mathias Correia de Sá foi indiciada pela Polícia Civil por lesão corporal, injúria e perseguição em junho de 2023, dois meses depois da agressão. A justiça que falhou a Max nos tribunais brotou na folia. No desfile do Tuiuti, o entregador veio ao leme da alegoria Dragão do Mar, um navio estilizado que, ao mesmo tempo, relembrava a revolta na Baía de Guanabara e homenageava Chico da Matilde, líder jangadeiro e ícone do movimento abolicionista do Ceará, primeira província brasileira a pôr fim à escravidão, em 1884, quatro anos antes da Lei Áurea.

Fabio Giambiagi - Um sistema disfuncional

O Globo

Sem isso, será difícil escapar da trajetória de mediocridade que tem sido nossa sina há vários anos. No longo prazo, é uma tragédia

Um dos temas sobre os quais os aspirantes a economistas se debruçam na faculdade é a análise do papel dos incentivos. Observe-se algo que funciona mal na economia e, muito provavelmente, haverá um erro de concepção no que os economistas chamamos de “desenho de incentivos”.

Isto não é algo difícil de entender para o leigo. Pensemos na educação de um filho. Se uma criança mal comportada não tiver limites claramente colocados pelos seus pais e, na juventude, continuar fazendo estripulias cada vez piores, vendo sempre como seus pais “passam o pano” diante do seu comportamento inaceitável, esse futuro adulto será provavelmente um péssimo cidadão, mal-educado e, eventualmente, violento.

André Roncaglia* - Voracidade

Folha de S. Paulo

Mercado usa 'racionalidade técnica' superada para disfarçar compulsão extrativista

No artigo da semana passada, mostrei como a lógica de mercado disfarça suas compulsões extrativistas com uma "racionalidade técnica" já superada.

Ao igualar qualidade institucional à autonomia em relação ao governo, a cartilha financista ignora os efeitos duradouros e profundos de o mercado distorcer os objetivos das empresas.

A financeirização das três principais gestoras de recursos naturais do país (Petrobras, Eletrobras e Vale) restringe sua utilidade social à capacidade de distribuir lucros aos acionistas, ao sabor dos ciclos globais de commodities. A Petrobras (2022) e a Vale (2021) estavam entre as maiores pagadoras de dividendos do planeta.

Entre 2019 e 2022, a gestão "técnica" da Petrobras alterou a fórmula de remuneração dos acionistas e despejou mais de R$ 330 bilhões na forma de dividendos, com vultosa venda de ativos, como refinarias, fábricas de fertilizantes e sua rede de distribuição.

Vinicius Torres Freire - Pesquisa nova, ideias velhas

Folha de S. Paulo

Avaliação reduzida de Lula sugere que prática política vive em país e cultura do passado

O eleitorado continua grosso modo dividido em terços quanto à nota que dá a Luiz Inácio Lula da Silva. A parcela daqueles que avaliam Lula 3 como "ótimo/bom" é praticamente a mesma daqueles para quem o governo é "ruim/péssimo". É o que diz o Datafolha.

O empate aparece também em outras pesquisas realizadas desde fins de fevereiro. A baixa do prestígio começou depois da metade do ano passado. Mas é muito mais pronunciada e ocorreu na maior parte em 2023 nas pesquisas Quaest e Ipec do que no Datafolha e na Atlas. E daí? Tem-se dado importância excessiva ao assunto?

Não, parece razoável dizer. Baixas de avaliação costumam diminuir a margem de manobra política do governo. A situação fica um tanto mais difícil em um tempo de contraposição extremada das preferências de voto para o Executivo ("polarização"), de volatilidade da opinião pública (também por causa de redes sociais e de guerras culturais e de propaganda), de revolta "contra o sistema" e por causa do fato óbvio de que o governo Lula é muito minoritário no Congresso, tanto em termos de número de parlamentares quanto de preferências ideológicas —as forças sociopolíticas do país mudaram muito.

Bruno Boghossian - Soluços de popularidade

Folha de S. Paulo

Pesquisa do Datafolha mostra presidente longe de momento crítico, mas variações de humor merecem atenção do governo

Lula anda impaciente com sua popularidade. Cobrou mudanças na comunicação do governo e mandou ministros divulgarem suas ações em viagens pelo país. É um remédio contra soluços. Pode funcionar, mas novos espasmos tendem a aparecer.

A mais recente pesquisa do Datafolha mostra que o presidente está longe de um momento crítico. O país continua dividido em três terços, e o quadro de polarização permite poucas mudanças drásticas. Alguns detalhes, no entanto, apontam para uma variação de humores que exige atenção do governo.

Hélio Schwartsman - Putin quântico

Folha de S. Paulo

Autocrata russo tem admiradores tanto na esquerda como na direita, incluindo Lula e Bolsonaro

Demorou um pouco, mas Lula cumprimentou Vladimir Putin por sua vitória no pleito presidencial do último domingo (17), no qual obteve mais de 87% dos votos. O PT foi além e classificou a eleição como "feito histórico". Outros países que parabenizaram o autocrata russo são Irã, Venezuela e Coreia do Norte. EUA, Reino Unido e Alemanha preferiram questionar a lisura do processo eleitoral, que não foi nem livre nem justo.

Não acho que o Brasil deva se comportar como um vingador justiceiro nas relações internacionais. Esse é um campo em que os interesses do país devem dar a tônica. O Brasil não precisa romper com todas as ditaduras do planeta porque são ditaduras, mas tampouco precisa bajular líderes com amplo histórico de violações de direitos humanos. O pleito russo teria sido uma ótima ocasião para o Brasil permanecer calado.

Thomas L. Friedman* - Netanyahu tornou Israel radioativo pelo modo como conduz guerra em Gaza

Folha de S. Paulo

Israelenses e palestinos precisam de líderes motivado pela consciência de sua interpendência, mas ambos não os têm

Atualmente, Israel está correndo um grande perigo. Com inimigos como o Hamas, o Hezbollah, os houthis e o Irã, Israel deveria contar com a simpatia de grande parte do mundo. Mas não conta.

Devido à maneira como o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu e sua coalizão extremista têm conduzido a guerra na Faixa de Gaza e a ocupação da Cisjordânia, o país está se tornando radioativo, e as comunidades judaicas da diáspora em todos os lugares estão cada vez mais inseguras. Temo que a situação esteja prestes a piorar.

Nenhuma pessoa justa poderia negar a Israel o direito de autodefesa depois que o ataque do Hamas em 7 de outubro matou cerca de 1.200 israelenses em um dia.

Mulheres foram abusadas sexualmente; crianças foram mortas na frente de seus pais, e pais, na frente de seus filhos. Dezenas de homens, mulheres, crianças e idosos israelenses sequestrados ainda são mantidos como reféns em condições terríveis.

Mas nenhuma pessoa justa pode olhar para a campanha israelense para destruir o Hamas, que já matou mais de 31 mil palestinos em Gaza, cerca de um terço deles combatentes, e não concluir que algo deu terrivelmente errado lá.

Cláudio Carraly* - A Bela Arte do Procrastinar

A procrastinação, essa dança intrincada entre a intenção e a inação, é uma habilidade refinada pelos seres humanos ao longo das eras, muitas eras, logico, porém, que se não tivessem procrastinado tanto com certeza teriam realizado bem antes, mas vamos ao tema. Essa proeza que desafia a lógica e testa os limites do bom senso, imagine um mundo onde as grandes obras-primas foram procrastinadas até a irrelevância, onde os planos grandiosos foram adiados até se perderem na obscuridade, em meio a um mar de boas intenções, os procrastinadores habilidosos dançam com a arte de procrastinar com uma graça digna de uma coreografia elaborada, são mestres em adiar o inevitável, transformando prazos iminentes em meras sugestões, a procrastinação não é apenas um comportamento, é uma forma de expressão, uma verdadeira expressão artística, uma declaração audaciosa contra a tirania dos cronogramas e a ditadura dos prazos.

Poesia | Soneto do Desmantelo Azul, de Carlos Pena Filho

 

Música | Dorina e Luiz Carlos da Vila - O Sonho não se Acabou (Luiz Carlos da Vila e Adilson Victor)