terça-feira, 25 de maio de 2021

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão* - Cercados de malas sem alça por todos os lados

“O fulando (...) não deve ser candidato à Presidência da República. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”. Revolução?! Olha, quem fala!

Setenta anos depois, a política no País não saiu do lugar. Os espaços estão ocupados por dezenas desses “malas sem alça”. Incompetentes, até como ser humano. Não vale a pena acreditar neles. Compõem a máquina trituradora da oligarquia brasileira. Carlos Lacerda era um representante dela. Com lorotas, palavras afiadas e sem sentido conduziu Getúlio ao suicídio. Um precedente moral que ninguém tem coragem de assumir. Lacerda sobreviveu:  morreu de morte natural. Justiça Divina?!...

Hoje, “O que o Presidente fala, não se escreve”. Uma injustiça porque, no campo da política o que todos, sem distinção, falam não se escreve (scripta manente). A tal de CPI do Covid é uma enganação daqueles que sangram o Estado e trabalham sistematicamente para a derrubada de governos. Manter o caos. Querem o impeachment, e la se vai 2021.  É a única coisa que sabem fazer na política. Nossos representantes, líderes, governantes, nossos heróis, todos mentem. Até no Judiciário, à luz da lei.

A verdade dissolve-se em interpretações, chamadas, ironicamente, de jurisprudências, por meio das quais fluem vaidades e interesses escusos. É como tomar um copo de água com bicarbonato. Tudo se dissolve, tudo se resolve, com a chancela do “absoluto”, declarado, por quem não teve um voto sequer. Olha aí o fantasma que ronda a tomada do Poder pelas conveniências pessoais ou oligárquicas.  Sua coesão não são se resume mais só em laços familiares. Não. Elas se esticam fácil da direita para a esquerda.

O que a mídia pensa: Opiniões / Editoriais

EDITORIAIS

Caso Pazuello reforça dilema das Forças Armadas

O Globo

As Forças Armadas enfrentam um dilema intratável, resultado de atitudes e políticas do presidente Jair Bolsonaro. De um lado, estão entre os mais privilegiados pelo atual governo. De outro, Bolsonaro insiste em desafiá-las para obter lealdade a seu projeto de poder. É nesse contexto que deve ser entendida a presença do general Eduardo Pazuello, sem máscara em plena pandemia, na manifestação de motocicletas que acompanhou Bolsonaro domingo no Rio.

Pazuello virou herói do bolsonarismo depois dos depoimentos repletos de contradições e mentiras semana passada na CPI da Covid. Sua presença no ato em que Bolsonaro desafiou abertamente as normas em vigor para prevenir o contágio abriu nova crise na cúpula das Forças Armadas. Militares da ativa — como Pazuello — são proibidos de participar de manifestações políticas. O Alto-Comando do Exército não poderá deixar o caso sem punição. O vice Hamilton Mourão afirmou que, antes, Pazuello deverá ir para a reserva.

Bolsonaro já entrara recentemente em choque com o Alto-Comando no episódio que resultou na demissão do então ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, e dos comandantes das três forças. Naquela ocasião, a nomeação do general Paulo Sérgio Nogueira para o comando do Exército foi um recado, pois mostrou que Bolsonaro não tinha poder para violar as regras que regem a sucessão.

Nogueira fora o pivô da crise, ao destacar em entrevista que o êxito do Exército no combate à Covid-19 derivava de diretrizes antagônicas às que Bolsonaro pregava — e que Pazuello tentava implantar no Ministério da Saúde. O objetivo da entrevista era tentar limpar a imagem dos militares, contaminada pela presença de Pazuello no governo e pela gestão desastrosa da pandemia.

Depois da crise, Bolsonaro continuou falando em “meu Exército”. Suas declarações de teor golpista saíram há muito do terreno das insinuações. Aparecer ao lado de um general da ativa, que violou uma lei básica da caserna para lhe prestar lealdade, é outra forma de exercer pressão sobre a cúpula das Forças Armadas, mais um desafio a uma instituição basilar da democracia.

Ao mesmo tempo, as benesses concedidas aos militares desde que Bolsonaro tomou posse são inequívocas. Tratamento semelhante é dado apenas à polícia e às demais forças de segurança. Para tais carreiras, o Ministério da Economia não parece impor restrição fiscal de nenhuma natureza. Enquanto o gasto com servidores civis cresceu no ano passado 1,3% em relação a 2019, a despesa com militares subiu 7,3%.

Conto |Graziela Melo - Paisagem apagada

A paisagem morna, antipática e apática, não era uma paisagem de fato. Era apenas a sombra da janela que se projetava nos meus olhos, como algo gigantesco, assombroso!

A insônia se misturava a tudo. À perspectiva cinzenta do amanhã. Sonhos mórbidos, de olhos abertos para uma clara escuridão. Que sonho sonharia eu? Qual sonho seria melhor de sonhar naquela escura noite onde não moravam nem conviviam o sol ou a lua, só uma ou outra estrela insípida, preguiçosa?

Não! Nada de sonhos! Melhor os fantasmas. Qual? Qualquer um: D. Pedro, São Pedro ou até mesmo Zé Pedro, aquele nordestino morto a facadas pelo próprio irmão e que depois de um tempo, fugiu do cemitério e até hoje perambula por aí, assombrando as pessoas, nas noites de lua cheia!

Cruz! Credo!

Poesia | Fernando Pessoa -A Aranha

A aranha do meu destino

faz teias de eu não pensar.

Não soube do que era em menino.

Sou adulto sem o achar.

É que ateia, de espalhada

Apanhou-me o querer ir...

Sou uma vida baloiçada

Na consciência de existir.

A aranha da minha sorte

Faz teia de muro a muro...

Sou presa do meu suporte



Música | Joyce Cândido - Reconvexo (Caetano Veloso)

 

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Fernando Gabeira - Festa na floresta

- O Globo

"Regozijem-se os campos e tudo o que neles há. Cantem de alegria, todas as árvores da floresta." (Salmos, 96: 12)

Dessa forma, o delegado Alexandre Saraiva comemorou o afastamento de dez funcionários do Ministério do Meio Ambiente e a batida policial nos escritórios do ministro Ricardo Salles.

Saraiva estava feliz com a Operação Akuanduba, realizada por outro delegado, Franco Perazzoni, que, como ele, também é especializado no tema, com doutorado em meio ambiente.

O delegado Saraiva havia denunciado Ricardo Salles por ter atuado na tentativa de liberar um grande carregamento de madeira ilegal, apreendida por ele. A denúncia lhe valeu o afastamento do cargo. E ainda é muito audacioso, no governo Bolsonaro, denunciar um ministro que se associe a bandidos ambientais travestidos de empresários.

A denúncia de Saraiva foi parar nas mãos da ministra Cármen Lúcia, que a enviou para a PGR e, lá, adormeceu na gaveta de Augusto Aras. Acontece que, correndo por fora, numa outra investigação, o delegado Franco Perazzoni investigava algo parecido, as alterações de normas do Ibama para favorecer madeireiros.

Ricardo Salles, na célebre reunião em que falou em passar a boiada, aproveitando-se da pandemia, revelou seus métodos. É preciso uma caneta, dizia ele, e um parecer. Caneta sem parecer dá cana.

Ricardo Noblat - Pazuello corre o risco de ser punido pelo Exército

- Blog do Noblat / Metrópoles

No Rio, Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde e general da ativa, participou de ato de motociclistas comandado por Bolsonaro

General da ativa, sem máscara, embora a lei mande que use, pode participar de manifestação política? O que o “nosso Exército” diz a respeito? Ficará por isso mesmo? Não será punido pelo Exército que Bolsonaro insiste em chamar de seu?

Especialista em logística militar, ex-ministro da Saúde demitido por incompetência, o general Eduardo Pazuello participou, esta manhã, no Rio, de uma manifestação político-partidária de motociclistas comandada pelo presidente Jair Bolsonaro.

Chegou de máscara ao local no bairro da Tijuca. A primeira coisa que fez foi baixar a máscara, contrariando decreto do governo estadual e lei aprovada pelo Congresso em junho do ano passado. Subiu no carro de som, e discursou.

Desrespeitou o Estatuto dos Militares e o Regulamento Disciplinar do Exército. Entre as transgressões previstas e sujeitas a punição no regulamento, está:

 “Manifestar-se, publicamente, o militar da ativa, sem que esteja autorizado, a respeito de assuntos de natureza político-partidária”.

Pazuello e Bolsonaro serviram juntos nos anos 1980 na Brigada de Paraquedista no Rio. Por ter planejado detonar bombas em quartéis em protesto contra o salário que recebia e que considerava baixo, Bolsonaro foi afastado do Exército. Pazuello seguiu carreira.

Os dois se reencontraram no governo que está repleto de paraquedistas – entre eles, os generais Braga Neto (ministro da Defesa), Augusto Heleno (ministro do Gabinete de Segurança Institucional) e Luiz Eduardo Ramos (chefe da Casa Civil).

Na última quarta-feira, Augusto Heleno disse à Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara que militares da reserva podem participar de manifestações, mas os da ativa, não. E completou:

“Os da ativa não podem e serão devidamente punidos se aparecerem em manifestações políticas”.

Marcus Andrá Melo* - Bolsonaro e o Orçamento rabilongo

- Folha de S. Paulo

O 'Orçamento secreto' é mecanismo opaco para premiar o apoio legislativo para além dos controles institucionais

Rui Barbosa foi a um só tempo espirituoso e preciso quando chamou o Orçamento federal de rabilongo: as leis orçamentárias continham adendos sem relação com o Orçamento. O rabo era longo —as chamadas “caudas” e a Constituição de 1891 só previam o veto total que funcionava como uma camisa de força, pois o presidente era forçado a acolher os adendos à sua própria proposta orçamentária. Era pegar ou largar.

Era comum a inclusão na “cauda” de dispositivos prevendo novas despesas (sem previsão de receita) pela criação de órgãos ou cargos, e matérias alheias ao assunto, incorporadas na 25ª hora diretamente no plenário do Congresso.

Paradoxalmente o Orçamento rabilongo não expressava o poder do Executivo, mas sua impotência. O veto parcial introduzido na reforma constitucional de 1926 foi acompanhado de dispositivos para fortalecer o poder presidencial (na área da intervenção federal nos estados etc).

Celso Rocha de Barros – Pazuello e as ‘coisas de internet’

- Folha de S. Paulo

Bolsonaristas aplaudiram ex-ministro na CPI porque querem general preso

Em seu depoimento à CPI da Covid, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello provou que é mais leal a Bolsonaro do que ao Brasil. Já seria triste ver um general se prestando a isso se Bolsonaro fosse só mais um político porcaria. Na verdade, Jair é uma das maiores ameaças que o Brasil já enfrentou. Não é fácil encontrar, na história recente, uma força beligerante que tenha matado mais soldados inimigos do que Bolsonaro matou brasileiros durante a pandemia.

Na CPI, Pazuello mentiu sobre tudo: mentiu que não atrasou a compra de vacinas, mentiu que um hacker invadiu o site do Ministério da Saúde para instalar o programa TrateCov, mentiu que não promoveu o uso da cloroquina depois que estudos científicos provaram sua ineficácia contra a Covid-19, mentiu sobre os crimes do governo durante a crise do oxigênio em Manaus. Omitiu o fato de que, enquanto o governo fazia isso tudo, generais responsáveis seguiam as orientações da OMS no Exército, garantindo com isso uma baixíssima mortalidade entre os militares brasileiros.

Catarina Rochamonte - O diabo na CPI da pandemia

- Folha de S. Paulo

O tinhoso está sempre atento às oportunidades e, no momento, não perde uma sessão da CPI da pandemia

Há um interessante trecho de C.S. Lewis no qual ele explica a estratégia do diabo para nos pegar: “Ele sempre envia ao mundo erros aos pares —pares de opostos. E sempre nos estimula a desperdiçar um tempo precioso na tentativa de adivinhar qual deles é o pior”. Deus é brasileiro, mas o diabo gosta da nossa terra e está esfregando as mãos com a expectativa de um segundo turno entre Lula e Bolsonaro: “Ele usa o fato de você abominar um deles para levá-lo aos poucos a cair no extremo oposto”.

No cinema, por vezes, o diabo é boa pinta, sedutor e perfeito anfitrião. No Brasil, dependendo da ocasião, toma uísque, cachaça, vinho ou tubaína; e também articula “almoços democráticos” entre ex-presidentes.

O tinhoso está sempre atento às oportunidades e, no momento, não perde uma sessão da CPI da pandemia, cuja gravidade exigiria apurado senso moral, imparcialidade e sentimento de dever: coisas que o diabo não pode permitir. Quase posso vê-lo soprando no ouvido de alguns senadores, insuflando os ânimos, manipulando os incautos, jogando com a vaidade de todos e, sobretudo, gozando com a naturalização da mentira e a banalização do mal (notada pelo senador Alessandro Vieira que comparou o depoimento de Pazuello ao julgamento de Eichmann).

Denis Lerrer Rosenfield* - Hamas e o terror

- O Estado de S. Paulo

Não se busca a paz, nem a coexistência pacífica, nem a criação de dois Estados...

Confundir o Hamas e a Jihad Islâmica com a causa palestina é um imenso desserviço aos próprios palestinos e a uma paz durável e justa no Oriente Médio, com dois Estados, judeu e palestino, vivendo lado a lado e cooperando entre si. Vitimizar os habitantes de Gaza como se estivessem submetidos ao arbítrio dos israelenses é não somente um erro de cálculo, como um desrespeito à verdade. Infelizmente, esse tipo de narrativa tem vigorado em boa parte da cobertura jornalística, fazendo a propaganda do terror ter valor de verdade.

Convém, preliminarmente, caracterizar o Estado do Hamas como um Estado de terror, que utiliza arbitrariamente a violência para atacar os israelenses e oprimir a sua própria população. Se os palestinos vivem lá na miséria e em péssimas condições sociais, isto se deve principalmente a que os recursos são utilizados para a compra e fabricação de armas, foguetes e mísseis, além da construção de túneis subterrâneos empregados em operações militares, para proteger os seus militantes, e não os palestinos, cujo bem-estar é literalmente menosprezado.

Há uma diferença essencial entre o Estado de Israel e o do Hamas. O primeiro está voltado para a proteção de seus cidadãos, pessoas livres num regime democrático, e o segundo, baseado na violência e na submissão dos seus, expõe esses seus súditos à violência por ele mesmo produzida. Se Israel tem um nível muito baixo de vítimas civis e Gaza um tão alto, isso se deve a uma diferença de natureza entre esses dois Estados: um defende os seus membros, o outro os submete à violência.

Alex Ribeiro - BC ainda tem muitas dúvidas sobre a inflação

- Valor Econômico

Dados de emprego são falhos para prever os preços dos serviços

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central parece estar ainda com muitas dúvidas sobre como vai se comportar a inflação daqui por diante, a julgar pelo que andaram dizendo alguns de seus membros nas última semanas.

Numa live do banco Credit Suisse, o diretor de política monetária do BC, Bruno Serra Fernandes, abriu o jogo sobre as duas frentes que podem fazer a inflação subir ou descer: as pressões de oferta e de demanda. Em ambos os casos, pode haver surpresas, para o bem ou para o mal.

Do lado da oferta, ele citou a alta dos preços das commodities em geral e, em particular, do petróleo, que ocorreu em paralelo com uma depreciação cambial. O diagnóstico do Copom é que essa alta é temporária, ou seja, a inflação sobe, mas depois desce. O nível de preços da economia ficaria mais alto e a população teria uma perda de renda real ao fim desse processo, mas lá adiante a inflação voltaria para a meta, que é a forma comum de julgar o trabalho dos BCs.

Bruno Carazza* - Bolsonaro, porcos e sardinhas

- Valor Econômico

Orçamento secreto inova para continuar tudo igual

Rogério Marinho, atual ministro do Desenvolvimento Regional, faz parte de uma linhagem da qual pertenceram Fernando Bezerra, Ramez Tebet, Ney Suassuna, Ciro Gomes, Geddel Vieira Lima, Mário Negromonte, Gilberto Kassab, Fernando Coelho e Helder Barbalho, entre outros. Em comum, são políticos com forte base local e que tiveram sob suas mãos a distribuição de verbas para a realização de obras Brasil afora. Trata-se da árvore genealógica do novo escândalo que ronda o governo Bolsonaro: o orçamento secreto - ou “tratoraço”, como preferem alguns.

Em qualquer lugar do mundo, político adora uma obra pública. Seja no lançamento da pedra fundamental ou no descerramento da placa de inauguração, não podem faltar o discurso das autoridades, a banda de música, a entrevista para a rádio local, as fotos para as redes sociais e aquele “banho de povo” que pode render muitos votos nas próximas eleições.

Enquanto educação, saúde e segurança são políticas públicas difíceis de serem atribuídas a um político em particular - pois resultam da cooperação entre União, Estados e municípios e apresentam resultados apenas no médio e longo prazos -, obras são entregas concretas que levam a marca de quem conseguiu os recursos em Brasília e viabilizou a construção da ponte ou do açude, o asfaltamento da estrada ou o embelezamento da praça da Matriz.

Miguel de Almeida - Os bozos morrem na véspera

- O Globo

Um bom soldado não morre na véspera, reza a lenda. Menos os bolsonaristas —esses morrem antes, durante e depois.

Sendo que o durante (ao vivo e em cores) chega a ser vergonhoso por desnudar o exército olavista com tremores faciais, esgares de medo, tiques inesperados, suores amazônicos e o grito de “mamãe!” entalado na garganta. Canastrões fundamentalistas, suas mentiras são legendadas.

Nunca neste país houve uma corja governante desmentida pelas redes sociais em forma de VAR. A cada mentira dita na Escolinha do Professor Renan, à semelhança de mortos-vivos, de imediato retornam a circular antigos tuítes ou vídeos de quando o prócer bolsonarista bancava o macho-alfa no mundo digital. Na vida real, tremem miseravelmente de medo.

Vou repetir: aqui se posta, aqui se paga.

Parece ser uma invenção de Olavo de Carvalho, plasmada pelo Bozo, o grotesco padrão do valente de salão. Escondido na Virgínia, o raivoso lançador de perdigotos dita o discurso bozonarista em nível de aposto escatológico. Forjou, como um sub-Goebbels, a estampa do ultradireitista brazuca ao surgir com chapéu e espingarda à mão. Ao ser trazido do bunker digital à vida terrestre, condenado a pagar milhões por suas obsessivas calúnias, chorou palavrões. Aí se fez de pobre coitado. É o modus bozus de fuga.

Irapuã Santana - Racismo algorítmico

- O Globo

A discriminação racial é um problema que acompanha a população negra desde o século XVI, com o início do tráfico de pessoas escravizadas e o fundamento moral e religioso de que o negro não tinha alma. Com o passar do tempo, nossa condição de ser humano passou a ser reconhecida pela sociedade, mas, infelizmente, não atingimos o mesmo patamar de acesso a direitos e bens da vida que compreendem a dignidade da pessoa humana, previstos em nossa Constituição Federal.

Nesse percurso até os dias atuais, a forma de demonstração do racismo também foi evoluindo. Novas técnicas surgem e novas formas de exclusão nascem com elas. Em outras palavras, quando uma realidade é restrita na sua criação, quando há um foco para agradar um público específico, outro sem-número de pessoas fica de fora de todo o processo, restando prejudicado.

Cidadania: Pazuello merece punição

- Nota oficial

Sob liderança do general Edson Pujol, o Exército se notabilizou por seguir na caserna as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) enquanto Bolsonaro as desprezava. É já icônica a cena de Pujol cumprimentando o presidente com o cotovelo, o que tanto desagradou o chefe em sua delinquência sanitária.

Neste domingo (23), finalmente, Bolsonaro se vingou, afrontando a hierarquia e a disciplina das Forças Armadas ao exibir o general de divisão Eduardo Pazuello – por razões inexplicáveis ainda na ativa – como uma marionete de sua perversidade, em cima de um trio elétrico, em meio a quase meio milhão de mortos de uma pandemia sem fim.

Sua participação no cortejo homicida do presidente da República pede que as medidas cabíveis sejam adotadas a fim de fazer observar os regimentos internos das Forças e as leis da República. O Alto Comando do Exército não pode deixar passar tal gesto de quebra de hierarquia e indisciplina.

Tratou-se, a um só tempo: 1) de um atentado à Saúde Pública, no contexto de uma terceira onda de Covid, emergência de uma nova variante, a indiana, e escassez de vacinas e kits intubação; 2) e de um ato político de extrema-direita, com Bolsonaro emulando o abjeto ditador Benito Mussolini.

Hora de as Forças Armadas colocarem um ponto final no vexame a que vêm sendo submetidas, com a responsabilização do general Pazuello, o pior ministro da Saúde da história, e deixarem claro que não serão transformadas em instrumento político ou milícias de um ex-capitão do Exército psicologicamente comprometido.

Roberto Freire
Presidente Nacional do Cidadania

O que a mídia pensa: Opiniões / Editoriais

EDITORIAIS

Os partidos e o candidato da terceira via

O Estado de S. Paulo

O País tem um urgente desafio: encontrar um candidato competente e responsável, capaz de representar uma alternativa viável a Luiz Inácio Lula da Silva e a Jair Bolsonaro. A população não pode ser refém do lulopetismo e do bolsonarismo, opções que – por mais empenho que se coloque para identificar diferenças entre elas – convergem de forma tão cristalina no negacionismo (seja na saúde pública ou na economia), na falta de disposição para promover as reformas, na utilização da máquina pública para interesses particulares (familiares ou partidários), na irresponsabilidade da gestão pública e no exercício do poder para fins exclusivamente eleitorais.

Esse desafio à liberdade e à cidadania – encontrar um candidato a presidente da República responsável e com viabilidade política – é, em alguma medida, tarefa de toda a sociedade. Mas, ainda que todos os cidadãos sejam em alguma medida responsáveis – e é muito oportuno que ninguém se sinta alijado do processo político –, há numa democracia representativa atores institucionais sobre os quais recai especial responsabilidade pelo futuro do País. Faz-se referência aqui aos partidos políticos.

De maneira muito especial, cabe às legendas encontrar um candidato viável da terceira via, comprometido com o interesse público.

Essa específica responsabilidade dos partidos não é mero dever de ocasião, em razão das atuais circunstâncias. Nada mais distante disso. A tarefa é decorrência direta da missão institucional dos partidos políticos em uma democracia representativa: assegurar pluralidade de opções políticas. E ao falar da terceira via, é disto que se trata: garantir que o eleitor, ao votar para presidente da República, tenha uma opção de voto viável e responsável.

Por isso, a Constituição de 1988 coloca os partidos políticos entre as instituições fundamentais para a organização do Estado. Essa menção não é uma espécie de homenagem formal ou de regalia institucional. As legendas têm papel decisivo na qualidade dos candidatos que o eleitor tem à disposição. Tanto é assim que, por expressa determinação constitucional, a filiação partidária é uma das condições de elegibilidade.

Música | Ataulfo Alves & Carmen Costa

 

Poesia | Pablo Neruda - Acontece

 

domingo, 23 de maio de 2021

Paulo Fábio Dantas Neto* - Grande política: uma fotografia e duas hipóteses

É forte o simbolismo da fotografia do encontro entre os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Ignácio Lula da Silva, na casa do ex-ministro Nelson Jobim. Discutir o Brasil é frase genérica e adequada para não deixar qualquer conteúdo concreto de pauta disputar espaço com o efeito simbólico. Há nele uma pedagogia política importante (mostrar que diálogos entre diferentes é possível), um reconhecimento de que a situação do país é grave a ponto de instigar a cooperação entre adversários consumados e um recado político direto sobre a amplitude da rejeição à ideia de reeleição de Bolsonaro. A saúde da democracia agradece e só isso já permite avaliar o encontro como gesto de grande política. 

Grande política, no entanto, numa democracia altamente competitiva como a nossa, não produz outros resultados, além do simbólico, se não estiver conectada com a pequena política, do dia a dia, ofício que ocupa agentes cujos perfis e condutas carregam, em geral, aos olhos do público, simbolismos negativos. Numa democracia, a pequena política, alvo de censura difusa e protestos indignados de quem acredita – ou finge acreditar – que boa política é aquela que se pratica desinteressadamente, precisa ser o destino de toda “boa ação” que pretenda ser, de fato, política. Na relação entre governantes e governados não se pode dispensar o idioma plebeu da pequena política, sem o qual nobreza e democracia não conversam. Valores e interesses são mundos conectados. A política democrática vive da interação de ambos.

Se pensarmos na necessária tradução que um gesto político largo - como foi o do encontro entre os dois líderes - precisa encontrar no terreno que, na política, corresponde ao que Rômulo Almeida chamou de “chão das realidades vulgares”, é legitimo especular sobre seus desdobramentos práticos possíveis. Farei isso a seguir, correndo os riscos de imprecisão e erro que são inerentes a toda interpretação.

A leitura mais direta e corriqueira do fato saliente na superfície é a de que ele corresponde ao realismo político de FHC e ao faro eleitoral de Lula. Convencido da ausência de um nome competitivo do seu partido para concorrer às eleições do ano que vem, FHC teria achado um modo de reforçar, simbolicamente, as reconhecidas restrições de tucanos históricos de diversas tendências ao obstinado governador de São Paulo. Também pessimista quanto às chances de agregação do centro em torno de algum outro pré-candidato externo ao PSDB, o tucano teria se disposto a um entendimento que poderá resultar em aliança com a esquerda, ao menos no segundo turno das eleições. Por essa que chamo de hipótese A, Fernando Henrique estaria dando seguimento a uma declaração pública de que contra Bolsonaro apoiaria “até Lula”. Vendo esse caminho como o mais provável, teria apressado o passo, antecipando o entendimento na expectativa também de que isso poderia moderar o discurso de pré-campanha do petista de modo a ser mais amplo, agregador e acolher também valores e interesses políticos do centro liberal-democrático com os quais ele, FHC, se afina.

Merval Pereira - Coisas de internet

- O Globo

O presidente Bolsonaro, ao que tudo indica, conseguiu convencer os militares de que a política vive de aparências e de promessas vãs, que não precisam ser cumpridas. Seria uma espécie de prestidigitação para enganar o cidadão eleitor. Militar que saiu dos quartéis diretamente para a arena política defendendo seus companheiros em reivindicações salariais e corporativas que os fardados não podem fazer, Bolsonaro ficou quase 30 anos praticando a baixa política, que deu a ele e aos filhos uma vida confortável através de artifícios como a “rachadinha” dos salários dos funcionários dos seus gabinetes, e a manipulação de outras verbas de representação, fundos partidários e eleitorais.

Pequenos assassinatos morais cotidianos, que não são exclusivos dos Bolsonaros mas, levados ao centro de decisão do país, distorcem permanentemente a prática política. Deve-se a essa distorção moral o grave fato de o General de Divisão da ativa Eduardo Pazuello ter a audácia de dizer, em uma Comissão Parlamentar de Inquérito, que a frase emblemática que proferiu - “A questão é simples, um manda, e o outro obedece”- era “coisa da internet”, apenas para impressionar o público das redes sociais, que estava cobrando de Bolsonaro uma posição depois que ele, como ministro da Saúde, havia anunciado a compra da vacina Coronavac, “a vacina chinesa do Dória”.

Essa encenação revelada candidamente por Pazuello demonstra a que ponto Bolsonaro conseguiu condicionar os militares que o rodeiam e apoiam para assumirem situações de envergonhar uma pessoa de bem. É sabido que Bolsonaro, eleito por 57,7 milhões de votos no segundo turno, sempre disse a seus assessores que quem entende de política é ele, cortando-lhes qualquer possibilidade de argumentação contrária.

Bernardo Mello Franco - Crônica da reconciliação

- O Globo

Hoje pode soar estranho, mas Fernando Henrique Cardoso quase se filiou ao PT. Aconteceu no fim da ditadura, quando trabalhadores do ABC paulista começaram a organizar um partido. Intelectuais como Antonio Candido, Sergio Buarque de Holanda e Florestan Fernandes embarcaram no projeto. O sociólogo FH ficou indeciso.

“Tive muitas dúvidas sobre que direção tomar. Se apoiar o novo partido que estava se desenhando sob a batuta do Lula, o Partido dos Trabalhadores, se permanecer no MDB ou se criar algo mais homogêneo”, conta Fernando Henrique no recém-lançado “Um intelectual na política: Memórias”.

“Muitos dos meus amigos, a maioria, foi para o PT”, prossegue FH. Ele decidiu não ir à fundação da sigla, em 1980. Logo começaria a se distanciar dos petistas, que considerava “agressivos”. “Até a criação do PT, eu ainda acreditava na possibilidade de uma frente mais ampla. Depois ficou difícil, o PT era intransigente: crê ou morre”, justifica.

O sociólogo e o operário se conheceram antes da política, quando pesquisadores do Cebrap estudavam o novo sindicalismo. Em 1978, FH foi a São Bernardo do Campo em busca de apoio para se candidatar ao Senado. Lula o recebeu numa salinha esfumaçada do Sindicato dos Metalúrgicos.

“Eu, que não sou nem de bebida nem de cigarro, não estava à vontade”, confessa FH. Apesar das diferenças, Lula topou ajudá-lo. “Ele ia aos comícios e falava. Sempre falou bem. Cativava”, elogia o ex-presidente, que se elegeu suplente de Franco Montoro.

Eliane Cantanhêde - Do Brasil para o mundo

- O Estado de S. Paulo

Núcleo paralelo articula levar pacotaço com relatório final da CPI a cortes internacionais

Um núcleo de oposição ao presidente Jair Bolsonaro articula um destino prático e explosivo para o relatório final da CPI da Covid no Senado, com seus depoimentos, mentiras e sobretudo as provas do desleixo ou má-fé no combate à pandemia. Esse destino são as cortes internacionais, tanto a Interamericana de Direitos Humanos, na Costa Rica, quanto a de Justiça, em Haia, na Holanda.

Os atos e omissões do governo federal e do presidente Bolsonaro já são fartamente conhecidos e documentados em vídeos, áudios e textos, mas as mentiras dos governistas e os documentos, cartas e e-mails que chegam à CPI dão consistência jurídica à realidade já sabida e embasam processos contra os responsáveis.

Exemplos: a plataforma TrateCov oficializando a cloroquina para a Covid; as mais de uma dezena de mensagens enviadas pela Pfizer ao governo oferecendo vacinas, sem resposta; as manifestações da empresa White Martins e dos governos dos EUA, do Amazonas e da Venezuela, antes e durante a crise do oxigênio em Manaus. E vai por aí afora.

Roberto Romano* - Poderes ocultos na falsa república

- O Estado de S. Paulo

Quando examinamos os conselheiros do nosso príncipe, um nome vem à mente: Rasputin

Raros governos na história política mundial agiram sem conselheiros. Embora já na Ilíada o astuto Ulisses recomende o poder de um só, a liderança exige partilhas. Reunir num dirigente decisões estratégicas traz inconvenientes só remediados pela tirania. Escritos clássicos evidenciam a relevância dos ministros, secretários e similares na ordem estatal. Os conselheiros podem agir às claras ou exercer seu ofício nas sombras. Não raro surgem conflitos entre poderosos e auxiliares, o que traz desgraças aos dois.

Platão exemplifica a tragédia do aconselhamento. Dionísio, tirano da Sicília, pediu-lhe ajuda para definir uma administração justa e verdadeira. O autor da República caiu na armadilha, ensinou ao hospedeiro verdades insuportáveis. Como “prêmio” ele foi vendido como escravo. A Carta Sétima platônica narra as desventuras do infeliz conselheiro. Maquiavel entra no rol dos sapientes em desgraça após cumprir as missões secretas da república. É imensa a lista dos desenganos vividos nos palácios.

Rolf Kuntz - Ninguém governa: esta é a verdade dita por Pazuello

- O Estado de S. Paulo

Com o dito pelo não dito, general mostrou Bolsonaro distante da função presidencial

Não há governo, ninguém manda, ninguém é responsável por erros e omissões cometidos no Palácio do Planalto e no seu entorno desde o surgimento da pandemia. Ninguém falhou, na chamada administração federal, quando o Ministério da Saúde mandou cloroquina em vez de oxigênio a Manaus, enquanto doentes morriam sufocados. De uma ou de outra forma, essas mensagens – com um terrível toque de verdade – foram passadas pelo ex-ministro Eduardo Pazuello em declarações à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid. Catorze mentiras foram ditas pelo depoente, segundo balanço do relator da CPI, senador Renan Calheiros. O desfile de falsidades foi evidente, como em outros depoimentos, mas convém levar em conta a verdade sinistra embutida nesse falatório.

Governo existe formalmente, assim como formalmente há um presidente da República. O candidato Jair Bolsonaro foi eleito para o cargo, tomou posse legalmente e ocupa o gabinete principal do Palácio do Planalto. Mas – e isto o diferencia de outros ocupantes do posto – nunca assumiu seriamente as funções e responsabilidades da Presidência. Aparentemente, jamais entendeu as suas atribuições.

Além de manter os interesses pessoais e familiares no topo das prioridades, sempre confundiu presidir com mandar, ordenar, impor sua vontade. Mandou e desmandou no Banco do Brasil, interferindo até em sua propaganda, e na Petrobrás, dando palpite na formação de preços e demitindo seu presidente para agradar a caminhoneiros. Não há como pensar no desastre humanitário da pandemia sem lembrar, de novo, o uso desastroso do verbo mandar. A cena, gravada em vídeo, foi revista nos últimos dias.

Affonso Celso Pastore* - O debate sobre a distribuição de rendas

- O Estado de S. Paulo

As diferenças de crescimento das rendas entre ricos e pobres ainda não pautaram uma discussão que é inevitável no Brasil

Se a economia fosse como a física, a vida dos economistas seria muito mais fácil. No mundo econômico os “átomos” pensam, reagem aos estímulos da política econômica, e se agrupam para influenciar o desenho das instituições econômicas e alterar as instituições políticas, que por sua vez voltam a influenciar as instituições econômicas. O debate sobre a distribuição de rendas serve para ilustrar a interação dessas forças. 

Olhemos para uma influente explicação sobre o aumento na concentração da distribuição de rendas nas décadas que precederam o ingresso da economia brasileira na armadilha do lento crescimento. Sua primeira base de sustentação era o modelo dual de crescimento de Arthur Lewis, para o qual existiria na agricultura um “exército de reserva” que, devido à produtividade marginal nula poderia suprir a indústria com todos os trabalhadores necessários, sem reduzir a oferta de alimentos. Em contrapartida, isso garantiria salários baixos na indústria, contribuindo para elevar as taxas de retorno nos investimentos.

Mas havia um problema: se os salários dos operários eram baixos, de onde viria a demanda dos bens duráveis de consumo, cuja produção deveria aumentar naquela particular fase do processo de substituição de importações? Como a demanda não poderia vir dos trabalhadores, teria de ser proveniente dos “capitalistas” e dos “rentistas”. Assim, o aumento das rendas dos mais ricos sem alterar a renda dos mais pobres teria sido o instrumento utilizado pelo governo para acelerar o crescimento econômico.

Ricardo Noblat - Bolsonaro manda demitir secretária de saúde e Queiroga obedece

- Blog do Noblat / Metrópoles

Dono da caneta, o presidente faz questão de mostrar que só ele manda no governo e obriga o ministro da Saúde a demitir secretária

Manda quem pode, obedece quem tem juízo. O presidente Jair Bolsonaro mandou o ministro Marcelo Queiroga (foto em destaque), da Saúde, demitir a médica Luana Araújo, que assumira há menos de 10 dias a Secretaria de Enfrentamento à Covid-19. Queiroga, que tem juízo e não quer perder o emprego, obedeceu.

Era visível seu constrangimento quando anunciou a demissão por meio de uma nota oficial que não explicou o motivo da dispensa, limitou-se a registrar:

 “O Ministério da Saúde informa que a médica infectologista Luana Araújo, anunciada para o cargo de secretária extraordinária de Enfrentamento à Covid-19, não exercerá a função. A pasta busca por outro nome com perfil profissional semelhante: técnico e baseado em evidências científicas.”

Ora, se Queiroga quer alguém à imagem e semelhança de Luana, por que não ficou com ela? Eis a razão: a secretária sempre criticou sem papas na língua o uso da cloroquina contra o vírus. E Bolsonaro só se deu conta disso depois de sua posse no ministério. A autonomia que prometeu dar a Queiroga era vidro e se quebrou.

Cristovam Buarque* - Jacarezinho um Crime do Brasil

- Blog do Noblat / Metrópoles

Cada vítima de bala perdida é um Jacarezinho, cada chacina de jovens é um Jacarezinho

Jacarezinho é um ponto geográfico e um momento histórico. Fica no Rio de Janeiro e pertence ao fluxo da história do Brasil. Os principais culpados se sua tragédia são aqueles que puxaram os gatilhos de suas armas, de ambos os lados da disputa. Matando um policial e outras 27 pessoas. Mas Jacarezinho não foi um fenômeno isolado na geografia ou na história. Ela tem alguns séculos de construção e muitos responsáveis. Está sendo preparada por líderes nacionais envolvidos diretamente e por milhões de brasileiros coniventes. Jacarezinho foi mais um passo de brutalidade em relação ao passado e ao que ainda ocorrerá no futuro. O Brasil tem milhares de Jacarezinhos explodindo ao longo de anos, executados por uma lógica que lhe dá sustentação, explica e constrói.

Cada vítima de bala perdida é um Jacarezinho, cada chacina de jovens é um Jacarezinho, o assassinato de um tio e um sobrinho entregues à militância do bairro pelos seguranças de um supermercado é um Jacarezinho. O Brasil é um Jacarezinho.

Vinicius Torres Freire – Lula, Bolsonaro e o futuro do arrocho

- Folha de S. Paulo

Epidemia adiou conflito grave sobre gasto público; campanha antecipada vai revivê-lo

A epidemia suspendeu a discussão séria do que fazer com a dívida e o gasto do governo. “Séria” no sentido de decisões, consequências práticas. Uma campanha eleitoral antecipada logo vai ressuscitar esse debate. Quanto mais provável for um confronto entre Lula da Silva e Jair Bolsonaro, mais precoce será a campanha e mais evanescente será o fantasma da “terceira via”.

As consequências do que cada um disser ou fizer aparecerão mais cedo também. Como a água suja socioeconômica está pelo nariz, qualquer marola será tsunami. Seja lá o que a leitora pense a respeito de como financiar um governo muito endividado, os donos do dinheiro grosso têm ideias claras do que deve ser feito e cobram o seu preço em taxas de juro e de câmbio.

Querem ao menos a perspectiva de que a dívida pública fique mais ou menos estável nos próximos anos, até 2026, por aí. Para tanto, o país teria de crescer uns 2,5% ao ano, a taxa básica real de juros não pode ir muito além de 3% ao ano (isto é, Selic a 6,5%, com inflação na meta) e o teto de gastos deve ser mantido onde está, para ficar no mínimo essencial. É uma perspectiva otimista.

Samuel Pessôa - Escolha social


- Folha de S. Paulo

A escolha social se baseia em dois modelos, o eleitor mediano e os grupos de pressão

A democracia representativa funciona assim: os representantes da população no Congresso Nacional escolhem as leis que organizarão os diversos aspectos de nossa vida em sociedade. É simples.

Não é simples, contudo, entender de que maneira o Congresso funciona: quer dizer, como os seus integrantes fazem as escolhas sociais por nós. A dinâmica da escolha social se torna menos obscura com a ajuda de dois modelos ideais: o teorema do eleitor mediano e a lógica da ação coletiva, conceito elaborado pelo economista americano Mancur Olson.

O que diz o teorema do eleitor mediano? É com uma escolha social envolver uma troca entre presente e futuro. Parece ser o caso da nova Constituinte chilena. Há claro desejo daquela sociedade de aumentar a carga tributária para elevar as transferências às famílias, na forma de maiores benefícios previdenciários e de um Estado de bem-estar mais generoso.

É natural imaginar que os ricos prefiram carga tributária menor e maior crescimento. Os pobres, o contrário, pois dependem mais do Estado. O futuro é distante e, no limite, quem tem fome tem pressa.

Janio de Freitas – Por ora, algemas morais

-Folha de S. Paulo

O precário sistema de fiscalização foi destruído na Amazônia e no Pantanal

A primeira função da CPI está realizada, embora ainda em andamento: já ficou bem demonstrado a que classe de gente o Brasil está entregue. Entre (ex) ministro das Relações Exteriores, (ex) dirigente da comunicação governamental com as altas verbas, e (ex) ministro-general da Saúde, o governo só teve para apresentar, e representá-lo, impostores. Falsários das atribuições dos respectivos cargos, falsários no cinismo mentiroso com que tentam evadir-se dos próprios atos e palavras no entanto gravados, impressos, criminosos.

A função subsequente da CPI não contará com a contribuição da corja proveniente do governo. Dependerá de como e quanto o relator Renan Calheiros (MDB-AL), até aqui com desempenho competente, e o preciso presidente Omar Aziz (PSD-AM) conduzam a formação das conclusões submetidas à comissão. De conhecimento público antes mesmo da CPI, os fatos em questão não suscitam dúvida, mas a altivez e a coragem política para relacioná-los com o Código Penal e gravíssimas consequências será de ordem pessoal.

Bruno Boghossian – Negligência exposta

- Folha de S. Paulo

Bolsonaro e auxiliares se esforçaram para deixar os brasileiros sem imunizantes

Jair Bolsonaro se esforçou para deixar os brasileiros sem vacina contra a Covid-19 enquanto foi possível. Quase toda a estrutura do governo parece ter se mobilizado para ignorar ofertas iniciais do imunizante, apontar dificuldades que poderiam ter sido solucionadas com um pouco de trabalho e adiar ao máximo a chegada de doses por aqui.

Na melhor das hipóteses para Bolsonaro, foi exposta a total incompetência do governo para administrar o país, num momento em que as vidas de milhares de cidadãos dependiam de uma ação eficiente. Sob um ângulo mais realista, ficou caracterizada a negligência do presidente e de seus auxiliares em mais um momento crítico da pandemia.

O governo ignorou pelo menos dez emails enviados pela Pfizer durante a negociação para a compra de até 70 milhões de doses da vacina da farmacêutica. Os documentos, revelados pela repórter Julia Chaib, indicam que o Palácio do Planalto demonstrou desinteresse pelo imunizante e atrasou em cerca de um mês as conversas com a empresa.

O que a mídia pensa: Opiniões / Editoriais

EDITORIAIS

Bolsonaro não pode regular redes sociais por decreto

O Globo

São conhecidos os pendores autoritários do presidente Jair Bolsonaro. Volta e meia ele reage como se fosse uma espécie de imperador que quer resolver tudo na base do decreto. Já há algum tempo, afirma ter na manga um para proibir todas as medidas de restrição à circulação impostas por governadores e prefeitos com intuito de conter a transmissão do coronavírus. Seria, naturalmente, uma medida inconstitucional, pois o próprio Supremo já arbitrou a questão, decidindo pela responsabilidade compartilhada entre as três esferas de governo.

Nesta semana, diante da remoção de conteúdos que publicara nas redes sociais promovendo tratamentos ineficazes contra a Covid-19 e espalhando desinformação — pelo menos nove vídeos seus foram excluídos de YouTube, Facebook, Instagram e Twitter, além daqueles marcados por desinformar —, Bolsonaro decidiu se vingar. Preparou um decreto, com parecer já favorável da Advocacia-Geral da União (AGU), para proibir as redes sociais de apagar publicações ou suspender usuários sem ordem judicial. Mesmo que permita o bloqueio em casos específicos — como nudez, apologia ao crime, apoio a terrorismo ou ameaça de violência —, na prática, o decreto tornaria ilegal a iniciativa das redes sociais para moderar qualquer conteúdo, em particular notícias fraudulentas e desinformação sobre a pandemia.

É desejável que haja normas transparentes para a suspensão de contas e bloqueio de conteúdos nas redes sociais. Os critérios adotados pelas grandes plataformas são muitas vezes opacos e resultam em decisões caso a caso nem sempre justificáveis do ponto de vista legal ou do interesse público (um caso extremo que despertou controvérsia foi a suspensão por tempo indeterminado das contas do ex-presidente americano Donald Trump ).

Música | Elizeth Cardoso - Barracão de Zinco