O Estado de S. Paulo.
66 mil paulistanos não têm casa para morar
e 19 milhões de cidadãos passam fome no Brasil Como explicar nosso desprezo
cruel pelo sofrimento alheio?
O casal mora lá, embaixo de uma longa marquise
pintada de verde, a poucos minutos do cruzamento entre a Rebouças e a Faria
Lima. Naquele mesmo endereço já funcionou um supermercado de luzes escassas,
com ares mofados de entreposto comercial. Hoje, com suas portas de metal bem
trancadas, o imóvel não tem mais nenhuma função social ou mercantil. Só a
calçada, apenas ela, encontrou uma utilidade: virou dormitório popular. Foi lá
que o jovem casal fixou residência, em pacífica vizinhança com outros
moradores. Os colchões perfilados, mudos e discretos se organizaram para não
incomodar ninguém: tiveram o cuidado de deixar livre uma boa faixa do
calçamento para que os pedestres trafeguem, sem virar a cabeça.
A moça é alta, bonita. Dos seus olhos grandes e claros, realçados pelo tom bronzeado do rosto, escorre uma sensação de paz que às vezes alcança quem passa por ali. O nariz descreve um arco pronunciado, numa ponte fina entre a testa e os lábios. Elegante e delgado, o nariz denota personalidade, mas não arrivismo. Quando ela se espreguiça sobre o cobertor bem esticado, no meio da tarde, deixa ver que está feliz. Temos algo a aprender com ela.