domingo, 9 de julho de 2023

Hélio Schwartsman - A guerra dos chips

Folha de S. Paulo

Livro conta a história dos circuitos integrados e como eles moldam até as relações entre potências

Cada vez mais fala-se em desmaterialização da economia. Estão embutidas aí tanto a noção de fazer cada vez mais com cada vez menos recursos materiais como a de que o valor está migrando de produtos físicos para conhecimento, expresso em programas de computador e assemelhados.

"A Guerra dos Chips", de Chris Miller, mostra que, por mais que a informática tenha avançado, ela é e continuará sendo dependente de uma base material, que são os chips, os circuitos integrados. Aliás, a maior parte do incremento do poder computacional de nossos apetrechos tecnológicos se deve a avanços nos chips, que, pela miniaturização, processam cada vez mais informação de forma cada vez mais rápida e eficiente.

Eliane Cantanhêde - O Centrão e ‘a prioridade do governo’

O Estado de S. Paulo

Se os ministros estão com a cabeça a prêmio, os da área social também?

Com dois ministérios, um para o PP, outro para o Republicanos, uma estatal daqui outra dali e R$ 7 bilhões em emendas de uma tacada só, o presidente Lula conseguiu a aprovação folgada da reforma tributária e da mudança no Carf e obteve a sua maior vitória desde a posse: isolou o PL na Câmara, dividiu a extrema direita e ajudou a empurrar Bolsonaro de volta à insignificância.

Por uma barbeiragem do Planalto, a votação da reforma ficou por um fio na quinta-feira. O ministro da Comunicação Social, Paulo Pimenta, entendeu errado a reunião de Lula com a (ainda...) ministra do Turismo, Daniela Carneiro, e soltou nota dizendo que ela continuava no cargo. Para quê? O União Brasil (UB) da Câmara pegou em armas, ameaçando votar contra a reforma, o Carf e a âncora fiscal.

Rolf Kuntz - FMI, juros e governo sem plano

O Estado de S. Paulo

Cenários desenhados para a economia nos próximos anos ainda são deprimentes. E não se sabe como o governo do Brasil enfrentará as limitações econômicas

Reclamar dos juros e atacar o presidente do Banco Central (BC) têm sido ações lucrativas para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Disfarçam a pobreza da política econômica, atraem apoio parlamentar e empresarial e podem, se o jogo avançar um pouco mais, facilitar sua intervenção na política monetária. Se isso ocorrer, o arsenal do populismo será enriquecido. Mas essa é uma briga perigosa para o País e para o governo. A inflação tem recuado, mas ninguém pode, com segurança, descartar o risco de um repique. As condições globais estão melhores do que há alguns meses, mas a geopolítica permanece inquietante e é cedo para celebrar a normalização dos preços e das finanças. O novo conjunto de riscos foi resumido pela vice-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Gita Gopinath, em “três verdades incômodas para a política monetária”. Incômodas também, pode-se acrescentar, para um governante pouco disposto, aparentemente, a aceitar os custos da austeridade e das políticas de ajuste.

Memória | Declaração da Conferência Caio Prado Jr. cobra reformas

Memória | Declaração da Conferência Caio Prado Jr. cobra reformas

https://gilvanmelo.blogspot.com/2011/04/conferencia-caio-prado-jr-cobra.html

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

‘Reindustrialização’ proposta por Lula é erro à luz dos fatos

O Globo

Recursos de governo sob pressão fiscal devem ser usados em educação, saúde e ajuda a pobres, não em subsídios

A política industrial voltou à agenda depois que, nos Estados Unidos, Joe Biden ofereceu incentivos a setores como semicondutores ou energia limpa para competir com a China. No Brasil, o governo Luiz Inácio Lula da Silva decidiu, sob o mote da “reindustrialização”, ressuscitar subsídios para automóveis, indústria naval e sabe-se lá o quê. O sufoco das cadeias de suprimento na pandemia é visto como pretexto para reviver a proteção a “campeões nacionais” ou “indústrias estratégicas”. Defensores de políticas industriais costumam justificá-las dizendo que nenhum país se desenvolveu sem adotá-las — e apontam para Estados Unidos, Europa e Ásia. Trata-se, porém, de uma interpretação equivocada dos fatos históricos.

Poesia | Bertold Brecht - Nada é impossível mudar

 

Música | Adoniran Barbosa - Conselho de mulher

 

sábado, 8 de julho de 2023

Marco Antonio Villa - A volta da política

Revista IstoÉ

A serpente tem de ser atacada quando se manifesta, pois, após deixar seus ovos, o combate será muito mais difícil, despertando os sentimentos mais selvagens dos indivíduos.

Depois de um primeiro semestre turbulento – mas não tanto como em 2022 –, o Brasil está virando uma página. Pode ser uma frase feita, mas é real. Viramos a página do autoritarismo bolsonarista. O Tribunal Superior Eleitoral simplesmente cumpriu a lei. Não foi – como acusou Jair Bolsonaro – um julgamento eleitoral. Pelo contrário, deu-se amplo direito de defesa, o contraditório e o processo foi transparente. O julgamento foi transmitido pela televisão, nada ficou oculto. E apresentaram-se os votos de todos os sete ministros, que recordaram – cada um ao seu modo – os acontecimentos de 18 de julho de 2022.

Bolsonaro saiu derrotado. E o Brasil venceu, assim como a Constituição, as liberdades democráticas, o Estado democrático de Direito. No último quadriênio presidencial estivemos ameaçados cotidianamente pelo despotismo bolsonarista. Mas longe daquele (suposto) despotismo esclarecido do século XVIII. Aqui foi substituído pelos “filósofos” cultores da violência, do racismo, da misoginia, da homofobia e do antissemitismo.

Fernando Schüler * - Sobre as regras do jogo

Revista Veja

A democracia permite a discussão sobre muitas coisas, mas não sobre seus princípios elementares

Muita coisa foi escrita sobre o dito de Lula de que a “democracia é relativa”. Segundo alguns, o presidente teria cometido um “erro”; outros falaram em “decepção”, pois teriam assinado a “carta pela democracia” e esperavam mais de seu líder. Li também que Lula “não sabe o que é o comunismo”, pois não teria “lido Lenin”, nem estudado a história soviética. Sejamos claros, não há “erro” nenhum, nem muita novidade. Ele sabe o que se passa em países como Venezuela e Cuba. Qualquer um pode saber, aliás. Basta dar um clique em Human Rights Watch ou no relatório da ONU sobre os “crimes contra a humanidade” do regime chavista. Não há nenhuma “incoerência” ou confusão aí. São apenas escolhas políticas. Lula sempre agiu como fiador das ditaduras na América Latina, que todos sabem quais são. Ainda na outra semana, Moisés Naím denunciou a estratégia chavista para procrastinar investigações sobre tortura e execuções extrajudiciais, dizendo que Maduro tenta “lavar a cara”, e que seu maior trunfo é “Lula continuar a abraçá-lo em público”.

Cristovam Buarque - Jogar a favor das escolas

Revista Veja

“Somos campeões de futebol porque temos uma motivação em comum. E porque a bola é redonda para qualquer brasileiro”

A população brasileira não se conforma em perder a Copa do Mundo de futebol a cada quatro anos, mas não se constrange em ficar todo ano entre os últimos colocados na avaliação dos sistemas educacionais feita pela Unesco. Felizmente, começamos a perceber a falência do nosso projeto escolar e a entender as consequências para o progresso do país e o bem-estar de cada cidadão quando condenamos milhões de pessoas ao “analfabetismo para a contemporaneidade”, desperdiçando o potencial de cada uma delas para a construção do futuro.

A realidade mostra que os recursos aportados e os programas adotados nas últimas décadas produziram ligeiras melhorias na qualidade escolar, mas sem evitar que continuemos com uma educação deficiente e desigual.

Dora Kramer - Jair faz um favor a Tarcísio

Folha de S. Paulo

Ao hostilizar governador, ex-presidente se isola no radicalismo sem resultados

Sutileza, inteligência fina e senso tático, sabemos, não são características de Jair Bolsonaro. Ele mesmo confirmou isso na recente reunião do PL em que tentou crescer para cima do governador Tarcísio de Freitas chamando-o de inexperiente na política.

Só que neste campo nem sempre antiguidade é posto, pois na eleição de 2022 o novato deu um banho no veterano. Tarcísio ganhou o governo de São Paulo falando ao centro sem perder a referência à direita e Bolsonaro perdeu a Presidência por insistir na manutenção do pisca-pisca ligado exclusivamente na direção da bolha extremada.

Hélio Schwartsman - A democracia é relativa?

Folha de S. Paulo

Lula erra ao defender Venezuela, mas conceito de democracia comporta graus e variantes

A democracia é relativa? Não dá para entender por que Lula ainda insiste em defender ativamente um regime falido e brutal como o de Nicolás Maduro na Venezuela. Fazê-lo é ruim para sua imagem pessoal, para seu governo e para o Brasil. Mas a colocação do presidente brasileiro sobre a relatividade da democracia, se utilizada em outro contexto, seria aceitável.

É fácil entender que a democracia não é um estado binário, que se materializa ou não se materializa, sem nuances e meios tons. A melhor prova disso é a profusão de índices e rankings de democracia. Um dos mais prestigiados deles, o V-Dem analisa a democracia em cinco dimensões (eleições, liberdades, participação, deliberação e igualdade) e ranqueia em cada uma delas os 202 países examinados. Pelo relatório de 2022 do V-Dem, o Brasil é uma democracia eleitoral, categoria que fica abaixo das democracias liberais, mas acima das autocracias eleitorais e das autocracias fechadas.

Demétrio Magnoli - Democracia relativa

Folha de S. Paulo

Compete aos eleitores, não aos juízes, escolher os representantes do povo pelo voto

A "democracia relativa" venezuelana é uma ditadura absoluta –que, como tantas outras, promove periódicas eleições farsescas. María Corina Machado, candidata da oposição nas eleições presidenciais do ano que vem, acaba de ser inabilitada por uma Controladoria sob controle de Maduro. No Brasil, por outro lado, Bolsonaro foi declarado inelegível por um tribunal eleitoral que segue a lei. Não é novidade: a mesma lei tornou Lula inelegível em 2018. Um sistema político que inabilita os dois principais líderes populares precisa ser caracterizado como uma "democracia relativa".

Lula teria cometido crimes de corrupção? Bolsonaro deve ser sentenciado por golpismo? Numa democracia plena, as respostas –e as penas– competem à Justiça criminal, não à Eleitoral. Nela, leis como a da Ficha Limpa seriam anuladas por ferirem um princípio fundamental: a soberania popular. Compete aos eleitores, não aos juízes, escolher os representantes do povo. A inelegibilidade de Lula, antes, e a de Bolsonaro, agora, implica a cassação dos direitos de seus eleitores –que, somados, formam a maioria do eleitorado.

Pablo Ortellado - Lula é ambíguo com as ditaduras

O Globo

Desde que assumiu como presidente, Lula vem tomando posições ambíguas com relação às ditaduras de esquerda da América Latina. Recebeu o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e o tratou como companheiro. Defendeu-o em múltiplas ocasiões da acusação de que a Venezuela não é democrática. Em março, a diplomacia brasileira deixou de assinar uma declaração do Conselho de Direitos Humanos da ONU que condenava “sérias e sistemáticas violações” de direitos humanos na Nicarágua (o Brasil, porém, assinou uma resolução mais branda da OEA no fim de junho pedindo democracia no país).

Às vezes, Lula dá a entender que tudo não passa de estratégia diplomática. Declarações brandas ou ambíguas diminuiriam resistências e permitiriam ao Brasil atuar como mediador, conduzindo esses países a uma democracia mais plena. Mas a ambiguidade também pode ser lida como condescendência e falta de compromisso democrático. Como o movimento é ambíguo, não dá para saber quanto há de estratégia e quanto há de tolerância com as falhas democráticas quando o governo é de esquerda. Seja como for, a postura ambivalente está assustando e radicalizando as respostas da extrema direita brasileira — a tal ponto que eventuais benefícios para a política externa certamente não compensam o dano infligido à dinâmica política nacional.

Eduardo Affonso - Ligeiramente democrático

O Globo

Com Bolsonaro inelegível e a terceira via em extinção, Lula parece cada vez mais empenhado em liderar a oposição a si mesmo

Em 1985, ano da redemocratização, a banda O Espírito da Coisa fez sucesso com uma canção em que a personagem anunciava:

— Mamãe, eu acho que estou/Ligeiramente grávida.

Cinco anos antes, Kleiton e Kledir já tinham flexibilizado a virgindade:

— A mãe da moça me garantiu/É virgem, só que morou no Rio.

Fecundação, ruptura do hímen e — sabemos agora — democracia, tudo é relativo. Absoluto, só o 0 K (-273,16 °C) ou o desprezo do presidente Lula por sua história e pela inteligência de quem, por três vezes, o elegeu presidente.

Seu conceito de democracia anti-Denorex (que não parece, mas é) ou democracia feijoada (que tem tudo de porco, mas não é porco) veio para justificar o apoio à ditadura de Nicolás Maduro, que promove a maior tragédia humanitária da América do Sul. Isso enquanto metade do Brasil ainda respira aliviada por ter se livrado dos arroubos autoritários de Bolsonaro, e outra metade acha que agora é que a democracia corre mais riscos.

João Gabriel de Lima* - Leões de Ouro para a cidadania

O Estado de S. Paulo

Pela ferramenta é possível saber quanto um congressista gasta em refeições, viagens ou carros

Todos deveríamos acompanhar as despesas de deputados e senadores como monitoramos nosso cartão de crédito. Afinal, o dinheiro que eles gastam é o nosso dinheiro. Uma nova ferramenta digital permite que você faça exatamente isso. Você escolhe um ou mais parlamentares e, a cada despesa do gabinete de seu escolhido, recebe um “push” no celular – como se fosse uma despesa do cartão de crédito de um de seus filhos.

A ferramenta, batizada de “Cartão da Transparência”, acaba de ganhar seis “Leões” no Festival de Cannes, considerado o Oscar da publicidade mundial – dois de ouro, três de prata e um de bronze. Ela foi desenvolvida pela agência de comunicação AKQA e está hospedada no site Congresso em Foco.

Adriana Fernandes - Trator Lira

O Estado de S. Paulo

De nada adianta votar a reforma com um placar tão folgado para ela morrer no Senado

Desde domingo passado, o presidente da Câmara, Arthur Lira, ligou a chave do seu trator para conseguir a aprovação da reforma tributária.

O que mais se ouviu no plenário após a votação histórica da Câmara foi que, sem o trator Lira, a reforma nunca teria sido aprovada, dada a quantidade de atores e lobbies envolvidos nas negociações e tantas tentativas frustradas em 35 anos.

O próprio presidente da Câmara passou por cima de interesses regionais do seu Estado, Alagoas, para contar votos favoráveis para o placar histórico da PEC 45 de 382 votos favoráveis no primeiro turno e 375 no segundo.

Comprou uma briga das grandes com os governadores do Nordeste, sua região de origem, ao negociar com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e Estados do Sudeste e do Sul que o modelo de partilha do Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional – a cereja do bolo da reforma para os Estados – ficará para depois da PEC, em lei complementar.

Marcus Pestana* - Da marcha forçada à marcação de passo

No artigo da última semana alinhamos números e evidências que revelam uma realidade inequívoca: o Brasil teve um dos melhores desempenhos econômicos, entre todos os países, de 1930 a 1980, transitando de uma economia agroexportadora para uma estrutura industrial sofisticada e diversificada, e, após a crise de 1979/80, perdeu o dinamismo e desenhou uma trajetória parecida com uma montanha russa: espasmos de crescimento acelerado entremeados por recessões profundas, resultando num desempenho em média perto da mediocridade e congelando o crescimento da renda por habitante dos brasileiros. Recentemente, inclusive recuamos: em 2013, antes da recessão do Governo Dilma e da pandemia, o PIB per capita brasileiro era, em valores corrigidos, segundo a FGV, de 48,4 mil reais, e o projetado para 2023, é de 46,4 mil reais. Ou seja, dez anos marcando o passo. 

Fernando de la Cuadra* - La inelegibilidad de Bolsonaro y el desmonte de la extrema derecha

“Nada es más importante que acabar con el fascismo, porque de lo contrario, el fascismo va a acabar con nosotros”.

Fred Hampton

Cuando restaban pocas horas para que el Sistema Judicial brasileño concluyera sus actividades semestrales para entrar en el receso de invierno -por un mes a partir del 1 de julio-, el Supremo Tribunal Federal (STF) determinó la inelegibilidad de Jair Messías Bolsonaro por los próximos ocho años. Este proceso que le impide al ex presidente presentarse a cualquier elección por ese periodo, es el primero entre muchos otros procesos (16 en total) que continúan pendientes por los diversos delitos cometidos por el ex presidente durante su mandato.

En este caso, la acusación que fue juzgada tuvo relación con la insistencia del ex mandatario en poner en duda la transparencia y licitud del sufragio electrónico en una reunión oficial convocada por el entonces gobernante en el Palacio da Alborada, ante decenas de embajadores, periodistas y miembros de organizaciones internacionales. Según el Ministerio Publico, en aquella ocasión el ahora condenado habría cometido abuso de poder político, desvío de finalidad y uso indebido de los medios de comunicación.

Concretada entonces la inelegibilidad del ex capitán, surge casi que naturalmente la interrogante sobre cuál será el destino de la extrema derecha en Brasil. Existe una infinidad de tesis especulativas sobre este asunto, aunque en términos generales existe un consenso que la extrema derecha en Brasil llegó para quedarse.

IEPfD | Política e Democracia – Reflexões sobre seus Desafios para o Século XXI - Abertura

 

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Ataque a Marco do Saneamento deve ser repelido

O Globo

Depois de derrota na Câmara, governo volta à carga com decretos que prejudicam os mais pobres

A aprovação do Marco Legal do Saneamento Básico, em 2020, deu ao Brasil a esperança de resolver um dos problemas mais graves que afligem a população: o acesso desigual a serviços de água e esgoto. Por inépcia, imobilismo dos governos, pressão de empresas estatais e das poderosas corporações do funcionalismo público, o país apresenta há décadas índices indigentes de saneamento. Basta dizer que, em pleno século XXI, 100 milhões de cidadãos não são servidos por coleta de esgoto, e 35 milhões não têm água tratada nas torneiras. Um absurdo.

Resultado de longas discussões no Congresso, o Marco do Saneamento transformou essa realidade, tornando o setor mais competitivo, profissional e com maior capacidade de investimento. Um de seus muitos méritos foi abrir espaço à atuação de concessionárias privadas num cenário dominado por estatais dispendiosas e ineficientes, muitas das quais conhecidas mais como cabides de emprego que por prestar serviços de qualidade. Os números atuais do saneamento são a prova mais eloquente do descalabro.

Poesia | Clarice Lispector - Sabedoria é não entender

 

Música | Diogo Nogueira e Orquestra Ouro Preto - Flor de Lis

 

sexta-feira, 7 de julho de 2023

Vera Magalhães - Em 6 meses, espaço do centro se alargou

O Globo

Percepção independe da aprovação da reforma tributária, e decorre da ocupação de espaços desde 8 de janeiro

Ao que tudo indica, o semestre útil em Brasília termina hoje. É de extrema relevância e muito simbólica a discussão da reforma tributária, que estava em debate na Câmara no fechamento desta coluna, mas a análise de que o espaço ao centro se alargou desde o fatídico 8 de janeiro independe dela. Trata-se de ótima notícia para a democracia e para o debate público.

A própria negociação dos últimos dias foi emblemática. A semana que começou como um levante dos governadores contra a reforma tributária — em que a direita vislumbrou mais uma oportunidade de polarizar com o governo — terminou mais próxima do consenso num tema-chave para o desenvolvimento do país que o visto nas últimas três décadas.

Confirmada a aprovação da reforma na Câmara e, depois, no Senado, o governo Lula sairá como vitorioso, inegavelmente, mas não só ele ou Arthur Lira. A possibilidade de diálogo amplo, plural e com forças muitas vezes rivais em torno da agenda econômica é algo que não se via ao menos desde a reforma da Previdência e que foi completamente inviabilizado pela radicalização promovida por Bolsonaro em quatro anos.

Rogério Furquim Werneck - Saber lidar com o dissenso

O Globo

Não há por que transformar opositores da Reforma Tributária em revoltados

É natural que uma proposta de Reforma Tributária tão complexa como a que agora tramita no Congresso venha gerando tanta controvérsia. O que surpreende é que, não obstante o alto grau de dissenso que ainda cerca a PEC da reforma, o presidente da Câmara, Arthur Lira, esteja tão determinado a submetê-la à votação, a toque de caixa, em dois turnos, antes mesmo do recesso parlamentar. É difícil encontrar justificativa razoável para tamanho açodamento.

Vale esclarecer que, há décadas, venho sendo defensor ardoroso de um reordenamento da caótica tributação de bens e serviços no país nas linhas do que, afinal, está sendo tramitado no Congresso. E é muito bom constatar que, afinal, ideias vagas saíram do papel e deram lugar a uma proposta concreta de implementação de um esquema de tributação em bases amplas do valor adicionado, como há tempos se vê em economias mais avançadas, mundo afora.

Luiz Carlos Azedo - Reforma tributária é uma travessia do Rubicão

Correio Braziliense

A reforma tributária é uma mudança na estrutura de arrecadação e financiamento do Estado brasileiro — União, estados e municípios —, a mais importante fator desde a aprovação do Plano Real

A expressão “atravessar o Rubicão” representa uma decisão de alto risco e sem volta, que pode mudar o curso da História, como a de Julio César às margens do pequeno curso d’água na Itália setentrional, que corria para o Mar Adriático, ao Norte de Ariminium (Rimini), em 49 a.C. O general romano estava proibido de entrar em Roma com suas tropas, mas decidiu correr o risco político de pôr os soldados em marcha e desafiar o Senado. Apesar da guerra civil entre suas forças e as de Pompeu, o Grande, dessa audácia nasceu o Império Romano. A expressão em latim “alea jacta est”, ou seja, “a sorte está lançada”, com a qual resumiu sua decisão, é usada até hoje.

A aprovação da reforma tributária tem esse caráter, é uma mudança na estrutura de arrecadação e financiamento do Estado brasileiro — União, estados e municípios —, que está sendo saudada pelos agentes econômicos como o mais importante fator de recuperação da produtividade de nossa economia desde o fim da hiperinflação, com o Plano Real, nos governos Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Por um dos caprichos da História, coube a um presidente de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva, e ao líder político do Centrão, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), tecer a aliança mais estratégica para os rumos da economia brasileira.

Hélio Schwartsman - Revolução tributária

Folha de S. Paulo

Impostos são capazes de moldar comportamentos, para o bem e para o mal

Existem várias maneiras de alterar o comportamento alheio. Elas incluem violência, logro, persuasão e tributos. Estes últimos são particularmente interessantes, porque, ao afetar de uma vez toda a população, permitem verdadeiras revoluções quase sem derramamento de sangue. As pessoas muitas vezes nem percebem que têm suas decisões influenciadas pela carga tributária.

Bruno Boghossian - Bolsonaro escolheu Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Ex-presidente aposta em oposição obsessiva para preservar monopólio do antipetismo

Tarcísio de Freitas mostrou aos súditos de Jair Bolsonaro que o rei estava nu. "Eu acho arriscado para a direita abrir mão da reforma tributária", disse o governador numa reunião do PL, ao lado do ex-presidente.

Os dois buscaram rotas distintas no debate da reforma tributária. Fiel ao próprio personagem, Bolsonaro escolheu o caminho da oposição sistemática para atravessar os quatro anos de Lula. Tarcísio optou por algum verniz ideológico, até para fabricar uma marca que o diferenciasse, aos poucos, do antigo chefe.

Se a colisão era inevitável, é revelador que ela tenha ocorrido menos de uma semana depois que Bolsonaro foi declarado inelegível. A celeridade da trombada pública entre padrinho e afilhado expõe um campo político tomado por desconfianças patológicas e ambições particulares.

Reinaldo Azevedo - Bolsonaro opera no ‘modo destruição’

Folha de S. Paulo

Capitalismo brasileiro tem mesmo de se arranjar com 'o comunista' Lula

Oito meses depois de derrotado nas urnas, o que restou a Jair Bolsonaro, a quem já se dispensou, até em textos que se queriam de fino trato, a condição de líder de uma guinada conservadora virtuosa, ainda que ele fosse um tanto tosco? Só a sabotagem. Qual a sua alternativa para o arcabouço fiscal ou a reforma tributária? Nada. "Os tais textos passaram vergonha?" Bem, eles nem acertam nem erram. Seus autores, sim.

O imbrochável e inelegível resumiu a complexidade do seu credo político no Twitter —transcrevo como está lá. "Não à Reforma Tributária do PT: Lula se reúne com o Foro de SP (criado em 1990 por Fidel, FARC, ...), diz ter orgulho de ser comunista, que na Venezuela impera a democracia, é amigo de Ortega que prende padres e expulsa freiras e seu partido comemorou a minha inelegibilidade. (...) Do exposto, a todos aqueles que se elegeram com nossa bandeira de ‘Deus, Pátria, Família e Liberdade’, peço que votem contra a PEC da Reforma Tributária do lula"

Vinicius Torres Freire - O duelo de titãs afundados

Folha de S. Paulo

Bolsonaro versus Tarcísio ou chutes sobre preços não são o assunto da Reforma Tributária

No jorro de notícias e conversas fiadas sobre a Reforma Tributária, dá-se grande importância à pinimba entre Tarcísio de Freitas e Jair Bolsonaro. Hum.

O capitão das trevas gostaria de derrubar a mudança dos impostos porque, quando não é um parasita, quer depredar "o sistema" ou espalhar imundície por onde quer que exista vida civilizada. Como Freitas passou a negociar um acordo com os adeptos da reforma, os Bolsonaro convocaram a seita deles para dar uma surra digital no governador de São Paulo, até a semana passada um vassalo nominal do bolsonarismo.

O assunto tem ainda menos relevância prática do que essas conversas equivocadas e chutes sobre qual bem ou serviço vai custar mais ou menos com a Reforma Tributária, se o "streaming", o bombom, o remédio, o jet-ski ou sei lá o quê. Não saberemos tão cedo. O assunto central não é esse, é a aprovação do imposto sobre valor agregado com a maior uniformidade possível. O resto vai depender da longa e complicada implementação da reforma, se passar.

Eliane Cantanhêde - Haddad e Tarcísio, cara a cara

O Estado de S. Paulo

Adversários em São Paulo em 2022, Haddad e Tarcísio podem se encontrar novamente em 2026?

A reforma tributária pôs cara a cara o ministro Fernando Haddad (Fazenda) e o governador Tarcísio Gomes de Freitas (SP). Um é do PT, nome forte do presidente Lula e chegou ao segundo turno da eleição à Presidência em 2018. O outro é do Republicanos e estreou na política já como candidato vencedor ao governo do principal Estado do País, graças ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Adversários em 2022 em São Paulo, são virtuais herdeiros do espólio de Lula e Bolsonaro e podem se enfrentar de novo em 2026.

A votação da reforma consolidou a posição de Haddad como o maior articulador político de Lula e catapultou Tarcísio à política nacional, como líder de uma nova direita mais moderna e pragmática. O risco dele é perder o que já tem, ou tinha – o apoio de Bolsonaro – e não ganhar o que ainda não tem – a simpatia do centro e da maioria da centro-direita.

Câmara faz história ao aprovar a reforma tributária

Por Raphael Di Cunto, Marcelo Ribeiro, Jéssica Sant’Ana, Larissa Garcia e Rafael Walendorff /Valor Econômico

Brasília - Em uma sessão histórica que durou mais de 15 horas e varou a madrugada, a Câmara dos Deputados aprovou, em dois turnos, a proposta de emenda à Constituição (PEC) 45, a reforma tributária. Após décadas de tentativas fracassadas, prevaleceu o acordo para uma reforma que deve simplificar a cobrança de tributos no país, levar ao fim da guerra fiscal, atrair investimentos e promover o crescimento econômico.

A sessão foi encerrada à 1h53 e será retomada nesta sexta-feira (8) às 10h para a votação de quatro destaques do PL propondo supressão de pontos da reforma. Após a conclusão, o texto seguirá para o Senado.

No primeiro turno, a PEC passou por 382 votos a 118. Já na segunda rodada, o placar foi de 375 a 113. O apoio à proposta superou com folga o quórum de 308 votos para aprovar uma emenda constitucional. Apoiaram o texto inclusive parlamentares de partidos que criticaram o projeto nos últimos dias. No primeiro turno, dos 99 deputados do PL, 20 votaram a favor da proposta, 75 seguiram a orientação do partido, determinada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, e dois ausentaram-se.

A aprovação ocorreu após uma semana de intensas negociações. Nessa quinta, na reta final, o relator, deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), que já tinha acenado com mudanças no texto nos últimos dias, acolheu novas sugestões de setores econômicos, governadores e prefeitos, abrindo caminho para a votação da proposta. O presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), liberou a votação remota para facilitar a sua aprovação.

José de Souza Martins* - O réu invisível não foi julgado

Eu & / Valor Econômico

O tempo todo, desde a posse do então presidente, um poder invisível se mostrou por trás das irracionalidades do seu modo de governar, do qual foi protagonista eventual

Em dias recentes, por maioria de votos, “o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) declarou a inelegibilidade do ex-presidente da República Jair Bolsonaro por oito anos (...) pela prática de abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação durante reunião realizada no Palácio da Alvorada com embaixadores estrangeiros no dia 18 de julho” de 2022. O caso foi suscitado pelo PDT.

Em seu relatório, o juiz relator, ministro Benedito Gonçalves, ressaltou conexões do ato do primeiro investigado que configuram “conduta ilícita em benefício de sua candidatura à reeleição”. Eleição tem regras. O candidato não é o fulano, mas a personificação do que na lei o candidato pode ser.

Pode-se dizer que o conjunto dos indicadores que levaram à decisão do TSE expõe o sentido antidemocrático de extenso conjunto de posturas e ações não só do primeiro investigado. Mas, em interpretação sociológica, de sua personificação do difuso coletivo de inspiração autoritária de que foi e tem sido ele agente e porta-voz.

Marli Olmos - Paralisar fábricas continua a ser eficaz

Valor Econômico

A julgar pela lista de demandas indústria automobilística ainda vai dar muito trabalho para o governo

No início da década de 1980, sob a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva, os metalúrgicos do ABC faziam greves por melhores salários. Hoje, as paralisações das fábricas são conduzidas pelas próprias empresas, sob a alegação de queda nas vendas. O enredo se inverteu. Mas parar linhas de produção continua a ser uma forma eficaz de chamar a atenção da sociedade e, principalmente do governo, que tem demonstrado boa vontade na busca de soluções para amparar o setor.

Na semana passada, a Volkswagen anunciou paralisações em todas as suas fábricas do Brasil. Três dias depois o governo anunciou a liberação de mais R$ 300 milhões para o programa de incentivos fiscais para compra de carros com descontos. Outros R$ 500 milhões já haviam sido liberados no início de junho. Concedidos ao setor como créditos tributários, os recursos foram obtidos por meio da reoneração do diesel.

Armando Castelar Pinheiro* - Narrativas econômicas sobre 2023

Valor Econômico

O mais provável é que uma nova era de mais crescimento e menos inflação se consolide no segundo semestre

George Akerlof, professor na Universidade da Califórnia, Berkeley, ganhou o Nobel em economia em 2001. Robert Shiller dá aula na Universidade de Yale e recebeu o Nobel em economia em 2013. Juntos, escreveram “Animal Spirits: How human psychology drives the economy, and why it matters for global capitalism” (Princeton University Press, 2009).

O livro, como sugere o título, é um esforço de trazer ensinamentos da economia comportamental, em geral trabalhada no campo da microeconomia, para a discussão de temas macroeconômicos, como os ciclos econômicos. Não é um desafio trivial, pois muito do que se sabe sobre os vieses cognitivos em que se baseiam as análises nessa área - e algumas políticas, como as de perfil regulatório - é baseado em estudos sobre o comportamento individual, o que não se transmite tão diretamente para o espaço coletivo.

Claudia Safatle - Avanços na definição da meta de inflação

Valor Econômico

Tirou-se do horizonte a sofreguidão que ficava a cada mês de junho, quando, de forma casuística, o governo, mediante o CMN, decidia qual seria a meta de inflação a ser perseguida

A decisão, tal como ficou, não foi só que a meta para a inflação será contínua, aferida a cada mês com base na inflação acumulada nos 12 meses anteriores. Mais do que isso: a decisão foi de que a meta, agora, é permanente, de 3% com uma banda de variação de 1,5 ponto para cima ou para baixo. Tornou permanente uma meta que era decidida a cada ano. Isso sim foi um grande avanço, embora nada tenha a ver com prazos. Tirou-se do horizonte a sofreguidão que ficava a cada mês de junho, quando, de forma casuística, o governo, mediante o Conselho Monetário Nacional (CMN), decidia qual seria a meta de inflação a ser perseguida pelo Comitê de Política Monetária (Copom). E, como consequência, qual seria a taxa de juros necessária para levar a inflação para a meta.

O Copom já não trabalhava com ano calendário quando, por algum choque de preços, a inflação se descolava da meta.

Vamos aos prazos: 1) O prazo que o Banco Central terá para trazer a inflação, medida pelo IPCA, para a meta, deverá ser definido pelo próprio BC. Isso dependerá de um cardápio de circunstâncias, do tipo de choque que produziu o desvio, se ele é persistente ou não, da situação da economia no momento que o choque aconteceu.

Fernando Gabeira - Vamos falar de Venezuela?

O Estado de S. Paulo

Maduro, com medo de perder o poder, acabou confirmando para o mundo algo de que se dúvida apenas no Brasil: a Venezuela não é uma democracia

Ainda que por caminhos tortuosos, foi bom a Venezuela voltar a ser debatida no Brasil. Afinal, somos vizinhos, temos uma fronteira de 2.199 km, os yanomamis vivem nos dois países, compartilhamos o Monte Roraima, uma atração internacional, e 280 mil pessoas pedem refúgio no Brasil, a maioria delas venezuelana. Isso sem falar na dimensão econômica, a energia da Usina Hidrelétrica de Guri, que abasteceu Roraima até 2019, o comércio intenso entre os dois países, o contrabando de gasolina na fronteira.

No passado, quando visitei Caracas, até a água mineral nos restaurantes vinha do Brasil. Eram tempos melhores. Mais tarde, vi dezenas de caminhões em Pacaraima, na fronteira, parados porque os venezuelanos não estavam mais pagando suas compras. Há ainda em aberto uma dívida pública com o Brasil.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

PEC aprovada na Câmara é apenas o primeiro passo

O Globo

Nenhuma reforma é tão complexa, desafiadora e transformadora quanto a tributária. O trabalho mal começou

A aprovação da reforma tributária na Câmara dá um passo fundamental para a reformulação do caótico sistema de impostos brasileiro. É apenas o primeiro, porém. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 45 traça um plano de transição até 2033 para a nova estrutura de tributos. Ele terá de ser seguido à risca. Fora isso, ainda há imperfeições que devem ser corrigidas.

Uma vez que a PEC esteja aprovada no Senado, o primeiro desafio será técnico. Para os dois novos impostos criados — CBS e IBS —, será necessário desenvolver um mecanismo automático de créditos, por meio do qual as empresas possam descontar do que recolherem aquilo que outras já pagaram — só o consumidor final pagará a alíquota cheia. Tais compensações precisam ser implementadas num sistema eletrônico capaz de integrar instâncias fiscais de todo o país. Não será trivial.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - Sentimental

 

Música | Zeca Pagodinho - Sambas pras moças