quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Dias de derrotas para as direitas golpistas. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Manifestações, alguns senadores, mais processos e até Trump dão ajuda ao contragolpe

PEC da Bandidagem é vital para a cúpula do centrão-direitão e não será enterrada facilmente

"É campeão! É campeão", gritavam na semana passada uns tipos que são deputados federais. Comemoravam na Câmara vitórias contra a decência mínima na política, como a PEC da Bandidagem. Aprovaram também a urgência para o projeto de anistia a Jair Bolsonaro e o resto da camarilha.

Na maratona de rasteiras, conspirações, acordões e golpes que tem sido a política do Brasil, pareciam dias de reação vitoriosa do partido da corporação parlamentar e da insurreição permanente da extrema direita.

Quem cancela agora é a direita. Por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Após Charlie Kirk, grupo político repete métodos que antes atribuía à esquerda

Na próxima semana, o jogo se inverte de novo e os progressistas atacam

Nas últimas semanas, estamos assistindo à mais completa desmoralização da pretensão da direita de ser a última resistência na defesa das liberdades de fala, opinião e pensamento. Pretensão que, aliás, explica parte do seu sucesso eleitoral diante de uma esquerda progressista que se especializou em cancelamentos de ideias e pessoas e em toda a sorte de punições ao que considera ofensivo ou moralmente errado.

Desde o começo da grande virada eleitoral à direita radical, em 2016, a esquerda progressista se especializou em reivindicar censura e exclusão, enquanto a extrema direita se apresentava como defensora intransigente de certas liberdades: de expressão, opinião, imprensa e, claro, de possuir armas.

A Câmara se lambuza. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Ao juntar PEC da Blindagem com proposta da anistia, deputados serão derrotados nas duas

Erro de cálculo uniu o centro, levou milhares às ruas e deu a Lula chance de reeditar frente ampla

A PEC da Blindagem está com o destino selado —morrerá na praia. Falta só definir quando e como será feito o enterro: na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, no banho-maria regimental, na rejeição do plenário ou na ilegalidade decretada pelo Supremo Tribunal Federal.

Ideal seria que a questão fosse resolvida pelos senadores, no ambiente de um Congresso interessado na defesa da própria reputação. Deixar a solução à Justiça falaria sobre a incapacidade dos políticos de atuar em prol do bom senso, no repúdio ao descaramento da Câmara.

Rematada estupidez. Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Estratégia de Eduardo Bolsonaro para salvar o pai só piorou a situação da família

Prisão domiciliar parece mais longe e capacidade de influenciar eleição é declinante

Se você ou um familiar seu está prestes a ir para a cadeia, a última pessoa com a qual você deve indispor-se é o juiz de execuções penais, a quem cabe decidir sobre regime de encarceramento, concessão de benefícios etc. Esse truísmo se torna ainda mais ululante quando o local em que a prisão se cumprirá ainda está em aberto, indo de cela em presídio comum a domiciliar.

À luz dessas considerações, parece contraproducente a estratégia de Eduardo Bolsonaro de tentar salvar o pai estimulando Donald Trump a impor sanções ao Brasil e ao ministro do STF Alexandre de Moraes, que será o responsável por supervisionar o cumprimento de pena de Jair.

Confira o discurso de Lula na ONU, ontem, 23/09/2025

 

Poesia | Tecendo a Manhã, de João Cabral de Melo Neto

 

Música | Frevo Nº 3 - Leila Pinheiro

 

terça-feira, 23 de setembro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Reconhecimento da Palestina é gesto relevante, mas inócuo

Por O Globo

Movimento mundial resulta de isolamento diplomático de Israel, porém não deverá ter efeito prático

Reino Unido, França, Canadá, Austrália, Bélgica e Portugal reconheceram nos últimos dias o Estado da Palestina — posição adotada pelo Brasil desde 2010. Com isso, passa de 150 o total de países que formalizaram o reconhecimento. No último dia 12, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou por ampla maioria de 142 votos a favor e apenas 10 contrários (com 12 abstenções) uma resolução conclamando a comunidade internacional a dar “passos tangíveis” e “irreversíveis” para a implementação da solução de dois Estados, Israel e Palestina, convivendo lado a lado em paz, na região hoje palco de guerra brutal.

O movimento em prol do reconhecimento da Palestina é reflexo do isolamento diplomático inédito de Israel, de consequências ainda imprevisíveis. Resulta da campanha militar sangrenta promovida pelo governo Benjamin Netanyahu na Faixa de Gaza contra o grupo terrorista Hamas depois dos ataques bárbaros de 7 de outubro de 2023. Trata-se de gesto simbólico relevante, cuja intenção imediata é pressionar Netanyahu a recuar nos planos de ocupar Gaza e a aceitar um cessar-fogo no conflito que já matou dezenas de milhares de civis palestinos. Na prática, porém, tem tudo para ser inócuo.

Muito além da esquerda. Por Merval Pereira

O Globo

A blindagem dos parlamentares é um abuso tão grande que é plausível ver, na rejeição maciça, apoio do cidadão comum

Há muito tempo não se veem manifestações tão fortes quanto as de domingo em todas as capitais do país, especialmente no Rio e em São Paulo. Foi uma resposta muito clara da sociedade aos congressistas. Caracterizá-las como “da esquerda” é menosprezar que os temas objetos dos protestos, especialmente a PEC da Blindagem, ofendem a cidadania, seja de esquerda ou de direita. O debate sobre a anistia tem, sim, caráter político e, segundo as pesquisas, divide os eleitores, como tudo nesse tópico no momento. Mas a blindagem dos parlamentares é um abuso tão grande que é plausível ver na rejeição maciça um apoio do cidadão comum. É absurdo achar que a esquerda, hoje em dia, pode mobilizar uma multidão como aquela.

Os perigos do narcoestado. Por Fernando Gabeira

O Globo

Organização policial foi devastada pelos problemas da própria cúpula do governo. Governadores foram presos

Um ex-delegado-geral de São Paulo é assassinado pelo PCC em Praia Grande, São Paulo. Deputados votam a PEC da Blindagem para não ser presos ou processados sem a autorização dos pares. Barcos de guerra e submarino americanos navegam no Caribe, diante da Venezuela.

São três fatos que não parecem ter relação. Mas, na cabeça de um velho morador do Rio, eles se enlaçam harmoniosamente a ponto de despertar o alarme: o Brasil corre o risco de se transformar num narcoestado com profundas implicações para a segurança nacional.

O assassinato do delegado Ruy Ferraz Fontes acontece algumas semanas depois de a polícia detectar a infiltração financeira do PCC. Como lembra Raul Jungmann, já não se vive mais o tempo de segurança pública em que o alvo da polícia eram comunidades pobres. O crime estava enraizado na Faria Lima, coração do mercado financeiro.

O ‘big stick’ de Trump. Por Pedro Doria

O Globo

Empresário que o enfrentar internamente sofrerá. O que se curvar terá o arsenal americano trabalhando para seu negócio

Um jantar de Estado é coisa séria. Um jantar de Estado em que se sentam o rei britânico, o presidente americano, e todos vestem fraque com gravata branca é, possivelmente, o ponto alto da tradição diplomática. Na quarta-feira passada houve um jantar desses, no Castelo de Windsor, com o rei Charles e sua mulher, Camilla, Donald Trump e a primeira-dama Melania logo à direita dos anfitriões. Os dois casais, evidentemente, no centro da mesa. Sentaram-se, na longa mesa retangular, mais 150 pessoas. Coisa grande. À esquerda do rei estavam o premiê britânico, Keir Starmer, e senhora. Conte cinco cabeças depois de Starmer, e lá estava o CEO da Nvidia, Jensen Huang. Aí Sam Altman, CEO da OpenAI. E Tim Cook, da Apple. E Satya Nadella, da Microsoft. Em jantares assim, nada nunca é acidental. Muito menos a distância de cada convidado para o rei.

Manifestações de domingo foram resposta à impunidade e ao golpismo. Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Desde o Natal, o ex-presidente da Câmara Arthur Lira articulava a aprovação da PEC da Blindagem, que ocorreu com folga de 45 votos, juntando parlamentares de todos os matizes

O vento mudou na política, agora favorece mais à esquerda do que à direita, porque a oposição entrou em confronto com o espírito democrático e patriótico da maioria da população. As manifestações de domingo contra a PEC da Blindagem e o PL da Anistia marcaram esse ponto de inflexão. A entropia, o fisiologismo e o patrimonialismo, anabolizados pelas emendas parlamentares, são protagonizados por políticos ligados a velhas oligarquias, cuja reeleição não depende da opinião pública nem de redes sociais, mas de tradicionais "currais eleitorais". Agora, a Câmara descobriu que ainda existe no Brasil uma sociedade civil organizada, capaz de se indignar. Eleito pelo voto majoritário, cabe ao Senado corrigir o rumo do Congresso.

Bolsonarismo dobra a aposta e levanta a bola para Lula. Por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Presidente mantém distância de qualquer acordo pela evidência de que é o maior, senão o único, a ganhar com essa arruaça na praça pedagiada do golpismo

A nova leva de sanções americanas não veio no dia seguinte ao julgamento e, sim, das manifestações que evidenciaram a perda do monopólio do bolsonarismo sobre as ruas. O Brasil de domingo não foi movido por um idílio democrático, mas pela indignação - que beira a raiva, basta ver o tom desaforado dos cartazes que povoaram avenidas - com o risco de a página virada deste julgamento vir a ser reaberta por acordo que permita ao crime organizado se refastelar no Congresso Nacional.

As novas sanções sucedem, portanto, ao fracasso deste acordo por meio do combo PEC da blindagem/anistia. Sucedem, ainda, ao isolamento do bolsonarismo, evidenciado pela briga em praça pública entre o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o presidente de seu partido, Valdemar Costa Neto. E não apenas, vide desespero de figuras do Centrão, como o senador Ciro Nogueira (PP-PI), mestre na arte de tirar leite da extrema-direita para alimentar suas próprias reses.

O Centro moderado está no cercadinho. Por Christopher Garman

Valor Econômico

A vantagem em 2026 será de quem conseguir surfar o desalento com mais habilidade

Desde quando o então presidente Jair Bolsonaro falava com seus apoiadores em frente do Palácio do Alvorada, entrou para o dicionário político a expressão “falar para o cercadinho”. O termo se aplica à situação em que uma liderança política fala somente para seus apoiadores fiéis, sem preocupação em atingir um público mais amplo, mais moderado ou de centro.

No governo Bolsonaro, os temas do cercadinho incluíam principalmente ataques à mídia e ao Judiciário e as pautas de costume, em falas dirigidas exclusivamente à sua base leal. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva supostamente estabeleceu seu próprio “cercadinho” retórico: durante a campanha presidencial de 2022 e logo após eleito, focou seu discurso em aumentar gastos, levando a uma desvalorização do câmbio. Suas críticas aos ricos e empresários, usadas para justificar o gasto, foram vistas como um abandono do “centro”. Esse mesmo diagnóstico foi feito por comentaristas em maio deste ano, quando o governo justificou a taxação dos ricos como meio de beneficiar trabalhadores e a população de baixa renda.

Por que países do Ocidente precisam de guerra. Por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Enquanto o presidente americano distribui suas tarifas, o Brics se organiza para reduzir ou eliminar os danos causados por Trump

A geopolítica está na moda. O termo foi criado no início do século XX pelo sociólogo sueco Rudolf Kiellén, que o definiu como a ciência que estuda os vínculos entre aspectos geográficos e os acontecimentos políticos dos Estados.

Obviamente, a discussão geopolítica decorre das medidas protecionistas e nacionalistas altamente agressivas da administração Donald Trump nos Estados Unidos. Nesse contexto, quando se realiza a 80ª Assembleia Geral da ONU, é oportuno resumir opiniões de dois grandes economistas americanos - Michael Hudson e Richard Wolff - expostas em live recente, depois da cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), na China.

O lulista número 1. Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

E Bolsonaro, quem diria?, empurrou as esquerdas de volta às ruas

Assim como Jair Bolsonaro empurrou altas patentes militares para uma tentativa de golpe e a cadeia, o bolsonarismo acaba de conseguir uma proeza que por décadas foi exclusividade do PT: botar as esquerdas nas ruas de todas as capitais do País, lotando a Avenida Paulista e a Praia de Copacabana, como havia muitos anos não se via. As manifestações da oposição encolhem, as de esquerda estão de volta.

A ilusão da paz. Por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

A reação do bolsonarismo eduardista ao acordão Valdemar-Temer pela anistia sem anistia – tudo em função do projeto Tarcísio presidente – era previsível e tem a agressividade derivada da leitura de que Jair Bolsonaro o aceitara. Faltava combinar com os russos...

Os russos, que impuseram a “anistia ampla, geral e irrestrita” como bandeira única da direita brasileira e que colhem a toxicidade da associação à PEC da Blindagem, consideram que o ex-presidente é vítima de chantagens ministradas por “até seus aliados mais próximos”. Traição light.

Paulinho da Dosimetria, outrora da Força, foi designado, indicado por Hugo Motta (cujo tutor é Ciro Nogueira, um dos “aliados mais próximos” de Jair), para materializar a superação a Bolsonaro – aos Bolsonaro: uma proposta, que teria aval do Supremo, para redução de penas, que beneficiaria marginalmente o ex-presidente, e que o manteria inelegível. A proposta se pode negociar, a revisão das punições para cada tipo penal; a inelegibilidade, não.

A dupla traição do bolsonarismo. Por Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

Para salvar Bolsonaro, o bolsonarismo se tornou apoiador incondicional da agenda de defesa da impunidade

Bancada bolsonarista parte para o tudo-ou-nada em defesa de seu líder máximo em um delírio suicida

Bolsonaro se elegeu em 2018 num tsunami conservador e antissistema. Dentre outras bandeiras, trazia o amor à pátria contra a ordem globalista que violava a soberania nacional e a rejeição à velha política brasileira, vista como corrupta. Brasil acima de tudo e Sergio Moro ministro da Justiça. Parece que foi um milênio atrás.

Em sua cruzada anti-institucional, Bolsonaro tentou minar a Justiça eleitoral. Atacou a democracia brasileira, mas foi vencido. Judiciário, Congresso, Forças Armadas, imprensa; todos tiveram seu papel em limitá-lo. Foi derrotado nas urnas que tanto tentou deslegitimar e depois investigado, julgado e condenado pela trama para negar esse resultado.

27 anos de prisão é muito ou é pouco? Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Discussões sobre o que configura uma pena justa sempre têm algo de metafísico

Efeitos dissuasórios de sanções penais deveriam ser inegociáveis, sob risco de inviabilizar vida em sociedade

Meu lado sádico se deleitaria em ver o ex-presidente passando uma longa temporada na Papuda, mas não creio que ele valha o sacrifício de minha coerência.

Sempre abracei o minimalismo penal e não vou mudar de posição agora só porque não tenho apreço pelo condenado. A discussão de penas tem algo de metafísico. O que é uma pena justa? Exceto pela lei de talião, o famoso "olho por olho" que consta da Bíblia, correspondências retributivas não são óbvias. Quantos anos de cadeia "pagam" um assassinato?

Execuções, blindagens, sigilos: um país nas mãos do crime organizado. Por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Infiltração de quadrilhas nas instituições impede diferenciar bandido de mocinho

Deputado preso no Rio mostra o estágio de simbiose entre Estado e delinquência

Ao eliminar adversários com disparos de fuzil no meio da rua, não importando a vítima, um ex-delegado-geral da Polícia Civil ou um empresário delator, o PCC manda um recado.

O crime —que ao longo dos anos vem estabelecendo uma relação de simbiose com as estruturas de Estado— está no poder. Não só em São Paulo, mas no país inteiro, a infiltração de quadrilhas organizadas nas instituições chegou a ponto de não se saber quem é bandido, quem é mocinho. Um dos espelhos da confusão é a Câmara em Brasília, que, ao promover a vergonhosa PEC da Blindagem, espalha a impunidade para as assembleias estaduais.

Justiça não é consultoria. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O Supremo se transformou numa espécie de muro de arrimo dos Poderes Legislativo e Executivo

Não é normal magistrados atuarem como consultores em questões a serem resolvidas na política

A baixa qualidade vigente no Parlamento e a falta de operadores políticos sêniores no entorno do presidente da República transformaram o Supremo Tribunal Federal numa espécie de muro de arrimo dos Poderes.

Nada mais se resolve no âmbito do Legislativo, nenhuma tratativa com o Executivo leva à solução de dissensos e, no cenário de impasses, o Judiciário é chamado a negociar, quando sua função é julgar o que está dentro ou fora da lei.

Um acordão em que ninguém ganha e o país perde. Por Vera Magalhães

O Globo

Resistência da extrema direita e revolta mostrada nas ruas por setores que vão do centro à esquerda demolem ideia de 'pacificar' o Brasil pela contemporização

A pacificação do país depende do respeito à Constituição, da aplicação das leis e do fortalecimento das instituições, não havendo possibilidade de se confundir a saudável e necessária pacificação com a covardia do apaziguamento, que significa impunidade e desrespeito à Constituição Federal. E mais: significa incentivo a novas tentativas de golpe de Estado.

Ministros do STF deram aval a dosimetria. Por Malu Gaspar

O Globo

Os ministros do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes deram aval à articulação comandada pelos deputados Paulinho da Força (Solidariedade -SP) e Aécio Neves (PSDB) e pelo ex-presidente Michel Temer para reduzir as penas dos golpistas do 8 de janeiro. De acordo com o plano apresentado a eles na última semana, a versão final do projeto vai reduzir as penas para os crimes de abolição do estado democrático de direito e golpe de estado e ainda estabelecer que, quando houver os dois crimes na mesma situação, valerá apenas a pena de um deles.

Com essa mudança, todos os presos pelos ataques do 8 de janeiro deverão ser colocados em liberdade. A pena de Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão pela trama golpista, também será reduzida, assim como as dos outros condenados do chamado núcleo crucial, julgados no início de setembro.

Poesia | Não deixe o amor passar, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Chico Buarque - Sinhá

 

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Lula deve adotar tom sereno em discurso na ONU

Por O Globo

Provocações a Trump não resultarão em benefícios. Ele deveria manter a tônica nos valores caros ao Brasil

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abrirá a 80ª Assembleia Geral da ONU nesta terça-feira em conjuntura sui generis. Os recém-completados oito meses do segundo mandato de Donald Trump transformaram a diplomacia, abalaram o comércio global e levaram as relações entre Brasil e Estados Unidos ao nível mais baixo da História. Na tentativa de influenciar o julgamento de Jair Bolsonaro e seus apoiadores por golpe de Estado, Trump pôs o Brasil no nível mais alto do tarifaço aos exportadores e impôs sanções a autoridades. Seria ainda mais injusto se novas medidas estiverem a caminho. Como a motivação dele é política, o impasse está dado. Tal situação, porém, não exime Lula da necessidade de adotar um tom sereno e responsável. Ele deve evitar declarações inflamatórias ou desafiadoras, apenas para agradar a seu eleitorado e tentar posar de líder global, quando o Brasil não tem musculatura nem pretensão a isso. Provocações não resultarão em benefícios.

Manifestantes vão às ruas em todas as capitais contra a PEC da Blindagem e anistia

Marcelo Toledo / Folha de S. Paulo

Atos também criticaram o ex-presidente Jair Bolsonaro e o presidente da Câmara, Hugo Motta

Artistas impulsionaram manifestações em capitais como Salvador, Belo Horizonte e Maceió

Manifestantes foram às ruas em todas as 27 capitais neste domingo (21) para protestar contra a PEC da Blindagem, em atos que também contaram com críticas à proposta de anistia aos condenados no 8 de Janeiro, ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). A presença de artistas impulsionou manifestações em alguns locais.

Os atos aconteceram logo de manhã em Brasília, Salvador, Maceió, Natal, São Luís, Teresina, João Pessoa, Belo Horizonte, Cuiabá, Campo Grande, Manaus e Belém, e ganharam tração à tarde com as manifestações em São Paulo, Rio de Janeiro, Vitória, Curitiba, Porto Alegre, Florianópolis, Fortaleza, Recife, Aracaju, Macapá e Goiânia. As últimas ocorreram na região Norte, entre o final da tarde e início da noite, em Rio Branco, Porto Velho, Palmas e Boa Vista.

Os protestos foram convocados às pressas no decorrer da semana pelas frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular, ligadas ao PSOL e ao PT e que reúnem movimentos como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto).

A manifestação foi chamada em protesto contra o Congresso Nacional após a votação da PEC da Blindagem e da urgência para o projeto da anistia.

Na capital baiana, o protesto em frente ao Cristo da Barra reuniu milhares de pessoas e foi encorpado com as presenças de artistas como a cantora Daniela Mercury e o ator Wagner Moura, que discursaram enquanto os presentes gritavam frases como "sem anistia", "fora PEC da impunidade" e "fora PEC da bandidagem". A atriz Nanda Costa também esteve no ato.

Disputa política em torno do Orçamento não se resume às emendas parlamentares. Por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

Protagonismo do Legislativo cresce com o achatamento dos recursos de alocação livre e dos investimentos

Ministério do Planejamento prevê que 92,4% das despesas primárias são despesas obrigatórias

No final de agosto, o governo federal apresentou a Proposta de Lei Orçamentária Anual (PLOA) para 2026. A peça prevê arrecadação superior a R$ 6,5 trilhões, dos quais R$ 4,3 trilhões destinados ao orçamento fiscal, que exclui as despesas com seguridade social e investimentos de empresas estatais.

Concentrando-nos nas despesas, a proposta do Ministério do Planejamento prevê que 92,4% das despesas primárias, aquelas que incluem os serviços ofertados à população e os investimentos públicos, são despesas obrigatórias.

Levitsky e a defesa da democracia nos EUA e no Brasil. Por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

A tese que a ausência de experiência com o autoritarismo explica a falha dos controles nos EUA não se sustenta

A pergunta fundamental é por que a defesa da democracia não foi exitosa em outros países com passado autoritário

O abuso de poder sob Trump é contraintuitivo considerando a renda per capita, a longa experiência democrática dos EUA e a independência histórica do Judiciário nos EUA. Levitsky argumentou recentemente que o fracasso da defesa da democracia sob Trump deve-se fundamentalmente ao fato de que os EUA não passaram pela experiência de governos autoritários.

A ausência de autoritarismo no passado explicaria assim a inação —a grande capitulação— no presente. E estendeu sua análise para o Brasil: aqui o passado autoritário tornou a sociedade vigilante.

Atos em todas as capitais do país pressionam Câmara a vetar anistia, e Senado já fala em sepultar blindagem.

Por Lucas Salgado, Cibelle Brito, Samuel Lima, Sarah Teófilo e Geralda Doca / O Globo

Manifestação deste domingo foi a maior organizada por apoiadores do governo Lula desde as eleições de 2022, e ficou no patamar de protestos bolsonaristas recentes

 — Rio, São Paulo e Brasília -  Em atos públicos que reuniram apoiadores do governo Lula, movimentos sociais e parte da população que nas últimas semanas demonstrou descontentamento com decisões do Congresso, mais de 80 mil pessoas foram às ruas no Rio e em São Paulo, ontem, para se manifestar contra a PEC da Blindagem e a proposta de anistia a condenados pela tentativa de golpe. As manifestações, que também foram realizadas em todas as outras 25 capitais, contaram com artistas e tiveram como principais alvos parlamentares do Centrão e aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) que articulam as duas propostas. No Senado, o relator da PEC e o presidente do colegiado que analisará a proposta de blindagem afirmaram que o texto deve ser derrotado já na sessão desta quarta-feira.

Como mostrou O GLOBO neste domingo, a maioria dos senadores já disseram ser contrários à PEC, que busca ampliar as travas para a abertura de processos criminais contra parlamentares e ainda inclui presidentes de partidos no rol dos beneficiados. O volume das manifestações de ontem gerou preocupação entre aliados de Bolsonaro, segundo a colunista Bela Megale, e também aumentou a pressão sobre a Câmara, que aprovou a PEC na semana passada, para barrar o avanço de uma anistia “ampla e irrestrita” que poderia beneficiar o ex-presidente e outros envolvidos nos ataques à democracia.

Mais de 30 cidades têm atos contra a anistia e a PEC da Blindagem

Por O Estado de S. Paulo

Mobilizações promovidas pela esquerda reuniram manifestantes em mais de 30 cidades, incluindo todas as capitais

Artistas, políticos e movimentos sociais de esquerda protestaram em mais de 30 cidades brasileiras, incluindo as capitais, contra a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Blindagem e a anistia a condenados pela tentativa de golpe em 8 de Janeiro de 2023. Os maiores atos ocorreram em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Na capital paulista, manifestantes levaram uma grande bandeira do Brasil, em um contraponto à dos Estados Unidos, que foi exibida por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) durante ato a favor da anistia, no dia 7 de Setembro. Segundo o Monitor do Debate Público da USP, 42,4 mil pessoas compareceram ontem à Avenida Paulista. No Rio, de acordo com o mesmo instituto, foram 41,8 mil.

Os atos em todo o País foram marcados por críticas ao Congresso, após a aprovação do requerimento de urgência do projeto que anistia os condenados pelos ataques do 8 de Janeiro, e surpreenderam aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) pelo tamanho. Foram as maiores manifestações da esquerda em tempos recentes. Nas ruas, havia cartazes pedindo que Bolsonaro cumprisse a pena de 27 anos e 3 meses, imposta pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Constrangimento nas ruas. Por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

O PT estaria apto a explorar o ânimo popular, mas fica meio ridículo ao pregar ética na política

O mérito não é dos artistas. O público significativo que compareceu aos protestos realizados neste domingo foi, acima de tudo, resultado de uma onda de indignação legítima e espontânea, formada ao longo da última semana contra as votações no Congresso Nacional, que fizeram avançar o pacote da impunidade – composto pelo PL da Anistia, para livrar Jair Bolsonaro e outros golpistas condenados da cadeia, e pela PEC da Blindagem, para reduzir enormemente as chances de que políticos com foro privilegiado paguem por seus crimes.

O golpe e os historiadores do futuro. Por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

Não faz nenhum sentido equiparar os partícipes da turba do dia 8 de janeiro com os mentores de um golpe naquele momento já condenado

Ao ler o noticiário do julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a tentativa de golpe de Estado, fica-se com a impressão de que ele teria sido abortado graças a alguns ministros do Supremo, que defenderam sozinhos a democracia. É como se fossem os únicos atores relevantes. Ademais, quase apagaram a distinção entre os coordenadores dessa tentativa e a turba que depredou a sede dos Três Poderes no dia 8 de janeiro, como se fossem, por sua vez, eventos concatenados, obedecendo a uma mesma orientação, a última etapa de um processo previamente programado. Imaginem o que dirão os historiadores do futuro quando se debruçaram sobre esses fatos e avaliarem suas respectivas narrativas.

Em crise, ONU busca reinvenção. Por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

A ONU enfrenta uma crise sem precedentes, mas ainda não pode ser dada como vencida

Às vésperas da abertura de sua Assembleia-Geral, a ONU enfrenta a crise mais grave desde sua criação. A relação com os EUA nunca esteve tão desgastada. Donald Trump suspendeu a participação americana em várias agências multilaterais, reduziu e atrasou contribuições financeiras. A instituição, para sobreviver, recorre a medidas de austeridade inéditas.

Trump reduziu aportes e bloqueou avanços em áreas que considera “woke” – gênero, clima, desenvolvimento sustentável. Richard Gowan, na revista Foreign Policy, observou que a estratégia não é abandonar a ONU, mas ter uma presença reduzida, contribuindo menos sem abrir mão do poder de veto no Conselho de Segurança.

País está na direção errada. Por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Provavelmente, a população atribui seu emprego e sua renda não ao governo, mas ao esforço pessoal

A pergunta, feita comumente pelos institutos de pesquisa, parece simples: o país está caminhando na direção certa ou errada? Na primeira impressão, a questão refere-se ao governo central, responsável por levar a nação para este ou aquele lado. Então, sim, há nas respostas uma avaliação do governo federal. A última pesquisa Genial/Quaest, de setembro, trouxe má notícia para o governo Lula. Para 58% dos entrevistados, o país caminha na direção errada — resultado estável em relação à pesquisa do mês anterior. Para 36%, estamos na direção certa.

Isso combina com outra avaliação: 51% dos brasileiros desaprovam o governo Lula, ante 46% que aprovam. Tem lógica: se o governo vai mal, o país não pode ir bem. Mas não é apenas isso. O cidadão mora no seu município, não na Federação, de modo que o ambiente percebido em seu entorno deve influenciar na avaliação geral. Considerando que as pessoas não distinguem bem as atribuições de cada nível de administração, a culpa tende a ser atribuída ao “governo em geral”.

Pensamento maniqueísta é ferramenta de uso cotidiano. Por Miguel de Almeida

O Globo

Adjetivos de rejeição se resumem sempre aos mesmos, independentemente de cidade, até de classe social: ladrão, fascista etc.

A polarização é uma arma para corações fracos. Sem ela, há o imobilismo. Qualquer pesquisa mostraria que a diversidade traz indecisão e confusão, enquanto a escolha posta entre A ou B resulta num conforto de alma. Afinal, a múltipla oferta requer algo além do sim e do não.

Você não pode esquecer: pensar cansa.

Basta dar um pulo no boteco da esquina e fazer uma pesquisa por conta própria. Observe a comida por quilo. Ela ajudou o brasileiro a ganhar peso: na dúvida, serve-se muito do tudo à frente. A antiga fórmula de feijão arroz carne e salada oferecia uma receita vencedora em equilíbrio energético. Havia a sabedoria do prato feito. Escolhiam pelo glutão, que não precisava pensar.

Com as redes sociais e a chegada ao palco de uma turba desacostumada ao debate público, o pensamento maniqueísta transformou-se na ferramenta de uso cotidiano.

— Suco de laranja ou limão?

— Laranja!

— Limão, laranja ou caju com morango?

— Humm, como é que é?

Políticos blindados contra o povo. Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Sistema político brasileiro dá cada vez mais liberdades para políticos aprovarem o que bem entenderem em benefício próprio

A pressão popular, com milhões de pessoas nas ruas nesse domingo em todo o país, será suficiente para fazer com que deputados e senadores desistam de aprovar o pacote de benesses que os deixarão a salvo de qualquer responsabilização por crimes praticados durante seus mandatos (e mesmo fora deles)?

Essa pergunta certamente vai nortear os debates durante esta semana, mas há uma questão que a precede em importância: por que nossos parlamentares se tornaram tão desconectados da sociedade, a ponto de perderem o pudor de propor e aprovar algo que é claramente impopular, por colocarem seus interesses pessoais acima dos desejos da maioria da população?

Anti-bolsonarismo recupera as ruas em atos contra anistia e PEC da Blindagem

Por Maria Cristina Fernandes, Marcelo Osakabe, Paula Martini, Giullia Colombo e Tiago Angelo / Valor Econômico

Artistas como Chico, Caetano e Gil, movimentos populares e partidos progressistas lideram atos em ao menos 23 capitais, em crítica a decisões do Congresso que dificultam a punição de políticos

São Paulo, Rio e Brasília - Milhares de pessoas foram às ruas neste domingo (21), em ao menos 23 capitais do país, contra a chamada PEC da Blindagem e também contra a anistia a golpistas do 8 de janeiro. As manifestações, convocadas por políticos, movimentos populares, artistas e influenciadores, foram marcadas também por críticas ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).

No Rio, o ato teve a participação de cantores como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola e Djavan, que reforçaram o coro de “sem anistia” na praia de Copacabana, mesmo local de manifestações bolsonaristas. A manifestação teve a presença de 41,8 mil pessoas, segundo o Monitor do Debate Político, da USP em parceria com a ONG More in Common. É um público semelhante, dentro da margem de erro do levantamento, aos 42,7 mil bolsonaristas que participaram o 7 de setembro no mesmo local.

Poesia | Adiamento, de Fernando Pessoa

 

Música | Lysia Condé - Não volto não (Tico da Costa)

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