quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Vera Magalhães - Bolsonaro blinda a corrupção

O Globo

Jair Bolsonaro gostava de encher a boca para dizer que em seu governo não há corrupção. Gostava, porque, nas últimas vezes em que tratou do assunto, afirmou que não sabe dizer se há ou não.

Acontece que ele sabe, sim, a corrupção que acompanha não só seu governo, mas sua família, desde a gênese da construção de um império patrimonial erguido à custa de mandatos eletivos, lançando mão de toda a sorte de expedientes rasteiros para “otimizar” os ganhos provenientes deles.

E, desde que assumiu a Presidência da República, se utiliza do peso de seu poder para exigir de subordinados que usem a estrutura do Estado para blindar a família e os aliados e para impedir que esses esquemas nebulosos sejam apurados a fundo.

O que acontece agora, simultaneamente, na Polícia Federal, no Coaf, na Receita Federal e no Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI), órgão do Ministério da Justiça, é uma tentativa desesperada de proteger o filho Zero Um do presidente, o senador Flávio Bolsonaro, e o blogueiro explosivo Allan dos Santos, foragido da Justiça com extradição determinada pelo ministro Alexandre de Moraes.

Bernardo Mello Franco - Bolsonaro e Queiroga oferecem refúgio a turistas sem vacina

O Globo

O governo decidiu não cobrar o passaporte da vacina para permitir a entrada de turistas. O anúncio recoloca o Brasil na contramão do combate ao coronavírus. Enquanto dezenas de países adotam medidas para conter a Ômicron, o bolsonarismo estende o tapete vermelho à nova variante.

A exigência da imunização era defendida pela Anvisa, ligada ao Ministério da Saúde. Em duas notas técnicas, a agência sustentou a necessidade de barrar viajantes que não comprovassem a vacinação completa. O capitão ignorou os apelos e mandou seus capachos abrirem as fronteiras.

O ministro Marcelo Queiroga foi o porta-voz do servilismo federal. Em novo espetáculo de sabujice, ele invocou as liberdades individuais para justificar a ordem do chefe. “O presidente há pouco falou: às vezes é melhor perder a vida do que perder a liberdade”, macaqueou.

Elio Gaspari - A intolerância persegue Mendonça

O Globo

O advogado André Mendonça assumirá sua cadeira no Supremo Tribunal Federal depois de ter comido o pão que Asmodeu amassou. Ele é acompanhado pela pecha de suspeição que Jair Bolsonaro lhe atribuiu ao dizer que escolheria um ministro “terrivelmente evangélico”.

Mendonça é pastor de uma igreja, aceitou o rótulo e foi apoiado pela bancada evangélica, que se mobilizou em sua defesa. O doutor fez carreira no serviço público, foi um correto advogado-geral da União e um medíocre ministro da Justiça. Sua retórica é pedestre e áulica. Já chamou Jair Bolsonaro de “profeta” e foi buscar na frase do astronauta Neil Armstrong ao pisar na Lua a imagem de sua chegada à Corte: “É um passo para o homem e um salto para os evangélicos”. Menos, doutor.

Na caminhada para o Supremo, Mendonça alimentou um tempero teatral em torno da sua fé. Quando isso poderia lhe custar o voto de alguns senadores, passou pela sabatina com respostas de advogado.

Foi um exagero deixá-lo na geladeira por quatro meses. Currículo por currículo, o seu está na média das indicações para o tribunal. Exagero maior tem sido a desvalorização de um servidor por ser evangélico. Quem botou a fé nessa roda foi Bolsonaro. Mesmo assim, é má ideia acompanhar a lógica do capitão.

O Supremo Tribunal já teve bons e falsos católicos. Luiz Fux é judeu, e sua fé nunca se tornou critério para julgá-lo como profissional do Direito. As malfeitorias de alguns pastores tisnam o conjunto dos evangélicos. Felizmente, os malfeitos de alguns padres não produzem o mesmo efeito sobre o catolicismo. No fundo, o que há é intolerância.

Fernando Exman - STF diante do risco de um fato consumado

Valor Econômico

Emendas de relator tornam a democracia disfuncional

Ainda passa pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a esperança de que algo seja feito a tempo para restringir as emendas de relator ao Orçamento.

A poderosa ferramenta de construção artificial de maiorias não é invenção deste governo, mas ganhou força na atual legislatura sob os olhares coniventes de autoridades do Palácio do Planalto e de um presidente da República que teve pressa para formar uma base de sustentação no Congresso.

Para os que se beneficiam do instrumento, não importa se ele é capaz de tornar a democracia representativa cada vez mais disfuncional. E isso ocorre porque ele assegura a uns um melhor tratamento que a outros. Não há critério claro no acesso a esses recursos, tampouco transparência em sua utilização. A situação não será alterada por iniciativa da maioria dos parlamentares.

Também conhecidas como RP9, as emendas de relator provocam arrepios entre os bolsonaristas que não mantêm relações diretas com o Centrão. Estes reconhecem, sim, que o instrumento foi necessário para barrar as investidas da oposição contra o presidente da República e eventuais processos de impeachment. Ponderam que era a arma que estava à disposição, o meio necessário para assegurar um maior conforto ao presidente Jair Bolsonaro no Parlamento, mas agora lamentam o fato de o governo não ter mais como controlar a liberação de mais verbas orçamentárias.

Nilson Teixeira* - Alta da Selic de 100 pb em fevereiro

Valor Econômico

Parte preponderante dos efeitos deflacionários do aperto monetário de 725 pontos básicos ainda está por vir

O Brasil é um dos países com maior elevação de preços desde o fim do 1º semestre de 2020. A inflação IPCA aumentou de 1,9% em maio de 2020 para quase 11% em novembro. O movimento é expressivo quando comparado à mediana da inflação desde 1998 de 6% e ainda mais forte frente à mediana de 3,5% do período entre 2017 e 2019 - antes da pandemia.

Mesmo assim, a diferença da inflação atual frente à mediana entre 2017 e 2019 não é tão maior no Brasil - com um ciclo monetário em progresso - do que em outros países - com juros estáveis ainda por vários trimestres. A variação é de cerca de 7,5 pontos percentuais (pp) no Brasil, enquanto, por exemplo, é em torno de 4,5 pp nos EUA e na Alemanha. Essa é mais uma razão para não fazerem sentido as afirmativas de que haverá perda de ancoragem da inflação e dano à credibilidade da instituição caso o Banco Central (BC) não eleve o ritmo de alta dos juros. As alegações eram equivocadas antes mesmo das notícias negativas sobre a variante ômicron do coronavírus.

Vinicius Torres Freire - Roubança no país dopado

Folha de S. Paulo

Assim como crime de Bolsonaro, ataque ao Orçamento não causa mais escândalo

O dinheiro escondidinho das emendas parlamentares de "relator" já deu em pelo menos um escândalo, até com pacote de dinheiro filmado pela polícia. Mas o escândalo não causou escândalo (leia mais adiante).

A mumunha do direcionamento anônimo de verbas do Orçamento federal para feudos eleitorais de deputados e senadores, o "Orçamento secreto", é muito maior, mas não sabemos da extensão do rolo. Não há investigação ampla. Menos ainda haverá, claro, atitude do Congresso do centrão, que se lambuza com o Bolsolão, a troca de emendas pela sobrevivência política de Jair Bolsonaro.

O assanhamento moralista santarrão que contribuiu para a derrubada de Dilma Roussef e a eleição da extrema direita está dopado. "Indignação seletiva", como dizia o lugar comum. O país está dopado, estupidificado.

Bolsonaro cometeu crimes de responsabilidade em pencas, mas não é incomodado. Os inquéritos das rachadinhas da família se desfazem em chicanas. Não se sabe em que pé estão os inquéritos das "fake news" e dos comícios golpistas. A CPI da Covid vai dar no quê? Em um inquérito arquivado, sei lá, em 2032? Essa gente que ora ocupa o Planalto pode passar o governo inteiro cometendo crimes, à vontade.

Bruno Boghossian – Fome, seca, incompetência e improviso

Folha de S. Paulo

Gestão Bolsonaro desmonta programas e recorre a gambiarras para combater problema crônico

No início de maio, alguém avisou a Jair Bolsonaro que o país atravessaria um período de estiagem aguda. O presidente olhou para os reservatórios das usinas hidrelétricas e soltou um lamento. "Estamos vivendo a maior crise hidrológica da história. Eletricidade. Vai ter dor de cabeça", avisou a seus apoiadores.

Duzentos e onze dias depois, o Brasil parece ter superado o risco imediato de um apagão, mas há gente correndo atrás de lagartos para não passar fome no Rio Grande do Norte. Reportagem da Folha mostrou que metade do estado enfrenta uma situação de "seca grave", expondo uma população desamparada por um governo incapaz de fazer o mínimo para enfrentar a miséria.

Hélio Schwartsman - Ômicron, perigo ou solução?

Folha de S. Paulo

O princípio da cautela exige que nos preparemos mesmo é para uma nova onda

A ciência é uma ferramenta poderosa não porque nos mune com certezas, mas porque nos obriga a medir e confrontar nossa própria ignorância. E não há melhor exemplo de quão incertas podem ser as coisas do que as dúvidas que temos agora diante da variante ômicron do Sars-CoV-2.

A maioria dos cientistas recomenda que nos preparemos para uma nova onda de Covid-19, reforçando a vacinação e medidas de contenção e distanciamento. Alguns especialistas, entretanto, dizem que a chegada da variante poderá ser positiva, acelerando o fim da pandemia. Como entender essa disparidade?

Mariliz Pereira Jorge - De novo, Bolsonaro?

Folha de S. Paulo

Só ao presidente interessa que o Brasil não exija certificado de vacinação de viajantes

"De novo, porra? De novo vai começar esse negócio?" Num encontro com empresários nesta terça (7), Jair Bolsonaro, com sua habitual elegância, questionou e distorceu recomendações da Anvisa sobre as medidas para conter o avanço da variante ômicron. Peço licença ao leitor, mas, de novo, porra? O brasileiro não tem um dia de sossego. De novo, essa anta vai ignorar as notas técnicas do órgão regulador e agir de acordo com a central de notícias do Zap?

O país começa a colocar o nariz para fora do lamaçal, temos condições de nos preparar para que novas variantes não nos devolvam a um patamar pandêmico trágico. As restrições que a Anvisa sugere são de certa forma simples, se comparadas ao "fique em casa" que já vivemos. Banir passageiros de 10 países africanos, adoção do passaporte da vacina ou quarentena de cinco dias mais testagem.

Tranquilo? Claro que não. De novo, Bolsonaro voltou à carga com mais mentiras sobre a eficiência da vacina, a mesma ladainha sobre imunidade de rebanho, outro anúncio leviano sobre o fim da pandemia, a mesma atitude autocrata e o desdém pela ciência e seus profissionais.

Paulo Delgado* - Aquele abraço

O Estado de S. Paulo

Precisamos de alguém legal que não se faça ilegal no poder. É a lei que permite que lobos e cordeiros convivam. A desatenção a isso é o que alimenta serpentes.

O Brasil, tal como o encontro e expresso na coluna que escrevo aqui, para o Estadão, é o país da realidade e da esperança. Sei que, ainda que a esperança não venha se alimentando de coisas verdadeiras, não deve ser mentiroso quem a desperta em alguém.

A fala não deve ser mastigada como quem tem fome, a liberdade da palavra é para poupar do desespero pessoas boas. Uso metáforas que me lembram versos e livros, para que a escrita, como balde despejado, evite o fogo que arde sem se ver. A dúvida que temos tido como país é se existe ou não função para a verdade. Pois o que vemos são flechas do governo partindo na direção errada.

Continuar no cargo mesmo sem governar não seria um contrassenso se a sociedade estivesse andando na direção oposta. Neste caso a contradição não representa nada, pois, considerados juntos, não formaria a realidade toda capaz de impedir a esperança. Governo e sociedade se concederam autocomplacência mútua. Agarrados um no outro, por desprezo recíproco, não vão além de onde estão.

Lembro de antigas lições do Tratado Lógico-Filosófico que diz que duas proposições são opostas entre si caso não haja proposição com sentido que afirme ambas. Toda a proposição que contradiz outra nega essa outra. Concentrar tudo no dia da eleição, como velório ou batismo, é encarcerar a esperança. O que está acontecendo já aconteceu. De tudo o que ocorre na política, e na justiça chamada por ela para atuar como partido, não forma situação completamente diferente da natureza delas. Não há nexo causal, pesquisa, tarô, búzios, novena que justifique. Os eventos que o Brasil está vivendo são uma necessidade patológica da lógica de funcionamento interno deste modelo político, judicial, social e econômico que praticamos com tolerância da maioria e usufruto de minoria.

José Nêumanne* - Um ‘cristão’ de vários senhores

O Estado de S. Paulo

Segundo o ‘Evangelho’, só se pode servir a um senhor; e o ‘terrivelmente evangélico’ Mendonça tem ao menos quatro.

Em 10 de julho de 2019, o presidente Jair Bolsonaro disse, em culto evangélico na Câmara dos Deputados, e depois repetiu no plenário, que indicaria um “terrivelmente evangélico” para vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). “Terrível”, segundo o dicionário Aurélio, vem do latim terribile e quer dizer “que infunde ou causa terror”. Ou ainda: “muito ruim, péssimo” (página 1.951). “Evangélico”, segundo a mesma fonte, “relativo ao Evangelho; ou a seus ditames” (página 854). Esse foi o argumento usado por ele ao indicar o pastor presbiteriano André Mendonça para a vaga no STF com a aposentadoria do decano Marco Aurélio Mello, em julho último.

Em momento algum Sua Excelência referiu-se aos ditames da Constituição para a seleção do nome para completar o “pretório excelso”, conforme o artigo 101 da Constituição revisada: “O Supremo Tribunal Federal compõe-se de 11 ministros, escolhidos dentre cidadãos com mais de 35 e menos de 75 anos de idade, de notável saber jurídico e reputação ilibada”. Há dúvidas se o membro escolhido pelo chefe do governo e saudado pela primeira-dama em língua indecifrável por humanos, por mais poliglotas que sejam, abrigue em seu currículo esses predicados. De sua obra jurídica, a mais notória é a coordenação de um livro em homenagem aos dez anos de presença de Dias Toffoli na casa em que será acolhido. Não se pode dizer que seja justo, mas grato, certamente, o é o funcionário com carreira apadrinhada na Advocacia-Geral da União (AGU) pelo ex-chefe.

Fábio Alves – Recessão e juros

O Estado de S. Paulo

Para parte do mercado, um ciclo mais duro de alta de juros poderá levar a economia a uma recessão no ano que vem

Depois da leve queda no PIB do terceiro trimestre e um recuo da produção industrial em outubro, enquanto o mercado esperava aumento, uma parcela de analistas e investidores passou a criticar com mais veemência o ritmo do aperto monetário do Banco Central.

O argumento dessa corrente do mercado é de que um ciclo mais duro de alta de juros poderá levar a economia a uma recessão no ano que vem. Mais ainda: que a desaceleração da atividade econômica já conseguiria fazer parte do trabalho da política monetária para arrefecer a inflação.

Só para lembrar: o PIB do terceiro trimestre caiu 0,1% ante o segundo trimestre, jogando a economia em recessão técnica. Isso seria já suficiente para o BC rever a magnitude do aperto monetário em curso?

A resposta é não. Apesar do resultado negativo, a composição do PIB do terceiro trimestre ainda mostra fontes de pressão à inflação, com o crescimento forte dos setores de consumo, de serviços e de gastos do governo em julho, agosto e setembro.

Eduardo Rocha* - Os Nove de 22

Se for possível resumir numa frase o livro Os Nove de 22: o PCB na vida brasileira(1), do jornalista e historiador Ivan Alves Filho, esta frase é: multiplicidade integrada! Ao longo de suas páginas, o autor apresenta-nos (com didatismo, simplicidade, clareza, seriedade, racionalidade e paixão) um complexo de múltiplas dimensões que, de modo integrado, abrange o nascimento, o desenvolvimento e as transformações operadas na formação política vinda à luz no Brasil em 25 de março de 1922 até seus processos radicais de rupturas e vitais continuidades materializadas em seus IX (1991) e X Congressos (1992).

Ivan Alves Filho, com leveza e rigor, brinda-nos com os bastidores e a arena externa das batalhas sócio-políticas de múltiplos militantes que, ancorados na coluna vertebral do legado histórico de 1922, contribuíram para o avanço democrático-civilizatório e com o desenvolvimento do Brasil. Possibilita-nos conhecer detalhes biográfico-políticos dos que compuseram, em todos os tempos, as fileiras do PCB e que atuavam em praticamente todas as esferas da vida social brasileira: no campo, nas fábricas, no exército, na arte, na cultura, na música, na dramaturgia, no sindicalismo, no jornalismo, na ciência, na escola, na universidade, nos diversos movimentos sociais, nos parlamentos, enfim, em cada um dos diversificados setores, segmentos e classes que compõem a totalidade social brasileira.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Dinheiro público, orçamento privado

O Estado de S. Paulo

Contribuinte fornece o dinheiro, mas o orçamento atende objetivos privados.

Feito com dinheiro público, o Orçamento da União, apropriado para atender aos interesses do presidente e de seus aliados, é cada vez menos público na sua elaboração e no seu uso. Conhecido como “orçamento secreto”, o conjunto das emendas de relator consagra o manejo das finanças federais como um exercício privado. Tudo se passa como se alguns privilegiados tivessem o direito de usar essas verbas sem dar explicações aos demais cidadãos. Ao liberar o pagamento dessas emendas, depois de mantê-las suspensas por alguns dias, a ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF), deu mais uma vitória aos defensores das práticas fiscais antirrepublicanas.

Dois argumentos, ambos duvidosos, foram usados para justificar a liberação. O Congresso estaria empenhado em esclarecer as práticas orçamentárias e, além disso, seria preciso evitar a interrupção de obras e de serviços. Não seria necessário, no entanto, continuar esperando os tais esclarecimentos. Quem aprovou o uso das verbas deve ter anotado a destinação do dinheiro e os nomes dos políticos envolvidos. A inexistência desse tipo de registro só seria explicável por uma extraordinária mistura de incompetência, irresponsabilidade e ingenuidade política. Quanto ao segundo ponto: como falar de obras e serviços, quando se desconhece a destinação do dinheiro? Se os pagamentos foram inicialmente suspensos por falta desse tipo de informação, nada justifica o recuo da ministra.

Poesia | Pátria Minha - Vinicius de Moraes

 

Música | Basta! Samba-Enredo 2021/2022 dos Gaviões da Fiel

 

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

João Doria* - O projeto do PSDB para consertar o Brasil

Folha de S. Paulo

Debate não deve ser entre Bolsonaro e Lula, mas sobre passado e futuro

As prévias do PSDB confirmaram a vocação democrática do partido e a necessidade de mudarmos o Brasil. Precisamos da ajuda de todos, da união do PSDB e da convergência com outros líderes e agremiações para elaborar, a partir de agora, um projeto nacional inovador e realista. Um projeto que vai consertar o Brasil, sem imposições, nem personalismos. Queremos conquistar corações e mentes para superar a polarização que tem servido para empobrecer o país.

De tudo o que debatemos nas prévias e das experiências que o PSDB semeou ao longo de sua história, podemos listar sete pontos iniciais, que iremos detalhar com especialistas:

1 - Acabar com a fome: o país que é celeiro do mundo não pode ter quase 30 milhões de pessoas vivendo com menos de R$ 9 por dia. Nosso primeiro olhar será para milhões de brasileiros que hoje se encontram na miséria. Defendemos programas de transferência de renda, sem furar o teto de gastos, com ensino integral para as crianças, programas de geração de renda e emprego. Com contas sustentáveis, fazer reformas não para gerar superávit primário, mas para garantir a inclusão dos mais pobres;

2 - Gerar empregos: emprego é consequência direta do investimento. A melhoria do rendimento médio do trabalhador está ligada à formação educacional e técnica e à competitividade do país. O mercado de trabalho mundial está em transformação, e nós temos que vencer o déficit de produtividade. Novos empregos significam também mais autonomia às famílias;

Luiz Carlos Azedo - Acordo de Bolsonaro com Centrão pode ser a Geni das eleições

Correio Braziliense

O choque entre o velho patrimonialismo e a modernização da vida nacional inicia um novo capítulo. De certa forma, o chamado orçamento secreto é a ponta desse iceberg

Lembram da música Geni e o Zepelim, de Chico Buarque de Holanda, composta para a Ópera do Malandro? “De tudo que é nego torto/Do mangue e do cais do porto/Ela já foi namorada/O seu corpo é dos errantes/ Dos cegos, dos retirantes/É de quem não tem mais nada”, diz letra, cujo refrão se tornou muito popular: “Joga pedra na Geni! /Joga pedra na Geni! /Ela é feita pra apanhar! /Ela é boa de cuspir! /Ela dá pra qualquer um! /Maldita Geni!”. No jargão dos políticos, virar uma Geni é uma espécie de filme queimado, um personagem antipatizado pela opinião pública que acaba isolado dos próprios aliados.

É mais ou menos o que está acontecendo com o Centrão, sem que seus artífices se deem conta, porque vivem numa esfera eleitoral onde o patrimonialismo e o voto de cabresto ainda têm muita força. O ministro da Casa Civil e presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI); e o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), hoje concentram poder suficiente para manter a base do governo na Câmara, mas inversamente proporcional à imagem que estão construindo na opinião pública. Esse poder vem diretamente do controle que hoje detêm sobre o Orçamento, principalmente sobre a distribuição e a execução das chamadas emendas secretas.

Cristina Serra - Curió, Heleno e Bolsonaro

Folha de S. Paulo

O buraco que ficou em Serra Pelada é a metáfora perfeita do Brasil que deixa gente, terra, meio ambiente e Amazônia aniquilados para o proveito de poucos

Quem é mais velho lembra, quem não lembra basta digitar "Serra Pelada" para encontrar imagens do que um dia foi o maior garimpo a céu aberto do mundo, nos anos 1980, no sul do Pará. Fotografias de Sebastião Salgado mostram homens cobertos de lama, arqueados sob o peso dos detritos que tiravam das entranhas da terra, na esperança de enriquecer.

Pouquíssimos ficaram ricos com o ouro. A maioria morreu de doenças, tiro, faca ou foi soterrada. No lugar, restou uma imensa cratera e um lago de mercúrio. Esse inferno foi controlado com mão de ferro por um militar do Exército, o Major Curió, que participara da repressão à Guerrilha do Araguaia, nos anos 1970. Em denúncias do Ministério Público Federal, Curió é acusado de tortura e assassinato. Não por acaso, é amigo de quem? Sim, Bolsonaro.

Hélio Schwartsman - Língua dos anjos ou dos picaretas?

Folha de S. Paulo

Por que Deus, em sua suposta onipotência, teria criado uma marca religiosa que não nos permite diferenciar fiel e farsante?

Pessoas merecem respeito, mas só pessoas, não seus pensamentos. Uma ideia tola é tola não importa quem a tenha proferido. E o que dizer da glossolalia, a ideia de que fiéis, particularmente os de denominações pentecostais, podem, por inspiração do Espírito Santo, ganhar a habilidade de falar outros idiomas, naturais (caso em que o fenômeno ganha o nome de xenolalia) ou desconhecidos?

A epistemologia pode ser madrasta cruel. Como é virtualmente impossível provar que algo [o Espírito Santo] não existe num domínio tão amplo como o Universo, temos de nos contentar em analisar a plausibilidade do fenômeno. Inicialmente, religiosos acharam que os sons emitidos pelos fiéis eram outras línguas humanas. Há histórias de missionários que partiram para terras longínquas imaginando que conseguiriam miraculosamente se expressar no idioma ali falado. Mas, como mostra Robert Mapes Anderson, eles acabavam voltando, abatidos e desiludidos. Foi ganhando corpo então, entre os crentes, a ideia de que a sequência de balbucios era a própria língua dos anjos.

Joel Pinheiro da Fonseca - Existe cristofobia no Brasil?

Folha de S. Paulo

Discurso evangélico de vítima ganharia credibilidade com atos para coibir a intolerância à fé alheia

Se protestantes das mais variadas denominações já compõem mais de 30% da população brasileira, é natural e positivo que um membro desse grupo integre o STF (Supremo Tribunal Federal).

Que esse evento seja tão raro mostra que a religiosidade brasileira, assim como tantas outras coisas, tem também um recorte de classe. A comemoração efusiva da primeira-dama —se não tiver significados mais venais—, é uma mostra da importância da representatividade desejada por tantos milhões de brasileiros.

Muitos viram, riram ou se assustaram com Michelle "orando em línguas", prática comum em igrejas pentecostais. Esse tipo de reação alimenta o discurso de parte das lideranças evangélicas de que seus adeptos são uma minoria perseguida no país. Mas será mesmo?

O preconceito e a intolerância religiosos também obedecem a uma divisão de classes. Uma coisa é o que vale no discurso da elite cultural, e outra coisa é o que ocorre no dia a dia da maioria do país.

Entre a elite cultural —composta pela comunicação, jornalismo, academia, artes etc., ou seja, uma minoria letrada, com ensino superior—, há sim um menosprezo pelo mundo evangélico.

Pilhérias, espanto, repulsa ou até medo são algumas das reações que um culto evangélico mais animado pode produzir entre membros da classe, bem como comentários maldosos e um menosprezo intelectual pela pessoa. Isso tudo é real e negativo, podendo causar e perpetuar injustiças.

Eliane Cantanhêde – Bolsonaro, o boquirroto

O Estado de S. Paulo

Alguém pode dizer ao presidente para ouvir e pensar, antes de falar?

Em boca fechada não entra mosca, mas o presidente Jair Bolsonaro não para de falar absurdos que têm imenso impacto, ora na saúde e na vida das pessoas, ora na credibilidade do Brasil, ora diretamente na economia brasileira. Impressionante!

Por sorte, os brasileiros confiam nas vacinas, antes para o combate a doenças que foram praticamente erradicadas, agora para resistir à covid-19. Se tivessem seguido a orientação e o exemplo do presidente, a pandemia teria sido ainda mais drástica.

Por sorte também, o Brasil tem história, tradição, excelentes institutos, um bom sistema público e profissionais muito capacitados na área de saúde pública. Nossos epidemiologistas são incansáveis, um consolo.

Felipe Salto* - Zilda Arns, Dom Hélder e o Orçamento

O Estado de S. Paulo

O desafio da reconstrução e da modernização orçamentária demandará rapidez e acurácia

Em dezembro de 1991, Dom Hélder Câmara discursou em Pernambuco: “Que contradição, que negação clamorosa: cristãos (...) excluindo do acesso às mais elementares condições de vida muitos daqueles a quem proclamamos admitir como irmãos. (...) Será por incompetência? Será por inconsciência? Será por alienação? Ou será por impiedade mesmo?”. É a incompetência, Dom Hélder! Ela tem culpa maior. Muito foi feito a partir da redemocratização, mas há ainda uma situação que nos envergonha, que dói na alma de todos – cristãos ou não.

Dez anos depois, em 2001, no programa Roda Viva, na TV Cultura, Zilda Arns contou que a Pastoral da Criança gastava menos de um real (R$ 0,86) per capita ao mês. Em valores atuais, R$ 2,86 por criança. Os resultados colhidos – e a pastoral continua em operação – foram a redução da mortalidade infantil, a melhoria das condições de nutrição e a prevenção de uma série de doenças.

As práticas adotadas eram replicáveis e de baixo custo. As equipes visitavam as famílias para ensinar práticas de higiene, de aproveitamento de alimentos, pesagem dos recém nascidos, enfim, uma estratégia baseada na informação de boa qualidade e na orientação cuidadosa. Zilda Arns respondeu com ações concretas à angústia de Dom Hélder.

Ana Carla Abrão - Alta do crédito deve ser menor em 2022

O Estado de S. Paulo

Em 2022, o crédito deve crescer 7,3%, frente aos 12,7% esperados para 2021 e aos 15,7% de 2020

Crédito e atividade costumam andar juntos. A não ser por conta de intervenções pontuais (algumas desastrosas, outras bem-vindas), observa-se que o crescimento da economia e o dos volumes de crédito tendem a apresentar trajetórias muito parecidas. Em 2020 não foi assim, o que se explica pelos necessários estímulos ao crédito que, com o auxílio emergencial, atenuaram os efeitos da pandemia. Em 2021 o crescimento perdeu força, em particular no crédito para pessoas jurídicas, cuja base de comparação veio alta como consequência das ações e garantias do governo no ano anterior. Mas o crédito a pessoas físicas continuou assegurando um crescimento do crédito total em dois dígitos em 2021.

Para o próximo ano, a nota de crédito divulgada pelo Banco Central referente a outubro consolida o fechamento do ano e sinaliza o que deverá ser o próximo. Com 1,5% de crescimento nos saldos de outubro em relação a setembro de 2021, observa-se 16% de aumento na comparação anual. São R$ 4,5 trilhões, dos quais R$ 1,2 trilhão se destina a empresas em operações de descontos de faturas de cartão de crédito, capital de giro, financiamento às exportações. Na pessoa física, o crédito continua crescendo acima dos 20%, concentrado nas operações com cartão de crédito e no crédito pessoal. Há um outro tanto de crédito que, ainda hoje, se baseia em direcionamentos obrigatórios de crédito a taxas reguladas. Aqui o crédito rural se destacou.

Pedro Fernando Nery - Moronomics

O Estado de S. Paulo

Em seu livro, o papel do Bolsa Família parece subestimado pelo candidato

Gostaria de ter lido mais livros este ano. Tudo bem, não devo ter lido menos livros do que os jurados da categoria reportagem do Prêmio Jabuti. Mas, mesmo assim, queria ter lido mais. Achei, então, que não valeria a pena queimar uma leitura com o livro do Moro, mas a curiosidade me fez ir atrás.

O presidenciável defendeu o pagamento do Auxílio Brasil sem furar o teto de gastos, manifestando-se contrário à PEC dos Precatórios. Mas isso implica corte de dezenas de bilhões em outras despesas. Quais? Daí fui procurar no livro o que ele pensa.

Só que o livro não traz respostas como essa. É mais um esforço de relações públicas do que uma análise aprofundada dos problemas do País, lembrando os lançamentos do mercado americano. Lá é comum que pré-candidatos se apresentem com autobiografias simpáticas.

Andrea Jubé - Apoio do PSB implica “PAC do futuro”

Valor Econômico

Pacto de economia verde demandaria R$ 500 bi ao ano

Indicado ao Oscar de Melhor Documentário em 2011, “Lixo Extraordinário” apresentou ao mundo dois fenômenos: o trabalho do artista plástico Vik Muniz em um grande aterro sanitário na Baixada Fluminense; e o líder dos catadores de material reciclável do local, Sebastião Carlos dos Santos.

Conhecido como Tião Santos, ele fundou e se tornou o principal porta-voz da Associação de Catadores de Material Reciclável do Jardim Gramacho, em Duque de Caxias (RJ). Com a repercussão do filme, ele ganhou notoriedade, tornou-se consultor do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e palestrante na área de economia verde.

Onze anos depois da fama e na esteira dos debates da Conferência das Nações Unidas sobre o Clima (COP-26), Santos não tem diploma de economista, mas sabe fazer contas, talvez mais do que muitos gestores.

Luiz Schymura* - É preciso gerar trabalho de qualidade

Valor Econômico

É fundamental que importantes aprimoramentos institucionais entrem em vigor, como os do sistema tributário, do sistema educacional e da gestão do Estado brasileiro

Muitos dados e estudos têm sido apresentados para descrever a deterioração das condições do mercado de trabalho brasileiro. De fato, a realidade não é nada animadora. Para piorar, com a chegada da pandemia, um quadro que já causava preocupação ficou ainda mais crítico. Agora é aguardada a volta à “normalidade” em um ambiente transformado pela revolução tecnológica na estruturação do trabalho remoto.

De início, em relação ao período pré-pandemia, proponho a análise dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, que classifica as ocupações do trabalho brasileiros em 127 categorias. De acordo com a Pnad entre o terceiro trimestre de 2012 e igual período de 2019, houve a criação de 4,4 milhões postos de trabalho. Salta aos olhos que em seis das 127 categorias profissionais, que empregam hoje cerca de apenas 18% do total da população ocupada (PO), foram geradas 5,25 milhões novas vagas. A Pnad classifica as seis ocupações da seguinte forma: “comerciantes e vendedores de lojas” (6,5 milhões de ocupados no terceiro semestre de 2021); “vendedores de rua e postos de mercado” (915 mil, na mesma data); “outros vendedores” (3,01 milhões); “condutores de automóveis, caminhonetes e motocicletas” (2,8 milhões); “cabeleireiros, especialistas em tratamento de beleza e afins” (2,1 milhões); e “cozinheiros” (1,3 milhão). É importante notar que as 121 categorias remanescentes agregadamente tiveram um desempenho pífio. Ao longo do período, destruíram liquidamente 850 mil postos de trabalho.

Luiz Gonzaga Belluzzo* - Terrivelmente evangélico

Valor Econômico

Constituição é a fonte das razões que devem ser compartilhadas por crentes e descrentes

Uma coincidência biológica me proporcionou a ventura de frequentar as lições de um juiz ao longo de 60 anos. Escolhi o discurso de 1965 proferido por ocasião de sua aposentadoria. Aposentou-se por temer a invasão de suas prerrogativas de juiz independente por um esbirro fardado das oligarquias golpistas. Nada de heroico, apenas submissão aos valores liberais e republicanos que guiaram sua vida desde os tempos da Faculdade de Direito de São Paulo.

Ele falou aos amigos que o homenageavam: “Preferi a tranquilidade do silêncio ao ruído das propagandas falazes; não suportei afetações; as cortesias rasteiras, sinuosas e insinuantes jamais encontraram agasalho em mim; em lugar algum pretendi subjugar, mas ninguém me viu acorrentado a submissões; dentro de uma humildade que ganhei no berço, abominei a egomania e a idolatria; não me convenceram as aparências, e para as minhas convicções busquei sempre os escaninhos. No exercício das minhas funções de magistrado, diuturnamente, dei o máximo dos meus esforços para bem desempenhá-las, e, ainda que em meio de uma atmosfera serena e compreensiva, em nenhum momento transigi com a nobreza do cargo; escapei de juízos temerários, tomando cautelas para desembaraçar-me das influências e preferências determinantes de uma decisão; e, se alguma vez, inadvertidamente, pequei contra a lei, vai-me a certeza de que o fiz para distribuir bondade e benevolência”.

Merval Pereira - Líder de fancaria

O Globo

O presidente Jair Bolsonaro empenha-se diariamente em desmontar a frágil institucionalidade brasileira, por palavras e atos. Muitas dessas atitudes são pura falta de educação, mas a maioria delas reflete uma necessidade de controle autoritário dos órgãos públicos com fins pessoais, sejam eleitorais ou simplesmente em defesa de interesses próprios.

Uma visão da máquina estatal amesquinhada pelos muitos anos de vida parlamentar à sombra de pequenos desvios, como as “rachadinhas” nos gabinetes próprios e dos filhos, que o seguiram na carreira parlamentar, herdeiros de um império eleitoral montado em bases frágeis, do ponto de vista democrático, e conspurcado por relações promíscuas.

A intervenção na Receita Federal é a mais recente decisão nesse sentido, com a saída do secretário José Tostes devido a uma divergência com a família Bolsonaro, que tem candidato para o cargo de corregedor do órgão, vago desde julho. Por que a família presidencial tem interesses desse tipo em diversos órgãos fiscalizadores, como a Receita, o Coaf, a Polícia Federal?

Míriam Leitão - O favoritismo de Lula em 2022

O Globo

A preocupação com a fome e a miséria voltou a ser um dos cinco mais importantes temas apontados pelo eleitor. “Isso é a primeira vez que acontece desde a eleição de 2002”, explicou Márcia Cavallari do Ipec, Inteligência em Pesquisa e Consultoria. Entre os eleitores que recebem até dois salários mínimos, 60% manifestam intenção de votar no ex-presidente Lula. “Eu não me lembro de ter visto um apoio tão intenso como esse, entre os mais pobres”, disse o cientista político Jairo Nicolau, da FGV. O primeiro turno será daqui a dez meses, mas os especialistas já sabem que a crise econômica estará no centro do debate.

Segundo Márcia, nas pesquisas feitas pelo Ipec, a saúde é apontada como um dos assuntos mais importantes, mas isso sempre aconteceu desde 1989. O desemprego é outro ponto. A preocupação com a fome e a miséria é para 21% o problema mais importante, enquanto o combate à corrupção, que em 2018 apareceu com 40%, perdeu força e está agora com 17%.

Carlos Andreazza - Como se faz um Mendonça

O Globo

André Mendonça é ministro do Supremo. Pode-se afirmar que tinha, no momento da sabatina, saber jurídico maior que o de Dias Toffoli quando de sua inquirição no Senado; ambos, um como ministro da Justiça, o outro, como guarda da Constituição, tendo usado a autocrática Lei de Segurança Nacional — que confunde a defesa impessoal de Poderes com a proteção personalista do poderoso de turno — contra o que consideraram ameaças institucionais à República, o primeiro para intimidar críticos de Jair Bolsonaro, o segundo com censura a uma revista, a Crusoé, cuja investigação lhe fora desagradável.

Aos que já reagem dizendo que não se podem comparar atos discricionários de Toffoli/Moraes, porque centrados em bandidos bolsonaristas, com os de Mendonça, cujo ministério abrigou dossiê contra servidores, pergunto se não terá sido essa relativização do bem, pela causa virtuosa, uma das máquinas a asfaltar a estrada por meio da qual sectários (também) reivindicam o direito de interpretar a Constituição enviesadamente desde o Supremo. Hein?

Um Toffoli, advogado de partido, sempre chama um fundamentalista advogado de capitão.

Isso para desde logo dizer que a dilapidação do STF não começou ontem e não deriva exclusivamente de despreparo; mas da compreensão da Corte como arena político-partidária, palco para pelejas ideológicas, logo terreno para a representação de grupos de interesse.

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão* - Digerindo o futuro do presente

Passaremos o Natal comedidos e assustados, esperando a recessão de 2022 e envolvidos em uma luta política que nada tem a ver com a vida cotidiana e sofrida dos cidadãos. Não haverá nenhuma grande reforma, nem revolução. Apenas eleições. Será um espetáculo, com a possibilidade de gerar poucas esperanças e, concomitante, algumas consequências desastrosas. Nunca soluções.  Os brasileiros digerem mal o presente e não sabem discutir o futuro. 

A sociedade, tratada ainda, no campo da política, como "massas”, enreda-se fácil pelas conversas inócuas, pelas falsas agendas e explicações técnicas para algo que, por antecipação, já se sabe que não vai acontecer. Será mais um ano de inutilidades - à ser acrescentado às tais décadas perdidas -, de digestão de ódios. de frustrações e muitas agressões ao bom senso e à cidadania.  Não tem um culpado específico. Todos somos culpados, coniventes com esse ambiente. A realidade está em outra direção.

A tendência do Milênio destoa totalmente do que vamos assistir no próximo ano por aqui, com o agravante imediato, segundo o próprio Mark Zuckerberg, de que "se o Facebook não atualizar suas políticas e deixá-las nebulosas, existe uma probabilidade muita alta de se ter uma avalanche de desinformação e tentativas de interferência nas eleições" (Campos Mello, FSP, C-4, agosto, 2021). O brasileiro estará mais distante ainda do futuro que se anuncia com a chegada das novas gerações. 

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Cisternas do centrão

Folha de S. Paulo

Programa para o semiárido dá exemplo nefasto de politização da política pública

O programa federal de cisternas levou mais de 929 mil reservatórios d’água para pequenas propriedades do semiárido —cerca de 58 mil por ano até o início do governo de Jair Bolsonaro. Em 2019, antes da epidemia, foram 26,5 mil. Neste 2021, só foram instalados em torno de 2.700 equipamentos.

São sinais de que falta prioridade para um investimento de baixo custo destinado a melhorar as condições de vida em regiões pobres do país. Ou, talvez, de dificuldades impostas pela Covid, embora as empresas da construção civil tenham levado adiante um grande volume de obras muito mais complexas, driblando o vírus.

Mais certo é que o programa foi desestruturado por uma mistura de desordem institucional e politização indevida da política pública.

Reportagem da Folha mostrou que o governo federal passou a ignorar organizações sociais e conselhos locais que, no sentido amplo, supervisionavam o projeto. No lugar de uma iniciativa bem-sucedida e de prestígio internacional, fica o toma lá dá cá da baixa política.

Poesia | Graziela Melo -Poema tímido

Há,

na timidez

do meu

silêncio,

 

constante

ou esporádico,

 

noturnas

lembranças

incertezas

fortuitas!

Saudades

perenes

 

perambulam

dentro

de minha alma!!!

 

Circunspecta,

tímida,

impotente

Música | Teresa Cristina e Grupo Semente - Samba do amor (Paulinho da Viola)