quinta-feira, 20 de março de 2025

Eduardo Bolsonaro não é exilado político - Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

Entre a Disney e o seu país, preferiu chorar nos ombros do Pateta

Eduardo Bolsonaro não é exilado político. Pela lei americana, em especial a Lei de Refúgio de 1980, não é elegível ao asilo político o estrangeiro sobre o qual há sérias razões para considerar que tenha cometido um crime comum grave fora dos EUA, ou que tenha ordenado, incitado, auxiliado ou participado da perseguição de qualquer pessoa devido à sua opinião política.

É insincero o choro de crocodilo do clã Bolsonaro, dizendo-se perseguido ao ser pego pela Justiça tentando perseguir e matar seus inimigos políticos, segundo as investigações. Perseguição haveria se a família Bolsonaro tivesse sido bem-sucedida no golpe que intentou.

Falta algo na pauta popular do governo - Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Às esquerdas toca avançar no caminho da equidade num país longe de assegurar igualdade de oportunidades

Entrevistado por Mônica Bergamo, no domingo (16), o líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias, não poderia ter sido mais claro quanto ao caminho a seguir: "É mudar de assunto, é entrar na pauta popular. A minha linha agora é que este ano de 2025 é o ano do Lula. É Lula sendo Lula. É Lula falando da vida do povo, é o Lula do Pé-de-Meia, é o Lula do crédito ao trabalhador, que vai beneficiar 40 milhões. É o Lula do Vale-Gás, é o Lula da isenção do Imposto de Renda".

A esta altura é impossível avaliar o impacto eleitoral desse conjunto de medidas. O que se pode dizer é que o presidente e seu partido apostam que tais iniciativas ­—somadas ao crescimento continuado da economia e do emprego— os ajudarão a permanecer no governo federal a partir de janeiro de 2027.

Bolsonaro precisa aprender português - Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Ele e os seus serão julgados conforme a lei, o que a ditadura que admiram não permitia aos adversários

Bolsonaro precisa aprender português. Quer ser absolvido de crimes que diz não ter cometido. Como ser absolvido de algo de que não se é culpado? Outro dia subiu a um palanque para pedir anistia para os inocentes que tocaram o terror em Brasília no 8/1 na tentativa de induzir o Exército a dar um golpe. Mas é possível anistiar inocentes? E ele não admite que se condene a 17 anos uma doce velhinha de Bíblia na mão, saída de seu burgo na roça, apenas porque ela se deixou iludir pelas mentiras que ele próprio disseminou. Como ela poderia saber que estaria em tão más companhias quando lhe ofereceram um passeio a Brasília com tudo pago e uma aprazível temporada num camping diante de um quartel?

Poesia | Mundo Grande, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Beth Carvalho, Ivete Sangalo - Brasil Pandeiro

 

quarta-feira, 19 de março de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais /Opiniões

Reforma do IR fica aquém de corrigir injustiças

O Globo

Proposta do governo traz avanço, mas não enfrenta regimes especiais que geram as maiores distorções

O projeto de reforma do Imposto de Renda (IR) enviado pelo governo ao Congresso parte de um diagnóstico correto: o regime tributário brasileiro é repleto de distorções. Quem está nas faixas de renda mais baixas acaba, proporcionalmente, pagando mais imposto — no jargão técnico, o IR é “regressivo”. Ao elevar o limite de isenção de R$ 2.824 para R$ 5 mil por mês e ao reduzir alíquotas para quem ganha até R$ 7 mil, o governo procura reparar essa injustiça e cumprir uma promessa de campanha que deve beneficiar 10 milhões de contribuintes. A reforma proposta representa sem dúvida um avanço, mas fica aquém de corrigir as distorções que tornam injustos os impostos brasileiros, além de ter efeito fiscal incerto.

É meritória a tentativa de tornar a cobrança de impostos no Brasil menos regressiva. Os contribuintes de renda mais alta hoje pagam taxas menores. A alíquota efetiva (percentual calculado depois de todos os descontos permitidos na declaração) sobe de acordo com o rendimento até chegar ao topo da pirâmide. A partir dos 5% que mais ganham, começa a cair. Isso acontece por diferentes motivos. A maior distorção: os rendimentos de quem ganha mais costumam ser recebidos na forma de dividendos, pagos por empresas que se valem de regimes especiais de tributação, como Simples ou Lucro Presumido. Tal mecanismo beneficia médicos, advogados, profissionais liberais e contratados como pessoa jurídica.

A extrema direita e a arte de distrair - Vera Magalhães

O Globo

Show pirotécnico da família terá efeito prático zero sobre o destino judicial do patriarca e dos demais

Não se pode negar à extrema direita, aqui e alhures, o domínio da arte de plantar distrações no debate público e, com isso, mobilizar as atenções e as conversas. O Brasil, de novo, foi laboratório para esse tipo de experimento nesta terça-feira, quando um projeto complexo, que diz respeito, direta ou indiretamente, a milhões de contribuintes, dividiu espaço no noticiário, nas redes sociais e nos grupos de WhatsApp com um factoide da família Bolsonaro: o filho Zero Três de Jair está de partida para mais uma temporada morando nos Estados Unidos, desta vez, aparentemente, não para fritar hambúrguer.

Provavelmente, a coincidência dos anúncios do projeto de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, que reuniu Lula, ministros e os comandantes das Casas do Congresso, e de que Eduardo Bolsonaro se licenciará indefinidamente do mandato de deputado federal para ficar nos Estados Unidos e, de lá, ficar atirando no Judiciário brasileiro não foi estrategicamente pensada.

Mas foi didática para ver quanto somos facilmente tragados para uma agenda que só interessa à família, cada vez mais pressionada pela iminência de que os atos golpistas praticados com comando e anuência do ex-presidente sejam julgados pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Kotscho na luta pelas direta – Elio Gaspari


 Globo

Livro sobre campanha das Diretas mostra país alegre que se foi

O Senado relançou ontem o livro “Explode um novo Brasil: diário da campanha das Diretas”, do repórter Ricardo Kotscho, que cobriu para a Folha de S.Paulo a maior campanha popular da História do Brasil. Ela começou em fevereiro de 1983, quando o deputado Dante de Oliveira (PMDB-MT) apresentou um projeto de Emenda Constitucional restabelecendo as eleições diretas para a Presidência da República, e terminou em abril de 1984, quando a proposta foi ao arquivo porque lhe faltaram 22 votos.

Ler o “Diário” de Kotscho permite revisitar a explosão de manifestações políticas de um Brasil alegre, atirado em doces paradoxos. No primeiro, a campanha das Diretas foi derrotada, mas Tancredo Neves foi eleito indiretamente, marcando o fim da ditadura. No segundo, eleito, Tancredo morreu sem assumir. José Sarney, seu vice, saído do partido do governo, conduziu a transição para a democracia e, em 1989, presidiu a primeira eleição direta desde 1960.

Bananinha no exílio - Bernardo Mello Franco

O Globo

Eduardo Bolsonaro trocou o trabalho em Brasília por uma temporada de férias nos Estados Unidos. O Zero Três informou que pediu licença da Câmara. Partiu sem marcar data para voltar ao batente.

O anúncio causou surpresa até no PL. O deputado estava em campanha para presidir a Comissão de Relações Exteriores. Queria usá-la como tribuna para defender o pai, prestes a virar réu por tentativa de golpe.

Há três semanas, deputados do PT pediram a apreensão do passaporte de Eduardo. Alegaram que ele tentava usar seus contatos nos EUA para obstruir investigações e interferir em instituições brasileiras.

No vídeo divulgado ontem, o Zero Três indicou que os adversários tinham razão. Ele voltou a atacar a Polícia Federal, chamou integrantes do Supremo de “psicopatas” e avisou que sua nova “meta de vida” é retaliar o ministro Alexandre de Moraes. Mais tarde, escancarou suas intenções ao dizer que “a solução vai vir aqui dos EUA para resgatar nossas liberdades no Brasil”.

Trama golpista começou antes que o indicado pela PGR - Fernando Exman

Valor Econômico

Existe grande curiosidade em relação à linha de defesa de Bolsonaro no julgamento que está prestes a começar na Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal

De forma repentina, o carro da Presidência da República parou e Jair Bolsonaro desembarcou em frente ao Quartel-General do Exército. Parecia que seus apoiadores já o aguardavam, embora o compromisso não constasse da agenda oficial daquele domingo de 2020.

Alguns manifestantes carregavam faixas que estampavam pedidos inconstitucionais, como o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF) e a edição de um novo AI-5, ato institucional que deu início ao período mais violento da ditadura militar. Uma delas não podia ser mais direta: “Intervenção militar com Bolsonaro”, dizia, em letras garrafais.

“A nossa bandeira jamais será vermelha”, gritava repetidamente a multidão, que talvez sequer tenha notado a ironia no fato de Bolsonaro estar vestido com uma camisa polo dessa cor.

Neutralidade é teste para relação com o Congresso - Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Propostas de compensação para aumento da isenção devem ser alvo de alterações

“É importante colocar a palavra neutralidade”, disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva dirigindo-se à imprensa. A palavra foi a mais repetida nos discursos feitos durante a solenidade, no Palácio do Planalto, em que foi apresentado o projeto de lei que elevará o limite de isenção do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) para R$ 5 mil e, em contrapartida, taxará os super-ricos.

A insistência nela indica a preocupação do governo com o risco de a proposta sair do Congresso Nacional desequilibrada, com modificações que tragam perda de receita e criem um novo problema para as contas públicas. Existe o risco, por exemplo, de haver emendas propondo elevar o limite para valores maiores do que R$ 5 mil.

Quem aceitará um ‘Acordo de Mar-a-Lago’? - Martin Wolf*

Valor Econômico

O que está sendo proposto é a recriação de um sistema global de gestão das taxas de câmbio

A política comercial caótica de Donald Trump só pode levar ao caos econômico. Então, será que o governo Trump pode se deparar com algo mais coerente e menos prejudicial, e ainda assim atender aos objetivos protecionistas do presidente? Talvez. Alguns membros, incluindo Scott Bessent, secretário do Tesouro, e Stephen Miran, presidente do Conselho de Assessores Econômicos, acreditam que sim.

Se alguém quiser entender essa abordagem mais sofisticada, deve ler “A User’s Guide to Restructuring the Global Trading”, publicado em novembro de 2024. O autor afirma que “este ensaio não é uma defesa de políticas”. Mas, se parece um pato, é um pato. Vindo de um homem em sua posição atual, isso dever ser interpretado como uma defesa de políticas.

Os novos cidadãos - Marcelo de Azevedo Granato

O Estado de S. Paulo

O cidadão forjado no ativo e ruidoso ambiente digital atual não é um indivíduo politizado

No início deste ano, Mark Zuckerberg, dono da Meta, anunciou que a empresa não submeterá mais ao sistema de checagem de fatos as postagens feitas no Instagram e no Facebook nos Estados Unidos. A decisão tem diferentes implicações e justifica todo o debate que provocou e ainda provocará.

É oportuna, porém, a observação feita a respeito do tema no editorial Zuckerberg lava as mãos: “A mediação do real nesse ambiente ( das redes sociais) é simplesmente impossível, por mais formidável que seja a estrutura de checagem de fatos” ( Estadão, 9/1, A3). A observação é oportuna porque recorda a dificuldade de distinguir verdade e mentira numa plataforma que é aberta a todos e que não supõe a participação de especialistas dedicados a fazer essa distinção (e, então, torná-la acessível a todos), como faz a imprensa profissional.

A encruzilhada da Selic - Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Se as projeções de inflação continuarem nos níveis atuais, trazer a inflação para a meta ficará mais caro

Até onde o Banco Central pretende subir a taxa Selic é o grande foco de atenção ao fim da reunião do Copom hoje, uma vez que uma alta de 1 ponto porcentual, para 14,25%, já está sacramentada. Resta saber, no comunicado que acompanhará a decisão, qual será a sinalização para os próximos passos do atual ciclo de aperto monetário.

De um lado, exacerbou-se a incerteza do ambiente externo, particularmente o que vai acontecer, de fato, com a guerra comercial do presidente Donald Trump, diante do seu vaivém na adoção das tarifas de importação. Ninguém sabe ao certo qual o impacto dessa política econômica dos EUA, se será apenas inflacionária ou se jogará o mundo numa recessão. Os principais bancos centrais ainda estão debatendo a estratégia adequada para reagir aos efeitos das medidas de Trump.

Licença repentina de Eduardo Bolsonaro surpreende a Câmara - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Em vídeo, o filho do ex-presidente alegou que está sendo perseguido pelo ministro Alexandre de Moraes e anunciou que pedirá asilo ao governo dos EUA

Estava praticamente tudo certo: o presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara seria o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), indicado pelo líder de seu partido, Sóstenes Cavalcante (RJ). Pelo critério da proporcionalidade entre as bancadas, cabe à legenda com maior número de deputados, no caso o PL, escolher primeiro as comissões que pretende dirigir. Entretanto, de última hora, Eduardo Bolsonaro se licenciou do mandato, anunciou que pretende pedir asilo aos Estados Unidos, onde está, e indicou o líder da oposição na Câmara, deputado Zucco (PL-RS), para o seu lugar na comissão.

Tudo isso ocorreu depois da manifestação de domingo, em Copacabana, em protesto contra a condenação dos envolvidos na tentativa de golpe de 8 de janeiro, convocada pelo pastor Silas Malafaia e o ex-presidente Bolsonaro, que reuniu ainda os governadores de São Paulo, Tarcísio de Freitas (PR); Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), Mato Grosso, Mauro Mendes (União); e Santa Catarina, Jorginho Mello (PL). Tarcísio defendeu anistia aos vândalos da Praça dos Três Poderes e criticou a inelegibilidade de Bolsonaro.

E o mundo se cala... – Rodrigo Craveiro

Correio Braziliense

O silêncio do mundo é ensurdecedor. Netanyahu decidiu prosseguir com a matança de palestinos porque conta com a anuência de Donald Trump

Enquanto você lê esse texto, pais e mães se debruçam sobre o corpo inerte de seus filhos. Tantos outros são inundados por uma saudade dolorosa dentro de um quarto — ou uma tenda — tomado por um vazio cruel. Provavelmente se agarram ao cheiro de suas crias, que ficou impregnado na roupa. E o mundo se cala. Na madrugada desta terça-feira, recebi fotos de fontes na Faixa de Gaza. Crianças transformadas em bonecos retalhados e largados no chão ou sobre uma mesa fria de um necrotério.

No momento em que escrevo, passam de 450 os mortos nos bombardeios israelenses no território palestino. As forças do premiê Benjamin Netanyahu, cuja sobrevida política depende da guerra, se mobilizam para expandir a campanha militar. Prenúncio de mais violações do direito internacional e massacres. E o mundo se cala.

Com os olhos de ontem e o coração no amanhã - Jorge Messias*

Correio Braziliense

Um caminho para o futuro dependerá do nosso olhar para um Brasil sustentável, ético, inovador e inclusivo, cientes de navegarmos sempre adiante

"A vida divide-se em três períodos: o que se foi, o que está sendo e o que há de vir. Desses, o que estamos atravessando é breve, o que havemos de atravessar é duvidoso, o que já atravessamos é certo".

Se o presente nos parece efêmero e o futuro é incerto, como ensina Sêneca, lembrar o 15 de março de 1985 é uma oportunidade para rever o caminho percorrido, com a alegria de comemorar conquistas com o olhar no futuro. O último sábado marcou os 40 anos da redemocratização do Brasil, momento histórico que simboliza a superação de mais de duas décadas de ditadura militar e a reconstrução das bases democráticas do país.

No dia de sua posse como presidente da República, José Sarney dá início a um ciclo político virtuoso para o Brasil quando disse: "Eu estou com os olhos de ontem. E ainda prisioneiro de uma emoção que não se esgota." Mais do que uma simples transição de poder, a redemocratização representou a retomada dos ideais de liberdade, justiça e participação popular. 

Ricos ainda vão pagar pouco - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Reforma do IR de Lula é justa; há incerteza sobre tamanho da receita com nova tributação

É justo. Se fosse preciso usar uma palavra para definir o projeto de mudança no Imposto de Renda, ao menos nos termos da lei que foi enviada ao Congresso pelo governo Lula, essa palavra seria "justo".

Pode não ser o "mais justo". Em tese, transfere-se dinheiro dos que têm renda maior, R$ 27 bilhões, para trabalhadores de renda bem menor, mas não para os mais pobres ou necessitados de assistências e serviços públicos. Os beneficiados são, em termos estatísticos, de classe média e média alta. É apenas um exemplo.

Isto posto, "a luta continua". Pessoas com rendimentos superiores a R$ 50 mil mensais ou de até de milhões por ano ainda pagarão, na média, tanto quanto aquelas outras com rendimentos entre R$ 7.000 e R$ 50 mil (ou ainda menos). A nova mordida, na verdade, apenas seja mais notável para aqueles com renda superior a R$ 100 mil mensais. Talvez.

Por que talvez?

Para onde o Bolsonarismo vai? - Mariliz Pereira Jorge

Folha de S. Paulo

Dúvida é o quão perto do extremismo do seu criador cairá o fruto escolhido para substituí-lo nas eleições

A oposição fez piada sobre os patriotas pingados que deram as caras em Copacabana. O governador do Rio mandou maquiar a contagem e a PM cravou 400 mil —acabou o Carnaval, mas não a palhaçada.

Nessa guerra de narrativa, os números do domingo (16) não têm tanta importância ao se levar em conta que Jair Bolsonaro ainda tem cerca de um terço dos eleitores muito fiéis, como mostram pesquisas.

A boa notícia diante do fiasco do ato é a constatação de que o poder de mobilização do ex-presidente vem diminuindo e eu já posso tomar café da manhã na padaria do bairro sem tropeçar em idosos gritando "mito". A má é que isso não parece ter a ver com sua popularidade. Gostaria de acreditar que o Brasil cansou daquela cara sebosa do Jair, mas não. Aquele mar de vazio no calçadão da praia mais famosa do Rio pode indicar apenas que boa parte de seus eleitores ainda curtia a ressaca do reinado do Momo ou está resignada com o seu destino e resolveu ficar em casa.

Fogo amigo ajuda o inimigo – Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Embora comuns, brigas internas no PT, no momento, atrapalham Lula e servem à oposição

Disputa interna não é novidade no PT. Desde que se entende por gente, há 45 anos, o partido vive embates entre as várias correntes. Antes de ser governo, os petistas faziam grandes reuniões abertas onde pegavam fogo as escaramuças e, no fim, salvavam-se todos sob a liderança de Luiz Inácio da Silva.

Dava gosto de acompanhar. Era o único que fazia esse exercício de vivacidade partidária em público. Ali era possível captar notícias e perceber o que estava em jogo nas internas a fim de compreender as ações externas da maior força de oposição.

Populistas de direita: iguais, mas diferentes - Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Todos têm uma elite para condenar, um povo para defender e um sistema para combater

A professora Maria Hermínia Tavares iniciou sua ótima coluna da semana passada indagando sobre o que explicaria o avanço do populismo de extrema direita. Espero que ela continue a nos iluminar na exploração do tema, um dos mais decisivos. Mas, como o foco adotado era compreender por que eleitores aderem ao discurso dos populistas radicais de direita, gostaria de acrescentar algo ao tema, examinando outra questão: a natureza desse populismo.

Nem precisaria ressaltar o quanto esse tema é complexo. Digamos apenas que a concepção mais comum de populismo é negativa, associada à demagogia, ao personalismo e ao desprezo pelas instituições. Eis a razão pela qual ninguém se assume como populista nem aceita essa designação.

Acho, contudo, que é possível encontrar uma definição mais neutra e analítica de populismo, assim como diferenciar as formas que ele assume hoje. O populismo envolve retórica, atitude e crenças. Sua premissa fundamental é que a sociedade se divide entre um povo autêntico e uma elite corrupta. O indivíduo, partido ou governo populista parte dessa premissa para se dirigir à massa popular, representando-a como a parte mais nobre e fundamental da nação e se apresentando como a única forma política que se vincula orgânica e moralmente ao povo, tendo como missão enfrentar as elites em seu nome.

Cessar-fogo em Gaza vai para o espaço - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Além de perdas humanas e materiais, guerra atiça ceticismo e faz com que nem israelenses nem palestinos acreditem mais em solução negociada

Israel voltou a lançar pesados ataques contra o Hamas na Faixa de Gaza, pondo fim a um cessar-fogo que dera algum alívio aos palestinos e permitiu a troca de reféns por prisioneiros.

Ambos os lados imputam um ao outro a responsabilidade pelo rompimento da trégua, mas a interpretação que me parece mais verossímil é a de que o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, jamais teve a intenção de cumprir a segunda fase do acordo, pela qual Israel teria de retirar todas as suas forças de Gaza.

Poesia | No mundo há muitas armadilhas, de Ferreira Gullar

 

Música | Adriana Calcanhotto - Fico assim sem você

 

terça-feira, 18 de março de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Política deveria ficar fora do julgamento de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Protesto esvaziado indica que muitos apoiadores não endossam anistia; melhor é garantir devido processo legal no STF

Está fracassando a linha de reação de Jair Bolsonaro (PL) ao cerco judicial que se fecha sobre ele. Apostou numa mobilização popular que pudesse intimidar o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF), prestes a julgar a denúncia que o acusa de chefiar uma tentativa de golpe de Estado.

Segundo estimativa do Datafolha, cerca de 30 mil pessoas estiveram no ato de domingo (16), promovido no Rio para defender anistia aos condenados pelos ataques de 8 de janeiro de 2023 —e, nem tão implicitamente, ao próprio ex-mandatário.

O baixo entusiasmo pelas proclamações de Copacabana talvez reflita o ruído da mensagem do líder direitista. Bolsonaro mal disfarça que seu maior desejo é livrar-se ele próprio da cadeia, mas por que queimar etapas e exigir anistia política se o seu processo judicial nem sequer começou?

Valorizar a democracia – Merval Pereira

O Globo

Anistia não é uma reivindicação popular, não há motivação genuinamente espontânea para livrar os golpistas da lei

O fracasso da manifestação a favor da anistia para os condenados pelo vandalismo do 8 de Janeiro esvaziou a ofensiva que o bolsonarismo faz no Congresso para apressar a votação da matéria, que interessa diretamente ao ex-presidente Bolsonaro. Seria uma espécie de anistia preventiva contra uma condenação que ainda não aconteceu. Estranha forma de reivindicar em causa própria fingindo estar ao lado da Justiça, quando na verdade prepara uma retroatividade futura.

Ficou claro que essa não é uma reivindicação popular, não há motivação genuinamente espontânea para livrar os golpistas das penas da lei. Certamente algumas penas merecerão redução mais adiante, pois as primeiras condenações elevaram o sarrafo a tal altura que a condenação de Bolsonaro precisa ser perpétua para contrabalançar a severidade com que os primeiros condenados foram punidos. Dezessete anos para quem pichou com batom a estátua da Justiça em frente ao STF ou quebrou vidros dos prédios públicos não se coaduna com uma dosimetria equilibrada, que não cheire a revanche.

Quem pagará a conta da isenção - Míriam Leitão

O Globo

O governo fez uma engenharia para isentar quem ganha até R$ 5 mil e chamando para pagar a conta quem está no topo na pirâmide. Veja como funcionará

Cerca de 140 mil pessoas vão pagar um mínimo de Imposto de Renda para que 10 milhões de contribuintes, que ganham até R$ 5 mil, sejam isentos. Esse é o resumo da proposta que o governo enviará hoje ao Congresso. O assalariado com carteira assinada que tenha um bom salário não será afetado, pois já recolhe 27,5%. O imposto será cobrado de quem tem renda alta isenta ou subtributada. O nome do que será feito nesse projeto é justiça tributária.

Esse imposto mínimo será assim: quem recebe R$ 600 mil ou mais por ano em renda isenta ou subtributada terá que pagar um imposto mínimo. Ele será gradual. Quem ganhe menos de R$ 600 mil não pagará nada deste imposto, mas acima disso haverá uma gradação de alíquotas que vai do 1% ao 10%. Quem tem renda não tributada de R$ 1,2 milhão por ano ou mais pagará a maior alíquota deste imposto, que é 10%.

Anistia é o coração do pacto faustiano entre Tarcísio e Bolsonaro – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

"Qual razão para afastar Jair Messias Bolsonaro das urnas? É medo de perder eleição, por que sabem que vão perder?", questionou o governador paulista

O ato realizado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro no domingo, em defesa da anistia dos condenados pela invasão e depredação dos prédios do Palácio do Planalto, do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF), na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, revelou que a aliança do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) está acima do seu compromisso com o Estado Democrático de Direito. A manifestação ocorreu um dia depois das comemorações dos 40 anos de democracia no Brasil.

Lembra o pacto do Dr. Fausto (Faust, em alemão), lenda tedesco popularizada na literatura pelo poema dramático de Johann Wolfgang von Goethe (1808 e 1832). O protagonista é um sábio insatisfeito com sua vida e seus conhecimentos. Frustrado porque ainda não alcançou a verdadeira essência da existência, faz um pacto com Mefistófeles, um demônio que representa a tentação.

Governo cobra faturas sem garantia para 2026 - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Alcolumbre é cobrado a retribuir a deferência com a qual tem sido agraciado pelos Poderes

O acordo para a votação do Orçamento é o início do pacto firmado com os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-DF) e Davi Alcolumbre (União-DF), e passa pelo destravamento de emendas empoçadas pelas exigências do ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino.

O pacto segue nesta terça com a apresentação conjunta, entre os chefes dos Três Poderes, do projeto que prevê a isenção de IR para salários até R$ 5 mil. Se tudo correr como combinado, o congraçamento culminará com a viagem ao Japão no dia 24, para a qual ambos foram convidados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O acordo é o início do reequilíbrio de uma balança que, até aqui, foi deficitária para o Executivo e o Judiciário, principalmente na relação com o presidente do Senado. Alcolumbre personifica a hipertrofia legislativa muito mais do que o presidente da Câmara porque Motta ainda é caudatário do deputado Arthur Lira (PP-AL). Já Alcolumbre nunca saiu do poder.

Por que nossa democracia quarentona não é total - Pedro Cafardo

Valor Econômico

Absurdos que Alain Finkielkraut viu no Brasil 34 anos atrás ainda estão aqui

Passados exatos 40 anos desde o fim da ditadura militar, o Brasil é hoje um país totalmente democrático? Vejam a opinião abaixo: “Estive no Brasil há dois anos. É claro que não se trata de um país totalitário nem de uma ditadura, mas nem por isso é democrático, apesar das eleições recentes. Um país onde podem reinar desigualdades tão tremendas, onde o preço da vida é pequeno, onde as regras mínimas de segurança não parecem respeitadas, onde alguns podem enriquecer à toda, enquanto outros vivem na miséria mais vergonhosa, para mim não é um país totalmente democrático. Não convém, por outro lado, confundir o triunfo da democracia com o triunfo do mercado”.

Alain Finkielkraut, polêmico, conservador e provocador filósofo francês de 75 anos, não disse isso ontem. Disse-o em 1991, em uma entrevista à jornalista e escritora Rosa Freire D’Aguiar, em Paris. O texto ficou guardado na gaveta da jornalista, até que ela o publicasse em seu “Sempre Paris”, prêmio Jabuti de 2024 como livro do ano.

O que chama a atenção nas observações de Finkielkraut de 34 anos atrás é que elas poderiam ter sido feitas agora, num momento em que o país percebe a fragilidade de sua democracia quarentona.

O fiasco de Copacabana - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Sem mobilizar as ruas, Bolsonaro e Lula fortalecem o Centrão ou um ‘outsider’ em 2026

O fiasco do ato de Copacabana pró-Bolsonaro, ops!, pró-anistia aos criminosos de 8/1, confirma que nem ele nem Lula são mais capazes de mobilizar imensas multidões nas ruas. A polarização continua, mas Bolsonaro e Lula perdem o encanto e abrem espaço para um rearranjo das forças políticas, novos líderes e também – o que é particularmente aterrorizante – os tais “outsiders”.

Especialistas vinculados à USP contabilizaram 18,3 mil pessoas no pico da manifestação, enquanto a PM do Rio decidiu, por encanto, quebrar a tradição de não divulgar estimativa de presença desse tipo de evento e tascou 400 mil militantes. A diferença dos números é enorme, assim como a de credibilidade das duas instituições.

Supremo esculachado - Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O Parlamento aprovou a continuidade do esquema do orçamento secreto. Mais uma vez. E sem qualquer vergonha – mais uma vez. O Congresso formalizou a criação de um sistema de parasitagem da emenda de comissão, a superfície sobre a qual se desenvolve a apropriação autoritária e opaca de mais de R$ 50 bilhões do Orçamento em que nada mais caberia.

Garantidos mais de R$ 50 bilhões do Orçamento em que – opa – nada mais caberia. De modo que ficamos assim, prioridades postas: a grana do Péde-Meia, para os estudantes do ensino médio, por fora; a das emendas, para asfaltar as paróquias dos vereadores federais, por dentro.

O BNDES e o mercado financeiro privado – Antonio Corrêa de Lacerda

O Estado de S. Paulo

É salutar observar que mercado privado e fundos públicos têm apresentado expansão de forma complementar

O financiamento é fundamental para impulsionar os investimentos de forma a sustentar o crescimento econômico de longo prazo. É, neste ponto, salutar observar que mercado privado e fundos públicos têm apresentado expansão de forma complementar. Os bancos públicos, especialmente o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), têm cumprido um importante papel nesse sentido, tanto no financiamento e participação na forma de private equity quanto na estruturação de Parcerias PúblicoPrivadas (PPPs) e concessões públicas ao setor privado.

No mercado financeiro privado, as empresas captaram R$ 541 bilhões entre janeiro e setembro de 2024, maior volume da série iniciada em 2012, e 15,9% superior ao período homólogo de 2023. As emissões de debêntures chegaram a R$ 325,6 bilhões, especialmente em infraestrutura e gestão ordinária. A distribuição por setores aponta para energia elétrica com 23,5%, transporte e logística com 16,5%, e saneamento com 8,6%.

Copacabana complica Bolsonaro - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Dimensões acanhadas da manifestação liberam parlamentares da direita não extremista a votar contra anistia

Se Bolsonaro imaginava que uma manifestação maciça em Copacabana serviria para pressionar parlamentares do centrão a votar a favor de uma anistia que o beneficiaria, então o ato de domingo (16) foi um tiro pela culatra. As proporções acanhadas do protesto liberam congressistas da direita não extremista para votar contra Bolsonaro sem temer uma onda de execração popular.

Não que fizesse muita diferença. Mesmo que o Parlamento aprovasse a anistia, o caso seria judicializado e terminaria no STF, onde os ventos não sopram a favor do capitão reformado. O mais provável é que, além da já decretada inelegibilidade, a corte o condene a umas duas décadas de prisão por tentativa de golpe e outros crimes.

A rua já não atende a Bolsonaro - Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Ato de domingo (16) mostrou que perde tração a capacidade de mobilização do ex-presidente

As manifestações de rua convocadas por Jair Bolsonaro (PL) e companhia vêm se esvaziando. A de domingo (16) em Copacabana reuniu menos que o ato de abril de 2024, na mesma praia, que por sua vez já foi bem menor que as anteriores.

Agora talvez o problema tenha sido o tema. Anistia para os condenados de 8 de janeiro, na qual o ex-presidente quer pegar uma carona, não é, como disse o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), um assunto que toque as mentes, os corações e, sobretudo, os bolsos dos brasileiros.

Mais ambulantes que bolsonaristas em Copa - Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Chantagem e golpismo impulsionam anistia aos atos de 8/1

Movimento de extrema violência, em seguida às tentativas de invasão da Polícia Federal e de explosão de uma bomba no aeroporto de Brasília, o 8/1 foi orquestrado, financiado e divulgado. Da tarde de horror participaram cerca de 4.000 bolsonaristas que estavam desde outubro de 2022 acampados em frente a quartéis do Exército pedindo uma intervenção militar que impedisse a posse de Lula.

Nas redes circulou um código —"festa da Selma"— para manter viva a esperança na continuidade de Bolsonaro no poder e incitar a destruição e o prejuízo. Apesar dos coices e patadas que distribuíram, ali não estavam manifestantes ou vândalos comuns adotando um comportamento de manada. Tampouco patriotas e idosas de Bíblia na mão, como querem os negacionistas do golpe. Foi uma típica insurreição fascista.

E uma anistia sem Bolsonaro? - Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

Pacificação do país depende de que o lado vitorioso saiba ter alguma generosidade

Nada prejudicou tanto a causa da anistia dos presos de 8 de janeiro quanto a manifestação centrada em Bolsonaro no domingo em Copacabana. Há um evidente uso oportunista deles para defender uma anistia que já mira o ex-presidente. Da mesma forma, contudo, quem se recusa a olhar para os presos do dia 8 sob o pretexto de criticar Bolsonaro perpetua uma injustiça.

A ideia de que as invasões foram protagonizadas por "velhinhas de Bíblia na mão" é um engodo —a maioria era homem e apenas 3,5% eram idosos. Tampouco cabe dizer que seu único crime foi o vandalismo. Temos farta documentação —inclusive vídeos e mensagens dos próprios— de que o que os levou aos três Poderes era o plano de causar um tumulto tal que provocasse intervenção militar e golpe de Estado.

Recorrendo às minhocas - Aylê-Salassié Filgueiras Quintão*

A  picanha já era... Esgotou-se nas   pilantragens  do discurso populista, e deve ser enterrada, em definitivo,  na viagem presidencial ao Japão, cuja  finalidade, entre outras,   está a de amenizar as restrições às  exportações de carne bovina do Brasil . Por enquanto,  é vendida para  a China,  para os árabes e  para a Europa´. A JBS, nosso grande produtor e manipulador , está com problemas na Justiça dos Estados Unidos. Sobrou para  o ovo. 

Ele inspira  novas narrativas: a de que "o Brasil produz 59 bilhões de ovos"  e que "o brasileiro come, em média,  269 ovos por ano" . Vem cercadas de uma  retórica mitificada e analogias populares,  acompanhadas,  numa linguagem cifrada ,  de ameaças aos produtores. Busca-se recompor a credibilidade eleitoral  do Governo, que  vem caindo gradualmente.  Em um mês, a  "caixa de ovos passou de  R$140,00 para R$ 210,00" e a cesta básica aumentou em 4,4%. Os preços dos alimentos  dispararam sem controle nesse início de ano.

Poesia | Ode à noite, de Fernando Pessoa

 

Música | Ai que saudade d'ocê - Petrobras Sinfônica e Lucy Alves