sábado, 5 de julho de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Toffoli tornou a conta da fraude no INSS ainda maior

O Globo

Além de contribuinte arcar com custo da roubalheira, exclusão dos gastos do arcabouço deteriora contas públicas

É justo que os aposentados e pensionistas lesados no escândalo do INSS sejam ressarcidos dos descontos indevidos. Mas foi um erro o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, ter autorizado que a despesa fique fora dos limites do arcabouço fiscal — como se não representasse mais gastos para um governo que se revela incapaz de controlar suas despesas. Na quinta-feira, ele homologou o acordo de ressarcimento proposto pelo governo federal. Embora a decisão tenha efeito imediato, ainda será analisada pelo plenário da Corte.

Por que devemos continuar falando mal do Congresso Nacional - Paulo Baía

Falar mal do Congresso Nacional não é apenas um direito conquistado com suor histórico e cicatrizes democráticas. É, sobretudo, uma necessidade ética e civilizatória. Não se trata de crítica gratuita, ressentida ou panfletária. Trata-se de uma prática crítica que emerge do espanto contínuo diante de um poder que deixou de cumprir sua função representativa e passou a se comportar como se fosse senhor absoluto da República. Um poder que se ergue com arrogância e se desloca acima da Constituição, agindo como se os freios e contrapesos que organizam o Estado Democrático de Direito fossem adereços descartáveis da formalidade jurídica. É preciso falar mal do Congresso enquanto ele persistir na lógica de se fazer superior aos outros poderes, arrogando-se o lugar de poder supremo da nação.

O que vivemos, na atualidade, é a instauração de um parlamentarismo informal, à margem da Constituição Federal. Um parlamentarismo de fato, não de direito, instaurado por práticas que atropelam a soberania popular expressa em dois plebiscitos nacionais que reafirmaram o presidencialismo como regime escolhido pelo povo brasileiro. O que se vê hoje é a tentativa obstinada de forçar a implantação de um regime político sem a devida consulta democrática, um sequestro da vontade coletiva promovido por arranjos de poder, barganhas internas e uma cultura legislativa que tornou o Congresso refém de si mesmo.

Quando o Congresso força os limites – Juliana Diniz*

O Povo (CE)

O governo respondeu às derrotas no Congresso com a inteligência estratégica de um jogador sem alternativas, mas poderoso. Judicializou a questão, pois qualquer omissão nesse sentido exporia de modo irrecuperável sua fragilidade

Sabemos que, em um jogo em que se disputa com um adversário enfraquecido, é sempre um risco fazer um movimento que o deixe sem alternativas. Ameaçado, o antagonista pode ser levado a tomar decisões extremas na intenção de se salvar. Foi Carl von Clausewitz quem afirmou: "quanto mais se empurra o inimigo para a beira do abismo, mais ele se agarra ao combate com o desespero dos que não têm mais nada a perder."

Essa sabedoria militar pode explicar o movimento do governo, depois do golpe hostil do Congresso Nacional ao derrubar o decreto presidencial sobre o IOF. Foi um movimento de autopreservação depois que a derrubada do decreto expressou a mensagem de que o Executivo não pode mais governar.

O papel de Barroso contra os supersalários - Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

O presidente do STF precisa convencer que é contra supersalários liderando combate às resistências

A limitação dos supersalários é a medida que mais sensibiliza a população em geral no debate acalorado sobre corte de gastos em alta no Brasil em meio ao impasse em torno do decreto de IOF.

O trabalhador fica indignado com os excessos e os crescentes penduricalhos que engordam os salários de membros do serviço público, em especial juízes, desembargadores e promotores.

Boa parte desses penduricalhos é protegida pela palavrinha mágica de "indenização", que livra essa renda adicional da incidência do Imposto de Renda. Os extras ficam foram do teto salarial do funcionalismo público, de R$ 46.366,19, e de quebra quem recebeu não paga imposto.

Foi bonita a festa, pá - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Magistrados brasileiros precisam reconhecer que viagens internacionais patrocinadas constituem problema ético

Mais um ano, mais uma edição do Fórum Jurídico de Lisboa, o Gilmarpalooza, que junta na capital portuguesa juízes de cortes superiores brasileiras, políticos, advogados e empresários.

Vale registrar que o evento lisboeta, promovido por uma instituição de ensino de Brasília da qual o ministro Gilmar Mendes é sócio, é só um dos cada vez mais numerosos seminários internacionais que colocam magistrados brasileiros em convivência festiva com partes em processos.

O Nordeste subsidiou o Sudeste - Rodrigo Zeidan

Folha de S. Paulo

Não faz sentido reclamar que nossas regiões mais ricas subsidiam as mais pobres

O que a Dinamarca, China, as duas Coreias e o Brasil têm em comum? Seus governos em algum momento geraram fome em nome de rápida industrialização. Em alguns países, isso ainda explica parte da diferença de renda entre regiões.

No Brasil, já ouvi de gente do Sul e Sudeste que nosso atraso está ligado à necessidade de regiões ricas subsidiarem as mais pobres. Mas é aí que está a questão: nunca foi requerimento empobrecer o Norte e Nordeste para o Brasil crescer, mas foi esse o caminho escolhido pelos governos militares, responsáveis pela aceleração da industrialização brasileira.

Os militares usaram tática comum em muitos países: transferir recursos da agricultura para áreas industriais. Com aumento do empobrecimento e criação de oportunidades em outras regiões, o que seria migração natural se transforma em êxodo rural. As regiões mais ricas começam a sugar pessoas fugindo das condições funestas das áreas agrícolas, em um círculo vicioso que pode durar décadas.

Para proteção suficiente na internet - Miguel Reale Júnior

O Estado de S. Paulo

Após anos de inércia do Congresso, o STF decidiu enfrentar a questão da constitucionalidade ou não do disposto no artigo 19 do Marco Civil da Internet

Tudo começou em Piracicaba, no ano de 2018, quando a moradora Lourdes Laranjeira ajuizou contra o Facebook uma Ação de Obrigação de Fazer acumulada com pedido de indenização, por não se haver suprimido perfil falso criado em seu nome, apesar de extrajudicial notificação. O Facebook, em resposta, argumentou que, nos termos do artigo 19 do Marco Civil da Internet (MCI), Lei n.º 12.965/18, aguardou ordem judicial específica para retirada da página.

Com efeito, o artigo 19 do Marco Civil estabelece a responsabilidade civil das plataformas, com relação a conteúdos de terceiros, apenas na hipótese de descumprimento de ordem judicial de remoção. É exatamente este o ponto: é constitucional limitar-se à obrigação de exclusão de matéria nociva à sociedade ou a alguém apenas por ordem judicial ou, pelo contrário, bastaria notificação extrajudicial?

Câmara vai pagar despesas de 30 dos 44 deputados que foram a evento em Lisboa

Weslley Galzo / O Estado de S. Paulo

Lista de congressistas que participaram do fórum organizado pelo ministro Gilmar Mendes inclui parlamentares que são parte em processos no Supremo; direção da Câmara não comenta

O XIII Fórum de Lisboa, organizado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, levou 44 deputados em missão oficial de Brasília para a capital de Portugal nesta semana. Dentre os parlamentares, 30 solicitaram que a viagem fosse com “ônus” à Câmara. Com isso, a Casa vai arcar com todas as despesas, como hospedagem, deslocamento e custos adicionais.

Os deputados que pediram o ressarcimento das despesas serão reembolsados após a apresentação das notas ficais. Por esta razão, ainda não é possível estimar quanto o deslocamento em massa de parlamentares a Lisboa custou aos cofres públicos.

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), está entre os deputados que solicitaram o reembolso dos valores. Na lista dos viajantes, também figuram seis parlamentares que são parte em processos no STF: Arthur Lira (PP-AL) – ex-presidente da Casa –, Elmar Nascimento (União Brasil-BA), Luís Tibé (AvanteMG), Paulinho da Força (Solidariedade-SP), Rodrigo Gambale (Podemos-SP) e Baleia Rossi (MDB-SP).

Como não quebrar o País - Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

Responsabilidade fiscal não é bonita só no papel – ela evita também o vexame internacional

No Sul, o presidente Lula prega a taxação dos super ricos. No Norte, Trump quer corte de impostos com pacote legislativo BBB (“One Big Beautiful Bill”), que inclui cortes massivos de impostos e alterações significativas nos gastos públicos. Em comum entre eles está o fato de que são políticas que estão longe de equilibrar as contas, com déficit fiscal enorme, sem sustentabilidade a médio e longo prazos.

Assim, pela segunda vez nesta coluna, proponho um curso (o primeiro foi sobre inflação): Como governar sem quebrar o País (e sem passar vergonha). Começa assim: prezados governantes (especialmente aqueles que confundem economia com mágica), bem-vindos ao curso que vocês não pediram, mas desesperadamente precisam.

A fábrica de crises - André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

A falta de sintonia demonstra, mais uma vez, que o sistema de governo adotado no Brasil não é representativo. Ao contrário, é uma fábrica de crises

Crises institucionais não constituem novidades no Brasil. Ao longo da história, várias vezes, o presidente da República se insurgiu contra o Congresso. Usualmente, esses gestos dramáticos não resultam em nada de proveitoso para o próprio chefe do governo, nem para o país. Exemplos recentes: Jânio Quadros, em 25 de agosto de 1961, decidiu renunciar à Presidência por não conseguir governar com o Congresso que não aceitava suas diretrizes, temperadas por discurso algo de esquerda. Ele chegou a condecorar Ernesto Che Guevara, um dos líderes da revolução cubana. Renunciou na esperança de que o povo fosse resgatá-lo na base aérea de Cumbica, em São Paulo. O povo não apareceu, e ele teve que embarcar em navio cargueiro com destino ao asilo na Inglaterra.

O discurso dos grandes ditadores - Eduardo Affonso

O Globo

Quero ser tratado por Meritíssimo, Excelência, Vossa Senhoria. É meu ofício: governar, legislar, fazer cumprir as leis, em causa própria

Sim, quero ser imperador, cacique, líder supremo, dono do mundo, do pedaço, da parte que — por voto, concurso ou apadrinhamento — me cabe neste latifúndio.

Quero ser tratado por Meritíssimo, Excelência, Vossa Senhoria. É meu ofício: governar, legislar, fazer cumprir as leis — em causa própria, e, bem sabeis, a meu bel-prazer. Quero ajudar os meus — e que se danem ucranianos, ianomâmis e aposentados, contribuintes, motoristas de aplicativo e judeus. Prendei os que vandalizam palácios e ignorai os que deixam ruir igrejas, arder museus. Quero que negros odeiem brancos, pobres se insurjam contra ricos — e eu, rico e branco, fomentador de antagonismos e mestre em demonizar o diálogo, seja reverenciado como um deus.

PT posa de paladino da justiça social – Pablo Ortellado

O Globo

Partido tenta fazer parecer que sua inabilidade de navegar o sistema político é, na verdade, luta de classes

Desde a semana passada a esquerda se engajou numa campanha contra o Congresso e os BBBs — Bilionários, Bancos e Bets. Nesta semana, a campanha virou “oficial”. Na quarta-feira, o perfil do governo federal publicou uma charge com um cabo de guerra tendo, de um lado, o povo trabalhador com a descrição “avanço” e, no outro lado, madames e engravatados com a inscrição “retrocesso”. Em seu perfil pessoal, Lula publicou uma foto, no meio da multidão, segurando o cartaz “Taxação dos super ricos”. O PT religou sua máquina de prestidigitação, tentando fazer parecer que sua inabilidade de navegar o sistema político é, na verdade, luta de classes.

Subir impostos é inútil – Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Tributos aumentam porque gastos aumentam. O governo federal bate recordes de arrecadação, e ainda falta dinheiro

O assunto está certo: o desastroso sistema tributário brasileiro. O debate tem muita coisa errada. Começando pelo IOF, Imposto sobre Operações Financeiras. Os ricos certamente pagam IOF quando compram um carrão importado ou torram uma nota no cartão de crédito internacional. Logo, aumentar esse imposto é uma medida de justiça tributária, certo? Errado. Quem está enrolado numa dívida de R$ 300 no cartão de crédito também paga IOF. Ou quem compra uma blusinha no cartão de débito também morre com imposto.

Sociedade de massa e financismo - Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

A ação do Estado tem sido contestada pelo intenso processo de homogeneização ideológica de celebração do orçamento equilibrado

A tendência marcante do nosso tempo é a crescente submissão da política aos ditames dos mercados financeiros. Não se trata do poder dos operadores, aqueles que se empenham na busca do melhor resultado. Em suas opiniões econômicas, esses funcionários da finança exprimem os consensos impessoais que os submetem aos mandamentos da sociedade de massa. Não são agentes racionais, mas escravos das concepções que os dominam.

Em delírio subpositivista, um economista do mainstream sugeriu que as narrativas (ideologias?) não podem desmentir os fatos, como se os “fatos” da vida social não fossem inseparáveis das narrativas sobre eles. Desgraçadamente para a matilha de cães raivosos que emitem latidos na economia, os humanos formulam narrativas para configurar a “realidade”. Escravos da linguagem, os bípedes falantes estão sempre diante de uma disputa de narrativas, significados, até quando escolhem instrumentos de comprovação empírica dos fatos que pretendem narrar.

IOF: decisão inconstitucional - Pedro Serrano

CartaCapital

As prerrogativas do Congresso não podem ser utilizadas como meio de esvaziamento do legítimo campo de atribuição do Executivo

O Congresso Nacional, alegando exorbitância no exercício do poder regulamentar, sustou os decretos do presidente da República que majoraram, dentro dos limites máximos previstos em lei, as alíquotas do Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguro ou Relativas a Títulos ou Valores Mobiliários (IOF). A questão em exame não versa sobre mera matéria de natureza tributária, bem como de um desejável controle recíproco entre os poderes do Estado quanto às limitações normativas do poder de tributar. Deparamo-nos com um conflito entre os poderes do Estado inédito na nossa história recente.

A faca e o queijo - André Barrocal

CartaCapital

Ao antecipar a disputa eleitoral, o Congresso dá ao governo um discurso de campanha

As 11h35 da noite de 24 de junho, uma terça-feira, o ­deputado Hugo Motta, presidente da Câmara, anunciou no ex-Twitter a ­pauta do plenário do dia seguinte. A proposta do PL de Jair Bolsonaro de derrubar o decreto de Lula a respeito do Imposto sobre Operações Financeiras, o IOF, estava na lista. Gleisi Hoffmann, ministra da Articulação Política, surpreendeu-se. E telefonou para o titular da Fazenda, Fernando Haddad. Acordado pela ligação, o ministro perguntou se a colega havia procurado Motta. Hoffmann entrou em contato com o deputado e ouviu que a decisão era irreversível. Haddad ainda tentou falar com o parlamentar pela manhã, antes da votação. Uma semana depois, ainda esperava o retorno do telefonema.

A proposta da oposição contra os decretos presidenciais acabaria aprovada na Câmara e no Senado no mesmo dia. Derrota histórica do governo. A última vez que algo semelhante aconteceu foi em 1992. Em 1º de julho, Lula recorreu ao Supremo Tribunal Federal para tentar ressuscitar as normas. O caso está com Alexandre de Moraes, o juiz da ação penal contra Bolsonaro por tentativa de golpe. O capitão tem planos de controlar o Congresso a partir de 2027 com a eleição de aliados em 2026. Em especial o Senado, a quem cabe aprovar, e cassar, magistrados do STF. Por esse motivo, os superpoderes do Legislativo, alimentados pela explosão financeira das emendas parlamentares, não é do interesse da Corte. Emendas que são uma das causas da revolta congressual contra o decreto de Lula e que estão na mira de uma cruzada moralizadora de outro integrante do Supremo, Flávio Dino.

Fogueira de São João - Sergio Lirio

CartaCapital

O governo, enfim, reage à afronta do Congresso. Em certas situações, fogo se combate com fogo

Escorreu mais rápido pelas redes sociais do que pela garganta aquela talagada na boquinha da garrafa de uísque do presidente da Câmara, Hugo Motta, registrada em vídeo durante os festejos juninos em Patos, Paraíba, terra natal do deputado. Naquele instante de puro malte e descontração, imaginemos, Motta provavelmente arquitetava os detalhes da maior fogueira acesa no Congresso desde que assumiu o lugar de Arthur Lira como tutor do parlamentarismo, ou semipresidencialismo, à brasileira. De volta à mesa diretora, ainda embalado pelas sanfonas do “arraiá”, o parlamentar empilhou a lenha das traições, dos ressentimentos, da chantagem, dos interesses explícitos e escusos, dos lobbies, da antecipação da campanha eleitoral e da desarticulação do governo para colocar fogo no País, enquanto convidava os pares a dançar a quadrilha no plenário da Casa sobre o cadáver do decreto do Palácio do Planalto. “Olha o IOF. É mentiiiraaaa”, gritaram quase 400 excelências. O governo Lula saiu chamuscado, mas quem ardeu na brasa foram os 99% de brasileiros a quem, historicamente, são oferecidas as cinzas no fim da festa.

O fim da submissão do governo ao Centrão? - Rui Martins*

Revista Será?

O governo de Lula chegou a um ponto de confronto com seus adversários no Congresso e isso poderá mudar o clima político brasileiro?

A chamada traição do presidente da Câmara Hugo Motta, em conluio com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, convocando na calada da noite os parlamentares para rejeitarem o decreto do governo de aumentar os impostos nas operações financeiras de capitais, IOF, poderá criar o clima político reclamado por lideranças de esquerda descontentes com a chamada submissão ou concertação do presidente com seus inimigos na Câmara e no Senado.

Uma reação com resultados agora imprevisíveis, podendo mesmo levar a um impeachment, se os movimentos sociais, identitários de esquerda  e petistas não conseguirem recuperar o espaço perdido nas eleições parciais do próximo ano. Existe também um risco exterior, representado pela proximidade dos governos de Trump e Milei, identificados com o abandono das bandeiras sociais, mas não parece haver outra opção viável.

Alguns pingos nos is - Marcus Pestana

O debate público, às vezes, fica enviesado. Vamos deixar as coisas claras. O Brasil não está vivendo uma crise sistêmica do capitalismo nacional. Temos uma crise de natureza fiscal. Grave e crescente. Centralizada particularmente no orçamento da União. A situação de municípios e estados é muito heterogênea. Isto não alivia. Nossa Federação é extremamente concentrada e estados e municípios em crise sempre buscam socorro no governo central.

Poesia | Pátria Minha - Vinicius de Moraes

 

Música | Chico Buarque e Mônica Salmaso - Sem Fantasia

 

sexta-feira, 4 de julho de 2025

Opinião do dia – Tavares Bastos*

“A miséria moral, como a pobreza material, não a compramos com a independência: herdamo-las. Colônia alguma recebeu de um povo europeu mais rico legado. Seja embora! As heranças veneram-se. Nós veneramos os nossos prejuízos. Nossa miséria histórica é a nossa riqueza.

O passado instalou-se no presente, acompanha-o, excede-o, esconde-o, cobre-o, ele, uma sombra!

O passado é a ideia inata dos governos e o critério da população. Aquele não ousa feri-lo de frente. Esta afere tudo pela medida das máximas consagradas.”

*Aureliano Cândido Tavares Bastos (1839-1875) foi um deputado, escritor e jornalista brasileiro. É considerado um precursor do federalismo, por sua luta contra a centralização administrativa durante o Segundo Reinado. 'Prefácio das Cartas do Solitário', p. 21, edição eletrônica da UFRJ.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Ataques ao Congresso são inaceitáveis

O Globo

Parlamento não é imune a críticas, mas ele tem legitimidade e papel essencial na solução dos problemas

Não é possível ficar inerte ante os ataques ao Congresso que partem de hostes governistas. Depois que os parlamentares derrubaram a alta no Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), o governo entrou em modo de combate. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recorreu ao Supremo e chamou a decisão de “absurda”. O PT ampliou a propaganda em prol da taxação dos “super-ricos”. Tomaram conta das redes sociais de inclinação petista vídeos alvejando o Parlamento, em particular o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Num deles, Motta é exibido como defensor de menos imposto para ricos e de “congelar” o salário mínimo. Noutro, mais agressivo, o Congresso é tachado de “inimigo do povo”.

Nem todos os vídeos foram endossados pelo governo ou pelo PT. A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, desautorizou ataques a Motta: “Não é assim que vamos construir saídas para o Brasil, dentre as quais se destaca a justiça tributária”. Apesar da tentativa de apaziguar ânimos, militantes atenderam ao apelo pela radicalização ocupando um banco na Avenida Faria Lima, em São Paulo. Depois do primeiro vídeo, e antes dos demais, a oposição reagiu com uma paródia. Ninguém deve cair na armadilha de ser arrastado a uma batalha em que o país só perde. O “nós contra eles” aponta um caminho perturbador.

Imigração é necessária para o mundo - Fernando Abrucio*

Valor Econômico

A ideia de que o mundo europeu e norte-americano, ao se livrar dos incômodos imigrantes, terá mais empregos e prosperidade aos locais é um engodo

O nacionalismo é a base do mundo contemporâneo. Ser um país com instituições, identidade cultural e um projeto de desenvolvimento tem sido objetivo de todos os povos que se organizam politicamente. Mas a maioria das nações só se desenvolveu graças ao contato com o exterior e pelo fluxo migratório, enviando ou recebendo pessoas. A despeito disso, os imigrantes se tornaram um dos grandes bodes expiatórios da política atual, especialmente por meio do discurso da extrema direita, que ganha votos assim e encurrala a maioria dos adversários, hoje perdidos nesse debate. O que se vê como risco, no entanto, é a melhor solução civilizatória para o século XXI.

Preconceitos contra o estrangeiro, pessoas de outras culturas ou cor sempre estiveram presentes na humanidade. Guerras foram geradas por esse sentimento, bem como a separação entre as sociedades. Só que o contato entre os povos tem se tornado mais global. Primeiro, a partir do projeto colonista europeu, depois com as independências nas Américas, que receberam milhões de imigrantes, particularmente da Europa e da Ásia, e continuou ainda no pós-guerra até os dias atuais, agora com um fluxo imigratório preponderantemente dos países mais pobres aos mais ricos.

O número dos deputados federais - José de Souza Martins*

Valor Econômico

Se Lula for o político hábil que sempre foi, vetará o aumento. Se for esperto, talvez não arruíne sua relação com o Legislativo. Estamos em face do efeito bumerangue na política

A elevação do número de deputados federais de 513 para 532 a partir das eleições de 2026, por decisão das duas casas do Congresso Nacional, surpreendeu muitos brasileiros que consideram que o número de membros da Câmara já é excessivo. Parece mais um episódio em que os políticos brasileiros decidem em causa própria.

Os que votaram o projeto exibem um comportamento revelador de consciência pouco política a respeito de si mesmos, geralmente oportunista. Em que fica claro que sabem que o que decidem a respeito de seus próprios interesses, mesmo em face da repulsa pública, é para fazer com que o malfeito pareça legal e não expressão de reprováveis interesses corporativos. E, desse modo, pareça que a “culpa” é da lei e das instituições.

Quanto Lula quer crescer nas pesquisas até o fim do ano - Andrea Jubé

Valor Econômico

O objetivo é que ele alcance 40% de ótimo e bom

Aprendi uma palavra nova, não com a inteligência artificial, mas com o poeta Manoel de Barros (1916-2014), uma quase terapia nesses tempos de muito embate e intolerância, instabilidade e reveses. “Arúspices”: palavrinha estranha e feia, mas que dialoga com o ambiente político. Ela me fez pensar no presidente Luiz Inácio Lula da Silva em confronto com o Congresso, e sob alta pressão dos aliados porque 2026 chegou mais cedo, a campanha está nas ruas, nas redes digitais e sua popularidade estacionou abaixo da margem de segurança.

Traduzo. A palavra apareceu num poema em que Manoel de Barros conta a história de “Mário-pega-sapo” que, de noite, entretinha-se em abrir os anfíbios que capturava de dia em riachos, barrancos e terrenos baldios. “Abria um por um de canivete os sapos para ler nas entranhas deles o seu futuro. Eu pensava que aquele Mário-pega-sapo fosse um descendente dos arúspices, sacerdotes romanos que adivinhavam o futuro remexendo no altar as entranhas de seus inimigos”.

Campanha calça popularidade, leva conflito à rua e divide governo - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Congresso usou reação empresarial para arrancar demandas do governo, mas foi surpreendido pela reação das redes e recuou

As pesquisas diárias que o Palácio do Planalto faz para mensurar a avaliação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva mostraram uma elevação de cinco pontos percentuais na sua popularidade desde o início da ofensiva do governo para caracterizar o embate em torno das medidas fiscais como uma batalha entre ricos e pobres.

Gabinetes da Avenida Faria Lima, centro financeiro de São Paulo, já estavam de posse do resultado desses “trackings” quando aconteceu a ocupação, por manifestantes da Frente Povo Sem Medo, do saguão do prédio que abriga o Itaú BBA na avenida Faria Lima, em São Paulo. Levavam as faixas com as mesmas palavras de ordem da campanha governista: “O povo não vai pagar a conta”, “Chega de mamata”, “Taxação dos super ricos já”. Os manifestantes permaneceram duas horas e depois deixaram o prédio.

Economia vai bem, obrigado, mas disputa eleitoral precoce atrapalha - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Quem olha para o cenário político tem razões para ser pessimista, porque o impasse entre o Palácio do Planalto e o Congresso transbordou para a virulência nas redes sociais

O Ibovespa bateu novo recorde ontem, em meio a uma crise política protagonizada pelo Palácio do Planalto e o Congresso, em razão da antecipação da disputa eleitoral de 2026, tanto pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva quanto pela oposição, que é liderada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. A Bolsa avançou 1,35% e encerrou o dia aos 140.928 pontos, atingindo um novo recorde. Até então, o maior nível havia sido registrado em 20 de maio, quando bateu 140.110 pontos. O dólar continua em queda, cotado a R$ 5,4049, o menor nível desde junho de 2024 (R$ 5,3605).

Como explicar uma situação como essa, num momento em que as análises são as mais catastrofistas em relação ao desempenho da economia por parte dos analistas do mercado financeiro e dos políticos de oposição? Ainda mais num momento de impasse em relação ao ajuste fiscal, no qual o governo quer aumentar a arrecadação e não cortar os gastos sociais, enquanto a oposição e o mercado pregam exatamente o contrário.

'Nós contra eles' é tiro no alvo ou no pé? - Vera Magalhães

O Globo

Ao partir para o contra-ataque, governo e PT ao menos deram um argumento a seus militantes, que andavam meio desnorteados

O limiar que separa um tiro em direção ao alvo e um que acerta o próprio pé na política é bem mais tênue que noutros momentos da vida, literais ou metafóricos. No caso da efetividade da nova versão do discurso do “nós contra eles” adotada pelo governo Lula, o sucesso ou o fracasso da estratégia mora em detalhes que não são descartáveis nem parecem fáceis de calibrar diante da profunda cizânia entre o Executivo e o Congresso.

O primeiro fator essencial que poderia levar a que se desse um tiro n’água foi notado pelos responsáveis por colocar a campanha na rua: não adiantava o “nós” serem apenas os pobres beneficiários de políticas sociais, e “eles” serem todo o resto da sociedade. Por uma questão de matemática básica, Lula perderia o embate ao dividir a sociedade assim.

Daí por que a classe média, fatia maior e mais heterogênea do bolo demográfico (e eleitoral), foi rapidamente colocada do lado de Lula no cabo de guerra, tradução escolhida por uma das muitas peças publicitárias lançadas para martelar a ideia.

Centrão agora quer limitar ações no STF contra abusos do Congresso - Bernardo Mello Franco

O Globo

Alcolumbre e Lira defendem impedir partidos pequenos de recorrerem à Justiça

Davi Alcolumbre quer limitar o direito de partidos políticos recorrerem à Justiça contra decisões do Congresso. O presidente do Senado reclamou que hoje “todo mundo” pode propor ações ao Supremo, o que precisaria ser alterado “com urgência”. “Esse é um problema seriíssimo”, sentenciou.

A ideia de Alcolumbre não é boa nem nova. Já havia sido defendida pelo deputado Arthur Lira. Ontem o ex-chefão da Câmara disse que é preciso “subir o sarrafo” dos partidos aptos a questionar o Supremo. Ele participa do chamado “Gilmarpalooza”, evento em que políticos e magistrados brasileiros discutem temas brasileiros em Lisboa.

A ofensiva do Centrão tem endereço certo. O bloco que manda no Congresso quer impedir que partidos pequenos, como PSOL, Rede e Novo, entrem com ações no Supremo. De quebra, quer restringir os poderes da Corte para invalidar leis aprovadas pelos parlamentares, mesmo que elas violem a Constituição.

Governo ganha embate nas redes sociais pela primeira vez – Flávia Oliveira

O Globo

O comportamento de deputados e senadores catalisou uma reação negativa que aproximou eleitores e opositores de Lula

O governo foi às cordas; reagiu com tática, até então, exclusiva da oposição; voltou ao ringue. Tomara a freada de arrumação empurre o país para o tão necessário quanto urgente debate sobre equilíbrio fiscal e justiça tributária. Faz um par de semanas, um Congresso Nacional, ao mesmo tempo empoderado e hostil ao presidente da República, tramou o enfrentamento que ameaçava minar, na avaliação do Planalto, o espaço que ainda resta a Lula para governar o país. Além de impor a aplicação de mais de R$ 50 bilhões do Orçamento via emendas parlamentares, deputados e senadores avançaram contra um decreto presidencial, prerrogativa do Executivo. De quebra, alinharam-se a medidas que vão de encontro aos interesses do eleitorado.

Um colapso anunciado - Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

Executivo, Parlamento e Judiciário caminham celeremente para o colapso não porque escolhem essa saída, mas porque são incapazes de mudar seu comportamento

Num ano em que o Brasil recebe a COP-30 e, certamente, falará de seu imenso potencial, estamos às voltas com uma situação difícil, que aponta para um colapso financeiro em 2027.

Será que isso acontecerá como alguns economistas preveem? E se acontecer, corremos o risco de repetição de algo como a crise grega de 2010? O que vimos acontecer na Grécia é suficiente para um grande esforço para evitar o colapso, mesmo que tenha proporções menores. De qualquer forma, será um sofrimento desnecessário.

Executivo, Parlamento e Judiciário caminham celeremente para o colapso não porque escolham essa saída, mas porque são incapazes de mudar seu comportamento, porque foram contaminados pelo poder num país em que fazem e desfazem diante de uma certa passividade social.

Mais um BBB caiu nas redes – Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Marketing de Lula mira o Congresso com o BBB da moda: Bancos, Bets e Bilionários

Não se trata do show de televisão, da nota das agências de rating, nem mesmo das famosas bancadas do Boi, da Bala e da Bíblia, o novo BBB que está na moda é outro, Bancos, Bets e Bilionários, criado pela varinha mágica do marketing político para tentar resgatar a popularidade perdida do presidente Lula e a aprovação, que não anda nada boa, do seu governo.

Fórmula populista que tem tudo a ver com o PT e o próprio Lula, o novo BBB joga a luta de classes no terreno da atual polarização política, que já passou pelo “nós contra eles” e desaba agora no “pobres contra ricos”, com o governo obrigando o PT a pegar em armas na internet. Parece criativo, engenhoso, nesse complexo mundo do marketing, mais e mais alavancado pelas redes, mas tem riscos.

Nós, quem? Contra eles, quem? - Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Houve um tempo em que o presidente Lula anunciava que governava para o interesse de todos os brasileiros, inclusive dos que votaram contra ele.

Hoje, vai sendo imposto o mantra do “nós contra eles”, sem que fique claro quem sejam esses “nós” e quem sejam esses “eles”. Nós, os pobres? Nós, os proletários? Nós, os do Partido? Nós, os democratas? Contra quem? Contra a direita? Contra a Faria Lima? Contra os mandachuva de sempre? Seja o que – e quem – for, é o discurso da polarização, que pretende antecipar o debate eleitoral.

No momento, serve para defender o renitente aumento de impostos, em detrimento de um mínimo de objetividade: como é que o aumento do IOF, que deveria servir apenas para fins regulatórios – e não arrecadatórios –, beneficiaria o “andar de baixo” e não os lobbies favorecidos pelo Congresso, se atinge em cheio as pequenas e médias empresas, os microempreendedores individuais (MEIs) e o comércio que pratica o crédito denominado “risco sacado”?

Presidentes que confrontaram Legislativo perderam - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Discurso em favor de justiça tributária energiza eleitores do PT, mas talvez não traga novos apoios

As próximas movimentações dirão se a escalada retórica de Lula é só uma tentativa de se reposicionar para negociar melhor com o Congresso ou se o petista vai mesmo para o tudo ou nada com o Legislativo.

Acredito mais na primeira hipótese. Todos os presidentes que partiram para o confronto direto se deram mal. Collor e Dilma sofreram impeachment e Bolsonaro, que ameaçara governar diretamente com o povo, acabou se entregando gostosamente ao centrão, que foi agraciado com o orçamento secreto. Lula assistiu a tudo isso da primeira fila. Custa-me crer que não tenha assimilado a lição.

Taxação BBB leva luta de classes ao reality da crise - Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Defesa da taxação a bancos, bets e bilionários se apoia em iniquidade tributária, mas por si não é solução para os impasses em cena

A crise entre Executivo e Congresso, em torno da derrubada do decreto do Executivo que aumenta o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), acabou por reforçar a estratégia do governo Lula de se reapresentar como defensor dos pobres contra os abastados.

Nesse reality show da política que tenta antecipar o paredão de 2026, surge nas redes lulistas a "taxação BBB", que reivindica justiça tributária com aumento de impostos sobre bancos, bets e bilionários. A ideia, discutível como estratégia, é colocar uma pitada de luta de classes no debate e colar no Congresso a pecha de defensor de privilégios.

Guerra de extermínio antes da hora - Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Governo e Congresso não têm nada a ganhar com uma ruptura em tempo ainda de indefinição eleitoral

A fotografia do momento é de confronto sem solução boa à vista. Ocorre, porém, que há muito filme a ser rodado e por isso os personagens desse enredo eleitoral não devem ir agora ao tudo ou nada. Ainda não é hora.

Não interessa à direita nem à esquerda partir para um embate cujo desfecho depende de muitas variáveis. Luiz Inácio lula da Silva (PT) não tem certeza se vale a pena tentar a reeleição e Jair Bolsonaro (PL) precisa decidir o que fará quando e se vier a provável condenação por tentativa de golpe de Estado.

Invertebrados e acoelhados – Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Em vez de lutar por suas ideias, golpistas estão descobrindo que não vale a pena pagar por Bolsonaro

Na invasão do STF em Brasília no 8/1, o mecânico Fábio de Oliveira foi filmado aboletando-se na poltrona do ministro Alexandre de Moraes. "Cadeira do Xandão, aqui, ó! Aqui, ó, vagabundo! Aqui é o povo que manda!", zurrou. Ouve-se a voz de seu irmão Erlon, que gravava o vídeo: "Cadeira do Xandão agora é do meu irmão Fábio! Nós tomou a cadeira do Xandão, aí, ó!". Diante da pena de 17 anos de prisão a que o voto de Moraes há dias o condenou, Fábio balbuciou: "Era uma brincadeira. A gente não sabia que seria transmitido ao vivo".

Poesia | A espantosa realidade das coisas, de Fernando Pessoa

 

Música | Sebastião Junior canta "Vermelho"