quinta-feira, 12 de junho de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Se governo finge não haver crise fiscal, Congresso deve agir

O Globo

Ninguém aguenta mais imposto. Ou Executivo e Legislativo cortam gastos, ou então país caminhará para o caos

Diante da inércia do Executivo em tomar as medidas necessárias para ajustar as contas públicas, o presidente da Câmara, Hugo Motta, afirmou ter passado da hora de discutir cortes em despesas obrigatórias: “O Brasil caminha para a ingovernabilidade completa para quem quer que venha a ser presidente”. Ele tem razão. E faria bem em se adiantar. A questão não diz respeito só ao Executivo, mas também à Câmara e ao Senado. Todo mundo está cansado de saber as medidas necessárias para conter a explosão da dívida — e, definitivamente, aumentar impostos não está entre elas.

O pacote frustrante ensaiado pelo governo é mais uma ofensa ao brasileiro. Depois de muito suspense, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, se reuniu com os presidentes da Câmara, do Senado e líderes partidários para discutir alternativas à alta do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) rechaçada pela classe política e pelo setor produtivo. O próprio Haddad falara em medidas de longo prazo. O que se viu foi a enganação de sempre: o avanço sobre o contribuinte para tapar o rombo de um governo perdulário.

Abundância para os trabalhadores - Dani Rodrik*

Valor Econômico

Para as pessoas reais, um emprego é uma fonte de orgulho, dignidade e reconhecimento social

A maneira mais segura de se perder um público progressista é começar a falar sobre o lado da oferta da economia, a importância dos incentivos e os perigos do excesso de regulamentação. Essas ideias são tradicionalmente associadas a agendas conservadoras. O novo livro de Ezra Klein e Derek Thompson, “Abundance”, pretende mudar tudo isso.

Como Klein e Thompson apontam, a esquerda tem se concentrado tradicionalmente em soluções do lado da demanda. Um princípio fundamental do New Deal nos Estados Unidos e da social-democracia na Europa é o gerenciamento keynesiano da demanda agregada para garantir o pleno emprego. Outro princípio é o das transferências públicas para mitigar o impacto do desemprego, dos problemas de saúde e da velhice.

Congresso se tornou um ambiente tóxico para alguns ministros de Lula - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Haddad rebate as críticas sobre as contas públicas num ambiente hostil

Depois do incidente com a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, que foi agredida verbalmente por senadores de oposição e se retirou de uma sessão da Comissão de Infraestrutura no Senado, pautada pelo negacionismo ambiental e a misoginia, foi a vez do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, passar por constrangimentos na Comissão de Finanças e Tributação (CFT), cujo presidente, Rogério Correia (PT-MG), encerrou a sessão nesta quarta-feira (11/6), depois que os deputados Nikolas Ferreira (PL-MG) e Carlos Jordy (PL-RJ) iniciaram um tumulto em resposta a uma crítica feita por Haddad.

O Congresso se tornou um ambiente tóxico para alguns ministros do Lula mais visados por serem petistas ou de outros partidos de esquerda, por causa da radicalização ideológica. A “política do espetáculo” passou a ter como palco privilegiado as diversas comissões das duas Casas. Por definição, na psicologia social, um ambiente tóxico é caracterizado por relações interpessoais marcadas por comportamentos negativos e prejudiciais, como bullying, assédio, discriminação e falta de respeito. É marcado por desentendimentos e conflitos, clima opressivo e comportamento agressivo.

Haddad apanha sozinho - Malu Gaspar

O Globo

O bate-boca entre Fernando Haddad e os bolsonaristas Carlos Jordy (PL-RJ) e Nikolas Ferreira (PL-MG), que encerrou com tumulto a audiência pública em que o ministro deveria explicar os novos aumentos de impostos, foi apenas o clímax de um dia em que o governo apanhou mais que Judas em Sábado de Aleluia.

Enquanto Haddad e os parlamentares se acusavam aos gritos de molecagem, os presidentes da federação que une União Brasil e PP, com ao todo 109 deputados, 14 senadores e quatro ministros, anunciavam que, sem propostas de cortes de gastos, nenhum aumento de imposto seria aprovado. De manhã, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), já havia dito que as medidas de Haddad despertariam reação “muito ruim” no Congresso e no empresariado.

O embate que sobrevive ao ocaso bolsonarista - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

O ocaso bolsonarista, evidenciado com o comportamento acuado do ex-presidente durante seu depoimento no Supremo Tribunal Federal, desnorteou sua tropa de choque, mas não contribuiu para reduzir a temperatura no debate político brasileiro

No primeiro embate da extrema-direita com o primeiro escalão do governo depois daquela sessão na Primeira Turma, o que se viu, na verdade, foi a escalada de tom. A ida do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, na tarde desta quarta, à Comissão de Finanças, Tributação e Fiscalização Financeira da Câmara dos Deputados, acabou abreviada depois do bate-boca entre governistas e dois expoentes do bolsonarismo, os deputados Nikolas Ferreira (PL-MG) e Carlos Jordy (PL-RJ). Nada mais simbólico da interdição do debate do que a suspensão da audiência no momento em que Luiz Carlos Hauly (Podemos-PR), um dos deputados com mais quilometragem em questões fiscais e tributárias, ia falar.

Golpistas acoelhados - Merval Pereira

O Globo

Nos depoimentos no STF sobre a tentativa de golpe, nenhum dos réus conseguiu se safar das acusações

Tentativa de golpe de Estado é crime e merece ser punida; mesmo porque, se o golpe fosse bem-sucedido, não haveria julgamento dos que hoje estão no banco dos réus no Supremo Tribunal Federal (STF) — ou os lugares estariam trocados. Considerar normal que um presidente da República reúna comandantes militares para discutir a possibilidade de decretação de Estado de Sítio ou Estado de Emergência para tentar impedir a posse do presidente eleito nas urnas é ser alienado — ou pensar que os outros são.

Se não havia nenhuma prova de que as urnas eletrônicas haviam sido violadas para dar vitória ao adversário, embora Bolsonaro tenha tentado de todas as maneiras encontrar indícios de adulteração do resultado, não havia justificativa para usar as medidas extremas contidas na Constituição para evitar a posse do eleito. Se não bastassem as conversas sobre a necessidade de impedir que o candidato do PT assumisse o governo, houve o 8 de Janeiro.

Todas as estrelas do interrogatório - Míriam Leitão

O Globo

Os réus mentiram e omitiram em seus depoimentos, mas confirmaram o roteiro golpista articulado ao fim do governo Bolsonaro

Réus podem mentir. E foi o que fizeram os réus do núcleo crucial da ação penal sobre a tentativa de golpe no Brasil. Uns mais que outros. Mas não apresentaram elementos para destruir o conjunto probatório que há contra eles, até porque confirmavam a acusação nos muitos atos falhos. “Não tinha clima”, admitiu Jair Bolsonaro. “Não havia possibilidade”, afirmou o general Augusto Heleno. Não é que o golpe não foi tentado. Ele foi. Só não foi concluído. Os réus mentiram, omitiram, minimizaram atos, alteraram a natureza das reuniões, mas confirmaram todo o roteiro do que foi tentado ao fim do governo Bolsonaro, antes de decidirem “entubar” o resultado eleitoral.

O emperramento do ajuste fiscal - Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Tudo se passa como se a questão fiscal tivesse de piorar muito para, só então, começar a melhorar – ou melhor, tivesse de piorar muito para que governo e o Congresso acabem por concluir que é preciso ir bem mais fundo do que neste momento estão dispostos a ir.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já havia avisado que o problema é estrutural. E, nisso, mostrou que avançou no diagnóstico. Até agora, o governo Lula atribuía todos os descalabros fiscais às “heranças malditas”. Se o problema é estrutural, exige soluções estruturais, e não remendos em cima de remendos.

Força de Lula vai definir nome da direita em 2026 - Silvio Cascione

O Estado de S. Paulo

O interrogatório de Jair Bolsonaro no STF reaqueceu especulações sobre sua provável condenação e prisão antes da eleição de 2026. O avanço célere do processo reforçou entre parlamentares a ideia de que ele será forçado a sair de cena, abrindo espaço para o governador Tarcísio de Freitas assumir a candidatura da direita.

Esse cenário é verossímil, mas incompleto. O futuro de Bolsonaro, mesmo em caso de prisão, continuará a depender de sua própria vontade – e essa vontade está condicionada à força de Lula. Há quem acredite que, uma vez condenado, Bolsonaro se convencerá de que não poderá sustentar a narrativa de que ainda é candidato e será pressionado a recuar, indicando um nome mais palatável ao centro, como Tarcísio. O governador tem boa avaliação em São Paulo e trânsito institucional no STF, o que o tornaria peça útil num eventual indulto em 2027.

Bolsonaro e a história - William Waack

O Estado de S. Paulo

Ex-presidente fez uma confusa defesa política num julgamento que não será ‘técnico’

No exercício de sua autodefesa no julgamento do STF, o ex-presidente Jair Bolsonaro fez jus à fama de “autêntico”. Deixou claro que chegou à Presidência sem saber muito bem como, governou no improviso sem saber muito bem como e agora tenta se livrar da cadeia sem saber muito bem como.

Surge desse interrogatório como um personagem quase literário. Para usar a imagem do filme do mesmo nome, um Macunaíma parido com farda em vez de fralda. Nas entrelinhas reconhece ter sido o pior adversário de si mesmo. A ponto de se desculpar.

Vídeos vis, vãos e vadios - Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

No pântano cultural em que nos atolamos, uma imagem fingida ainda valerá mais do que mil palavras sinceras. Por muito tempo

Quando você vê no horário nobre da TV um vídeo mostrando que ninguém mais pode confiar num vídeo, pode ter certeza de que a crise de credibilidade da imagem bateu no limite do insuportável, até mesmo para os profissionais de televisão. E é isso, rigorosamente isso, o que estamos vendo agora.

No domingo passado, o Fantástico pôs no ar este alerta: duvide do vídeo. Numa reportagem impecável (embora leve, informal e quase sorridente), a telerrevista da Globo mostrou que os recursos de inteligência artificial já conseguem fabricar cenas perfeitas com personagens que nunca existiram – ou, o que é pior, cenas mais do que convincentes com personagens que existem, mas nunca fizeram nada daquilo que se vê na tela. Sim, a crise de credibilidade é real e chega até nós como um terremoto. É bom pensar duas vezes, ou mais de duas, antes de acreditar nos filminhos ou filmões que se insinuam para os seus olhos. Você talvez escape das armadilhas. A grande maioria das pessoas, porém, continuará caindo em cada uma delas.

Estados nacionais em ritmo de desmanche - José Serra

O Estado de S. Paulo

Não é só no Brasil ou nos EUA. Os últimos anos têm presenciado lances expressivos na desorganização do Estado e de suas instituições

As últimas semanas testemunharam a dissolução de relações institucionais em ritmo alarmante. No Brasil e no mundo, as trapalhadas têm demonstrado que profissionalismo e interesse público são atributos cada vez raros nos governos e nas cúpulas de negócios. Felizmente, as economias ainda têm um certo grau de resiliência para lidar com o tamanho dos descalabros em curso.

Tomando os exemplos mais dramáticos, comecemos pelo “Império Americano”. Elon Musk foi um eleitor determinante no sucesso de Trump e do Partido Republicano na última eleição, seja pelo apoio financeiro, seja pelo canal de comunicação com setores mais dinâmicos do empresariado americano. O início de grande prestígio do magnata dos foguetes e carros elétricos transformou-o num dos mais influentes conselheiros de Trump.

Mais gambiarra nas contas do governo - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Revolta político-econômica vai depenar pacote de medidas para elevar receita

O que vai sair do pacote de medidas "estruturantes" e do catadão de dinheiros para cobrir o buraco das contas do governo em 2025 e 2026? Um troço desestruturado.

O governo declara que não quer conter o aumento de despesa. O Congresso, com cara-de-pau cínica, apenas cobra a contenção do gasto que frequentemente aumenta. Vão sobrar gambiarras a fim de manter a luz acesa em 2025. Para 2026, continua o risco de apagão, antes previsto para 2027.

A revolta contra impostos, falta de pagamento de emendas parlamentares e a pré-campanha eleitoral vão depenar os planos do governo de aumentar impostos. Poderia ser pior.

Não sei o que posso falar, nem você - Conrado Hübner Mendes

Folha de S. Paulo

Liberdade de expressão virou jogo de bet, e essa loteria é do interesse judicial

Leo Lins diz a auditórios frases assim: "Tem ser humano que não é 100% humano. O nordestino do avião? 72%." "Como vou emagrecer?’ Pegando Aids! Você não adora comer de tudo? Sai comendo gay sem camisinha!" Foi condenado a prisão, multa e indenização. O Brasil tem lei contra discriminação. Mas Leo Lins usa crachá de humorista. Por isso, diz, pode caçar risada por qualquer bagatela.

Gilmar Mendes processou dois jornalistas por reportagem que descrevia investigação da compra, pelo governo de Mato Grosso, de universidade da qual o ministro era sócio. Derrotado em primeira e segunda instâncias, ganhou no STJ.

Os golpistas no banco dos réus - Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Julgar Bolsonaro pela tentativa de golpe não desgasta a democracia aos olhos da opinião pública

Todo golpe de Estado bem-sucedido parece testemunhar a inteligência estratégica de seus líderes e sua capacidade de planejá-lo em detalhe e de aproveitar o momento certo para desfechá-lo. Toda tentativa de golpe fracassada assemelha os seus preparativos a conversas de botequim e sua realização a uma pantomima mal ensaiada e encenada por parlapatões.

Esta há de ser a inescapável sensação de quem tiver acompanhado os depoimentos à primeira turma do STF dos sete réus da ação penal 2.668. Como se sabe, ela apura as responsabilidades do núcleo central da trama golpista encabeçada por Jair Bolsonaro para impedir a posse de Lula nas eleições de outubro de 2022.

Bolsonaro entubou – Ruy Castro

Folha de S. Paulo

O verbo 'entubar', de sóbrias acepções, já foi usado pelo Pasquim num sentido fora das quatro linhas

Ante repetidas perguntas do Supremo Tribunal Federal e da Procuradoria-Geral da República sobre seus esperneios contra a lisura das eleições que o varreram do governo em 2022, o réu Bolsonaro, entre engasgos e espasmos, exclamou: "Tivemos que entubar o resultado das eleições". O intrigante nessa resposta não é o "tivemos", quando ele admite que só a contragosto aceitou o veredicto das urnas. O surpreendente é sua ressurreição do verbo "entubar" em seu significado fora das quatro linhas.

Eleições 2026 e a tecitura da Frente Democrática - Ricardo Marinho

Não se pode e talvez não se deva esperar que os processos eleitorais em uma democracia sejam uma travessia num rio longo e calmo. Quase sempre nos valemos da travessia do rio Rubicão (49 a.C.) na Antiguidade, mas não nos faltam tantos outros nos sertões mineiros de Guimaraes Rosa (1908-1967).

Ao fim e ao cabo, 2026 está logo ali e, para seu sucesso, 2025 é peça incontornável para que a disputa que, tendo como objetivo a vitória eleitoral, necessita que os candidatos demonstrem suas credenciais e talentos para governar melhor o país e os estados.

O problema surge quando, em vez de priorizar esses aspectos proativos do governar, predominam as brigas e as discussões, esquecendo-se que, em uma democracia, os vencedores devem ser capazes de unir o povo em torno dos nossos objetivos de desenvolvimento sustentáveis e estabelecer um denominador comum que os torne viáveis ​​também para os não vitoriosos, alcançando assim uma governança que permita o bom funcionamento do país e dos estados.

Poesia | Poema do amigo aprendiz, de Fernando Pessoa.

 

Música | Alceu Valença - Pagode Russo

 

quarta-feira, 11 de junho de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Ao mobilizar tropas federais, Trump extrapola poderes

O Globo

Protestos violentos em Los Angeles devem ser reprimidos, mas não justificam uso de militares como polícia

É preocupante a escalada da violência desencadeada pelos protestos contra a deportação de imigrantes em Los Angeles. Manifestantes atacaram agentes de imigração com toda sorte de objeto — agressão que não cabe num protesto legítimo. Mais preocupante, porém, é o decreto assinado pelo presidente Donald Trump determinando o envio de tropas federais para conter os manifestantes.

Por meio do decreto, Trump mobilizou 4.100 soldados da Guarda Nacional, que, embora formalmente vinculada ao governo federal, só costuma agir por iniciativa dos estados. Também pôs de prontidão 700 fuzileiros navais para entrar em ação caso necessário. A medida abre um precedente perigoso para que forças militares atuem como polícia. Presidentes sempre temeram usar soldados treinados para matar inimigos contra seus próprios cidadãos. Ações de militares na repressão interna são excepcionais na História americana. Por ser movediça, a base legal para elas sempre funcionou como fator de dissuasão. Não para Trump.

Bolsonaro minimiza atos golpistas e politiza julgamento – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Ex-presidente é apontado pelo Ministério Público como o centro do esquema golpista, com base na delação do tenente coronel Mauro Cid, seu ex-ajudante de ordens

O depoimento de Jair Bolsonaro, nesta terça-feira, no julgamento que apura sua responsabilidade na tentativa de golpe de Estado foi pautado pela naturalização dos atos golpistas nos quais esteve envolvido e pela politização da ação penal. O ex-presidente aproveitou a transmissão ao vivo da sessão da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) para enaltecer o seu governo. Elogiou seu ministério "excepcional", disse que levou água para o Nordeste, dobrou o valor do Bolsa Família, criou o Pix e entregou o Porto de Santos e Itaipu Binacional com superavit. "Quando a gente começa a tapar os ralos da corrupção, aparecem as inimizades", ironizou.

Um outro dia em que o Brasil quase sofreu um golpe - Fernando Exman

Valor Econômico

Risco de ruptura existiu com bloqueio de estradas logo depois da eleição

O dia 1º de novembro de 2022 amanheceu em meio a muita tensão. Insatisfeitos com o resultado do segundo turno realizado dias antes, caminhoneiros bolsonaristas bloqueavam pontos estratégicos da malha rodoviária nacional. Em poucas horas, as obstruções passaram a atingir 25 unidades da federação e estavam saindo do controle.

Documentos com conteúdo golpista circulavam entre os aliados mais próximos de Jair Bolsonaro (PL), então presidente da República e comandante em chefe das Forças Armadas. Era intensa a atividade em grupos de aplicativos de mensagens compostos por auxiliares de escalões inferiores do Palácio do Planalto e da Esplanada dos Ministérios, nos quais a defesa de um golpe era feita com assombrosa naturalidade. Ainda não havia, no entanto, palavra alguma de Bolsonaro no sentido de reconhecer a derrota nas urnas para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Bolsonaro tropeça na política e não se livra das imputações em interrogatório no STF - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Aliados sinalizam descontentamento com desempenho de ex-presidente em depoimento

Auto-exilado no Texas, de onde tem feito pressões por sanções americanas ao ministro Alexandre de Moraes, o deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) se desesperou ao ouvir o pai convidar seu algoz para vice durante seu interrogatório no Supremo Tribunal Federal (STF), nesta terça-feira (10). “Qualquer pessoa com dois neurônios entendeu a ironia da fala de @jairbolsonaro, entendeu que a ÚLTIMA pessoa no planeta que seria escolhida para vice dele seria Moraes”, escreveu no X.

MP mexe com nervos de quem estava calmo - Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Projeto do governo para aumentar as receitas começa a enfrentar resistências antes mesmo de chegar ao Congresso

A medida provisória (MP) que trará novas mudanças na tributação para aumentar as receitas começou a enfrentar resistências antes mesmo de chegar ao Congresso Nacional.

E, chegando, já está combinado que o pau vai quebrar. Foi o que disse, com palavras mais elegantes, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), no evento “Agenda Brasil - o cenário fiscal brasileiro”, promovido por Valor, “O Globo” e rádio CBN na última segunda-feira. Não há compromisso de a MP ser aprovada, avisou.

A ideia de acabar com isenções do Imposto de Renda nas aplicações financeiras mexeu com o ânimo até de um setor que, por sua natureza, não se apavora facilmente: o de infraestrutura.

O ‘jogo do contente’ de Bolsonaro- Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

Ex-presidente pede desculpas a Moraes e reduz tentativa de golpe a críticas às urnas eletrônicas

Um outro Jair Bolsonaro apareceu ontem diante do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, relator da ação penal sobre a trama golpista. Sem o estilo explosivo que lhe é peculiar, o ex-presidente baixou o tom e usou a estratégia do “jogo do contente” ao dar outra versão para o que ocorreu no Brasil após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2022.

Durante todo o interrogatório, Bolsonaro procurou circunscrever sua participação na tentativa de golpe a uma saraivada de críticas às urnas eletrônicas. Foi muito mais do que isso, como revelaram as investigações da Polícia Federal e a denúncia da ProcuradoriaGeral da República, mas o excapitão adotou essa tática de defesa para reduzir sua pena.

Plano de autodestruição nacional - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Lula 3 coloca governo em pindaíba suicida, parte rica do país incentiva o desastre

O plano do governo de cobrar Imposto de Renda sobre os ganhos com certas aplicações financeiras causou choro e ranger de dentes por motivos certos e, na maior parte, errados.

Essas aplicações financiam setores importantes da economia. São, grosso modo, certificados de empréstimos diretos ou indiretos para a agropecuária, para o setor imobiliário e, talvez, também para a infraestrutura (eletricidade, transporte, logística, saneamento etc): LCI, LCA, CRI, CRA, debêntures incentivadas etc.

O imbrochável brochou - Mariliz Pereira Jorge

Folha de S. Paulo

Amém que Bolsonaro não será perdoado: que a Justiça o condene, que a história o engavete

Quem já foi vítima de abuso sabe: basta uma frase, uma imagem, uma voz. O corpo inteiro responde. Não é escolha, é memória. O trauma volta antes do pensamento. Foi o que senti ao assistir a Jair Bolsonaro no depoimento a Alexandre de Moraes no STF.

E sei que não estou sozinha. Para milhões de brasileiros, Bolsonaro não é apenas um ex-presidente. É um gatilho. Apesar de me dar ojeriza, essa palavra que virou muleta linguística talvez seja o que melhor define a lembrança de viver com a sensação constante de uma mira na nuca durante seu governo. Quatro anos sem um minuto de sossego. Um país assediado moralmente, submetido à pedagogia do ódio.

Condenação à vista - Vera Magalhães

O Globo

Interrogatórios confirmam delação e provas obtidas pela PF e réus não refutam acusação de que tramaram golpe em várias ocasiões

Nada nos dois dias de interrogatório dos primeiros réus da ação penal instaurada para julgar se houve tentativa de golpe de Estado no Brasil por parte de Jair Bolsonaro e seus ministros mudou o veredito que parece inescapável: a condenação dos oito integrantes daquilo que o Ministério Público Federal considera o núcleo crucial da trama.

A naturalidade com que, um a um, os réus confirmavam as provas reunidas pela Polícia Federal e as revelações do delator Mauro Cid pode facilitar em muito o trabalho dos ministros da Primeira Turma — e talvez ajude a explicar o aspecto mais surpreendente da jornada, o bom humor a toda prova do relator Alexandre de Moraes, um dos principais alvos daqueles que conspiraram contra a democracia investidos de seus cargos e mandatos.

Um réu no palanque - Bernardo Mello Franco

O Globo

Capitão fez discurso de candidato e sugeriu que golpe fracassou porque "não tinha clima"

Sem esperanças de escapar da condenação pela trama golpista, Jair Bolsonaro tentou usar o banco dos réus como palanque. Convocado a se defender no Supremo, o capitão engrenou um discurso de candidato. Exaltou o próprio governo, criticou o sucessor e se apresentou como opção para 2026.

O interrogatório começou em clima de horário eleitoral. Bolsonaro disse ter montado um ministério “excepcional”, afirmou que levou água ao Nordeste, citou o asfaltamento de uma estrada no Paraná. Num lapso de sinceridade, admitiu que sua ascensão foi uma trapaça da História: “Nem eu esperava ser eleito presidente, tendo em vista quem eu era”.

Alexandre de Moraes optou por não interromper o monólogo. À vontade, o capitão divulgou sua agenda de viagens e brincou que escalaria o ministro como vice em sua chapa imaginária — ele finge não se lembrar, mas está inelegível até 2030.

Memória de Mauro Cid é seletiva – Elio Gaspari

O Globo

O tenente-coronel alterna amnésias e lembranças tardias

Ao final do depoimento do tenente-coronel Mauro Cid, o ministro Luiz Fux disse tudo:

— Este não é o momento próprio, mas vejo com muita reserva nove delações de um mesmo colaborador, cada hora apresentando uma novidade.

Cid é uma flor do entorno militar de Jair Bolsonaro. Ajudante de ordens do presidente da República, esbanjou seus 15 minutos de fama. Sempre que o ajudante de ordens do presidente ganha notoriedade, há algo de errado com o oficial e com seu chefe. Ninguém se lembra de que o major Tomás Paiva foi ajudante de ordens de Fernando Henrique Cardoso. Hoje ele é o comandante do Exército.

Alguns ajudantes de João Baptista Figueiredo, Costa e Silva e João Goulart fizeram fama, e deu no que deu. O marechal Castello Branco zuniu um oficial para o canil porque ele entrou em sua sala querendo saber quem era a mulher que dormira nos aposentos do Palácio Laranjeiras na noite anterior. Castello espinafrou-o e dispensou seus serviços. Quando o oficial deixava a sala, o marechal saciou-lhe a curiosidade: a “senhora” era sua neta, uma criança. O general Eurico Dutra, quando ministro da Guerra, testava candidatos pedindo que o acompanhassem no automóvel. Antes de entrar no carro, dizia que ia para casa, em Ipanema. Ao falar com o motorista, dava um percurso absurdo. Os candidatos que o corrigiram foram dispensados, e Dutra contratou o que ficou calado.

No STF, nenhum réu nega minutas e reuniões golpistas - Vera Magalhães

O Globo

Com diferentes graus de veemência, às vezes tentando minimizar importância de eventos, o fato é que nenhum dos integrantes do núcleo crucial da trama golpista diz que afirmações de Cid e provas são mentira

O mais impressionante das muitas horas de interrogatórios do chamado núcleo crucial da ação penal que trata da trama golpista é que nenhum dos réus ouvidos até agora pelo ministro Alexandre de Moraes nega o teor de minutas, reuniões, lives, trocas de mensagens e outras provas reunidas pela Polícia Federal e que mostram os vários momentos em que Jair Bolsonaro e seus auxiliares, militares e civis, analisaram a possibilidade de levar adiante alguma forma de contestar o resultado das urnas de 2022 e não passar o poder a Lula.

Garnier agora se diz 'muito triste' com atos golpistas - Bernardo Mello Franco

O Globo

Em interrogatório no STF, almirante negou ter oferecido tropas para golpe de Bolsonaro

Descrito como o mais radical dos comandantes militares nomeados por Jair Bolsonaro, o almirante Almir Garnier disse ter ficado “muito triste” com os atos golpistas de 8 de Janeiro.

No primeiro interrogatório desta terça, Garnier cumpriu à risca a estratégia de sua defesa e negou todas as acusações feitas pela Procuradoria e por ex-colegas de farda.

Três estratégias, três erros - Míriam Leitão

O Globo

Os três réus que depuseram nesta manhã de terça-feira no Supremo Tribunal Federal (STF) adotaram estratégias diferentes, nenhuma delas, no entanto, foram bem sucedidas no objetivo de destruir as provas que os ligam à tentativa de golpe em 8 de janeiro.

O almirante Almir Garnier Santos, por exemplo, decidiu ser objetivo, falar pouco, foi lacônico, mas respondeu todas as perguntas respeitosamente. O almirante jogou na defesa, com respostas bem pensadas, mas que não o ajudaram. Ele fez de conta que o que se propunha era uma GLO, e não um golpe. Disse ainda que a Marinha estava de prontidão porque tem que estar, afinal, as Forças Armadas são o “bastião desse negócio”.

Uma economia mundial cada vez mais arriscada - Martin Wolf

Valor Econômico

A guerra tarifária de Trump traz consigo a imprevisibilidade e a consequente perda de confiança

Estamos vivendo os primeiros estágios de uma revolução —a tentativa de conversão da república americana em uma ditadura arbitrária. Ainda não está claro se Donald Trump terá sucesso nessa tentativa. Mas o que ele quer fazer parece evidente. Seu modo de governar —ilegal, imprevisível, anti-intelectual e nacionalista— terá o maior impacto nos próprios Estados Unidos. Mas, inevitavelmente, também está tendo um impacto enorme no restante do mundo, dada a posição hegemônica dos EUA desde a Segunda Guerra Mundial. Nenhum outro país ou grupo de países pode —ou quer— ocupar esse lugar. Essa revolução ameaça o caos.

O caso Leo Lins e o risco do autoritarismo virtuoso – Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Mandar um comediante para a cadeia por arte degenerada não é um bom precedente democrático

Cresce hoje uma tendência preocupante: a disposição de negar direitos civis a quem consideramos moralmente inaceitável. O curioso é que esse impulso autoritário não é incompatível com crenças democráticas.

Como mostram décadas de pesquisa —inclusive o clássico estudo de Samuel Stouffer, "Communism, Conformity, and Civil Liberties"—, muitos que efetivamente valorizam a democracia não veem problema algum em negar a liberdade artística ou de expressão de indivíduos ou grupos percebidos —segundo os parâmetros de quem julga— como depravados, ameaçadores ou nocivos.

Ora, essa é justamente a definição mais consensual de intolerância política: a disposição de suprimir direitos civis e liberdades básicas a grupos e indivíduos cujas ideias e atitudes são vistas como ofensivas ou moralmente inaceitáveis. A intolerância se manifesta quando o compromisso com o pluralismo democrático, que exige o reconhecimento da legitimidade dos adversários, cede lugar à repulsa moral. E ela é situacional: os indivíduos tendem a ser tolerantes com grupos e pessoas que não desafiam seus valores centrais e intolerantes com os que os confrontam.

Trump não é um ator de boa-fé - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Presidente se vale de falso pretexto para intervir na Califórnia e com isso viola usos e costumes da democracia americana

Destruir a democracia americana não é tarefa simples, mas Donald Trump está se esforçando. A decisão de enviar tropas sob comando federal para reprimir protestos em Los Angeles, sem pedido das autoridades locais, viola, talvez não a letra, mas certamente o espírito de leis e tradições políticas norte-americanas.

Os Estados Unidos têm disposições para evitar que autoridades concentrem muito poder, especialmente o poder de polícia, e dele abusem. O comando sobre forças que portam armas é dividido entre vários atores, de prefeitos ao presidente. O governo federal está em princípio proibido de utilizar militares da ativa em repressão interna.

Rotina de desfaçatez – Dora Kramer

Folha de S. Paulo

No relato de Mauro Cid, impressiona a desinibição com que agiam conspiradores sob Bolsonaro

A expressão do título é emprestada do discurso de posse do então ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio Mello, na presidência do Tribunal Superior Eleitoral, em maio de 2006, auge do mensalão. "Uma rotina de desfaçatez" é o que ele dizia assolar o Brasil e contra a qual chamava o país a reagir.

Pelo visto no interrogatório do tenente-coronel Mauro Cid no Supremo, não apenas não houve a necessária correção de rumos como o que se passou no governo de Jair Bolsonaro (PL) em 2022, notadamente no período pós eleição presidencial, foi uma adesão total à prática do desaforo institucional, da corrupção de valores, da roubalheira de princípios.

Nas tetas do Leviatã - Felipe Castanheira

CartaCapital

Salim Mattar empunha a bandeira do liberalismo radical, mas não vive sem a mão amiga do Estado

Desde muito jovem, Salim Mattar declara-se liberal. O encantamento com a doutrina econômica é tamanho que ele vive a citar o fato de ter financiado a tradução para o português de A Revolta do Atlas, da filósofa norte-americana de origem russa Ayn Rand, uma defesa apaixonada do laissez-faire e ataques furibundos aos conceitos de coletividade. As ideias de Rand iluminam o tipo de liberalismo defendido, mas não praticado pelo empresário mineiro, cuja carreira no ramo de aluguel de carros começou em 1973, quando, em sociedade com quatro amigos, obteve um empréstimo de 50 mil cruzeiros, comprou quatro Fuscas e abriu as portas da Localiza.

No mundo real, dos negócios, Mattar não se difere da média dos empresários bem-sucedidos do Brasil. Seu sucesso e fortuna dependeram da generosa e seletiva mão visível do Estado, contra a qual vocifera. No fim da década de 1970, em plena ditadura, as boas relações com oficiais da Aeronáutica facilitaram a obtenção de um ponto privilegiado no recém-reformado Galeão, próximo ao desembarque dos passageiros. Como os voos no aeroporto, a Localiza decolou. Em 1984, o “empreendedor” associou-se à norte-americana National Car Rental, terceira maior locadora do mundo, e conquistou a liderança do setor no Brasil. Em 1989, o nosso liberal decidiu explorar um novo mercado. Por 2,5 milhões de dólares, comprou a Belair Táxi Aéreo, que tinha entre os sócios Luiz Gonzaga Dias, piloto de Fernando Collor de Melo. No mesmo período, que coincide com a eleição do alagoano à Presidência da República, a Belair amealhou um contrato com os Correios para operar os serviços de Sedex VIP. Mais uma vez, a mão visível do Estado veio em socorro de Mattar. Curiosamente, a estatal dispensou o processo de licitação para contratar a Belair.

Desocupando a moita... - Aylê-Salassié Filgueiras Quintão*

Não sei quem teve a brilhante ideia de tentar  apaziguar o clima de ódio  desencadeado  no campo da política, sugerindo  aos dois potenciais candidatos à eleição para Presidente da República, em 2026,  saírem  do caminho. Ambos já ocuparam o cargo, gozam dos privilégios de serem "exs", já aquinhoaram, com benesses do Estado ,   familiares , amigos e correligionários  e, nenhum dos dois fez uma gestão presidencial que os capacite à retornar. Seria um exagero, e até um abuso da ingenuidade popular. Ambiguamente  gozam de grande popularidade, mas também de uma enorme rejeição  pública. Alimentam-se desse furor marquetólógico , travando  falsas batalhas,  escondendo ou camuflando  verdades com versões convenientes. Os dois são fortes candidatos a serem derrotados nas próximas eleições. E a culpa não seria do "centrão". É deles mesmos.

Sobram rejeições, mas falta alternativa – Érico Firmo

O Povo (CE)

É esse o impasse institucional a que chegou o Brasil. As duas grandes forças são rejeitadas e o eleitor tampouco dá espaço, ou credibilidade, a alternativas a esses campos

O Brasil está num complicado buraco político e é difícil vislumbrar saída tão cedo. Governos sem maiorias sólidas tendem a levar a cenários de instabilidade. É preciso alicerce institucional muito consolidado para haver governo sem maioria confortável, ou mesmo minoritário, e ainda assim sólido. Não é apenas polarização. A pesquisa Quaest divulgada na semana passada mostra o impasse institucional que o Brasil vive. Dois terços dos que responderam ao levantamento defendem que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não deve ser candidato à reeleição. São 66%. Percentual quase idêntico, 65%, afirma também que Jair Bolsonaro (PL) deve abandonar de imediato a retórica de que será candidato — pois está inelegível. O eleitor não quer Lula, não quer Bolsonaro, mas também não confere viabilidade eleitoral a nenhum projeto alternativo a ambos.