sábado, 7 de julho de 2018

João Domingos: Tudo ainda incerto

- O Estado de S.Paulo

Não haverá renovação das forças políticas nem na Presidência nem no Congresso

A exatamente três meses do primeiro turno da eleição presidencial, a incerteza quanto ao resultado é a mesma de há seis meses ou de há um ano. Pelas mãos de Lula ou de outro o PT voltará ao poder? A extrema direita e seu saudosismo da ditadura militar triunfará? O centro, que sempre foi competitivo, ficará de fora? Dessa vez Marina Silva vai? E como ficará a tentativa de Ciro Gomes de unir a centro-esquerda à centro-direita? Uma certeza, no entanto, é possível ter desde já: não haverá renovação, seja na Presidência da República, seja no Congresso.

Se houvesse uma casa de apostas no Brasil, e se as apostas fossem sobre o resultado da eleição de 7 de outubro, poderia até haver favoritos. Mas todas as possibilidades deveriam ser levadas em conta a julgar pelo que já fizeram os que melhor pontuam nas pesquisas sobre intenção de votos.

Não dá para dizer que sem Lula o PT perdeu a competitividade. Se o ex-presidente não conseguir o registro de sua candidatura, pois enquadrado na Lei da Ficha Limpa, o nome que ele indicar tem possibilidades concretas de passar para o segundo turno. O PT foi vitorioso na estratégia política de manter o nome de Lula na disputa, mesmo preso. Tanto é que os institutos de pesquisa continuam oferecendo ao eleitor o nome do ex-presidente. E quando se fala em recursos de Lula ao STF, passa-se à sociedade a ideia de que se trata de algo a respeito das condições de elegibilidade dele, não da ação penal pela qual foi condenado. E o plano B petista, o ex-prefeito Fernando Haddad, pontua bem quando é dito que ele seria apadrinhado por Lula.

O deputado Jair Bolsonaro (PSL) consolidou sua posição e tem condições de chegar ao segundo turno. Se conseguir a aliança com o PR e o senador Magno Malta (ES) de vice, tem condições de crescer. Avançará sobre parte do eleitorado evangélico e terá na chapa o reforço de um aliado que, como ele, se apresenta como a antítese do PT e de Lula. É possível até que nesse papel de inimigo dos petistas Malta consiga ser mais convincente do que o próprio capitão reformado do Exército.

Marina Silva está um pouco diferente das eleições anteriores das quais participou. Procura apresentar-se como uma pessoa de paz, que não está disposta a entrar em briga com quaisquer dos lados da disputa. O problema dela é que seu partido, a Rede, tem uma estrutura partidária insignificante, seu tempo de propaganda na TV é ínfimo e seu quinhão no fundo eleitoral é quase nada. Ela procura se socorrer nas redes sociais. Mas serão suficientes para se contrapor ao poderio e alcance da TV aberta?

Ciro Gomes, do PDT, tem marcado uma posição clara. Aproxima-se ao mesmo do tempo do empresariado nacional, com acenos de redução nos juros e controle do câmbio, e das corporações sindicais de trabalhadores, ao dizer que vai rever parte da reforma trabalhista. Ciro tem um projeto ousado, de aliança com a centro-esquerda, no caso o PSB, e com a centro-direita. Se conseguir esse objetivo, tem condições de passar ao segundo turno.

Geraldo Alckmin, do PSDB, tem alguns problemas sérios pela frente. Ele não consegue passar para o eleitor – e ele mesmo diz isso – que é candidato a presidente. A isso atribui o fato de patinar nas pesquisas sobre a intenção de votos. É preferido do mercado, por defender as reformas e o controle fiscal, e é tido como o nome mais capaz de fazer a transição política do País, tirando-o da divisão em que se encontra, por ter perfil moderado e conciliador. Mas Alckmin não consegue convencer nem mesmo partidos identificados com ele do ponto de vista programático de que dará a volta por cima e melhorará sua situação nas pesquisas eleitorais.

Zuenir Ventura: Lembrando um mártir

- O Globo

A recente condenação do Estado brasileiro pela tortura e morte do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, durante a ditadura militar, veio lembrar o que alguns ainda querem negar — que crimes contra a humanidade eram então cometidos por torturadores, um dos quais é hoje exaltado por um candidato à Presidência da República.

A família Herzog teve que recorrer à Corte Interamericana de Direitos Humanos para obter o que, por 43 anos, não conseguiu aqui. A versão oficial do assassinato era uma farsa segundo a qual ele se suicidara enforcando-se com o cinto de seu macacão (que não tinha cinto) no DOI-Codi paulista, um centro de tortura do II Exército, onde se apresentara conforme prometera na véspera aos policiais que foram intimá-lo na TV Cultura, onde era diretor de jornalismo. Podia ter fugido, mas Vlado explicou aos companheiros de trabalho: “Não tenho nada a temer. Amanhã me apresento, esclareço tudo e volto para casa”.

Naquele sábado mesmo, ele foi torturado até a morte por volta das três horas da tarde. Os outros dez jornalistas que estavam presos lá acompanharam do lado de fora da sala o desenrolar da sessão — o rádio ligado a todo volume, as pancadas, os gemidos, os gritos fortes no começo, depois sufocados, finalmente silenciados. “Eles queriam silenciar Herzog”, contou mais tarde o cardeal D. Paulo Evaristo Arns, “e encheram sua boca com lã, também para fazê-lo sofrer.

Ele era cardíaco, e o coração parou, e não conseguiram mais reanimá-lo”. Durante os dois anos em que trabalhamos juntos, produzimos não só algumas matérias de que me orgulho, como construímos uma bela amizade. De 15 em 15 dias, eu ia a São Paulo pela revista e às vezes dormia em sua casa para conversarmos até de madrugada sobre pautas, matérias, movimento artístico. Raramente falávamos de política. Por isso, a sua morte me pareceu mais estúpida.

Ele foi morto pelo que não fazia. Ele não era um militante, não usava a profissão para contrabando ideológico, uma tentação daqueles tempos de sufoco. Ao contrário — e essa era a mais admirável de suas virtudes profissionais — Vlado não usava o jornalismo como pretexto político; acreditava na informação como força transformadora. Quer dizer: mataram a pessoa errada. Como se houvesse uma pessoa certa a matar.

Naqueles tempos de horror, difíceis de viver e trabalhar, Vlado soube viver, trabalhar e morrer com dignidade. Para mim, ele ficou como um mártir da abertura. Foi a partir do choque causado por sua morte — com toda a indignação e revolta que espalhou — que a imprensa brasileira tomou coragem de avançar até o horizonte do possível.

Antônio Cláudio Mariz de Oliveira: Cultura punitiva, sociedade em risco

- O Estado de S.Paulo

Sem estrita obediência às garantias legais, instaura-se a tirania investigativa e judiciária

Um sofrimento infligido a um homem ou à sociedade, quando é adotada uma da reação para extirpá-lo ou minimizá-lo, é acrescido de outro padecimento, de natureza diversa. O exemplo mais claro é o do medicamento que causa efeitos colaterais danosos. Procura-se a cura de uma moléstia e se adquire, como efeito direto do remédio ingerido, um outro mal para a saúde.

O mesmo se dá com os fenômenos advindos da conduta humana. O exemplo a ser analisado é o da criminalidade, violenta ou a denominada de colarinho-branco. A primeira tem como antídoto escolhido a repressão policial. No cumprimento dessa missão, tem-se assistido ao remédio voltar-se contra os doentes, que se tornam vítimas do arbítrio policial. Ademais, os próprios responsáveis pelo combate à doença do crime violento têm sido atingidos pelo tratamento escolhido: inúmeros são os policiais mortos em serviço.

Já o combate ao crime não violento, que encontra na corrupção o seu mais eloquente modelo, vem provocando efeitos colaterais que atingem o ordenamento penal e a segurança jurídica do País.

Instalou-se uma verdadeira “cruzada anticrime”, responsável por uma cultura punitiva criada pelos responsáveis pela persecução penal e caracterizada pelo desrespeito ao sistema de normas constitucionais e legais que regem essa atividade. Como arauto dessa cultura nós temos a mídia, que, por sua vez, influencia uma sociedade cada vez mais raivosamente intolerante e sedenta de castigo e de vingança.

Ruy Fabiano: STF: sem juízes e sem juízo

- Blog do Noblat | Veja

Supremo nunca teve o protagonismo político de hoje

Em nenhum outro momento da História do Brasil, o STF teve o protagonismo político de hoje. Da mesma forma, jamais sua imagem e credibilidade estiveram tão desfavorecidas perante a população. Não são situações desconexas: uma coisa decorre da outra.

Na medida em que se auto-investiu da condição de poder moderador – figura que, inexistente na república, cabia ao imperador na monarquia -, desfez-se da moderação, relativizou a Constituição e desceu ao vale-tudo do varejo político-partidário.

Usurpou prerrogativas dos demais Poderes, legislando, vetando leis e, até mesmo, nomeação de ministros de Estado. O Direito tornou-se um detalhe, a ser acionado quando convier.

Exemplo claro disso deu-se no espaço de uma mesma semana. No dia 3, o ministro Dias Toffoli negou habeas corpus a Evanildo José Fernandes de Souza, morador de rua que furtou e depois devolveu à loja uma bermuda de R$ 10.

A Defensoria Pública da União recorreu à tese da irrelevância do furto e ao fato de o morador ter devolvido a mercadoria. Toffoli foi implacável: tratava-se de reincidência – e ponto.

Evanildo cumprirá pena de 1 ano e sete meses. Já José Dirceu, reincidente dos reincidentes – condenado no Mensalão e duas vezes no Petrolão por desvios multimilionários –, foi posto em liberdade pelo mesmo Toffoli, sem que a defesa do condenado o pedisse.

Míriam Leitão: Congresso bomba

- O Globo

Criar 300 novos municípios inviáveis, de cinco mil a oito mil habitantes. Multiplicar por dez o que a União paga aos estados pela Lei Kandir. Prorrogar por mais 15 anos a guerra fiscal e incluir nela a redução de impostos federais. Aumentar os benefícios para as transportadoras. Dar novos descontos de dívidas para empresas rurais, inclusive as grandes. Quem teria tais ideias? O Congresso brasileiro.

Essas são algumas das decisões aprovadas ou em tramitação no Congresso nos últimos tempos. A mistura perigosa de fim de governo com concessões aos lobbies está piorando a ingovernabilidade do Brasil. Essas medidas têm sido aprovadas, ou avançam no Parlamento, sob os aplausos da oposição e com a conivência de partidos da base. O que os partidos deveriam considerar é que esse governo está terminando, e todas as bombas acabarão estourando no colo de quem for eleito. Quem arma a bomba pode ter que desarmar dentro de alguns meses.

O projeto de regulamentação de municípios inclui brechas que pode permitir a criação de cidades inviáveis. Permitiria, por exemplo, explica um alto funcionário que acompanha as decisões legislativas, pegar municípios que hoje vivem de transferências, de 15 mil habitantes, por exemplo, e dividi-los em dois para atender a lideranças políticas diferentes. Assim, haveria duas prefeituras, duas câmaras de vereadores. O projeto de lei complementar que regulamenta a criação de municípios teve urgência aprovada na Câmara e já foi votado no Senado. Um levantamento do Ipea indica que isso permitiria a criação de pelo menos 300 novos municípios no país.

Adriana Fernandes: Licença para gastar

- O Estado de S.Paulo

Inflação mais alta corrigirá o teto de gastos; governo terá 'uma folga' de R$ 15 bilhões para despesas em 2019

A greve dos caminhoneiros levou o IPCA de junho ao patamar de 1,26%, o mais alto para mês desde 1995. E de quebra o repique inflacionário acabou provocando um efeito colateral no Orçamento da União: permitir um aumento de despesas para o próximo presidente da República.

Com o resultado da inflação de junho, a taxa acumulada em 12 meses saltou de 2,86% em maio para 4,39% no mês passado. É justamente essa inflação de 12 meses encerrada em junho que corrigirá o teto de gastos, fixando o volume máximo de despesas que poderão ser feitas em 2019. A emenda que criou o teto trava o crescimento das despesas à inflação do ano anterior.

A forte aceleração da inflação deu uma "folga" de R$ 15 bilhões no teto. Esse espaço fiscal aberto poderá até mesmo ser maior porque as projeções iniciais da área econômica foram feitas com base num IPCA um pouco menor em junho. O valor é próximo ao que o governo vai gastar esse ano para bancar a redução de R$ 0,46 no preço do diesel na bomba.

Discretamente, o governo não esconde que está aliviado. Com essa folga, ficará mais fácil administrar o Orçamento de 2019, que está com muito pouco espaço para investimentos e a continuidade de programas importantes devido ao avanço sem trégua das despesas obrigatórias.

O desgaste para administrar a adoção de novas medidas para cobrir o buraco orçamentário e garantir que o teto não estoure no primeiro ano do próximo governo continua. Mas agora será, sem dúvida, menor. Tudo indica, porém, que será necessário ainda suspender o reajuste dos servidores. Uma batalha difícil que poderá ser resolvida com a aprovação da Lei de Diretrizes Orçamentárias com dispositivo que não permite o reajuste.

Fernando Gabeira: Bom enquanto durou

- O Globo

Estava me acostumando, é hora de voltar. Um pouco mais, talvez eu me acomodasse

Depois de tanta retranca e de tantos pontapés, um jogo. Esse gesto de desenhar um retângulo no ar, indicando a tela de TV — e o VAR —, parece que contaminou o mundo. Jornalistas, torcedores, turistas, espectadores ocasionais, todos parecem fazer um retângulo no ar antes de emitir sua opinião.

Tenho assistido aos jogos em russo. Comentários e debates, também. Acho ótimo, pois não entendo nada. Só no dia seguinte consigo ver o que se passa no Brasil. Os debates são acalorados, mas felizmente há muita gozação recíproca.

Jornalistas esportivos não usam gravata, são mais leves. Alguns se politizaram com o tempo e ganharam a solenidade de um senador. Mesmo assim, só de vez em quando.

A Copa está para os jornalistas esportivos como Florença, para Leonardo da Vinci, no século XV: estimula a criatividade e a associação de diferentes disciplinas. É a biografia de Da Vinci que estou lendo no intervalo dos jogos e no tempo em que passo batendo perna, fotografando a Rússia.

O que une a todos é a paixão pelo futebol. Apesar de o meu trabalho não estar diretamente ligado a ele, assisti a todas as partidas, mesmo as mais tediosas, como Bélgica e Inglaterra, França e Dinamarca.

Confesso que foram poucos os lances que me fizeram saltar da cadeira, exceto, é claro, os gols do Brasil, por menos plásticos que tenham sido.

Os jovens não se lembram muito da tabelinha, consagrada por Pelé e Coutinho e muito comum no futebol brasileiro. Hoje há um tal bolo na área que as tabelinhas ficam bem mais difíceis. Parece que existe também uma barreira em que todos os chutes a gol esbarram e na qual se perdem.

Tanto que alguns dos gols mais interessantes foram feitos bem de fora da área. Os de Cavani contra Portugal, Di María contra a França e Pavard contra a Argentina.

Eu sabia que o grande adversário seria a Bélgica. Acabaram vencendo, embora ainda ache que o nosso futebol é superior. A saída do Brasil muda toda a minha perspectiva. Trabalhei até o primeiro jogo da tarde. Passei a manhã na casa de Gorki.

Ricardo Noblat: Canário belga canta melhor

- Blog do Noblat | Veja

Sepultada a geração Neymar. Que venha a próxima

A Seleção de Telê, Falcão, Sócrates e Zico perdeu a Copa do Mundo de 1982, mas é universalmente celebrada até hoje. Para alguns, foi superior à Seleção de Pelé, Tostão, Gerson e Jairzinho que conquistou o tri no México em 1970. Um exagero, talvez.

Esta, de Tite, Neymar, Gabriel Jesus e Fernandinho, eliminada da Copa da Rússia, é uma Seleção para ser esquecida. Foi muito bem na fase de classificação e nos amistosos. Na fase de grupos e nas oitavas de final, avançou sem convencer. Deu no que deu.

Por dias a perder de vista, e por muitas horas consecutivas, os especialistas em futebol, reunidos em torno de mesas com todos os formatos, discutirão a derrota do Brasil e tentarão explicá-la da melhor maneira possível. Faz parte do ofício deles.

É tão simples: a Bélgica jogou melhor. A Bélgica é um time melhor do que o do Brasil. Do ponto de vista tático, seu técnico espanhol deu um baile em Tite, elevado ao altar antes da hora. A vitória foi justa e merecida. O canário belga cantou mais bonito. E ponto final.

Candidatura de Dilma está ameaçada, dizem especialistas

Questionamentos sobre fatiamento do processo e inelegibilidade da petista devem chegar ao Supremo

Carolina Linhares | Folha de S. Paulo

BELO HORIZONTE - O registro da candidatura da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) ao Senado por Minas Gerais deve obrigar o Supremo Tribunal Federal a discutir o fatiamento do seu impeachment, afirmam especialistas consultados pela Folha. Segundo eles, a eleição da petista corre o risco de ser barrada judicialmente.

“A candidatura está relevantemente ameaçada porque certamente será impugnada, essa impugnação chegará ao plenário do Supremo e ali hoje não há como se ter uma previsibilidade do que vai acontecer”, diz o advogado eleitoral e professor da PUC-SP Carlos Gonçalves Júnior.

A insegurança jurídica em torno da candidatura de Dilma é resultado de uma interpretação da Constituição considerada bizarra, peculiar, excepcional e uma verdadeira mutação pelos especialistas: a decisão de fatiar o impeachment em 2016.

Sob a condução de Ricardo Lewandowski, então presidente do STF, os senadores resolveram votar separadamente a cassação de Dilma e a perda de seus direitos políticos. Somente a primeira punição foi aprovada.

Na Constituição Federal, a perda do cargo e a inabilitação por oito anos para o exercício de função pública aparecem ligados pela palavra “com”. Embora a ministra Rosa Weber, do STF, tenha negado liminares de partidos que se opuseram ao fatiamento, o Supremo não chegou a debater se as consequências do impeachment podem ser separadas.

“Essa questão não foi enfrentada pelo STF, mas ela está latente. E agora a situação concreta vai surgir”, diz a professora de direito eleitoral da FGV-Rio e procuradora da República Silvana Batini. Caberá ao TRE-MG julgar se ela está elegível, mas o caso tende a parar no Tribunal Superior Eleitoral e, depois, no STF por meio de recursos.

Apesar de bem nas pesquisas, Aécio está isolado no partido

Senador vem sendo pressionado por aliados a não tentar se reeleger, mesmo tendo chances de obter uma das vagas do Senado em Minas

Daniel Carvalho e Bernardo Caram | Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - Com a proximidade das eleições, o senador Aécio Neves (PSDB) vem sendo pressionado por aliados a não tentar se reeleger, mesmo tendo chances de obter uma das vagas do Senado em Minas, estado em que alcançou 92% de aprovação quando deixou o governo, em 2010.

Um dos nomes de maior projeção do PSDB, Aécio tornou-se um político isolado e cuja incerteza sobre o futuro deixa aliados apreensivos.

Desde que foi divulgada gravação em que pede R$ 2 milhões ao empresário Joesley Batista, da JBS, o mineiro, que quase chegou à Presidência em 2014, passou a ser um problema para seu partido.

Tucanos temem que sua presença na chapa majoritária, mesmo que ele tenha um eleitorado cativo, traga dificuldades para o senador Antonio Anastasia (PSDB-MG) chegar novamente ao comando do estado.

Ironicamente, foi pelas mãos de Aécio que Anastasia, então seu vice, foi eleito governador pela primeira vez, há oito anos.

Para o presidente do PSDB-MG, deputado Domingos Sávio, o eleitor de Aécio votará em Anastasia independentemente da posição em que ele se colocar nas eleições.

Para o deputado, portanto, ceder a vaga a outro partido pode fortalecer a aliança e trazer mais votos para o candidato ao governo do estado.

Paulo Câmara minimiza apoio de Lula a Marília Arraes ao governo

Governador ainda alimenta esperança de compor com o PT em sua chapa à reeleição

Kleber Nunes | O Estado de S.Paulo

RECIFE - Pré-candidato à reeleição, o governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), minimizou nesta sexta-feira, 6, a sinalização que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado e preso pela Operação Lava Jato, deu a favor da candidatura da vereadora Marília Arraes (PT) ao governo do Estado nas eleições 2018.

Da prisão em Curitiba, o petista enviou o recado via o ex-presidente do PT Rui Falcão e o líder do MST, João Pedro Stedile. Para Câmara, que ainda alimenta a esperança de ter o PT em sua chapa, o episódio não passa de um movimento político "de quem gosta de falar”.

“Enquanto tiver conversas (entre PSB e PT) não há porque ficar falando de uma questão que mais para frente pode ser que não se confirme. Não me incomoda, vou continuar trabalhando. Tem muito tempo para a gente discutir”, disse Câmara durante cerimônia de entrega do segundo módulo do Museu Cais do Sertão, seu último ato de inauguração antes da campanha.

“A gente já construiu alianças importantes para 2018 com partidos que tem nos ajudado. O que a gente puder agregar até lá (as convenções partidárias em agosto) ótimo, se não puder vamos disputar com as nossas forças”, completou Câmara.

O aceno de Lula dá força à tentativa de Marília, que, mesmo sem apoio oficial do partido, tem intensificado agendas e conversas. Por meio da assessoria, Marília disse que não iria comentar a declaração de Lula que foi gravada em vídeo e postada nas redes sociais da vereadora.

Defensor de Alckmin, líder do DEM diz que alinhamento com Ciro não define aliança nas eleições 2018

O partido admite abertamente a possibilidade de o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, abrir mão de se candidatar ao Planalto e apoiar outro presidenciável

Daniel Weterman | O Estado de S.Paulo

Defensor de uma aliança com o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) nas eleições 2018, o líder do DEM na Câmara, deputado Rodrigo Garcia (SP), afirmou, em conversa com o Estadão/Broadcast, que a aproximação de diretórios regionais com Ciro Gomes(PDT) não definirá os rumos que o partido tomará na disputa pelo Planalto.

O partido admite abertamente a possibilidade de o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, abrir mão de se candidatar ao Planalto e apoiar outro presidenciável. Na quinta-feira, 5, Maia afirmou que, do ponto de vista "das ideias", é mais fácil o partido apoiar Geraldo Alckmin (PSDB). Em relação aos palanques estaduais, ponderou, há mais afinidade com Ciro.

O líder da bancada relativiza a declaração do presidente da Casa. "Essa lógica quem vai deliberar é o presidente (do partido), ACM Neto, entre as bancadas do Senado e da Câmara e a Executiva Nacional, ponto", disse Garcia. E ainda argumenta o alinhamento histórico do DEM com o programa do PSDB para defender uma aliança com Alckmin. "Se for tomado outro rumo, naturalmente vai ter que se colocado isso de maneira clara o porquê de outro rumo."

No DEM, há o temor de que a divergência em relação à aliança faça o comando da legenda convocar uma votação ampliada entre dirigentes, deputados e senadores para decidir quem apoiar na eleição presidencial. A Executiva deve se reunir na quarta-feira, 11, para discutir o assunto.

Alianças. Para contrapor a ala do partido que defende uma aliança com Ciro Gomes, Rodrigo Garcia argumenta que DEM e PSDB estão juntos em oito Estados. Os democratas apoiam candidaturas tucanas em São Paulo, Rondônia, Roraima e Piauí. Já os tucanos apoiam pré-candidatos do DEM no Amapá e no Pará. Além disso, os partidos estão juntos em Pernambuco e Alagoas.

"Em virtude de uma decisão nacional estar sendo tomada muito próximo da convenção, deverá ser respeitada a realidade de cada Estado. Não pode ser encarado como nenhuma dissidência se, por acaso, a decisão for diferente da nacional", diz o líder do DEM, admitindo a divisão no partido em relação à campanha presidencial.

“PSDB vai disputar as eleições com o melhores palanques do Brasil”, diz Alckmin

CUIABÁ - “Nós vamos ganhar a eleição. Vamos para o segundo turno e, no segundo turno, vamos ganhar a eleição. E o mais importante: fazer um grande governo”, disse o presidente nacional do PSDB, Geraldo Alckmin, em Cuiabá, no Mato Grosso.

O pré-candidato tucano à Presidência afirmou que o Brasil está hoje num divisor de águas: “Ou nós vamos pegar o caminho da eficiência, da competitividade, do crescimento – melhorar salário, dobrar a renda dos brasileiros e promover o desenvolvimento – ou nós vamos empurrando os problemas com a barriga e vamos ter problema ali na frente.”

Antes da coletiva, Alckmin vistoriou com o governador Pedro Taques (PSDB) as obras de duplicação da rodovia Emanuel Pinheiro (MT-251) no perímetro urbano de Cuiabá. “Pesquisa, neste momento, não indica intenção de voto. Bolsonaro não vai ao segundo turno. Ele não chega lá”, disse o ex-governador de São Paulo. Deu o exemplo da recente eleição do Tocantins, em que os dois candidatos que apareciam na frente a uma semana do pleito nem chegaram ao segundo turno.

Aos jornalistas, explicou que o PSDB vai disputar as eleições com o melhores palanques do Brasil e que sua candidatura já conta com cinco partidos, o que lhe garante, de saída, 20% do tempo de rádio e televisão.

Estimular o desenvolvimento de Minas é prioridade, diz Alckmin

GOVERNADOR VALADARES (MG)- Ao participar de uma das maiores e mais tradicionais feiras de agropecuária do Brasil, o presidente nacional do PSDB, Geraldo Alckmin, disse que estimular o desenvolvimento agrário e a geração de empregos em Minas Gerais é uma prioridade do país. Pré-candidato à Presidência da República, o tucano discursou na abertura da 49ª Expo Agro de Governador Valadares, município mineiro situado no Vale do Rio Doce.

O evento tem grande importância na região, que se destaca pela pecuária de corte e leite, sobretudo em pequenas propriedades.

“Precisamos trabalhar muito para melhorar a infraestrutura em Minas Gerais. Assim, vamos facilitar o escoamento da produção, estimular o desenvolvimento e gerar empregos”, disse Alckmin. “Antes o café era em São Paulo, o leite era de Minas. Hoje Minas é “café com leite”, no bom sentido! Por isso, recuperar o estado é uma prioridade para a gente.”

Minas Gerais é o maior produtor nacional de leite, com 27% da produção brasileira, e possui o segundo maior rebanho bovino, com 23,6 milhões de cabeças de gado. O estado só fica atrás de Mato Grosso. Os mineiros também são líderes quando o assunto é o café, com 55% da produção nacional e o sexto maior produtor de grãos do país, com 14,7 milhões de toneladas, à frente de seus vizinhos no Sudeste.

Em São Paulo, Alckmin apela para prefeitos

Tucanos que governam maiores cidades intensificarão pré-campanha

Silvia Amorim | O Globo

SÃO PAULO E BRASÍLIA - Sem condições de cumprir agenda eleitoral em São Paulo na pré-campanha, o pré-candidato à Presidência Geraldo Alckmin (PSDB) apelou a prefeitos tucanos para fazerem sua propaganda no estado. O pedido de mobilização foi o pano de fundo de um jantar do presidenciável com 29 comandantes de municípios paulistas com mais de 100 mil habitantes.

O encontro aconteceu na segunda-feira da semana passada em um restaurante da capital paulista. O compromisso não apareceu na agenda oficial do presidenciável nem foi registrado nas redes sociais. Cada convidado pagou sua conta. Organizado pelo prefeito de São Bernardo do Campo, Orlando Morando, participaram do jantar prefeitos das maiores cidades administradas pelos tucanos como São Paulo, São José dos Campos e Santo André.

Como tem sido uma constante nos compromissos públicos e reservados do pré-candidato, Alckmin teve que se explicar pelo fraco desempenho nas pesquisas eleitorais, especialmente em São Paulo, estado que governou por 13 anos. No maior colégio eleitoral do país, o tucano tem cerca de 20% das intenções de voto e aparece empatado com o pré-candidato Jair Bolsonaro (PSL).

Um dos prefeitos relatou ao GLOBO que era perceptível no jantar a preocupação dos presentes com as chances de Alckmin nesta eleição.

— Mas ele se mostrou tão convicto de que irá crescer nas pesquisas com o início do horário eleitoral que muita gente concluiu que não tem motivo para se preocupar se o próprio candidato está tranquilo — afirmou o prefeito de uma das maiores cidades do estado.

Os prefeitos deixaram o encontro com o pedido de Alckmin para que trabalhem pela campanha, mobilizando militantes, políticos e o setor produtivo em suas regiões. O PSDB tem 169 das 645 prefeituras paulistas e governa cerca de 70% da população do estado.

Caciques do centrão querem fim de noivado do PR com Bolsonaro

Aliança viabilizaria candidatura do PSL com tempo de TV e rádio

Cristiane Jungblut e Eduardo Bresciani | O Globo

BRASÍLIA - Inconformados com a possível composição de uma chapa entre o PR e o PSL de Jair Bolsonaro, os caciques de DEM, PP, PRB e Solidariedade, aglutinados pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, vão tentar convencer a sigla de Valdemar Costa Neto a não formalizar apoio ao ex-capitão do Exército. O presidente do Solidariedade, Paulo Pereira da Silva, afirmou que vai propor ao centrão que convide o PR para a próxima reunião do bloco, marcada para quarta-feira da semana que vem.

Os caciques partidários avaliam que o PR viabilizará, de fato, a candidatura de Bolsonaro, caso formalize a aliança, pois garantirá ao candidato do PSL tempo de rádio e televisão na propaganda eleitoral, algo que ele praticamente não tem hoje. A situação do PR foi analisada por dirigentes do centrão logo após o encontro da última quartafeira com o pré-candidato do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin.

— Defendo que o PR participe do nosso encontro, porque o partido sempre esteve, de alguma maneira, junto com o grupo em ações na Câmara — disse Paulinho.

Além de tempo de TV, a influência de Valdemar na Câmara, principal liderança do PR, mesmo não estando mais formalmente filiado ao partido, ajudaria Bolsonaro a conquistar apoio parlamentar. Sem apresentar a lista, Bolsonaro diz já ter o apoio de mais de cem parlamentares. O próprio Valdemar já participou de encontro dos partidos do centrão, quando disse que nunca apoiaria o pré-candidato do PDT, Ciro Gomes, nem acreditaria na viabilidade eleitoral do pré-candidato Geraldo Alckmin. A dupla negocia uma aliança com os partidos do bloco.

Bloqueios contra os pobres: Editorial | O Estado de S. Paulo

Os pobres foram os mais prejudicados - como se podia prever - pelo efeito inflacionário da crise no transporte rodoviário. O bloqueio de estradas no fim de maio dificultou a entrega de produtos essenciais, incluídos alimentos, reduzindo a oferta no varejo e esfarelando o orçamento familiar. Sem surpresa, o custo de comida e bebidas puxou a alta dos indicadores oficiais de inflação durante a paralisação dos caminhões e nas semanas seguintes. Em junho, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 1,26%, na maior variação para o mês desde a taxa de 2,26% em 1995. Esta apuração mostra o impacto na despesa típica das famílias com renda mensal de 1 a 40 salários mínimos. O prejuízo imposto às famílias mais modestas, com renda de 1 a 5 salários mínimos, é mostrado pela evolução do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), com elevação de 1,43%, a mais ampla para o mês também desde 1995 (2,18%).

A variação de preços dos alimentos foi multiplicada por mais de 6 de um mês para outro, pulando de 0,32% em maio para 2,03% em junho, no caso das famílias com renda de 1 a 40 salários mínimos. O encarecimento de comida e bebida teve um impacto de 0,50 ponto porcentual na formação do índice e foi o principal fator da alta de 1,26% do IPCA. No caso do INPC, o aumento geral de 1,43% foi puxado pelo salto de 2,24% do custo da alimentação (0,29% no mês anterior). A evolução do item alimentos e bebidas teve impacto de 0,67 ponto porcentual na formação do INPC, quase metade da variação total de 1,43%.

Brasil fora: Editorial | Folha de S. Paulo

Derrotas na Copa são sempre dolorosas para o país; agora há chance de aprender também

A Copa do Mundo acabou para a seleção brasileira de forma triste, claro, mas digna. Ao longo de cinco partidas, o time mostrou organização, empenho e qualidades técnicas suficientes para justificar sua inclusão entre os candidatos mais fortes ao título —não uma condição de favorito absoluto.

Entretanto trata-se de torneio curto, de disputas decisivas que exigem o máximo de equilíbrio emocional e concentração dos jogadores. Momentos de descuido, imprecisão e nervosismo, como os que se viram nesta sexta (6), não raro resultam em eliminação.

Perdeu-se, convém lembrar, para um oponente poderoso.

Sempre existirão críticas pertinentes a esta ou aquela escolha do treinador ou atuação individual. Mas se pode afirmar que, no cômputo geral, houve bom aproveitamento dos valores disponíveis —e progresso considerável desde o vexame de quatro anos atrás.

Nenhuma grande equipe passaria sem traumas por uma experiência como a derrota por 7 a 1 em solo pátrio. Poucas disporiam dos recursos humanos necessários para se refazer do choque e voltar de pronto a competir em alto nível.

Resultado de um colapso tático e psicológico, a goleada sofrida para a Alemanha em 2014 acabou associada a todos os erros percebidos em torno do esporte mais popular do país, da organização perdulária da Copa com dinheiro público aos desmandos da Confederação Brasileira de Futebol, depois escancarados em proporções inéditas.

Gestão precisa ser considerada nos planos de saúde: Editorial | O Globo

Enquanto não se parte para a racionalidade, vive-se de refregas sem fim entre MP, órgãos de defesa do consumidor e empresas, ficando para a Justiça estabelecer percentuais

Seguem-se, a cada rodada de reajuste de planos de saúde, reclamações generalizadas. Como agora, com a fixação pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) de um aumento de 10% para os planos individuais, numa fase da vida do país em que o desemprego continua elevado (acima dos 12%). A inflação está baixa (aquém de 3%, distante da meta de 4,5%), o que significa também que o índice usado nos planos está bem acima do aplicado nas raras revisões salariais.

As explicações são conhecidas e valem para o mundo inteiro: a inflação da saúde corre acima dos índices de preços, pressionada pelo custo de novas tecnologias, novos medicamentos e pelo envelhecimento da população. Quanto mais idosa, maior a demanda por atendimentos, e mais elevado o custo. E mais baixa a renda. Ingredientes de tragédia.

As tentativas de redução de custos e de aumento de receitas, pelos administradores de planos, ocorrem em várias frentes. Há pouco, a ANS regulamentou coparticipação e franquia, a parcela que cabe ao segurado arcar nos procedimentos. O sistema tem o efeito positivo de forçar a racionalização na contratação de procedimentos e serve de fonte adicional de receita.

Fabiana Cozza - "O samba é meu dom"

Cecília Meireles: Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Opinião do dia: Fernando Henrique Cardoso

“Primeiro eu acho que o eleitorado quer ouvir diretamente do candidato o que ele pensa de coisas concretas. Segundo, tem que ser sincero. Se não for sincero, não adianta. Essa máquina aí [referindo-se à câmera] fixa o olhar da gente, sabe se a gente está mentindo ou se não está mentido. E tem também que conduzir. O líder não é só quem é simpático. O líder é quem conduz. E para conduzir é (preciso) indicar o caminho.

Primeiro: ele (Alckmin) é uma pessoa que tem experiência, bem preparada. Segundo: ele sabe que estamos vivendo uma crise financeira. Ele é o homem do cofre. Terceiro – e eu dou muita importância a isso: ele é simples, não é uma pessoa acostumada à mordomia. Quarto: ele não é intolerante, ele ouve as pessoas.”
-------------------------------
Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, ex-presidente da República, em um encontro com industriais, terça-feira (3), em Brasília.

Eliane Cantanhêde: Haddad em campo

- O Estado de S.Paulo

Tudo caminha para Lula se materializar no ex-prefeito de São Paulo e chacoalhar a eleição

A grande novidade da eleição presidencial, tão pulverizada e incerta, está para surgir: a entrada em cena do ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, que une o útil, a força do ex-presidente Lula, ao agradável, a sua própria imagem, que extrapola o PT.

Condenado, preso, longe de holofotes e microfones, Lula mantém seus inacreditáveis 30% das pesquisas, numa eleição com tantos nomes e nenhuma certeza. Logo, Lula é quem tem o maior capital e o maior potencial de transferência de votos.

Livre, passando ao largo de denúncias de corrupção, Haddad é aquele bom moço sem a pecha, as marcas e as cicatrizes do PT e amplia o leque de eleitores do partido. Petista só vota em petista, mas tem muita gente que não morre de amores pelo PT, mas poderia votar de bom grado no professor Haddad.

Lula e Haddad, portanto, se complementam. Um tem voto, mas alta rejeição. O outro não tem voto, mas não tem rejeição. Um garante a largada, o outro tem de fazer o resto, ganhar fôlego, abrir horizontes. Ou atrair as elites, assim como José Alencar, em 2002, atraiu o capital.

De bobo, Lula não tem nada, muito pelo contrário. E ele acha plenamente possível que em algum momento seja solto, mas dificilmente trabalha com a hipótese de ser candidato até o fim. Sabe que sua candidatura tem mil e uma utilidades, mas é uma ficção.

Aliás, será mesmo que Lula gostaria de voltar à Presidência? Ele saiu do Planalto com 80% de popularidade, governou com a herança bendita de Fernando Henrique e numa época de prosperidade na América do Sul raramente vista. Voltar para quê? Para enfrentar a crise, a dívida, os 13 milhões de desempregados e os Estados falidos?

É muito mais cômodo – e prudente – que Lula use a “candidatura” para manter força política, exposição na mídia e carregar um candidato nas costas. Alguém que não precise ter o que ele já tem, mas agregue o que ele não tem. Quem poderia ser, além de Fernando Haddad?

Lê-se que Haddad acaba de se lembrar que é bacharel em Direito, foi buscar a carteira da OAB e vai integrar a equipe de defesa de Lula – já tão congestionada, causando atropelos e batidas. Para disputar com Cristiano Zanin, que está desde o começo? E com Sepúlveda Pertence, que é um ás?

Cristian Klein: Da corrente pra frente ao anarriê político

- Valor Econômico

Olham a cobra e a chuva. E não é mentira

Em meio à Copa do Mundo e a menos de 20 dias para o início das convenções partidárias, o cenário das alianças na corrida presidencial e nas disputas estaduais nunca esteve tão pouco definido. A impressão é que os parceiros se darão os braços em cima da hora, como casais numa improvisada festa junina - ou julina, com prorrogação até 5 de agosto. Depois de tanto tempo, não há improviso, claro, mas receio e cálculo.

Os políticos olham a cobra e a chuva. E não é mentira. Tem o Bolsonaro que se cria e serpenteia. Tem o PT que ainda pode colher votos no solo fértil do Nordeste - com ou, mais provável, sem a candidatura Lula. Tem duas noivas: Alckmin, desenxabida, mal nas pesquisas, que pretende se casar com os partidos sem muita opção do Centrão. E o PSB, legenda cortejada por petistas e por um Ciro que tenta se despir da fantasia de coronel do arraial.

Sempre animado na quadrilha, o MDB de Temer está cabisbaixo e deixa Meirelles pular na fogueira de uma candidatura de 1%. Com maquiagem de bolinhas e cabelo 'Marina Chiquinha', a líder do Rede espera pacientemente que o anzol fisgue o prêmio máximo na terceira vez que participa da pescaria.

A plateia assiste a tudo com desinteresse e cansaço. No alheamento da população, todos tentam crescer nas pesquisas com a dificuldade de quem sobe no pau de sebo. O eleitor está escorregadio. Há muitas bandeirinhas penduradas. Mas nenhuma grande bandeira ou santo a celebrar. O país esfarrapado ainda precisa se remendar. Balões soltos já murcharam, caíram ou voaram sem provocar incêndio: Luciano Huck, Joaquim Barbosa, João Doria.

Com Bolsonaro é diferente. Ainda no ar, o ex-militar promete queimar florestas e a institucionalidade. Na mais nova proposta, lança a ideia de diluir um suposto Supremo de esquerda com a indicação de uma tropa de mais dez ministros, para se chegar a uma Corte de 21 magistrados. "É uma maneira de botar dez isentos lá dentro", disse. Isentos para quem?

Bolsonaro não grita 'Anauê!', a saudação do movimento integralista de inspiração fascista, autoritária. Mas chega à festa da democracia aos brados de um 'Anarriê!', corruptela do francês "en arrière": "Para trás!".

Hélio Schwartsman: Tolerar até os boçais

- Folha de S. Paulo

Grupos são um perigo, mas também são a nossa salvação

Não sou de prolongar polêmicas, mas volto ao caso dos torcedores brasileiros na Rússia, que foi objeto de réplica do meu amigo Contardo Calligaris em sua coluna de quinta (5). Faço-o principalmente porque, desta vez, temos mais concordâncias do que discordâncias, ainda que reste uma divergência importante.

Nosso ponto de consonância é que grupos são um perigo. Quase tudo o que deu errado na história da humanidade teve patologias do pensamento de grupo como uma de suas causas. Entram nessa categoria tanto os desastres ideológicos (nazismo, stalinismo) quanto as guerras de religião e perseguições do dia a dia, que vitimam pessoas com comportamentos que não se conformam à norma, como homossexuais, adúlteros, hereges, loucos etc.

E não é só o contato com a turba ignara que leva a essas atitudes. A psicologia social está repleta de experimentos perturbadores, como o de Stanley Milgram, que mostra que pessoas normais não precisam mais do que estímulos leves de uma suposta autoridade para fazer coisas horríveis com seus semelhantes.

Ocorre que grupos também são a nossa salvação. Há um crescente corpo de evidências a sugerir que a própria razão só funciona como uma empreitada coletiva. A ciência, os avanços institucionais e o progresso moral que experimentamos do século 18 para cá só ocorreram porque ideias que pareciam absolutamente respeitáveis, quando não sagradas, foram contestadas e substituídas.

Se a sociedade não pode ignorar os perigos colocados pelo pensamento de grupo, bem representados pela atitude dos torcedores, tampouco pode dar-se ao luxo de punir em demasia ideias e ações que se desviem da moralidade dominante. O risco aí é o de sufocar a necessária contestação dos padrões.
Em outras palavras, tolerância é fundamental. E, como o futuro é contingente, a tolerância não pode ter lado predeterminado. Precisa valer tanto para os boçais como para os gênios revolucionários.

José de Souza Martins: O teatro da pobreza

- Eu & Fim de Semana | Valor Econômico

Assim como não bastava à mulher de César ser honesta, pois era decisivo, para sua reputação, que parecesse honesta, assim também não basta ao pobre ser pobre para convencer terceiros de que carece das esmolas que pede, quando o faz: é preciso parecer pobre. Nossos pobres têm desenvolvido técnicas de apresentação pessoal para convencer os outros de que são efetivamente pobres. Não só os que pedem esmolas, mas também os que pedem favorecimentos.

Nem sempre foi assim. Antes do fim da escravidão e do advento da sociedade de classes, que é a atual, a sociedade brasileira foi uma sociedade de estamentos. Nela, os pobres não precisavam parecer pobres porque visivelmente pobres desde o berço. Uma pobreza radicalmente diferente da que conhecemos hoje. A diferença não era a do mais nem a do menos, como nos dias atuais. Era a da origem.

Os indícios de condição social de pessoa ínfima eram vários: andar descalço era um deles, pois as pessoas de linhagem não caminhavam sobre os próprios pés. Eram carregadas. No mínimo, tinham que usar sapatos para não tocar o chão. Até os gestos e o modo de falar podiam ser indícios de inferioridade social. Era o caso do sotaque da língua nheengatu, no português carregado de vogais e de palavras da língua tupi no vocabulário cotidiano. Herança da escravidão indígena.

Com o advento das classes sociais, o nascimento já não importa. Importa o que cada um consegue ter. Sociedade em que mesmo os que nada ou pouco têm fingem ter o que não têm. Outros, na falta de conquistas pessoais e de haveres, os carentes de tudo têm que fingir ser o que de fato são, pobres, para que tenham sua pobreza reconhecida e sua carência atendida.

Fernando Abrucio: Liberalismo e democracia: união em crise

- Eu & Fim de Semana | Valor Econômico

A combinação entre liberalismo e democracia foi a principal chave do sucesso político e social dos países que mais se desenvolveram entre os séculos XIX e XX. Não foi um casamento fácil. Houve muitos conflitos e contradições entre eles e o caminho de aproximação desse par sempre foi visto com desconfiança por pensadores e atores políticos. Mas, como notou o filósofo Norberto Bobbio, todos os regimes democráticos só sobrevivem se incorporam ideias liberais, bem como somente é possível a existência de um modelo liberal em sociedades de massa caso haja a incorporação de todos os cidadãos no processo político. Por um tempo, a combinação deu certo, mas essa união hoje está em crise.

Para entender o significado e as consequências desse problema, é fundamental começar definindo os conceitos. Fala-se aqui de liberalismo especialmente no seu sentido político, que pode ser resumido como um ideário defensor das liberdades individuais e da limitação do poder político. Suas origens estão nas Revoluções Inglesas do século 18 e no pensamento dos pais fundadores dos Estados Unidos. O modelo liberal estava ancorado na necessidade de se garantir direitos fundamentais de liberdade, algo que apenas poderia ser obtido com a defesa do pluralismo e a separação clara das esferas do Estado e da sociedade.

O liberalismo político também se alicerça numa proposta institucional, baseada na separação e controle mútuo entre os Poderes. Evitar que haja a concentração de poder em qualquer tipo de autoridade, seja eleita ou não, foi uma preocupação central dos liberais, particularmente de James Madison, inspirador da estrutura institucional americana. Todas as vezes em que se concentrou demais a força política em uma instituição ou, pior, num líder político, caminhou-se rumo ao autoritarismo. Esse é o fim da liberdade.

A democracia moderna tem como base a expansão da igualdade política a todos os cidadãos. Isso significou, historicamente, o direito de criar organizações políticas e, sobretudo, de votar e ser votado. Hoje essa prerrogativa parece banal, a ponto de haver uma disseminação da crença de que a participação política tem pouco efeito sobre as grandes decisões da coletividade. Por isso, é preciso lembrar, constantemente, a batalha que foi garantir o voto aos que não tinham renda, às mulheres, a minorias políticas como os negros americanos e, para lembrar do caso brasileiro, para os analfabetos - cujo número só começou a decrescer como porcentagem da população quando puderam votar para pleitear mais educação a todos.

Ricardo Noblat: O blefe de Lula

- Blog do Noblat | Veja

Recado para o PSB

Reconhecido como bom jogador de pôquer, e por isso mesmo acostumado a blefar, Lula mandou, ontem, um recado de dentro do cárcere de Curitiba a quem interessar possa: se fosse militante do PT de Pernambuco, já estaria em campanha pela candidatura da vereadora Marília Arraes ao governo do Estado.

O recado interessa diretamente ao PSB do governador Paulo Câmara (PSB), candidato à reeleição. O PT negocia com ele a retirada da candidatura de Marília em troca do apoio do PSB à fantasiosa pretensão de Lula de disputar a sucessão do presidente Michel Temer.

O recado foi entendido pelos que cercam Câmara como um apelo desesperado de Lula por um acordo que contemple, pelo menos, o apoio do PSB em Pernambuco à renovação do mandato do senador Humberto Costa (PT). E – quem sabe? – o apoio também à eleição de Marília para deputada federal.

O PT pernambucano vai de mal a pior. Está isolado. O PC do B, seu antigo aliado, bandeou-se para o lado de Câmara e levou junto o ex-prefeito do Recife João Paulo, o único dentro do PT que de fato tinha votos. O trunfo que o PT ainda dispõe é Marília, neta de Miguel Arraes e prima de Eduardo Campos.

Uma candidatura dela deverá levar a eleição de governador para o segundo turno, e esse risco Câmara não gostaria de correr. Mas parece convencido de que terá de correr. Com ou sem acordo do PSB de Pernambuco com o PT, o partido no resto dos Estados apoiará Ciro Gomes (PDT) para presidente.

Palanques regionais aproximam DEM mais de Ciro do que Alckmin

Por Raphael Di Cunto, Rodrigo Carro e Vandson Lima | Valor Econômico

BRASÍLIA E RIO - O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse ontem que, embora seu partido tenha maior afinidade ideológica com o pré-candidato do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin, seria mais fácil compor palanques regionais com Ciro Gomes (PDT). "Nos palanques regionais temos mais afinidade com o Ciro Gomes. Na área econômica, o Ciro faz, do meu ponto de vista, um pouquinho do que o ex-prefeito Cesar Maia fazia no Rio, só que de maneira invertida: vocalizava para a direita e governava para a esquerda", afirmou.

Nos quatro principais Estados onde o DEM tem esperanças de eleger o governador, os candidatos negociam alianças com o PDT de Ciro e veem Alckmin subir no palanque de adversários. Em Goiás, o senador Ronaldo Caiado (DEM) lidera as pesquisas e ofereceu a vice aos pedetistas. Já o tucano apoiará a reeleição do governador José Eliton (PSDB).

No Rio de Janeiro, o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM) cogita dar a vice ao PDT enquanto o PSDB caminha para apoiar o deputado federal Índio da Costa (PSD). Em Minas, Alckmin faz campanha pelo senador Antonio Anastasia (PSDB) contra o deputado federal Rodrigo Pacheco (DEM) - que, numa composição com Ciro, poderia ainda retirar Marcio Lacerda (PSB) da disputa e receber o apoio de PDT, Pros e PSB. No Mato Grosso, o ex-prefeito Mauro Mendes (DEM) concorrerá, com apoio do PDT, contra o governador Pedro Taques (PSDB).

No Rio Grande do Norte, terra do senador José Agripino, ex-presidente do DEM, a situação é inversa e é a sigla que apoia o PDT ao governo, e no Ceará estão todos juntos na reeleição do governador do PT, aliado dos Ferreira Gomes. A exceção é o Amapá, onde o senador David Alcolumbre (DEM) será adversário do governador Waldez Góes (PDT).

Há, claro, alianças entre DEM e PSDB: estão juntos, por exemplo, em São Paulo e na Bahia. Entre os baianos, contudo, cresce a avaliação de que, por ser do Nordeste, Ciro terá maior capacidade de atrair votos que o tucano.

"O projeto natural é que a gente caminhe com o PSDB", afirmou Maia, após participar de evento no Rio de Janeiro, para depois fazer uma ressalva. "Se a minha decisão for mesmo não disputar a eleição [presidencial], a prioridade passa a ser as eleições de governador", pontuou.

Centrão indica a Alckmin estar mais próximo de apoiar Ciro

Representantes do Centrão externaram preocupações em relação aos baixos índices de intenção de voto no tucano

Vera Rosa | O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA - Sob o argumento de que o desgaste do PSDB após a Lava Jato atrapalha as alianças, dirigentes do bloco formado por DEM, PP, PRB, Solidariedade e PSC indicaram na noite desta quarta-feira, 4, ao pré-candidato tucano à Presidência, Geraldo Alckmin, que estão mais inclinados a apoiar Ciro Gomes (PDT) na campanha eleitoral.

Embora muitos nomes do chamado Centrão também sejam investigados pela Lava Jato, a explicação dada a Alckmin para a falta de entusiasmo do grupo com sua campanha foi a de que o PSDB amarga índices de rejeição maiores do que os do PT. Além disso, nas três horas de conversa, presidentes dos partidos que compõem o bloco mostraram preocupação com o imobilismo do ex-governador de São Paulo, que preside o PSDB, nas pesquisas de intenção de voto. Até agora, Alckmin apresenta índices que variam de 4% a 6% das preferências.

Em jantar na sede do PRB, deputados e senadores do Centrão -- já rebatizado de "blocão" -- fizeram uma espécie de sabatina com Alckmin. Perguntaram a ele, por exemplo, sobre a possibilidade de substituição de seu nome na chapa pelo do ex-prefeito João Doria, hoje pré-candidato do PSDB ao Palácio dos Bandeirantes. Lembraram que há articulações para isso nos bastidores, dentro do seu próprio partido, com a simpatia do Palácio do Planalto e da cúpula do MDB.

Alckmin assegurou não haver hipótese de troca do candidato, mas não escondeu a contrariedade com esse movimento. Disse já ter apoio de quatro partidos (PTB, PSD, PPS e PV) e demonstrou confiança em seu crescimento quando se iniciar o horário eleitoral gratuito. “A campanha começa em 31 de agosto, com a propaganda na TV e no rádio. Tem gente que ainda acha que sou governador de São Paulo”, afirmou ele.

Centrão pressiona Alckmin em jantar e adia decisão

Líderes questionam tucano sobre fraco desempenho nas pesquisas e possibilidade de Doria assumir a vaga

Cristiane Jungblut e Bruno Góes | O Globo

-BRASÍLIA- Foram três horas de “sabatina” regada a vinho português e comida italiana. Enquanto os pratos eram preparados na cozinha da mansão do PRB, no Lago Sul, em Brasília, os partidos do centrão (DEM, PRB, PP e Solidariedade) apresentaram ao pré-candidato do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin, um cardápio bem mais indigesto de interesses eleitorais. Barganhando há semanas o apoio nas eleições de outubro, os partidos do bloco reunido em torno do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), questionaram Alckmin, na noite de anteontem, sobre seu fraco desempenho nas pesquisas eleitorais, as dificuldades enfrentadas no eleitorado de São Paulo e as divisões que enfrenta dentro do próprio PSDB. Os planos do tucano para partilhar o poder com o grupo também foram cobrados.

Apesar do esforço de Alckmin, o jantar terminou sem uma decisão. O grupo prometeu dar uma resposta até o dia 20. Na próxima quarta-feira, os partidos, que também negociam um possível apoio ao pedetista Ciro Gomes, farão um novo encontro para “afunilar” o debate sobre quem apoiar.

Alckmin respondeu a todos os questionamentos e apresentou dados objetivos sobre seu potencial de crescimento depois do início da campanha de TV. Ele também reafirmou seu comando sobre o PSDB e falou de suas relações com o tucano João Doria, que será candidato ao governo de São Paulo, mas tem sido especulado como substituto de Alckmin na disputa pelo Planalto. Segundo um dos presentes, o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), foi direto ao assunto:

— O Ciro quis saber se o Doria ainda queria puxar o tapete do Geraldo (Alckmin) e como estava a relação deles hoje — contou, sob a condição do anonimato. 

VICE PODE SER DO PP 
Contra esses rumores, Alckmin garantiu que é o candidato do PSDB e que já se acertou com Doria. Ontem, o ex-prefeito de São Paulo divulgou uma nota reafirmando que vai concorrer ao governo estadual.

Para atrair o interesse dos líderes, o tucano ofereceu o posto de vice na sua chapa aos partidos do grupo. A vaga poderá até ser oferecida ao PP, se isso garantir que o partido apoie o tucano e desista de uma aliança com Ciro Gomes. Para conquistar o apoio do DEM, Alckmin ofereceu apoio à reeleição de Rodrigo Maia à presidência da Câmara. Pré-candidato ao Planalto, Maia deve retirar a candidatura e disputar a reeleição para deputado federal.

Alckmin e Anastasia visitam interior de MG sem presença de Aécio

Em Governador Valadares, representantes tucanos atribuíram ausência à indecisão do senador de concorrer à reeleição

André Manteufel | O Estado de S.Paulo

GOVERNADOR VALADARES (MG)– Os pré-candidatos do PSDB à Presidência da República, Geraldo Alckmin, e ao Governo de Minas Gerais, Antonio Anastasia, aproveitaram a solenidade de abertura da Exposição Agropecuária de Governador Valadares nesta quinta-feira, 5, para cumprir com uma agenda que tem sido protocolar nas últimas eleições nacionais: visitar a região leste do Estado. No entanto, diferentemente das disputas anteriores, o encontro foi marcado pela ausência do senador tucano Aécio Neves.

Os políticos não confirmaram, mas o isolamento é uma estratégia adotada pela legenda para evitar prejuízos à imagem do PSDB nas disputas eleitorais. O senador tornou-se réu no Supremo Tribunal Federal (STF) no mês de abril, acusado de corrupção passiva por receber R$ 2 milhões, do empresário Joesley Batista, do Grupo J&F, e por obstrução da Justiça nas investigações da Operação Lava Jato.

Após a abertura da exposição, Alckmin negou ao Estado que a ausência do correligionário no evento tenha ligação com as denúncias, e restringiu-se a dizer que entrar em campanha será uma decisão a ser tomada pelo próprio senador. “Não estava programado de o Aécio vir. Não tem nenhum estranhamento em relação a isso. O Aécio fez um bom trabalho pelo Estado de Minas Gerais, e neste momento ele é que vai decidir os próximos passos”, afirmou o tucano, antes de deixar o Parque de Exposições.

O presidente do PSDB de Minas, Domingos Sávio, também responsabilizou a indecisão do político para justificar sua ausência na pré-campanha no interior de Minas. “Eu sempre tenho dito que nós temos respeito e gratidão pelo que o Aécio fez por Minas, pelo trabalho dele representando Minas como senador da República, mas ele ainda não decidiu se é ou não candidato a algum cargo”, afirmou. “Como ele não tomou essa decisão, é natural que ele não esteja presente num evento de pré-campanha onde está se colocando o nome daqueles que já são pré-candidatos a algum cargo. E nesse momento, o foco do PSDB, o objetivo central do PSDB, é eleger Anastasia governador de Minas.”

Alvaro Dias afirma que candidatura é ‘irreversível’

Pré-candidato diz que união entre partidos de centro é difícil

Dimitrius Dantas | O Globo

-SÃO PAULO- Três dias após se reunir com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), o senador Alvaro Dias (Podemos-PR) afastou, ontem, a possibilidade de abrir mão da pré-candidatura à Presidência em nome da união dos partidos de centro.

— Nossa candidatura está posta de forma irreversível. Não há nenhuma cogitação de recuo — disse Dias, em palestra na Federação das Associações Comerciais de São Paulo.

O tema do encontro com FH foi a possível união das pré-candidaturas de Dias, Geraldo Alckmin (PSDB) e Marina Silva (Rede). De acordo com o senador, a conversa consistiu em uma análise de conjuntura, e o ex-presidente não pediu a ele que desistisse de concorrer ao Palácio do Planalto.

— Dificilmente haverá uma convergência dos chamados candidatos do centro democrático e reformista — afirmou o pré-candidato do Podemos.

A saída de Alvaro Dias é vista no PSDB como essencial para os planos de Alckmin. Ex-governador do Paraná, Dias varia entre 3% e 4% nas pesquisas de intenção de voto, índice que vem sobretudo da Região Sul. Na análise dos tucanos, são eleitores que tradicionalmente seriam do PSDB.

O senador destacou que não tem interesse em deixar de apresentar seu nome e refutou que a presidente do Podemos, deputada Renata Abreu (SP), esteja negociando um apoio do partido a outro pré-candidato.

— Os que viverem verão que nós estaremos nas urnas no dia 7 de outubro (data do primeiro turno). É bom não perderem mais tempo e não gastarem mais tinta nem papel, porque será em vão — reforçou.

Alvaro Dias afirma que sua candidatura é ‘irreversível’

Daniel Weterman | O Estado de S. Paulo.

Pré-candidato do Podemos à Presidência da República, o senador Alvaro Dias afirmou ontem que sua candidatura à Presidência é “irreversível”. A declaração foi feita durante palestra na Associação Comercial de São Paulo (ACSP) em São Paulo, para uma plateia formada por empresários. Depois, em entrevista a jornalistas, o senador afirmou para “não perderem mais tempo” cogitando sua desistência na corrida pelo Palácio do Planalto.

Dias negou que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tenha feito algum convite para ele compor com Geraldo Alckmin (PSDB) na campanha – a convite de FHC, o senador se encontrou com o ex-presidente na segunda-feira passada em São Paulo.

Chamando o ex-presidente de “príncipe”, o senador afirmou que o tucano não seria “deselegante” ao fazer uma proposta objetiva e afirmou que os dois discutiram as alternativas para o País nestas eleições. Perguntado se aceitaria ser vice de Alckmin na eleição, Dias respondeu que “não há nenhuma hipótese de arredarmos pé do propósito de disputar a Presidência”.

“Não há força humana capaz de nos demover desse objetivo (ser candidato). Os que viverem verão que nós estaremos na urna no dia 7 de outubro. É bom não perderem mais tempo e vocês não gastarem mais tinta e papel ou não gastarem os dedinhos aí nas teclas do computador porque será em vão”, disse Dias, que atinge até 4% nas pesquisas de intenções de voto.

Dias afirmou que busca partidos do chamado “centro” que aceitem seu programa e façam uma aliança. A convenção do Podemos, citou, deve acontecer no dia 4 de agosto, reta final do prazo estabelecido por lei, o que deixa aberto espaço para negociações partidárias até o último momento.

O senador deu, no entanto, uma condição para a convergência do chamado “centro” na disputa presidencial: o rompimento com o “balcão de negócios” em Brasília, ou seja, a troca de apoio partidário por interesses de bancadas, e o compromisso com o que defende como “a refundação da República”.

‘Momento do País exige coesão nacional’, diz comandante do Exército

General Villas Bôas compara a situação do Brasil hoje à divisão da sociedade na ‘Guerra Fria’

Adriana Ferraz | O Estado de S. Paulo.

O comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, afirmou ontem que a “sociedade brasileira criou ambiente para fatos lamentáveis”, como as mortes do soldado Mário Kozel Filho e do jornalista Vladimir Herzog durante o regime militar. A declaração foi dada em São Paulo após o general presidir uma cerimônia em homenagem ao militar, morto há 50 anos durante a explosão de um carro-bomba em atentado pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).

O ato se deu um dia depois de a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenar o Brasil pelo assassinato de Herzog, em 1975. Para Villas Bôas, o momento do País exige “recuperação da coesão nacional”.

O general afirmou que o contexto em que ambas as mortes ocorreram deve receber uma análise comparativa com o momento que vivemos hoje. De acordo com o general, o Brasil permitiu no passado que a “linha de confrontação da Guerra Fria dividisse a nossa sociedade”, provocando casos como o de Kozel e Herzog. “E, hoje, o momento é de linhas de fratura, o que exige a recuperação de uma coesão nacional, o restabelecimento de uma ideologia de desenvolvimento e um sentido de projeto, para que as gerações futuras não venham a passar o que ocorreu há 50 anos.”

No discurso que fez durante a cerimônia de homenagem a Kozel, o comandante do Exército disse que o cenário atual recomenda aos brasileiros e às instituições a “prudência nos ânimos” e união dos esforços para construir o futuro. Ele criticou o que chamou de “ideologias contemporâneas” e afirmou que a “fratura da sociedade, ocorrida no período militar, é uma “experiência para ser lembrada”.

Para Villas Bôas, o Brasil está na iminência de algo muito grave: a perda de sua identidade. “A consequência disso seria um País à deriva. E isso não pode acontecer. Um País com o potencial do Brasil, que tem um papel muito importante a cumprir no mundo. Então, acho que é assim que temos de entender esses eventos, tanto a morte de Kozel como de Herzog.”

Ao citar os casos, Villas Bôas disse que gostaria que a família do soldado morto aos 18 anos recebesse os mesmos direitos e atenções, em referência à decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos.

O comandante do Exército voltou a descartar qualquer possibilidade de uma intervenção militar no País. “Quem interpreta que o Exército pode intervir é porque não conhece as Forças Armadas e a determinação democrática, de espírito democrático, que reina e preside em todos os quartéis.”

Bernardo Mello Franco: Chile pune, Brasil acoberta

- O Globo

Victor Jara era cantor, poeta e diretor teatral. Em setembro de 1973, foi capturado pelos militares chilenos que derrubaram o governo de Salvador Allende. Arrastado à tortura, teve a língua cortada, os dedos quebrados e a pele queimada com brasa de cigarro. Seu corpo foi encontrado cinco dias depois do golpe, com 44 perfurações de bala.

Vladimir Herzog era jornalista e diretor da TV Cultura. Em outubro de 1975, apresentou-se para depor no DOI-Codi, centro de repressão do Exército em São Paulo. Ele foi torturado e morto no mesmo dia. Os militares apresentaram seu corpo com uma tira de pano enrolada no pescoço, numa simulação grosseira de suicídio.

Nesta semana, os dois casos tiveram desdobramentos opostos. Na terça-feira, a Justiça de Santiago condenou oito oficiais do Exército chileno pelo assassinato de Jara. Eles foram sentenciados a 18 anos de prisão pela morte do artista. Outro oficial pegou cinco anos de cadeia por ajudar a encobrir os comparsas.

Na quarta-feira, a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Brasil por não punir os assassinos de Herzog. A sentença reconhece o caso como um crime contra a Humanidade e afirma que seus responsáveis não podem ser protegidos por prescrição ou anistias.

Poucos crimes da ditadura foram tão investigados quanto a morte de Herzog. Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade identificou sete envolvidos no assassinato. A lista inclui cinco militares chefiados pelo coronel Audir Santos Maciel e dois legistas que assinaram o laudo com a falsa versão de suicídio.

A Justiça já mandou retificar o atestado de óbito para registrar que o jornalista morreu sob tortura. No entanto, nenhum responsável pelo crime foi punido até hoje. Os militares continuam protegidos pela Lei da Anistia, mantida pelo Supremo Tribunal Federal em 2010.

Apesar dos pedidos da Procuradoria-Geral da República, a Corte se recusa a rediscutir o perdão aos crimes da ditadura. A última ação sobre o tema repousa há quatro anos no gabinete do ministro Luiz Fux. A impunidade dos torturadores é um incentivo à permanência da tortura em delegacias e prisões. Enquanto o Chile acerta as contas com seu passado sombrio, o Brasil continua a acobertá-lo.

Vinicius Torres Freire: Roubança, antes, durante e pós-Copa

- Folha de S. Paulo

Mesmo ligado no futebol, povo se choca com mais casos de corrupção

A revelação contínua de bandidagens no governo de Michel Temer e da participação de grandes empresas e altos executivos em piratarias tem causado choque até nestes dias em que nos sedamos temporariamente com a Copa. Chicanas no alto Judiciário e a atitude relaxada em relação a gente muito suspeita apimenta a raiva e a desesperança populares.

Não está fácil sustentar o velho clichê de que a impunidade propicia a corrupção: a punição parece inócua.

O risco agora algo maior de ser flagrado, processado e de passar um tempo na cadeia não tem tido efeito dissuasivo suficiente.

Talvez alguém diga que as penas ainda tenham alcance e força restritos.

No limite, a amputação de membros, a guilhotina ou a forca talvez inibissem os sociopatas da roubança.

Esta última frase poderia ser apenas sarcasmo de mau gosto sinistro.

Não é bem assim, pois serve também de metáfora para os desejos de parte da população, cada vez mais encantada com ideias ignorantes, violentas e autoritárias para lidar com a insegurança e a desordem política. Basta ler as pesquisas eleitorais.

Sim, ainda persistem muitas de outras condições que incentivam ou elevam a propensão a saquear o Tesouro público.

Além de cana, é preciso uma reforma demorada do Estado, de suas relações com empresas e também mudança na Justiça lenta e arbitrária.

Mas, para a percepção popular, pouco parece mudar; é preciso varrer todos os que estão aí ou uma intervenção autoritária.