quarta-feira, 16 de março de 2022

Silvia Matos*: Reajustes mais imunes ao populismo

Folha de S. Paulo

Eles devem preservar o poder de compra, não apenas os interesses eleitorais

Não há dúvidas de que este ano será muito desafiador. Em primeiro lugar, o ano de 2021 deixa uma herança muito negativa para 22 em diversas frentes, que já seriam obstáculos para o crescimento neste ano.

Em segundo lugar, a guerra na Ucrânia é um brutal choque nos preços de commodities que já estavam muito pressionados. Os riscos de contaminação e disseminação da tendência de longo prazo da inflação aumentou. A valorização cambial recente apenas atenua o choque, mas não consegue evitar os aumentos de preços domésticos. Consequentemente, o Banco Central tem menos espaço para baixar a guarda e ser flexível na condução da política monetária.

Em resumo, será um ano de baixo crescimento e de inflação muito mais elevada, com uma composição mais desfavorável para as famílias de baixa renda. Em particular, a análise dos índices de inflação, calculado pelo Ipea, tem mostrado que, para as famílias de renda mais baixa, a maior pressão de preços nos últimos 12 meses reside no grupo de habitação, devido aos reajustes de energia elétrica e gás de botijão, e no grupo alimentação. Ambos explicam quase 60% da inflação de 10,5% acumulada em 12 meses até janeiro de 2022, o último dado disponível. Somando o grupo transporte, a contribuição chega a quase 80%.

Roberto DaMatta*: A guerra é uma patologia sem vacina

O Estado de S. Paulo / O Globo

‘Não matarás’ é válido em toda sociedade conhecida. Por isso, a invasão da Ucrânia é bárbara

Meu pessimismo reafirma que a morte se faz presente de modo excepcional no nosso mundo.

Mal saímos de uma pandemia, com uma enorme possibilidade de contrair o vírus e dele adoecer e morrer aos milhares, e um czar-oligarca russo invade um país vizinho e, onipotente, ameaça usar suas ogivas atômicas – aquelas que provam o nosso lado diabólico – e desfaz tudo o que merece o nome de civilização.

Eis uma clara revelação de como projetávamos nos chamados “povos selvagens” esse brutal antidiálogo chamado “guerra”.

Essa patologia sem vacina, na qual as palavras que fabricam e enriquecem a vida são trocadas pelas bombas e pelos tiros, que suspendem e incentivam o “não matarás”.

Fábio Alves: Copom em apuros

O Estado de S. Paulo.

O mais provável é cumprir com o que já foi sinalizado, mas dizer que vai prolongar o aperto

Eis o tamanho da encrenca que o Copom terá de enfrentar na sua reunião hoje: a média dos núcleos da inflação, que excluem os preços mais voláteis, como alimentos e combustíveis, deu outro salto de janeiro para fevereiro, avançando de 0,87% para uma alta ao redor de 1%, mesmo com o aperto monetário em curso já há um ano e com a taxa Selic em dois dígitos. Na taxa anual, de 8,4% no mês passado, a média dos núcleos sobe por 18 meses consecutivos.

Com a alta de preços se disseminando por mais produtos e serviços no IPCA, a inflação alta está se tornando cada vez mais resiliente. E os efeitos secundários do choque adverso de oferta, agravados agora pela guerra na Ucrânia, devem continuar empurrando para cima as expectativas inflacionárias.

Fernando Exman: Risco de politização da emergência sanitária

Valor Econômico

Governo tenta acelerar mudança do status da covid-19

É preciso refletir com prudência se este é o momento adequado para o Brasil flexibilizar o estado de emergência sanitária decretado por causa do coronavírus.

O mesmo debate ocorre em outros países. É verdade, também, que os números sobre contaminações, internações e mortes são bem menores do que os observados num triste passado recente.

A vacinação avançou, e a cada dia mais brasileiros tomam a dose de reforço. Alguns municípios se preparam, inclusive, para aplicar a quarta dose na população mais idosa. Uma notícia positiva, diante do fato de que os casos graves e fatais têm se concentrado entre os pacientes com idades mais avançadas.

Winston Fritsch*: Um apelo à ‘nova’ Fiesp

Valor Econômico

Ambiente pavorosamente não competitivo tira os estímulos à busca de ganhos de produtividade e é regressivo e antissocial

Os debates políticos sobre as causas da “estagnação secular” da economia brasileira desde os anos 80 têm, justificadamente, se concentrado em fatores institucionais e macroeconômicos, como a falta de segurança jurídica ou os irmãos siameses do recorrente desequilíbrio fiscal e da alta e instável taxa de juros, ambos frutos de nossa longa crise de governança.

Menos se tem dito dos determinantes microeconômicos, como a falta de competição a que é submetida a grande indústria brasileira - fruto, em particular, de um protecionismo elevado e pouco transparente - e de seus efeitos, como o baixo dinamismo tecnológico.

A indústria paulista que, em particular, se beneficiou enormemente da intervenção brutal do Estado após a Segunda Guerra Mundial, ao ponto de São Paulo chegar a representar 58% da produção industrial em uma federação de 26 Estados em 1970, declina desde então, sendo hoje menos do que 38% do total. Por isso, há vários anos, os industriais desse estado atacam o moinho de vento das “políticas liberais” como se essa, além de uma ficção, fosse a origem de seus problemas estruturais e seculares e não, exatamente o contrário: o atávico mercantilismo brasileiro e a falta de competição.

Daniel Rittner: OCDE virou uma Otan da economia mundial?

Valor Econômico

Debate abordou vantagens e desvantagens da adesão brasileira à organização

O economista Otaviano Canuto era secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda em 2003, no começo do governo Lula, quando foi convidado para uma palestra sobre o Brasil na sede da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), em Paris. “Lá eu me dei conta de que a grande razão do convite era me usar como veículo para mandar uma mensagem ao governo brasileiro”, relembra Canuto, que depois se tornou diretor- executivo do Banco Mundial e do FMI. Na época, o Chile estava postulando sua entrada. Seria o primeiro país sul-americano e o segundo da América Latina, na sequência do México. O então secretário-geral da instituição o chamou para uma conversa e abriu o jogo: “Nós dissemos para o Chile que preferiríamos o Brasil, mas agora precisamos saber se vocês têm interesse”.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Guerra aumentou desafio do BC no controle da inflação

O Globo

A inflação no Brasil segue em alta — o acumulado em 12 meses está em 10,54% —, e as perspectivas não são as melhores depois da invasão russa à Ucrânia. Entre 23 de fevereiro e 8 de março, preços de mercadorias cotadas em dólar no mercado futuro aumentaram de forma indiscriminada, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). O trigo subiu 45%. Petróleo, 34%. Milho, 10%. Açúcar, 5%. Alumínio, 4%. Na semana passada, a gasolina e o diesel sofreram reajuste nas refinarias.

É nesse contexto inóspito que o Comitê de Política Monetária (Copom), formado pelo presidente do Banco Central (BC) e por seus diretores, definirá hoje o novo valor da Selic, taxa básica de juros da economia. Desde o começo do ano passado, o BC vem elevando a Selic de forma consistente. Foram oito altas. Ela saiu de 2%, o menor nível da História, para os 10,75% anunciados em fevereiro.

Juros maiores encarecem o crédito, reduzem o consumo, diminuem a demanda e tornam os reajustes mais difíceis porque as empresas temem perder mercado. O BC precisa aumentá-los para, no jargão dos economistas, “ancorar” as expectativas do mercado. Traduzindo: evitar que empresas antecipem aumentos com base na presunção de mais inflação futura.

Poesia | Manuel Bandeira: O rio

Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas no céu, refleti-las
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.

Música | Marisa Monte - Não vá embora

 

terça-feira, 15 de março de 2022

Merval Pereira: Partidos buscam saídas

O Globo

Faltando duas semanas para a definição das federações partidárias, e também para a troca de legenda sem sofrer punições da legislação eleitoral, a movimentação nos bastidores está intensa, indicando não apenas a dificuldade de compromissos mais permanentes entre legendas, como coligações que podem interferir no resultado eleitoral.

Para acertar uma federação, é preciso que os partidos nela envolvidos concordem em permanecer fiéis ao mesmo programa nos próximos quatro anos. PSOL e Rede já se acertaram, o que não foi difícil, pois a Rede precisa de um apoio para superar as cláusulas de barreira, e o PSOL é o partido que mais se assemelha a ele. Nasceu de uma dissidência petista, assim como a Rede, mas não rejeita totalmente o PT.

Outro grupo de partidos está se unindo, tentando despertar a terceira via. Em termos de máquina partidária, essa seria uma união ideal de coligação, não de federação, entre União Brasil, MDB e PSDB, que teria uma verba para financiar a campanha estimada em R$ 2 bilhões e representantes em todos os estados brasileiros. São legendas muito fortes, muito grandes para se fechar numa federação, mas uma coligação com vista à chapa para presidente da República teria substancial tempo de televisão, fundo partidário e capilaridade nacional.

Carlos Andreazza: Bolsonaro competitivo

O Globo

Em dois artigos recentes, a 22 de fevereiro e 1º de março, mencionei o que chamo de tripé competitivo por meio do qual, creio, Bolsonaro chegará forte à eleição. Hoje, aprofundarei o exame dessa sustentação.

Antes, uma nota. Embora o ímpeto tenha arrefecido nas últimas semanas, mais torcida que projeção derivada de análise, há ainda quem considere significativa a chance de Lula vencer no primeiro turno; algo que não ocorreu nem quando era presidente e tinha a estrutura do Estado a seu favor.

Com a estrutura do Estado a seu favor, vem — virá — Bolsonaro. Não pode ser subestimado o efeito do novo Bolsa Família, de R$ 400, sobre sua campanha, nem o ritmo como a Caixa — duplo de comitê de campanha bolsonarista e banco para microcrédito — multiplica agências Brasil adentro. Difícil que não cresça. Crescerá articulando o aludido tripé. A primeira das pernas, muito testada, a que nunca lhe faltou; que se expressou, fisicamente, nos eventos golpistas do Sete de Setembro — e que encarna a desestabilização permanente que caracteriza o bolsonarismo.

Míriam Leitão: Cenário econômico piora com a guerra

O Globo

A guerra turvou ainda mais o cenário do último ano do governo Bolsonaro. O país já estava com a inflação alta e a economia estagnada. Mas agora a esse quadro difícil se somam todos os efeitos da guerra da Rússia contra a Ucrânia, o que levará o país a ter mais inflação, menos crescimento, mais juros. O Copom se reúne hoje e amanhã para subir a Selic em mais um ponto percentual. As projeções são de que os juros vão a 13% este ano, uma taxa enorme para um PIB que pode não sair do zero.

Da última reunião do Copom para cá, os indicadores pioraram, e esta guerra terrível estourou afetando todas as projeções. A inflação está em dois dígitos desde setembro, mas os economistas projetam um recuo este ano. Ainda acham que vai ficar abaixo de 10%, mas a cada dia a estimativa é revista para cima. Na última reunião do Copom, a mediana do Focus apontava 5,38%, agora está em 6,45%. O Credit Suisse divulgou ontem um relatório apostando em 7%. É muito difícil saber, mas o viés é de alta para os preços, e a piora das expectativas já atinge os anos de 2023 e 2024, que começam a escapar do centro da meta.

Edu Lyra: Combate à pobreza exige inovação

O Globo

O título de um dos meus livros é “Da favela para o mundo”. Trato nele das barreiras e preconceitos que enfrentei enquanto jovem favelado e da minha tentativa de vencer a pobreza e expandir horizontes. Muito do que aparece no livro como sonho ou projeto virou realidade nos últimos anos: pude visitar outros países, palestrar em centros universitários de renome, conhecer grandes empreendedores e filantropos.

Essa vivência me convence cada vez mais da importância da inovação para as iniciativas de combate à pobreza e à desigualdade. Por isso levo — e continuo levando — minha experiência das periferias brasileiras por onde passo, mas creio que hoje escreveria um livro diferente, chamado “Do mundo para a favela”.

Luiz Carlos Azedo: Lula confirma Alckmin de vice e teme reeleição de Bolsonaro

Correio Braziliense

O plano da ética deixou de ser uma prioridade para a maioria dos eleitores, mas ainda é uma variável que pode decidir a eleição à Presidência

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) confirmou, ontem, que vai mesmo convidar o ex-governador de São Geraldo Alckmin para ser o vice na sua chapa à Presidência, a despeito das resistências do PT e de partidos de esquerda que o apoiam, como o PSol. Alckmin deve se filiar ao PSB para consolidar a aliança, independentemente da disputa entre o ex-prefeito Fernando Haddad (PT) e o ex-governador Márcio França (PSB). O lançamento da chapa deve ocorrer em meados de abril. O líder petista tem dito que os descontentes com a aliança devem procurar outro candidato.

Apesar de ser o líder absoluto nas pesquisas de opinião, Lula está preocupado com a resiliência do presidente Jair Bolsonaro, do qual vem mantendo uma distância em torno de 10% das intenções de votos, segundo as pesquisas. Para quem já participou de muitas eleições, perdeu três e ganhou duas, essa diferença é muito pequena para se subestimar o adversário. O “já ganhou” petista não fez a cabeça de Lula. Avalia que Bolsonaro ainda tem a possibilidade de se reeleger, porque sua candidatura parece ter um lugar garantido no segundo turno.

Lula ancora sua candidatura na militância de esquerda, no recall de seu governo (2003-2010) junto às parcelas mais pobres da população e na ojeriza à Bolsonaro de parte da classe média. O presidente da República também tem uma relação consolidada com os mundos rural, que migrou para as cidades do interior; evangélico, com o qual tem identidade do ponto de vista dos costumes; e com os setores reacionários, que idealizam o antigo regime militar e defendem uma espécie de ditadura do Executivo.

Eliane Cantanhêde: “Transição e reconstrução”

O Estado de S. Paulo.

PT moderado quer Lula como ‘centro’, ‘transição’ e ‘reconstrução’

Aposição do ex-presidente Lula na disputa presidencial já foi bem mais confortável, mas o presidente Jair Bolsonaro vem demonstrando capacidade de reação e isso mexe não só com os nervos, mas com as estratégias do PT. O lado moderado aconselha Lula a usar três carimbos para ampliar seu leque de apoio e escapar da bolha exclusivamente de esquerda.

O primeiro carimbo: ele seria o verdadeiro “candidato de centro”. O segundo: será um “presidente de transição” e não disputará um quarto mandato. O terceiro: sua missão é “reconstruir o País”.

É uma estratégia forte, mirando PSDB, Cidadania, MDB, PSD e a própria Rede. Ou seja, para atrair e segurar votos de centro e centro-esquerda que há em todas essas siglas e evitar uma debandada para Bolsonaro no caso de falência da terceira via.

Felipe Salto*: O tripé orçamentário Couri-bijos

O Estado de S. Paulo.

Desde já, vaticino: passa por ele a saída para o nó górdio na gestão do dinheiro público, esta verdadeira crise fiscal

Um dos maiores especialistas do País em contas públicas, Daniel Couri, escreveu sobre a necessária modernização do processo orçamentário a partir de 2023. O artigo, em parceria com Paulo Bijos, integra a coletânea Reconstrução: o Brasil nos anos 20 (Saraiva, 2022), que organizo com Laura Karpuska e João Villaverde.

O processo orçamentário é uma grande confusão. Na Assembleia Nacional Constituinte, o economista e deputado constituinte José Serra comandou os trabalhos que culminaram no capítulo de Finanças Públicas da Constituição. Serra reuniu um grupo de especialistas do calibre de Maílson da Nóbrega, José Roberto Afonso e Andrea Calabi para analisar as ideias que chegavam a toque de caixa. Ali, postulou-se a tese da responsabilidade fiscal. A Constituição federal obrigaria à apresentação de uma lei complementar para regular o uso do dinheiro público.

Hélio Schwartsman: Salvo-conduto para barbarizar

Folha de S. Paulo

Felizmente, a lista desses políticos é reduzida

Aqui se faz, aqui se paga, assevera o ditado popular. Mas nem sempre. Arthur do Val disse absurdos sobre as mulheres ucranianas, suas declarações vazaram e ele agora sofre as consequências. Teve de renunciar à pré-candidatura ao governo paulista e muito provavelmente terá seu mandato de deputado estadual cassado.

Quer você considere esse tipo de cancelamento uma forma de justiça rápida, quer o veja como uma manifestação da tirania da maioria, simplesmente não há como evitar que as pessoas reajam ao que entendem ser uma grave violação moral. Em tempos de redes sociais, esse sentimento pode converter-se instantaneamente numa onda de indignação que leva tudo em seu caminho.

Alvaro Costa e Silva: Os bedéis da imbecilidade

Folha de S. Paulo

Câmara vota projeto que proíbe e criminaliza uso da palavra Bíblia fora da religião

Em 1964, Stanislaw Ponte Preta, heterônimo do jornalista Sérgio Porto, publica o livro "Garoto Linha Dura", título que alude ao ambiente pesado do país, sobretudo à perseguição política, censura e deduragem. "Escolhi para título a história do garotinho que se deixou influenciar pelo mais recente método de democratização posto em prática no Brasil", explica o autor.

Pedrinho, o tal garoto linha dura, para fugir do castigo por ter quebrado uma vidraça jogando futebol na rua, entrega um colega e diz ao pai: "Esse menino do vizinho é um subversivo desgraçado. Não pergunta nada a ele não. Quando ele vier atender a porta, o senhor vai logo tacando a mão nele".

Cristina Serra: 'Tire o seu rosário do meu ovário!'

Folha de S. Paulo

As condições que permitem aborto no Brasil não dão conta da nossa realidade

Neste mês em que celebramos conquistas das mulheres, tivemos aqui no Brasil demonstrações ultrajantes do quanto regredimos em respeito às nossas lutas e reivindicações. E aqui peço licença ao leitor para me incluir no texto como sujeito do coletivo maior: mulheres que lutam para ocupar espaços em sociedades ainda marcadamente patriarcais.

O tratamento degradante a nós dirigido vem do mesmo caldo onde fermentam Bolsonaro e outras figuras repulsivas, como o deputado paulista que escarneceu de refugiadas de guerra, na Ucrânia, e o procurador-geral da República. Augusto Aras disse o que entende por liberdade de escolha para as mulheres: nós podemos decidir a cor do esmalte e o sapato que queremos usar.

Joel Pinheiro da Fonseca: O que fazer com o preço combustíveis?

Folha de S. Paulo

Governo deve, acima de tudo, proteger os mais vulneráveis

Com a guerra na Ucrânia, fica em risco a oferta futura de petróleo e gás. Com isso, o preço deles aumenta desde já. E isso impacta diretamente a economia brasileira, que depende de petróleo. Ou seja, o país fica mais pobre.

Esse custo é inevitável. A única questão é quem pagará por ele. O Estado pode —e às vezes deve— redistribuir os custos, mas eles não deixam de existir. Todas as medidas em discussão (inclusive não fazer nada) têm seus ganhadores e seus perdedores. Não há uma solução em que ninguém sofra com o aumento da gasolina no posto sem que alguém pague essa conta.

E quem, acima de tudo, não deveria pagar a conta? Os mais pobres. Toda resposta ao petróleo mais caro deve incluir mecanismos para proteger os mais vulneráveis.

Andrea Jubé: Uma eleição entre o ideal e o pragmático

Valor Econômico

“Cidadão de bem” é consenso entre esquerda e direita

 “Eu não escolho lados, eu escolho oportunidades”. A frase é atribuída ao gângster Meyer Lansky (1902-1983), um imigrante russo, que se tornou um dos criminosos mais perseguidos pela polícia americana (FBI) ao acumular uma fortuna de mais de US$ 300 milhões, fruto de suas escolhas não convencionais. O ator Harvey Keitel, que o interpretou no cinema, concorre ao Oscar 2022 pelo papel.

Vertendo-se a máxima do personagem à realidade política brasileira, vale indagar: na eleição de outubro, o eleitor vai escolher um lado, ou uma oportunidade? Definirá o voto impulsionado por uma determinada ideologia, ou embalado pela perspectiva de melhora de vida?

O Instituto Locomotiva foi a campo investigar se o eleitor brasileiro tem lado na política, ou o que pesa em sua decisão dentro da cabine eleitoral são os dramas cotidianos, como o preço dos alimentos, do gás de cozinha, e, claro, da gasolina ou do diesel. O eleitor brasileiro é um radical ou um pragmático?

Maria Clara R. M. do Prado: Entre o bélico e o planeta, dilema da EU

Valor Econômico

Guerra é ponto de inflexão de um modelo de governo do Estado Social para um padrão que prioriza as despesas militares

Dois anos depois de uma pandemia que continua a matar em algumas regiões do globo, a guerra na Ucrânia veio afundar as expectativas de crescimento econômico e de prosperidade mundial neste fatídico 2022, mas isso está longe de ser tudo.

Independente de quem seja o vencedor do conflito detonado por Putin, a guerra já tomou proporções suficientes para ser o ponto de inflexão de um modelo de governo fundado no Social State (Estado Social) para um padrão que priorize as despesas militares nos orçamentos públicos. Pior ainda, o novo paradigma comprometeria os projetos destinados a substituir as fontes poluentes pela produção de energia limpa, especialmente na Europa.

A iniciativa do governo alemão de dobrar os gastos com defesa este ano e de destinar mais de 2% do seu PIB àquela rubrica (hoje equivale a 1,53% do PIB) até 2024 é emblemática. Também a cúpula da União Europeia (UE) já anunciou que vai ampliar o orçamento destinado à defesa do bloco.

Daniela Chiaretti: Amazônia: decifra-me ou te devoro

Valor Econômico

Agenda ambiental não é preocupação dos eleitores das capitais na Amazônia nem prioridade das Assembleias Legislativas

Embora a floresta amazônica seja o lado do Brasil que mais está sob os holofotes globais nos últimos anos, as Assembleias Legislativas dos nove Estados da Amazônia Legal não priorizam a proteção do território, as estratégias de desenvolvimento sustentável e a agenda ambiental em suas propostas de leis. Os grandes partidos políticos patinam na maioria dos Estados e municípios enquanto a região assiste a uma grande ampliação da direita e do apoio a grêmios políticos nanicos. A questão ambiental não está no horizonte das preocupações dos eleitores das capitais. Eles não demonstram ter identidade amazônica.

“É uma região que tem que ser politicamente entendida. Que morfologia social é esta que torna inóspito o terreno para os partidos tradicionais e a esquerda?” questiona o cientista político Fabiano Guilherme Mendes Santos, hoje um dos pesquisadores que mais mergulham no entendimento do espectro político da maior floresta tropical do mundo, território que é metade do Brasil.

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão*:"Pacote do veneno": a economia brasileira precisa ser reinventada

A fragilidade da economia brasileira diante da globalização é tamanha que qualquer conflito fora de suas fronteiras - não importa a distância: no planeta - afeta diretamente o sistema produtivo interno. Os efeitos negativos chegam rápido ao consumidor.  Pois, não é que a guerra entre a Rússia e a Ucrânia vai impactar por aqui a inflação, o consumo de alimentos, inclusive a cesta básica, a política ambiental e tende a tirar a tranquilidade até dos índios.  

Na agenda do Congresso dois projetos de lei prometem ajudar a agitar o cenário: o PL 6299/2022, chamado 'Pacote do Veneno", que amplia a legitimidade do uso de agrotóxicos na agricultura; e o PL 191/2020, flexibilizador das regras para as empresas mineradoras para explorar minério em terras indígenas.   Cerca de 240 áreas   estão na mira do PL.

Como se sabe, com toda riqueza mineral revelada no País há mais de 40 anos, por um projeto que se chamou "Radam" (radametria), as reservas minerais brasileiras passaram a ser referência entre as maiores do mundo.    Mas, em se tratando de compostos minerais para a produção de fertilizantes NPK (nitrogênio, potássio, e fósforo), que dá o impulso à produtividade agrícola e à nossa produção, as reservas brasileiras conhecidas tem possibilidade de suprir apenas até 40 % das demandas atuais da agricultura. 

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

O impacto da educação é inequívoco

O Globo

Até há não muito tempo, o Brasil não fazia ideia do que se passava em suas salas de aulas. Sem medir, não havia diagnóstico possível. Uma das conquistas do país nas últimas três décadas foi a implementação de testes e índices para acompanhar a qualidade das escolas. Esse trabalho crucial acaba de ganhar uma contribuição. Um novo estudo da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto e do Insper criou um novo indicador, batizado Ideb-Enem, para medir a qualidade da educação do ensino fundamental ao médio. De modo pioneiro, os pesquisadores relacionaram esse índice aos indicadores sociais em nível municipal. O resultado confirma o efeito positivo dos investimentos em educação e demonstra mais uma vez por que se trata da área mais crítica para o futuro do país.

Poesia | Bertold Brecht: As boas ações

Esmagar sempre o próximo

não acaba por cansar?

Invejar provoca um esforço

que inchas as veias da fronte.

A mão que se estende naturalmente

dá e recebe com a mesma facilidade.

Mas a mão que agarra com avidez

rapidamente endurece.

Ah! que delicioso é dar! Ser generoso

que bela tentação!

Uma boa palavra brota suavemente

como um suspiro de felicidade!

Música | Elba Ramalho, Alceu Valença - Ciranda da Rosa Vermelha

 

segunda-feira, 14 de março de 2022

Fernando Gabeira: A sombra da guerra da Ucrânia no Brasil

O Globo

Dizem que a guerra estimula mudanças e inovações. No entanto é difícil antecipá-las, num momento em que não se entende bem tudo o que se passa e, muito menos, o rumo que as coisas tomarão num futuro próximo.

A alternativa é começar pelo mais fácil, aquele conjunto de problemas que já nos preocupavam antes da guerra. O preço do combustível é um deles. Já estava nas alturas e subiria mais assim que fosse disparado o primeiro tiro na Ucrânia.

Perdeu-se um tempo enorme para definir medidas que atenuassem o impacto do aumento. E agora, que a guerra eclodiu, elas se tornam mais urgentes e ligeiramente menos eficazes.

Antes da guerra, o combustível fóssil não era questionado apenas pelo preço, mas também por sua insustentabilidade ambiental. A crise abre uma porta para o futuro de carros elétricos, boas ferrovias e hidrovias. Será que embarcamos nessa ou seguimos na janela vendo o mundo mudar?

Outra questão anterior à guerra era a dependência dos fertilizantes russos. Vale a pena escorar-se na boa vontade de um Putin isolado ou desenvolver um projeto de autossuficiência nesse campo?

Miguel de Almeida: Orwell antecipou a sombra de Putin

O Globo

O alistamento espontâneo de civis de diversas nacionalidades ao lado dos ucranianos desmonta uma certeza do filósofo francês (de direita) Luc Ferry: que nenhuma causa contemporânea mereceria a imolação da vida.

Estariam longe e abandonadas as paixões políticas, as empolgações estéticas (Maiakóvski saía no braço com seus interlocutores) e as identidades nacionais. Furores e arrebatamentos responsáveis por toneladas de mortes, principalmente no século passado.

Em sua conta não entram os fundamentalistas islâmicos, os tais homens-bomba — no caso, não seria sequer uma causa, mas um vácuo civilizacional.

O engajamento da população civil ucraniana, de outro lado, escande a identificação com um revelador instinto de nacionalidade, certamente para a desagradável surpresa de Putin, e em oposição ao conceito niilista e desossado de Luc Ferry, ex-ministro da Educação da França.

Diante de Putin, parte da esquerda retomou o coro com a extrema direita. Bozo e o PCO se encontram do mesmo lado da trincheira — ele, porque jura ser seguidor da crença de Silas Malafaia; o grupelho, por lutar contra a vida alheia.

Mirtes Cordeiro*: A esperança que vem das mulheres

Após 49 anos da queda de Savaldor Allende, então presidente do Chile, por um golpe militar (11.09.1973) que derrubou o regime constituído democraticamente pelo povo, surge novamente a oportunidade para a recondução da história, renovada pela forma persistente e disciplinada dos movimentos sociais organizados pelo povo chileno.

A esperança surge na figura do novo presidente, Gabriel Boric, um jovem de 36 anos à semelhança do Allende, um representante da esquerda chilena.

Conforme anunciado no seu discurso de posse, o zelo pela construção do Estado Social como um ente coletivo, retumba o primeiro discurso de campanha. “Diante do povo e dos povos do Chile, prometo dar o melhor de nós pelo bem do país”, reafirmando compromisso com a luta contra as ações que provocam as alterações climáticas, e o empoderamento da mulher.“Estou muito feliz de ter diante de mim um gabinete com mais mulheres que homens”.

As prioridades do programa de governo apontam para a recuperação da economia, para a reestruturação das pensões e aposentadorias, tornando-as dignas, para o reconhecimento dos povos originários, para o não endividamento dos estudantes com a educação, para a continuidade das buscas pelos desaparecidos durante a ditadura.

No governo atual do Chile, as mulheres assumem 14 ministérios, entre eles o Ministério do Interior e Segurança Pública, o Ministério da Defesa Nacional, o Ministério da Mulher e Equidade de Gênero, o Ministério da Saúde e Ministério das Relações Exteriores.

Marcus André Melo*: Impactos políticos da guerra

Folha de S. Paulo

Populismo e identitarismo declinam, universalismo liberal se fortalece

A guerra na Ucrânia aponta para o fim de uma era. Fukuyama afirmou que ela representa "o fim do fim da história", o ocaso de um certo consenso liberal global que organizou o mundo ocidental do pós-Guerra. Mas aqui quero me restringir a algumas de suas implicações políticas no plano interno das democracias.
Começo por seu impacto sobre a onda populista.

O traço distintivo do populismo, em suas variantes à esquerda e à direita, é o apelo ao povo (virtuoso) —em oposição às elites (corrompidas)— e na representação política direta sem mediações ou controles institucionais. O nativismo é corolário: povo e nação se complementam.

Celso Rocha de Barros: Ideias para o pós-Jair

Folha de S. Paulo

Livro traz propostas boas de políticas públicas, que podem ajudar os programas dos candidatos de oposição

Foi só o bolsonarismo começar a ir embora que voltou o debate de ideias. Em "Reconstrução: O Brasil nos Anos 20", organizado por Felipe Salto, João Villaverde e Laura Karpuska, um grupo de autores de altíssimo nível, todos jovens, propõe ideias para a retomada do projeto de construção da democracia brasileira. É um livraço.

Os capítulos são textos de diferentes tipos: por exemplo, há boas reconstruções históricas, como as de João Villaverde e Rodrigo Brandão sobre o presidencialismo brasileiro; ou a de Irapuã Santana sobre as políticas públicas que preservaram a desigualdade racial herdada da escravidão. Há dois excelentes textos sobre o estado de nossa esfera pública: um de Laura Karpuska e Vandson Lima sobre accountability nas redes sociais e na imprensa e outro de Tai Nalon, chefe da agência de checagem Aos Fatos, sobre o problema das fake news.

Bruno Carazza*: Assim na terra, como no céu

Valor Econômico

Lula e Bolsonaro miram eleitorado evangélico

Segundo o Censo de 2010, dos 190.755.799 habitantes no território brasileiro, 42.275.440 pessoas eram evangélicas - o que equivalia a 22,2% do total. Já se passaram 12 anos, e muita coisa mudou no Brasil desde o último levantamento demográfico realizado pelo IBGE.

Os institutos de pesquisas que estão indo a campo para tentar estimar as preferências do eleitor para o pleito de outubro têm encontrado um contingente de 24% a 26% dos entrevistados que se dizem evangélicos. Muitos especialistas acreditam que o índice real seja de quase um terço da população.

Alex Ribeiro: O Copom vai largar a meta de 2023?

Valor Econômico

Baixar rapidamente a inflação causaria um alto custo à economia

Com o choque nos preços de petróleo, dos alimentos e dos metais causado pela invasão da Ucrânia pela Rússia, o mercado está reestimando as suas projeções de inflação para percentuais ainda mais altos. Muitos estão questionando: o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deveria jogar a toalha e desistir de cumprir a meta de inflação de 2023?

A julgar pelo histórico da diretoria do BC, comandada por Roberto Campos Neto, isso é pouco provável. O Copom deverá manter o foco em trazer a inflação, que chegou a 10,54% no período de 12 meses até fevereiro, ao objetivo de 3,25% definido para o ano que vem. Mas é possível que passe a agir de forma mais gradual, sem as altas agressivas que imprimiu na taxa Selic até fevereiro.

O principal argumento dos defensores de uma convergência mais lenta da inflação para a meta é que o sacrifício, em termos de perda de atividade econômica e de alta do desemprego, seria muito alto. Mais recentemente, surgiu um novo argumento, ligado à estabilidade financeira. A economia teria se moldado ao ambiente de juros mais baixos, de um dígito, e uma alta muito forte da Selic poderia desestabilizar empresas e o setor financeiro.

Denis Lerrer Rosenfield*: O retorno à barbárie

O Estado de S. Paulo.

Na invasão da Ucrânia, a Rússia retomou os seus protocolos militares empregados nas guerras da Chechênia e da Geórgia

As imagens de bombardeios russos a populações civis na Ucrânia são aterradoras. Impossível não sentir desgosto e indignação moral. Se houve algum progresso na Europa, após a Segunda Guerra Mundial, ele se deveu a um dizer não a soluções militares, privilegiando conversações diplomáticas, mesmo no período mais agudo da guerra fria. Formou-se um consenso em torno do Estado de Bem-estar Social, voltado para o atendimento das necessidade individuais e coletivas. Logo, o continente europeu – e não outras partes do mundo – foi preservado de conflitos propriamente militares, podendo os membros dos vários Estados se dedicarem a seus afazeres privados.

A Europa do século 19, durante décadas, conseguiu privilegiar soluções diplomáticas, graças a diplomatas da mais alta estirpe como Metternich, Castlereagh e Talleyrand, conhecedores da história e da arte da negociação. Após a destruição deste mundo, no final do século 19 e, depois, nas duas guerras da primeira metade do século 20, parecia que um mundo novo viera para ficar, com um não rotundo sendo dito às atrocidades da Segunda Guerra Mundial.

Por unanimidade, Cidadania reconduz Roberto Freire à Presidência

 Porta do Cidadania

Congresso elegeu neste sábado novo Diretório e nova Executiva nacionais

O Cidadania elegeu neste sábado (12) o novo Diretório e a nova Executiva nacionais. Foi o XX Congresso Nacional do partido, sendo o primeiro realizado como Cidadania (10 foram como Partido Comunista Brasileiro e 9 como Partido Popular Socialista, antecessores da nova formação política). Numa decisão unânime, o atual presidente Roberto Freire foi reconduzido. Dizendo-se contrariado pela possibilidade de reeleição, o senador Alessandro Vieira (SE) não chegou a votar e anunciou sua desfiliação do partido.

Os deputados Daniel Coelho e Rubens Bueno (PR), além da senadora Eliziane Gama (MA) e Comte Bittencourt, que dirige o Cidadania no Rio de Janeiro, serão vice-presidentes. Assume o cargo de secretário-geral do partido o presidente do Cidadania alagoano, Régis Cavalcante. Os novos colegiados respeitam o percentual de 30% de mulheres em órgãos de direção, como prevê o Estatuto, e também tem representantes dos setoriais de Diversidade e Igualdade.

“Aquilo que surgiu em 1922 [ano de fundação do PCB] tem uma linha mestra. Uma linha de pensamento e intervenção na política, voltada para uma sociedade mais justa, com valores de fraternidade, concepção humanista e visão internacionalista. Para ter continuidade, processo de modernização é necessário e se impôs. E tivemos coragem de fazer. Nós agora precisamos chegar ao século XXI. Esse ano é fundamental pra definimos se queremos ser contemporâneos do futuro”, defendeu Freire.

Responsável por uma proposta inicial de novo programa para o partido, que será aperfeiçoada em discussões ao longo do ano, Caetano Araújo, da Fundação Astrojildo Pereira (FAP), disse que a busca do partido é por reapresentar, no Brasil, um movimento que já ocorre em outros lugares do mundo, como a Europa, de convergência entre sociais-democratas, verdes e liberais progressistas. Uma agenda que alie inclusão social, sustentabilidade e responsabilidade fiscal.

“O Cidadania é necessário para levar esse conjunto de posicionamentos à frente de forma mais consequente do que os partidos maiores. Isso situa o Cidadania num campo que tradicionalmente chamamos de esquerda, mas uma esquerda renovada. A pauta tradicional das esquerdas era equidade e inclusão social. A pauta ampliada é equidade, inclusão social, sustentabilidade, responsabilidade fiscal, cosmopolitismo e democracia. Uma esquerda democrática moderna, atual”, sustentou.

Freire lembrou ainda a importância histórica do partido, desde os tempos do PCB.

“Esse partido não tem tendências ou bancadas e interesses por mais que sejam legítimos. O que construímos aqui é o órgão máximo da permanência do partido, entendendo as particularidades, os problemas dos estados e municípios. Mas um órgão nacional, com pensamento nacional. Nunca tivemos grande expressão numérica, mas sempre fomos um partido respeitado. Podem contar a história do povo brasileiro, mas se não falarem de nós, não estarão contando a verdadeira história do povo brasileiro, como disse Ferreira Gullar”, avaliou.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

‘SUS da Educação’ traz nova esperança para resgatar ensino

O Globo

Pode ter efeito revigorante o projeto aprovado por unanimidade no Senado que institui o Sistema Nacional de Educação (SNE), apelidado “SUS da Educação”. A proposta, que ainda seguirá para a Câmara, regulamenta a colaboração entre União, estados e municípios na gestão do ensino. A exemplo da Saúde, o SNE terá uma comissão tripartite, com representantes das três esferas do Executivo, que decidirá sobre avaliações, parâmetros de qualidade, compras, material didático, carreira dos professores etc.

À União, caberá coordenar, oferecer apoio técnico e financeiro a estados e municípios, além de gerir o sistema nacional de avaliações. A ideia é, sem desrespeitar a autonomia dos demais entes, permitir que as principais políticas educacionais do país possam ser discutidas em conjunto pelas três esferas da administração, como ocorre no SUS.

A pandemia de Covid-19 expôs bons e maus exemplos de ação coordenada. Não há dúvida de que o SUS, com todas as suas limitações, inclusive orçamentárias, respondeu de modo competente ao desafio imposto pela mais letal pandemia dos últimos cem anos. O maior obstáculo não foi a centralização, mas a gestão errática do Ministério da Saúde, que abriu mão de seu papel de coordenação da crise sanitária, em muitos momentos chegando a boicotar o trabalho de governadores e prefeitos. Na vacinação, a partir do momento em que houve imunizantes disponíveis, o esquema funcionou. O governo federal comprou as vacinas, os estados distribuíram os lotes aos municípios, e as prefeituras aplicaram as doses.

Poesia | Bertold Brecht – Nada é impossível de mudar

Desconfiai do mais trivial,

na aparência singelo.

E examinai, sobretudo, o que parece habitual.

Suplicamos expressamente:

não aceiteis o que é de hábito

como coisa natural,

pois em tempo de desordem sangrenta,

de confusão organizada,

de arbitrariedade consciente,

de humanidade desumanizada,

nada deve parecer natural

nada deve parecer impossível de mudar.


Música | Casuarina: Lá vem a baiana