Eles devem preservar o poder de compra, não
apenas os interesses eleitorais
Não há dúvidas de que este ano será muito
desafiador. Em primeiro lugar, o ano de 2021 deixa uma herança muito negativa
para 22 em diversas frentes, que já seriam obstáculos para o crescimento neste
ano.
Em segundo lugar, a guerra
na Ucrânia é um brutal choque nos preços de commodities que já estavam
muito pressionados. Os riscos de contaminação e disseminação da tendência de
longo prazo da inflação aumentou. A valorização cambial recente apenas atenua o
choque, mas não consegue evitar os aumentos de preços domésticos.
Consequentemente, o Banco Central tem menos espaço para baixar a guarda e ser
flexível na condução da política monetária.
Em resumo, será um ano de baixo crescimento
e de inflação
muito mais elevada, com uma composição mais desfavorável para as famílias
de baixa renda. Em particular, a análise dos índices de inflação, calculado
pelo Ipea, tem mostrado que, para as famílias de renda mais baixa, a maior
pressão de preços nos últimos 12 meses reside no grupo de habitação, devido aos
reajustes de energia elétrica e gás de botijão, e no grupo alimentação. Ambos
explicam quase 60% da inflação de 10,5% acumulada em 12 meses até janeiro de
2022, o último dado disponível. Somando o grupo transporte, a contribuição
chega a quase 80%.
‘Não matarás’ é válido em toda sociedade
conhecida. Por isso, a invasão da Ucrânia é bárbara
Meu pessimismo reafirma que a morte se faz
presente de modo excepcional no nosso mundo.
Mal saímos de uma pandemia, com uma enorme
possibilidade de contrair o vírus e dele adoecer e morrer aos milhares, e um
czar-oligarca russo invade um país vizinho e, onipotente, ameaça usar suas
ogivas atômicas – aquelas que provam o nosso lado diabólico – e desfaz tudo o
que merece o nome de civilização.
Eis uma clara revelação de como
projetávamos nos chamados “povos selvagens” esse brutal antidiálogo chamado
“guerra”.
Essa patologia sem vacina, na qual as
palavras que fabricam e enriquecem a vida são trocadas pelas bombas e pelos
tiros, que suspendem e incentivam o “não matarás”.
O mais provável é cumprir com o que já foi
sinalizado, mas dizer que vai prolongar o aperto
Eis o tamanho da encrenca que o Copom terá
de enfrentar na sua reunião hoje: a média dos núcleos da inflação, que excluem
os preços mais voláteis, como alimentos e combustíveis, deu outro salto de
janeiro para fevereiro, avançando de 0,87% para uma alta ao redor de 1%, mesmo
com o aperto monetário em curso já há um ano e com a taxa Selic em dois
dígitos. Na taxa anual, de 8,4% no mês passado, a média dos núcleos sobe por 18
meses consecutivos.
Com a alta de preços se disseminando por
mais produtos e serviços no IPCA, a inflação alta está se tornando cada vez
mais resiliente. E os efeitos secundários do choque adverso de oferta,
agravados agora pela guerra na Ucrânia, devem continuar empurrando para cima as
expectativas inflacionárias.
Governo tenta acelerar mudança do status da
covid-19
É preciso refletir com prudência se este é
o momento adequado para o Brasil flexibilizar o estado de emergência sanitária
decretado por causa do coronavírus.
O mesmo debate ocorre em outros países. É
verdade, também, que os números sobre contaminações, internações e mortes são
bem menores do que os observados num triste passado recente.
A vacinação avançou, e a cada dia mais
brasileiros tomam a dose de reforço. Alguns municípios se preparam, inclusive,
para aplicar a quarta dose na população mais idosa. Uma notícia positiva,
diante do fato de que os casos graves e fatais têm se concentrado entre os
pacientes com idades mais avançadas.
Ambiente pavorosamente não competitivo tira
os estímulos à busca de ganhos de produtividade e é regressivo e antissocial
Os debates políticos sobre as causas da
“estagnação secular” da economia brasileira desde os anos 80 têm,
justificadamente, se concentrado em fatores institucionais e macroeconômicos,
como a falta de segurança jurídica ou os irmãos siameses do recorrente
desequilíbrio fiscal e da alta e instável taxa de juros, ambos frutos de nossa
longa crise de governança.
Menos se tem dito dos determinantes
microeconômicos, como a falta de competição a que é submetida a grande
indústria brasileira - fruto, em particular, de um protecionismo elevado e
pouco transparente - e de seus efeitos, como o baixo dinamismo tecnológico.
A indústria paulista que, em particular, se
beneficiou enormemente da intervenção brutal do Estado após a Segunda Guerra
Mundial, ao ponto de São Paulo chegar a representar 58% da produção industrial
em uma federação de 26 Estados em 1970, declina desde então, sendo hoje menos
do que 38% do total. Por isso, há vários anos, os industriais desse estado
atacam o moinho de vento das “políticas liberais” como se essa, além de uma
ficção, fosse a origem de seus problemas estruturais e seculares e não,
exatamente o contrário: o atávico mercantilismo brasileiro e a falta de
competição.
Debate abordou vantagens e desvantagens da
adesão brasileira à organização
O economista Otaviano Canuto era secretário
de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda em 2003, no começo do
governo Lula, quando foi convidado para uma palestra sobre o Brasil na sede da
Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), em Paris.
“Lá eu me dei conta de que a grande razão do convite era me usar como veículo
para mandar uma mensagem ao governo brasileiro”, relembra Canuto, que depois se
tornou diretor- executivo do Banco Mundial e do FMI. Na época, o Chile estava
postulando sua entrada. Seria o primeiro país sul-americano e o segundo da América
Latina, na sequência do México. O então secretário-geral da instituição o
chamou para uma conversa e abriu o jogo: “Nós dissemos para o Chile que
preferiríamos o Brasil, mas agora precisamos saber se vocês têm interesse”.
Guerra aumentou desafio do BC no controle
da inflação
O Globo
A inflação no Brasil segue em alta — o
acumulado em 12 meses está em 10,54% —, e as perspectivas não são as melhores
depois da invasão russa à Ucrânia. Entre 23 de fevereiro e 8 de março, preços
de mercadorias cotadas em dólar no mercado futuro aumentaram de forma
indiscriminada, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). O trigo
subiu 45%. Petróleo, 34%. Milho, 10%. Açúcar, 5%. Alumínio, 4%. Na semana
passada, a gasolina e o diesel sofreram reajuste nas refinarias.
É nesse contexto inóspito que o Comitê de
Política Monetária (Copom), formado pelo presidente do Banco Central (BC) e por
seus diretores, definirá hoje o novo valor da Selic, taxa básica de juros da
economia. Desde o começo do ano passado, o BC vem elevando a Selic de forma
consistente. Foram oito altas. Ela saiu de 2%, o menor nível da História, para
os 10,75% anunciados em fevereiro.
Juros maiores encarecem o crédito, reduzem
o consumo, diminuem a demanda e tornam os reajustes mais difíceis porque as
empresas temem perder mercado. O BC precisa aumentá-los para, no jargão dos
economistas, “ancorar” as expectativas do mercado. Traduzindo: evitar que
empresas antecipem aumentos com base na presunção de mais inflação futura.
Ser como o rio
que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas no céu, refleti-las
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.
Faltando duas semanas para a definição das
federações partidárias, e também para a troca de legenda sem sofrer punições da
legislação eleitoral, a movimentação nos bastidores está intensa, indicando não
apenas a dificuldade de compromissos mais permanentes entre legendas, como
coligações que podem interferir no resultado eleitoral.
Para acertar uma federação, é preciso que os partidos nela envolvidos concordem
em permanecer fiéis ao mesmo programa nos próximos quatro anos. PSOL e Rede já
se acertaram, o que não foi difícil, pois a Rede precisa de um apoio para
superar as cláusulas de barreira, e o PSOL é o partido que mais se assemelha a
ele. Nasceu de uma dissidência petista, assim como a Rede, mas não rejeita
totalmente o PT.
Outro grupo de partidos está se unindo, tentando despertar a terceira via. Em
termos de máquina partidária, essa seria uma união ideal de coligação, não de
federação, entre União Brasil, MDB e PSDB, que teria uma verba para financiar a
campanha estimada em R$ 2 bilhões e representantes em todos os estados
brasileiros. São legendas muito fortes, muito grandes para se fechar numa federação,
mas uma coligação com vista à chapa para presidente da República teria
substancial tempo de televisão, fundo partidário e capilaridade nacional.
Em dois artigos recentes, a 22 de fevereiro e 1º de março, mencionei o que chamo de tripé competitivo por
meio do qual, creio, Bolsonaro chegará forte à eleição. Hoje, aprofundarei o
exame dessa sustentação.
Antes, uma nota. Embora o ímpeto tenha
arrefecido nas últimas semanas, mais torcida que projeção derivada de análise,
há ainda quem considere significativa a chance de Lula vencer no primeiro
turno; algo que não ocorreu nem quando era presidente e tinha a estrutura do
Estado a seu favor.
Com a estrutura do Estado a seu favor, vem
— virá — Bolsonaro. Não pode ser subestimado o efeito do novo Bolsa Família, de
R$ 400, sobre sua campanha, nem o ritmo como a Caixa — duplo de comitê de
campanha bolsonarista e banco para microcrédito — multiplica agências Brasil
adentro. Difícil que não cresça. Crescerá articulando o aludido tripé. A
primeira das pernas, muito testada, a que nunca lhe faltou; que se expressou,
fisicamente, nos eventos golpistas do Sete de Setembro — e que encarna a
desestabilização permanente que caracteriza o bolsonarismo.
A guerra turvou ainda mais o cenário do
último ano do governo Bolsonaro. O país já estava com a inflação alta e a
economia estagnada. Mas agora a esse quadro difícil se somam todos os efeitos
da guerra da Rússia contra a Ucrânia, o que levará o país a ter mais inflação,
menos crescimento, mais juros. O Copom se reúne hoje e amanhã para subir a
Selic em mais um ponto percentual. As projeções são de que os juros vão a 13%
este ano, uma taxa enorme para um PIB que pode não sair do zero.
Da última reunião do Copom para cá, os
indicadores pioraram, e esta guerra terrível estourou afetando todas as
projeções. A inflação está em dois dígitos desde setembro, mas os economistas
projetam um recuo este ano. Ainda acham que vai ficar abaixo de 10%, mas a cada
dia a estimativa é revista para cima. Na última reunião do Copom, a mediana do
Focus apontava 5,38%, agora está em 6,45%. O Credit Suisse divulgou ontem um
relatório apostando em 7%. É muito difícil saber, mas o viés é de alta para os
preços, e a piora das expectativas já atinge os anos de 2023 e 2024, que começam
a escapar do centro da meta.
O título de um dos meus livros é “Da favela
para o mundo”. Trato nele das barreiras e preconceitos que enfrentei enquanto
jovem favelado e da minha tentativa de vencer a pobreza e expandir horizontes.
Muito do que aparece no livro como sonho ou projeto virou realidade nos últimos
anos: pude visitar outros países, palestrar em centros universitários de
renome, conhecer grandes empreendedores e filantropos.
Essa vivência me convence cada vez mais da
importância da inovação para as iniciativas de combate à pobreza e à
desigualdade. Por isso levo — e continuo levando — minha experiência das
periferias brasileiras por onde passo, mas creio que hoje escreveria um livro
diferente, chamado “Do mundo para a favela”.
O plano da ética deixou de
ser uma prioridade para a maioria dos eleitores, mas ainda é uma variável que
pode decidir a eleição à Presidência
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
confirmou, ontem, que vai mesmo convidar o ex-governador de São Geraldo Alckmin
para ser o vice na sua chapa à Presidência, a despeito das resistências do PT e
de partidos de esquerda que o apoiam, como o PSol. Alckmin deve se filiar ao
PSB para consolidar a aliança, independentemente da disputa entre o ex-prefeito
Fernando Haddad (PT) e o ex-governador Márcio França (PSB). O lançamento da
chapa deve ocorrer em meados de abril. O líder petista tem dito que os
descontentes com a aliança devem procurar outro candidato.
Apesar de ser o líder absoluto nas
pesquisas de opinião, Lula está preocupado com a resiliência do presidente Jair
Bolsonaro, do qual vem mantendo uma distância em torno de 10% das intenções de
votos, segundo as pesquisas. Para quem já participou de muitas eleições, perdeu
três e ganhou duas, essa diferença é muito pequena para se subestimar o
adversário. O “já ganhou” petista não fez a cabeça de Lula. Avalia que
Bolsonaro ainda tem a possibilidade de se reeleger, porque sua candidatura
parece ter um lugar garantido no segundo turno.
Lula ancora sua candidatura na militância
de esquerda, no recall de seu governo (2003-2010) junto às parcelas mais pobres
da população e na ojeriza à Bolsonaro de parte da classe média. O presidente da
República também tem uma relação consolidada com os mundos rural, que migrou
para as cidades do interior; evangélico, com o qual tem identidade do ponto de
vista dos costumes; e com os setores reacionários, que idealizam o antigo
regime militar e defendem uma espécie de ditadura do Executivo.
PT moderado quer Lula como ‘centro’,
‘transição’ e ‘reconstrução’
Aposição do ex-presidente Lula na disputa
presidencial já foi bem mais confortável, mas o presidente Jair Bolsonaro vem
demonstrando capacidade de reação e isso mexe não só com os nervos, mas com as
estratégias do PT. O lado moderado aconselha Lula a usar três carimbos para
ampliar seu leque de apoio e escapar da bolha exclusivamente de esquerda.
O primeiro carimbo: ele seria o verdadeiro
“candidato de centro”. O segundo: será um “presidente de transição” e não
disputará um quarto mandato. O terceiro: sua missão é “reconstruir o País”.
É uma estratégia forte, mirando PSDB,
Cidadania, MDB, PSD e a própria Rede. Ou seja, para atrair e segurar votos de
centro e centro-esquerda que há em todas essas siglas e evitar uma debandada
para Bolsonaro no caso de falência da terceira via.
Desde já, vaticino: passa por ele a saída
para o nó górdio na gestão do dinheiro público, esta verdadeira crise fiscal
Um dos maiores especialistas do País em
contas públicas, Daniel Couri, escreveu sobre a necessária modernização do
processo orçamentário a partir de 2023. O artigo, em parceria com Paulo Bijos,
integra a coletânea Reconstrução: o Brasil nos anos 20 (Saraiva, 2022), que
organizo com Laura Karpuska e João Villaverde.
O processo orçamentário é uma grande
confusão. Na Assembleia Nacional Constituinte, o economista e deputado
constituinte José Serra comandou os trabalhos que culminaram no capítulo de
Finanças Públicas da Constituição. Serra reuniu um grupo de especialistas do
calibre de Maílson da Nóbrega, José Roberto Afonso e Andrea Calabi para
analisar as ideias que chegavam a toque de caixa. Ali, postulou-se a tese da
responsabilidade fiscal. A Constituição federal obrigaria à apresentação de uma
lei complementar para regular o uso do dinheiro público.
Aqui se faz, aqui se paga, assevera o
ditado popular. Mas nem sempre. Arthur
do Val disse absurdos sobre as mulheres ucranianas, suas declarações
vazaram e ele agora sofre as consequências. Teve de renunciar à pré-candidatura
ao governo paulista e muito provavelmente terá seu mandato de deputado estadual
cassado.
Quer você considere esse tipo de
cancelamento uma forma de justiça rápida, quer o veja como uma manifestação da
tirania da maioria, simplesmente não há como evitar que as pessoas reajam ao
que entendem ser uma grave violação moral. Em tempos de redes sociais, esse
sentimento pode converter-se instantaneamente numa onda de indignação que leva
tudo em seu caminho.
Câmara vota projeto que proíbe e
criminaliza uso da palavra Bíblia fora da religião
Em 1964, Stanislaw
Ponte Preta, heterônimo do jornalista Sérgio Porto, publica o livro
"Garoto Linha Dura", título que alude ao ambiente pesado do país,
sobretudo à perseguição política, censura e deduragem. "Escolhi para
título a história do garotinho que se deixou influenciar pelo mais recente
método de democratização posto em prática no Brasil", explica o autor.
Pedrinho, o tal garoto linha dura, para
fugir do castigo por ter quebrado uma vidraça jogando futebol na rua, entrega
um colega e diz ao pai: "Esse menino do vizinho é um subversivo
desgraçado. Não pergunta nada a ele não. Quando ele vier atender a porta, o
senhor vai logo tacando a mão nele".
As condições que permitem aborto no Brasil
não dão conta da nossa realidade
Neste mês em que celebramos conquistas das
mulheres, tivemos aqui no Brasil demonstrações ultrajantes do quanto regredimos
em respeito às nossas lutas e reivindicações. E aqui peço licença ao leitor
para me incluir no texto como sujeito do coletivo maior: mulheres que lutam
para ocupar espaços em sociedades ainda marcadamente patriarcais.
O tratamento degradante a nós dirigido vem
do mesmo caldo onde fermentam Bolsonaro e outras figuras repulsivas, como o
deputado paulista que escarneceu de refugiadas de guerra, na Ucrânia, e o
procurador-geral da República. Augusto Aras disse o que entende por liberdade
de escolha para as mulheres: nós podemos decidir a cor do esmalte e o sapato
que queremos usar.
Governo deve, acima de tudo, proteger os
mais vulneráveis
Com a guerra na Ucrânia,
fica em risco a oferta futura de petróleo e gás. Com isso, o preço
deles aumenta desde já. E isso impacta diretamente a economia brasileira,
que depende de petróleo. Ou seja, o país fica mais pobre.
Esse custo é inevitável. A única questão é
quem pagará por ele. O Estado pode —e às vezes deve— redistribuir os custos,
mas eles não deixam de existir. Todas as medidas em discussão (inclusive não
fazer nada) têm seus ganhadores e seus perdedores. Não há uma solução em que
ninguém sofra com o aumento da gasolina no posto sem que alguém pague essa
conta.
E quem, acima de tudo, não deveria pagar a
conta? Os mais pobres. Toda resposta ao petróleo mais caro deve incluir
mecanismos para proteger os mais vulneráveis.
“Cidadão de bem” é consenso entre esquerda
e direita
“Eu
não escolho lados, eu escolho oportunidades”. A frase é atribuída ao gângster
Meyer Lansky (1902-1983), um imigrante russo, que se tornou um dos criminosos
mais perseguidos pela polícia americana (FBI) ao acumular uma fortuna de mais
de US$ 300 milhões, fruto de suas escolhas não convencionais. O ator Harvey
Keitel, que o interpretou no cinema, concorre ao Oscar 2022 pelo papel.
Vertendo-se a máxima do personagem à
realidade política brasileira, vale indagar: na eleição de outubro, o eleitor
vai escolher um lado, ou uma oportunidade? Definirá o voto impulsionado por uma
determinada ideologia, ou embalado pela perspectiva de melhora de vida?
O Instituto Locomotiva foi a campo
investigar se o eleitor brasileiro tem lado na política, ou o que pesa em sua
decisão dentro da cabine eleitoral são os dramas cotidianos, como o preço dos
alimentos, do gás de cozinha, e, claro, da gasolina ou do diesel. O eleitor
brasileiro é um radical ou um pragmático?
Guerra é ponto de inflexão de um modelo de
governo do Estado Social para um padrão que prioriza as despesas militares
Dois anos depois de uma pandemia que
continua a matar em algumas regiões do globo, a guerra na Ucrânia veio afundar
as expectativas de crescimento econômico e de prosperidade mundial neste
fatídico 2022, mas isso está longe de ser tudo.
Independente de quem seja o vencedor do
conflito detonado por Putin, a guerra já tomou proporções suficientes para ser
o ponto de inflexão de um modelo de governo fundado no Social State (Estado
Social) para um padrão que priorize as despesas militares nos orçamentos públicos.
Pior ainda, o novo paradigma comprometeria os projetos destinados a substituir
as fontes poluentes pela produção de energia limpa, especialmente na Europa.
A iniciativa do governo alemão de dobrar os
gastos com defesa este ano e de destinar mais de 2% do seu PIB àquela rubrica
(hoje equivale a 1,53% do PIB) até 2024 é emblemática. Também a cúpula da União
Europeia (UE) já anunciou que vai ampliar o orçamento destinado à defesa do
bloco.
Agenda ambiental não é preocupação dos
eleitores das capitais na Amazônia nem prioridade das Assembleias Legislativas
Embora a floresta amazônica seja o lado do
Brasil que mais está sob os holofotes globais nos últimos anos, as Assembleias
Legislativas dos nove Estados da Amazônia Legal não priorizam a proteção do
território, as estratégias de desenvolvimento sustentável e a agenda ambiental
em suas propostas de leis. Os grandes partidos políticos patinam na maioria dos
Estados e municípios enquanto a região assiste a uma grande ampliação da
direita e do apoio a grêmios políticos nanicos. A questão ambiental não está no
horizonte das preocupações dos eleitores das capitais. Eles não demonstram ter
identidade amazônica.
“É uma região que tem que ser politicamente
entendida. Que morfologia social é esta que torna inóspito o terreno para os
partidos tradicionais e a esquerda?” questiona o cientista político Fabiano
Guilherme Mendes Santos, hoje um dos pesquisadores que mais mergulham no
entendimento do espectro político da maior floresta tropical do mundo,
território que é metade do Brasil.
A
fragilidade da economia brasileira diante da globalização é tamanha que
qualquer conflito fora de suas fronteiras - não importa a distância: no planeta
- afeta diretamente o sistema produtivo interno. Os efeitos negativos chegam
rápido ao consumidor. Pois, não é que a guerra entre a Rússia e a Ucrânia
vai impactar por aqui a inflação, o consumo de alimentos, inclusive a cesta
básica, a política ambiental e tende a tirar a tranquilidade até dos índios.
Na
agenda do Congresso dois projetos de lei prometem ajudar a agitar o cenário: o
PL 6299/2022, chamado 'Pacote do Veneno", que amplia a legitimidade
do uso de agrotóxicos na agricultura; e o PL 191/2020, flexibilizador
das regras para as empresas mineradoras para explorar minério em
terras indígenas. Cerca de 240 áreas estão na mira do
PL.
Como
se sabe, com toda riqueza mineral revelada no País há mais de 40 anos, por um
projeto que se chamou "Radam" (radametria), as reservas
minerais brasileiras passaram a ser referência entre as maiores do mundo.
Mas, em se tratando de compostos minerais para a produção de
fertilizantes NPK (nitrogênio, potássio, e fósforo), que dá o impulso
à produtividade agrícola e à nossa produção, as reservas brasileiras
conhecidas tem possibilidade de suprir apenas até 40 % das demandas atuais
da agricultura.
Até há não muito tempo, o Brasil não fazia
ideia do que se passava em suas salas de aulas. Sem medir, não havia
diagnóstico possível. Uma das conquistas do país nas últimas três décadas foi a
implementação de testes e índices para acompanhar a qualidade das escolas. Esse
trabalho crucial acaba de ganhar uma contribuição. Um novo estudo da Faculdade
de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (USP)
em Ribeirão Preto e do Insper criou um novo indicador, batizado Ideb-Enem, para
medir a qualidade da educação do ensino fundamental ao médio. De modo pioneiro,
os pesquisadores relacionaram esse índice aos indicadores sociais em nível
municipal. O resultado confirma o efeito positivo dos investimentos em educação
e demonstra mais uma vez por que se trata da área mais crítica para o futuro do
país.
Dizem
que a guerra estimula mudanças e inovações. No entanto é difícil antecipá-las,
num momento em que não se entende bem tudo o que se passa e, muito menos, o
rumo que as coisas tomarão num futuro próximo.
A
alternativa é começar pelo mais fácil, aquele conjunto de problemas que já nos
preocupavam antes da guerra. O preço do combustível é um deles. Já estava nas
alturas e subiria mais assim que fosse disparado o primeiro tiro na Ucrânia.
Perdeu-se
um tempo enorme para definir medidas que atenuassem o impacto do aumento. E
agora, que a guerra eclodiu, elas se tornam mais urgentes e ligeiramente menos
eficazes.
Antes
da guerra, o combustível fóssil não era questionado apenas pelo preço, mas
também por sua insustentabilidade ambiental. A crise abre uma porta para o
futuro de carros elétricos, boas ferrovias e hidrovias. Será que embarcamos
nessa ou seguimos na janela vendo o mundo mudar?
Outra
questão anterior à guerra era a dependência dos fertilizantes russos. Vale a
pena escorar-se na boa vontade de um Putin isolado ou desenvolver um projeto de
autossuficiência nesse campo?
O alistamento espontâneo de civis de diversas
nacionalidades ao lado dos ucranianos desmonta uma certeza do filósofo francês
(de direita) Luc Ferry: que nenhuma causa contemporânea mereceria a imolação da
vida.
Estariam
longe e abandonadas as paixões políticas, as empolgações estéticas (Maiakóvski
saía no braço com seus interlocutores) e as identidades nacionais. Furores e
arrebatamentos responsáveis por toneladas de mortes, principalmente no século
passado.
Em
sua conta não entram os fundamentalistas islâmicos, os tais homens-bomba — no
caso, não seria sequer uma causa, mas um vácuo civilizacional.
O
engajamento da população civil ucraniana, de outro lado, escande a
identificação com um revelador instinto de nacionalidade, certamente para a
desagradável surpresa de Putin, e em oposição ao conceito niilista e desossado
de Luc Ferry, ex-ministro da Educação da França.
Diante
de Putin, parte da esquerda retomou o coro com a extrema direita. Bozo e o PCO
se encontram do mesmo lado da trincheira — ele, porque jura ser seguidor da
crença de Silas Malafaia; o grupelho, por lutar contra a vida alheia.
Após
49 anos da queda de Savaldor Allende, então presidente do Chile, por um golpe
militar (11.09.1973) que derrubou o regime constituído democraticamente pelo
povo, surge novamente a oportunidade para a recondução da história, renovada
pela forma persistente e disciplinada dos movimentos sociais organizados pelo
povo chileno.
A
esperança surge na figura do novo presidente, Gabriel Boric, um jovem de 36
anos à semelhança do Allende, um representante da esquerda chilena.
Conforme
anunciado no seu discurso de posse, o zelo pela construção do Estado Social
como um ente coletivo, retumba o primeiro discurso de campanha. “Diante do povo
e dos povos do Chile, prometo dar o melhor de nós pelo bem do país”,
reafirmando compromisso com a luta contra as ações que provocam as alterações
climáticas, e o empoderamento da mulher.“Estou muito feliz de ter diante de mim
um gabinete com mais mulheres que homens”.
As
prioridades do programa de governo apontam para a recuperação da economia, para
a reestruturação das pensões e aposentadorias, tornando-as dignas, para o
reconhecimento dos povos originários, para o não endividamento dos estudantes
com a educação, para a continuidade das buscas pelos desaparecidos durante a
ditadura.
No
governo atual do Chile, as mulheres assumem 14 ministérios, entre eles o
Ministério do Interior e Segurança Pública, o Ministério da Defesa Nacional, o
Ministério da Mulher e Equidade de Gênero, o Ministério da Saúde e Ministério
das Relações Exteriores.
Populismo
e identitarismo declinam, universalismo liberal se fortalece
A guerra
na Ucrânia aponta para o fim de uma era. Fukuyama afirmou que ela
representa "o fim do fim da história", o ocaso de um certo consenso
liberal global que organizou o mundo ocidental do pós-Guerra. Mas aqui quero me
restringir a algumas de suas implicações políticas no plano interno das
democracias.
Começo por seu impacto sobre a onda populista.
O
traço distintivo do populismo, em suas variantes à esquerda e à direita, é o
apelo ao povo (virtuoso) —em oposição às elites (corrompidas)— e na
representação política direta sem mediações ou controles institucionais. O
nativismo é corolário: povo e nação se complementam.
Os
capítulos são textos de diferentes tipos: por exemplo, há boas reconstruções
históricas, como as de João Villaverde e Rodrigo Brandão sobre o
presidencialismo brasileiro; ou a de Irapuã Santana sobre as políticas públicas
que preservaram a desigualdade racial herdada da escravidão. Há dois excelentes
textos sobre o estado de nossa esfera pública: um de Laura Karpuska e Vandson
Lima sobre accountability nas redes sociais e na imprensa e outro de Tai Nalon,
chefe da agência de checagem Aos Fatos, sobre o
problema das fake news.
Segundo o Censo
de 2010, dos 190.755.799 habitantes no território brasileiro, 42.275.440
pessoas eram evangélicas - o que equivalia a 22,2% do total. Já se passaram 12
anos, e muita coisa mudou no Brasil desde o último levantamento demográfico
realizado pelo IBGE.
Os institutos de
pesquisas que estão indo a campo para tentar estimar as preferências do eleitor
para o pleito de outubro têm encontrado um contingente de 24% a 26% dos
entrevistados que se dizem evangélicos. Muitos especialistas acreditam que o
índice real seja de quase um terço da população.
Baixar
rapidamente a inflação causaria um alto custo à economia
Com
o choque nos preços de petróleo, dos alimentos e dos metais causado pela
invasão da Ucrânia pela Rússia, o mercado está reestimando as suas projeções de
inflação para percentuais ainda mais altos. Muitos estão questionando: o Comitê
de Política Monetária (Copom) do Banco Central deveria jogar a toalha e
desistir de cumprir a meta de inflação de 2023?
A
julgar pelo histórico da diretoria do BC, comandada por Roberto Campos Neto,
isso é pouco provável. O Copom deverá manter o foco em trazer a inflação, que
chegou a 10,54% no período de 12 meses até fevereiro, ao objetivo de 3,25%
definido para o ano que vem. Mas é possível que passe a agir de forma mais
gradual, sem as altas agressivas que imprimiu na taxa Selic até fevereiro.
O
principal argumento dos defensores de uma convergência mais lenta da inflação
para a meta é que o sacrifício, em termos de perda de atividade econômica e de
alta do desemprego, seria muito alto. Mais recentemente, surgiu um novo
argumento, ligado à estabilidade financeira. A economia teria se moldado ao
ambiente de juros mais baixos, de um dígito, e uma alta muito forte da Selic
poderia desestabilizar empresas e o setor financeiro.
Na
invasão da Ucrânia, a Rússia retomou os seus protocolos militares empregados
nas guerras da Chechênia e da Geórgia
As
imagens de bombardeios russos a populações civis na Ucrânia são aterradoras.
Impossível não sentir desgosto e indignação moral. Se houve algum progresso na
Europa, após a Segunda Guerra Mundial, ele se deveu a um dizer não a soluções
militares, privilegiando conversações diplomáticas, mesmo no período mais agudo
da guerra fria. Formou-se um consenso em torno do Estado de Bem-estar Social,
voltado para o atendimento das necessidade individuais e coletivas. Logo, o
continente europeu – e não outras partes do mundo – foi preservado de conflitos
propriamente militares, podendo os membros dos vários Estados se dedicarem a
seus afazeres privados.
A
Europa do século 19, durante décadas, conseguiu privilegiar soluções
diplomáticas, graças a diplomatas da mais alta estirpe como Metternich,
Castlereagh e Talleyrand, conhecedores da história e da arte da negociação.
Após a destruição deste mundo, no final do século 19 e, depois, nas duas
guerras da primeira metade do século 20, parecia que um mundo novo viera para
ficar, com um não rotundo sendo dito às atrocidades da Segunda Guerra Mundial.
Congresso
elegeu neste sábado novo Diretório e nova Executiva nacionais
O
Cidadania elegeu neste sábado (12) o novo Diretório e a nova Executiva
nacionais. Foi o XX Congresso Nacional do partido, sendo o primeiro realizado
como Cidadania (10 foram como Partido Comunista Brasileiro e 9 como Partido
Popular Socialista, antecessores da nova formação política). Numa decisão
unânime, o atual presidente Roberto Freire foi reconduzido. Dizendo-se
contrariado pela possibilidade de reeleição, o senador Alessandro Vieira (SE)
não chegou a votar e anunciou sua desfiliação do partido.
Os
deputados Daniel Coelho e Rubens Bueno (PR), além da senadora Eliziane Gama
(MA) e Comte Bittencourt, que dirige o Cidadania no Rio de Janeiro, serão
vice-presidentes. Assume o cargo de secretário-geral do partido o presidente do
Cidadania alagoano, Régis Cavalcante. Os novos colegiados respeitam o
percentual de 30% de mulheres em órgãos de direção, como prevê o Estatuto, e
também tem representantes dos setoriais de Diversidade e Igualdade.
“Aquilo
que surgiu em 1922 [ano de fundação do PCB] tem uma linha mestra. Uma linha de
pensamento e intervenção na política, voltada para uma sociedade mais justa,
com valores de fraternidade, concepção humanista e visão internacionalista.
Para ter continuidade, processo de modernização é necessário e se impôs. E
tivemos coragem de fazer. Nós agora precisamos chegar ao século XXI. Esse ano é
fundamental pra definimos se queremos ser contemporâneos do futuro”, defendeu
Freire.
Responsável
por uma proposta inicial de novo programa para o partido, que será aperfeiçoada
em discussões ao longo do ano, Caetano Araújo, da Fundação Astrojildo Pereira
(FAP), disse que a busca do partido é por reapresentar, no Brasil, um movimento
que já ocorre em outros lugares do mundo, como a Europa, de convergência entre
sociais-democratas, verdes e liberais progressistas. Uma agenda que alie
inclusão social, sustentabilidade e responsabilidade fiscal.
“O
Cidadania é necessário para levar esse conjunto de posicionamentos à frente de
forma mais consequente do que os partidos maiores. Isso situa o Cidadania num
campo que tradicionalmente chamamos de esquerda, mas uma esquerda renovada. A
pauta tradicional das esquerdas era equidade e inclusão social. A pauta
ampliada é equidade, inclusão social, sustentabilidade, responsabilidade
fiscal, cosmopolitismo e democracia. Uma esquerda democrática moderna, atual”,
sustentou.
Freire
lembrou ainda a importância histórica do partido, desde os tempos do PCB.
“Esse
partido não tem tendências ou bancadas e interesses por mais que sejam
legítimos. O que construímos aqui é o órgão máximo da permanência do partido,
entendendo as particularidades, os problemas dos estados e municípios. Mas um
órgão nacional, com pensamento nacional. Nunca tivemos grande expressão
numérica, mas sempre fomos um partido respeitado. Podem contar a história do
povo brasileiro, mas se não falarem de nós, não estarão contando a verdadeira
história do povo brasileiro, como disse Ferreira Gullar”, avaliou.
‘SUS da Educação’
traz nova esperança para resgatar ensino
O Globo
Pode ter efeito
revigorante o projeto aprovado por unanimidade no Senado que institui o Sistema
Nacional de Educação (SNE), apelidado “SUS da Educação”. A proposta, que ainda seguirá
para a Câmara, regulamenta a colaboração entre União, estados e municípios na
gestão do ensino. A exemplo da Saúde, o SNE terá uma comissão tripartite, com
representantes das três esferas do Executivo, que decidirá sobre avaliações,
parâmetros de qualidade, compras, material didático, carreira dos professores
etc.
À União, caberá
coordenar, oferecer apoio técnico e financeiro a estados e municípios, além de
gerir o sistema nacional de avaliações. A ideia é, sem desrespeitar a autonomia
dos demais entes, permitir que as principais políticas educacionais do país
possam ser discutidas em conjunto pelas três esferas da administração, como
ocorre no SUS.
A pandemia de
Covid-19 expôs bons e maus exemplos de ação coordenada. Não há dúvida de que o
SUS, com todas as suas limitações, inclusive orçamentárias, respondeu de modo
competente ao desafio imposto pela mais letal pandemia dos últimos cem anos. O
maior obstáculo não foi a centralização, mas a gestão errática do Ministério da
Saúde, que abriu mão de seu papel de coordenação da crise sanitária, em muitos
momentos chegando a boicotar o trabalho de governadores e prefeitos. Na
vacinação, a partir do momento em que houve imunizantes disponíveis, o esquema
funcionou. O governo federal comprou as vacinas, os estados distribuíram os
lotes aos municípios, e as prefeituras aplicaram as doses.