quarta-feira, 6 de abril de 2022

Vera Rosa: O ‘salto 15’ que assustou Geraldo Alckmin

O Estado de S. Paulo

Lula diz que, se eleito, não fará um governo ‘requentado’; Dirceu atua nos bastidores e briga no PT corre solta

Era fim de abril de 2006 quando Geraldo Alckmin, então candidato à Presidência, entrou em um voo de Brasília para São Paulo. Bastou sentar na poltrona para ouvir que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu adversário naquela campanha, ironizava as brigas no ninho tucano e dizia que o PT era um partido “tranquilo”, se comparado ao PSDB e ao MDB.

“Você sabe qual é o salto mais alto de sapato?”, perguntou Alckmin à repórter que estava no avião. “Acho que é o 15, governador”, informou a entrevistadora, sem muita convicção. Geraldo, como é chamado pelos correligionários, abriu um sorriso. Pensou um pouco e respondeu, pausadamente. “O presidente está usando salto número 15, mas eu vou para a campanha com as sandálias da humildade. E vou virar o jogo”, retrucou. A repórter, no caso, era eu.

Fernando Exman: Lançado o debate do semipresidencialismo

Valor Econômico

Discussão sobre governança deve deixar de ser tabu

Tem começo, meio e fim o plano que visa a implementação do semipresidencialis- mo no Brasil.

Esse debate, é verdade, deveria ter ganhado tração bem antes de iniciado o processo eleitoral. E a trilha iniciada pela Câmara dos Deputados não precisa necessariamente ser seguida à risca. Seria positivo, contudo, que as várias forças políticas reconhecessem que o atual sistema dá claros sinais de esgotamento. A discussão de melhorias na governança não pode ser tabu em um país que pretende evoluir e tornar-se um habitat mais estável para as próximas gerações.

Embora tenha ganhado impulso na Câmara, a proposta de emenda constitucional ainda precisa de mais apoio no Senado. E outros obstáculos já começam a aparecer devido ao acirramento da campanha eleitoral, ainda que seus idealizadores até agora não pareçam dispostos a ver o novo regime em funcionamento antes de 2030. É um prazo razoável.

Neste momento, o principal desafio de seus defensores é rebater as acusações de que a proposta é casuística e voltada a reduzir os poderes dos próximos presidentes. Para esses críticos, depois do aumento dos volumes das emendas de relator ao Orçamento, a PEC seria agora mais um avanço do Congresso sobre o que deveriam ser prerrogativas exclusivas do chefe do Poder Executivo.

Daniel Rittner: Perigo à vista nas rodovias brasileiras

Valor Econômico

Esgotamento gradual de ativos viáveis traz desafio a concessões

A iniciativa privada atualmente opera menos de 24 mil quilômetros de estradas, o que corresponde a apenas 7% da malha rodoviária no país, mas já surge no radar o possível esgotamento de ativos economicamente viáveis para fazer concessões “puras”.

O debate do governo com as empresas poderá entrar, nos próximos anos, em uma nova seara: tentativas de viabilizar concessões que não param em pé sozinhas e precisam de algum empurrão para atrair investidores. A campanha presidencial deste ano é uma oportunidade de levantar a discussão, que precisa ocorrer.

Em condições normais de temperatura e pressão, ativos sem viabilidade econômica ficam com o Estado, que se encarrega da manutenção e ampliação - duplicar pistas, por exemplo. O orçamento do Ministério da Infraestrutura, entretanto, é o mais baixo em pelo menos duas décadas. A dotação para 2022 está em apenas R$ 8,6 bilhões. Há dez anos, no auge do longínquo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), alcançou R$ 42 bilhões - em valores já atualizados pela inflação.

Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) avalia experiências nacionais e internacionais na aplicação de subsídios cruzados em concessões de infraestrutura em transportes, evitando o comprometimento de recursos orçamentários.

Ricardo José de Azevedo Marinho*: Para onde podemos ir?

Na disputa pela escolha da maior barbárie cometida pelo atual governo brasileiro, não nos faltam opções. Claro, entre elas incluem o cancelamento das conquistas ambientais, a decisão de não investigar nenhum alto funcionário importante desse mandato durante os 4 anos e quiçá por décadas, nomear um elenco de grandes incompetentes para as pastas, desistir de fazer a reforma tributária e fiscal, entre tantos outros. Mas prefiro olhar este último assunto, especialmente à luz das primeiras ações do novo governo de Gabriel Boric no Chile.

É sabido que uma das decisões mais difíceis de um novo governo de dias é anunciar que aumentará impostos. Se deixarmos de lado os clássicos eufemismos do liberalismo econômico, não há reforma fiscal e tributária que não aumente a carga tributária de alguém: os ricos, os consumidores, a economia formal, as grandes empresas. Por isso, a maioria dos governos que buscam realizar reformas sociais profundas tenta obter financiamento para elas desde o início de sua gestão, sabendo que a janela para uma reforma desse naipe é pequena e efêmera.

Collor foi repreendido — e com toda a razão — por ter feito um sequestro bancário no primeiro dia de seu mandato (que acabaria incompleto) sem nenhuma negociação e que sequer apresentou um projeto de reforma fiscal e tributária.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Vitória de Orbán na Hungria amplia recuo democrático

O Globo

Não há melhor exemplo de como é possível corroer a democracia mantendo aparências democráticas do que a Hungria. Depois de aparelhar o Judiciário, manietar a imprensa, expulsar o pensamento acadêmico independente, reescrever a história da colaboração de seu país com o nazismo, fechar as portas à imigração, adotar políticas contra a comunidade LGBT+ e usar o Estado em benefício de seu próprio partido, o primeiro-ministro Viktor Orbán foi reeleito no último fim de semana para o quarto mandato sem que ninguém possa contestar a legitimidade do resultado.

O recuo da democracia na Hungria é consenso nas principais avaliações independentes. Para a Freedom House, é o único país da União Europeia “parcialmente livre”. Para o Instituto V-Dem, é uma “autocracia eleitoral”, classificado como segundo maior recuo democrático no mundo entre 2010 e 2020, atrás apenas da vizinha Polônia. Orbán é o responsável: levou ao estado da arte a capacidade de ocupar as instituições de modo a assegurar a permanência no poder dele e de suas ideias conservadoras. Por isso se tornou um modelo para os candidatos a autocratas de extrema direita no mundo todo, do americano Donald Trump ao brasileiro Jair Bolsonaro (que o chamou de “nosso pequeno grande irmão”).

Nas urnas, nem a união de toda a oposição foi capaz de bater Orbán. Graças às inúmeras distorções que introduziu no sistema eleitoral, conquistou, com 53% dos votos, 135 das 199 cadeiras no Parlamento. A ausência de fraude aparente lhe rendeu um atestado de bom comportamento da missão de observadores da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), ainda que as regras torcidas a seu favor tenham sido criticadas. A maioria superior a dois terços lhe assegura a oportunidade de continuar alterando a Constituição a seu bel-prazer.

O exemplo da Hungria é, ao mesmo tempo, iluminador e aterrador. Orbán começou a “roubar” a eleição do domingo há 12 anos, quando chegou ao poder e deu início à ocupação do Estado mudando a lei do serviço público, sob o pretexto de “limpá-lo” da esquerda. Em pouco tempo, fiéis correligionários do Fidesz, seu partido, estavam por toda parte, especialmente no Judiciário. A imprensa estatal passou a ser usada para enaltecer o governo e criticar a oposição. Os veículos independentes foram caindo um a um nas mãos de oligarcas ligados a Orbán.

Repetidas modificações nas leis eleitorais beneficiaram o Fidesz. Todo o Estado é hoje usado em benefício do partido. Um exemplo surreal aconteceu em janeiro: quem informou o endereço eletrônico na vacinação contra Covid-19 começou a receber mensagens com fake news contra a oposição. Na Hungria de Orbán, parece não haver limites para o arbítrio.

Poesia | Manuel Bandeira: Evocação do Recife

 

Música | Coral Edgard Moraes e Getúlio Cavalcanti: Escuta Boêmio

 

terça-feira, 5 de abril de 2022

Merval Pereira: Sem consenso

O Globo

A reunião dos presidentes de partidos do agora chamado Centro Democrático, antiga terceira via, em vez de encaminhar uma solução consensual sobre uma desejada chapa única de União Brasil, PSDB, Cidadania e MDB, deverá registrar mais dissensos que entendimentos. A semana começa com os partidos empenhados em achar uma solução, todos afirmam que não há divisão e que os entendimentos estão acontecendo.

Aparentemente, no entanto, não dá para ser muito otimista com essa união. O ex-governador paulista João Doria, que está num partido muito dividido, com um candidato extraoficial, Eduardo Leite, correndo por fora, lançou o primeiro vídeo de campanha ressaltando todas as suas vantagens como gestor. Mostrou que não está aguardando o desfecho da situação de Leite; age como se nada houvesse.

Ao mesmo tempo, o governador Rodrigo Garcia, seu sucessor, lançou outro vídeo se apresentando ao eleitorado e não menciona o nome de Doria uma vez sequer. No União Brasil, ACM Neto desistiu de impugnar a candidatura de Moro, sinal de que fez um movimento mais rápido e incisivo do que devia e teve de recuar. Mostra que não existem condições para vetar o candidato de Bivar, que quer ver Moro nas pesquisas. Se ele mantiver a dianteira e continuar a ser o mais votado dentre os candidatos do Centro Democrático, ficará mais difícil o grupo do DEM dentro do partido vetar a candidatura.

Simone Tebet e Leite tentam acordo para nova chapa

Baixa rejeição e apelo no eleitorado feminino pesam a seu favor, mas lideranças emedebistas ensaiam movimentos na direção do ex-presidente Lula e do presidente Jair Bolsonaro

Gustavo Schmitt, Bianca Gomes e Bernardo Mello / O Globo

SÃO PAULO e RIO — Em meio a brigas internas do PSDB e à saída de Sergio Moro (União Brasil) da corrida presidencial, a senadora Simone Tebet (MDB-MS) se movimenta na tentativa de ocupar esse vácuo e aglutinar a chamada terceira via em torno de seu nome. Ontem, numa sinalização de apoio à emedebista, o ex-governador do Rio Grande do Sul Eduardo Leite (PSDB) indicou que poderia ser vice na chapa da senadora. Enquanto estrategistas de campanha sustentam que ela pode encabeçar uma chapa competitiva, por ter baixa rejeição e apelo junto ao eleitorado feminino, lideranças regionais do próprio MDB resistem a aderir a Tebet, e ensaiam movimentos na direção do ex-presidente Lula (PT) e do presidente Jair Bolsonaro (PL).

Aliados de Tebet têm reforçado, nos bastidores, que uma eventual chapa com Leite seria mais competitiva do que com o ex-governador de São Paulo João Doria (PSDB), que venceu as prévias tucanas, mas tem maior rejeição. As cúpulas de MDB e PSDB têm conversado com o União Brasil, sobre uma candidatura única à Presidência. Na última semana, Tebet havia defendido o resultado das prévias e chamado Doria de candidato “legítimo” do PSDB. Ao GLOBO, a senadora indicou uma mudança de tom:

—Cada partido tem autonomia para tomar as suas próprias decisões e avaliá-las ou reavaliá-las de acordo com os interesses dos envolvidos — disse a senadora.

Tebet diz estar à disposição para ser cabeça de chapa ou vice, a depender do entendimento dos partidos, e aliados da senadora avaliam que as prévias do PSDB escolheram um pré-candidato a presidente, mas não a vice. O raciocínio converge com o do entorno de Leite, para o qual a articulação do centro estaria acima das prévias. Este argumento, porém, é classificado como “golpe” pelo grupo de Doria. A senadora evita tomar lado no racha tucano, que se desdobrou, na prática, em duas pré-candidaturas da sigla. Tucanos como o senador Tasso Jereissati (CE) e o ex-senador José Aníbal já defenderam o nome de Tebet.

— Hoje só há dois candidatos do centro democrático (após saída de Moro): eu e o PSDB — disse a senadora.

Cristovam Buarque*: Que democracia é esta?

Correio Braziliense

Quando a história da democracia brasileira for escrita, o primeiro de abril será a data de suas duas mortes. Em 1964, com o golpe militar; e em 2022, com o encerramento da janela para mudança partidária aos que desejam ser candidatos em outubro. A primeira morte suspendeu o funcionamento democrático por 21 anos, um quarto de nossa história republicana; a segunda matou os partidos como instrumento de condução das causas públicas do país.

Até pouco tempo atrás, os presidentes de partido portavam bandeiras com utopias e reformas, agora escolhem entre carregar o cofre com dinheiro do fundo eleitoral, ou o caixão para enterrar sua sigla. Não se tem notícias de candidato mudando de partido em busca de bandeiras mais sintonizadas com seus princípios, nem de presidente atraindo filiados com oferta de melhores ideias e propostas para o futuro do Brasil, ou barrando imigrantes partidários por serem indesejáveis moral ou ideologicamente. As trocas de partidos foram causadas pela busca de mais recursos para financiar campanhas políticas.

Em nome de promover a democracia, o fundo eleitoral corrompeu a democracia. Desde seu início, foi uma proposta corruptora ao ludibriar a opinião pública, dizendo que bilhões de reais são necessários para fazer a democracia funcionar: corrupção nas prioridades, ao tirar dinheiro de gastos essenciais e usá-los para financiar propaganda e mesmo compra de votos.

Paulo Hartung*: O presidencialismo debilitado

O Estado de S. Paulo

Presidência terá 2023 de extrema dificuldade, com enfraquecida governabilidade e o difícil relacionamento com o Congresso.

No panorama dos gigantescos desafios nacionais, é preciso jogar luz numa questão fundamental para o País: as dificuldades impostas à Nação pelo presidencialismo à brasileira. Não se trata de mera questão de arranjo burocrático entre Poderes, mas de entraves à condução de políticas públicas, o que tem afetado a governabilidade e o uso republicano dos recursos oriundos dos impostos. Aqui também não se está defendendo semipresidencialismo e, muito menos ainda, o disparate de um superpresidencialismo, mas apenas o equilíbrio interinstitucional definido constitucionalmente.

O presidencialismo, que foi abraçado pelos cidadãos em dois plebiscitos, vem se enfraquecendo, tornando o Executivo refém de pressões e engessamentos no rol de funções que lhe são precípuas. A harmonia entre os Três Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) é o que permite o caminhar equilibrado numa República democrática. Mas o chão da política verde-amarela vem constituindo uma forma de governo presidencial disforme e sujeita às piores práticas, obstaculizando a razão de ser do Estado e da política, que são o bem-estar e a prosperidade de todos.

Cristina Serra: Bolsonaro, inimigo da democracia

Folha de S. Paulo

O novo desenho das bancadas na Câmara federal reflete o cenário da pré-campanha eleitoral. Bolsonaro e Lula são as grandes forças gravitacionais em disputa. As duas maiores bancadas pertencem aos partidos dos dois pré-candidatos, PL e PT respectivamente.

Mas há uma diferença importante. O PL, de Valdemar Costa Neto, quase dobrou de tamanho. A bancada petista manteve-se basicamente a mesma. O fortalecimento de Bolsonaro na Câmara é também a consolidação de poder do centrão, rebotalho alçado a força hegemônica na soma das várias legendas de aluguel que têm atravessado os governos do período democrático, com maior ou menor influência, ao sabor das circunstâncias.

Além do PL, o PP de Ciro Nogueira e Arthur Lira, e o Republicanos, de Marcos Pereira, de forte componente religioso, formam o amálgama que dá sustentação ao bolsonarismo. São legendas com DNA autoritário e fisiológico, subprodutos da Arena, partido de sustentação da ditadura.

Alvaro Costa e Silva: A linguagem do golpe

Folha de S. Paulo

Jogar fora das quatro linhas, como quer Bolsonaro, é não aceitar o resultado das urnas

Para compor sua linguagem estropiada, não há como Bolsonaro dispensar o uso de muletas. Qualquer assunto é uma "cuestão", as respostas sempre começam com "no tocante a isso daí", além do já personalizado arremate "talquei". Uma das expressões, por revelar a crueldade de quem a diz, foge à pobreza de repertório: "ponta da praia" era uma gíria de militares no tempo da ditadura para se referir a uma base na Restinga da Marambaia, no Rio de Janeiro, onde presos políticos foram executados.

Hélio Schwartsman: Atrocidades complicam a guerra

Folha de S. Paulo

Qualquer desfecho em que Putin conserve o poder se torna inaceitável.

Ainda falta o carimbo de algum órgão investigativo, mas não creio que haja dúvida de que atrocidades foram cometidas na Ucrânia e de que tropas russas são responsáveis por elas. Se invadir um país soberano, expondo a população local aos riscos das operações de guerra, já é moralmente injustificável, muito pior é tolerar que as tropas perpetrem massacres ou mesmo utilizá-los deliberadamente para instilar o pânico entre civis. Se a última hipótese se comprovar, Vladimir Putin terá assegurado seu lugar na história como um dos grandes criminosos de guerra do século 21.

Luiz Carlos Azedo: Trapalhada de Bolsonaro deixa Petrobras à deriva

Correio Braziliense

A lei estabelece regras de governança corporativa para impedir as ingerências políticas nas empresas estatais, entre as quais a indicação e ocupação dos cargos de administração

Uma das características do governo Bolsonaro é a geração de crises endógenas, ou seja, criadas pelo próprio presidente da República ou seus auxiliares, sem nenhuma interferência da oposição. Por capricho ou esperteza do chefe do Executivo, a confusão armada na troca de comando da Petrobras é mais uma delas. No fundo, ocorre porque Bolsonaro se considera um presidente que pode tudo no governo, quando não é assim que funciona o Estado democrático de direito. O presidente da República tem seu poder limitado pela Constituição e pelas leis.

A gestão da Petrobras foi blindada pela nova legislação das estatais aprovada no governo do presidente Michel Temer. A chamada Lei de Responsabilidade das Estatais (Lei nº 13.303/16) foi uma resposta do Congresso aos escândalos investigados pela Operação Lava-Jato na maior empresa estatal brasileira, para dar uma satisfação à opinião pública. A nova legislação regulamentou o dispositivo da Constituição (art. 171, §1º) que exige um estatuto jurídico próprio para as empresas estatais.

Míriam Leitão: Petrobras está acéfala e à deriva

O Globo

A Petrobras ontem era uma empresa à deriva, como resultado de intervenções do presidente da República e das articulações do centrão para dominar o comando da petrolífera. Depois de duas demissões atabalhoadas, o terceiro presidente indicado desistiu, por conflito de interesses. Tudo o que tem acontecido é um caso claro de abuso do poder do representante do acionista majoritário. Bolsonaro triturou todo o sistema de governança da companhia construído lentamente nos últimos anos. Também deve ir para algum livro de recordes o fato de a empresa ser punida, com as demissões dos gestores, mesmo apresentando lucros. Em três anos foram R$ 153,83 bilhões. Só no ano passado foram R$ 106,6 bilhões.

Eliane Cantanhêde: Da Petrobras ao MEC

O Estado de S. Paulo

Lula fatiou a Petrobras, Bolsonaro distribui nacos do MEC a aliados

A cada dia fica mais fácil, graças ao Estadão, entender o que vem acontecendo no Ministério da Educação há três anos e meio, desde a posse de Jair Bolsonaro na Presidência da República: ele, que acusa o adversário Lula de ter fatiado a Petrobras entre seus aliados, e com razão, fatiou o MEC entre os dele. Isso não sai de graça.

Está explicado por que Bolsonaro nomeou tantos incompetentes para ministro da Educação: Vélez Rodríguez não entendia nada de políticas públicas e mal falava português, Abraham Weintraub nem sabia o que acontecia no MEC, ocupado com sua guerra ideológica, Carlos Decotelli foi descartado pelo currículo tipo queijo suíço e, no fim, chegamos ao pastor Milton Ribeiro, que só abre a boca para falar besteira.

Tanto fazia se o ministro seria A ou B, o que importava era usar um dos três maiores orçamentos da República (mesmo depois do corte brutal definido pelo governo) para agradar à base política do presidente, ou melhor, do candidato à reeleição: os partidos do Centrão e os evangélicos, entre outros.

Pedro Fernando Nery*: O PIB tem denominador

O Estado de S. Paulo

Não é o PIB que mede o desenvolvimento humano de uma população, é o PIB per capta; a Islândia tem apenas o 148.º PIB do mundo, mas está no topo do PIB por pessoa e do IDH

Se tiver de saber uma única coisa sobre economia, saiba a diferença entre PIB e PIB per capita. O PIB mede a atividade econômica, depende do tamanho da população e de sua produtividade. 

Países populosos têm PIB alto, sem que isso queira dizer que seus cidadãos vivam bem. O que importa é o PIB dividido pela população, o PIB per capita. Ele que determina direta e indiretamente o desenvolvimento humano.

Países de PIB baixo podem ter alto PIB per capita: o PIB é pequeno, mas a população é mais ainda. E aí o PIB por pessoa é alto.

É por isso que você prefere morar na Islândia a na Índia ou na Indonésia. A Índia tem o 3.º PIB do mundo, a Indonésia, o 7.º, mas ainda consequência de terem muita gente (respectivamente, 2.ª e 4.ª maiores populações). O PIB por pessoa? 128.º e 101.º. IDH? 131.º e 107.º. Já a Islândia, apenas o 148.º PIB do mundo, está no topo do PIB por pessoa e do IDH. Pouca gente.

O governador Flávio Dino, do Maranhão, deixou o cargo semana passada. Quando se candidatou há 8 anos, traçou como meta informal subir o IDH do Estado em dez posições: dos piores do Brasil (26.º) para a 16.ª posição em 4 anos. Porque era essa a colocação no ranking de PIB. Se o Maranhão era o 16.º Estado “mais rico”, deveria ter a mesma posição no desenvolvimento humano. Haveria um fosso entre as duas classificações, que se explicaria pela má política e pela concentração de renda.

Mirtes Cordeiro*: Caso Heloísa Gabrielle: faltou proteção

Em 04.04.2022

Porto de Galinhas, no município de Ipojuca (PE), uma das praias mais bonitas do estado, procurada por turistas do mundo inteiro, famosa por suas piscinas de águas claras onde as pessoas chegam até lá conduzidas por jangadeiros em suas embarcações à vela, sob rígido monitoramento da gestão ambiental, foi o cenário da morte de Heloísa Gabrielle, cinco anos de idade, quando brincava com outras crianças no terraço da casa de sua avó.

O motivo da morte: baleada no peito por uma operação da Polícia Militar contra o tráfico de drogas na região. Uma vizinha, segundo a imprensa, afirmou “que a polícia perseguia um criminoso”.

Moradores, no entanto, afirmam que os policiais chegaram ao local atirando. A Polícia Civil abriu um inquérito e investiga o que aconteceu, mas sempre demora para que saibamos a verdade.

A criança era filha única.

O Batalhão de Operações Especiais (BOPE) socorreu a criança para uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), mas a fragilidade do corpo tão pequenino não suportou o impacto das balas.

Imediatamente houve reação da comunidade, como não poderia deixar de acontecer. Comercio fechado, carros incendiados, ruas interditadas, bem semelhante ao que acontece em outras regiões brasileiras quando a revolta pede licença diante dos descalabros inaceitáveis. Uns chamam de vandalismo, mas é difícil conviver com a permanente insegurança gerada pela violência causada pela guerra entre grupos criminosos e pela ausência das ações de proteção do Estado brasileiro, nos bairros periféricos.

Fernando Carvalho*: Crime na comissão de anistia

O objetivo desta é denunciar um crime cometido no âmbito da Comissão de Anistia por uma senhora de nome Iracema de Carvalho Araújo. Ela foi indevidamente contemplada pela Comissão de Anistia em novembro de 2013. Recebeu os cem mil reais previstos pela Lei da Anistia.

A história mentirosa de Iracema é a seguinte: A advogada Mércia Albuquerque Ferreira, "madrinha de batismo" de Iracema diz que ela, então com onze anos de idade, foi presa juntamente com a professora Lúcia Emília de Carvalho Araújo. Ambas foram encapuzadas e levadas para os porões da ditadura de 64 onde teriam sido "barbaramente torturadas". Mas o torturador, segundo a versão da advogada, só se deu conta que tinha torturado uma menina depois de retirar-lhe o capuz. Depois de torturada, Iracema foi colocada dentro de um saco de batatas, levada de carro e jogada na Praça do Derby, Centro de Recife, com o propósito de ser facilmente achada, como foi, e adotada pelo casal que a encontrou.

Já a pessoa que ela diz que era sua mãe, Lúcia Emília, minha prima já falecida, foi professora concursada durante o governo de Miguel Arraes em Pernambuco. Militante do PCB Partido Comunista Brasileiro, pertenceu ao Grupo dos Onze de Leonel Brizola, às Ligas Camponesas de Francisco Julião e ao MCP -Movimento de Cultura Popular de Paulo Freire. Era respeitada pela repressão. Lúcia Emília até fogo ateou em canaviais em Jaboatão, Pernambuco.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Só voto pode livrar Brasil do insidioso patrimonialismo

O Globo

À medida que os beneficiários do orçamento secreto vêm à tona — graças à determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) —, fica evidente a extensão da contaminação das instituições brasileiras pelo patrimonialismo mais insidioso e nocivo à saúde da República. A expressão “cupinização institucional”, cunhada pela ministra Cármen Lúcia, do STF, para se referir à gestão ambiental de Jair Bolsonaro, poderia ser estendida às demais esferas de um governo que pouco — se algo — guarda de republicano.

Para onde quer que se olhe, vê-se o favorecimento dos amigos do poder, seja o presidente, sejam seus filhos, seus ministros ou seus vassalos do Centrão. É como se o Brasil ainda vivesse num regime monárquico sujeito a nenhuma disciplina, transparência, fiscalização ou critério no trato do dinheiro dos nossos impostos.

Pode ser no Ministério da Saúde, onde no ano passado um bando de vigaristas chegou perto de faturar alto com a venda de vacinas que não podiam entregar, enquanto a porta continuava fechada à ciência e às farmacêuticas sérias. Pode ser no Ministério da Educação, onde pastores comandavam o envio de recursos a prefeituras, e a compra de ônibus escolares sofreu superfaturamento estimado em R$ 769 milhões. Pode ser no Ministério da Defesa, que distribuiu R$ 400 milhões, via orçamento secreto, segundo o alvitre de 11 senadores governistas.

De acordo com reportagem do GLOBO, a pasta gerida pelo general Braga Netto, pré-candidato a vice de Bolsonaro, despejou dinheiro em projetos tão paroquiais quanto um novo velório ou o asfalto de ruas em São Félix do Araguaia, no interior de Mato Grosso. Esses custaram apenas R$ 2,4 milhões. Mas são apenas um entre tantos exemplos de agrados aos amigos feitos por meio das emendas do relator. Ao todo, elas somaram R$ 38,1 bilhões nos Orçamentos de 2020 e 2021.

Poesia | Fernando Pessoa: Esta velha angústia

 

Música | Roberta Sá / Martinho da Vila: Me faz um dengo / Disritmia

segunda-feira, 4 de abril de 2022

Fernando Gabeira: Putin está nos matando

O Globo

Em 2018, fui à Rússia com a equipe da editoria de Esportes do GLOBO. Adoro futebol, mas para conversar. Minha tarefa era escrever sobre a atmosfera. Levei uma dezena de livros.

O mais importante deles para mim foi o belo trabalho de Orlando Figes sobre a história da cultura russa. Existe em inglês sob o título “Natasha’s dance”. Uma boa parte dos livros era sobre política, sobretudo oposição a Putin. Um deles me levou à releitura, nestes tempos de invasão da Ucrânia. Chama-se “A invenção da Rússia — A ascensão de Putin e a época das fake news”. Seu autor, Arkady Ostrovsky, ganhou o Prêmio Orwell pelo trabalho.

Interessante como quase tudo estava lá. A Crimeia já havia sido anexada, e Putin não estava disposto a parar por aí.

Ostrovsky o apresenta como um produto da mídia russa, inventado pela KGB, que o transformou numa espécie de James Bond do lado de lá, depois de sua passagem como espião na Alemanha.

Espiões russos eram muito queridos no país, sobretudo depois de uma série chamada “Dezessete momentos de primavera”. O herói, Maxim Isaev, infiltrou-se no alto-comando nazista com o nome de Max Otto Von Stierlitz. Sua imagem é cultuada como a de um grande herói.

Putin encarnou o personagem, posando sem camisa, lutando judô, e mergulhava em busca de tesouros. Na época, era o homem certo para salvar a Rússia dos radicais islâmicos da Chechênia.

Demétrio Magnoli: Na Ucrânia, o tempo da guerra

O Globo

Dias atrás, quando emergiu um esboço de acordo entre os negociadores russos e ucranianos, os mercados concluíram que a guerra logo terminaria. Na sequência, veio o proverbial banho de água fria: o Kremlin renovou seus ultimatos inaceitáveis, e as forças russas prosseguiram os bombardeios em Kiev, enquanto reagrupavam tropas para uma nova ofensiva no leste.

Guerras terminam nos cenários de triunfo decisivo de um dos lados ou de um impasse custoso o suficiente para produzir concessões substanciais dos contendores. Na Ucrânia, fracassou o plano russo de rápida conquista e derrubada do governo de Zelensky. A eficiente resistência militar ucraniana, sustentada pelo fluxo de material bélico ocidental, impôs reveses surpreendentes aos invasores. Contudo o desastre inicial não provocou o indispensável recuo diplomático de Putin. Moscou desistiu de instalar um regime fantoche na Ucrânia, mas insiste na partição territorial do vizinho.

Putin repete ultimatos, pois sabe que um acordo minimalista equivale a uma derrota — e conhece o destino dos líderes russos batidos em guerras. Nicolau II, o último czar, caiu após as humilhações na Guerra Russo-Japonesa e na Primeira Guerra Mundial. Mikhail Gorbachev renunciou, e a URSS implodiu, sob o golpe da retirada do Afeganistão em 1989. Só a perspectiva de uma catástrofe militar iminente seria capaz de alterar os cálculos do chefe do Kremlin, conduzindo-o a uma negociação séria.

Marcello Serpa: Um neto global num mundo nem tanto


O Globo

Em dezembro, quando me tornei avô, escrevi aqui sobre a curiosidade de um avô otimista tentando enxergar o futuro em que meu primeiro neto viveria. No início de março, meu segundo neto nasceu, e comecei a me profissionalizar nesse negócio de ser avô.

A curiosidade continua a mesma, mas confesso que o otimismo está fraquejando: enquanto meu neto nascia em Londres, a Rússia invadia a Ucrânia. Depois da maior pandemia em mais de um século matar milhões e transformar a vida de bilhões, assistimos ao vivo em nossos celulares à barbárie se espalhar por uma Europa beirando a Terceira Guerra Mundial. Se a pandemia foi um golpe mortal na ideia de um mundo de fronteiras abertas, então a guerra na Ucrânia é o prego que faltava para fechar o caixão da globalização.

Quando o mundo a nossa volta parece sombrio, é bom lembrar que todo nascimento é sinônimo de esperança; e, quando uma criança nasce, um mundo de possibilidades se abre. Mesmo sentindo o mundo encolher em si mesmo, se fechar para o diferente e para a diversidade de cor, gênero, pensamento e crença, ao olhar meu neto, consigo enxergar nele um dos frutos maravilhosos do mundo globalizado: nasceu em Londres, filho de mãe brasileira com pai chileno, ambos com nacionalidade alemã. Imagino ele como um daqueles agentes secretos abrindo a gaveta e escolhendo passaporte como quem escolhe uma gravata ou, como orgulho de avô não tem limites, trabalhando na ONU impedindo que as costuras do mundo se rasguem. Com ele no colo, fico viajando, tentando adivinhar como esse bebê multinacional viverá, torcerá, amará, quais seus ídolos, paixões e amores.

Marcus André Melo*: Ditadores marqueteiros

Folha de S. Paulo

A autocracia informacional de Putin na encruzilhada

Daniel Treisman caracterizou a Rússia como uma Autocracia Informacional em The new autocracy: information, and policy in Putin’s Russia (2018). O controle da informação e a manipulação da opinião pública através de fake news cumprem naquele país o papel da repressão brutal em autocracias tradicionais. Na Rússia, é "melhor mentir que matar", afirma, em seu novo livro Spin Dictators, "ditadores marqueteiros", em tradução livre, coautorado com Sergei Guriev.

Para Treisman, a invasão da Ucrânia é parte integral da forte reação ao colapso do processo vertiginoso de modernização a que o país assistiu, entre 1999 e 2010, e que coincidiu com o boom de commodities.

Entre 1999 e 2011, o PIB per capita quase dobrou: foi de U$13 mil para U$24 mil. A taxa de crescimento anual do valor real de salários e aposentadorias cresceu a extraordinários 11%. Tudo isso após dois governos de Putin, que se torna muito popular.

Celso Rocha de Barros: Quem sobrará de pé na terceira via?

Folha de S. Paulo

No fim, a quinta (31) entregou menos novidades do que pareceu que entregaria

Na quinta-feira (31), o processo de consolidação das candidaturas da terceira via avançou. Em um dado momento do dia, pareceu que avançaria mais.

Sergio Moro desistiu de sua candidatura "por enquanto". Escrevi sobre a possibilidade de Moro desistir no dia 12 de fevereiro, e continuo achando a mesma coisa: Moro é prejudicado pela adesão maciça de seus aliados potenciais ao governo Bolsonaro, o mesmo que desmontou a Lava Jato.

Como outros candidatos da terceira via, Moro é um forte candidato para a eleição passada. Depois do desastre de Bolsonaro, a "velha política" deve voltar a ser importante esse ano. A corrupção deve ser substituída pela economia como pauta principal da eleição. Nada disso joga a favor de Moro.

Moro tinha cerca de 10% das intenções de voto. Uma parte desses votos deve ir para Bolsonaro, mas imagino que a maioria vá para o candidato que Moro apoiar. Essas transferências podem mudar o placar do primeiro turno, mas é difícil que alterem as posições no pódio.

Ana Cristina Rosa: 150 anos de resistência

Folha de S. Paulo

Sociedade Beneficente e Cultural Floresta Aurora, do RS, é o clube negro mais antigo do Brasil

No ano do bicentenário da Independência do Brasil, o clube negro mais antigo do país —a Sociedade Beneficente e Cultural Floresta Aurora— completa 150 anos. Fundado por um grupo de alforriados, além da longevidade há muito o que comemorar. Chama a atenção sobretudo o fato de a iniciativa ser originária do Rio Grande do Sul, onde a questão racial e a participação do negro na formação do povo gaúcho são, no mínimo, negligenciadas.

Pode-se dizer que o estado se orgulha das raízes e das tradições europeias na mesma proporção em que oculta a participação africana em sua composição. Há na historiografia um discurso de negação da presença negra no povoamento rio-grandense.​

E, quando os negros aparecem, a condição de escravizados é atenuada pelo mito da democracia gaúcha, como observou o ex-presidente Fernando Henrique em estudo da década de 1960 sobre "Capitalismo e escravidão no Brasil meridional".

Antonio Lavareda, Vinícius Silva Alves*: Esquerda e centro precisam de votos da direita para vencer Bolsonaro

Folha de S. Paulo / Ilustríssima

Estudo sobre influência dos pleitos municipais na eleição federal aponta vantagem ideológica da direita neste ano

 [RESUMO] Análise histórico-comparativa mostra que eleições de prefeitos e vereadores captam tendências ideológicas que se verificam nas disputas estaduais e nacionais dois anos depois. Resultados de 2020 apontam a necessidade de candidatos da esquerda e do centro atraírem o voto da direita para que tenham chance contra Bolsonaro.

Embora as eleições municipais despertem grande atenção da mídia e mobilizem regularmente fatias expressivas do eleitorado, a literatura da ciência política frequentemente considera esses pleitos como de segunda ordem, ofuscados, subordinados ou mesmo desconectados das demais competições.

Contribuiriam para essa suposta desarticulação as características de nosso sistema político, fragmentado em inúmeras legendas irregularmente distribuídas no extenso território nacional, além de baixas taxas de identificação partidária e um calendário eleitoral que separa temporalmente as disputas por cargos eletivos locais daquelas estaduais e nacionais.

Investigando a conexão entre as três esferas, propomos um novo enquadramento analítico para o tema no primeiro capítulo do livro "Eleições Municipais na Pandemia", organizado por Antonio Lavareda e Helcimara Telles, a ser publicado neste semestre pela Editora FGV. Por meio dele, é possível observar padrões de articulação entre as competições que ocorrem nos diferentes níveis da federação, uma vez agregados os partidos em campos ideológicos (esquerda, centro e direita), conforme a classificação predominante entre os especialistas.

Revisitando o percurso sociopolítico desde a transição democrática em 1985 até o pleito mais recente, identificamos que as disputas pelos cargos de vereador e prefeito têm funcionado como "barômetros ideológicos" das eleições gerais posteriores, sinalizando antecipadamente as chances dos diferentes campos.

Entre seus principais resultados, a investigação assinala que o desempenho dos grupos ideológicos na corrida por assentos nas Câmaras Municipais viabiliza a projeção de resultados nas disputas proporcionais seguintes (Assembleias Legislativas e Câmara dos Deputados) e serve também como parâmetro para as estratégias de coordenação dos principais atores nas competições majoritárias subsequentes.

Sergio Lamucci: Os efeitos da alta das commodities no Brasil

Valor Econômico

Disparada dos preços dos produtos primários afeta a economia brasileira em várias dimensões, e com impactos conflitantes

A disparada dos preços das commodities afeta a economia brasileira em várias dimensões, e com efeitos conflitantes. O impacto mais óbvio é piorar as projeções de inflação, o que exige juros mais altos, ao mesmo tempo em que contribui para a valorização do câmbio, o que atenua parte das pressões sobre os preços. O movimento também dá gás à atividade econômica nos setores que produzem e exportam produtos primários, além de aumentar o saldo comercial, fortalecendo ainda mais as contas externas.

No curto prazo, as commodities mais caras engordam ainda a arrecadação de impostos e, ao elevar a inflação, aumentam o valor do PIB em termos nominais, combinação que reduz o déficit e a dívida pública como proporção do PIB. No entanto, a Selic maior, necessária para enfrentar a alta dos preços, leva ao crescimento dos gastos com juros do setor público, o que é negativo para a dinâmica do endividamento público. No primeiro trimestre deste ano, o índice de commodities CRB subiu 27%, uma das principais consequências econômicas da guerra entre Rússia e Ucrânia.

Bruno Carazza*: Bolsonaro vence primeira rodada

Valor Econômico

Filiações partidárias indicam presidente na frente nas alianças regionais

 “Conquistar a Europa, a Oceania e mais um continente”. “Invadir 18 territórios e ocupar cada um deles com pelo menos dois agrupamentos”. “Destruir totalmente os exércitos amarelos”.

Esses são alguns dos objetivos a serem alcançados pelos participantes de War, o jogo de tabuleiro que os amigos Gerald, Roberto, Oded e Waldir trouxeram para o Brasil em 1972 e que se tornou o carro-chefe para a criação da fabricante de brinquedos Grow (cujo nome é formado pelas iniciais dos criadores da empresa).

As dinâmicas do jogo que marcou gerações servem para ilustrar as estratégias da disputa eleitoral deste ano.

Carlos Pereira*: Fim da reeleição?

O Estado de S. Paulo

Organizações de controle fortes fazem da reeleição um mecanismo virtuoso

Tem sido cada vez mais comum ouvirmos críticas ao instituto da reeleição. Alguns políticos, inclusive, fazem juras de que, uma vez eleitos, não farão uso desse instrumento. Argumentam que incumbentes tendem a abusar da máquina pública para se reeleger. Alegam que teriam vantagens desproporcionais, o que colocaria em risco a alternância de poder. Responsabilizam a reeleição até pelo mau desempenho legislativo, em vez de reconhecer suas inabilidades na montagem de maiorias.

Mesmo FHC, que promoveu a aprovação da Emenda Constitucional da Reeleição n.º 16 em 1997, fez recentemente um mea-culpa, ao afirmar que tal emenda foi um “erro histórico”. No documentário O presidente improvável, FHC se mostra arrependido: “Eu não teria forçado tanto a barra quanto forcei... Porque isso tem consequências depois... Dá a sensação, mesmo que não seja verdade, que o presidente, mal chegou lá, só pensa no outro mandato”.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

São absurdos os aumentos ao funcionalismo

O Globo

A coincidência de ano eleitoral com o fim do congelamento salarial dos servidores surtiu o efeito indesejado, mas esperado: o governo federal já fala em conceder aumento geral de 5% aos servidores da União. Com o inesperado dinheiro sobrando no caixa de estados e municípios, governadores e prefeitos começaram a usar a caneta para distribuir aumentos ao funcionalismo como se não houvesse amanhã. Criam despesas permanentes com recursos que não serão renovados no futuro, contratando déficits mais à frente.

Levantamento recente do G1 e da GloboNews constatou que os 26 estados e o Distrito Federal já deram aumentos ao funcionalismo que ao todo representam gasto adicional garantido de R$ 32,7 bilhões no Orçamento anual (em alguns casos, faltava apenas a aprovação na Assembleia Legislativa, obedecido o prazo de 180 dias antes das eleições que se esgota amanhã).

A remuneração do funcionalismo foi congelada em 2020 e 2021 como contrapartida dos repasses bilionários do Tesouro para governadores e prefeitos poderem enfrentar a pandemia. O dinheiro federal ajudou estados e municípios a alcançar em 2021 o superávit primário de R$ 98 bilhões, o maior da História.

Poesia | Manuel Bandeira: Cotovia

 

Música | Gal Costa: A Felicidade