terça-feira, 7 de setembro de 2021

Merval Pereira - Situação-limite

O Globo

Não é normal chegarmos ao ponto de ter data marcada com antecedência para um golpe de Estado. E, quando o dia chega, como hoje, não se sabe o que pode acontecer. É perigoso que se considere normal que um presidente da República faça ameaças aos componentes do Supremo Tribunal Federal, ao Congresso e que isso não seja motivo imediato para um processo de impeachment.

Ainda estamos na fase de ver no que vai dar o discurso antidemocrático de Bolsonaro, de achar que ele ainda não atravessou nosso Rubicão. Às vésperas dos 200 anos de Independência — hoje é o 199º aniversário —, já deveríamos ter superado essa instabilidade política.

Pela movimentação que vem sendo feita há tanto tempo e pelo engajamento do próprio presidente, os atos de hoje serão grandiosos, não no sentido de admiráveis, mas no de tamanho. Embora esteja caindo em popularidade, Bolsonaro mantém ainda um núcleo de apoiadores muito importante, cerca de 20%, 25%, e, se mantiver esse tamanho, tem lugar garantido no segundo turno da eleição presidencial do ano que vem.

Míriam Leitão - Bolsonaro foge para a sua bolha

O Globo

O recado de Gilberto Kassab foi claro. Ele disse na entrevista que me concedeu ontem que o PSD pode apoiar o impeachment do presidente Bolsonaro, se ele continuar a atual escalada contra a democracia. O que leva o líder de um partido de centro a fazer tal ameaça a um presidente em momento em que ele enche as ruas de apoiadores? É que no evento que Bolsonaro convocou para hoje ele parecerá forte, porque a manifestação será grande, mas estará, na verdade, mais isolado. Bolsonaro fugiu para a sua bolha, porque a sua popularidade está em queda. “Ele não vencerá nas urnas porque está mal avaliado e está mal avaliado porque faz um mau governo”, resume Kassab.

— Não tenho o menor constrangimento de defender o impeachment, o presidente está chegando no limite com essas manifestações que atentam contra a democracia. Se ele subir mais alguns degraus, defenderei o impeachment e entendo que ele está subindo esses degraus —disse Kassab em entrevista no meu programa na Globonews.

Carlos Andreazza - O 7 de Setembro permanente

O Globo

A radicalização de Bolsonaro não está condicionada ao tamanho das manifestações. Serão grandes, representativas de sua base social sectária. Ainda, porém, que reunisse apenas os fantasmas pendurados em gabinetes da família, ali estaria — não mais que cem peculatos — o povo; o povo que o autoriza a radicalizar.

Radicalizará sempre. Bolsonaro é o dono deste 7 de Setembro. Tem orientado a agenda do governo à insuflação dos atos, a que convoca explicando a tendência à ruptura. Continuará amanhã.

Sei que há um déficit de valores democráticos nos setores produtivo e financeiro brasileiros, mas — que se pense no business — não há meios de a atividade econômica prosperar sob um presidente cuja geração de instabilidades abarca a alternativa ruptura. A não ser que se seja um Ciro Nogueira, ou que se tenha a estabilidade de um general Ramos, um ambiente nocivo aos negócios.

Falemos de linguagem. A violência — substrato do golpismo — está implantada. Pode ser física. Cedo ou tarde será. Pode dar em barbárie hoje. Ou amanhã. Certamente em 2022. Falamos de linguagem. A violência é formal. E vai normalizada — no corpo da incitação ao choque — como ferramenta de campanha eleitoral. Claro que sangraremos. O golpismo de Bolsonaro é como pede votos.

Zuenir Ventura - Que a paz seja conosco

O Globo

Não faltam motivos para a preocupação com o dia de hoje. Ele foi tão politizado que o “7 de Setembro” deixou de ser o festivo ato cívico de comemoração de um de nossos maiores feitos históricos para se transformar em apoio às belicosas intenções do presidente.

Enquanto instituições da República, líderes políticos, empresários e banqueiros se uniram em favor da pacificação do tenso ambiente político, Jair Bolsonaro atiça suas milícias em sentido contrário com provocações e ameaças, como classificar as manifestações de “ultimato” a dois membros do STF.

Em vez de revidar, a Corte está respondendo com uma atuação de bastidores, dialogando com emissários do Congresso para reduzir o clima de tensão instalado. Há PMs apoiando e até pastor evangélico recorrendo ao Apocalipse, ao fim do mundo, para convocar os fiéis a comparecer aos atos bolsonaristas.

Luiz Carlos Azedo - A invenção do brasileiro

Correio Braziliense

O imaginário nacional foi construído a partir de duas ideias-força: um ‘povo novo’, que surgiu da miscigenação; e a unidade nacional, fundindo povo e território no Estado-nação

Tudo começou com a famosa carta de Pero Vaz de Caminha, que somente veio a ser impressa no Brasil em 1817, no Rio de Janeiro, cinco anos antes da independência. A Terra Brasilis reproduzia mitos que povoaram o imaginário europeu desde as viagens de Cristóvão Colombo: “novo mundo”, “paraíso perdido”, “bom selvagem” etc. Mas a invenção dos brasileiros, digamos assim, é uma obra dos mineiros. A Inconfidência, em 1789, nos legou o nosso primeiro grande mártir nacional, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, preso àquela ocasião; depois, enforcado e esquartejado, em 21 de abril de 1792. E a ideia de nação formada a partir dos que aqui nasceram.

Até então, o que cá havia eram portugueses, baianos, pernambucanos, paulistas, fluminenses e gaúchos, que protagonizaram a ocupação e expansão territorial na qual o Estado antecipou a nação, mas sempre muito atrás desses desbravadores. Notável foi a façanha dos paulistas, aliados às tribos tupi-guarani, na ocupação do território e na organização do mercado interno, bem como o trabalho dos africanos escravizados na nossa economia de exportação e na vida doméstica.

Ricardo Noblat - Chega! Basta! Fora com Bolsonaro que nos empurra para o abismo

Blog do Noblat / Metrópoles

O que falta para que lhe abreviem o mandato?

Falta o quê para que Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara, submeta aos seus pares um dos mais de 100 pedidos de abertura de impeachment contra Jair Bolsonaro? Falta um cadáver? Tomara que este 7 de setembro não lhe ofereça um ou mais.

Não bastam os quase 580 mil mortos pelo vírus em parceria com o governo federal que preferiu receitar cloroquina e outras drogas ineficazes a correr atrás de vacinas? Sem falar dos que morreram de outros males devido ao colapso do sistema hospitalar.

Ouvir sem refutar a sugestão de um dos seus auxiliares de prender os 11 ministros “vagabundos” do Supremo Tribunal Federal não é motivo suficiente para impeachment no entendimento de Lira e do Centrão. Nem chamar um ministro togado de filho da puta.

Entrevista | Steven Levitsky: ‘Ataques ao Judiciário são o primeiro passo de autocratas para tentar ficar no poder’, diz autor de ‘Como as democracias morrem’

Matheus Lara / O Estado de S. Paulo

A insistência bolsonarista no discurso de que o Brasil vive sob uma “ditadura do STF” faz o cientista político americano Steven Levitsky, coautor do celebrado best seller Como as Democracias Morrem (Zahar), deixar um alerta ao País neste 7 de Setembro: “Ataques ao Judiciário costumam ser o primeiro passo de autocratas para tentar ficar no poder”.

Em conversa com a Coluna do Estadão, ele compara as investidas de Jair Bolsonaro contra instituições democráticas a táticas de outras figuras, como o venezuelano Hugo Chávez e o atual líder turco Recep Erdogan.

“Autocratas usam a violência, às vezes até fictícia, como desculpa para tentar destruir pouco a pouco a democracia”, diz Levitsky. Para ele, o feriado desta terça tende a ser mais um capítulo ruim para a imagem do País no exterior. “A imagem do Brasil como uma democracia de sucesso foi manchada.”

Leia a entrevista completa abaixo:

Eliane Cantanhêde – As multidões e a foto

O Estado de S. Paulo

O foco de Bolsonaro hoje é a foto, para manter o governo, as chances de 2022 e o mito de pé

Em 25 de agosto de 1961, Jânio Quadros chocou o Congresso e o País com seu pedido de renúncia, sete meses depois da posse na Presidência da República, mas as coisas não saíram como ele pretendia. Ao desembarcar em São Paulo, olhou para um lado, olhou para outro e exclamou em sua solidão: “Cadê o povo?”

O “povo” não deu as caras, liberando Congresso e Forças Armadas para acatar a renúncia e tocar o barco, dando posse a João Goulart, que depois foi derrubado pelos militares. O País livrou-se do autogolpe de Jânio, mas abriu caminho para o golpe de 1964.

Em 16 de agosto de 1992, Fernando Collor, primeiro presidente eleito por voto direto após a ditadura militar, tinha mudado seus principais ministros para enfrentar uma CPI, mas havia perdido as condições de governabilidade e jogava sua última cartada: a convocação do “povo” para vestir o verde e amarelo e ir às ruas garantir seu mandato.

Mais uma vez, o “povo” surpreendeu. Vestiu-se de preto, pintou a cara com as cores da bandeira brasileira e inundou as ruas do País para o oposto: clamar pelo impeachment. Collor caiu e os “caras pintadas” emergiram, abrindo um longo caminho de paz, mas coisas, numa curva, ou encruzilhada, começaram a dar errado.

Rafael Cortez* - ‘Ultimato’ testa limites dos atores políticos

O Estado de S. Paulo

A ênfase nas manifestações do 7 de Setembro é resultado do abandono do bom governo como mecanismo para vencer as eleições

As democracias presidencialistas deveriam guardar dois atributos essenciais: 1) alguma proteção ao mandato presidencial e 2) o exercício do bom governo como caminho para políticos permanecerem no poder. A manutenção do poder por meio da construção de políticas eficientes evita a tentação de mudanças nas regras do jogo como estratégia para sua sobrevivência eleitoral. Assim, as democracias produziriam não apenas efeito corretivo nas decisões de governo, mas garantiriam estabilidade institucional e a percepção de regras que mantêm baixo o “custo de tolerância”, em níveis que preservariam a alternância de poder combinada com o conjunto de regras para evitar a tirania da maioria (ou minoria) que ocupa provisoriamente o poder da caneta.

Paulo Hartung* - Em defesa da democracia

O Estado de S. Paulo

Decisivo entender: no atual arsenal de ataque antidemocrático, a mentira é a principal arma.

A democracia está sob ataque! Para que os dias não se guiem por ilusões ou enganos, é preciso chamar os fatos pelos nomes que realmente os definem. Os atentados à vida democrática tornaram-se uma marca destes tempos tão inacreditáveis. Ter essa consciência é crucial para a impositiva agenda dos defensores das liberdades e garantias humanísticas, civis, políticas e cidadãs, conquistas também essenciais ao alcance e à manutenção da prosperidade sustentável e compartilhada.

Nesse sentido, há outras questões que demandam um olhar realístico. Decisivo entender que, no atual arsenal de ataque antidemocrático, a mentira é a principal arma da estratégia para fulminar pilares e valores da democracia. Tanques, navios, aviões, etc. mantêm sua relevância, mas o mais decisivo e letal recurso para sufocar as democracias são as inverdades, inclusive com fabulação de inimigos imaginários para ludibriar os de boa-fé ou nutrir comportamentos raivosos.

Turbinados especialmente via redes sociais, boatos, fake news e mentiras impedem ou confundem o diálogo equilibrado e racional entre cidadãos. Adicionalmente, fomentam o ódio e a intolerância, transfigurando adversários em inimigos, ensejando a extinção do que não é espelho, fulminando a convivência dos contrários e diversos, uma riqueza da existência humana.

Hélio Schwartsman - O que quer Bolsonaro?

Folha de S. Paulo

Não estamos na Guerra Fria, quando bastava ser anticomunista para ter o apoio dos EUA em golpes

Ele já deu pistas sobre suas intenções quando declarou ter três alternativas para o futuro: "estar preso, ser morto ou a vitória". Dessas, a prisão me parece hoje a mais provável, mas o presidente há de preferir a terceira. Resta indagar o que seria, a essa altura, uma vitória para Bolsonaro.

Seu cenário de sonhos seria ver, depois de um discurso eletrizante neste 7 de Setembro, a população e os militares marchando ombro a ombro sobre o STF. Em seguida, ele mandaria prender juízes e assumiria poderes especiais, que lhe permitiriam governar sem as inconveniências impostas pelo sistema de repartição de Poderes. Só que isso não vai acontecer. Não estamos mais no tempo da Guerra Fria, em que bastava ser anticomunista para ter o apoio dos EUA em golpes, e a taxa de rejeição popular a Bolsonaro é mais que o dobro da sua taxa de aprovação.

O presidente também poderia considerar-se vitorioso numa situação em que as manifestações dessem lugar a um quadro de convulsão social, que seria usado para baixar algum dos estados de exceção previstos na Constituição. Esse é um cenário menos irrealista, mas ainda assim improvável. Tanto o estado de defesa como o de sítio dependem de aprovação do Congresso, e os parlamentares do centrão são espertos o suficiente para perceber que seria contra seus interesses existenciais chancelar esse tipo de intervenção.

Cristina Serra - Réquiem para o Sete de Setembro

Folha de S. Paulo

Com quem Bolsonaro vai desfilar nesta data enevoada de ameaças?

Com quem Bolsonaro vai desfilar neste 7 de Setembro enevoado de ameaças? Suas legiões são formadas por violadores da Constituição, sabotadores de eleições, predadores da democracia e um tropel de sequestradores de esperança.

São mercadores da morte, dispersores do vírus, charlatães com diploma de medicina, atravessadores de vacinas, os que roubaram o ar e o último fio de vida de quem agonizava numa cama de hospital em Manaus. Os que deixaram faltar anestésicos para intubação e obrigaram médicos e enfermeiros a amarrar pacientes como animais desesperados de dor. Os que riram de tudo isso. Os que celebraram um suicídio. Os que ajudaram a matar 580 mil brasileiros.

Alvaro Costa e Silva - Triste fim do patriotismo

Folha de S. Paulo

O que diria Policarpo Quaresma, maior patriota da literatura brasileira, sobre o 7 de Setembro?

Se tivesse escapado a seu triste fim, Policarpo Quaresma jamais abandonaria sua casa em São Januário para engrossar o "protesto" no Sete de Setembro. Logo nas primeiras páginas da obra-prima de Lima Barreto, o personagem é apresentado como patriota. Um patriota bem diferente dos que avacalham os Poderes para salvar a pele golpista de Bolsonaro.

Nem de longe passava pela cabeça do major Quaresma promover uma guerra de fuzis em nome de Deus e da família contra comunistas imaginários. Seus delírios de Quixote suburbano eram mais modestos e não vinham embalados na camisa amarela com escudo da CBF. Aliás, se pensasse como seu criador, ele deveria odiar futebol, o "jogo do pontapé" trazido por estrangeiros.

Policarpo Quaresma idealizava um Brasil melhor e mais justo. Uma República que adotasse como língua oficial o tupi-guarani —sem imaginar que no futuro os índios seriam demonizados como arqui-inimigos do agronegócio— e um governo capaz de pelo menos eliminar a praga das saúvas. As formigas cabeçudas haviam dizimado seu experimento de agricultura doméstica, com o qual sonhava matar a fome do povo, a mesma fome que hoje atinge quase 20 milhões de brasileiros.

Joel Pinheiro da Fonseca - O que muda depois dos protestos de 7 de setembro?

Folha de S. Paulo

Cheias de som e fúria, manifestações não atingem resultados nem garantem novos votos

Há dois anos Bolsonaro e seus bajuladores vêm nos ameaçando com um autogolpe que até agora não veio. Também não acredito que virá nesta terça (7). Apesar da retórica violenta dos bolsonaristas, só uma minoria tem o desejo real e a coragem para tentar qualquer coisa. E para esses acredito que a decisão sem volta só virá mesmo quando —e se— Bolsonaro perder nas urnas em 2022, a exemplo da invasão do Capitólio trumpista (e que vai falhar, como aquela).

O discurso do golpe serve para alimentar a militância alucinada, que precisa dessa expectativa da ditadura de extrema direita para se manter mobilizada. Alimenta também os temores da esquerda progressista que se mantém igualmente mobilizada.

Assim, fora um ou outro maluco que talvez tente algo —sabemos que o terrorismo de extrema direita está em alta—, prevejo manifestações grandes e majoritariamente pacíficas. Grandes o bastante, inclusive, para dar uma injeção de otimismo nos defensores do presidente e promover dias de comemorações entusiásticas nas redes. Nesta terça mesmo saberemos se acertei.

O ato desta terça não é o primeiro. Bolsonaro se elegeu em 2018 prometendo não fazer política do “jeito velho”, isto é, com a negociação fisiológica de verbas e cargos em troca de apoio no Congresso. Sua alternativa a isso era a retórica inflamada e o povo na rua para pressionar o Congresso. Foram vários atos em 2019 e 2020. Qual o resultado concreto desta “nova política”?

Opinião do dia – Karl Marx*

“Em Bruxelas, para onde me transferi, em virtude de uma ordem de expulsão imposta pelo sr.Guizot, tive ocasião de prosseguir nos meus estudos de economia política, Iniciados em Paris.

O resultado geral a que cheguei e que, uma vez obtido, serviu de fio condutor aos meus estudos, pode resumir-se assim: na produção social da sua vida, os homens contraem determinadas relações necessárias e independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a uma determinada fase de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais.

O conjunto dessas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta a superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas formas de consciência social.

O modo de produção da vida material condiciona o processo da vida social, política e espiritual em geral.

Não é a consciência do homem que determina o seu ser, mas, pelo contrário, o seu ser social é que determina a sua consciência.

Ao chegar a uma determinada fase de desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade se chocam com as relações de produção existentes, ou, o que não é senão a sua expressão jurídica, com as relações de propriedade dentro das quais se desenvolveram até ali.

De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações se convertem em obstáculos a elas. E se abre, assim, uma época de revolução social.

Ao mudar a base econômica, revoluciona-se, mais ou menos rapidamente, toda a imensa superestrutura erigida sobre ela.

Quando se estudam essas revoluções, é preciso distinguir sempre entre as mudanças materiais ocorridas nas condições econômicas de produção e que podem ser apreciadas com a exatidão própria das ciências naturais, e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, numa palavra, as formas ideológicas em que os homens adquirem consciência desse conflito e lutam para resolvê-lo.

E do mesmo modo que não podemos julgar um indivíduo pelo que ele pensa de si mesmo, não podemos tampouco julgar estas épocas de revolução pela sua consciência, mas, pelo contrário, é necessário explicar esta consciência pelas contradições da vida material, pelo conflito existente entre as forças produtivas sociais e as relações de produção.

Nenhuma formação social desaparece antes que se desenvolvam todas as forças produtivas que ela contém, e jamais aparecem relações de pr6dução novas e mais altas antes de amadurecerem no seio da própria sociedade antiga as condições materiais para a sua existência.

Por isso, a humanidade se propõe sempre apenas os objetivos que pode alcançar, pois, bem vistas as coisas, vemos sempre, que esses objetivos só brotam quando já existem ou, pelo menos, estão em gestação as condições materiais para a rua realização.

A grandes traços podemos designar como outras tantas épocas de progresso, na formação econômica da sociedade, o modo de produção asiático, o antigo, o feudal e o moderno burguês. As relações burguesas de produção são a última forma antagônica do processo social de produção, antagônica, não no sentido de um antagonismo individual, mas de um antagonismo que provém das condições sociais de vida dos indivíduos.

As forças produtivas, porém, que se desenvolvem no selo da sociedade burguesa criam, ao mesmo tempo, as condições materiais para a solução desse antagonismo.

Com esta formação social se encerra, portanto, a pré-história da sociedade humana.”

*Uma Contribuição para a Crítica da Economia Política (Prefácio, 1859)

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Os pressupostos da independência

O Estado de S. Paulo

Bolsonaro tenta usar o 7 de Setembro para acirrar tensões e conflitos entre os Poderes, um comportamento ilegal e imoral

Hoje se comemora a Independência do Brasil. Trata-se de marco cívico importante, que registra o momento em que o País obteve sua soberania como Nação. Mais do que simplesmente recordar um acontecimento do passado, o feriado de 7 de Setembro é oportunidade de refletir sobre os pressupostos e as condições para manter e fortalecer a independência conquistada há exatos 199 anos.

A tarefa de reflexão é especialmente necessária neste ano. Sob o pretexto de mobilizar sua base de apoio, o presidente Jair Bolsonaro vem tentando, nas últimas semanas, utilizar o 7 de Setembro não apenas para acirrar tensões e conflitos entre os Poderes, mas para atribuir uma conotação de ruptura institucional. Além de irresponsável, esse comportamento é ilegal e imoral. No dia 1.º de janeiro de 2019, Jair Bolsonaro jurou cumprir e defender a Constituição.

A situação exige atenção. Deve-se reconhecer, no entanto, que, no mesmo período em que o bolsonarismo promoveu sua escalada de ameaças, houve abundantes respostas de maturidade e responsabilidade, advindas dos mais variados âmbitos. “A democracia não pode ser ameaçada; antes, deve ser fortalecida e aperfeiçoada”, lembrou um manifesto de empresários mineiros.

Este talvez seja um dos principais pontos de reflexão a respeito da independência do Brasil. Não há autonomia, não há liberdade, sem responsabilidade. Nenhum desses elementos – a anarquia, o caos, o medo, a afronta, a desordem ou a violência – é capaz de gerar desenvolvimento social ou econômico. Nenhum deles promove soberania. Nenhum deles fortalece o princípio constitucional de que “todo o poder emana do povo”. Ao contrário, a bagunça e a confusão favorecem os liberticidas e usurpadores do poder.

Poesia | Vinicius de Moraes - Pátria Minha

 

Música | Samba da utopia (Jonathan Silva)

 

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Fernando Gabeira - E tudo se acabar na quarta-feira

O Globo

As manifestações bolsonaristas de amanhã devem ser grandes. Houve empenho do governo, intensa campanha nas redes sociais, financiamento para aluguel de ônibus do interior — enfim, um esforço excepcional.

Elas podem até ter algumas consequências adiante, mas, do ponto de vista de objetivo político, são um momento de sonho para vestir fantasias que não sobrevivem na quarta-feira.E, quando não há objetivo político válido, dificilmente uma força se impõe, mesmo havendo muita gente e até poder militar.

Uma das bandeiras do bolsonarismo está praticamente morta. É o voto impresso. Foi derrotado no contexto legal em que deveria ser analisado, e não há como voltar atrás. Nesse caso particular, estarão simplesmente carregando um defunto, na expectativa de que lhes possa ser válido no ano que vem, em caso de derrota eleitoral.

A outra bandeira do bolsonarismo será, aparentemente, a liberdade de expressão. Em termos abstratos, ninguém se coloca contra ela. A dificuldade é aceitar que se preguem a violência e a invasão de prédios públicos como se estivessem exercitando a liberdade, quando, de fato, ultrapassam seus limites legais.

Essa aceitação de limites está presente, por exemplo, no parecer da subprocuradora Lindôra Araújo, que denunciou o ex-deputado Roberto Jefferson.

Demétrio Magnoli - Política como imitação

O Globo

Uma semana antes do 7 de Setembro, a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) publicou o manifesto do bolsonarismo. A Fiesp e a Febraban ensaiaram o discurso da democracia, curiosamente definida como “harmonia entre os Poderes”. Em contraponto, a Fiemg intitulou sua declaração com a senha de combate da extrema direita: Manifesto pela Liberdade.

Há um centro de comando único do bolsonarismo, uma espécie de Comitê Central que esculpe seus discursos. O texto da Fiemg não foi escrito em Belo Horizonte, mas no Planalto. Na hora em que vinha a público, as bandeiras dos atos bolsonaristas de amanhã sofriam uma padronização, organizando-se em torno da senha principal. Tudo — os ataques ao STF, as injúrias contra governadores e parlamentares, a contestação das urnas eletrônicas — será recoberto por uma mão de tinta fresca que exibirá a palavra liberdade.

“Assistimos a uma sequência de posicionamentos do Poder Judiciário que acabam por tangenciar, de forma perigosa, o cerceamento à liberdade de expressão no país”, escrevem os industriais mineiros para condenar o inquérito das fake news — e, de passagem, oferecer um apoio implícito ao pedido de impeachment do juiz Alexandre de Moraes. Liberdade, desdobrada em “liberdade de expressão” e “liberdades individuais”, eis a mensagem.

A senha emerge, igualmente, em textos assinados pelo ministro da Defesa, Braga Netto, um expoente da agitação bolsonarista entre os militares. Na nota de repúdio às declarações do senador Omar Aziz (7 de julho), o general proclama que “as Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano às instituições que defendem a democracia e a liberdade do povo brasileiro”. Pouco depois, em nota de desmentido de ameaças de golpe (22 de julho), ele expressa o compromisso das Forças Armadas com “a manutenção da democracia e da liberdade do povo brasileiro”.

Marcello Serpa - Poliana e Bismarck contra o medo

O Globo

Alguns anos atrás, numa viagem de surfe, encontrei um surfista italiano. Conversamos numa mistura de português, espanhol, italiano e nossas mãos. Depois de muitas risadas, me arrisquei a perguntar: como uma figura tão polêmica, o então primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, conseguia se manter tanto tempo no cargo mesmo enrolado em acusações de sedução de menores, corrupção e abuso de poder?

Meu amigo sacudiu os ombros e respondeu: “Molto semplice. Berlusconi o comunisti, comunisti o Berlusconi”. Era isso então, o eterno medo da ameaça vermelha fazendo um país inteiro refém de um político fanfarrão.

Desde o Manifesto Comunista de 1848, o medo da revolução do proletariado dominou o Ocidente. Marx e Engels pensaram numa Alemanha industrializada e em sua enorme massa de trabalhadores como palco para a primeira luta de classes e para o estabelecimento da ditadura do proletariado.

O medo também pode ser um grande agente de mudanças. Em 1871, o ultraconservador Otto von Bismarck, primeiro chanceler alemão, transformou seu medo e ódio pelos comunistas em inteligência política. Percebeu como as péssimas condições de trabalho dos trabalhadores alemães os transformavam no público-alvo perfeito para a propaganda socialista. Em 1883, ele iniciou a aprovação de um conjunto de leis de proteção ao trabalhador que, juntas, se tornaram o primeiro Estado de Bem-Estar Social do mundo. Melhores condições de trabalho, seguro-desemprego, pensão por tempo de serviço, seguro de saúde. Tudo financiado pelas três partes interessadas: o trabalhador, o empregador e o Estado. Essa inédita rede de segurança social tirou o vento das velas revolucionárias na Alemanha. A Revolução Bolchevique e a ditadura do proletariado só deram certo em 1917 num Estado absolutista, retrógrado e agrário, a Rússia dos czares.

Bruno Carazza* - A matemática da crise

Valor Econômico

Política brasileira se tornou um jogo de soma zero

A se confirmarem os prognósticos, o feriado da Independência terá temperatura elevada em todo o território nacional. Insuflados pelo presidente da República, os bolsonaristas vêm se preparando para tomar as ruas do país e realizar uma demonstração de sua potência máxima.

Desde pelo menos os protestos de junho de 2013, a cada evento político as divisões entre a população brasileira se intensificam. Das eleições de 2014, cujo resultado foi contestado pelo PSDB de Aécio Neves, passando pelo impeachment (ou golpe, na visão dos petistas) de Dilma Rousseff e chegando à vitória de Jair Bolsonaro em 2018 - sem falar no fator Lava-Jato -, a paz foi subtraída das discussões políticas.

Olhando à frente, o embate entre Lula e Bolsonaro nas urnas em 2022 promete ser o nosso máximo divisor comum, num encontro entre os líderes políticos mais amados e odiados de nossa história recente. A praticamente um ano das eleições, o país parece estar resignado a esperar a definição do próximo pleito para então decidir qual rumo tomar.

Enquanto isso, os números do PIB divulgados na semana passada pelo IBGE sugerem que, apesar do avanço da vacinação, a derivada da retomada econômica mudou de sinal. A despeito do crescimento das exportações (9,4% em relação ao trimestre anterior), o consumo das famílias ficou estagnado (0,0%) e os investimentos das empresas caíram 3,6% na mesma base de comparação.

Sergio Lamucci - A captura do Orçamento por emendas parlamentares

Valor Econômico

Nesse processo, ganharam espaço as prioridades eleitorais e paroquiais dos congressistas, em detrimento de políticas de interesse coletivo

A apropriação de fatias cada vez maiores do Orçamento a serem definidas por emendas parlamentares avançou com força nos últimos anos, levando a um resultado pouco transparente e muito preocupante. Em 2021, um pouco mais da metade do investimento da União deverá ser decorrente dessas emendas - serão R$ 18,9 bilhões de um total previsto de R$ 37 bilhões, segundo consta do Orçamento deste ano.

Os números aparecem em artigo de Paulo Hartung, ex-governador do Espírito Santo, e dos economistas Marcos Mendes, pesquisador associado do Insper, e Fabio Giambiagi, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), publicado na edição deste mês da revista “Conjuntura Econômica”, da FGV.

Chefe da assessoria especial do ministro da Fazenda de 2016 a 2018, Mendes diz que, com esse processo, o Orçamento fica mais rígido, “na medida em que as emendas se repetem ano após ano e vã se tornando uma espécie de direito adquirido dos parlamentares”. Além disso, fica menos transparente porque “há um processo de indicação de despesas e contemplação de parlamentares, comandado pelos presidentes das duas Casas do Congresso e seu entorno político”.

Gustavo Loyola* - Incertezas afetam recuperação econômica

Valor Econômico

Arroubos contra a democracia de Bolsonaro afetam negativamente o ambiente econômico

O resultado desapontador do PIB do segundo trimestre deixou evidenciado os obstáculos enfrentados para a recuperação da economia brasileira ao longo de 2021, após a queda livre da atividade no ano passado.

Vários fatores estão por trás da frustração das expectativas de crescimento, mas os erros na gestão macroeconômica e as turbulências políticas provocadas pelo próprio governo são os responsáveis maiores por tais dificuldades.

Os recorrentes arroubos antidemocráticos do presidente Bolsonaro são a face mais grave das preocupações e incertezas que afetam negativamente o ambiente econômico. A estabilidade das instituições é fundamental numa economia de mercado, porém essa obviedade parece ser ignorada por muitos integrantes da administração Bolsonaro, a começar pelo próprio presidente da República.

Declarações suas ameaçando o pleito de 2022, por exemplo, mesmo que meros surtos de retórica, trazem um clima de incerteza sobre o cenário político que sem dúvida já afeta, em maior ou menor grau, as decisões dos agentes econômicos e a precificação dos ativos brasileiros.

Além disso, a condução caótica da agenda legislativa também é fonte de incertezas que atrapalha as decisões de investimento. A proposta de mudanças no Imposto de Renda apresentada pelo governo ao Congresso Nacional é um exemplo de como gerar turbulências desnecessárias. Em vez de buscar simplificar o sistema tributário e reformar os tributos que incidem sobre o consumo, o Ministério da Economia patrocina um projeto que, com as alterações aprovadas de forma atabalhoada na Câmara dos Deputados, agrava as distorções e aumenta os custos de compliance para as empresas.

Carlos Pereira* - Conservadorismo não é sinônimo de autoritarismo

O Estado de S. Paulo

O elemento aglutinador em torno de Bolsonaro é o conservadorismo, e não a saudade do autoritarismo

Muitas pessoas têm mostrado grande preocupação com a descontinuidade do perfil liberal da democracia brasileira. Alguns, inclusive, identificam riscos iminentes de quebra da ordem democrática, especialmente a partir das últimas ameaças do presidente Bolsonaro de “ruptura” institucional se ministros do STF não se “enquadrarem”.

As inúmeras respostas das organizações de controle aos arroubos iliberais de Bolsonaro, especialmente contra o STF, parecem que não estão sendo suficientes para gerar tranquilidade e segurança. A imposição de sucessivas derrotas às iniciativas do presidente, tanto no Legislativo quanto no Judiciário, não tem bastado. Tampouco a abertura de quatro inquéritos no STF e um no TSE contra o presidente e a instalação da CPI da Covid, mesmo em um contexto em que dois de seus filhos enfrentam investigações pelo Ministério Público de lavagem de dinheiro por meio de “rachadinhas”.

Diante do estresse quase que cotidiano produzido pela estratégia confrontacional de Bolsonaro, as pessoas desconfiam da resiliência e da capacidade dessas organizações de impedir retrocessos institucionais.

Celso Rocha de Barros - Vai ter golpe?

Folha de S. Paulo

Atos bolsonaristas foram convocados do centro do poder para destruir os limites que a democracia lhe impõe

Nesta terça-feira (7) os golpistas de Bolsonaro farão uma manifestação para tentar convencer os quartéis de que um golpe seria popular.

É quase impossível que as manifestações não encham. É, de longe, a manifestação fascista que passou mais tempo sendo planejada. Prefeitos bolsonaristas, pastores bolsonaristas, líderes bolsonaristas do agronegócio, todos estão trabalhando pela manifestação fascista com muito mais empenho do que nos Ustrapaloozas anteriores.

A contabilidade do bolsonarismo é sempre clandestina e ilegal, mas não há dúvida de que será uma manifestação cara.

Não será, nem de longe, uma manifestação como as outras, um análogo das Diretas Já, das marchas dos sem-terra, da Marcha para Zumbi, dos protestos de 2013, dos atos pró-impeachment de 2016, dos protestos recentes contra Bolsonaro.

Todas essas foram manifestações típicas de regime democrático, convocadas para protestar contra o centro do poder ou para apresentar-lhe reivindicações.

Sempre pode haver militantes violentos em manifestações democráticas. Mas há uma diferença radical entre um maluco com um coquetel molotov feito em casa e o presidente da República convocando as Forças Armadas e os policiais à deserção, pedindo-lhes que usem as armas do Estado brasileiro em favor de um dos lados da disputa política.

Ana Cristina Rosa - Os gritos do Sete de Setembro

Folha de S. Paulo

Este já é um dos 7 de Setembro mais conturbados da história

Independentemente do que aconteça, este já é um dos 7 de Setembro mais conturbados da história. Houve momentos de tensão relacionados à data anteriormente, mas, segundo historiadores, geralmente tratava-se de episódios isolados, como na província da Bahia em 1839.

Na ocasião, um artigo publicado no jornal Gazeta da Bahia contendo críticas à Independência e afirmando que o país deveria ter continuado unido a Portugal foi censurado com base na legislação vigente. O ato causou tumulto e constrangimento num momento em que a Bahia recém havia saído da Sabinada, revolta contra o Império ocorrida entre 1837 e 1838.

Catarina Rochamonte - O Brasil entre 7 e 12 de setembro

Folha de S. Paulo

Via democrática é melhor alternativa entre direita autoritária e corrupta e esquerda corrupta e autoritária

Colecionando denúncias por crimes de responsabilidade, envolvido em rachadinhas familiares que compram mansões, implicado em negociatas no âmbito do Ministério da Saúde, Bolsonaro gasta seu tempo exacerbando o fanatismo de que é objeto, aumentando a tensão entre os Poderes e instigando a beligerância ideológica e a polarização excessiva tão prejudicial ao país.

É improvável que neste 7 de Setembro Bolsonaro consiga efetivar o golpe com que almeja submeter as instituições e estabelecer seu poder personalista, mas não é impossível que consiga provocar tumulto.

Um grande estrago já foi feito: o país está radicalizado e poucos são os bolsonaristas dispostos a aceitar a derrota eleitoral —cada vez mais provável— de quem bravateou só vislumbrar para seu futuro três alternativas: “estar preso, ser morto ou a vitória.”

Mathias Alencastro* - De Bolsonaro ao bolsonarismo


Folha de S. Paulo

7 de Setembro será decisivo para o futuro da extrema direita

Todos concordam que a história da manifestação de setores extremistas no 7 de Setembro está intimamente ligada à invasão do Capitólio dos Estados Unidos no dia 6 de janeiro, no apagar das luzes da Presidência de Donald Trump. Bolsonaristas conseguiram replicar na perfeição os dois primeiros atos da trama trumpista: a polêmica do voto impresso jogou dúvida sobre a fiabilidade do sistema eleitoral, e os inúmeros ataques às instituições radicalizaram as manifestações.​

O terceiro ato é o mais imprevisível. Bolsonaristas descrevem o assalto ao Capitólio como uma insurreição popular que almejava a tomada de poder em Washington —prova disso, o governo brasileiro foi um dos últimos a reconhecer a vitória de Biden. Uma leitura dos acontecimentos desmentida pelas autoridades americanas. Segundo o último relatório do FBI, publicado uma semana atrás e submetido à comissão de inquérito parlamentar do Congresso, apenas 40 dos 600 delinquentes indiciados pelos mais de 1.000 atos criminosos se envolveram em algum nível de planejamento antes do evento. Os envolvidos não pretendiam dar um golpe. Mas a violência fundadora dos seus atos assegurou a Donald Trump o momento catártico indispensável para perpetuar seu movimento além do mandato de quatro anos marcado por dois impeachments e centenas de milhares de mortes evitáveis na pandemia, sem contar as cinco vítimas no ataque ao Capitólio.

Vinicius Torres Freire – Bolsonarismo ou morte

Folha de S. Paulo

As ameaças de violência no 7 de Setembro e ainda mais depois fazem parte da Grande Involução

Suponha-se que no 7 de Setembro bolsonarista não aconteçam quebra-quebras, mortes, quarteladas ou motins. Admita-se que uma nova promessa golpista de Jair Bolsonaro seja tratada mais uma vez com covardia conivente. Para por aí?

Provavelmente, virá mais do mesmo, a mistura de golpismo tateante com o programa reacionário da Grande Involução. Bolsonaro não é um raio em dia de céu azul.

Parece que a extrema direita vai juntar gente bastante para incutir em parte do país o receio de que pode promover baderna subversiva nas ruas. Bolsonaro terá sido então capaz também de fazer propaganda para reanimar o rebanho.

Parece não ser o suficiente para um ataque frontal, decisivo, contra a democracia, mesmo degradada. Mas ao menos Bolsonaro mostrará capacidade de ao menos manter sua guerra de posição, uma tentativa improvável, tosca e avacalhada, mas perigosa, de conseguir hegemonia, como se fora um Gramsci influencer em molho de TV mundo cão, para citar o comunista que é anátema para o semiletrado bozismo.

Mirtes Cordeiro* - 7 de Setembro…salve a Independência!

Falou & Disse

 “Amanhã será um lindo dia… Amanhã mais nenhum mistério…O astro rei vai brilhar… A luminosidade alheia a qualquer vontade há de imperar…” (Guilherme Arantes)

Muitas especulações e ameaças têm surgido em função das comemorações tradicionais do dia de Independência do Brasil, amanhã, 07 de setembro, quando estaremos a um ano das comemorações do bicentenário, que acontecerá em 2022.

Coisas deste tempo de bolsonarismo que, pelo que parece, está findando.

Fazem parte das comemorações do Dia da Independência os desfiles escolares e militares, acompanhados de bandas de música capazes de entusiasmar a população que sai às ruas em todos os recantos do país.

Famílias acompanham seus filhos, orgulhosas pelos lugares de honra conquistados ao carregar as bandeiras ou pelos destaques nas alegorias, e até mesmo por conduzir faixas e cartazes anunciando os avanços pedagógicos de suas escolas.

As pessoas vão às ruas para assistirem entusiasmadas a passagem dos soldados das Forças Armadas com seus uniformes militares cheios de distintivos, medalhas, e com alguns instrumentos de defesa da Pátria, como os que são usados para sobrevivência nas batalhas ou nas missões, até algumas armas e veículos.

Tudo isso faz parte do imaginário do nosso povo e foi moldado através da nossa formação cultural desde o processo de colonização.

O Brasil tornou-se independente no dia 7 de setembro de 1822 e o grito de Independência ou Morte foi dado por D. Pedro I, às margens do riacho Ipiranga, em São Paulo. O momento ficou marcado como “O Grito do Ipiranga”, segundo alguns historiadores.

Foi assim que aprendemos nos livros, que nos contavam nas escolas, a história sob a ótica dos dominadores. Muitos fatores concorreram para que o Brasil se tornasse independente, todos relacionados a movimentação política entre as nações estrangeiras que reivindicavam maior poder sobre as colônias, e as disputas internas entre as forças que assumiam a organização da economia no novo país, baseada no sistema escravagista.

Opinião do dia – Karl Marx*

“Toda vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que levam a teoria para o misticismo encontram a sua solução racional na praxis humana e na compreensão dessa praxis.”

*Karl Marx, Teses sobre Feuerbach (1845)