quinta-feira, 10 de março de 2022

Merval Pereira: Estado laico?

O Globo

É um absurdo que um presidente da República diga a um grupo religioso que vai levar o país para onde eles quiserem. Fossem de qualquer religião, Bolsonaro não poderia assumir esse compromisso, como fez com os evangélicos. Não estamos num governo teocrático, nem num país que se submete a qualquer religião. É um absurdo duplo: campanha eleitoral e declaração pública de que o governo está à disposição de um grupo religioso em troca de votos. Um retrocesso terrível para o país.

O presidente Bolsonaro usa até mesmo ardis políticos para tentar enganar os evangélicos, quando se apresenta uma situação em que seus interesses pessoais ou políticos colidem com os deles. É o caso do projeto de aprovação do jogo no Brasil. Apesar de afirmar aos evangélicos que vai vetá-lo, o projeto é de interesse de sua família. Seu filho Flavio já esteve nos Estados Unidos para reuniões com grandes financiadores dos jogos de azar.

Malu Gaspar: Um poço de conflitos

O Globo

A indicação de Rodolfo Landim para comandar o conselho da Petrobras tem sido tratada na cúpula do governo como solução de emergência para um problema considerado grave pelo presidente da República.

Para Jair Bolsonaro, controlar o preço dos combustíveis é questão de sobrevivência e pode fazer a diferença entre a vitória e a derrota nas eleições deste ano.

Apesar de ter feito uma intervenção na companhia no ano passado, trocando o presidente e quatro conselheiros, Bolsonaro se queixa de que não conseguia conversar com a direção da empresa, nem entender por que não é possível conter a alta nos preços dos combustíveis via Petrobras.

Trocando em miúdos, o fuzuê não deu o resultado que Bolsonaro queria. Nem o general Silva e Luna, que se tornou presidente, nem o almirante Bacelar, que hoje preside o conselho, “resolveram o problema” dele.

Míriam Leitão: Ato pela Terra, ameaças e viradas

O Globo

O dia começou ontem em Brasília com o improvável encontro do governo e o PT para acertar os últimos detalhes dos projetos para subsidiar os combustíveis fósseis. À tarde, a capital floresceu. O cantor Caetano Veloso e muitos artistas fizeram uma sonora manifestação contra a boiada que Bolsonaro e Arthur Lira (PP-AL) querem passar sobre a Amazônia e as Terras Indígenas, sobre o próprio país, aproveitando a guerra. E, no mundo, tudo de novo no front. Houve uma reviravolta nos preços dos ativos, o petróleo despencou e as bolsas subiram. O mercado precificou o fim da guerra, diante dos sinais de negociação.

O governo Bolsonaro está correndo para aprovar uma excrescência: o PL 191, o mais nocivo de todo o pacote antiambiental, anti-indígena e a favor de agrotóxicos feito por este governo e defendido pelo atual presidente da Câmara dos Deputados. Bolsonaro mentiu, de novo, ao dizer que é preciso aprovar o projeto para nos livrar da dependência externa de fertilizantes. Ele tenta tirar proveito da guerra da Ucrânia.

Luiz Carlos Azedo: Lula e Bolsonaro mantêm polarização eleitoral

Correio Braziliense

Bolsonaro paga por seu negativismo na pandemia e pelo fracasso econômico, além do desmantelamento das políticas públicas, principalmente na saúde, na educação e no meio-ambiente

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva continua à frente das pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República, com 39%, mas o presidente Jair Bolsonaro mantém um lugar garantido no segundo turno, com 31,1%, encurtando sua distância para o petista, segundo o Instituto Paraná Pesquisas. O ex-juiz Sergio Moro refluiu para 7,5% e está em empate técnico com Ciro Gomes, que tem 6,8%, mantendo-se um empate técnico na terceira e na quarta colocações. João Doria (2,2) e Eduardo Leite (1,3%) vêm em quinto e sexto. André Janones marca 0,7%; Simone Tebet, 0,4%; e Alessandro Vieira, 0,1%. Somados, os candidatos que buscam a terceira via não chegam a 20% do eleitorado.

William Waack: ‘Bênção’ e ‘maldição’

O Estado de S. Paulo.

A gravidade da guerra na Ucrânia expõe o desinteresse no Brasil por defesa e segurança

O Brasil não é parte em qualquer conflito internacional agudo de cunho geopolítico, religioso, étnico ou mesmo comercial. Não ameaçamos nem somos ameaçados por nossos vizinhos. Não temos querelas ou questões graves com ninguém lá fora. É uma “benção” mas também uma “maldição”.

Ao conforto dessa realidade corresponde uma grande dificuldade da sociedade brasileira de se preocupar com problemas de segurança internacional e defesa nacional. Quando surgem no debate político eleitoral, questões de política externa ou defesa são de curtíssimo prazo e de cunho estritamente partidário-ideológico.

O Brasil já foi descrito como uma grande ilha de costas para o mar, dada nossa condição geográfica (em termos geopolíticos) de relativo isolamento. Nas relações internacionais geografia é destino, mas mesmo esse destino manifesto de potência regional com muitos vizinhos parece pouco nos interessar.

Eugênio Bucci*: A guerra mundial contra os fatos

O Estado de S. Paulo.

Os que admiram Putin e a ele juram ‘solidariedade’ são ‘solidários’ no repúdio às liberdades e aos direitos e na indústria das ‘fake news’

Vladimir Putin é um tirano bonapartista, típico do século 19. Para ele, a prosperidade só vem com o alargamento dos domínios territoriais. Exibicionista, proclama que seus armamentos são maiores que os dos outros. Aboletado no Executivo, atropela o Legislativo, subjuga o Judiciário e banca o pai forte do povo, passando por cima das mediações da democracia.

Outra faceta do autocrata de Moscou é sua obsessão por idolatrar o passado. O futuro dos sonhos dele é a restauração de uma fantasiosa glória pretérita (a sua “grande Rússia” parece o decalque de um mapa mistificado do século 18). Na verdade, mais do que bonapartista, seu ideário tem marcas de fascismo bruto.

José Serra*: Grilagem na Amazônia: é preciso dar um basta

O Estado de S. Paulo.

De 2016 a 2020, tanto o desmatamento quanto os focos de incêndio em FPNDS foram mais frequentes nas áreas com registro no CAR

Num dos meus últimos artigos, busquei chamar a atenção para os desafios e oportunidades em torno da Amazônia. Nosso mais simbólico bioma, relevante por tantos motivos, passou a estar associado nos últimos anos ao retrocesso brasileiro. Num momento em que governos e sociedades se mobilizam em várias instâncias – como nas Conferências das Partes ou COPS, no âmbito das Nações Unidas – para conter o agravamento do aquecimento global, o Brasil frequenta a imprensa internacional por caminhar na direção contrária: o desmatamento amazônico.

Para que o leitor tenha dimensão do que falo: de agosto de 2020 a julho de 2021, segundo os dados oficiais do Inpe/prodes, 1,32 milhão de hectares de florestas foi derrubado na região amazônica. O equivalente a mais de 5% de todo o território do Estado de São Paulo. Ou seja, mantidos os números, em menos de 20 anos teremos desmatada na Amazônia uma área equivalente a todo o nosso Estado.

Inclusive, o desmatamento amazônico é a maior fonte de emissão de gases de efeito estufa (GEES) no Brasil. A floresta retira carbono da atmosfera e tem função crítica na regulação do regime de chuvas não apenas da região, afora sua biodiversidade.

Maria Hermínia Tavares: O funeral do PSDB

Folha de S. Paulo

Tucanos começaram a minar o próprio chão quando Aécio contestou resultado das urnas

A saída de Geraldo Alckmin do PSDB rumo ao PSB e à Vice-Presidência na chapa de Lula pode ser comparada à missa de sétimo dia de um partido que foi uma das vigas mestras do sistema político inaugurado com a democracia, nos longínquos anos 1980. Indistinguível de outras de igual porte, a legenda continuará à disposição dos que ambicionam fazer da política uma profissão.

Na sua origem, o PSDB foi a agremiação centrista de construtores da democracia; de reformadores moderados da economia e das estruturas do Estado; e de inovadores no terreno das políticas sociais. Sustentou com o PT, embora apenas no plano nacional, competição eleitoral centrípeta, que tornou possível a estabilização das regras democráticas e significativo progresso social.

Aproximava-os o compromisso com a democracia; com a garantia das liberdades; e a busca de maior equidade. Distanciavam-se na importância atribuída à moderação fiscal; às atribuições do setor público e dos mercados; e às formas de obter reconhecimento no exterior.

Quando, no poder, o PT conseguiu dominar todo o território do centro à esquerda, o PSDB foi deslizando para a direita, recrutando ali quadros e a maioria do seu eleitorado, ao tempo em que mudavam suas bandeiras e valores. Até 2014 —mas só nas disputas presidenciais— o partido foi o desaguadouro dos votos antipetistas de todos os matizes da direita: ultraliberais ou conservadores; republicanos ou patrimonialistas; democratas ou nostálgicos da ditadura.

Bruno Boghossian: O presidente involuntário

Folha de S. Paulo

Presidente disfarça interesses para repetir a ideia de que o poder é uma missão divina

A rotina de eventos antecipados de campanha, passeios de moto e comícios golpistas tem cansado Jair Bolsonaro. Num encontro com líderes evangélicos, o presidente disse que não vê a hora de deixar o cargo para "ir para a praia, tomar um caldo de cana na rua, voltar a pescar". Embora passe boa parte do tempo pensando na reeleição, ele insiste no figurino do governante involuntário.

Bolsonaro não explora essa imagem à toa. Atualmente, a maioria da população concorda com ele e gostaria de vê-lo longe do Palácio do Planalto a partir do ano que vem. Mas o presidente trabalha para reconquistar a coalizão de eleitores que lhe deu votos suficientes para garantir sua vitória em 2018.

Vinicius Torres Freire: Árabes, Putin, Bolsonaro e gasolina

Folha de S. Paulo

Conversas políticas e mercado alucinado derrubam preço do petróleo e amanhã vai ser outro dia

No final da tarde europeia, Yusef al-Otaliba tuitou. O preço do petróleo deu outra despencada. Al-Otaliba é o embaixador dos Emirados Árabes Unidos nos EUA e figura política de peso em seu país. Na nota que acompanhava o tuíte, escreveu: "Somos a favor de aumentos de produção [de petróleo] e vamos estimular a Opep a pensar em níveis de produção mais altos".

E daí? O preço da sua gasolina pode ter a ver com decisões da Opep, com boatos de uma remota negociação de cessar-fogo na Ucrânia, com o fato de a União Europeia querer dar um jeito suave no seu abastecimento de energia e com as pressões políticas de Joe Biden no mundo do petróleo.

Pode ser que Jair Bolsonaro também tenha a algo a ver com isso, pois se desespera ao ver que a carestia dos combustíveis pode tornar sua reeleição ainda mais difícil. Quer fazer algo faz ano, mas está empacado feito uma mula, por ignorância e desarticulação política, o que talvez seja uma sorte. No mais, a balançada dos mercados pode não passar desses movimentos de manadas ou de cardumes de sardinhas.

Ruy Castro: É o mesmo estupro

Folha de S. Paulo

A guerra ignora as tragédias individuais, mas é repulsivo que alguns se aproveitem delas

A guerra da Ucrânia nos entra dia e noite pelos olhos, ouvidos e corações, mas pergunto-me se temos como avaliar a tragédia dos que estão participando dela no papel de alvo: a população civil. É terrível imaginar que, em meio aos bombardeios, a vida segue inexorável para tantos ucranianos que, há duas semanas, nada tinham a temer do futuro próximo. Penso, por exemplo, nas gestantes com parto previsto para o começo de março nas condições com que sempre sonharam. Como imaginar que suas contrações se dariam num subterrâneo apinhado e imundo?

Maria Cristina Fernandes: Gás para começar outra vez

Valor Econômico  

Parlamentarismo branco de Brasília é quem move troca na Petrobras

O almirante Eduardo Bacellar Leal Ferreira chegou à presidência do Conselho de Administração da Petrobras junto com o governo Jair Bolsonaro. O estatuto prevê que seu mandato, de até dois anos, poderia ser renovado três vezes consecutivas.

O almirante poderia, portanto, atravessar o próximo mandato presidencial inteiro, mas deixará o cargo sem que apresente óbices a seu exercício.

Se aprovado pela mesma assembleia, o engenheiro Rodolfo Landim poderá, no limite, manter o cargo até 2030, atravessando os dois próximos mandatos presidenciais.

A escalada dos combustíveis é tão danosa que a troca é associada ao impulso do presidente em meter a mão na política de preços da estatal.

Cálculos independentes já apontam defasagem no preço determinado pela política de paridade internacional, de 25% a 30%. A vontade do presidente já tem sido, de alguma forma, contemplada. Para atendê-lo mais ainda seria preciso enfrentar o câmbio, os projetos de lei que tramitam no Congresso, além do superveniente Vladimir Putin.

Lu Aiko Otta: Menos impostos nos combustíveis, lá e cá

Valor Econômico

Tratada como vilã, tributação no Brasil é menor do que na média dos países da OCDE

Tratada como vilã na novela dos combustíveis, a tributação sobre esses produtos no Brasil é menor do que na média dos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Aqui se paga 36,8% sobre o preço final da gasolina e 21% no diesel, ante 52,6% e 47,3% na média das principais economias do mundo.

Os dados estão na nota técnica “O Sistema Tributário dos Países da OCDE e as Principais Recomendações da Entidade: Fornecendo Parâmetros para a Reforma Tributária no Brasil”, elaborada por Pedro Humberto Bruno de Carvalho Junior, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Janela partidária dá mais força a Centrão nas eleições

Valor Econômico

Enfraquecimento do Executivo e maior autonomia do Centrão, que com bancadas crescentes, comanda o Legislativo, é desafio para próximo presidente

A janela para a troca de partidos está aberta até o dia 1 de abril e o que conta, como sempre, é a busca do dinheiro para a disputa das eleições deste ano. O fundo eleitoral mais que dobrou, para R$ 4,9 bilhões, e não por outro motivo as bancadas que mais devem crescer são as dos partidos do Centrão, que terão o maior quinhão dos recursos. O fundo é distribuído levando em conta as bancadas eleitas em 2018 e não as hoje atuantes na Câmara dos Deputados.

Seja quem for o próximo presidente da República, terá de se entender com um bloco de centro fisiológico reforçado em número de parlamentares e com muito mais poder decisório sobre o Orçamento, como se comprova neste ano em que os recursos das emendas somam R$ 33,5 bilhões, ou um terço das despesas discricionárias da União.

O presidente eleito tende a atrair a adesão do bloco centrista, mas sob compromissos de repartição do poder que podem se revelar paralisantes, a depender da margem de vitória e de sua capacidade de formar alianças, habilidade obrigatória desprezada pelo presidente Jair Bolsonaro, com as consequências que se conhece. À repulsa de formação de um bloco de apoio no Congresso seguiu-se a dependência absoluta do Centrão, que ocupa a Casa Civil e a Secretaria de Governo, além de ter palavra decisiva nas mudanças orçamentárias.

Poesia | Joaquim Cardozo: Os mundos paralelos

Existe um EU dentro de mim
que não me pertence
não é meu.

Mas pode estar em mim;
do outro lado de mim.
Lado que comigo não tem contato.
Um EU antagônico para o meu ser de agora
Agora e agônico.

O que faço está mais além desfeito:
É um fazer contrafeito que morre
E renasce, depois, no meu peito.

Nada me vem contra o que está de mim vizinho.
O que me vem é contra o que de eterno em mim me oprime
— Aquilo que está no que era de outra vez;
E que esteve noutro sentido e ainda perdura e se antepõe
E que me destrói, me impõe, me presume e suprime.

Todos os meus atos são atos reflexos
No projetivo espelho tempo/espaço, no fechado não denso.
Correspondência injetiva, deprimente, fria, de interno entorno.

Ouço a voz paralela a minha voz,
Ouço o canto que é um eco do que, outrora, foi meu.
Em conflito com o que poderia ser silêncio
Se este pudesse fluir lentamente como o tempo
E ser, se pudesse, confundidamente tempo-silêncio

No que aqui é doce, no paralelo é amargo
No que aqui é macio no paralelo é áspero
Mundo paralelo!
afogar
Nele é que vou me apagar, me sumir, me perder,
Me esconder, para sempre, no esquecer.
Noitemente amanhecer.

Música | Geraldo Azevedo, Elba Ramalho: Chorando e Cantando

 

quarta-feira, 9 de março de 2022

Opinião do dia | Antonio Gramsci*: "partido político"


"Será necessária a ação política (em sentido estrito) para que se possa falar de "partido político"? Pode-se observar que no mundo moderno, em muitos países, os partidos orgânicos e fundamentais, por necessidade de luta ou por alguma outra razão, dividiram-se em frações, cada uma das quais assume o nome de partido e, inclusive, de partido independente. Por isso, muitas vezes o Estado-Maior intelectual do partido orgânico não pertence a nenhuma dessas frações, mas opera como se fosse uma força dirigente em si mesma, superior aos partidos e às vezes reconhecida como tal pelo público. Esta função pode ser estudada com maior precisão se se parte do ponto de vista de que de um jornal (ou um grupo de jornais), uma revista (ou um grupo de revistas) são também "partidos", "frações de partido" ou "funções de determinados partidos",

*Antonio Gramsci(1891-1937), Cadernos do Cárcere, V. 3, p. 349, Civilização Brasileira, 2007

Vera Magalhães: Pérolas de presente no 8 de Março

O Globo

Uma das formas mais comuns nos discursos feministas para marcar que 8 de Março não é uma data para vender flores ou perfumes, e sim uma oportunidade de fomentar discussões a respeito da condição feminina e da desigualdade de gêneros no Brasil e no mundo, foi pedir aos homens que, nesse dia, não deem flores às mulheres.

Pois, em 2022, o debate público trocou rosas por pérolas, mas não aquelas que adornam lindas joias, e sim as bobagens que, na gíria, ganharam essa denominação.

Antes das 7h, ao levantar, fui surpreendida por um post da jornalista Natuza Nery republicando o anúncio de um ciclo de palestras sobre a participação feminina na política “estrelado” apenas por… homens! Jair Bolsonaro, os ministros Paulo Guedes (Economia) e Tarcísio Gomes de Freitas (Infraestrutura), o presidente da Câmara, Arthur Lira, e o vice-governador de São Paulo, Rodrigo Garcia, palestrariam, ao longo de vários dias, a respeito desse tema sobre o qual têm tanto a dizer. As mulheres? Estariam na plateia, claro, aprendendo.

Elio Gaspari: Alckmin na Vice de Lula

O Globo

A ideia é fazer um governo de coalizão

Lula e Geraldo Alckmin estão fechando a aliança, e o ex-governador e ex-candidato do PSDB à Presidência será o vice na chapa do petista. Como aliança, é um golpe de mestre. Vacina Lula e recoloca Alckmin no cenário de que foi afastado por sucessivas derrotas e erros de julgamento.

Na sua origem, estaria o interesse de Lula de, uma vez eleito, formar um governo de coalizão, à semelhança da base política que sustentou Angela Merkel na Alemanha. Esse raciocínio teria partido de Lula.

Durante seus oito anos de governo, o líder petista teve um vice empresário, limpo e bem-sucedido. José Alencar foi leal e discreto. Quando fazia contraponto ao presidente na política econômica, combinava antes e demarcava limites razoáveis. Alckmin é um político correto e de lealdades acima da média, mas sua biografia não é a de Alencar.

Bernardo Mello Franco: A solidão de Moro

O Globo

Sergio Moro é novato na política, mas já aprendeu a se livrar de aliados incômodos. O ex-juiz foi rápido para rifar Arthur do Val, o Mamãe Falei. “Jamais dividirei meu palanque e apoiarei pessoas que têm esse tipo de opinião”, tuitou na noite de sexta, quando o falastrão ainda voava de volta da Ucrânia.

O deputado youtuber virou uma companhia tóxica após ofender refugiadas em plena guerra. A questão é que ele sempre usou “esse tipo de opinião” para se promover. Mesmo assim, Moro o havia escolhido para dividir o palanque em São Paulo.

Fundador do MBL, Do Val integra a turma da nova direita que aposta no insulto como arma política. Em 2020, chamou o padre Julio Lancellotti de “cafetão da miséria”. Antes disso, xingou ministros do Supremo, invadiu a Faculdade de Medicina da USP, ofendeu colegas na Assembleia Legislativa e conseguiu ser expulso do DEM por mau comportamento.

Luiz Carlos Azedo: Doria avalia opções diante do próprio fracasso pré-eleitoral

Correio Braziliense

Não se pode descartar a possibilidade de o tucano paulista desistir da candidatura à Presidência, mas dificilmente o fará como derrotado por uma conspiração interna

Avança uma conspiração surda na bancada paulista do PSDB para que o governador de São Paulo, João Doria, jogue a toalha e desista de ser candidato. As conversas entre paulistas e tucanos dissidentes, que querem pôr o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, no lugar de Doria, têm conexões com os aliados do Cidadania, que aprovou uma federação com os tucanos, e antigos líderes do União Brasil, que se afastaram de Doria por causa da filiação do vice-governador Rodrigo Garcia (ex-DEM) ao PSDB.

A terra se move sob os pés de Doria porque as pesquisas mostram que sua rejeição é a mais alta entre todos os candidatos e sua candidatura não encorpa nem mesmo em São Paulo. Os tucanos paulistas estão chegando à conclusão de que a insistência de Doria com a candidatura pode resultar na derrota de Rodrigo Garcia — que assumirá o governo de São Paulo e concorrerá à eleição — para o ex-prefeito paulista Fernando Haddad. A consolidação do nome do ex-governador Geraldo Alckmin como vice na chapa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo PSB mostra que o conflito com o ex-governador Márcio França está sendo resolvido.

Vinicius Torres Freire: Petróleo sobe para nível de inflação séria, mas boicote americano não causa colapso

Folha de S. Paulo

Embargo dos EUA não será acompanhado pela UE, que poderia levar preços além de US$ 200

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, confirmou na tarde desta terça-feira (8) que barrou a compra de petróleo russo. O Reino Unido disse que vai reduzir suas importações da Rússia a zero até o final do ano.

Por vários motivos, a decisão acaba por colocar o preço do barril em novo patamar, perto de US$ 125 (R$ 636), por ora, alta de 60% neste ano. É preço de inflação em alta no mundo inteiro, mas não de colapso. O barril chegou a ficar menos caro depois do discurso de Biden. As Bolsas subiram.

O embargo americano não será acompanhado pela União Europeia ("demos um passo que outros países não podem dar", disse Biden), que importa da Rússia cerca de 25% do petróleo que consome. Um embargo europeu poderia levar os preços além de US$ 200 (R$ 1.017). Não haveria tão cedo produção alternativa na Opep, mesmo se sanções americanas contra Irã e Venezuela fossem suspensas amanhã, um milagre político (mais sobre esse problema mais adiante).

A decisão americana poderia tirar pouco petróleo do mercado, menos de 1% do total das exportações mundiais. Mas parte desses barris embargados por Biden pode ser vendida em outros mercados, para aliados da Rússia, como a China, que assim deixaria de comprar de outros produtores (embora essa decisão não seja simples, como mudar de padaria). A produção americana pode aumentar, por outros motivos que não o embargo. Europeus e americanos negociam aumentos de produção com outros países.

Bruno Boghossian: Petróleo e reeleição

Folha de S. Paulo

Ameaça de disparada de preços dos combustíveis produziu um ajuste na máquina da reeleição

O risco de uma disparada do preço dos combustíveis produziu um ajuste na máquina eleitoral de Jair Bolsonaro. Embora defendam o uso de armas diferentes, a ala política e a equipe econômica do governo sinalizam que alguma intervenção será necessária para conter aumentos excessivos nas bombas nos próximos meses. A campanha levou os dois lados a falarem línguas parecidas.

A reação do consórcio bolsonarista à nova alta do petróleo indica o perigo que esse grupo enxerga nas bombas de combustíveis. Símbolo do desconforto vivido pelos brasileiros nos últimos anos, a alta acentuada de preços é considerada dentro do governo uma das principais ameaças à recuperação da popularidade do presidente e à reeleição.

Mariliz Pereira Jorge: Bolsonaro e Arthur do Val são o retrato do homem médio brasileiro

Folha de S. Paulo

Deputado deu de cara com a parede de tolerância zero erguida pelo movimento feminista

Para quem tem boa memória, o episódio protagonizado pelo deputado estadual Arthur do Val é só um revival ainda mais grotesco do que aconteceu na Copa da Rússia, em 2018.

Torcedores brasileiros se aproveitaram da simpatia das mulheres do Leste Europeu, tão alardeada pelo membro do MBL, para abraçá-las e gritar "buceta rosa", enquanto elas sorriam sem entender o assédio que sofriam. Dias depois, mais de dez homens interromperam o trabalho de uma jornalista estrangeira aos gritos de "chupar xoxota é uma coisa linda".

Matheus Schuch: Bolsonaro pede a evangélicos apoio contra ‘ameaça socialista’

Valor Econômico

Presidente volta a sugerir ação política de Forças Armadas

BRASÍLIA - Preocupado com o assédio de outros candidatos à Presidência da República a líderes evangélicos, o presidente Jair Bolsonaro recebeu dezenas de representantes do segmento, ontem, em um café da tarde no Palácio da Alvorada. Em clima de campanha eleitoral, pediu apoio contra o que chama de “ameaça socialista” no país e, se dirigindo aos religiosos, prometeu dirigir o país “para o lado que os senhores desejarem”.

Sob aplausos de pastores que antes anunciaram alinhamento a seu governo, Bolsonaro também exaltou seu compromisso em colocar um evangélico no Supremo Tribunal Federal (STF), já materializado com a indicação de André Mendonça, e voltou a dizer que vê autoridades no país atuando “fora das quatro linhas da Constituição” - discurso que já utilizou diversas vezes para atacar ministros da Corte.

Fernando Exman: A infértil lista de prioridades do Brasil

Valor Econômico

Governo lança plano de fertilizantes em momento crítico

Da cadeira na qual estava recostado observando o movimento, o vendedor de mudas, sementes e insumos agrícolas conseguia avistar do outro lado da avenida o edifício que hoje abriga a Escola Superior de Defesa.

A loja fica em frente ao amplo terreno que já sediou a Escola Superior de Guerra (ESG) e a extinta Escola de Administração Fazendária (Esaf), onde hoje grande parte das atenções devem estar na guerra iniciada com a invasão da Ucrânia pela Rússia. E para lá chegar ele teria apenas que atravessar a via expressa que liga o bairro do Jardim Botânico de ponta a ponta. Caminhada curta, menos de 300 metros, mas precisaria enfrentar a chuva.

Coisas de Brasília. Nesta época do ano, é possível safar-se de uma chuva torrencial apenas mudando de calçada.

Daniel Rittner: Sem boiada para mais fertilizantes

Valor Econômico

Aumentar produção de potássio requer debate sem mentiras

Usar a guerra na Ucrânia como catapulta para o projeto de lei que libera mineração em terras indígenas coloca o debate sobre a dependência do potássio importado pelo Brasil no mesmo nível de maturidade da infame tentativa de “passar a boiada” sobre o meio ambiente enquanto as atenções do país se concentravam na pandemia. A opinião pública, o Parlamento, as organizações da sociedade civil, habitantes da Amazônia merecem uma discussão mais qualificada. Se não há interesse do governo em oferecê-la, eis alguns pontos de partida.

Paulo Delgado*: Os engajados

O Estado de S. Paulo.

Retrógrado, Putin quer ser tratado como poder não econômico, capaz de consolidar noções de honra e coexistência pela ferocidade militar

Quem só fala a verdade quando quer não se importa de mentir quando precisa. A reputação nada vale onde o oportunismo compõe o tipo sem compromisso, a mistura híbrida de esquerdista-direitista, liberal-intervencionista, paz e amor-belicista, constitucionalista-compadraste e cristão que não acredita no inferno. Vladimir Putin cavalga um cavalo morto cujo galope medonho levará a Rússia ao abismo.

A cortesia deste ator dúbio e compulsivo com a pátria é o engajamento brutal e “sincero” em empreendimentos egocêntricos. Engajamento fanático que dá ao crédulo a impressão de ser um forte. Cão de guarda da mentira, bobo da corte da verdade, tolera-se tudo em democracia extraviada.

O engajado se encaixa rápido onde poucos pairam acima do seu tempo, têm mínima cultura clássica e não veem o orgulho como aristocracia da honra pessoal. É a síntese do mundo imperfeito do carreirista que se dá por esclarecido. Entusiasta dos atalhos, ele amontoa tudo e roda como moinho. Se o herói é ruim, ele se convence de que é um ruim melhor, pois o outro é o ruim deles.

Paul Krugman: Custos graves, não catastróficos

O Estado de S. Paulo.

Para países pobres, onde gastos com comida pesam mais, choque no preço do trigo será severo

Quando Vladimir Putin invadiu a Ucrânia, acho justo afirmar que a maioria dos observadores esperava que ele se sairia bem. Em vez disso, aqui estamos, quase duas semanas depois, com Kiev e Kharkiv ainda resistindo, e as forças invasoras retidas por uma feroz resistência ucraniana – auxiliada pela rápida injeção de armas do Ocidente – e desastrosos problemas logísticos. Ao mesmo tempo, as sanções do Ocidente contra a economia russa claramente já surtem efeitos severos, que podem piorar.

Obviamente, tudo pode mudar. Por agora, contudo, Putin está encarando consequências bem piores do que poderia ter imaginado. Infelizmente, afrontar uma agressão não sai de graça. Os eventos na Ucrânia e na Rússia devem impor, em particular, custos severos à economia mundial. A questão é: quão severos?

Minha resposta preliminar é que serão custos graves, mas não catastróficos. Especificamente, o choque de Putin não parece tão grave quanto os choques do petróleo que abalaram o mundo nos anos 70.

Como naquela época, o golpe na economia mundial ocorre nos preços de commodities. A Rússia é uma grande exportadora de petróleo e gás natural; tanto a Rússia quanto a Ucrânia são – ou eram – grandes exportadores de trigo. Então, a guerra está surtindo grande impacto nos preços tanto da energia quanto dos alimentos.

Cristovam Buarque*: Lições da Ucrânia

Correio Braziliense 

A primeira lição é o custo elevado de invadir um país. Até aqui, Rússia e Estados Unidos invadiram Afeganistão e Iraque, sem que os demais países impusessem sanções. Graças à Ucrânia, esses e outros países estão descobrindo o preço de invasões. A segunda lição é a constatação universal de que os mesmos países que rejeitam refugiados da Síria e da África são generosos e solidários com os ucranianos. Esta lição deve servir para o mundo cobrar da Europa os braços abertos aos refugiados obrigados a fugirem das guerras e da pobreza. 

Outra lição: a guerra da Ucrânia permite perceber o erro cometido, 30 anos atrás, quando as nações ocidentais não aproveitaram a falência da União Soviética, para apoiar a Rússia, exigindo seu desarmamento nuclear. Tudo indica que seria difícil provocar o desarmamento unilateral absoluto da Rússia, mas não teria sido difícil aproveitar aquele momento para obter-se o desarmamento nuclear pleno de todas as nações. 

Mas, no lugar de estender a mão e ajudar na recuperação econômica da Rússia, em troca de incorporá-la em paz no capitalismo ocidental, o Ocidente preferiu fortalecer a OTAN, cercar a Rússia com armas. Tratou-a como se ainda fosse a União Soviética e a guerra fria continuasse; como inimiga sem justificativa, porque Ocidente e Oriente são capitalistas, não disputam ideias nem colônias. O Ocidente poderia ter evitado essa guerra  na Ucrânia, se tivesse agido com mais visão para o futuro e menos prisão ao passado. Em 1945, o EUA teve esta sabedoria, quando deu apoio para reconstruir a Alemanha. Em 1922, poderia ter feito uma versão do Plano Marshall para a Rússia e incorporado este país no mundo ocidental, desarmado. A arrogância dos EUA e a da Europa Ocidental preferiram aproveitar a fraqueza russa e levar a OTAN até as fronteiras para cercar a ex-URSS. A Rússia encontrou um autocrata que manipulou regras democráticas para chegar ao poder e ficar por tempo indeterminado. 

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Não existe saída fácil para a alta dos combustíveis

O Globo

A história do controle de preços no Brasil é uma tragédia — das cenas patéticas dos fiscais do Sarney correndo atrás de gado no pasto ao descalabro que quase levou a Petrobras à bancarrota nos tempos de Dilma Rousseff. Só o passado já recomendaria uma reflexão profunda antes de qualquer decisão sobre controlar o preço dos combustíveis para compensar a alta do petróleo resultante da invasão russa à Ucrânia.

É compreensível que qualquer governante sinta essa tentação. O diesel mais caro aumenta o custo dos fretes; esse aumento é repassado aos produtos transportados; e produtos mais caros alimentam uma inflação já alta. O francês Olivier Blanchard, ex-economista-chefe do FMI hoje no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), defendeu em fevereiro a adoção de subsídios e isenção de impostos para tentar frear o preço dos combustíveis. Segundo ele, o impacto do aumento na inflação ascendente poderia erodir a confiança nos bancos centrais e provocar uma recessão mais séria.

Poesia | Fernando Pessoa: Charlatão da sinceridade (interpretação de Maria Betânia)

 

Música | Luiz Melodia: Diz que fui por aí

 

terça-feira, 8 de março de 2022

Merval Pereira: Botequim digital

O Globo

‘As redes sociais dão o direito à palavra a uma legião de imbecis que antes falavam apenas num bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade.’ Essa constatação do escritor e linguista Umberto Eco nunca foi tão exata quanto no caso do deputado estadual (ainda?) Arthur do Val, que se elegeu com o pseudônimo de Mamãe Falei, nome de um programa seu no YouTube.

Numa pseudo “campanha humanitária”, ele viajou para a Ucrânia e, de lá, mandou relatos para seus amigos. Relatos da guerra? Das tragédias que viu? Não, sobre as mulheres ucranianas, nas filas de refugiados de guerra. “Só tem deusa”, comenta com uma rede de amigos, que não se encontram “nem nas melhores baladas” de São Paulo. Melhor ainda, parece dizer ele: “Elas são fáceis porque são pobres”.

Um sujeito que é capaz de fazer tais comentários em meio a uma guerra pode ser considerado humano? O machismo de Mamãe Falei já havia sido constatado numa escola em greve no Paraná, em que ele foi acusado de ter assediado sexualmente algumas estudantes que faziam um cordão de isolamento para impedir sua entrada. Essa masculinidade tóxica, que tem no presidente Bolsonaro um exemplar característico, é usual nas relações de poder no Brasil, o que, se não reagirmos com vigor, nos tornará uma terra de trogloditas onde um comportamento regressivo, animalesco, tem permissão de existir.

Carlos Andreazza: Contra o jogo

O Globo

Está no Senado o projeto que legaliza o jogo no Brasil — inclusive o do bicho, hoje inconfundível com a exploração de máquinas caça-níqueis. Um disparate, obra do tipo de ganância que desconhece a realidade do chão, o campo minado, em que se quer dar as cartas.

Pergunto: o businessman a fim de entrar na parada estará disposto a concorrer com os mafiosos?

Nem precisa rolar os dados. Costuma dar em sangue. Ou em sociedade. Conhecemos a história. Outro dia mesmo, o Supremo trancou processo em que um bicheiro respondia por homicídio. A ideia, então, é formalizar o jogo ora explorado por criminosos perfeitamente livres para explorá-lo criminosamente?

Míriam Leitão: O grande risco das soluções erradas

O Globo

A crise econômica internacional se agravou muito ontem e está havendo um choque de petróleo. O economista Mohamed A. El-Erian prevê recessão de 30% para a Rússia. A economista Monica de Bolle diz que o rublo está perto do colapso e prevê consequências espalhadas na economia do mundo. O risco é enfrentar uma crise deste tamanho com o governo Bolsonaro, que nunca tem visão estratégica e improvisa as soluções. Ainda mais agora com as eleições.

A agricultura brasileira é o setor mais dinâmico da nossa economia e enfrentará, com a guerra de Putin, a falta de fertilizantes. Aqui dentro há mais soluções do que o governo imagina. A mineração em terra indígena, que Bolsonaro quer, não é absolutamente a solução para problema. É uma proposta oportunista e extremamente perigosa.

Luiz Carlos Azedo: Bolsonaro mira reeleição com “economia de guerra

Correio Braziliense

Além de tabelar combustíveis, também quer aproveitar a tragédia da Ucrânia para passar a boiada no Congresso. Voltou a defender a aprovação do projeto que libera a mineração em terras indígenas

O presidente Jair Bolsonaro considera a guerra da Ucrânia uma oportunidade, e não uma ameaça. Todas as suas declarações sinalizam nessa direção. Embora o Brasil tenha se posicionado contra a agressão de Vladimir Putin, que pôs o mundo diante de uma provável recessão e à beira de uma terceira guerra mundial, Bolsonaro flerta com o perigo, mantendo as relações com a Federação Russa no mesmo patamar em que estavam quando visitou Moscou, no mês passado.

Não é que não esteja levando em conta o impacto das sanções econômicas à Rússia aqui no Brasil, muito pelo contrário. É que esse impacto virou o pretexto de que precisava para a adoção de medidas econômicas de caráter populista, agora com a narrativa de que é preciso mitigar os efeitos da crise internacional com uma “economia de guerra”. Além de se beneficiar da polarização com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que esvazia a chamada terceira via — cujos candidatos não decolam nem desistem, muito menos se unificam —, Bolsonaro aposta na retomada gradativa dos empregos; no efeito dos programas sociais de transferência de renda, como o Auxílio Brasil; e no fim da pandemia de covid-19, graças à vacinação que tanto combateu.

Andrea Jubé: A tática antigolpe de Lula e Bolsonaro

Valor Econômico

Temor é de que para atrair o centro, Lula espante a periferia

Antípodas políticos, o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fazem cálculos políticos quase convergentes para escolher o companheiro de chapa.

O primeiro quer, de novo, um general da reserva para se blindar de um golpe do Congresso. O petista quer um ex-adversário, possível símbolo de uma ampla aliança política, para se blindar de um golpe militar.

Dois fatores traduziriam a escolha de Geraldo Alckmin, um ex-algoz do PT, para compor a chapa presidencial com Lula. O capital político do ex-tucano para ajudar o PT a tentar eleger pela primeira vez o governador de São Paulo, façanha nunca antes alcançada pela legenda.

Pedro Cafardo: O provável triste fim do grupo do Brics

Valor Econômico

Ação de Putin vai provocar inflação elevada em todo o mundo e levar Rússia ao isolamento e empobrecimento ainda maior

anos uma guerra mundial sanitária, provocada pela covid-19, depara-se agora com uma guerra convencional, detonada pela vontade do autocrata russo Vladimir Putin.

A invasão da Ucrânia pela Rússia era uma das ameaças que pairavam sobre o planeta, capaz de impedir a recuperação global iniciada com a redução da pandemia. Analistas não acreditavam que Putin fosse tão insano a ponto de autorizar uma invasão no momento em que o mundo começa a superar a pandemia. Ele provou que é.

A despeito de suas reservas de US$ 630 bilhões, já parcialmente bloqueadas, e de seu poderio nuclear, herança da ex-União Soviética, a Rússia tem um desempenho econômico pífio nas duas últimas décadas. Jim O’Neill, em entrevista ao Valor de quarta-feira (2/3), disse que a Rússia está querendo ser “mais do que seu peso econômico lhe permite”, 2% do PIB global.