sexta-feira, 30 de abril de 2021

Hélio Schwartsman - Viés de imunidade

- Folha de S. Paulo

O melhor modo de escapar ao excesso de otimismo é incorporar o princípio da mediocridade

Contra os vieses lutam os próprios deuses em vão. Uma das ilusões cognitivas mais danosas e esquisitas de que se tem notícia é a falácia do planejamento, que pode ser definida como a tendência de pessoas e instituições de subestimar o tempo e os recursos necessários para a realização de um projeto.

Ela é danosa porque leva governos, empresas e indivíduos a comprometer-se com orçamentos e cronogramas que não conseguirão cumprir, incorrendo em custos adicionais. E é esquisita porque, mesmo sabendo que o viés existe —qual governo ignora que orçamentos estouram e obras atrasam?—, temos enorme dificuldade para compensá-lo —e é por isso que orçamentos continuam estourando e obras atrasando.

Reinaldo Azevedo - Bolsonaro oferece 400 mil mortos ao lúmpen-milicianato

- Folha de S. Paulo

Bolsonaro deu voz aos que viviam nas sombras, esgueirando-se nos escuros da história nunca visitados pela teoria política

A instalação da CPI da Covid mexe com os bofes de Jair Bolsonaro. Agride o seu senso de onipotência —injustificado segundo um crivo objetivo, mas compreensível se visto por lentes clínicas. O golpista de primeira hora, que nunca precisou de comissão de inquérito ou de oposição organizada para pregar o rompimento da ordem —como provam os atos antidemocráticos que patrocinou já em 2019—, não aceita que sua obra seja questionada. Os, até agora, mais de 400 mil mortos são o seu grande legado ao lúmpen-milicianato que o aplaude.

A política sempre deve ter precedência na análise da vida pública, embora os dados de personalidade não possam jamais ser ignorados. Uma leitura mais aberta de Maquiavel sugere que a “fortuna” e a “virtù” —a história herdada que condiciona alternativas e as escolhas ditadas pela personalidade— também podem ter um enlace negativo. Em vez de surgir o Príncipe, eis que aparece o ogro, que a democracia tem de esconjurar. Ou morreremos todos.

Vinicius Torres Freire - Biden dá medo no Brasil conservador

- Folha de S. Paulo

Presidente não é estatista nem Roosevelt e segue certa tradição econômica dos EUA

Joe Biden quer o “Estado máximo”. Seria um Franklin Roosevelt. A gente lê essas tolices sobre os planos do presidente americano e seu primeiro discurso para o Congresso, nesta semana. Anos de mercadismo tosco e a degradação geral da inteligência no país talvez expliquem a incapacidade de apenas ler ou ouvir o que disse Biden. Quem sabe a tolice na verdade seja contrapropaganda prévia, receio de que mesmo a brisa de conversa mais progressista sopre por aqui.

“Wall Street não construiu este país. A classe média construiu este país. E os sindicatos constroem a classe média. E por isso que estou pedindo ao Congresso que aprove a Lei de Proteção ao Direito de se Organizar... Por falar nisso, vamos aprovar o salário mínimo de US$ 15 [por hora]. Ninguém deveria trabalhar 40 horas por semana e ainda viver abaixo da linha de pobreza. E precisamos garantir mais igualdade e oportunidade para as mulheres”, discursou o presidente.

Biden quer gastar mais? Quer. Se todos os seus planos forem aprovados, o aumento de gasto deve ficar em 1,5% a 2% do PIB americano, por ano, em parte coberto por aumentos de arrecadação e de impostos sobre ricos e empresas (que estão em baixa histórica, de oito décadas). Nem de longe há o “risco” de que os EUA comecem a se parecer com a Escandinávia, com o Canadá ou, “pior”, menos ainda com a França.

Biden propôs alguma mudança econômica institucional maior? Ainda não. Talvez o faça na regulação ambiental, que terá vida dura no Senado.

Rogério Furquim Werneck - Tensão política e reformas

- O Globo

É pouco provável que haja tranquilidade política para a aprovação de projetos complexos, como as reformas

Não falta quem nutra a fantasia de que, nos próximos meses, antes da completa mobilização de Brasília com as eleições de 2022, ainda haverá uma janela de tranquilidade política que permitirá engajamento efetivo do Congresso no avanço do programa de reformas. O mais provável, contudo, é que o paralisante clima de alta tensão política que hoje se vê no País perdure por muitos meses mais.

Com base em longo histórico de CPIs criadas com grande estardalhaço e que acabaram dando em nada, vem sendo arguido, agora, que a recém-instalada CPI da Pandemia pode perfeitamente se revelar um completo fiasco. Mas a verdade é que as peculiaridades dessa CPI tornam pouco crível o prognóstico de que, mais uma vez, a montanha acabará por parir um rato.

Flávia Oliveira - Vade-retro, malévola trindade

- O Globo

Deveria escrever sobre a polícia fluminense ter multiplicado o número de operações e pessoas mortas em favelas em 2021, apesar de proibidas pelo Supremo Tribunal Federal. Desde o início do ano, segundo a plataforma Fogo Cruzado, a Região Metropolitana do Rio registrou 1.415 tiroteios, que deixaram 305 mortos e 313 feridos. Em 454 ocorrências havia agentes do estado, 22 morreram, 27 foram feridos. Houve 21 chacinas, quando uma só situação deixa pelo menos três vítimas fatais. A Rede de Observatórios de Segurança contabilizou 257 operações policiais com 69 mortes no primeiro trimestre deste ano, respectivamente, 55% e 33% a mais que no mesmo período de 2020.

Pensei em festejar o tombamento do terreiro de Joãozinho da Gomeia, espaço de memória e resistência dos cultos afro-brasieiros, agora preservado, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, epicentro da intolerância religiosa no estado. Ou a transformação do 27 de março, data de nascimento do pai de santo mais famoso do Rio, no Dia Estadual de Conscientização contra o Racismo Religioso. Ou o plano de investimentos do presidente Joe Biden, que pretende apresentar aos EUA o Estado de bem-estar social estabelecido na Constituição brasileira, mas nunca inteiramente aplicado.

Jorge Henrique Cartaxo* - Sobre os meios e os modos

Bolsonaro, desde a sua posse na presidência da República, vem ofendendo a vida, a dignidade humana, a razão, a ciência, a decência, as instituições, a democracia, a Nação e a República.

Parece não haver lugar para a decência no Brasil. Além dos desencontros diários do presidente Bolsonaro com a língua portuguesa, o bom senso e a empatia, não raro seus ministros inundam a República com persecutórias aleivosias. O camelô da 25 de março que faz as vezes de ministro da Economia, o personagem de Dante, Paulo Guedes, durante uma reunião do Conselho de Saúde Suplementar na última terça-feira – que ele não sabia que estava sendo gravada – expressou, sem receios, todo o seu olhar sinistro sobre o Brasil, os brasileiros e o nosso tenebroso tempo. “Nas universidades públicas ensinam Paulo Freire, sexo para crianças de 5 anos e há maconha e bebidas nas unidades de ensino mantidas pelo governo”, professorou Paulo Guedes emulando as mais “eruditas” teses bolsonaristas. E num araujiano assombro diplomático acusou os chineses de terem inventado o coronavírus e uma vacina menos efetiva do que a vacina americana. “Os americanos têm 100 anos de investimento em pesquisa. Os caras falam: qual é o vírus? É esse? Tá bom. Decodifica. Tá aqui a vacina da Pfizer. É melhor que as outras. Então, vamos acreditar no setor privado”, vociferou Guedes, bolsonaristicamente, emporcalhando os fatos e a inteligência. Outras aberrações animaram a confraria palaciana que contou com a presença, dentre outros, dos ministros Luiz Eduardo Ramos, Marcelo Queiroga e Anderson Torres.

As insanidades dessa reunião foram tamanhas que se acredita que as ofensas primitivas do ministro Paulo Guedes, vazadas deliberadamente, cumprem uma estratégia no sentido de construir uma nova crise diante dos prováveis avanços da CPI da Covid instalada no início da semana no Senado. “Olha aí uma estratégia já até desbotada no governo federal. Sempre que um ministro não consegue cumprir o prometido ao povo brasileiro, para desviar a atenção do seu fracasso, copia uma das narrativas cretinas dos bolsonaristas ‘terraplanistas’ e soltam na mídia como se fosse uma ‘pérola’,” disse o deputado Fausto Pinto, presidente da Frente Parlamentar Brasil-China, formada por cerca de 270 deputados e senadores.

Nelson Motta - Romances fortes, verdades rudes

- O Globo

Não existe boa história sem ser bem contada, e nisso Marçal Aquino é mestre, com seu passado de repórter policial

Esperei 16 anos mas valeu a pena. “Baixo esplendor”, de Marçal Aquino, é sua volta triunfal ao livro depois de uma longa temporada como roteirista de séries barra pesada na televisão, como “Força tarefa” e “Supermax”, e de filmes como “O invasor” e “Eu receberia as piores notícias dos teus lindos lábios” (os dois inspirados em livros seus). Li todos os seus livros e vi seus filmes. Sou fã. Mas não perco o espírito crítico, nem meus critérios de qualidade da escrita e da trama, sou leitor exigente.

Com uma narração fluente e econômica, a história é ambientada no período mais violento da ditadura militar, com um policial que se infiltra em uma grande quadrilha de roubos de carga, se torna amigo de fé do chefe e se apaixona pela irmã dele, uma bela mulher de temperamento e sexualidade intensos. E tem que denunciá-los à polícia e decepcioná-los com a sua traição. Daí para diante tudo é spoiler em uma história eletrizante de crime, ética, amizade e amor.

Ruth de Aquino - "Nomadland" ensina a amar

- O Globo

O filme vencedor do Oscar desperta sentimentos contraditórios. Desalento e esperança. Tristeza e otimismo. Solidão e amizade. Medo e coragem. Luto e cura. É muito mais existencial do que político, embora critique o capitalismo selvagem. É sobre o sentido da vida e da morte. Por isso mesmo, ao receber o prêmio de melhor direção, a chinesa Zhao honrou os atores e atrizes, quase todos nômades reais, que buscaram a estrada para superar perdas pessoais ou financeiras. 

“Tenho pensado muito sobre como continuo a seguir quando as coisas ficam difíceis. Quando eu era criança na China, meu pai e eu costumávamos memorizar textos e poemas clássicos chineses e recitar juntos”, disse. “Eu me lembro de um que dizia: 'As pessoas, ao nascer, são boas'. Ainda acredito nisso. Sempre encontrei bondade nas pessoas que conheci. Em todos os lugares do mundo. Este Oscar é para qualquer pessoa que tem a coragem de se manter boa e ver o que há de bom nos outros.”

O que a mídia pensa: Opiniões / Editoriais

EDITORIAIS

Os carnavalescos da CPI

O Estado de S. Paulo

Jair Bolsonaro acusa a CPI de promover um “carnaval fora de época”. Depoimento de Pazuello pode ser a Quarta-Feira de Cinzas.

Opresidente Jair Bolsonaro acusou a CPI da Pandemia de promover um “carnaval fora de época”. A folia, em sua concepção, é protagonizada pelo bloco de independentes e oposicionistas, maioria na comissão. Para o presidente, esses desafetos exploram politicamente a CPI para prejudicá-lo, poupando governadores e prefeitos que, segundo ele, são os verdadeiros responsáveis pela tragédia da pandemia por terem “roubado” o dinheiro que o governo federal lhes repassou para enfrentar a crise.

“A CPI vai investigar o quê? Eu dei dinheiro para os caras (governadores e prefeitos). O total foi mais de R$ 700 bilhões, auxílio emergencial no meio. Muitos roubaram dinheiro, desviaram. Agora vem uma CPI investigar conduta minha?”, declarou o presidente.

Música | Nana Caymmi - Resposta ao tempo (Cristóvão Bastos/ Aldir Blanc)

 

Poesia | Joaquim Cardozo - Recife Morto

Recife. Pontes e canais.
Alvarengas, açúcar, água rude, água negra.
Torres da tradição desvairadas, aflitas,
Apontam para o abismo negro-azul das estrelas.
Pátio do Paraíso. Praça de São Pedro.
Lages carcomidas, decrépitas calçadas.
Falam baixo na pedra as vozes da alma antiga.
Gotas de som sobre a cidade,
Gritos de metal
Que o silêncio da treva condensa em harmonia.
As horas caem dos relógios do Diário,
Da Faculdade de Direito e do Convento de São Francisco:
Duas, três, quatro... a alvorada se anuncia.
Agora ao ouvir as horas que as torres apregoam
Vou navegando o mar de sombra das vielas
E o meu olhar penetra o reflexo, o prodígio,
A humilde proteção dos telhados sombrios,
O equilíbrio burguês dos postes e dos mastros,
A ironia curiosa das sacadas.
As janelas das velhas casas negras,
Bocas abertas desdentadas, dizem versos
Para a mudez imbecil dos espaços imóveis.
Vagam fantasmas pelas velhas ruas
Ao passo que em falsete a voz fina do vento
Faz rir os cartazes.
Asas imponderáveis, úmidos véus enormes.
Figuras amplas dilatadas no tempo,
Vultos brancos de aparições estranhas.
Vindos do mar, do céu... sonhos!... evocações!...
A invasão! Caravelas no horizonte!
Holandeses! Vryburg!
Motins. Procissões. Ruído de soldados em marcha.

Os andaimes parecem patíbulos erguidos.

Vão pela noite na alva do suplício
Os mártires
Dos grandes sonhos lapidados.

Duendes!
Manhã vindoura. No ar prenúncio dos sinos.
Recife,
Ao clamor desta hora noturna e mágica,
Vejo-te morto, mutilado, grande,
Pregado à cruz das novas avenidas.
E as mãos longas e verdes
Da madrugada
Te acariciam.

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Merval Pereira - Isolado no mundo

- O Globo

Além do erro primário de ter deixado para comprar vacinas de última hora, ficando exposto à vontade do vendedor e do mercado mundial, o Palácio do Planalto, justamente por desdenhar a vacinação em massa como solução para a pandemia de Covid-19, deixou de planejar ações, não apenas de logística, mas também geopolíticas, que nos levaram a ser um país pária num mundo globalizado, quer queiram os Bolsonaros da vida ou não.

Estamos diante de um quadro de isolamento nunca antes enfrentado, com agentes públicos desqualificados para superá-lo. O ministro da Economia, Paulo Guedes, que a cada dia se encolhe mais, acabou contagiado pela mediocridade do governo que pretendia controlar no seu superministério.

O tratamento dado à China no governo Bolsonaro é ridículo, para dizer o menos. Assumimos uma guerra que não é nossa, é dos Estados Unidos, passamos a dar estocadas no nosso maior parceiro comercial e segunda economia do mundo, consumidora voraz de commodities, que já começou a retaliar. Aumentou em 300% a importação de soja dos Estados Unidos e reduziu a do Brasil.

Outras retaliações virão, e é impressionante que um técnico bem formado como Guedes se deixe levar pela idiossincrasia do presidente em relação ao comunismo chinês, desqualificando a vacina chinesa contra a Covid-19 para enaltecer o poder da livre-iniciativa americana, que teria produzido uma vacina mais eficaz que a chinesa.

Míriam Leitão - O pacto do foco na CPI da Covid

- O Globo

A maioria da CPI vai trabalhar para a produção de provas, usando os depoimentos, mas principalmente a busca de documentos. A ideia que eu ouvi de senadores é que o tempo está a favor da CPI porque, a cada dia, o próprio governo fornece mais indícios com suas falas e trapalhadas. O grupo governista já tem uma divisão, apenas três assinaram ontem o mandado de segurança impetrado contra a relatoria de Renan Calheiros. A estratégia oficial tem sido insistir nessa briga, acusar governadores, defender a ida de médicos que prescrevem remédios ineficazes. Isso alimenta a milícia digital, mas não tem resultado prático e jurídico.

Há um “pacto do foco”, me explicou um dos senadores com os quais conversei. E o foco está sobre as ações e omissões do governo federal nesta pandemia, como diz o fato determinado. Houve pelo menos 11 oportunidades de compra de vacina que o governo desperdiçou, há inúmeros indícios de prevaricação e negligência na gestão da pandemia que já se aproxima de 400 mil mortos. Há até a atitude do presidente, um governante que nunca visitou um hospital e tratou de forma desumana o sofrimento do país. “Vamos parar com mimimi, vão ficar chorando até quando?” Existe uma coleção interminável de falas absurdas, mas também dados concretos sobre erros e omissões.

Malu Gaspar - O circo está armado

- O Globo

O senador Renan Calheiros abriu o espetáculo e foi ao ataque logo na primeira sessão da CPI da Covid:

— Não foi acaso ou flagelo divino que nos trouxe a este quadro. Há responsáveis, evidentemente. Há culpados por ação, omissão, desídia ou incompetência. E eles, em se comprovando, serão responsabilizados.

Citando os ditadores sanguinários Slobodan Milosevic e Augusto Pinochet, Renan disse que “os crimes contra a Humanidade não prescrevem jamais”. Não chegou a chamar Jair Bolsonaro de genocida, mas lançou mão de um “vidas negras importam” inédito em sua retórica. Com os holofotes do picadeiro voltados para ele, falou com a segurança de quem tem a maioria na comissão — apoio de 7 dos 11 titulares — e colheu os esperados louros, especialmente na opinião pública.

Maria Cristina Fernandes - Governo no modo pânico

- Valor Econômico

Dentro e fora da CPI é o pós-Bolsonaro que está em jogo

O sincericídio do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) na instalação da CPI da pandemia mostrou que o potencial de uma investigação do gênero é dado pela quantidade de erros que alvos cometem a partir da iminência de seu funcionamento. Primeiro foi o ex-secretário de Comunicação, Fabio Wajngarten, que partiu para o ataque contra o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, na tentativa de se blindar da investigação sobre a intermediação entre indústrias farmacêuticas e o governo.

Depois veio o ministro da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, que, ao revelar ter tomado vacina escondido do presidente, como mostraram Thaísa Oliveira e Cézar Feitosa (CBN), poderá ser convocado para explicar porque o governo, publicamente, empurra a população ao matadouro enquanto seus ministros, privadamente, se acautelam contra o vírus.

Ao escancarar a cobrança aos aliados contra a instalação da CPI, Flávio Bolsonaro fragilizou ainda mais seu pai. O governo gastou muito mais do que podia para eleger Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco (DEM-MG) à presidência da Câmara e do Senado. Entregou ao Centrão grandes orçamentos da administração pública como o FNDE, a Codevasf e a Funasa. E, finalmente, acabou de renovar o passe de sua sobrevivência ao custo de R$ 49 bilhões para as emendas parlamentares no Orçamento de 2021, como notou Delfim Netto (“FSP”).

William Waack - O milagre da permanência

- O Estado de S. Paulo

Bolsonaro cedeu a outras forças políticas o terreno que era seu

Jair Bolsonaro está ganhando fácil a corrida para saber qual ocupante do Palácio do Planalto conseguiu perder mais rápido o capital político conquistado numa eleição direta e plebiscitária. É curioso observar como ele mesmo “trabalhou” para criar um vácuo político imediatamente ocupado.

De fato, nunca o Executivo brasileiro foi tão controlado, contido ou encurralado pelo Judiciário e Legislativo. Têm razão os generais de pijama que cochicham a Bolsonaro que STF e Congresso extrapolaram suas competências. Mas não se trata, como pretendem Bolsonaro e seus seguidores (em diminuição acentuada) de uma “conspiração”.

A principal responsável é a atuação do próprio Bolsonaro e sua extraordinária incompetência política. No momento em que enfrentar a crise da pandemia e suas consequências para a economia demandaria uma altíssima capacidade de liderança, coordenação e foco estratégico, o “centro” do poder está ocupado por uma curiosa aliança tácita, volátil e fluida de juízes e parlamentares.

Ricardo Noblat - Bolsonaro faz o jogo de Renan Calheiros, que agradece

- Blog do Noblat / Veja

Senador vira líder da oposição ao governo

O governo e aliados do senador Renan Calheiros (MDB-AL) querem que ele baixe o tom dos seus discursos como relator da CPI da Covid-19. Aos aliados, Renan até poderá dar ouvidos para não perder parte deles, mas ao governo, não, nem faria sentido.

O senador já foi dado muitas vezes como politicamente morto, para depois recuperar-se e seguir adiante. De 2018 para cá, amargou dois duros reveses: perdeu a eleição para presidente do Senado e viu Arthur Lira (PP-AL) agigantar-se em Alagoas.

Entre Renan e Lira, Bolsonaro escolheu Lira como seu mais forte aliado no Congresso. Não só o ajudou Lira eleger-se presidente da Câmara dos Deputados, como ajudou Davi Alcolumbre (DEM-AP) a derrotar Renan na eleição para presidente do Senado.

Como um cangaceiro esperto, Renan é bom de tocaia. Escondeu-se no mato nos últimos dois anos para ressurgir de repente como a principal estrela da mais delicada ação política que poderá influenciar os resultados das eleições do ano que vem.

Sérgio Magalhães* - Depois da tempestade...

- O Globo

As propostas de Joe Biden significam uma guinada histórica?

O filósofo francês Edgar Morin, em entrevista ao jornal “Le Monde”, há um ano, sugeriu a possibilidade de as forças do bem saírem vitoriosas no pós-pandemia, ainda que sejam fracas e dispersas. E que, nessa situação, quando o improvável pode acontecer, é sadio tomarmos o partido da esperança. Entendi que aí havia um chamamento bonito e sedutor.

Referia-se à interdependência, evidenciada pela pandemia, entre economia, política, sociedade, clima, planeta e cidade. E que o mundo poderia traçar-se um novo rumo, atento aos valores mais nobres de Humanidade.

Tinha lido meses antes Byung-Chul Han, o filósofo sul-coreano/alemão. Muito me impressionou a descrição dos danos ao trabalho e às profissões, levados pelas novas tecnologias, sob incentivo da hegemonia financeira vigente. Sumiram profissões, empregos e trabalhos, deixando à deriva multidões desassistidas. Han atribui a esse estado o sentimento de frustração de parcelas crescentes da população, causando o que, para ele, é a doença mais importante deste século: a depressão. Sem dúvida, fenômeno incrementado pós-2008, quando governos carrearam fortunas para salvar os bancos e o sistema financeiro — e deixaram à míngua os mortais endividados.

Luiz Carlos Azedo - Lula, ser ou não ser

- Correio Braziliense

O petista tem revelado preocupação com o desgaste causado pela Lava-Jato, porque suas condenações foram anuladas, mas ainda não foi absolvido

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva cogita não disputar a Presidência da República e participar da chapa do PT como vice, repetindo o estratagema peronista que elegeu o presidente Alberto Fernández na Argentina, tendo a ex-presidente Cristina Kirchner como vice. Nesse caso, o nome mais cotado para encabeçar a chapa seria o do jovem governador do Ceará, Camilo Santana, um engenheiro agrônomo que governa o estado desde 2014 e foi reeleito com facilidade. Supostamente, o acordo permitiria uma reaproximação com Ciro Gomes, cuja candidatura pelo PDT virou uma pedra no sapato de Lula, e também com o senador tucano Tasso Jereissati (PSDB-CE).

O assunto está sendo discutido pelo círculo mais próximo de aliados de Lula e já divide a cúpula petista. O ex-presidente tem revelado preocupação com o desgaste causado pela Operação Lava-Jato e pelo fato de que ainda está numa posição vulnerável, porque suas condenações foram anuladas, mas ainda não foi absolvido. Seu processo será retomado na Justiça Federal em Brasília, o que pode se tornar uma frente de erosão da sua candidatura. Além disso, está com 75 anos; caso fosse eleito, terminaria o mandato com 80 anos.

Bernardo Pasqualette* - Riocentro, a noite que não terminou

- O Globo

Às vésperas do Dia do Trabalho, há 40 anos, um show em comemoração à data havia sido programado no Riocentro. No palco, grandes nomes da MPB. No estacionamento, duas bombas dentro de um Puma. Um dos artefatos explodiu antes da hora, vitimando dois militares (um deles fatalmente) e trazendo à luz a faceta mais sombria do grupo que se insurgia ante o processo de abertura política.

No açodamento inicial das investigações, organizações clandestinas de esquerda foram apontadas como suspeitas pelas autoridades encarregadas do caso. Faltou esclarecer, no entanto, que tais organizações já haviam sido extintas quase uma década antes. Precipitação semelhante àquela verbalizada pelo presidente Figueiredo ao tomar conhecimento do episódio: “Finalmente os comunistas fizeram uma bobagem”.

O tempo, em pouco tempo, se encarregaria de revelar todo o desengano do presidente.

Desmoralizada no estacionamento do centro de convenções, a linha-dura se recolheu. Rumou ao ostracismo e a negócios mais lucrativos e obscuros. A partir daquela data, os atentados deixaram de ocorrer, e o processo de abertura política pôde seguir seu caminho livre de embaraços. Desaguaria na Nova República e nos novos ares democráticos que o Brasil passou a vivenciar a partir de março de 1985.

Fabio Graner - Risco de inflação no curto prazo é desafio para CBS

- Valor Econômico

Equipe econômica acha arriscado incluir inicialmente na proposta de reforma tributos estaduais e municipais

Uma reforma tributária que envolva somente transformar o PIS/Cofins na Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) tem riscos de causar desequilíbrios no curto prazo, entre eles uma subida da inflação, e dificultar a necessária retomada da economia. O alerta foi feito pelo economista e diretor do Centro de Cidadania Fiscal (CCiF), Bernard Appy, um dos mentores da PEC 45, que promove uma ampla reforma na tributação de consumo no Brasil, não só na esfera federal.

“A CBS não tem regra de transição e, portanto, tem um impacto sobre preços relativos que ocorre todo de uma vez. Essa mudança pode gerar reações muito negativas, inclusive com impacto inflacionário”, disse ao Valor. “No longo prazo, quem tem redução de tributo, por pressão concorrencial, acaba sendo obrigado a passar para preço. No curto prazo, não necessariamente. E quem tem aumento de tributo tende a repassar para preço. Não porque o desenho da CBS seja errado, mas por não ter transição, os impactos no curto prazo podem não ser positivos”, acrescentou.

Adriana Fernandes - Regras e dribles

- O Estado de S. Paulo

A pandemia da covid-19 e a crise do Orçamento disparada pela cobiça por mais emendas parlamentares estão mostrando a necessidade de reconstrução do arcabouço fiscal e orçamentário do País após o fim da crise sanitária.

O Brasil tem regras demais, políticas públicas eficientes de menos e tentativas intermináveis de dribles. O resultado tem sido a perda de credibilidade e a costura com remendos dos buracos com mais regras complexas e discussões sem fim de interpretação das que já existem.

O fato é que a pandemia mostrou que as regras não funcionaram bem. Nem para garantir o direcionamento rápido e necessário de recursos para mitigar o impacto da crise sanitária ou para assegurar que esse dinheiro não fosse utilizado para fins que não o enfrentamento da doença.

José Pastore* - A ‘discriminação’ da mulher

- O Estado de S. Paulo

O PLC 130/2011 recentemente aprovado pelo Senado federal estabelece que os empregadores serão obrigados a pagar uma multa de cinco vezes o valor da diferença entre o salário do homem e o da mulher na mesma função se assim for determinado pela Justiça do Trabalho. Por causa de mudanças introduzidas pelos senadores, o projeto voltou para a Câmara dos Deputados (casa de origem) para uma nova avaliação.

Os senadores partiram do fato que as mulheres são discriminadas porque ganham 23% menos do que os homens. Essa média é real, mas não separa os salários do trabalho formal do informal. Mais do que os homens, as mulheres são mais frequentes no segmento informal que, como regra, paga salários mais baixos (diaristas, faxineiras, empregadas domésticas, cuidadoras etc.). Além disso, são muitas as mulheres que trabalham menos horas por semana.

Maria Hermínia Tavares* - O que o país terá de pagar

- Folha de S. Paulo

Impedido de pôr abaixo o edifício democrático, o morador da 'casa de vidro' vem destruindo capacidades estatais

O presidente foi derrotado em seu intento de reduzir a democracia a mera fachada do autoritarismo plebiscitário. O Congresso e o STF, os poderes subnacionais, a imprensa e a sociedade organizada travaram suas investidas. As Forças Armadas, que ele supunha suas, não lhe deram o apoio esperado.

Impedido de pôr abaixo o edifício democrático, o morador da "casa de vidro" vem paulatinamente destruindo capacidades estatais —a habilidade de mobilizar os conhecimentos acumulados nas burocracias públicas e as estruturas administrativas--, necessárias ao funcionamento cotidiano de qualquer governo.

No excelente livro "O Quinto Risco", que descreve o início da gestão Trump, o jornalista e escritor americano Michael Lewis observa que a ignorância e a negligência caracterizaram o trato da máquina governamental pelo ídolo do nosso ex-capitão. Essa conduta, aponta Lewis, propicia a ascensão aos escalões superiores de três tipos de seres: os que querem defender interesses privados, próprios ou daqueles a quem servem; os que desejam apequenar o Estado; e os muitos que são pura e simplesmente incompetentes.

Mariliz Pereira Jorge - 400 mil mortos

- Folha de S. Paulo

Parece ousadia a nossa querer viver tanto

"É lindo viver", escreveu nesta quarta (28) o jornalista João Batista Natali, intubado durante 21 dias por complicações da Covid-19. Paulo Guedes não deve concordar. Nem Jair Bolsonaro.

Natali contou que, ainda internado, chorou compulsivamente ao ouvir "Paixão segundo São Mateus", de Bach, depois do longo período em que "deixou de existir". Eu me emocionei ao imaginar Natali impactado ao experimentar novamente, depois de ter flertado de perto com a morte, momento tão banal: uma música bonita no rádio.

Esse apreço pela vida deve ser coisa de jornalista sentimentaloide, como somos eu e Natali. Horas antes de o texto do jornalista ser publicado na Folha, o titular da economia dizia que a longevidade é insustentável aos cofres públicos. "Todo mundo quer viver cem anos."

Gabriela Prioli - Vacina? Só se for escondidinho

- Folha de S. Paulo

A CPI mostrou que Bolsonaro sabe se organizar

A abertura da CPI nos mostrou uma coisa: Bolsonaro, quando quer, sabe se organizar, desde que seja para defender seus próprios interesses. Em poucos dias, a Casa Civil produziu uma lista de acusações mais completa e detalhada do que a própria comissão. Ele sabe o que ele fez.

Não se organizou antes porque o motivo não lhe parecia bom o suficiente. Trabalhar para salvar a própria pele, vá lá, mas se o risco que se apresenta for a morte de centenas de milhares de brasileiros, o esforço não vale a pena ou não interessa.

Afinal, não dá mesmo para todo mundo querer viver cem anos, como alertou Paulo Guedes na mesma reunião do Conselho de Saúde Complementar em que falou que a China, principal fornecedor de vacinas e insumos ao Brasil, inventou o vírus e criticou a Coronavac, que representa 84% das vacinas aplicadas no país, apesar do trabalho de Bolsonaro em descredibilizar o imunizante.

Em discurso, Biden pede EUA com forte ação social interna e protagonismo global

 

O que a mídia pensa: Opiniões/Editoriais

EDITORIAIS

Nova mudança na equipe de Guedes desperta ceticismo

 O Globo

No início do governo, Paulo Guedes assumiu como uma espécie de superministro, concentrando sob seu comando o que antes eram quatro ministérios. Sua meta era um programa econômico de matriz liberal, que reduzisse o peso do Estado sobre a economia, com destaque para as reformas da Previdência, tributária e administrativa, além do programa estratégico de privatizações.

Desde o início, Guedes se fez notar por declarações de impacto e promessas tão ambiciosas quanto irrealizáveis. Aos poucos, seu ministério foi sofrendo as consequências previsíveis da pressão política e da resistência às reformas predominante há décadas em Brasília. O plano anunciado mal saiu da prancheta. Apenas a reforma previdenciária, já encaminhada na gestão Temer, foi aprovada, com a desidratação previsível para atender a bases eleitorais do presidente Jair Bolsonaro — em particular, militares e policiais.

A tributária foi levada ao Congresso numa versão mais fraca que duas PECs que já tramitavam no Senado e na Câmara. A administrativa ainda continua no campo das boas intenções. O programa de privatizações, apesar do sucesso em leilões recentes, ainda anda a passos trôpegos. Os recursos emergenciais exigidos pela pandemia contribuíram para deixar em segundo plano qualquer projeto cujo objetivo fosse a austeridade e a saúde fiscal.

Música | Odeon - Ernesto Nazareth - Choro das 3

 

Poesia | Fernando Pessoa - A Praça

A praça da Figueira de manhã,

Quando o dia é de sol (como acontece

Sempre em Lisboa), nunca em mim esquece,

Embora seja uma memória vã.

Há tanta coisa mais interessante

Que aquele lugar lógico e plebeu,

Mas amo aquilo, mesmo aqui ... Sei eu

Por que o amo? Não importa. Adiante ...

Isto de sensações só vale a pena

Se a gente se não põe a olhar para elas.

Nenhuma delas em mim serena...

De resto, nada em mim é certo e está

De acordo comigo próprio. As horas belas

São as dos outros ou as que não há.

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Vera Magalhães - Caem todas as máscaras

- O Globo

Os ministros Paulo Guedes e Luiz Eduardo Ramos merecem ser convocados para depor na finalmente instalada CPI da Covid só com base nas declarações estarrecedoras que, sem saber que eram gravados, emitiram na reunião desta terça-feira do Conselho Nacional de Saúde Suplementar.

Num dos ataques verborrágicos que sempre tem e, depois de flagrado, diz ter sido mal interpretado, o ministro da Economia do Brasil diz, numa só tacada, que os chineses inventaram o coronavírus (teoria conspiratória sem comprovação), mas produziram vacinas ruins, piores que as dos americanos, para combatê-lo.

A vacina chinesa CoronaVac é uma das poucas de que os brasileiros dispõem para se proteger do vírus. Só está disponível por ação do governo de São Paulo e do Instituto Butantan, porque o governo a que Guedes serve boicotou sua aprovação e disse por muito tempo que não a compraria.

Bernardo Mello Franco - O primeiro milagre da CPI

- O Globo

A CPI da Covid já produziu seu primeiro milagre: transformou Flávio Bolsonaro num defensor do isolamento social. Ontem o senador tentou convencer os colegas a deixar a investigação para depois. “Por que não esperar todo mundo se vacinar?”, sugeriu.

A preocupação tardia com a doença não foi a única surpresa do discurso. Com a pele bronzeada pelas férias no Ceará, o primeiro-filho atacou o presidente do Senado, o relator da CPI e até a bancada feminina. O falatório não virou votos para o governo, mas escancarou o desespero do clã presidencial.

Pelo que se viu ontem, a família tem motivos para temer a comissão. Na sessão inaugural, a tropa bolsonarista levou um baile. Flávio ainda foi obrigado a engolir uma descompostura da senadora Eliziane Gama. Ela avisou que ali não era lugar para chute na porta e ironia machista. Só faltou dizer que o Zero Um não estava em Rio das Pedras.

Miguel Caballero – CPI é risco para Exército, e discurso de Renan testa fidelidade a Bolsonaro

- O Globo

Não faltaram recados e indiretas a Jair Bolsonaro, embora Renan Calheiros tenha evitado citar nominalmente o presidente da República. Em seu discurso na primeira sessão da CPI da Covid, o relator, porém, foi mais direto ao falar das Forças Armadas, botando o dedo diretamente na relação que é uma das principais bases de apoio do governo Bolsonaro.

Em dois anos e meio, os militares apoiaram o presidenciável Jair Bolsonaro, ocuparam muitos postos na administração federal e, em que pesem alguns estremecimentos e rompimento com os que foram demitidos do governo, os principais atritos entre o presidente e os militares se restringiram à preocupação manifestada fora dos microfones de que um mau desempenho do governo contamine a imagem das Forças Armadas. Esse ponto jamais esteve tão em risco como agora, e a CPI será um novo teste da solidez dessa aliança.

Luiz Carlos Azedo - Governo dispensa adversários

- Correio Braziliense

Guedes imprimiu as próprias digitais na resistência do governo à aquisição das vacinas durante o ano passado, prato cheio para a CPI da Covid.

No mesmo dia em que a CPI da Covid foi instalada no Senado, cerimônia na qual o seu relator, senador Renan Calheiros (MDB-AL), afirmou que seu trabalho será orientado pela ciência e não pelo negacionismo, doa a quem doer, o ministro da Economia, Paulo Guedes, em reunião do Conselho de Saúde Complementar, voltou a alimentar especulações de que o novo coronavírus é um produto de laboratório da China. De quebra, menosprezou a vacina produzida pelo Instituto Butantan, a CoronaVac, de origem chinesa, ao afirmar que a principal vacina utilizada para conter a pandemia no Brasil, aplicada em 80% dos imunizados até agora, é menos efetiva do que o imunizante da Pfizer, produzido nos Estados Unidos, embora ele próprio tenha utilizado a vacina chinesa.

Guedes não sabia que a reunião estava sendo gravada, mas isso não atenua a gravidade do que falou, pela importância do cargo que ocupa e pelo fato de que a China é o principal parceiro comercial do Brasil e o nosso maior fornecedor de insumos para produção de vacinas: “O chinês inventou o vírus, e a vacina dele é menos efetiva do que a americana. O americano tem 100 anos de investimento em pesquisa. Então, os caras falam: ‘Qual é o vírus? É esse? Tá bom, decodifica’. Tá aqui a vacina da Pfizer. É melhor do que as outras”, disse Guedes. Sua declaração ocorre num momento delicadíssimo, em que o Brasil precisa desesperadamente de insumos chineses para produzir tanto a vacina do Butantan quanto a que está sendo fabricada pela Fiocruz, a AstraZeneca.

Carlos Melo* - Fragilidade política e ruas definirão jogo

- O Estado de S. Paulo

CPI é território em disputa: a oposição quer enfraquecer e, se puder, derrubar o governo; governistas agem na contenção de desgastes do Executivo. As condições iniciais tampouco independem de circunstâncias mais gerais, localizadas no governo e no país. Ao final, serão as condições de contorno – a insatisfação popular e a fragilidade política – que definirão o jogo.

Sempre houve abuso na utilização de CPIS. Oposições sem projeto e oportunismo fisiológico as usaram descoladas do contexto mais amplo. Normalmente, “deu em nada”. Mas, o oposto também se deu: a “CPI do PC Farias” derrubou Collor; a “CPI dos Correios” resultou no mensalão e destroçou promissoras lideranças do PT. Nos dois casos, a insatisfação geral se dava para além do objeto da CPI.

Rosângela Bittar - Sinfonia em meio à barbárie

- O Estado de S. Paulo

Livro de Aldo Rebelo transforma releitura da história política em instantâneo da atualidade.

No capítulo 12 do seu livro O Quinto Movimento – propostas para uma construção inacabada, a ser lançado nos próximos dias, o ex-ministro da Defesa Aldo Rebelo transforma o que seria uma releitura da história política brasileira em um instantâneo da atualidade. Sua visão sobre os desafios impostos à democracia revela que não tem sido fácil mantê-la sob Jair Bolsonaro.

Sem citá-lo nominalmente, traça um retrato da ameaça à República exercida pelo comandante supremo das Forças Armadas, o presidente. As instituições democráticas, na sua avaliação, perdem prestí- gio, identidade e substância.

Ricardo Noblat - CPI da Covid-19 decola e ameaça abater o governo que voa baixo

- Blog do Noblat / Veja

Um bando de amadores

Sem querer ofender os pets, 27 de abril de 2021 ficará marcado como mais um dia de cão para o presidente Jair Bolsonaro e seus filhotes. Tudo aconteceu no período da manhã, a saber:

1) O Senado instala a CPI da Covid-19 com Renan Calheiros (MDB-AL) como relator e o governo em minoria;

2) O general Luiz Eduardo Ramos, chefe da Casa Civil, confessa que se vacinou às escondidas para que não pegasse mal para ele;

3) O ministro Paulo Guedes, da Economia, diz que o vírus é chinês e que a vacina americana é melhor do que a vacina chinesa.

Enquanto isso, distraído, Bolsonaro confraternizava bem humorado com devotos nos jardins do Palácio da Alvorada e plantava mais uma notícia falsa, desta vez contra o PT.

Segundo ele, há um vídeo que mostra Lula, Dilma, Haddad, e atrás deles, dois homens se beijando. “Beijo de língua”, garantiu, “coisa que nem homem e mulher fazem em público”.

Fernando Exman - O receituário do diversionismo

- Valor Econômico

Agenda positiva visa proteger imagem de um governo acossado

Acossado por uma comissão parlamentar de inquérito, em tensão permanente com os outros Poderes e em meio a dificuldades para combater tanto a pandemia quanto seus efeitos econômicos, o governo fará de tudo para lançar, dia após dia, notícias que busquem desviar a atenção dos problemas que acometem o país.

O programa de governo deu lugar a um plano de sobrevivência política. Este, por sua vez, permanece a reboque das turbulências que a própria administração Jair Bolsonaro cria.