quarta-feira, 12 de abril de 2023

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Cenário global traz más notícias para o Brasil

O Globo

Alerta do FMI sobre aperto monetário parece feito sob medida para Lula conter arroubos populistas contra BC

A economia brasileira deverá crescer 0,9% neste ano, de acordo com a última previsão divulgada ontem pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) no relatório Perspectivas da Economia Mundial. É pouco menos do projetado em janeiro. Confirmada a estimativa, o Brasil fechará 2023 com uma desaceleração diante do ano anterior, quando cresceu 2,9%. A previsão impõe ainda mais dificuldades ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva no seu primeiro ano de mandato. As condições econômicas globais que tanto lhe sorriram nos dois primeiros mandatos poderão selar um destino diferente, caso ele insista em ideias superadas.

Os economistas do FMI traduziram em números o que já era pressentido por quem acompanha o noticiário econômico. O cenário global exige cautela. Embora o FMI não tenha mudado substancialmente a previsão de crescimento global para 2023 (2,8%), os riscos aumentaram.

Com o aperto monetário, a inflação global tem caído, mas, descontados os preços mais voláteis, como alimentos e energia, o quadro é distinto. Persiste a curva ascendente do núcleo inflacionário em vários países (entre eles o Brasil). Para piorar, as vulnerabilidades do sistema bancário nos Estados Unidos e na Europa — reveladas pela quebra do Silicon Valley Bank e do Credit Suisse — despertam temores de complicações no mercado financeiro, com perigo de contágio e um eventual aperto de crédito global.

Poesia | Ascenso Ferreira por Chico Anysio

 

Música | Fabiana Cozza - Canto de Ossanha (Vinicius de Moraes / Baden Powell)

 

terça-feira, 11 de abril de 2023

Luiz Carlos Azedo - “O mais importante é defender a democracia”

Correio Braziliense

Bolsonaro é um surfista da onda conservadora liderada pela extrema direita, que se formou no mundo a partir das frustrações sociais engendradas pela globalização

Na avaliação dos 100 dias do governo Lula 3, uma simples pergunta justifica a afirmação que intitula esta coluna: como seriam esses 100 dias se o ex-presidente Jair Bolsonaro tivesse sido reeleito? Não é preciso muita imaginação para responder: teria sido a consolidação do seu projeto de governo “iliberal”, cuja principal tarefa seria subjugar o Supremo Tribunal Federal (STF). É o que está acontecendo em Israel, que vive uma crise política sem precedentes.

Aliado de primeira hora de Bolsonaro, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, voltou ao poder e pretende fazer uma polêmica reforma judicial, que dará mais poder ao Executivo em detrimento do Judiciário. Além da oposição de grandes manifestações populares em defesa da democracia, o premier não tem o apoio dos militares ao golpe iliberal que pretende realizar. Ontem, Netanyahu anunciou que o ministro da Defesa, Yoav Gallant, que havia demitido, permanecerá no cargo. No mês passado, o militar havia afirmado que a reforma do Judiciário estava colocando em risco a segurança de Israel.

Bolsonaro é um surfista da onda conservadora liderada pela extrema direita, que se formou no mundo a partir das frustrações sociais engendradas pela globalização. Em alguns lugares, o “iliberalismo” se apresentou como política de governo, como nos Estados Unidos, com Donald Trump, e na Itália, pelo vice-primeiro-ministro Matteo Salvini. Em outros, se institucionalizou como regime político, como na Rússia, de Vladimir Putin; na Turquia, de Tayyip Erdogan; e na Hungria, de Viktor Urban, que cunhou a expressão “democracia iliberal”, como se as duas coisas fossem compatíveis.

Pedro Cafardo - Empresários sugerem ‘plano safra industrial’

Valor Econômico

Medidas emergenciais podem antecipar a reindustrialização

A reindustrialização do país é um objetivo explícito do governo Lula, praticamente não tem opositores, mas depende de planejamento de médio e longo prazo e da criação de um amplo programa nacional. É possível, porém, tomar medidas executivas rápidas que não dependam do Congresso e possam desde já começar a reerguer a indústria.

Um grupo de pessoas ligadas ao setor industrial, principalmente empresários e economistas, denominado “Brasil Primeiro”, dedicou meses a estudar um minipacote com medidas simples para reanimar a indústria enquanto o plano maior estaria sendo desenhado pelo novo governo.

Na sexta-feira (31/3), o grupo entregou ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, suas propostas emergenciais. O documento tem só quatro itens, majoritariamente relacionados à indústria, mas cujos benefícios alcançariam a sociedade em geral. São ideias de execuções facilitadas, quase todas dependentes apenas de atos administrativos e que podem aumentar a competitividade da indústria no curto prazo. Abaixo, um resumo dos quatro itens:

Andrea Jubé - Bahia é pauta de Lula na visita à China

Valor Econômico

Lula terá bilaterais com quatro CEOs em Pequim

Além dos contatos para atrair mais investidores para o Estado, o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), desembarcou há 11 dias na China também com a missão de preparar o terreno das reuniões bilaterais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com empresários em Pequim. Lula anunciará novos investimentos chineses no país na sexta-feira (14), ao lado do presidente Xi Jinping.

A Bahia será um dos Estados contemplados pelos investimentos - atualmente, é uma das três unidades da federação com mais aportes de recursos chineses, depois de São Paulo e de Minas Gerais.

São esperados os anúncios de início das obras da ponte ligando Salvador à Ilha de Itaparica e de um termo de compromisso com a Build Your Dreams (BYD), fabricante de carros e ônibus elétricos, que pretende se instalar na antiga fábrica da Ford no complexo de Camaçari (BA). O governo da Bahia media as negociações, mas BYD e Ford ainda não chegaram a um acordo quanto ao valor da transação.

Além de contratos milionários na área do agronegócio, outro anúncio esperado é a venda de 20 aviões modelo E195-E2, jatos de médio porte da Embraer. Não há confirmação, entretanto, da assinatura do contrato. O CEO da Embraer, Francisco Gomes Neto, faltou a uma agenda com Lula nessa segunda-feira e não é certo que ele retornará à China para integrar a comitiva presidencial.

Maria Clara R. M. do Prado - Efeitos do QE em novo cenário monetário

Valor Econômico

Parece que o sistema financeiro dos Estados Unidos ficou viciado nos aportes de liquidez do Federal Reserve

As discussões em torno da política monetária têm absorvido cada vez mais a atenção de economistas em outros países, muitos deles vinculados ao corpo técnico dos bancos centrais. Ao contrário do debate banal que orienta as opiniões a respeito do tema no Brasil, limitado ao nível da taxa de juros, há no exterior uma preocupação em entender as mudanças ocorridas na economia mundial nos últimos três anos e as necessárias adaptações na forma e na substância da atuação das autoridades monetárias.

Primeiro, vale contextualizar o novo cenário que está a inspirar tanta energia intelectual a respeito das questões relacionadas à moeda.

Muito tem se falado da mudança ocorrida na geopolítica, com a configuração consolidada de duas forças antagônicas, mas nem todos têm a dimensão do que isso significa. Até 2019, a percepção da rivalidade entre os Estados Unidos e a China restringia-se à esfera econômica, representada por uma disputa relacionada a preços e mercados que acabava por reforçar os efeitos benéficos da globalização sobre a inflação. O que se tem hoje é um outro panorama: uma acirrada disputa por hegemonia política que deslocou o eixo da atenção do mundo desenvolvido para a preservação de territórios no lugar da abertura além fronteiras.

Míriam Leitão – Para desenvolver a região amazônica

O Globo

A Amazônia legal tem um território sem destinação, uma espécie de terra de ninguém, do tamanho da França, Alemanha e Espanha somadas. São 143,6 milhões de hectares. Definir o destino dessas terras e levar o desmatamento a zero são as premissas para o desenvolvimento econômico. Essa é a conclusão do último relatório do projeto Amazônia 2030. Desta vez, o olhar é pela economia. “Uma agenda econômica tem muito a ver com a redução da incerteza e de melhoria do ambiente de negócios”, diz o economista Juliano Assunção da PUC. Beto Veríssimo, cofundador do Imazon, afirma que hoje existem empresas preparadas para investir em restauro da floresta em áreas públicas desmatadas e abandonadas, mas é preciso acabar com a incerteza.

— O plantio de árvores nativas para sequestrar carbono pode ser um grande negócio. Quem quer fazer restauração florestal, não consegue comprar áreas na região em escala porque não há título. Para fazer um negócio sério e plantar floresta é preciso haver segurança jurídica — diz Beto, que é também diretor do Centro de Empreendedorismo da Amazônia.

Carlos Andreazza - Será que concordo com Lira?

O Globo

Nunca imaginei que concordaria com Arthur Lira. Espero não me arrepender. A matéria da concordância é a proteção ao Marco Legal do Saneamento, aprovado pelo Congresso e sancionado em 2020; cujo objetivo tem décadas de atraso: universalizar a oferta de água e o esgotamento sanitário em dez anos.

A meta é ambiciosa. Não poderia ser diferente. Cem milhões de pessoas não têm rede de esgoto. São 35 milhões os sem água potável. Quase tudo vai por fazer. O Brasil precisa de intentos ousados para curto prazo. Em termos de saneamento, estamos — mesmo em algumas áreas de centros urbanos modernos — nalgum buraco entre 1930 e 1940.

Quem dera nossa vala fosse a língua de fezes que escorre pelas areias das praias — e que incorporamos como dado da paisagem. Nosso buraco é tão fundo que essa ferida em Copacabana se torna perfumaria. A nossa fossa é a que deriva de tirar a cabeça da bolha para exercício de imaginação simples: se é assim em Búzios, como será onde não se monta cartão-postal?

Falharam historicamente as empresas estaduais encarregadas de retirar cocô da frente da porta pela qual as crianças saem de casa para ir à escola. A explicação mais frequente em defesa dessas companhias — de que foram sucateadas pelo aparelhamento político-partidário — consiste na própria corroboração-constatação de inviabilidade do sistema. (Sendo os aparelhadores e seus apaniguados os que militam pela sustentação do esquema viciado gerador de doenças.)

Dora Kramer - 100 dias sem foco

Folha de S. Paulo

Sobram confusões, desacertos e retrocessos neste início do governo Luiz Inácio

Nada contra o "roadshow" internacional do presidente Luiz Inácio da Silva nem aos conselhos que dá ao mundo sobre como solucionar a guerra no Leste Europeu e nos palpites a respeito das relações entre países, notadamente ditaduras. Benfazejo o empenho em tirar o Brasil da condição de pária em que nos colocou o antecessor.

Bem-vinda também a revisão de atos nefastos, de decisões retrógradas, de comportamentos inaceitáveis e socialmente insensíveis. Fala-se em alívio civilizatório; de fato, uma vantagem. O desafogo, porém, traz o risco do repouso. E, pelo que temos visto nestes três meses e pouco, a trégua não se dá no conforto de um berço esplêndido.

Joel Pinheiro da Fonseca – 100 dias, sem Congresso

Folha de S. Paulo

A política está mudando com ou sem o governo Lula

Nesses primeiros cem dias, no lado positivo, podemos citar a reafirmação da democracia em face do golpismo, as medidas emergenciais de auxílio aos yanomamis, a retomada de políticas sociais, a recolocação do Brasil nas relações internacionais, a desmilitarização do governo, o anúncio do novo marco fiscal.

No lado negativo, brigas desnecessárias de Lula com o Banco Central e, principalmente, a tentativa de enfraquecer a Lei das Estatais e de travar qualquer processo de privatização.

Hélio Schwartsman - Lula e a Crimeia

Folha de S. Paulo

Presidente erra ao extrapolar lógica sindical para a geopolítica

A formação política de Lula deu-se nos sindicatos. Em negociações laborais, o "não dá para querer tudo" pode fazer sentido. Mas Lula erra ao extrapolar a lógica sindical para a geopolítica e insinuar que a Ucrânia precisa ceder território para encerrar a guerra com a Rússia. O conflito entre os dois países não se dá em torno de uma pauta em que ambas as partes exibem uma lista legítima de reivindicações, para a qual existe um ponto médio alcançável. Ao usar força militar para conquistar território, a Rússia violou a proibição às chamadas guerras de agressão, o que torna sua posição ilegítima.

Pedro Fernando Nery - E um arcabouço social?

O Estado de S. Paulo

Os algoritmos da política econômica indicam que estamos prontos para criar um arcabouço social

Podemos fazer política social de forma diferente. Desde pelo menos a Lei de Responsabilidade Fiscal, usamos gatilhos para que uma determinada variável se dirija a um patamar desejado. Por exemplo, proíbem-se “automaticamente” aumentos salariais se o gasto com pessoal estiver suficientemente alto. Por que não gatilhos para outras políticas públicas?

Mecanismos análogos aos da LRF foram instituídos no teto de gastos, na PEC Emergencial. A “algoritmização” existe em algum grau no próprio regime de metas de inflação (Selic deve subir ou descer para colocar a inflação no alvo). O Novo Arcabouço Fiscal tem também essa lógica de código: a dívida deve ser estabilizada, não podendo então a despesa crescer acima da receita. Esse crescimento da despesa dependerá de vários parâmetros, havendo maior folga se a arrecadação for bem (priorizando a demanda por investimento) e menor se for mal (priorizando a necessidade de primário).

Há vantagens nesse tipo de desenho: a política tem propósitos mais claros, a sociedade é educada sobre os trade offs envolvidos, grupos de interesse perdem força com gatilhos de proibições, noticiário e órgãos de controle podem objetivamente monitorar resultados.

Poderíamos algoritmizar também a política social. Ainda estamos fazendo policy como no século 20, apesar de uma disponibilidade de dados muito maior, que tendem a ser atualizados de forma mais veloz (ainda que não tanto quanto informações financeiras).

Eliane Cantanhêde - Desafio de Lula é botar economia nos trilhos

O Estado de S. Paulo

Lula acerta no social, mas erra com dúvidas na economia e ataques às políticas de antecessores

O maior desafio do presidente Lula, hoje e nos próximos 1.360 dias, será botar a economia nos trilhos do crescimento, da atração de investimentos e da geração de emprego e renda. O Brasil estagnou e precisa desesperadamente voltar a crescer, porque disso depende o futuro do País e dos brasileiros.

Nos cem primeiros dias, Lula anunciou uma torrente de gastos, sob o mantra de que “gasto na área social não é gasto, é investimento”. Mas todos os programas, até o Bolsa Família, apesar de necessários, são paliativos. Só um crescimento econômico sólido, sustentável, vai garantir a real inclusão social, com equilíbrio mais justo entre pessoas, cidades, Estados e regiões.

Rubens Barbosa - O Acordo Mercosul-União Europeia

O Estado de S. Paulo

No novo cenário geopolítico, deve interessar às duas partes concluí-lo. Por isso é urgente que o Mercosul se pronuncie em resposta à ‘side letter’ da UE

Como uma das consequências das tensões geradas pelos interesses e políticas ocidentais em relação à Rússia e à China, a Europa voltou a buscar a ampliação de seus laços econômicos e comerciais com a América do Sul, em especial com o Mercosul. Desde janeiro, as visitas de alto nível ao Brasil de governos de países europeus (Alemanha, Espanha, Noruega e França) e as viagens do presidente Lula a Portugal e Espanha ainda este mês parecem indicar uma renovada prioridade para a assinatura e a ratificação do acordo do Mercosul com a União Europeia (UE).

No início de março, em Buenos Aires, representantes dos países do Mercosul e os da UE retomaram os entendimentos com vistas à assinatura e a ratificação do acordo de livre-comércio entre os dois grupos, em negociação há 20 anos. Poucos dias antes da referida reunião, a direção da UE encaminhou side letter (protocolo adicional) contendo novas condicionantes para a assinatura do acordo. A proposta, que levou três anos para ser finalizada pelos países europeus e foi concebida pela desconfiança nutrida em relação aos compromissos do governo Bolsonaro, chegou em hora errada, em vista da mudança da política ambiental e da decisão do governo Lula de tomar medidas contra os ilícitos cometidos na Amazônia.

Jorge J. Okubaro - Uma sensação de paralisia

O Estado de S. Paulo

Ainda que persistam dúvidas sobre a exequibilidade da nova política fiscal, ela merece exame menos preconceituoso

Houve quem, alegando não ter visto algo relevante nos primeiros cem dias do governo Lula completados ontem, previsse que nada mais será feito de importante até 31 de dezembro de 2026. Assim, mal tendo começado, o governo Lula já teria acabado – ou se arrastaria pelos próximos 1.360 dias a partir de hoje. Houve também quem dissesse que o governo não fez nada. A despeito de decisões difíceis, mas essenciais, estarem sendo proteladas pelo Executivo, a paralisia implícita nesse tipo de visão é irreal.

Tarcísio diz que receberá Bolsonaro ‘de braços abertos’ em São Paulo

Governador vai enviar ao Legislativo proposta de emenda à Constituição para reduzir de 30% para 25% piso para gastos com Educação

Por Cristiane Agostine / Valor Econômico

Eleito com apoio de Jair Bolsonaro (PL), o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), disse que se mantém próximo do ex-presidente e afirmou que pretende recebê-lo “de braços abertos” no Estado. Ao falar sobre o retorno do ex-presidente ao Brasil, Tarcísio afirmou nesta segunda-feira (10) que Bolsonaro é um “amigo”, mas ponderou que não mudará sua atuação no governo paulista, que tem sido marcada pela aproximação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo distanciamento do bolsonarismo radical.

“Não muda nada”, disse Tarcísio, ao ser questionado se pretende mudar sua atuação política depois do retorno de Bolsonaro. “[Ele] vai ser muito bem recebido. Vou recebê-lo aqui [na sede do governo paulista] de braços abertos, como não poderia deixar de ser”, afirmou. Ex-ministro da Infraestrutura na gestão Bolsonaro, Tarcísio disse ter “gratidão” e afirmou que o ex-presidente “foi uma pessoa muito importante” para ele. “Eu tenho uma relação de amizade com o presidente, falo com ele com alguma frequência”, disse.

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão* - Gozo eterno e amplo: a banalização do esperma

O tema não compete ainda na mídia com a agenda de Lula na viagem à China, com a mudança da meta da inflação, e nem com a simulação do ataque dos chineses à Taiwan. Mas já é possível navegar em catálogos digitais como instruções sobre contratar barrigas de aluguel, fertilização in vitro, comprar ou vender sêmen humano com potencial para alterar estruturas familiares, a composição étnica de uma comunidade ou transformar as relações sociais no mundo.  Em alguns países esses temas   já são tratados em políticas públicas.

Instala-se vagarosamente no mercado uma rede internacional de comércio de órgãos humanos, da qual o Brasil participa, e que faz, por exemplo, do esperma humano um produto de consumo. Os bancos de sêmen, com fornecedores regulares, a preço que varia entre US$ 35 a US$ 80 por amostra, já   movimentam por ano US$ 4,5 bilhões, com projeções para chegar a US$ 5,7 bilhões nos próximos quatro anos. Os clientes são casais inférteis ou aqueles que perderam entes queridos nesses conflitos bélicos internos e externos. 

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Primeiros cem dias de Lula deixam a desejar

O Globo

Ele parece acreditar que apenas ser melhor que Bolsonaro bastará para fazer um bom governo. Não bastará

Cotejados com o governo Jair Bolsonaro, parece claro que os cem primeiros dias de Luiz Inácio Lula da Silva na Presidência foram positivos. Confrontados com o que o Brasil necessita, porém, deixaram a desejar. É perceptível, em todas as áreas, o ímpeto de reconstruir tudo do zero. Em algumas, a reconstrução é necessária. Noutras, significa apenas retrocesso.

O exemplo mais eloquente e mais consequente é a economia. Lula elegeu o Banco Central (BC) como bode expiatório. Desde que assumiu, a Selic passou a ser a culpada por todas as mazelas do país. Tal populismo elevou as expectativas de inflação para 2025 e 2026, fez subir a curva de juros futuros e dificultou o trabalho do BC no combate à inflação. As críticas obsessivas do presidente à autoridade monetária lembram os ataques de Bolsonaro ao STF. Por óbvio, o Brasil só ganha com a independência de ambas as instituições.

Ainda no campo econômico, Lula decidiu rever o Marco do Saneamento, responsável por atrair mais de R$ 72 bilhões em investimentos numa área crítica, suspendeu a privatização ou liquidação de estatais e, a exemplo de Bolsonaro, quer intervir na política de preços da Petrobras. A Lei das Estatais, raro avanço institucional produzido pela Operação Lava-Jato, tem sido torpedeada para permitir ao governo indicar quem quiser a cargos bem remunerados. Nada disso faz bem ao Brasil. O clima de desconfiança entre os empresários tem reduzido o nível de investimentos e contribuído para um cenário de estagnação.

Poesia | Presença - Mario Quintana

 

Música | Martinho da Vila e Brasil Jazz Sinfônica - Tom Maior

 

segunda-feira, 10 de abril de 2023

Entrevista | Sergio Abranches: ‘Ajuste fiscal, pela primeira vez, virou uma política do PT’

Para Sergio Abranches, novidade é o PT criar e defender um arcabouço ‘engenhoso’ e ‘ambicioso’

Por Ricardo Mendonça / Valor Econômico

Para o sociólogo e escritor Sergio Abranches, a principal novidade nos primeiros cem dias do terceiro governo Luiz Inácio Lula da Silva é a tentativa de combinar as políticas sociais que o PT sempre defendeu com um ajuste fiscal desta vez criado e defendido pelos próprios petistas.

A diferença notável, destaca, é que nos governos anteriores do partido a política fiscal mais rígida era adotada a contragosto. Agora “é da cabeça deles”, diz. “Não dá para vir depois e dizer que é uma política neoliberal.”

Criador do conceito do presidencialismo de coalizão, expresso pela primeira vez em um artigo publicado em 1988, Abranches avalia que a governabilidade ficou muito mais difícil após a implosão do modelo de disputa liderado por partidos âncoras, PT e PSDB, que predominou entre 1994 e 2014 e foi enterrado em 2018 com o triunfo de Jair Bolsonaro (PL).

Entende, entretanto, que Lula está sabendo se adaptar ao novo “ecossistema político”, agora povoado por um número maior de partidos médios, Centrão anabolizado e concentração maior de poder nas mãos dos presidentes da Câmara e do Senado. A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor:

Valor: Qual que é a marca forte dos 100 dias do governo Lula?

Sergio Abranches: É a tentativa de compatibilizar uma política social, que é típica do Lula e do PT, com uma política fiscal, que nunca foi um forte deles. Embora Lula sempre tenha dito que fez superávit nos primeiros governos dele, isso é verdade, sempre houve muita pressão interna nesse campo. Não é uma política orgânica do PT fazer ajuste fiscal. Mas agora é. Então o ajuste fiscal, pela primeira vez, virou uma política do PT.

Valor: É um governo petista mais fiscalista do que os anteriores?

Abranches: Não é que seja mais fiscalista. É que agora ele está oferecendo uma política fiscal ambiciosa, do ponto de vista dos esforços, sem as mesmas resistências que havia no passado. Antes, eles adotavam uma política que não era deles, nunca foi considerada como deles. Adotavam a contragosto. Agora estão adotando uma política que foi formulada por eles, é da cabeça deles. Não dá para vir depois e dizer que é uma política neoliberal. Agora é uma política do governo do PT. Está sendo enviada por Lula e seus ministros ao Congresso.

Entrevista | André Singer: ‘Lula precisa reconquistar o que já foi a ‘nova classe C’

Ex-porta-voz do petista diz que ele precisa investir nos que têm renda familiar de dois a cinco salários mínimos, vê uma urgência por resultados na atual gestão e avalia que Bolsonaro se isolou após 8 de janeiro

Por Bernardo Mello e Thiago Prado / O Globo

Porta-voz da Presidência no primeiro governo Lula (2003-2007) e hoje professor visitante no King’s College London, o cientista político André Singer analisou, em artigo na revista “New Left Review” após os ataques de 8 de janeiro, que o petista “assumiu a responsabilidade de abrir novas perspectivas para os de baixo” em seu terceiro mandato, sob risco de um “refluxo autocrático” capitaneado por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em entrevista ao GLOBO, Singer observa uma “urgência por resultados” na atual gestão, que faz cem dias amanhã, devido aos riscos de ruptura democrática.

Primeiro a usar o conceito de “lulismo” para descrever o crescimento do petista entre os mais pobres com a expansão de programas sociais, Singer afirma que Bolsonaro perdeu a oportunidade de tentar uma guinada semelhante. Autor de “O lulismo em crise” (Cia. das Letras, 2018) e co-autor de “Estado e democracia” (Zahar, 2021) e “O Brasil no inferno global: capitalismo e democracia fora dos trilhos” (FFLCH, 2022), ele chama atenção ainda para o estrato acima dos mais pobres e abaixo da classe média, que se mostrou poroso aos “soldadores ideológicos” bolsonaristas.

Em seu artigo, o senhor nota a força de Bolsonaro na faixa de dois a cinco salários mínimos de renda familiar, que inclui o que se chamou de “nova classe C” no governo Lula. Por que esse público se afastou do PT desde 2018?

Uma das minhas hipóteses é que dois grupos específicos, os evangélicos e os militares, funcionaram como “soldadores ideológicos” do bloco bolsonarista. Criaram uma ideologia que pode estar dialogando com esse setor (de dois a cinco salários), considerando que há no Brasil um problema grave de segurança pública e que o fundamentalismo evangélico diz que, se você se esforçar, vai melhorar. No realinhamento de 2006, o lulismo passou a ser a opção dos mais pobres, mas esse grupo que estou citando é intermediário. O Bolsa Família, por exemplo, não é para eles.

Frei Betto* -100 dias, primeiros passos

Folha de S. Paulo

Sem mobilização popular, presidente não vencerá os imensos desafios do país

Hoje completam-se 100 dias do novo governo federal. O Lula 3 difere do que se viu nos dois primeiros mandatos. Agora, é menos sensível às diatribes do mercado e mais aos direitos dos excluídos. Mais preocupado com o chão da sobrevivência digna que o teto de gastos. Mais com políticas sociais que fiscais. O Bolsa Família, além do pagamento mínimo de R$ 600 por família, incluiu o adicional de R$ 150 por criança até seis anos.

Nestes 100 dias, Lula, com respaldo do Supremo Tribunal Federal, salvou a nossa frágil democracia ao intervir no governo do Distrito Federal, prender e indiciar a horda terrorista que invadiu a Praça dos Três Poderes a 8 de janeiro. E as Forças Armadas voltaram a ter ciência de que estão "sob a autoridade suprema do presidente da República", conforme reza a Constituição. Lula tirou a Abin do controle dos militares e entregou-a à Casa Civil; deu 9% de aumento ao funcionalismo federal e isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 2.640; e aumento real do salário mínimo que, em maio, será de R$ 1.320. Há 60,3 milhões de pessoas com rendimentos referenciados no salário mínimo.

Angela Alonso* - De grão em grão

Folha de S. Paulo

Políticas de efeito lento capturam menos paixões do que contenda por símbolos

A celeuma em torno da medalha é mais uma herdada do defunto governo. E não é besta, disputa quem são os heróis nacionais. Bolsonaro mostrou por A + B que símbolo pátrio não é coisa pouca.

Faz toda a diferença para uma criança comemorar a abolição na escola como graça de princesa ou obra de movimento social com lideranças negras —André Rebouças, José do Patrocínio, Luiz Gama— nas quais se mirar.

No atacadão do passado brasileiro tem de tudo, de plebeus a quase-rainhas, é conforme o lampião que se adota no presente que se iluminam (ou se ensombrecem) um ou outro personagem da mesma história nacional.

Há, assim, uma política dos símbolos, longe de irrelevante. E não é feita apenas de comendas e bandeiras. Está nos livros e nos filmes. Cada vez mais negros escrevem sobre sua experiência, a de seus antepassados e a de seus contemporâneos, diversificando os retratos da sociedade brasileira. Um exemplo notável é "Marte 1", de Gabriel Martins.

Marcus André Melo* - Trasformismo lampedusiano

Folha de S. Paulo

O sistema só funciona com instituições de controle fortes, mas elas estão sob ataque

As relações Executivo-Legislativo sob Lula 3 ainda estão se plasmando, mas há forte continuidade com o padrão anterior. Ela se manifesta das lideranças das duas Casas —que permanecem as mesmas, Pacheco e Lira— ao padrão de barganha estabelecido. Falar de continuidades renitentes é falar de trasformismo (no sentido original, não gramsciano, da expressão): a estabilidade alicerçada em conluio pouco republicano de rivais.

Esse trasformismo lampedusiano manifesta-se sobretudo nas práticas legislativas e orçamentárias e é contraintuitivo, considerando-se a enorme polarização eleitoral e o trauma do assalto à praça dos Três Poderes. Ele precedeu inclusive a investidura do governo, com a aprovação da PEC fura-teto na legislatura anterior.

César Felício - Em 2003, austeridade marcou início de Lula I

Valor Econômico

Situação econômica do Brasil era mais complexa

Nos seus cem dias do primeiro mandato, em 2003, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva administrou uma alta na taxa básica de juros logo na terceira semana do governo. O Banco Central, presidido então por Henrique Meirelles, aumentou a Selic de 25% para 25,5% ao ano, no dia 22 de janeiro. Na véspera, a meta de inflação havia sido revista e o teta da variação de preços fora fixado em 8,5%.

Assim como agora, o cenário em 2003 era de baixo crescimento econômico e a inflação preocupava. A crise há 20 anos era mais complexa pela diferença no nível de reservas de que o país dispunha.

Lula assumiu em janeiro daquele ano com cerca de US$ 38 bilhões de reservas cambiais. Esse nível baixo foi um dos motivos que havia levado o Brasil a recorrer ao FMI em 6 de agosto de 2002, durante o período eleitoral. Todos os candidatos a presidente, Lula inclusive, se comprometeram com o então presidente Fernando Henrique Cardoso de honrar os compromissos internacionais do Brasil. O petista voltou a assumir em janeiro deste ano com US$ 324 bilhões. Quem deu o tom do início do governo de 20 anos atrás foi o Ministério da Fazenda, tocado então por Antônio Palocci.

Bruno Carazza* - Os dois ciclos de cem dias do Lula III

Valor Econômico

Melhores momentos foram antes da posse e depois do 8 de janeiro

Esta terceira passagem de Lula pela Presidência tem limites fluidos: por ter começado bem antes da posse e tomado um rumo inesperado uma semana depois, fica difícil estabelecer quando deveria ser comemorada esta data mítica de 100 dias. E, a depender do recorte temporal, temos dois inícios de mandato completamente diferentes.

Embora tenha sido empossado em 1° de janeiro, Lula começou a governar no dia seguinte à eleição. Seja porque Bolsonaro resolveu sair de cena logo depois do anúncio do resultado das urnas, seja porque em política vale o ditado “rei morto, rei posto”, o retorno do líder petista mexeu com as estruturas do poder.

Assim, Lula se posicionou como presidente de fato a partir de 31 de outubro de 2022 e, sob essa métrica, os 100 dias de governo deveriam ser comemorados no dia 8 de fevereiro. E foi um início excepcional.

Ainda no final de 2022, Lula conseguiu dois substantivos acenos de boa vontade vindos dos outros Poderes. No Congresso, aprovou a PEC da Transição, que garantiu um extra de R$ 165 bilhões para o atendimento de todas as suas promessas imediatas de campanha já no seu primeiro ano de governo: Bolsa Família de R$ 600, reajuste real do salário-mínimo, correção da tabela de isenção do Imposto de Renda, e retomada de programas como Minha Casa Minha Vida, Mais Médicos e Farmácia Popular.

Alex Ribeiro - BC prepara liberação de compulsório em 2024

Valor Econômico

Linhas de liquidez permitirão reduzir exigência dos bancos

O Banco Central deu início à última etapa da implantação das suas novas linhas de assistência de liquidez que, se tudo caminhar como o previsto, permitirá uma liberação dos depósitos compulsórios dos bancos no próximo ano. Numa eventual emergência disseminada no mercado de crédito - o que hoje não é o caso - o mecanismo poderia ser acionado mais cedo.

Trata-se de um projeto de redução estrutural dos compulsórios, que vinha sendo tocado pelo ex-diretor de política monetária do Banco Central, Bruno Serra Fernandes, cujo mandato terminou em 28 de fevereiro. Ele estendeu a sua permanência no cargo por algumas semanas, à espera da indicação de seu substituto pelo governo Lula, o que até agora ainda não aconteceu.

O projeto, que vinha sendo tocado desde antes da pandemia pelo corpo técnico do Banco Central, ilustra como será importante encontrar um quadro qualificado para assumir a cadeira, que tem papel fundamental para garantir o bom funcionamento do mercado financeiro, sobretudo nas crises.

Ricardo Henriques* - Redução sustentável da pobreza no Brasil

O Globo

É preciso aumentar a conexão do Bolsa Família com outras políticas sociais

Chegamos aos cem dias. O horizonte democrático reestabelecido, ainda que em estado de alerta. O cenário de crescimento econômico, redução das desigualdades e desenvolvimento sustentável com expectativas difusas. O caminho de redução da pobreza traçado. Muito a fazer, mas em rota. Nesta frente, o novo Bolsa Família inaugura uma importante inflexão em relação a sua deturpada versão, o Auxílio Brasil.

Não obstante várias pesquisas indicassem a necessidade destes ajustes, o programa retoma as condicionalidades de saúde e educação, aumenta o adicional por criança e atualiza o valor do benefício com base no número de integrantes da família. Estamos de volta ao prumo, mas a maratona é longa, partimos atrasados e precisamos recuperar o tempo perdido em direção a um novo arranjo social que acelere a redução da pobreza no Brasil para 55 milhões de beneficiários.

Isso só será possível, em parte, à medida que as famílias adquiram condições de gerar renda a partir do trabalho. Temos evidências de que é possível fazer isso. Por exemplo, estudo publicado neste ano pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) acompanhou uma geração de crianças beneficiadas pelo programa e mostrou que a maioria deixou de depender dele na vida adulta, com alguma mobilidade social. Em outro artigo, do Banco Mundial, Gerard e coautores mostraram em 2021 que a expansão do programa aumentou o emprego formal, ao contrário do que temiam alguns críticos.

Fernando Gabeira - O abismo humano em Blumenau

O Globo

Terminei a semana mais convencido de que não somos superiores às outras formas de vida

Este artigo foi sacudido pelos acontecimentos de Blumenau: um homem de 25 anos matando quatro crianças a machadadas.

No entanto ele começava suave, com lembranças de Dona Vanna, da Livraria Leonardo da Vinci, no Rio. Ela viajava sempre e trazia novos livros. Numa das últimas viagens, trouxe, entre outros, um que me interessou pelo título e pela capa: “Android Epistemology”. É uma reflexão teórica sobre as máquinas pensantes, e a capa colorida mostrava alguns recortes da figura humana, entrelaçados por fios coloridos. Nem todos os artigos são acessíveis a um leigo como eu. Destaquei algumas frases de um deles e pensava em trabalhar com ela:

— A oposição à teoria dos androides é uma das últimas resistências à demolição científica da ideia da condição única e especial dos humanos e de sua posição no Universo.

Miguel de Almeida - Lula abraça Bolsonaro

O Globo

A velha esquerda e a extrema direita se mostram embevecidas pelo sanguinário Vladimir Putin

Papagaios de pirata comentam à boca pequena que Lula da Silva gostaria de ganhar o Prêmio Nobel da Paz. Daí seus palpites mal dados sobre o conflito Irã-Estados Unidos, na sua primeira edição, e agora na invasão da Rússia à Ucrânia.

No momento em que escrevo, Celso Amorim, chanceler informal do governo, acaba de distribuir suas platitudes arcaicas, de embocadura analógica, olhos nos olhos de Putin. É uma coisa linda, tocante quase. Não condenou a Ucrânia por ser invadida pela Rússia apenas para não aguçar o clima que já rolava dentro do Kremlin.

Dias atrás, por certo guiado pelo experiente Amorim, Lula saiu em defesa da Nicarágua. Acho que até a Gleisi sabe que o ditador Ortega persegue e mata seus opositores. De lambuja, Lula ainda exaltou as liberdades na Venezuela.

Felipe Moura - A verdadeira frente ampla de Lula

O Estado de S. Paulo

Em 100 dias de governo centralizado no velho PT, a verdadeira frente ampla de Lula é externa

Em missa de Ramos no Rio de Janeiro, um padre relatou que muitos fiéis haviam lhe manifestado repúdio às declarações da autoridade da Igreja a um canal de TV da Argentina de que Lula foi condenado sem provas, vítima de lawfare, e Dilma Rousseff, “mulher de mãos limpas”, sofreu impeachment por “um ato administrativo menor”.

“Respeitamos o Santo Padre e sua liberdade de opinião. Não há motivos para crise. Mas entrevista não é dogma de fé”, explicou ele, com o devido respeito, indicando que nenhum católico está obrigado a compactuar com comentários midiáticos do papa argentino sobre a política brasileira. “Lamentamos que o Santo Padre não esteja bem informado sobre o Brasil”, completou, arrebatando a plateia, que o aplaudiu de pé.

Denis Lerrer Rosenfield* - Governo responsabiliza o ‘outro’ por malfeitos

O Estado de S. Paulo

Apesar dos seus cem dias, o novo governo ainda não disse a que veio, e já procura responsabilizar o ‘outro’ pelos seus malfeitos

Bolsonaro tem o seu duplo na figura do presidente Lula, ambos obcecados por encontrarem um inimigo que explique os seus fracassos e suas respectivas incapacidades de governarem para além de suas perpétuas campanhas eleitorais. Não importa, a este efeito, que o inimigo seja real ou imaginário, o que conta é que ele se imponha à percepção dos cidadãos que, então, se encontram ludibriados. As redes sociais, em particular, prestam-se muito bem a esse tipo de objetivo.

Tirante essa mesma matriz comum, de cunho autoritário, baseada na ideia da exclusão e da desconsideração do outro, em que qualquer opinião divergente deve ser silenciada, o primeiro escolheu entre os seus alvos a destruição das instituições democráticas, o aviltamento de qualquer opositor, enquanto o segundo tem mais propriamente um espírito anticapitalista, antieconomia de mercado, temperado por uma extrema complacência em relação à corrupção, sobretudo a de seus camaradas.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Risco para Lula na China é desagradar aos americanos

O Globo

Presidente deve moderar as palavras e evitar ser enredado pelo eixo sino-russo na questão ucraniana

Diagnosticado com uma pneumonia leve, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi obrigado a adiar para esta semana a visita de Estado à China, onde a agenda prevê encontros com o líder Xi Jinping. Quando desembarcar no país na quarta-feira, Lula terá pela frente um grande desafio: equilibrar-se entre os gigantes globais, Estados Unidos e China, declaradamente em rota de colisão. Ao Brasil, não interessa desagradar a nenhum dos dois. Esquecer isso é o principal risco para Lula.

O mero anúncio da viagem foi um acerto. O governo anterior se esmerou em hostilidades gratuitas contra a China, nosso principal parceiro comercial, país com que registramos significativo saldo positivo. Ao assumir em janeiro e escolher Argentina, Estados Unidos e China como destinos das primeiras viagens internacionais, Lula resgatou os três principais pilares da política externa brasileira. Nas primeiras duas viagens, começou a recuperar o estrago da errática diplomacia bolsonarista.

Poesia | Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades - Luís de Camões

 

Música | Cristovão Bastos e Mauro Senise - Nada de novo