domingo, 19 de janeiro de 2025

Gelo em Washington - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Posse de Trump com -12 graus, relações geladas com Lula e Brasil numa ‘escolha de Sofia’

Quem assume a presidência dos Estados Unidos amanhã não é uma pessoa, um líder, Donald Trump, mas um projeto de poder internacional em aliança com os líderes emergentes da direita em todos os continentes, massificado mundo afora pelas principais plataformas da internet e com o uso de aumento de tarifas como chantagem para reduzir a resistência e aumentar a adesão.

Essa é a percepção de quem acompanha de perto a política externa e tem foco na ainda maior potência política, econômica e bélica. Aliás, é justamente pelo temor, ou constatação, de que esse poder não dura para sempre e está cada vez ameaçado, sobretudo pela China, que Donald Trump traçou sua estratégia na geopolítica internacional. Sua ação pode ser vista tanto como ataque quanto como defesa.

Apesar das críticas, da impopularidade e da derrota dos democratas, Joe Biden deixa a presidência com um crescimento maior do que o previsto, a inflação dentro da meta e o menor desemprego em décadas, enquanto a China, apesar de manter altos índices de desenvolvimento, surpreendeu para menos. Mas a guerra não está nos números.

A nova doutrina de Trump - Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Biden não foi tão assertivo quanto Trump perante Israel, que depende da ajuda militar dos EUA

O acordo entre Israel e Hamas é o primeiro êxito da política externa de Donald Trump, antes mesmo de tomar posse amanhã. Suas credenciais pró-Israel, o fato de não ter mais eleição a disputar e a abordagem transacional ajudaram. Dificilmente isso poderá ser replicado com Ucrânia e Taiwan.

Trump designou o empresário do ramo imobiliário Steve Witkoff como enviado ao Oriente Médio. Judeu, sem experiência diplomática, foi uma escolha improvável, ao estilo Trump. Witkoff vendeu um hotel em Manhattan para o fundo soberano do Catar, que exerce papel-chave nas negociações.

Wittkoff chegou com uma mensagem dura de Trump: o presidente eleito não desejava ter de se ocupar disso nos primeiros dias de seu governo. A expressão “o preço vai ser o inferno”, caso não chegassem a um acordo antes de sua posse, teve impacto sobre o premiê Binyamin Netanyahu, exatamente por sua imprecisão.

Um cão que ataca sempre - Celso Ming

O Estado de S. Paulo

A partir desta segunda-feira veremos o quanto morde esse cão que late grosso. Será o dia da posse do novo presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, este seguidor do estrategista político da extrema direita (all-right) Steve Bannon, que mandou “atacar sempre”.

Atacar sempre é o que Trump não deixa de fazer, com o objetivo declarado de pôr em prática o lema do aviador Charles Lindbergh, evocado em 1941: “America first”, a América em primeiro lugar.

É postura que implica escolha permanente do inimigo a combater. E o principal é a China, e não mais a extinta União Soviética ou a nova Rússia comandada por Vladimir Putin, hoje tido mais como aliado do que como antagonista.

O que Lula deve esperar do Congresso – Raphael Di Cunto

Folha de S. Paulo

Mudanças no Senado e na Câmara causarão dores de cabeça ao presidente

A eleição do novo comando do Congresso marcará uma nova fase do governo Lula (PT). Há quem aposte que as dores de cabeça com o Senado farão os petistas lembrarem, saudosos, dos tempos de desavença com Arthur Lira.

Apesar do jeito zombeteiro, Davi Alcolumbre (União-AP) é considerado duro de negociar e com apetite por cargos —do funcionário que serve o café ao presidente de estatal. É famoso por entrar "em modo avião", inacessível por telefone, quando não quer falar com alguém. Não importa se é um colega senador, um ministro ou o chefe de outro Poder.

Nikolas e o Pix - Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Bolsonaristas mentem que Haddad imitaria o ministro da Fazenda de Bolsonaro

Desde o início do governo Lula os bolsonaristas mentem que Haddad imitaria o ministro da Fazenda de Bolsonaro: tentaria taxar o Pix. O vídeo em que Paulo Guedes defende taxar o Pix está na internet, e é verdadeiro. O vídeo em que Haddad defende taxar o Pix também está na internet, mas é uma falsificação feita com inteligência artificial.

Por isso, qualquer medida que o governo tomasse referente ao Pix deveria ter sido adotada com extremo cuidado e acompanhada de uma campanha maciça de esclarecimento.

Não foi. A máquina de desinformação bolsonarista chutou contra gol aberto.

O grande vencedor da semana foi o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), cujo vídeo contrário ao monitoramento bateu todos os recordes de audiência.

Show de Trump, fogo no circo - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Com apoio da elite e se não criar revolta popular, governo pode criar ordem mundial sinistra

O show de Donald Trump recomeça. Mais importante do que ver os truques é saber se o show e suas consequências terão o apoio ou a tolerância de partes relevantes do establishment americano; se não vão diminuir o prestígio popular de Trump.

Caso tenham apoio suficiente, se pergunta 1) Trump fará uma "Presidência transformadora"? 2) ou será versão circense e anárquica das correntes mais profundas, de mudanças paulatinas, que persistem tanto sob democratas quanto republicanos?

A presidência de Franklin Roosevelt, de 1933 a 1945, foi transformadora, no juízo dos americanos. Inventou a intervenção ampla do governo na economia, direitos sociais e a administração imperial (americana) da economia e da política mundiais. A de Ronald Reagan (1981-1988) também. No que Trump poderia ser transformador?

Por que nunca revi 'O Homem Elefante' - Marcos Lisboa

Folha de S. Paulo

David Lynch teve sucessos e fracassos memoráveis

Nunca revi "O Homem Elefante", de David Lynch.

Em parte, por covardia. O filme arrasou-me o sono na adolescência. O drama do homem com cabeça descomunal; seu cérebro disforme por imensos coágulos. A pessoa doce e sofrida, que fora transformada em atração de circo.

O tratamento em um hospital, com o cuidado de um médico personificado impecavelmente por Anthony Hopkins. O ator demoraria anos para ser reconhecido como estupendo artesão, comedido em "Vestígios do Dia" e "Terra das Sombras", ou atrozmente sedutor em "Silêncio dos Inocentes".

No filme "O Homem Elefante", contudo, dominava o drama do protagonista. Ele não podia se deitar e dormir em razão do risco de arrebentar seus coágulos. O repouso apenas podia chegar com a aceitação da morte.

Entrevista com o ministro Haddad - Samuel Pessôa

Folha de S. Paulo

Trajetória insustentável da economia explica juros muitos maiores do que se imaginava

Na sexta-feira passada o ministro Fernando Haddad concedeu longa entrevista para a CNN.

O ministro foi bem. Teve muita paciência e respondeu a todas as questões em longos 70 minutos de entrevista.

Defendeu muito bem a agenda de reformas da Receita: a reforma dos impostos indiretos, cuja legislação complementar foi sancionada pelo presidente na quinta-feira (16) passada. Defendeu também as diversas medidas de combate ao planejamento tributário e a reforma do Imposto de Renda, que será enviada ainda no primeiro semestre ao Congresso.

A cidade acorrentada por facções - Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Na prática, traficantes, milicianos e Estado compartilham os protocolos sobre quem deve morrer e viver

Décadas atrás, exposta numa galeria como escultura, havia uma corrente de metal fixada a um tronco por fibras. Essa ideia de uma corrente aprisionada nos retorna agora na notícia alarmante de uma penitenciária em vias de ser encarcerada por uma teia urbanística. Trata-se nada menos de um complexo com 25 unidades penais (hospitais, institutos e penitenciárias), localizado na zona oeste do Rio. O singular aprisionamento consiste no cerco da penitenciária por uma rede de moradias destinada a controlar, por proximidade e recursos eletrônicos, o cotidiano dos detentos.

Pecados da colonização - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro explica nova apresentação do antissemitismo como o resultado de uma leitura moralista do processo de formação de Estados

Como sempre ocorre quando o João Pereira Coutinho elogia um livro, corri para adquiri-lo e lê-lo. Não foi diferente com "On Settler Colonialism" (sobre o colonialismo de assentamento), de Adam Kirsch. O livro é bom.

Confesso que não conhecia essa moda ideológica universitária. Se seus proponentes se limitassem a reconhecer que várias nações foram forjadas a partir de um processo de colonização que resultou na subjugação ou eliminação de populações que já viviam naquelas áreas, eu seria o primeiro a subscrevê-la. Não dá para negar a história.

Poesia | Catar Feijão, de João Cabral de Melo Neto

 

Música | Alceu Valença - Tropicana

 

sábado, 18 de janeiro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Acordo no Oriente Médio é esperança de fim da guerra

O Globo

Cessar-fogo negociado por Biden e Trump interromperá o conflito mais letal entre israelenses e palestinos

O acordo de cessar-fogo entre Israel e Hamas começará a valer a partir de domingo depois de ser aprovado pelo gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Não será o fim da guerra na Faixa de Gaza, mas deve ser saudado por ser o primeiro passo para encerrar o conflito mais letal entre israelenses e palestinos.

O documento prevê mais de uma fase. Na primeira, que deve durar seis semanas, tropas israelenses serão retiradas de áreas densamente ocupadas antes do início da guerra, palestinos poderão voltar para o norte da Faixa de Gaza, 600 caminhões com ajuda humanitária passarão a entrar na região diariamente e 33 reféns israelenses e mais de mil palestinos presos em Israel serão libertados.

Se não houver retrocesso no cumprimento de metas, em fevereiro começará a negociação da segunda fase, a mais difícil. Entre os pontos a ser tratados estão uma nova troca de reféns israelenses por palestinos presos, a retirada total das tropas e um cessar-fogo permanente.

Esquerda quer ganhar no tapetão – Pablo Ortellado

O Globo

A repercussão do ato normativo da Receita Federal que determinava o monitoramento das transações com o Pix foi uma vitória maiúscula da oposição sobre o governo Lula. A medida começou a se disseminar empacotada no rumor de que o Pix passaria a ser taxado. Quando parecia que o rumor estava sendo desmentido, num esforço conjunto do governo com a imprensa, um vídeo do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), que atingiu a estonteante marca de 300 milhões de visualizações, deu o golpe fatal na medida. Inconformada com a derrota política, parte da esquerda passou a alegar que o vídeo do deputado era “fake news” e que ele deveria ser punido, até com a cassação. A reação da esquerda, deslocando o debate do âmbito da política para o âmbito jurídico, merece uma reflexão.

Falta confiança no governo – Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Há uma crise econômica no país, como se percebe nos indicadores. Isso não será resolvido com a ‘comunicação’

Não é só o presidente Lula. Todo o seu governo parte da premissa de que faz uma boa gestão, apresenta resultados positivos e melhora a vida dos brasileiros. E se é assim, todos aqueles que discordam e criticam só podem estar ou enganados ou agindo de má-fé.

Para aqueles do primeiro grupo, os equivocados, o governo contrata um marqueteiro para explicar tudo direitinho. Para o pessoal da segunda turma, os de má-fé, pede-se investigação da Polícia Federal.

Em resumo, ou é problema de comunicação ou ação de criminosos. Sem autocrítica, nem reconhecimento de erros.

O recente caso do Pix apresentou vários exemplos dessas vertentes. Mas há também, e seguramente mais importante, um outro tema que cai naquela premissa: o estado das contas públicas. Para o Ministério da Fazenda, está tudo em ordem. O arcabouço fiscal funciona, e a dívida pública está controlada.

Nem anistia nem clemência - Rodrigo Zeidan

Folha de S. Paulo

Trama golpista se decide na Justiça; e ponto final

Quando bolsonaristas pedem por anistia sobre a tentativa de golpe de Estado, qual a ameaça implícita? Não existe negociação por anistia sem a parte que a solicita tendo alguma carta na manga.

Vimos isso na anistia contra os crimes cometidos pelos governos militares brasileiros. Ela era requisito para acelerar a transferência de poder para instituições democráticas. A ameaça era clara: sem anistia, os militares não largariam o poder. Se era verdade ou não, preferimos não pagar para ver.

Essa é uma questão complexa. Quando ditadores negociam falta de responsabilização para deixar o poder, as vítimas se sentem desamparadas. Além disso, a mera possibilidade de um acordo posterior pode incentivar que golpistas e ditadores se comportem de forma mais extrema.

Existe uma longa lista de artigos científicos sobre condições para que impunidade retroativa gere a estabilidade esperada pelo processo.

Governo é uma mãe para oposição – Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Por que a fala de Nikolas mereceu mais confiança que a palavra de Lula?

A mentira danosa, fruto da má-fé, existe desde sempre como bem soube o PT quando a aplicou contra a então candidata à Presidência Marina Silva (Rede) na campanha de 2014, acusando a hoje ministra do Meio Ambiente de se aliar a banqueiros para tirar comida do prato dos brasileiros.

Lula também estava consciente da força de um boato ao pespegar no governo do antecessor o dístico da "herança maldita".

Portanto, por mais condenável que seja o jogo sujo, não se pode dizer que a cigana o enganou sobre a contingência de se ver às voltas com uma oposição feroz e sem freio moral.

Com guarda armada, Paes vira o xerife Woody - Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Candidato ao Palácio Guanabara, prefeito do Rio contradita planos de Lula para segurança

Eduardo Paes não esconde o orgulho de ter sido eleito quatro vezes prefeito do Rio, superando o padrinho Cesar Maia. Brincou no discurso de posse: "Primeiramente, tetra!". Mas indica que não ficará até o fim do mandato, desvinculando-se para concorrer ao governo estadual daqui a dois anos. É um sonho antigo, alimentado desde 2006, quando tentou o Palácio Guanabara e recebeu pouco mais de 5% dos votos. Em 2018 a derrota mais dolorosa: depois de liderar as pesquisas durante a campanha, perdeu a disputa para Wilson Witzel na reta final.

Paes deu uma lavada no candidato bolsonarista, Alexandre Ramagem. Elegeu-se no primeiro turno, atraiu lideranças evangélicas e soube jogar no terreno preferido da extrema direita, a segurança pública. Quer repetir a dose, impedindo que Cláudio Castro faça o seu sucessor.

Cessar-fogo em Gaza é boa notícia - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Trégua em território palestino tem valor humanitário, mas fica muito aquém de apontar uma saída sustentável para a região

O acordo de cessar-fogo em Gaza é uma boa notícia. Dará algum respiro aos palestinos que vêm há mais de um ano sendo dizimados pelos bombardeios do Estado judeu e permitirá que os reféns israelenses voltem para casa. Mas o acerto não toca no ponto essencial. O que será feito de Gaza?

O governo do premiê Binyamin Netanyahu nunca teve um plano para o pós-guerra. Na verdade, Netanyahu poderia ter concordado com um cessar-fogo semelhante ao atual vários meses atrás, o que teria poupado a vida de dezenas de milhares de palestinos e de dezenas de reféns israelenses. Não o fez porque a suspensão da guerra então contrariava seus interesses.

Um acordo oficial, dois ocultos – Demétrio Magnoli

Folha de S. Paulo

Os três compromissos sobre o cessar-fogo em Gaza têm a marca de Trump

O acordo oficial de cessar-fogo em Gaza, que está nas manchetes, oculta os dois acordos ocultos sobre os quais se sustenta. Os três têm a marca de Trump.

O primeiro, formal, assinala derrotas para Israel e para o Hamas. Israel aceita retirar parcialmente suas forças sem destruir o Hamas, objetivo declarado pelo governo de Netanyahu, e paga um preço elevado com a libertação de centenas de valiosos presos palestinos. O Hamas, degradado à condição de insurgência guerrilheira, fica isolado regionalmente após a queda da ditadura síria, a derrota militar do Hezbollah e a humilhação do Irã.

Desse acordo, emergem dois vitoriosos. Os palestinos de Gaza ganham um respiro em meio à colossal tragédia humanitária que se estende por 15 meses. Trump surge como patrocinador da paz, antes ainda de sua posse. Mas a guerra está nas cartas dos acordos subterrâneos.

O segundo acordo é entre Netanyahu e os ministros supremacistas que mantêm seu governo à tona. Smotrich e Ben Gvir obtiveram do primeiro-ministro as promessas de expandir os assentamentos israelenses na Cisjordânia e, além disso, de retomar a ofensiva em Gaza após a fase 1 do cessar-fogo.

Um discurso para história - André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Os tempos atuais cumpriram a profecia de Ulysses Guimarães. Ele previu que o próximo Congresso será sempre pior que o atual

O governo do presidente Lula não deu a menor importância ao 15 de janeiro, quando, 40 anos atrás, o Colégio Eleitoral elegeu Tancredo Neves para Presidência da República. Foi o último momento do governo militar. A partir daí vieram sucessivas modificações constitucionais, que terminaram por fazer nascer um novo país, no espaço onde antes havia a tristeza da ditadura e da ordem unida dos militares. Quem hoje propugna pelo retorno do Ato Institucional nº 5 e de todas as suas consequências deve fazer uma visita ao passado para perceber como era a vida do brasileiro sem direito à proteção do habeas corpus, sem liberdade e sem eleição. Qualquer um podia ser preso sem ordem judicial.

O silêncio do governo federal tem razão de ser. Durante a Constituinte, o líder do PT chamava-se Luiz Inácio da Silva. O partido tinha oito deputados federais. Três deles votaram a favor de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral. Foram expulsos da legenda por descumprir a orientação partidária. O sectarismo do partido trabalhista se manifestou tempos depois com relação ao Plano Real. O partido também votou contra. Perdeu nas duas ocasiões porque o avanço foi notável. Mas o PT não faz autocrítica, nem permite que o tempo reveja suas posições. O 15 de janeiro passou sem maiores comemorações. Ninguém subiu em uma tribuna para lembrar o notável discurso de Tancredo Neves naquele dia.

Do ano das matrioskas aos novos desafios à democracia - Ricardo Marinho

As matrioskas (bonecas russas) foram criadas em 1890 por um pintor de uma oficina de artesanato chamado Sergey Malyutin (1859-1937) e foram apresentadas na Exposição Universal de Paris em 1900, tendo um grande sucesso. Começou como um brinquedo e acabou como um objeto de estimação.

Sua particularidade é que por ser oca, dentro existem outras bonecas que podem atingir o número que você desejar. Além de sua bela coloração, elas têm muitas simbologias. Uma delas é que elas nos ajudam a aprender a nos conhecer por dentro, a trazer à tona o que temos dentro de nós.

Parte disso é o que aconteceu conosco, brasileiros, no ano da graça do Senhor de 2024 que deixamos a pouco. As bonecas interiores, aquelas que não aparecem, surgiram à luz do público na eleição. Elas são muito menos bonitas do que aquelas que escondiam. Seus rostos não são tão sorridentes, por sentirem as suas aspirações frustradas, sentem que se esforçaram muito, e acreditam não ter recebido o que mereciam e o sentimento de que os jovens cidadãos não se sairiam bem no futuro.

Esquerda, democracia e farsa - Marcus Pestana

A vinculação de democracia e socialismo sempre ocupou espaço central no pensamento marxista. Marx, Engels, Lenin, Trotsky, Rosa Luxemburgo, Bernstein, Kautsky, Enrico Berlinguer, Carlos Nelson Coutinho, entre tantos outros, meteram a colher no assunto.

O ponto essencial é se a democracia e suas instituições são valores universais e permanentes. A democracia teria sempre natureza classista? Existe “democracia pura”?

Marx e Engels, no início de sua trajetória, enxergavam as virtudes da democracia liberal e da política eleitoral. Imaginavam que a conquista do voto universal na Inglaterra poderia ser o caminho para a supremacia política das classes trabalhadoras. A partir do desenlace da Comuna de Paris, em 1971, há uma clara mudança de paradigma. Em “Crítica ao Programa de Gotha” e outros textos já aparece a menção ao termo “ditadura do proletariado”, construída a partir de uma revolução.

De Adolf a Donald - Luiz Gonzaga Belluzzo*

CartaCapital

Malgrado as diferenças históricas, são inequívocas as semelhanças entre os programas econômicos de Trump e do nazismo

As promessas e ameaças de ­Donald Trump reproduzem episódios já vividos nos labirintos da economia global. Digo reproduzem para exprimir a incompatibilidade do factual imediato com a concepção que advoga a dinâmica das estruturas nas trajetórias das economias de mercado monetário-financeiras capitalistas.

A mais conhecida e dolorosa reestruturação daquilo que, parodiando ­Schumpeter, poderíamos chamar de Ordem Capitalista começou a se desenvolver a partir dos anos 30 e encontrou seu apogeu nas duas primeiras décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. Essa reordenação foi uma resposta aos desastres provocados pelas “falhas” do mercado autorregulado, agravadas pelo apego dos governos a políticas fiscais e monetárias conservadoras. Essa miopia liberal-conservadora suscitou violentas reações de autoproteção da sociedade assolada por desgraças como o desemprego em massa, o desamparo, a falência e a bancarrota.

A primeira crise - André Barrocal

CartaCapital

Sidônio Palmeira assume a Secretaria de Comunicação em meio às mentiras sobre o Pix

Lula teve três marqueteiros diferentes nas eleições que venceu, todos baianos. Só o último deles se tornou ministro. Sidônio Palmeira, de 66 anos, assume a Secretaria de Comunicação Social da Presidência com o desafio de melhorar o ibope de Lula e do governo. Em suma, mostrar à população as realizações presidenciais desde 2023, e de modo convincente. “O objetivo primeiro é fazer que a comunicação chegue na ponta”, diz Palmeira, que se diz preocupado com o tamanho da expectativa depositada sobre seus ombros. No discurso de posse na terça-feira 14, citou outra missão: enfrentar o “faroeste digital”. “A mentira nos ambientes digitais, fomentada pela extrema-direita”, declarou, “cria uma cortina de fumaça da vida ­real, manipula pessoas inocentes e ameaça a humanidade.”

Poesia | Tenho tanto sentimento, de Fernando Pessoa

 

Música | As 10 Melhores de Chico Buarque

 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

O que a mídia pensa / Editoriais / Opiniões

Recuo no Pix expõe fragilidades da atuação do governo

O Globo

Campanha de desinformação reforça necessidade de regulação das redes e autocrítica pela sanha arrecadatória

A decisão do governo federal de cancelar norma da Receita Federal sobre o aumento da transparência das transações via Pix é constatação do estrago feito. Em setembro, o Fisco publicou nova regra avisando que a partir de 1º de janeiro de 2025 as instituições financeiras conhecidas como fintechs, como os bancos digitais, e as operadoras de cartões de crédito passariam a notificar movimentações de pessoas físicas acima de R$ 5 mil por mês. A medida não tinha nada de anormal. Os bancos tradicionais há muito têm regra idêntica. É um instrumento para detectar grandes sonegadores.

Bem explicada e com uma estratégia de comunicação ampla, a decisão seria compreendida facilmente pela população. Não foi o que ocorreu. Com a divulgação relapsa do governo, o que se viu nas duas primeiras semanas do ano foi desinformação, confusão, medo e queda nas transações por Pix. O erro não se deu no mérito da questão, mas na execução.

José de Souza Martins: Ainda estamos aqui

Valor Econômico

A voz de Eunice Paiva não é voz do passado, do que foi e dos que se foram. Ela é uma necessidade social e política

Mal iniciado o ano, mais de 3 milhões de pessoas já haviam comparecido aos cinemas para ver “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva sobre a tragédia de sua família, que teve início com o sequestro de seu pai, o ex-deputado Rubens Paiva, por militares à paisana.

Esses milhões expressam a prontidão insubmissa da consciência crítica e democrática dos que resistem à violência e à mentira do autoritarismo que subjuga e humilha uma nação inteira. O restolho da ditadura sobreviveu e retornou ao poder em 2019, apoiado na falsa consciência dos alienados.

Desde o dia seguinte ao do término formal do golpe de 1964, dissimulados, continuaram a maquinar, nas brechas da democracia inacabada, a tirania de seu modo de mandar e comandar como se fosse modo de governar.

Ex-ministros de Lula, FHC e Dilma criticam Congresso e se mobilizam para 2026

Joelmir Tavares / Folha de S. Paulo

Políticos lançam manifesto que critica emendas e repudia alianças com direita radical nas eleições

Ex-ministros de Lula (PT), Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) iniciaram uma mobilização para convencer a classe política e eleitores a isolar a direita radical nas eleições de 2026 e interromper o que chamam de extorsão do Orçamento pelo Congresso, via emendas.

O grupo organizou o manifesto "Vamos em Frente", que até esta quarta-feira (15) contava com 83 assinaturas. Entre os signatários, estão os ex-ministros Tarso Genro, Cristovam Buarque (governo Lula), Aloysio Nunes Ferreira (FHC), José Eduardo Cardozo, Renato Janine Ribeiro (Dilma) e Nelson Jobim (que serviu aos três governos).

Os idealizadores dizem buscar amplitude ideológica. Articulado nos últimos quatro meses, o documento também foi endossado por representantes da sociedade civil, acadêmicos, empresários e advogados. O material ainda será aberto para adesões em um site, no intuito de aumentar seu alcance.

A principal crítica da carta é à influência no Congresso "de bancadas oligárquicas e fisiológicas, que se dedicam a extorquir, para proveito próprio, os orçamentos públicos".

O ameaçador mundo novo – Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

Coalizão de ‘big techs’ que se formou em torno de Trump e tende a favorecer a extrema direita mundial, além de superpoderosa, nega as mudanças climáticas

Oanúncio da Meta indicando que vai alterar seu sistema de trabalho trouxe um grande debate ao Brasil. A empresa decidiu acabar com a estrutura de mediação dos posts e aceitar alguns comportamentos retrógradas, como associar orientação sexual a doença.

Nem todas as decisões da Meta coincidem com a legislação brasileira, bastante clara sobre racismo e homofobia. Certamente não coincide com a legislação escocesa, que recentemente lançou um ato sobretudo para proteger as pessoas trans.

É mais ou menos consenso que as empresas têm o direito de definir suas normas, mas precisam respeitar as legislações nacionais. É uma questão de soberania.

Casca fina para crises - Vera Magalhães

O Globo

Pouca capacidade de reagir a adversidades aponta para a necessidade de reorganizar a casa antes do reinício dos trabalhos no Congresso

Todas as recentes crises enfrentadas pelo governo mostram que Lula e seus ministros estão com a casca muito fina para enfrentar pancadas. E, se existe algo que a oposição costuma farejar no ar, é governo com receio de encarar as batalhas — que serão muitas, e cada vez mais complexas, daqui até a eleição.

Lula parece estar sentindo o estreitamento da avenida que imaginava que teria para trafegar por fatores que não anteviu e sobre os quais parece não ter sido alertado. E as cartas de que dispõe para responder a cobranças parecem ser de poder limitado ou já gastas, por terem sido usadas à exaustão.

A ideia de que o “Brasil voltou” e de que sua missão seria a de “reconstruir” o país depois de Jair Bolsonaro, presente nos slogans oficiais, até rendeu uma largada tranquila, em que o presidente soube unir a classe política em resposta ao 8 de Janeiro e voltou a circular nos fóruns internacionais com a autoridade de quem poderia fazer a diferença em temas como o urgente enfrentamento da crise climática.

Perdidinho da Silva - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Haddad: Nikolas Ferreira é ‘só peça da engrenagem’ e é preciso ‘tirar a arma do inimigo’

O governo Lula comete um erro atrás do outro, comunica-se mal e se trumbica, é obrigado a ceder e recuar a cada anúncio e faz a festa da oposição. A revogação da mudança no Pix não é caso isolado, é mais um no longo processo de planos e projetos lançados, mal explicados e geradores de crises que começam com detalhes e acabam em desastres. O governo perdeu triplamente: ao não explicar a medida devidamente, ao revogá-la de supetão e por, apesar do imenso desgaste, não conter a onda de ataques.

Fica evidente o quanto o presidente Lula e sua equipe estão despreparados para enfrentar a guerra da comunicação, sobretudo na seara digital, e a oposição tem método, recursos, quadros, inteligência, abrangência e malícia de sobra para identificar o ponto fraco e potencializá-lo em fake news e manipulação. E não é exclusividade do Brasil. Assim como a direita transformou uma mudança burocrática no Pix em ataque ao bolso e aos direitos individuais dos cidadãos, Donald Trump sacudiu as redes para transformar o uso de emails particulares de Hillary Clinton para mensagens funcionais em um grande escândalo de corrupção. Cá pra nós...

“Taxad” colou e agravou a crise do Pix - Andrea Jubé

Valor Econômico

Recuo do governo foi interpretado pelos internautas como vitória da oposição

Um dia após a revogação da norma da Receita Federal sobre o monitoramento das movimentações financeiras, incluindo o Pix, a fim de conter a onda de “fake news” na internet, a percepção de especialistas em redes sociais é de que o governo perdeu a batalha da informação, mesmo ao recuar da nova regra fiscal.

“Nenhuma estratégia faria com que o governo atingisse o mesmo patamar [de visualizações e interações] alcançado pela oposição, a fim de contrapor os argumentos contra a medida”, observou André Eler, diretor-técnico da consultoria Bites. O objetivo da norma era nobre: combater fraudes e sonegação em operações de Pix acima de R$ 5 mil.

Um levantamento produzido pela consultoria Bites a pedido da coluna atestou os números excepcionais do debate sobre o tema nas redes sociais. Nos últimos 14 dias, foram registradas mais de 2,1 milhões de publicações sobre a regra do Pix no X, notícias, blogs, YouTube, Reddit, páginas abertas do Facebook e perfis selecionados no Instagram, em português. Em média, 150 mil por dia.

A guerra do Pix e a Isenção do IR - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Mas mudança do imposto pode beneficiar menos gente do que o previsto e é arriscada

A derrota do governo na batalha virtual das mentiras sobre o Pix suscitou a reação previsível no governismo de que é preciso contra-atacar. A primeira ideia é apresentar logo o projeto que isenta de Imposto de Renda o assalariado que recebe até R$ 5.000 mensais.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, diz que apresentará vários projetos de mudança no IR, depois da aprovação do Orçamento de 2025 —a partir de março.

O governo vai anunciar tais projetos mesmo que a situação econômica ou financeira esteja tumultuada por problemas domésticos e/ou externos?

O Congresso vai aprovar mudanças que, ao menos na ponta do lápis, mantenham o nível de arrecadação? Vai tributar sua renda e a de seus pares ricos? Mesmo engasgado com a questão das emendas e outras mais?

A isenção do IR vai chegar a tanta gente e em valor bastante para que tenha efeito político, como querem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Sidônio Pereira, o novo ministro da Comunicação Social, marqueteiro da campanha de 2022?

Sidônio pode criar ministério da campanha - Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Marqueteiro foi nomeado para transformar governo em produto publicitário e iniciar propaganda para 2026

A nomeação do publicitário Sidônio Palmeira para a Secretaria de Comunicação do governo federal, que tem status de ministério, vem cercada de problemas. Embora deficiências de comunicação do Executivo tenham ficado patentes sob Paulo Pimenta, a solução encontrada por Lula é questionável e até perigosa.

Para ir direto ao ponto: a escolha do marqueteiro de campanha para o cargo sugere a configuração de um Ministério da Propaganda Eleitoral. Sidônio vem para dar uma ordem unida na turma e afinar a orquestra para a sinfonia da campanha de Lula —ou de um eventual substituto petista em 2026.

A Secom, é bom lembrar, foi criada na ditadura militar pelo general João Figueiredo, e descende, como agência centralizada sob comando da Presidência, de uma linha autoritária que nos leva ao Departamento de Imprensa e Propaganda, o famigerado DIP, de Getúlio Vargas.

Emenda foi pior do que o soneto no caso do Pix – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Lula não consegue sustentar medidas econômicas impopulares, porém necessárias, ainda que em médio e longo prazos viesse a se beneficiar de seus efeitos positivos

O governo caiu com o barulho da bala na questão da fiscalização do Pix pela Receita Federal, com medo da onda de fake news sobre a falsa cobrança de impostos dos contribuintes nas operações financeiras dessa modalidade. Na verdade, tratava-se de aumentar o controle sobre instituições financeiras, bancos digitais e aplicativos de pagamento, que passariam a ter que informar alguns dados à Receita Federal. O Pix continuaria gratuito.

O objetivo do monitoramento de movimentações globais acima de R$ 5 mil por mês, no caso de pessoas físicas, e R$ 15 mil mensais, no caso de pessoas jurídicas, mas sem detalhamento de origem ou destino, era combater a sonegação fiscal. Entretanto, tudo deu errado. A portaria da Receita Federal foi pessimamente divulgada. Ao mesmo tempo em que desagradou setores do mercado financeiro que seriam alcançados pela medida, virou um prato cheio para a produção de memes mentirosos pela oposição.

Democracia é dogma - José Sarney*

Correio Braziliense

Que cada um de nós tenha entranhada a convicção de que o regime democrático é um dogma absoluto — não resolve a busca do desenvolvimento, mas é o caminho aberto para encontrá-lo

Há 40 anos, 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves e eu fomos eleitos presidente e vice-presidente da República. Era a chegada da democracia. Sem ela, não teríamos sido presidentes. Anos depois, também possibilitaria que Lula, um operário, fosse eleito presidente da República.

Lamentavelmente, o Brasil tem uma ponderável parcela da população que ainda não tem consciência do que esse regime representa. As últimas pesquisas publicadas da percepção do povo sobre democracia registraram que cerca de 30% da opinião pública ainda não apoia o regime democrático, prefere a ditadura ou não tem opinião sobre o regime que nos governa.

Parece pouco, mas é um número bastante elevado para uma comunidade que viveu até pouco tempo sob um regime autoritário e conquistou em 1985 a plena liberdade, com a volta da democracia sem adjetivos, com absoluta liberdade e a conquista de uma cidadania que assegura a todos uma participação efetiva na vida política do país, com direito a proclamar sua opinião sobre as decisões do Legislativo e do Executivo. Foi a transição democrática, que me coube dirigir e é considerada a melhor do continente, que há 40 anos concretizou a implantação da liberdade no Brasil, com a volta da democracia.