segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

‘Se eles são famosos, sou napoleão’ - Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

A teoria do louco e os novos líderes populistas que recolocam na agenda questões sobre racionalidade na política

O surgimento de novos líderes populistas recoloca na agenda questões sobre a racionalidade na política. Líderes como Trump, Chávez e AMLO apelam para a retórica grandiloquente e/ou tradições que se julgava sepultadas desde o pós-guerra: MAGA, bolivarianismo, quarta transformação. E fazem propostas tresloucadas. Mesmo quando derrotadas ou se mostram inexequíveis, elas sinalizam indignação com o statu quo e autenticidade. E assim geram ganhos políticos. Mas há mais em jogo, sobretudo no plano internacional.

Lula vai se submeter ao Centrão? - Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

Centrão dá o tom na eleição para as casas legislativas e deixa governo Lula em posição delicada

A eleição para os novos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado foi, por um lado, livre de surpresas. Todos sabiam que o deputado Hugo Motta (Republicanos-PB) e o senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) seriam eleitos com grande folga. Mas, por outro lado, gerou um cenário cheio de incertezas para o governo Lula no Legislativo.

Lula foi “obrigado” a engolir as candidaturas de Motta e de Alcolumbre, e sua participação no processo foi meramente confirmatória da preferência dominante do Legislativo, incorporada pelos partidos do Centrão.

Por que o Executivo teve um papel tão marginal na eleição de peças-chave no Legislativo que pode interferir diretamente na sua própria governabilidade?

Os desafios para a atividade econômica em 2025 - Sergio Lamucci

Valor Econômico

PIB deve ter desaceleração mais forte a partir do segundo trimestre, num ambiente marcado pelo quadro externo adverso e incertezas fiscais que pressionam juros

A economia brasileira terminou 2024 num ritmo mais fraco do que nos três trimestres anteriores, e a desaceleração da atividade tende a continuar ao longo de 2025, embora a agropecuária deva levar o PIB a um crescimento expressivo no período de janeiro a março. Juros altíssimos e o esgotamento dos estímulos fiscais e de crédito afetarão especialmente os segmentos mais cíclicos da economia, como a indústria de bens de consumo duráveis e grande parte dos serviços, avalia a economista Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). Como pano de fundo, além do cenário externo mais adverso, as incertezas sobre as contas públicas tendem a manter o dólar e os juros de longo prazo em níveis ainda muito elevados, turvando o quadro econômico neste ano.

Coronelismo, trator e voto na nova República - Bruno Carazza

Valor Econômico

Davi Alcolumbre e Hugo Motta são a nova geração do velho coronelismo brasileiro

Às margens da rodovia Josmar Chaves Pinto, que liga a capital Macapá ao balneário de Fazendinha e ao movimentado porto de Santana, situa-se a sede da superintendência da Codevasf no Estado do Amapá.

Sim, a Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco tem uma de suas “filiais” a mais de 3.100 km da nascente do rio, localizada na Serra da Canastra, em Minas Gerais, e 2.600 km distante da sua foz, na divisa entre Alagoas e Sergipe.

Um dos primeiros experimentos brasileiros de desenvolvimento regional, a Codevasf foi concebida na Constituição de 1946 tendo como inspiração a Tennessee Valley Authority, uma das prioridades do New Deal do presidente americano Franklin Delano Roosevelt para levar infraestrutura e fomentar a economia da região mais pobre dos Estados Unidos. A ideia era reproduzir no Nordeste brasileiro a estratégia de, a partir de uma hidrelétrica (a usina de Paulo Afonso, na Bahia), prover energia, irrigação e navegabilidade para uma das áreas mais atrasadas do país na época.

Entrevista | Maria Hermínia Tavares: ‘Problema do governo não é o Centrão, é que ele não tem foco’

César Felício / Valor Econômico

Para Maria Hermínia Tavares de Almeida, falta marca administrativa para a gestão Lula

As vitórias retumbantes de Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) para as presidências da Câmara e do Senado não representam ameaça à governabilidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na etapa final de seu mandato, na visão da cientista política Maria Hermínia Tavares de Almeida.

“O Centrão é conservador. Sempre esteve no governo, qualquer governo, de Sarney até agora. Então não tem problema de governabilidade, tem problema de capacidade de negociação”, diz a professora emérita da USP e pesquisadora do Cebrap.

Maria Hermínia vê no próprio Palácio do Planalto o principal desafio político de Lula no momento. “O problema do governo, a meu juízo, é menos o fato de o Congresso ser majoritariamente de direita. O problema do governo é que eu acho que ele não tem foco”, afirma.

Maria Hermínia diz que a negociação com o Congresso Nacional seria mais fácil se o governo tivesse prioridades claras. A impositividade do Orçamento e o crescimento do peso das emendas parlamentares, por si só, não comprometem a ação do governo. “Eu acho que há sim espaço para negociar, desde que o governo tenha clareza em relação ao que quer”, comenta.

O Centrão sempre esteve no governo. Não tem problema de governabilidade, tem problema de capacidade de negociação”

Para a cientista política, falta uma marca administrativa para a gestão de Lula, que classificou como “morna”. “O governo é muito titubeante. Ele quer falar para uma faixa de brasileiros que está um pouco acima da pobreza extrema, mas o que ele está dizendo de fato?”, indagou.

A seguir, os principais trechos da entrevista ao Valor:

Lula lidera em todos os cenários de primeiro e segundo turnos, mostra pesquisa Genial/Quaest

Rafael Rosas / Valor Econômico

Desempenho do atual presidente supera o dos concorrentes num momento de queda em sua popularidade

O atual presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, venceria todos os candidatos da oposição em primeiro e segundo turnos caso a eleição fosse hoje. É o que mostra a pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta segunda-feira (3). A pesquisa faz parte do levantamento divulgado na semana passada, que mostrou que pela primeira vez a reprovação do governo Lula foi maior do que a aprovação.

Mesmo com a reprovação em alta, Lula sairia vitorioso em todos os cenários, inclusive de nomes acrescentados recentemente à pesquisa, casos do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) e do cantor sertanejo Gusttavo Lima (sem partido).

Foram traçados quatro cenários para o primeiro turno e seis para o segundo na pesquisa estimulada. No primeiro turno, a Quaest listou oito candidatos: Lula; o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos); Gusttavo Lima; o influenciador Pablo Marçal (PRTB); Eduardo Bolsonaro (PL); o ex-ministro Ciro Gomes (PDT); o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo); e o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União).

No primeiro turno, Lula venceu nos quatro cenários, com percentuais que variaram entre 28% e 33%.

Poesia | Homem comum – Ferreira Gullar

Sou um homem comum
de carne e de memória
de osso e esquecimento.
Ando a pé, de ônibus, de táxi, de avião
e a vida sopra dentro de mim
pânica
feito a chama de um maçarico
e pode
subitamente
cessar.

Sou como você
feito de coisas lembradas
e esquecidas
rostos e
mãos, o guarda-sol vermelho ao meio-dia
em Pastos-Bons,
defuntas alegrias flores passarinhos
facho de tarde luminosa
nomes que já nem sei

Música | Paulinho da Viola - Portela Feliz (Zé Kéti)

 

domingo, 2 de fevereiro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Queda em novos registros de armas foi um avanço

O Globo

Mas governo ainda precisa tratar de reduzir arsenal enorme em poder da população

É boa notícia a redução de 30% nas licenças para porte de armas e de 11,6% nos novos registros, verificada no ano passado pela Polícia Federal (PF). De 2023 para 2024, as autorizações para porte caíram de 2.469 para 1.727, enquanto a concessão de novos registros baixou de 28.402 para 25.097, segundo dados do Sistema Nacional de Armas (Sinarm), da PF.

Os números demonstram o acerto das restrições à compra, à posse e ao porte de armas implantadas no início do atual governo, depois do derrame armamentista ocorrido no anterior, sob o equivocado pretexto de aumentar a segurança da população. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelam que, entre 2018 e 2022, apenas os registros para armas de colecionadores, atiradores desportivos ou caçadores (CACs) foram multiplicados por sete vezes, chegando a quase 800 mil. Era preciso interromper a tendência.

Fim de um ciclo? - Merval Pereira

O Globo

Um sinal de que o presidencialismo de colisão está no fim é a distinção feita por Lira entre apoio eleitoral e para governar 

Um sinal de que o presidencialismo de coalizão está no fim, e que o governo Lula está abalado, é a definição dada pelo ex-presidente da Câmara Arthur Lira do que seja o apoio dos partidos a um governo: apoio para governar é diferente de apoio eleitoral, disse ele. O que significa avisar que os partidos que fazem parte da estrutura governamental não se consideram necessariamente obrigados a apoiar uma candidatura presidencial em 2026 que “esteja afundando”.

Além de deixar no ar que o governo está mal, mostra uma mudança no equilíbrio dos Poderes. No presidencialismo brasileiro, o presidente da República é eleito diretamente com o apoio de diversos partidos, que idealmente formarão o governo. Mas como dificilmente, para não dizer nunca, o eleito terá a maioria do Congresso, tem que formar coalizões, muitas vezes, para não dizer quase sempre, incoerentes com o papel que os partidos assumiram na campanha presidencial.

Nova geração assume o comando do Congresso – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Para alguns caciques do Congresso, chegou a hora de resolver a contradição entre um sistema de governo presidencialista e uma constituição parlamentarista

A eleição de Davi Alcolumbre (União-AP) e de Hugo Motta (PR-PB) ao comando do Senado e da Câmara, ontem, respectivamente, no contexto de uma ampla coalizão de partidos, que vai do PT do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao PL, representa também uma mudança de geração na elite política do país, que consolida a hegemonia dos políticos do Norte e Nordeste na Casa, com uma orientação fortemente vinculada aos partidos do Centrão.

Alcolumbre, que volta ao comando de Senado, tem 47 anos e foi eleito com uma votação consagradora, obtendo 73 votos, apenas três a menos do que o mais longevo e mais importante político que presidiou a Casa depois da redemocratização, o ex-presidente José Sarney (MDB). Fez uma carreira meteórica, pois chegou à Casa em 2015 e quatro anos depois se elegeu presidente do Senado pela primeira vez, o mais jovem da história. Judeu de origem marroquina, sua família é dona de postos de gasolina, emissoras de tevê (Band e SBT) e negócios agropecuários (terras, pecuária, papel e celulose). 

Aos 35 anos, Motta ascende ao comando da Câmara, como o mais jovem presidente da Casa. Entretanto, tem 21 anos de mandato de deputado federal eleito pela Paraíba. Sua cultura política é a das velhas oligarquias nordestinas, adquirida na convivência com o avô, Nabor Wanderley da Nóbrega, que foi prefeito de Patos, e seu pai, Nabor Filho, que é o atual prefeito, pela quarta vez. A avó materna, Francisca Mota, foi deputada estadual por seis mandatos e, também, foi prefeita da cidade.

Alcolumbre, Motta e as barbas de molho - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

No ‘novo Congresso’, economia, redes sociais, IA, segurança e militares. E paz entre Poderes?

Inversão no Congresso: Davi Alcolumbre será na presidência do Senado o que Arthur Lira foi na da Câmara e Hugo Motta será na da Câmara o que Rodrigo Pacheco foi na do Senado. Ou seja, Alcolumbre terá muita força e um poder muito maior para chantagear, ops!, negociar com o governo e Motta tende a ser mais cauteloso ao dar um passo tão grande na carreira política – tomara que não um passo maior que a perna. Mas Motta não estará sozinho. Foi apadrinhado por Lira e grande aliado de... Eduardo Cunha.

Alcolumbre (União BrasilAP) e Motta (RepublicanosPB) têm muitas diferenças, mas ambos fortalecem ainda mais o já tão poderoso Centrão e ambos estão embolados nas investigações do Supremo sobre desvios de emendas parlamentares esquisitonas. Logo, o Centrão está no comando, mas o ministro Flávio Dino está a postos e o fator emendas tende a dar limites à audácia do Congresso.

Indústria nacional volta a ter destaque - Geraldo Alckmin*

O Globo

O Brasil tem um chão de fábrica sólido. Essa base nos permitirá avançar em novos mercados e diversificar nossa produção

A indústria nacional voltou a ocupar lugar de destaque no crescimento do PIB brasileiro no ano passado. Para aqueles que gostam de aferir os resultados do governo, uma boa notícia: o parafuso está apertado, e a máquina tornou a funcionar.

Números, sem contexto, são apenas cifras. Mas, quando uma política pública produz resultados palpáveis, os algarismos traduzem a eficácia de programas bem construídos, como temos visto desde 2023, com o governo do presidente Lula.

A indústria, em geral, cresceu 3,2% até novembro do ano passado, puxada por bens de consumo duráveis (como televisores, geladeiras e móveis), que tiveram crescimento de 10,7% no acumulado de janeiro a novembro de 2024, em relação a 2023.

A produção de bens de capital (máquinas e equipamentos) cresceu 8,8% no mesmo período, e a indústria de transformação como um todo deverá encerrar 2024 com ganho de 3,7%, maior soma em dez anos, e registrou o valor recorde de US$ 181,9 bilhões em exportações. A produção da agroindústria havia crescido 2,2% nos 11 primeiros meses de 2024, melhor desempenho nesse intervalo desde 2010.

Em defesa das Forças Armadas: militares fora da política - Raul Jungmann*

Correio Braziliense

Temos condições mais favoráveis para estabelecer regras capazes de contribuir para a despolitização das Forças Armadas e, com apoio destas

Uma questão democrática latente no Brasil hoje é a participação dos militares na política, sobretudo após os acontecimentos que culminaram no 8 de janeiro e suas consequências. Estudo anterior a esses episódios, do professor Pedro Kelson, mestre em cultura política e capital social, constatou que, em 11 democracias protagonistas da cena global, candidaturas de militares da ativa são proibidas.

Na França, Alemanha, Bélgica, Espanha, Itália, Portugal, Reino Unido, Estados Unidos, Uruguai, Argentina e Chile, essa é uma restrição comum, algumas, agravadas por mais condicionantes. 

O Brasil, como está, permanece não só à margem desse padrão, como indiferente ao próprio histórico político, que recomenda o mesmo caminho desses países. Daí a importância da aprovação da chamada PEC dos Militares, em tramitação no Senado, que veta candidaturas para cargos políticos a militares da ativa.

Trump age com método no segundo mandato – Dorrit Harazim

O Globo

O objetivo maior e final é assumir controle pleno, sistemático e duradouro da máquina federal

Que ninguém se engane: há método no caos imposto por Donald Trump a seu país e ao mundo neste segundo mandato. Não significa que, ao final, ele chegará aonde quer.

Sua primeira temporada na Casa Branca (2017-2021) já havia sido caótica, mais por despreparo e escasso conhecimento de como funciona a máquina governamental. À época, o foco do novato na Presidência era outro — Trump priorizou consolidar sua cumplicidade com os seguidores raiz, os desgarrados da sociedade. Como método, usou e abusou do escárnio compartilhado, da zombaria pública, do linchamento verbal.

“A crueldade os encheu de satisfação e orgulho, fez com que se sentissem próximos uns dos outros”, escreveu em 2018 o jornalista Adam Serwer no ensaio “A crueldade como objetivo”, sobre o impacto da chegada de Trump ao poder.

O grande mico do 20 de janeiro de Donald Trump - Elio Gaspari

O Globo

O que a China fez com os bilionários americanos das big techs e com Donald Trump foi uma malvadeza histórica.

No dia 20 de janeiro, o novo presidente anunciou em seu discurso de posse: “A partir de agora, terminou o declínio americano” e prometeu o início de uma “Era de Ouro” para o país.

Entre os convidados, aplaudindo-o, estavam os bilionários Elon (Tesla) Musk, Mark (Meta) Zuckerberg, Jeff (Amazon) Bezos, Tim (Apple) Cook, Sundar (Google) Pichai e Sam (Open-AI) Altman.

Com jeito de quem não queria nada, naquele dia, a empresa DeepSeek, do chinês Liang Wenfeng, soltou seu aplicativo de inteligência artificial R1. Em seguida, republicou um artigo de 22 páginas assinado por 193 autores (todos chineses) e a estrutura do seu programa.

O R1 da DeepSeek foi lançado no dia da posse de Trump de caso pensado. A China já fez coisa parecida em 2023, às vésperas de uma visita da secretária do Comércio dos EUA.

Trump e a burrice histórica - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Wall Street Journal diz que política comercial trumpista é 'a mais burra da história'

"A guerra comercial mais burra da história" era o título de um editorial do "Wall Street Journal" (WSJ). Critica os aumentos do imposto de importação de Donald Trump sobre produtos de Canadá, México e China.

O WSJ não é suspeito de ser antitrumpista. Mas não bebe sopa fervendo de dólares rasgados. Tributar importações a rodo não faz sentido prático, pragmático ou teórico para quase ninguém. Mas é disso que se trata, de discussão econômica?

O programa de Trump suscita debates sobre aumento de ineficiências e de inflação, de alta de juros e do dólar, de prejuízos para o PIB de aliados. Anima ou requenta discussões sobre desglobalização comercial, que já são bem exageradas, porém.

Cultura costura fios desatados - Míriam Leitão

O Globo

A cultura tem feito o que a política e o judiciário não conseguiram: costurar um país marcado por feridas não curadas

A cultura tem feito o que a política e o judiciário não conseguiram, o encontro do Brasil com a sua história. Volto de férias com o Brasil falando ainda em contas públicas, Donald Trump colocando em prática o seu extremismo e uma ameaça chinesa rondando as empresas americanas de alta tecnologia. Assuntos em pauta, certamente. Mas quero hoje falar de “Ainda estou aqui", de “Lady Tempestade” e de Marina Colasanti. O cinema, o teatro e a literatura nos colocam de frente para o que é essencial.

O belo “Ainda estou aqui” tem permitido um diálogo de gerações sobre temas nunca devidamente tratados no Brasil. Há algo na genial direção de Walter Salles, na perfeita atuação de Fernanda Torres, no talento de Selton Mello. Há algo no mar do Leblon, no ambiente familiar, no clima dos anos 1970, na trilha sonora que permanece. Meu neto Daniel, de 15 anos, disse que queria ver o filme com a família, mas todos já haviam visto. Fomos quatro pessoas, de três gerações diferentes — o pai, a irmã e os avós —, acompanhá-lo. Já tínhamos visto, mas o convite era encantador. No final, ele contou que quer rever porque precisa anotar as frases que foram ditas naquela época, mas poderiam ter sido ditas hoje.

Identidades mortas a caminho - Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Esse fascínio atemorizado pela morte decorre de uma alergia à vida, por um mal-estar civilizatório insuperável

A maior preocupação da plutocracia que acaba de chegar ao poder com Trump é hoje a imortalidade. Jeff Bezos, da Amazon, pesquisa o elixir da juventude, enquanto Sergey Brin e Larry Page, donos da Google, concentram-se numa startup ("Calico") cujo objetivo é "matar a morte". Mas há colaterais de menor porte: movidos por achados arqueológicos, cientistas vêm se declarando prontos para ressuscitar animais extintos, do mamute ao pássaro dodô. O DNA das fezes e do vômito de dinossauros é o caminho técnico.

O dodô existia até o século 17 nas ilhas Maurício, no Índico, desaparecendo 100 anos após a chegada dos humanos. Anacronismo vivo, semelhante a um pombo de um metro de altura, tinha asas, mas não voava, não tinha medo de humanos, nem sequer de marinheiros esfomeados. Foi caçado até o último exemplar, mas ficou como símbolo da indiferença suicida. Ressuscitar o extinto é só uma variável dos projetos de extinção da morte.

Governo se perde no lero-lero – Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Na primeira entrevista já no molde da nova comunicação, Lula mais enrolou que esclareceu

Quando se ouve presidente e ministros falarem sobre o que se pretende fazer em Brasília para baixar o preço dos alimentos vem à mente o personagem Rolando Lero. Aquele que, ao não saber a resposta à pergunta do professor Raimundo, enrolava o mestre com um entra e sai de frases vazias. Está assim o governo desde que se deu conta do efeito nefasto da inflação no humor das pessoas.

Nem se pode dizer que tenha acordado tarde, pois quando o presidente Luiz Inácio da Silva (PT) diz que ainda "é cedo" para a população fazer uma avaliação justa de sua gestão, sugere apenas um leve despertar. A crise do Pix provocou uma sacudida no sono gostoso do negacionismo, a queda de popularidade com perda expressiva de apoio no Nordeste fez tremer as bases, mas não foi suficiente para um alinhamento de posições.

E agora, Kassab? - Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Chefe do PSD se distancia de Lula porque sonha em ser o 'kingmaker' que fará de Tarcísio presidente

Na semana passada, Gilberto Kassab (PSD-SP) se distanciou do governo Lula. Em um desses eventos de rico, disse que Lula não é favorito na próxima eleição presidencial e que Fernando Haddad é um ministro fraco.

Não seria nada de mais, não fosse por dois motivos.

Em primeiro lugar, Lula está prestes a oferecer ao PSD, partido de Kassab, ministérios importantes. Ainda não sabemos quais, mas não deve ser coisa pequena. A esperança de Lula é usar a reforma ministerial para fechar alianças para 2026. Se Kassab já estiver fechando com o outro lado, a reforma ministerial já começará meio esquisita.

Em segundo lugar, Kassab tem fama de bússola que sempre aponta para o lado vencedor. Se largar Lula, pode ser sinal de fraqueza do petista.

Kassab também pode estar se aventurando em um jogo que nunca jogou.

Quem é a direita da direita que apoia Trump na Europa - João Gabriel de Lima

Folha de S. Paulo

Ultradireitistas veem na proximidade com presidente americano uma chance de ganhar influência e promover-se para eleitorado

[RESUMO] A volta de Donald Trump ao poder marca um realinhamento na direita global, notadamente na Europa, onde a fragmentação do espectro político avança junto com seu poder de influência. O autor sustenta que grupos posicionados à direita da direita tradicional buscam, na proximidade com o presidente americano, formas de promoção ideológica. Com posturas mais radicalizadas e sem respostas para problemas complexos, esses grupos, assim como Trump, também miram sua retórica contra os imigrantes.

A posse de Donald Trump rendeu selfies entusiasmadas no Instagram de vários líderes europeus. Em uma dessas fotos, o presidente americano aparece sorridente ao lado de Giorgia Meloni. "Estou certa de que a amizade entre nossas nações e os valores que nos unem continuarão a reforçar a colaboração entre Itália e Estados Unidos, enfrentando juntos os desafios globais e construindo um futuro de prosperidade e segurança para nossos povos", escreveu a primeira-ministra italiana.

No perfil de Meloni, há um vídeo de Trump em que ele define a premiê como "uma líder e pessoa fantástica" e outra foto de ambos com a legenda "prontos para trabalhar juntos".

O espanhol Santiago Abascal, líder do partido político Vox, ecoou o discurso de Trump em uma de suas postagens. "Felicidades aos defensores da liberdade e do senso comum no mundo inteiro. Este é o nosso momento." Os dois políticos aparecem na foto com o polegar para cima.

Casado com uma influenciadora, Lidia Bedman, Abascal fez uma cobertura completa do evento. Em uma sequência de vídeos com imagens de Washington ao fundo, chama o premiê espanhol Pedro Sánchez de charlatão, ataca os "burocratas de Bruxelas" e abraça efusivamente o presidente argentino Javier Milei.

A selfie de Tino Chrupalla, um dos líderes do partido político alemão AfD (Alternativa para a Alemanha), teve como cenário a festa de Trump dentro da arena Capitol One. Ele escreveu sob a foto: "Podia-se sentir o otimismo e a esperança em um presidente que cumpre imediatamente as promessas eleitorais e quer proteger o interesse dos cidadãos, da mesma forma que nós nos preocupamos com os interesses dos cidadãos alemães".

Em sua posse, Trump pouco falou de assuntos internacionais —"América primeiro!"—, mas abriu um precedente ao convidar vários líderes estrangeiros para uma festa à qual tradicionalmente só comparecem americanos. Com o gesto, demarcou quem seria sua turma no mundo.

Da América Latina, foram convidados Javier Milei, o presidente salvadorenho Nayib Bukele e o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que não pôde comparecer por ter tido o passaporte retido pela Justiça. Um olhar sobre os líderes europeus, como Meloni, Abascal e Chrupalla, deixa mais claro, no entanto, o perfil dos escolhidos por Trump.

Parlamento Europeu é ocupado por partidos que agrupam siglas de diferentes países. O maior deles é o PPE (Partido Popular Europeu), de direita, à qual pertence a presidente da Comissão Europeia, a alemã Ursula von der Leyen, e a presidente do próprio Parlamento Europeu, a maltesa Roberta Metsola. A esquerda se agrupa no guarda-chuva S&D (Socialistas e Democratas), ao qual pertencem os premiês da Espanha, Pedro Sánchez, e da Alemanha, Olaf Scholz, que disputa a reeleição em pleito marcado para o dia 23 de fevereiro.

Poesia | O Rio - João Cabral de Melo Neto

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Música | Quando fevereiro chegar - Geraldo Azevedo

 

sábado, 1 de fevereiro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Queda no desemprego traz sensação ilusória

O Globo

Apesar do número auspicioso de 2024, cenário futuro não será bom para o Brasil nem para o governo

A taxa média de desemprego no Brasil em 2024 foi de meros 6,6%, a menor da série histórica iniciada pelo IBGE em 2012. A medida do bom momento do mercado de trabalho no ano passado fica evidente quando se constata que o menor índice até então eram os 7% registrados em 2014, antes de a economia mergulhar em dois anos de recessão profunda. Entre os avanços de 2024 estão o aumento no número de empregados com carteira assinada e a alta no rendimento médio entre trabalhadores formais e informais.

A pesquisa Quaest divulgada no início desta semana captou o efeito do mercado de trabalho aquecido na opinião pública. Em agosto de 2023, a economia era o tema que mais preocupava 31% dos brasileiros. De lá para cá, houve queda de 10 pontos percentuais, e a economia deixou de ser apontada como o principal problema do país.

Mas tal quadro é ilusório e dificilmente será duradouro. Infelizmente, as análises mais confiáveis apontam para reversão dessa tendência. Olhando para a frente, é difícil acreditar que os números auspiciosos de 2024 serão mantidos neste ano. Se o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tiver um mínimo de responsabilidade, eles arrefecerão. Por ter crescido nos últimos dois anos acima do potencial, a economia brasileira está superaquecida. Um dos sintomas é a alta nos preços.

Elogio da tolerância - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Sociedades diversas só se tornam viáveis se pessoas e grupos tiverem casca grossa para suportar ideias que lhes desagradem

Quanto mais diversa e plural uma sociedade, mais tolerante ela precisa ser. É fácil ver isso olhando para as religiões, por exemplo. Se cada fé ou denominação achar que pode impor seus credos a pessoas de fora do grupo, instala-se o inferno na Terra.

Para um hinduísta ou qualquer outro seguidor de fé politeísta, a simples afirmação do Deus único das três religiões abraâmicas já tem algo de blasfemo, uma vez que nega um ponto nuclear de seu sistema de crenças. Se as pessoas não criarem uma espécie de casca grossa que as faça não se incomodar muito com as ideias dos outros, tanto as religiosas como as políticas e filosóficas, seguem-se atritos e eventuais explosões de violência.

Entre o buraco negro e o beco sem saída - Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Eleição de Hugo Motta aponta para mais fiascos no Congresso

Sai a República das Alagoas, entra a da Paraíba. A chegada de Hugo Motta à Presidência da Câmara muda o cenário, mas o fundo permanece o mesmo. Um fundo de buraco negro e sem fim que sugou mais de R$ 148,9 bilhões em emendas parlamentares em cinco anos. Um big bang de dindim.

Em 2024 cada deputado levou ao menos R$ 38 milhões em emendas, a maior parte delas de execução obrigatória aprovada pelo Congresso. A eleição de Motta, com apoio da bancada do PT, representa o consenso em torno do projeto de poder que enfraquece os ministérios. Mais verba para obras em redutos eleitorais. Com transparência zero.

Duas soluções para Gaza – Demétrio Magnoli

Folha de S. Paulo

Retirada de tropas é proposta de paz, enquanto sugestão de Trump implode democracia israelense

Na Cidade de Gaza, uma paisagem de ruínas, em cena cuidadosamente coreografada, combatentes armados do Hamas transferiram reféns israelenses à Cruz Vermelha. Na Salah Al Deen, a via que corta a Faixa de Gaza desde Khan Younis até o campo de Jabalia, uma multidão retornou para o norte –a pé, em carroças ou carros– até suas casas que já não existem. As imagens do interregno propiciado pelo cessar-fogo situam-se numa encruzilhada histórica que definirá os destinos de Israel e da Palestina.

Tecnoutopia ou tecnofraude? - Pablo Ortellado

O Globo

Na periferia de São Paulo espalhou-se pelo boca a boca que qualquer um poderia “vender sua íris” por R$ 500 nas lojas de um aplicativo de celular chamado World. A notícia logo chegou às autoridades e pautou a imprensa. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados pediu esclarecimentos à empresa. A imprensa cobriu a história com certa dificuldade técnica e uma saudável dose de desconfiança. Afinal, porque uma empresa americana, fundada por Sam Altman, do ChatGPT, pagaria ao brasileiro que quiser escanear a sua íris?

A empresa em questão se chama Tools for Humanity (Ferramentas para a Humanidade) e oferece o equivalente a R$ 500 em criptomoedas a quem fizer a verificação de humanidade única por meio do World.

O Copom de Lula – Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Todo mundo no governo continua achando que a taxa de juros já estava e continua alta demais

Não faz muito tempo, Lula disse que a única coisa fora de lugar na economia brasileira era a taxa de juros. E que a culpa era do então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, tratado como adversário do governo e inimigo da pátria.

Hoje, a taxa básica de juros (Selic) está mais alta — 13,25% ao ano. Seria elevada, na semana passada, numa reunião em que sete dos nove diretores do BC estão lá por indicação de Lula. Inclusive o “companheiro” Gabriel Galípolo, novo presidente da instituição.

Mas a culpa continua sendo de Campos Neto, na opinião de Lula. Na entrevista que concedeu, ele disse que a alta da taxa era esperada, pois havia sido definida em decisão do “outro presidente” do BC. De fato, foi na última reunião presidida por Campos Neto que o Comitê de Política Monetária do BC (Copom) aumentou a Selic para 12,25% e anunciou que aplicaria mais duas altas da mesma magnitude nas reuniões seguintes, de janeiro e março de 2025.

Desemprego cai a 6,6%, menor patamar da história - Carolina Nalin

O Globo

Pesquisa do IBGE começou em 2012. No último trimestre, taxa foi de 6,2%, também a menor para o período

O Brasil fechou 2024 com a menor taxa média de desemprego desde o início da série histórica, em 2012. O índice anual caiu de 7,8% para 6,6%. O número de pessoas ocupadas nunca foi tão alto no país, com recordes no emprego formal e por conta própria, além do maior rendimento médio já registrado. É o que mostram os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, divulgados nesta sexta-feira pelo IBGE.

No trimestre encerrado em dezembro, a taxa foi de 6,2%, também o menor índice já registrado para o período desde 2012. O resultado veio em linha com o esperado pelos agentes econômicos, que projetavam que a taxa recuasse para 6% no quarto trimestre do ano passado, segundo mediana coletada pelo Valor Data.

Em defesa da liberdade - Miguel Reale Júnior

O Estado de S. Paulo

A defesa da liberdade e da democracia, diretriz orientadora nos primeiros 50 anos do ‘Estadão’, veio a ser a senda do jornal no século que se seguiu

O sesquicentenário do Estadão convida a visitar o papel deste importante veículo de imprensa na história do País. O traço característico da caminhada de 150 anos está na defesa e no respeito da liberdade, cabendo destacar sua participação nos acontecimentos desde sua fundação até o fim do primeiro quartel do século 20.

Ressaltam-se as figuras dos jovens fundadores, Rangel Pestana e Américo de Campos, o primeiro, signatário do Manifesto Republicano de 1870, o segundo, integrante da Convenção de Itu de 1873, nascedouro do partido republicano. Ambos estiveram comprometidos com a causa da abolição da escravatura. São duas tônicas do novel jornal fundado em 4 de janeiro de 1875. Como disse Martinho Prado Jr., em 16 de março de 1882, a causa da nefanda escravidão estava na monarquia. A luta pela república andava junto com a da abolição.

A inutilidade dos muros - André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

O mundo vem sendo dividido por muros desde priscas eras, com objetivo de cada grupo, ou tribo, preservar tradições, comércio e vantagens comparativas em relação aos vizinhos

A pequena cidade de Aguas Blancas, na província de Salta, Argentina, fronteira com a Bolívia, colocou a América do Sul no mapa das divisões tribais quando decidiu construir um muro para marcar sua fronteira com o vizinho naquela região andina. Explico melhor: o mundo vem sendo dividido por muros desde priscas eras, com objetivo de cada grupo, ou tribo, preservar tradições, comércio e vantagens comparativas em relação aos vizinhos. 

A iniciativa dos vizinhos parece ridícula, porque a construção é, na realidade, uma cerca de arame farpado com 200 metros de comprimento, numa área muito maior que pode ser violada a pé para quem quiser caminhar um pouco mais. Vale, contudo, como registro de um tempo de impossibilidade de convivência pacífica com quem pensa ou age diferente. Ou simplesmente é mais pobre. Trata-se de mensagem de apoio do mundo subdesenvolvido para o grande irmão Donald Trump.

Monroe revisitado - Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

Como os Estados Unidos encaram o excepcionalismo. E como o resto do mundo o vê

A deportação de imigrantes pelo governo Trump foi analisada como um evento excepcional na história norte-americana. Uma caminhada pelos desvarios incrustados na história do Irmão do Norte traria, no entanto, informações que desmentem a excepcionalidade das proezas do atual presidente e seus asseclas. No artigo American Exceptionalism, Daniel ­Deudney e Jeffrey Meiser desvendam as origens da autolouvação dos EUA que invoca o caráter único e superior de sua posição no âmbito dos Estados Nacionais. “Desde a sua fundação, há quase um quarto de milênio, os Estados Unidos da América se consideram e são amplamente percebidos como excepcionais.”

Notícias falsas e democracia - Marcus Pestana

A democracia está em crise? Qual o papel da desinformação? Há hoje abundante literatura e espaço central para o debate sobre a manipulação da verdade como ferramenta de ação política através das tão propaladas “Fake News”.

Mas este é um problema novo? De jeito algum. A fofoca, as notícias falsas, as mentiras são presentes na vida pública e privada desde que o mundo é mundo, desde a Grécia Antiga e o Império Romano. E foram eficazes em grandes momentos da História.

O 8 de janeiro e a questão militar - Hamilton Garcia de Lima

A jovem democracia brasileira segue seu curso, em seu ciclo mais extenso e profundo sob a República, sem se animar a sanar os graves problemas que a acometem desde 1985 (vide A crise e suas raízes). Seguindo assim, continuaremos suscetíveis a ameaças políticas como a representada pelo bolsonarismo.

A bem da verdade, o malogro do golpismo bolsonarista se deveu mais à inconsistência de seus estrategos (vide A viagem redonda – de volta à política de vetos) do que a qualquer propalada fortaleza institucional. Quem conhece nossa história republicana sabe que intervenções militares exitosas só se produzem quando em conexão com amplos movimentos sociais extra-caserna. A tentativa de Bolsonaro de se manter no poder passou longe disso.

Forjado no âmbito do centrão como líder corporativo (militar), sem ter estudado a história, Bolsonaro imaginou que a mera mobilização do “soldado-cidadão”, à moda da República da Espada (Governo Deodoro-Floriano, 1889-1894), junto com o toma-lá dá cá da Nova República, seria suficiente para pavimentar seu projeto autoritário. Não foi.

Poesia | Mãos Dadas, de Carlos Drummond de Andrade

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Música | João Bosco - Desenho de Giz