quarta-feira, 24 de março de 2021

Veja, em 11 pontos, as diferenças entre a realidade da pandemia e pronunciamento de Bolsonaro

Após minimizar pandemia durante um ano, presidente afirma que sempre combateu o vírus

Thiago Amâncio, Isabela Palhares, Phillippe Watanabe / Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) fez um pronunciamento em cadeia nacional na noite desta terça-feira (23), mesmo dia em que o Brasil cruzou pela primeira vez a marca das 3.000 mortes registradas em 24 horas, para defender sua gestão no combate à pandemia do novo coronavírus, iniciada há pouco mais de um ano.

Com o aumento desenfreado no número de mortes no país, onde já morreram quase 300 mil pessoas (100 mil apenas de meados de janeiro até agora), Bolsonaro tem sido pressionado a modular seu discurso sobre a crise sanitária no país, cuja gravidade, além de deixar uma montanha de mortos, afeta as perspectivas econômicas, sociais, políticas e de relações exteriores do país, cada vez mais isolado.

No pronunciamento, de quatro minutos, o presidente disse que seu governo é "incansável" no combate ao vírus —que por 12 meses ele minimizou— e se solidarizou com as famílias e amigos das quase 300 mil vítimas, após ter debochado do temor e do luto da população em diferentes ocasiões.

A Folha checou como 11 afirmações de Bolsonaro no discurso desta terça se comparam com suas declarações passadas, suas ações e a realidade da pandemia.

Bolsonaro é alvo de panelaços durante pronunciamento na TV

Presidente decidiu se pronunciar em rede nacional sobre a gestão da pandemia

 - Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - O presidente Jair Bolsonaro foi alvo de panelaços em diversas capitais pelo país durante seu pronunciamento em rede nacional na TV na noite desta terça-feira (23).

Ele decidiu falar publicamente a respeito do enfrentamento ao coronavírus em um momento em que a pandemia se aproxima da marca de 300 mil mortes no país —em apenas 24 horas, 3.158 mortes por Covid-19 foram registradas. O novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, tomou posse nesta terça, em substituição ao general Eduardo Pazuello.

Em São Paulo, houve panelaço em bairros como Santa Cecília e Higienópolis (região central), Perdizes (zona oeste), Saúde (zona sul) e Tatuapé (zona leste).

Em Santana (zona norte), houve gritos de "assassino" e, no Ipiranga (zona sul), de "genocida".

Houve também panelaço na Asa Norte, em Brasília, em Laranjeiras, no Rio, no Recife, em Curitiba, em Belo Horizonte, em Salvador e em Belém. Moradores também protestaram acendendo e apagando luzes em apartamentos.

Doria critica Bolsonaro e diz que “faltou vergonha e verdade” em pronunciamento

Rodrigo Maia (DEM-RJ), ex-presidente da Câmara, Ciro Gomes (PDT), ex-ministro e ex-governador do Ceará, e Fernando Haddad (PT), ex-prefeito de São Paulo, também criticaram fala do presidente sobre a pandemia

Por Cristiane Agostine e Lilian Venturini / Valor Econômico

SÃO PAULO - O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), criticou o presidente Jair Bolsonaro pelo pronunciamento feito na noite desta terça-feira (23) em rede nacional de rádio e televisão. Pelo Twitter, o tucano disse que faltou “vergonha” e “verdade” ao presidente.

No dia em que o país registrou um novo recorde de óbitos por covid-19, com 3.158 mortes em 24 horas — conforme levantamento do consórcio de veículos de imprensa —, Bolsonaro afirmou no pronunciamento que “em nenhum momento o governo deixou de tomar medidas importantes” para combater a pandemia. O país, no entanto, lidera o número de mortes e de casos da doença no mundo. Já são mais de 298,6 mil óbitos pelo novo coronavírus No Brasil e 12,1 milhões de pessoas contaminadas. Durante o pronunciamento, o presidente foi alvo de protestos em diversas cidades do país.

Ex-presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) afirmou que o presidente estava “nitidamente acuado”. “Obrigado a falar de vacina, mas não tratou da falta de oxigênio, da necessidade de utilização de máscaras e do isolamento. Não mudou nada. Continua, infelizmente, patrocinando a morte de milhares de brasileiros”, criticou Maia.

Zeina Latif - A cada tijolo que cai, uma agonia

- O Globo

Temos assistido a situações de fraqueza e desvio institucional — talvez retrocesso —, em várias frentes. Não se trata apenas do funcionamento de órgãos de controle e instituições democráticas, mas também do respeito às regras do jogo que promovem o bem comum.

Garantir boas práticas na ação estatal é o que falta neste momento, afetando a confiança da sociedade e de agentes econômicos, e a imagem do país.

A anulação das condenações de Lula, por erros formais de jurisdição, e as possíveis decisões para invalidar processos da Operação Lava-Jato, por ação inadequada de juízes e promotores, poderiam ter sido evitadas caso as instituições tivessem funcionado como deveriam anos atrás.

Enquanto a Lava-Jato tornava-se “patrimônio nacional”, parte da classe jurídica criticava seus métodos e apontava equívocos. Não houve, porém, reação devida de entidades civis relevantes — como a OAB —, do próprio Ministério Público e dos poderes Judiciário e Legislativo.

Vinicius Torres Freire – O movimento cartista dos empresários

- Folha de S. Paulo

Ideia é fazer pressão para que Bolsonaro permita um governo funcional na epidemia

Empresas querem financiar leitos extras de UTI, também em hospitais privados. Mas querem um incentivo para facilitar essa ajuda, por assim dizer. Foi uma das ideias que deram em reuniões com os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), entre outras. O essencial seria levar Jair Bolsonaro a fazer uma reviravolta no governo.

Alguns empresários dizem que ainda seria possível arrumar leitos extras de UTIs em hospitais privados, que as reservam para pacientes de cirurgias eletivas, até por motivos financeiros. As empresas “comprariam” esses leitos em tese ainda disponíveis, com algum incentivo de redução de impostos.

As reuniões desta segunda-feira (23) acontecem na onda da repercussão da carta de economistas, financistas e empresários contra a política sanitária insana de Bolsonaro. Vamos chama-lo de movimento “cartista”, com ironia histórica (o Cartismo foi um movimento político operário que surgiu na Inglaterra dos anos 1830).

De política mesmo, o movimento pretende “aumentar a pressão” para que Bolsonaro ao menos deixe de sabotar o combate à epidemia. A pressão mais direta acontece por meio de conversas com lideranças do Congresso. Não tem impeachment no programa.

Nilson Teixeira* - Baixo crescimento pode ser duradouro

- Valor Econômico

Empenho de grupos de interesse impedirá que reformas tributária e administrativa sejam abrangentes o suficiente

A expansão média do PIB brasileiro nas últimas quatro décadas foi muito inferior à média dos países emergentes, notadamente os da Ásia. A expectativa para os próximos anos é ainda menos alvissareira, mesmo após as transformações das últimas décadas. A inflação descontrolada, que justificou por muito tempo o baixo crescimento, é parte do passado. O controle da taxa de câmbio em patamar apreciado, considerado por muito tempo razão para o frágil desempenho da economia, já não existe, apesar das intervenções nos mercados à vista e de swap cambiais. A conquista da democracia e da liberdade política, fator importante para estimular o crescimento, já está consolidada.

Todavia, há áreas que precisam de grande avanço. O ambiente de negócios, um empecilho à maior expansão da economia, tem evoluído pouco. A violência permanece elevada, o que reduz o fluxo de investimentos e de turismo. O risco jurídico se mantém exagerado, pois as ações judiciais são demoradas e sujeitas a muitos recursos - não é incomum ações contra a União demorarem mais de 20 anos.

Cristiano Romero - Sem nação, pandemia é mais devastadora

- Valor Econômico

Manifesto é tardio, mas é cinismo criticar iniciativa

É de um cinismo atroz a crítica feita, principalmente por alguns setores da esquerda, ao contundente manifesto, assinado por 500 economistas e lançado no fim de semana passado, que cobra do governo Bolsonaro mudança radical no enfrentamento da pandemia. Subscrito por economistas de orientação ideológica distinta, o manifesto, intitulado “O País Exige Respeito; a Vida Necessita da Ciência e do Bom Governo”, é uma forma de sensibilizar a opinião pública para a tragédia que assola o país devido ao inacreditável negacionismo do presidente da República diante da maior crise sanitária vivida pela humanidade em cem anos.

O movimento é tardio? Sim, não se tenha dúvida disso. Mas, o que explica o imobilismo da elite intelectual brasileira, assim como de todos os outros setores da vida nacional, é o fato de, infelizmente, não sermos uma nação. Esta só existe quando cada cidadão se reconhece no outro, quando compartilha valores e aspirações, quando todos são rigorosamente iguais perante as leis, quando não existe discriminação de qualquer espécie, quando o Estado assegura a todos oportunidades iguais de formação educacional e acesso a serviços, como a saúde e segurança pública.

Entrevista | Judith Butler: 'Trump e Bolsonaro são sádicos desavergonhados'

'Bolsonaro e Trump são os rostos da crueldade do nosso tempo, e cada um é responsável por incontáveis mortes', afirma Judith Butler

Filósofa americana, que participa nesta quarta (24) de seminário virtual sobre feminismo, fala sobre as perdas da pandemia agravadas pela desigualdade e o novo livro que chegará ao Brasil, em julho, pela Boitempo

Renata Izaal / O Globo

Na última vez em que esteve no Brasil, em 2017, Judith Butler foi alvo de petições on-line e ações judiciais de grupos conservadores que tentaram impedir sua vinda ao país para um seminário sobre democracia. Ela veio, cumpriu sua agenda, mas, na volta para casa, foi agredida no Aeroporto de Congonhas por quem acredita que a filósofa americana é a fundadora da “ideologia de gênero”.

Mas Butler não fundou coisa nenhuma. O que ela fez, de modo muito resumido, foi teorizar sobre o gênero como algo socialmente construído, uma performance. Sua obra, na verdade, é muito mais extensa e avança sobre política e democracia; violência de Estado; luto; poder, discurso e sexualidade; sionismo e a questão palestina.

Hoje, às 14h, Butler voltará a se encontrar com o Brasil, mesmo que remotamente. Ela vai discutir feminismo, corpo e território com a cantora, compositora e ativista Preta Ferreira, dentro da programação do ciclo de debates on-line “Feminismo para os 99%”, realizado pela Boitempo. O encontro será transmitido no canal no YouTube da editora, que publicará, em julho, o livro mais recente de Butler. Em “A força da não violência”, ela critica o individualismo na ética e na política e defende a “igualdade radical” para que se possa construir algo bom juntos.

Em uma breve entrevista, Judith Butler, que leciona na Universidade da Califórnia, Berkeley, reflete sobre pandemia e luto, o negacionismo de Bolsonaro e de Trump e vibra com o feminismo latino-americano: “Movimentos como o Ni Una Menos e o Las Tesis me tocam e inspiram muito”, afirma.

Música | Roberto Silva - Mandei fazer um Patuá (Raymundo Olavo e Norberto Martins)

 

Poesia | Ayrton Rocha - Felicidade, eu preciso te conhecer

Oh, felicidade,
Preciso tanto te encontrar
Eu quero te conhecer felicidade
Quero me apresentar e contigo morar
Eu preciso de ti para viver
Eu preciso de ti para não morrer
Preciso viver dias mais lindos
E minhas noites mais calmas
Eu preciso ver a chuva cair
Sem chorar de tristeza
Eu preciso ver o Sol nascer
E sentir, que ele nasceu também para mim
Eu preciso cantar nas minhas noites de Lua
Eu preciso caminhar sobre as Estrelas
Em busca de ti, felicidade
Eu preciso caminhar entre as Rosas
Sem me ferir nos espinhos
Eu preciso me banhar em águas puras
Onde os Rios sejam cristalinos
Sem sentir o frio da dor
Eu preciso do teu sorriso, felicidade,
Do afago de tuas mãos
Eu preciso do teu beijo
Eu preciso do teu amor
Eu preciso te ter em meu coração
Porque felicidade, eu não te conheço?
Porque foges tanto de mim?
Não faz isso comigo felicidade
Já virou judiação!
Por favor, felicidade, vem morar comigo
Faz do meu coração a tua casa
E da minha vida,
A tua razão de viver
Se não queres que te vejas,
Se não queres me conhecer,
Por favor, felicidade,
Manda pelo menos o teu retrato
Que eu quero ver como tu és
Será felicidade, que tu és mesmo feliz?
Quero conhecer o teu rosto
Quero ver se ele tem a marca do meu desgosto
Que vive tão perto de mim
Quero ver o teu retrato
E conhecer o teu sorriso
Quero saber se tens perfume
Se tu pareces uma Flor
Quero saber por onde andas felicidade
E saber se tens coração
Eu preciso te encontrar felicidade
Eu preciso continuar a sonhar
Como eu vou conseguir amar sem te conhecer!
Por favor, felicidade, não chore
Às vezes é bom à gente sofrer
Marca um encontro comigo felicidade
Eu juro que eu te farei feliz
Se não vieres comigo, eu serei eternamente infeliz

terça-feira, 23 de março de 2021

O que a mídia pensa: Opiniões / Editoriais

Economistas pela saúde – Opinião / O Estado de S. Paulo

A importância da vacinação e dos cuidados com a saúde, diante do agravamento da pandemia, foi tratada como evidente por executivos

Enquanto o presidente cultua a morte, hospitais entram em colapso e enterros congestionam cemitérios, mais de 500 economistas, empresários, ex-ministros, banqueiros, juristas, ex-presidentes do Banco Central, acadêmicos e financistas assinam carta aberta a favor de medidas coordenadas contra a devastação social e econômica provocada pela pandemia. “Estamos no limiar de uma fase explosiva da pandemia e é fundamental que a partir de agora as políticas públicas sejam alicerçadas em dados, informações confiáveis e evidência científica”, afirmam os signatários da carta. “Não há mais tempo para perder em debates estéreis e informações falsas.”

Sem mencionar o nome do presidente Jair Bolsonaro, o documento lembra a importância, para o bem e para o mal, das atitudes dos líderes. “O desdenho à ciência, o apelo a tratamentos sem evidência de eficácia, o estímulo à aglomeração e o flerte com o movimento antivacina caracterizaram a liderança política maior no País”, lembra o documento.

Merval Pereira - Quem estica a corda?

- O Globo

Do jeito que a coisa vai, o Exército brasileiro será colocado à prova muito em breve, quando o presidente da República resolver decretar o estado de sítio, ou estado de defesa, ou qualquer medida emergencial para calar os que o criticam e controlar as instituições.

O ex-comandante do Exército e general Eduardo Villas Bôas revelou em entrevistas que a instituição foi sondada por emissários petistas para apoiar a decretação de estado de defesa durante a tramitação no Congresso do processo de impeachment que acabou tirando Dilma Rousseff da Presidência da República. O general disse que assessores militares no Congresso foram procurados, mas o Exército rechaçou a sondagem.

A ex-presidente negou ter acontecido tal episódio e desafiou Villas Bôas a revelar quem foi o emissário petista, mas não obteve resposta. De qualquer maneira, no relato do general, um ícone do Exército, autor de um famoso tuíte, às vésperas do julgamento de um habeas corpus para Lula no Supremo Tribunal Federal (STF), interpretado como pressão sobre os ministros para que não soltassem o ex-presidente, o Exército brasileiro rejeitou uma tentativa de golpe, o que seria uma atitude em defesa da democracia e do estado de direito.

Carlos Andreazza - A era dos xerifes

Os únicos crescimentos em V hoje no Brasil são o da presença do Centrão no governo e o do recurso à Lei de Segurança Nacional. Herança do estado de direito segundo a ditadura militar, a LSN está na moda de novo. Não poderia ser diferente. Há muito vivemos sob o espírito do tempo autoritário, o principal condicionante da depressão política cujo maior produto (até aqui) é Jair Bolsonaro na Presidência. Aquele Messias que diz: “Enquanto vivo for, enquanto eu for o presidente, porque só Deus me tira daqui, eu estarei com vocês”.

Só Deus — nem uma eleição, nem um impeachment — o tira do trono; brada aquele que afirmou ter provas (jamais apresentadas) de que o pleito de 2018 fora fraudado.

Pode piorar.

Não se chega a um presidente abertamente golpista — um investidor no caos, que tanto mais prosperará quanto mais forem as instabilidades e os conflitos — sem um longo percurso de permissões à violência. Pode piorar. (Enquanto isso, Fux — num gesto de bravura institucional — telefonará para saber se o discurso golpista pode se materializar em golpe; de resto, como se a dilapidação autocrática da democracia liberal precisasse de tanques nas ruas.)

Zuenir Ventura - O flerte de Bolsonaro

- Globo

Bolsonaro está perdido, não sabe o que fazer diante de tanta contrariedade. Sua popularidade está em queda, enquanto a disparada do vírus continua batendo recordes. A gripezinha não dá trégua. Mesmo antes de terminar, março já é o mês mais letal da pandemia.

Até mesmo membros importantes do governo criticam o combate à Covid-19. O ministro Paulo Guedes admite que o número de imunizados é “muito pouco”. Ele é hoje um defensor da vacinação em massa para a retomada da economia, tese oposta à que seu presidente defendia — pelo menos quando ainda não usava máscara.

Dizem que Bolsonaro acuado, como está agora, é um perigo, fica muito agressivo, mais do que normalmente é. E imprevisível, sujeito a surtos, como o de que “só Deus”, de quem se considera íntimo, o tira da Presidência.

Míriam Leitão - Carta mostra o erro econômico

- O Globo

O Ministério da Economia também errou na condução do combate à pandemia. Durante muito tempo, o ministro Paulo Guedes reforçou o equívoco do presidente de que havia uma dicotomia entre economia e saúde, em nenhum momento o Ministério conseguiu passar para o resto do governo qual deveria ser a estratégia econômica de combate ao vírus. E aceitou que o Brasil chegasse tarde ao mercado de vacinas. A carta dos economistas mostra que houve erro econômico, de avaliação, de decisão, de análise de custo-benefício.

Economistas que trabalharam em governos diferentes, que estiveram no Banco Central em diversos momentos e até com pensamentos divergentes assinaram a carta sobre a qual o colunista Merval Pereira falou na coluna dele no domingo. “Vacinas são relativamente baratas face ao custo que a pandemia impõe à sociedade”, diz o texto. Agora Paulo Guedes fala em vacinação em massa como a melhor política fiscal e econômica, mas como se fosse um expectador e não pudesse ter influenciado na correção de rotas meses atrás. Com argumentos econômicos, os signatários criticam o caminho escolhido pelo governo Bolsonaro, o dos “falsos dilemas”, dos “debates estéreis” e do insistente negacionismo.

Cristovam Buarque* - Tempos de desgoverno

- Correio Braziliense

A dimensão da tragédia que atravessamos decorre da simultaneidade do coronavírus com o desgoverno. Outros países passam por dificuldades, mas nenhum enfrenta ao mesmo tempo o alto número de mortes, a falta de leitos em UTI, de oxigênio e de vacinas. Nenhum tem um desgoverno incapaz de organizar a logística de atendimento hospitalar, nenhum tem o desgoverno de um presidente incentivando pessoas a se aglomerarem, sem máscaras, a acreditarem em remédios sem comprovação científica. Há um vírus aliado ao desgoverno.

Em plena pandemia, o Ministério da Saúde teve à frente um militar seguindo ordens de seu comandante, independentemente de bases científicas. A administração profissional do Ministério foi tomada de assalto e dominada pelo caos. Porque não basta dar ordem, é preciso identificar propósitos e seguir uma lógica. Agora, já há um novo ministro, sem que o anterior tenha saído, o que é mais uma prova de desgoverno.

Há também o desgoverno na política externa, que relegou o Brasil ao posto de pária internacional. Nosso desgoverno pratica a antidiplomacia ao nos confrontar com a China, Venezuela, Estados Unidos, Argentina, França. O Ministério das Relações Exteriores faz o oposto do que sempre caracterizou nossa política externa, que já ocupou papel de destaque.

Monica de Bolle - Economia e saúde jamais foram separáveis

- El País

O país asfixia preso na armadilha de que a economia importa mais do que as vidas que a sustentam

A frase que intitula esse artigo está sendo dita e repetida por mim e muitas outras pessoas há mais de um ano. A insistência nunca foi por pura teimosia, menos ainda por pessimismo exagerado como muitos acreditaram no início da pandemia. A insistência, ao contrário, sempre veio do entendimento de que caso tratássemos a economia como soberana ao vírus entraríamos em colapso. Já não tenho noção de quantas vezes disse e escrevi que o colapso do sistema de saúde levaria, inevitavelmente, ao colapso econômico. Afinal, quando o sistema de saúde colapsa no país inteiro não são apenas os pacientes de covid-19 que morrem desnecessariamente ou que sofrem e agonizam. São também todos aqueles que precisam de atendimento hospitalar: do enfarte a uma perna quebrada, de uma crise de asma a um tornozelo torcido. Pensei na apendicite.

Luiz Carlos Azedo - Sem Doria, seria pior

- Correio Braziliense

Bolsonaro subestimou a escala que uma pandemia fora de controle pode adquirir, ao crescer exponencialmente, e os efeitos das mutações genéticas que podem ocorrer com a covid-19

Com o novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, ainda do telhado, por causa de um processo no qual é réu por apropriação indébita, e seu antecessor, o general Eduardo Pazuello, despachando do almoxarifado do ministério, está nas mãos do ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), o destino da ação do presidente Jair Bolsonaro contra os governadores do Distrito Federal, da Bahia e do Rio Grande do Sul por decretarem medidas de isolamento social. O magistrado do STF foi escolhido relator porque é responsável pela ação apresentada pelo PTB no ano passado, também contra decretos de toque de recolher.

Com 12 milhões de infectados, o Brasil está se aproximando dos 300 mil mortos pela pandemia, e a principal preocupação de Bolsonaro, na reestruturação do ministério, é encontrar um lugar para o general Pazuello, que cumpriu sua missão negacionista com zelo — perdão pelo trocadilho. Fala-se em criar um Ministério da Amazônia, o que deixaria sem função o vice-presidente Hamilton Mourão. Por mais que o presidente da República negue, suas ações são a principal causa do descontrole da pandemia. Está tudo registrado ao vivo e em cores, ao longo de um ano de ações contra as medidas adotadas por governadores e prefeitos, por recomendação de infectologistas e sanitaristas.

Ricardo Noblat - O preço a ser pago por uma “boquinha” para o general Pazuello

- Blog do Noblat / Veja

O país pode esperar. O vírus agradece

Pois não foi que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária se esqueceu de passar no último sábado o e-mail que convocaria para o dia seguinte uma reunião sobre a falta de remédios necessários à intubação de pacientes vítimas da Covid-19?

Situação insólita, assim os mais tolerantes a definiriam. Quer algo mais insólito do que o país estar sem ministro da Saúde há 8 dias apesar de Bolsonaro ter anunciado a demissão do general Eduardo Pazuello e a entrada do médico Marcelo Queiroga?

A demissão não havia sido publicada até ontem no Diário Oficial, tampouco a nomeação do novo ministro. Oficialmente, Pazuello continua ministro da Saúde, à espera de ser substituído por Queiroga. Enquanto isso, o ministério parou.

É concebível que tal coisa aconteça em meio a uma pandemia que se aproxima do número de 300 mil mortos em menos de um ano? Pior: em meio a uma pandemia que se agrava, superando os picos que alcançou no ano passado? Neste governo, tudo é possível.

O presidente da República procura um novo cargo para oferecer ao general. Um cargo que lhe assegure foro especial para só ser processado pelo Supremo Tribunal Federal. Entregue ao sol e à chuva é que Pazuello não ficará para evitar o risco de ser preso.

Entrevista | como FHC avalia possíveis candidatos em 2022: Bolsonaro, Lula, Moro, Huck e Ciro;

Para ex-presidente, Bolsonaro mantém apoio das ‘classes dominantes’ e não há espaço para impeachment

Pedro Venceslau / O Estado de S. Paulo

Mesmo em isolamento social, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de 89 anos, mantém uma rotina intensa de reuniões virtuais e entrevistas. Imunizado com a segunda dose da Coronavac, o tucano faz política por videoconferência, sem sair do apartamento onde mora, em Higienópolis, e, apesar de afastado da vida orgânica partidária, FHC tem estado especialmente ativo nos últimos meses, procurado por lideranças de dentro e de fora do PSDB para tratar de ações contra a pandemia e, principalmente, da construção de uma candidatura de centro para a disputa presidencial de 2022. 

Nesta entrevista ao Estadão, o ex-presidente avalia a hipótese de impeachment de Jair Bolsonaro, o restabelecimento dos direitos políticos de Lula e o cenário eleitoral de 2022 a partir dos principais nomes colocados até aqui. “Quando você fica muito agarrado a um momento da sua história, você morre com ela. É melhor arrumar brinquedos novos para se distrair com outras coisas”, afirmou FHC, ao comentar a eventual entrada do petista na disputa. Confira os principais trechos da entrevista a partir de cada potencial concorrente.

Jair Bolsonaro: ‘Não perdeu o apoio das classes dominantes’

O ex-presidente, que votou nulo no segundo turno da eleição presidencial em 2018, disse que nunca viu Bolsonaro na vida e não tem “entusiasmo” pelo estilo do presidente. Segundo o tucano, o chefe do Executivo podia ter dado algum sinal para abrir o diálogo entre ambos, mas nunca fez isso. Sobre a força eleitoral de Bolsonaro, que já se coloca como candidato à reeleição, FHC avalia que o presidente é um nome forte.

Eliane Cantanhêde - Tosco e incendiário

- O Estado de S. Paulo

Quanto mais mortes, mais a Nação se une e o bolsonarismo se isola, tosco e incendiário

Montanhas de fake news desvirtuam a internet, vídeos de sujeitos com boinas militares e caras de milicianos ameaçam guerra à bala, o ministro da Justiça usa a Lei de Segurança Nacional contra críticos do presidente Jair Bolsonaro... Essas investidas, que não são inocentes nem isoladas, fazem parte da alma autoritária do bolsonarismo e enfrentam crescente resistência de todos os lados.

Centenas de banqueiros, empresários e economistas criticam o governo e rechaçam o “falso dilema entre salvar vidas e garantir o sustento da população vulnerável”. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, pediu aos EUA para negociarem vacinas excedentes com o Brasil. E 62 dos 81 senadores assinaram uma moção liderada por Kátia Abreu (TO) implorando ajuda à comunidade internacional.

Todos se mexem para cobrir o vácuo do presidente e não dá para acusar de “comunistas”, “esquerdistas” e “petistas” gente como Pacheco e Kátia, Roberto Setúbal, Pedro Moreira Salles, Pedro Malan... Será que são esses os alvos do bolsonarista ignorante, valentão, com pose de militar, mas linguajar de miliciano? Que provoca “esse pessoal da canhota, que quer derrubar o nosso presidente”: “Deixa eu dizer um negocinho pra vocês. Ele não tá sozinho, não, tá? Junta o que vocês tiver de melhor e tenta” (sic sic sic). 

Pedro Fernando Nery* - A falácia dos deveres

-  O Estado de S. Paulo

A contrapartida de direitos são os tributos, que aparecem fartamente na Constituição

O argumento é recorrente. Os brasileiros mais pobres já possuem benefícios demais: a própria Constituição citaria “direitos” dezenas e dezenas de vezes, mas “deveres” somente em um punhado de ocasiões. Com tantos direitos sem deveres correspondentes, o arranjo seria insustentável. O argumento é falacioso: a contrapartida de direitos são os tributos, eles são fartamente previstos na Constituição e incidem mais justamente sobre os mais pobres – aqueles que teriam direitos demais.

Comecemos com um Ctrl+F na Constituição. Tributos e seus tipos – impostos e contribuições – aparecem mais de 300 vezes. São eles os espelhos dos direitos, e não um termo genérico como “dever”. O direito à saúde é concretizado com contribuições sociais. O direito à educação é efetivado com impostos. E assim vai.

No Brasil, muitos desses tributos, ou deveres, recaem sobre quem ganha menos, que paga a conta indiretamente quando compra um produto. Na verdade, os mais pobres pagam mais em tributos indiretos do que os mais ricos, quando considerado o peso dos tributos em proporção à renda de cada grupo.

Adriana Fernandes - Para governo, carta é ‘movimento político’ contra presidente

- O Estado de S. Paulo

A carta aberta que juntou banqueiros e economistas em defesa de medidas efetivas de combate à pandemia foi interpretada no governo como um “movimento político” contra o governo Jair Bolsonaro nessa fase mais dura da pandemia da covid-19. Num momento de queda da popularidade, o documento, que começou a ser construído em conversas de economistas em grupos de Whatsapp, ganhou força no fim de semana com mais de 500 assinaturas e causou enorme desconforto, mas o presidente não mudou a estratégia de repetir o discurso contrário ao lockdown – que tem endosso nos setores empresariais que o apoiam.

A expectativa do governo é que esses setores também se posicionem contrários às medidas de restrição de mobilidade, apontadas por autoridades sanitárias como essenciais para que o colapso hospitalar não seja disseminado por todo o País. Não há sinais de que Bolsonaro vai abandonar esse discurso porque ele está convencido de que as medidas de isolamento são uma “armadilha” para afundar ainda mais a economia, sem chances de recuperação para garantir a sua reeleição. Bolsonaro já foi avisado do quadro extremamente ruim da economia, com impacto na arrecadação, das vendas e queda do PIB no primeiro semestre. O presidente vê nas medidas de restrições um entrave a mais.

Entrevista | François Hollande*: Papel da esquerda é tirar populistas do poder democraticamente

Ex-presidente francês afirma discutir com Lula como construir forças políticas capazes de encarnar a alternância

Beatriz Peres / Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - O ex-presidente francês François Hollande, 66, que comandou o país entre 2012 e 2017, considera palpáveis os danos causados pelo populismo que ascendeu em diferentes partes do mundo.

"A eleição de Jair Bolsonaro resultou em destruições importantes da floresta amazônica, em um declínio da democracia e das liberdades e em políticas muito duras com os mais pobres e muito complacentes com os mais ricos", diz o socialista. "Sem esquecer a gestão da crise sanitária, que, tanto no Brasil quanto nos EUA —quando Donald Trump estava no poder—, fez vítimas demais, por falta de medidas restritivas."

Em entrevista à Folha, por email, Hollande defende uma reação em bloco, como afirma ter acontecido com a candidatura do democrata Joe Biden na vitória sobre Trump. "Foi por pouco, e isso só foi possível porque o conjunto dos democratas, para além de suas diferenças, juntaram suas forças."

Depois da condenação do ex-presidente Nicolas Sarkozy, o senhor criticou o que chamou de “ataques repetidos contra a Justiça”. Por que considerou necessário defender a Justiça francesa neste momento? 

A separação dos Poderes é o fundamento da democracia. Na França, a Justiça é independente do Executivo. Os magistrados, os juízes e os procuradores conduzem suas investigações e proferem suas sentenças sem intervenção nenhuma do poder político. As decisões podem ser contestadas por todas as vias de recurso, o que Nicolas Sarkozy já fez em seguida à condenação. Por isso não aceitei os ataques vindos da direita e dos apoiadores do ex-presidente que visam desacreditar a autoridade judiciária.

No Brasil, a Justiça também está sendo criticada devido ao processo contra o ex-presidente Lula. É preciso defender a Justiça também no Brasil? 

A Justiça brasileira vai estabelecer ela mesma a verdade e poderá um dia verificar se as acusações contra o ex-presidente Lula tinham fundamento. Mas já parece claro que tudo foi feito no plano político para impedir Lula de se candidatar na última eleição presidencial. Foi isso que justificou minha tomada de posição, com outros chefes de Estado e de governo, desde 2018, para que Lula pudesse, livre, ser candidato à eleição presidencial. Hoje é um novo momento que se abre, e fico feliz de ver Lula recuperar plenamente seu espaço na vida política brasileira.

Joel Pinheiro da Fonseca – Política

- Folha de S. Paulo

Tudo o que Bolsonaro faz segue o critério único da popularidade (ou sobrevivência) imediata

Não é possível que alguém ainda acredite numa mudança de postura do presidente na reunião com governadores. Se nem mesmo o mais trivial dos atos de proteção da vida, o uso da máscara, Bolsonaro consegue defender, pode esquecer qualquer apoio às medidas de isolamento. A única certeza é que Bolsonaro jamais tomará uma atitude impopular junto à opinião pública, por mais importante que seja. Ele não precisa.

Tudo o que Bolsonaro faz segue o critério único da popularidade (ou, em alguns casos, sobrevivência) imediata. A política não depende da realidade em si, e sim das percepções. Bolsonaro e seus cabos eleitorais foram os que primeiro souberam adaptar essa velha máxima à realidade das redes sociais e dos aplicativos de mensagens.

A fragmentação das fontes de informações causada pelas redes permite, paradoxalmente, encalacrar grandes segmentos em bolhas informacionais que repetem sempre a mensagem desejada.

Hélio Schwartsman - Se o vírus tivesse me ouvido...

- Folha de S. Paulo

O corona, porém, não atendeu a meus apelos

Em julho, quando o presidente anunciou que tinha contraído a Covid-19, escrevi a coluna "Por que torço para que Bolsonaro morra". Ganhei uma enxurrada de emails irados e um inquérito com base na LSN. Riscos da profissão.

A título de experimento mental, convido o leitor a adentrar no fantástico mundo dos contrafactuais e imaginar o que teria acontecido caso o vírus tivesse atendido a meu desejo.

Em princípio, nada muito animador. Bolsonaro teria sido substituído pelo vice-presidente, general Hamilton Mourão, que tem ideias parecidas com as do titular e também nutre crenças exóticas (cloroquina) em relação à Covid-19. Mas Mourão, admita-se, vem com uma demão de verniz civilizacional e parece mais disposto a seguir conselhos de especialistas.

Cristina Serra - A carta tardia do PIB

- Folha de S. Paulo

Entenderam que não adianta ter dinheiro para pagar UTI aérea para Miami?

Quer dizer que foi preciso um ano de pandemia, quase 300 mil cadáveres, o colapso dos hospitais e um tombo colossal na economia para que parte expressiva do PIB se manifestasse publicamente sobre a catástrofe humanitária que nos põe de joelhos? Tirante honrosas exceções que assinam a carta divulgada neste fim de semana, a maioria permanecera em indiferente pachorra.

São mais de 500 assinaturas; alguns sobrenomes reluzentes, de banqueiros, empresários, ex-ministros, ex-dirigentes do Banco Central e economistas que, até outro dia, clamavam pela urgência das reformas, mas não mostravam a mesma preocupação com a premência de salvar vidas.

Castro volta atrás e mantém decisão sobre funcionamento de bares e restaurantes com a prefeitura

Governador suspende ainda aulas presenciais na rede pública estadual e em escolas particulares

Luiz Ernesto Magalhães / O Globo

RIO — Após a queda de braço com o prefeito Eduardo Paes, envolvendo o funcionamento de bares e restaurantes, em decreto publicado em uma edição extra do Diário Oficial, no fim da noite desta segunda-feira, o governador em Exercício, Cláudio Castro, prorrogou por 14 dias (até o início de abril), um decreto que já previa normas estaduais de prevenção. Ele manteve a autonomia de prefeituras —- como a do Rio e a de Niterói  — de adotarem medidas mais restritivas. Segundo o artigo, no caso de conflito entre as regras de estado e municípios, valerão as que as prefeituras tiverem instituído.

A assessoria de Castro informou que, apesar disso, ele ainda terá conversas políticas e não descarta mudanças no decreto até quarta-feira.

Uma mudança estabelecida pelo decreto é a alteração de uma regulamentação da Secretaria estadual de Educação que tinha regras para aulas presenciais na rede também por 14 dias. A suspensão das aulas presenciais também se aplica à rede privada.

Covid-19: Para tentar frear pandemia, Prefeitura do Rio prevê até prisão por desrespeito às normas

Donos de bares e restaurantes também podem ter o alvará cassado

Luiz Ernesto Magalhães / O Globo

RIO — O decreto que determina novas medidas de restrição para tentar conter a pandemia de Covid-19 anunciado na noite da segunda-feira pelo prefeito do Rio, Eduardo Paes, prevê prisão de até um ano e multa para quem desrespeitar as regras. Isso com base no artigo 268 do Código Penal, que considera crime desrespeitar "determinação do poder público, destinada a impedir introdução ou propagação de doença contagiosa"’. Os donos de bares e restaurantes também podem ter o alvará cassado.

As regras mais rigorosas para atividades econômicas e sociais na cidade, começam na sexta e vão durar menos 10 dias. De acordo com o Diário Oficial da Prefeitura do Rio desta terça-feira, o Comitê especial de enfrentamento da Covid-19 (CEEC) da prefeitura do Rio fará uma nova avaliação das medidas em 4 de abril.

Paes suspende atendimento presencial em bares e restaurantes por dez dias no Rio de Janeiro

Prefeito entrou em queda de braço com o governador Cláudio Castro, que resiste em adotar restrições mais duras

 Ana Luiza Albuquerque / Folha de S. Paulo

RIO DE JANEIRO - O prefeito Eduardo Paes (DEM) anunciou na tarde desta segunda-feira (22) a suspensão do atendimento presencial para todas as atividades econômicas, exceto as essenciais. Durante dez dias, bares e restaurantes poderão funcionar apenas para retirada no local e delivery.

As novas medidas passarão a valer na próxima sexta-feira (26), quando deve ter início o "superferiado" de dez dias anunciado pelo governo do estado, que ainda precisa ser aprovado pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

O objetivo com as restrições é reduzir a transmissão do novo coronavírus, que pressiona o sistema hospitalar da capital, com 93% dos leitos de UTI ocupados.

O funcionamento presencial de escolas e creches também está suspenso. Fica proibida ainda a abertura de museus, galerias, cinemas, teatros, boates, salões de beleza e clubes. Nos shoppings, poderão funcionar apenas serviços essenciais, como farmácias.

A permanência nas praias continua proibida, estando liberadas somente atividades físicas individuais. Como determinado no início do mês, também ainda está valendo o toque de recolher que impede que as pessoas fiquem nas ruas das 23h às 5h.

O anúncio foi feito em conjunto com a prefeitura de Niterói (RJ). Paes não conseguiu entrar em acordo com o governador Cláudio Castro (PSC), aliado do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), para a implementação de restrições comuns. Castro deve anunciar medidas menos duras no estado.

Entrevista | Gleisi Hoffmann: Combate à pandemia e oposição a Bolsonaro aproximam PT e PSDB

Lula deve atuar na costura política com lideranças de centro-direita, diz presidente do PT

Por Cristiane Agostine / Valor Econômico

A luta encampada por governadores para combater a pandemia e driblar o boicote do presidente Jair Bolsonaro a medidas de distanciamento social aproximou PT e PSDB e tem acelerado a articulação de uma frente ampla contra o governo federal. A presidente nacional do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), diz que a trégua entre petistas e tucanos não deve ser vista como uma possível aliança para 2022, mas defende a união com lideranças de centro e de direita para enfrentar a crise sanitária e Bolsonaro. Ontem, o país ultrapassou 12 milhões de casos de covid-19 e 295,4 mil mortes pela doença.

A convergência entre governadores do PT, PCdoB, PSB, PSDB, PSD e MDB nas ações para tentar frear o avanço do novo coronavírus deve ser ampliada para fora dos Estados, defende Gleisi. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva atuará diretamente na costura política com lideranças de centro-direita e começará a viajar o país para reuniões políticas depois que tomar a segunda dose da vacina, no início de abril.

“Há uma conversação [...] de governadores e de outros partidos que estão sentindo que o drama do Brasil é grande"

Em sintonia com Lula, Gleisi diz que o PT deve ampliar as alianças para fora da centro-esquerda para ganhar as eleições. As articulações devem ser feitas ainda este ano. O nome do partido para 2022 está claro. “Obviamente Lula é o candidato do PT, do Brasil, do povo”, diz. 

A seguir, trechos da entrevista concedida ontem ao Valor.

Valor: Economistas, banqueiros e empresários divulgaram uma carta com críticas ao governo. Como avalia esse movimento? Há maior aceitação à ideia de impeachment?

Gleisi Hoffmann: É muito positivo que tenha essa carta com tantas personalidades, que esses setores estejam se manifestando. Pena que tardou, porque a situação é gravíssima, e lamento que muitos deles apoiaram e apoiam medidas de austeridade no Orçamento. A base dele no Congresso ainda está muito coesa, o Centrão tem compromisso, mas o Congresso é aberto a pressões. Todo processo de impeachment foi por pressão social. Ao ter setores mais diversos do que da oposição, começa a ter um movimento mais amplo da sociedade, que pode virar impeachment.

Pacheco ataca atitudes ‘negacionistas’

Presidente do Senado sobe o tom contra o negacionismo

Por Renan Truffi e Vandson Lima / Valor Econômico

BRASÍLIA - O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), elevou ontem o tom contra o que chamou de “negacionistas”. Segundo ele, por conta do recrudescimento da pandemia, o Brasil vive uma das suas “piores fases”, mas uma “minoria desordeira” não irá pautar o povo brasileiro, que continua, na sua avaliação, “pacífico”, “resiliente” e “aguardando uma solução” por parte dos governantes e da classe política. A afirmação foi feita durante evento na Associação Comercial de São Paulo.

“Quero dizer e valorizar o povo brasileiro, que está pacífico, que está resiliente e está aguardando ansiosamente a solução dos governadores e dos políticos para os problemas do nosso país. Destaque maior nesse enfrentamento da pandemia, que é básico para o estado democrático de direito, é a manifestação do povo, pacífico, ordeiro, obediente às recomendações sanitárias de isolamento”, disse. “Não será uma minoria desordeira e negacionista que fará pautar o povo brasileiro e o Brasil nesse momento que nós precisamos de união.”