quarta-feira, 6 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

É preciso respeitar as regras do jogo democrático

Correio Braziliense

Bolsonaro está na posição de quem não se importa com quais são as regras do jogo. Decisões do STF podem ser problematizadas, mas nunca descumpridas

O ex-presidente Jair Bolsonaro tinha medidas claras a cumprir quando o Supremo Tribunal Federal (STF), por meio do ministro Alexandre de Moraes, decidiu pelas já públicas medidas cautelares. Entre elas, estava a obrigação de não propagar discursos nas redes sociais. Ainda que não tenha falado nada demais em sua participação na rede social do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), um dos seus filhos, o ex-chefe do Planalto apostou alto ao desrespeitar o regramento definido pela Corte. 

A análise em Brasília é de que Bolsonaro agiu de maneira calculada. Apostou que Moraes não deixaria o descumprimento passar ileso, e o ministro acatou o que havia determinado. Preso em casa, o ex-presidente quer alimentar ainda mais a polarização e tende a usar a arma de sempre: a mobilização nas redes sociais, ainda que de maneira indireta, a partir, principalmente, de aliados. 

O que vem depois da domiciliar de Bolsonaro? - Vera Magalhães

O Globo

Nem novas retaliações contra ministros do STF devem mudar rumos do processo contra ex-presidente, e Congresso não parece disposto a comprar 'pacote da paz'

Decretada a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, algumas perguntas imediatamente dominaram o debate público. Alexandre de Moraes ainda está amplamente respaldado pelo Supremo Tribunal Federal? A pressão da direita sobre o comando do Congresso por medidas de retaliação ao STF terá chance de avançar? E novas sanções aos ministros da Corte e mesmo ao Brasil, na esfera comercial, poderão ser determinadas pelo governo dos Estados Unidos?

A resposta à primeira questão é a mais fácil: sim. O placar no Supremo segue amplamente favorável a Moraes. Se a prisão domiciliar fosse submetida a referendo do plenário, o que não acontecerá, seria confirmada por pelo menos 8 votos a 3. Isso ocorre por coerção de algum tipo do relator da trama golpista sobre os pares? Não.

Ainda que alguns ministros desejem, e muitos desejam, um caminho para distensionar as relações institucionais entre os Poderes e tirar o Judiciário dos holofotes, a maioria entende que não se fará isso condescendendo com claras afrontas a decisões judiciais como as perpetradas por Bolsonaro e seus apoiadores, de forma sistemática, deliberada, com a clara intenção de forçar Moraes a escalar as sanções e vender à sociedade, aos Estados Unidos e à classe política a narrativa da perseguição.

Bolsonaro em casa - Bernardo Mello Franco

O Globo

Às vésperas de condenação, ex-presidente tenta melar julgamento e transformar juízes em réus

“Um dos melhores lugares para viver na capital federal.” Assim se apresenta o condomínio Solar de Brasília, endereço de Jair Bolsonaro desde 2023. O capitão vive numa casa de cerca de 400 metros quadrados, com piscina e área gourmet. Agora terá mais tempo para desfrutá-la: está em prisão domiciliar.

O ex-presidente plantou o que colheu. No domingo, afrontou o Supremo ao participar, à distância, de duas manifestações contra o tribunal. No ato do Rio, discursou por viva-voz pelo celular do filho Zero Um. No de São Paulo, fez chamada de vídeo com o aliado Nikolas Ferreira, que usou a ligação para inflamar o público contra o Judiciário.

O deputado tiktoker foi autor do discurso mais agressivo da tarde. Do alto do trio elétrico, atacou o Supremo e pregou a prisão do ministro Alexandre de Moraes. “Tenho um recado para te dar, ministro. Você, sem a toga, não sobra nada”, provocou.

Trump venera o deus da guerra – Elio Gaspari

O Globo

Hoje, há 80 anos, a bomba deu aos EUA o gosto da superioridade

Às 6h30 de 6 de agosto de 1945, o coronel Paul Tibbets, pilotando o bombardeiro Enola Gay, avisou aos tripulantes: "Estamos transportando a primeira bomba atômica." Às 8h15, a barriga do avião soltou o artefato, e Tibbets afastou-se da cena.

A bomba explodiu 43 segundos depois sobre Hiroshima, uma cidade plana, com milhares de casas de madeira. Produziu um clarão, carbonizando as pessoas que saíam para o trabalho. Ainda hoje pode-se ver no museu da cidade, impressa num degrau de granito do banco Sumitomo, a sombra de uma pessoa que estava sentada ali. Foi o que restou dela.

Isso foi o que aconteceu há 80 anos. Passado o tempo, uma fotografia da explosão, autografada por cinco tripulantes do bombardeiro, valia menos que outra, com um simples autógrafo do almirante que comandava a frota americana do Pacífico.

Hiroshima nunca mais! - Rodrigo Craveiro

Correio Braziliense

A bomba atômica nunca mais foi utilizada, tamanho o horror testemunhado pelos sobreviventes. No entanto, depois dos bombardeios e do fim da Segunda Guerra, as potências começaram uma verdadeira corrida nuclear, sob o pretexto de autodefesa

Aconteceu há exatamente 80 anos. O bombardeiro Boeing B-29 Superfortress Enola Gay despejou a bomba atômica "Little Boy" a 600 metros sobre Hiroshima, no Japão, em 6 de agosto de 1945. A onda expansiva da explosão, aliada à temperatura que subiu a 3.873 graus Celsius, saiu arrastando e evaporando tudo pela frente, deslocando-se a 1.583km/h. Animais e pessoas simplesmente desapareceram, como se tivessem sido desintegrados. Os 12 tripulantes do Enola Gay encararam a missão como essencial e necessária para forçar a rendição dos japoneses. Ainda que tenham matado 70 mil pessoas de forma instantânea e outras 200 mil posteriormente, por causa dos efeitos da radiação. Em 2005, Theodore "Dutch" Van Kirk, o navegador do Enola Gay, me disse que aquela tinha sido a missão mais fácil da vida dele e que faria tudo de novo, sob as mesmas condições. "A bomba atômica salvou milhares de vidas", afirmou ao Correio, sem demonstrar nenhum arrependimento.

Bolsonaristas radicalizam e levam a crise ao Congresso - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A cena de parlamentares impedindo o trabalho regular do Congresso não encontra paralelo recente na história. Mas ecoa o ambiente que antecedeu o 8 de janeiro de 2023

A volta do recesso parlamentar, ontem, mostrou o agravamento da crise política que abala a República. A prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro, determinada pelo ministro Alexandre de Moraes por descumprimento de medidas cautelares, desencadeou reação imediata dos parlamentares de oposição, liderados pelo PL, que ocuparam as mesas diretoras da Câmara e do Senado, afrontaram seus presidentes, o deputado Hugo Mota (Republicanos-PB) e o senador Davi Alcolumbre (União-AP), e ainda ameaçam promover a obstrução total das votações do Congresso.

A cena de parlamentares impedindo o trabalho regular do Congresso não encontra paralelo recente na história. Mas ecoa o ambiente anárquico e radical que antecedeu a invasão dos palácios da Praça dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023, como se fosse a retomada de um fio da história da tentativa de golpe de Estado. Ao decretar a prisão domiciliar de Bolsonaro, Moraes tirou da garrafa o gênio da desestabilização das relações entre o Supremo Tribunal Federal e o Congresso.

'Água na fervura', revogação da tornozeleira - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Parlamentares levaram à cúpula episódios passados em que o Legislativo contestaram decisões do STF

O trânsito virtual na Praça dos Três Poderes engarrafou. Enquanto os bolsonaristas se refastelavam na mesa do Senado e obstruíam a pauta do plenário e das comissões, circularam entre o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF) súmulas de decisões de ministros que, nos últimos anos, contestaram decisões de colegas em relação às prerrogativas de parlamentares.

O pano de fundo é a contestação da prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas é sobre o mandato do senador Marcos do Val (PL-ES), desde essa segunda-feira dotado de uma tornozeleira eletrônica por ter viajado aos EUA sem comunicar ao ministro Alexandre de Moraes, que o Congresso avalia ter o que hoje se chama de “lugar de fala”.

A autoridade diante do desafio histórico - Fernando Exman

Valor Econômico

Preocupação da próxima gestão do STF será evitar que ocorra o primeiro impeachment de ministro do Supremo da História

Há ocasiões em que o homem público tem a convicção de que seus atos - ou a deliberada omissão - transcenderão os limites temporais do mandato que ocupa. Tem hora que a autoridade sente o peso e a responsabilidade da História.

Esta quarta-feira, 6 de agosto de 2025, é um dia desses. E diante das sanções anunciadas pelos Estados Unidos ao Brasil, integrantes das cúpulas dos Poderes Executivo e Judiciário têm dado sinais de que estão cientes dessa circunstância.

Auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva dizem ter a certeza de que o chefe vive dias assim. Segundo relatos, suas reflexões têm ido além do necessário plano de contingência para mitigar os efeitos do tarifaço imposto por Donald Trump sob condições escorchantes. No Palácio do Planalto, acredita-se que o presidente americano escolheu Lula, nome de destaque na esquerda mundial, como alvo prioritário de seus ataques globo afora.

Os investidores e os riscos do mês aziago - Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

O investidor torce para que agosto não seja, como prega o dito popular, o ‘mês do desgosto’

O investidor está cruzando os dedos para que o calendário astral esteja bagunçado e que o azar que caracteriza a crença popular de que “agosto é o mês do desgosto” tenha ficado para trás em julho, quando a Bolsa e o câmbio sofreram forte correção. Mas, até o fim deste mês, há um campo minado de riscos nos cenários externo e interno da política e da economia, além da tensão na geopolítica mundial.

Em julho, o Ibovespa recuou 4,17%, pior desempenho desde dezembro passado, enquanto o dólar subiu 3,07% em relação ao real, maior alta em oito meses. Em contraste, nos EUA os índices de ações S&P 500 e Nasdaq registraram ganhos de 2,17% e 3,70%, respectivamente.

Brasil tem de saber sofrer - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Prisão de Bolsonaro piora conflito externo e alimenta insurreição permanente da extrema direita

O Brasil tem de "saber sofrer", diz um integrante do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a respeito dos ataques de Donald Trump. Cita, em brincadeira agoniada, o ex-técnico da seleção brasileira de futebol masculino, o Tite: é preciso ser esperto para aguentar momento ruim de pressão.

É uma pessoa que advoga a atitude mais discreta possível do governo e que torce para que o Supremo ande assim também. Isto é, que conduza o processo de Jair Bolsonaro do modo menos conturbado possível.

Para certas pessoas do governo Lula, para o comando do Congresso e para integrantes do STF, a prisão domiciliar de Bolsonaro foi ruim para a estratégia de negociação do país e para quem prefere atenuar a conturbação política, que será crescente. Relatos de que a atitude de Alexandre de Moraes não foi bem recebida pela maioria do Supremo foram confirmados por Mônica Bergamo, nesta Folha.

Por que o bolsonarismo voltou às ruas? - Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Protestos reafirmam a identidade tribal bolsonarista e buscam legitimidade simbólica

Ao que tudo indica, o bolsonarismo voltou às ruas. Já não se veem as multidões impressionantes de 2016 a 2020, tampouco as mobilizações alcançam a escala nacional dos tempos gloriosos do movimento —mas cumprem bem a função que o consórcio Bolsonaros-Malafaia lhes designou.

Em uma época em que a presença digital e a política institucional são, de longe, mais efetivas do que 30 ou 40 mil pessoas aglomeradas ao redor de um carro de som, "as ruas" passaram a ter valor sobretudo simbólico e psicológico.

A nova extrema direita aprendeu com a esquerda tradicional, igualmente populista, que "ocupar as ruas" com multidões mobilizadas confere a qualquer causa um selo de legitimidade que a política institucional raramente alcança. Nesse sentido, 50 mil pessoas reunidas num domingo teriam mais valor simbólico como expressão da soberania popular do que os 513 deputados eleitos e os 120 milhões de votos depositados nas urnas.

Moraes não tinha escolha - Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Não cabe ao juiz cotejar as injunções políticas na aplicação de sanções à infração das regras legais

Jair Bolsonaro (PL) poderia ter escolhido cumprir a ordem do juiz para evitar a prisão domiciliar; já o magistrado não tinha escolha: ou executava o que ele mesmo determinara ou teria, aí sim, feito um juízo político da condição do réu.

Se Alexandre de Moraes tivesse ignorado a infração à medida cautelar de não usar redes sociais, seria sinal de que teria calculado o risco de fazer do ex-presidente um mártir e se intimidado ante a possibilidade de sua decisão provocar novas sanções por parte do governo dos Estados Unidos.

Foi sem querer ou de propósito? - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Se Bolsonaro provocou a própria prisão, sacrifica seus interesses de longo prazo por ganho político efêmero

Não foram poucos os que escreveram que Jair Bolsonaro provocou a própria prisão para extrair dividendos políticos. Faz sentido, mas, como não sei o que vai na cabeça do ex-presidente, não descarto a possibilidade de a domiciliar ter vindo por mais um erro de cálculo do clã. Como Eduardo já demonstrou, eles não excelem em matemática política.

A ordem exarada por Alexandre de Moraes está dentro das quatro linhas do Código de Processo Penal, mas o conteúdo da declaração de Jair levada aos comícios era tão pífio —basicamente um "boa tarde"— que o ministro poderia ter deixado passar sem maiores prejuízos à autoridade do STF.

Bolsonaro (edição de colecionador) - Mariliz Pereira Jorge

Folha de S. Paulo

Pequi roído, golpista, fujão, indiciado, monitorado, preso

Ignóbil. Basculho. Baixo. Repugnante. Canalha. Deplorável. Mesquinho. Patife. Ordinário. Reles. Pulha. Sórdido. Torpe. Velhaco. Abominável. Detestável. Ralé. Biltre. Infame. Bandalho. Aberração. Calhorda.

Desprezível. Pífio. Ignorante. Vil. Ribaldo. Soez. Jagodes. Cafajeste. Bronco. Inculto. Escapista. Néscio. Estúpido. Rude. Verme. Desgraçado. Maldito. Jumento. Monstruoso. Sádico. Burro. Insensível.

Mentecapto. Demônio. Desalmado. Incapaz. Covarde. Crápula. Incompetente. Doentio. Sociopata. Peste. Idiota. Energúmeno. Reaça. Desequilibrado. Imoral. Rato. Mandrião. Beócio. Abjeto. Descarado. Pusilânime. Enxurro. Choldra. Gentalha. Labrusco. Desrespeitoso. Cruel. Facínora. Atroz. Maligno. Cafona.

Execrável. Infando. Nefando. Zé Ruela. Inclemente. Mau. Sicário. Viperino. Tirano. Impiedoso. Desumano. Malfeitor. Celerado. Estrupício. Chorume. Louco. Escroto. Lixo. Inútil. Escória. Ogro. Mitômano. Ególatra. Tosco. Verdugo. Mentiroso. Cavernícola. Asno. Babaca. Déspota. Autoritário. Morte. Opressor. Tapado. Mandão. Autocrata. Desnecessário. Safardana. Prepotente. Abusivo. Injusto. Reacionário. Fascista.

Uivemos! –Ricardo Marinho

Na maioria das vezes com decepção, acompanhamos o debate político neste momento.

Nele, coisas inevitáveis acontecem em uma situação de complexidade política. É desagradável, mas comum que os tons endureçam, acusações destinadas a denegrir o competidor para ocupar o palco, que ataques malévolos sejam desenvolvidos e até manobras indecentes baseadas na base tecnológico-comunicacional de nosso tempo.

Está a decorrer um duplo debate. Um é o debate aberto do corpo atual e o outro ocorre no darkside na internet e não só de forma sub-reptícia e realizado também por inteligências artificiais (IA) aéticas comercializadas por especialistas como alertam o belga Mark Coeckelbergh e o italiano Luciano Floridi, que buscam a destruição do adversário por meio das redes sociais.

Los posibles escenarios que se abren con la prisión efectiva de Bolsonaro - Fernando de la Cuadra

El Clarín de Chile

Bolsonaro está en prisión domiciliar, destacan los titulares de los principales diarios del país ¿Y ahora qué puede pasar si Bolsonaro es efectivamente encarcelado? Según los pasos que ha seguido el proceso judicial en su contra, falta poco para que el expresidente sea condenado a la cárcel por los delitos que él, junto a otros 33 cómplices -militares y civiles- cometieron a partir de su derrota electoral en octubre de 2022.

Solo para recordar, las acusaciones que pesan sobre este grupo de sediciosos articulados en torno a una trama golpista fracasada incluye los siguientes cinco crímenes: Conspiración para dar un Golpe de Estado; abolición del Estado democrático de Derecho; asociación criminal armada; daño calificado al patrimonio público y deterioro del patrimonio histórico nacional. Si es considerado culpable por todos estos delitos, Bolsonaro puede llegar a ser condenado a más de 40 años de cárcel y aumentar su inelegibilidad, que actualmente llega hasta el año 2030.

A marcha da insensaz - Aylê-Salassié Filgueiras Quintão*

Não bastassem os cenários apocalíticos, cada vez mais frequentes, as erupções vulcânicas, os terremotos, tsunamis, inundações, o covid deixando para trás marcas de destruições catastróficas, os homens, mesmo assim, insistem em fazer guerra. É a "marcha da insensatez” de um grupo de meia dúzia de líderes empoderados pelas próprias ambições. Essa vaidade pessoal, transferida para os Estados Nacionais, extingue vagarosamente a vida no Planeta. Desorganiza países, economias, cidades, promove a morte de populações inteiras, fecham escolas, hospitais, explodem pontes     e destroem     terras agrícolas. Diante da dimensão que essas coisas estão tomando, perguntaria, se haverá tempo para um novo Plano Marsall, destinado a recuperação agora da Ucrânia, da Rússia, de Gaza, da Síria, do Líbano, do Iêmem, de Israel mesmo e até para uma reorganização do mundo.

Tem-se de admitir que esta geração política do Planeta é representada por lideranças paranóicas.  Até fevereiro deste ano, a aventura de invadir a Ucrânia    teria custado aos russos US$ 211 bilhões de suas reservas, de acordo com estimativas do Pentágono, já que a Rússia se recusa a tornar público  este tipo de informação .  Para os ucranianos, em fevereiro, os gastos aproximavam-se de US$ 320 bilhões. Mas eles receberam perto de US$ 100 bilhões de ajuda externa do mundo ao seu redor (Instituto Kiel da Economia Mundial). A Ucrânia mesmo teria investido em sua defesa entre US$ 150 a 200 bilhões.

Cautela e firmeza – Ivan Alves Filho*

"Quem procura a verdade deve se preparar para o inesperado", já ensinava Heráclito de Éfeso. O momento político vivido pelo Brasil inspira muita cautela a todos nós. Despudoradamente, alguns setores estão recorrendo ao bom e velho nacionalismo para se manter na crista da onda eleitoral. Outros setores, também despudoradamente, parecem apostar em um movimento oposto, isto é, em uma crise internacional, trazendo incertezas para o país, de fora para dentro.

Os dois cenários são extremamente preocupantes e podem apontar para uma grave crise institucional. 

Poesia | "Tecendo a Manhã", de João Cabral de Melo Neto

 

Música | Ela já não gosta mais de mim (que pena) - Tim Bernardes e Lívia Nestrovski

Mùsica | Ney Matogrosso - Rosa de Hiroshima (Vinicius de Moraes)

 

terça-feira, 5 de agosto de 2025

Opinião do dia – Ulysses Guimarães*

“A Constituição certamente não é perfeita. Ela própria o confessa ao admitir a reforma. Quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim. Descumprir, jamais. Afrontá-la, nunca.

Traidor da Constituição é traidor da Pátria. Conhecemos o caminho maldito. Rasgar a Constituição, trancar as portas do Parlamento, garrotear a liberdade, mandar os patriotas para a cadeia, o exílio e o cemitério.

Quando após tantos anos de lutas e sacrifícios promulgamos o Estatuto do Homem da Liberdade e da Democracia bradamos por imposição de sua honra.

Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo. (Aplausos)

Amaldiçoamos a tirania aonde quer que ela desgrace homens e nações. Principalmente na América Latina.”

*Do discurso de Promulgação da Constituição, 5 de outubro de 1988


O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

BC deve adotar mais rigor ao fiscalizar fintechs

O Globo

Uso de startups financeiras pelo crime organizado exige ação mais urgente ao disciplinar mercado

O Banco Central (BC) tem o dever de aumentar a supervisão no mercado de startups e empresas voltadas para produtos financeiros digitais, as fintechs. O Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), as duas maiores organizações criminosas do país, têm usado bancos digitais para receber e lavar dinheiro do tráfico, fraudes e outros crimes. Nos últimos seis anos, R$ 28,2 bilhões passaram por oito fintechs investigadas pela polícia e pelo Ministério Público, como revelou reportagem do GLOBO. A quantia é apenas uma amostra de um fluxo maior. Ao crime organizado não faltam sofisticação nem versatilidade. Opera criptoativos, concede empréstimos de fachada e recebe pagamentos internacionais. O desafio diante do BC é coibir a ação criminosa, mas sem criar um ambiente regulatório que eleve custos de forma a asfixiar a inovação trazida por empreendedores idôneos.

Bolsonaro estica a corda - Merval Pereira

O Globo

Tudo faz crer que Bolsonaro queria que sua prisão fosse decretada, embalado pela suposição de que, vitimizado, ganhará força na disputa com o relator dos processos

No atual momento político do país, é lícito desconfiar, pelo menos, de que os bolsonaristas jogam no tumulto generalizado para resolver o caso do ex-presidente Jair Bolsonaro. Todas as manobras levam à conclusão de que não se preparam para disputar uma eleição presidencial em poucos meses, mas pretendem desestabilizar as instituições democráticas acreditando que o apoio do presidente dos Estados Unidos bastará para levá-los de volta ao poder.

Tudo faz crer que Bolsonaro queria que sua prisão fosse decretada, embalado pela suposição de que, vitimizado, ganhará força na disputa com o relator dos processos contra ele, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. É pouco provável que ele ou os filhos não soubessem que, divulgando os pronunciamentos de Bolsonaro durante as manifestações contra Moraes e a favor de Trump e suas sanções contra o Brasil, quebravam as limitações impostas pela Justiça depois da decisão obrigando-o a usar tornozeleira eletrônica.

Trump é um pesadelo - Fernando Gabeira

O Globo

As divergências não podem evitar o diálogo. Precisamos ampliar nosso conhecimento sobre o que se passa nos EUA

Estive em Paraty para falar de um belo livro de fotos de João Farkas: “Costa norte”. Escrevi um texto de apresentação e, no debate sobre manguezais, dunas e petróleo na Foz do Amazonas, um homem perguntou:

— E o fator Trump, que dizer sobre ele?

Fugia um pouco do tema, mas respondi com sinceridade que Trump me tirava algumas horas de sono. Sou jornalista, ele é o homem mais poderoso do mundo. Terei de falar sobre ele nos próximos anos, é um inescapável pesadelo.

Seu narcisismo e estreiteza de ideias colocam um perigo ao analista: cair na zona de conforto da crítica fácil e deixar de evoluir como faria se estivesse diante de alguém com ambiguidades e zonas de sombra típicas da riqueza humana.

Tensão máxima na semana decisiva - Míriam Leitão

O Globo

Negociação com EUA fica mais travada com prisão de Bolsonaro, e saída europeia fica mais difícil sem veto a PL do licenciamento

A semana já estava bem tensa quando o ministro Alexandre de Moraes decretou a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro. O tarifaço está marcado para começar a valer amanhã e não há sinais de negociação. Se houvesse alguma brecha, ela desapareceria depois da decisão sobre o ex-presidente. Num outro campo, está correndo a contagem regressiva para o veto ou não do PL do licenciamento. Parece tema distante, mas está inserido no mesmo dilema das relações internacionais. Se não for vetado, o Brasil pode ter problemas com outros parceiros, como a Europa.

Como enfrentar o truculento Donald Trump? É preciso tentar negociar, apesar de parecer impossível. Mas também é necessário pensar estrategicamente em outros mercados. O problema é que a caminhada insensata rumo à destruição ambiental pode nos fechar mercados alternativos. A Europa como um bloco é o segundo maior mercado brasileiro. O projeto de aprofundar essa relação através de um acordo comercial Mercosul-União Europeia pressupõe que o Brasil cumpra sua legislação ambiental e não a destrua, como faz esse PL. O caminho do meio que o governo tenta, que é vetar em parte, fará de nossa lei para o licenciamento ambiental um Frankenstein.

Bolsonaro preso por que? - Pedro Doria

O Globo

O filho Zero Três, Eduardo, já disse em live pelas redes que não se importa que o país vire terra arrasada

Não foi sem razão que o ministro Alexandre de Moraes decretou a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro. Sua primeira decisão estabelecendo medidas cautelares continha ambiguidades. Nos dias seguintes, quando jornalistas quiseram entrevistar Bolsonaro, e todos foram ao Supremo Tribunal Federal (STF) cobrar clareza, clareza veio. Pode-se questionar a ordem de Moraes, mas era evidente que o ex-presidente estava proibido de incitar seus opositores contra a Corte e que não havia simpatia pela ideia de que outros publicassem seus comunicados nas redes. Ora, o senador Flávio Bolsonaro pôs o pai em ligação direta com uma multidão no domingo, pelo celular. Depois, publicou o vídeo nas redes sociais. Numa manifestação contra o Supremo. Não há o que discutir. Bolsonaro violou a ordem do ministro que o julga. Sofria algumas restrições à liberdade, agora elas ficaram mais rígidas. Sobram duas perguntas. A primeira: por que Bolsonaro fez isso? E a segunda: por que Moraes proibiu seu acesso às redes?

Prisão domiciliar de Bolsonaro agrava confronto com STF e tensão com Trump - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Liderado por Esperidião Amin (PP-SC), um grupo de senadores ameaça apresentar um pedido de impeachment contra o ministro do STF, com 35 assinaturas já confirmadas

A decisão do ministro Alexandre de Moraes de impor prisão domiciliar ao ex-presidente Jair Bolsonaro representa um novo patamar na espiral ascendente do embate entre o Supremo Tribunal Federal (STF) e a extrema-direita brasileira. Com justificativas firmadas na reiteração de condutas ilegais e no uso de terceiros — inclusive os filhos parlamentares, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o vereador carioca Carlos Bolsonaro (PL) — para driblar proibições judiciais, Moraes tomou medidas que já estavam previstas nas leis.

Entretanto, ao impor limites à mobilização de apoio ao ex- -presidente, adiciona combustível à disputa diplomática com os Estados Unidos, sob a presidência de Donald Trump, uma variável externa que ninguém controla. Não é um episódio judicial isolado. A prisão domiciliar de um ex-presidente da República, combinada com o uso obrigatório de tornozeleira eletrônica, bloqueio de comunicações e restrição de visitas, representa uma medida extrema, ainda que justificada pelo descumprimento de ordens judiciais, como a proibição de uso de redes sociais — burlada por meio da atuação ativa de seus filhos e aliados, que difundem mensagens com teor golpista e ataques abertos ao STF.

Até onde a prisão de Bolsonaro pode levar Donald Trump - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Oposição fica amarrada pela divisão da direita e aposta na resposta da Casa Branca

O enquadramento na Lei Magnitsky não deteve o ministro Alexandre de Moraes. Quando o julgamento, com provável condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, acontecer, o réu já estará preso em casa. Pela escalada, não se pode descartar que, até lá, haja uma prisão preventiva.

A progressão deste caso mostra que os descumprimentos não têm se dado pelos deslocamentos de Bolsonaro, mas pelo uso que o ex-presidente, seus familiares e apoiadores fazem das redes sociais, que o ministro havia vedado na decisão anterior.

O cerceamento a essas publicações não tem se mostrado eficaz e nada indica que, com Bolsonaro agora em prisão domiciliar, outras mensagens suas não venham a ser veiculadas. É uma encruzilhada. A escalada empurra Moraes a dobrar a aposta e alimentar, na oposição, inclusive naquela que tem assento na Casa Branca, a acusação de que está a afrontar a liberdade de expressão.

Reforma do sistema monetário global? - Luiz Gonzaga Belluzzo

Valor Econômico

A ampliação dos déficits comerciais americanos que atormentam Trump teve como contrapartida a rápida acumulação de reservas na China superavitária

As idiossincráticas trumpadas de Trump mereceriam a explicitação das forças socioeconômicas que se movimentam nos subterrâneos das vidas de mulheres e homens.

Keynes, o John Maynard, dedicou-se à compreensão das relações complexas entre Estrutura e Ação, entre os papéis sociais e sua execução pelos indivíduos engalanados nos ouropéis da liberdade e racionalidade, mas, de fato, enredados nas forças sistêmicas. Keynes, na esteira de Freud, introduziu as configurações subjetivas produzidas pelas interações entre as formas sociais e seus indivíduos, inexoravelmente submetidos aos objetivos de acumulação de riqueza monetária.

O Bolsa Família em tempos de turbulência global - Luiz Schymura

Valor Econômico

O gasto fiscal direto do programa é expressivo: saiu de algo como 0,5% do PIB, em 2019, para 1,5% do PIB, em 2024


Em julho, as más notícias do front econômico internacional dispararam sinais de alerta no Brasil. Três medidas simultâneas da administração americana criaram ventos contrários para nossas exportações: a imposição de novas tarifas sobre produtos brasileiros; a abertura de investigação sob a Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA - que pode classificar práticas brasileiras como barreiras discriminatórias; e a provável aprovação de sanções automáticas contra países que mantêm relações comerciais com a Rússia.

Política em tempos de grandes mudanças - Paulo Hartung

O Estado de S. Paulo

O chão da história de vocação iluminista não se pavimenta com soluções fáceis nem episódicas, muito menos fratricidas, ditatoriais ou radicais

Vi vemos uma contemporaneidade convulsiva, transformada pela incidência das novas tecnologias, pela emergência climática e por movimentos desafiantes aos laços politicamente estruturados. Acrise desencadeada pelo governo norte-ameri canoco mo tari faço aprofunda esse quadro. E ocadinho que amalgama tantos problemas tem ingredientes vários. Experimentamos uma era de fluidez vertiginosa, que soma as dimensões presencial e digital para uma existência em dupla ambiência, atravessada por desprezo à factualidade, como bem mostra o fenômeno dramático das fake news.

Temos um crítico momento em que as bases democrático-republicanas de nossa civilização sofrem ataques ao redor do planeta, sombreado por retrocessos patrocinados por radicalidades do espectro político. No rastro da pandemia e feroz disputa por hegemonia global, geraramse efeitos danosos inegáveis, como a desorganização de diversificadas cadeias de suprimento. Guerras, ataques ao multilateralismo e a emergência climática adicionam complexidades a uma fase histórica de enfraquecimento do sistema internacional erigido no pós-1945, ora inclinado a ser suplantado por crescente beligerância, recrudescente protecionismo e preocupante negacionismo.

A dinâmica do caos - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Bolsonaro confronta, Moraes radicaliza e as armas de Trump miram o Brasil

Quanto mais Jair Bolsonaro estica a corda e confronta, mais o ministro Alexandre de Moraes reage endurecendo as medidas cautelares. É assim que os dois vão acostumando a sociedade com a possibilidade de prisão do ex-presidente após a condenação final pelo Supremo, prevista para setembro, por tentativa de golpe. Quando, e se, ocorrer, a prisão definitiva já terá sido “naturalizada” até pelos bolsonaristas.

Há, porém, um obstáculo no meio do caminho: a chantagem de Donald Trump, exigindo o fim imediato dos processos contra Bolsonaro, em troca do recuo da tarifa de 50% para grande parte de produtos exportados pelo Brasil para os EUA. Moraes não tem alternativa. Ceder a Trump está fora de cogitação.

Em resumo - Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O cronista, sabidamente prolixo, inicia este artigo com um resumo do anterior: a aplicação deturpada, para coagir, da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes tem a mesma natureza viciada da gestão anômala dos inquéritos de Xandão, infinitos e onipresentes. Em outras palavras: Moraes, criador do Direito, aplicaria a Magnitsky da mesma forma desvirtuada – constante e intimidadora – como Donald Trump, criador do Direito, faz. Em suma: Xandão aplicaria a Magnitsky contra Moraes.

Estacionadas sobre o País, uma alimentando a outra, as naves autoritárias xandônica e trumpista. Nenhuma delas capaz de resolver o nosso problema, senão agravá-lo. A uma, vale tudo para punir o golpista Bolsonaro. À outra, vale tudo para livrar o golpista Bolsonaro.

Escalada desatrosa - Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

A prisão domiciliar de Bolsonaro é choque de visões inconciliáveis que promete escalar ainda mais

A prisão domiciliar de Bolsonaro —não por algum crime que tenha cometido, e sim por ter feito uma mensagem para as redes sociais— ilustra uma dinâmica comum: o Supremo impõe restrições abusivas e a direita desafia o Supremo porque quer derrubá-lo. Estamos vendo o choque entre duas visões inconciliáveis que promete escalar ainda mais.

Para uma, vivemos o ataque constante à democracia pela extrema direita. Contra isso, o Supremo não pode assistir inerte enquanto as instituições do país são nocauteadas. Lugar de golpista é na cadeia e quem se indignar com isso é porque está do lado do golpe.

Datafolha é banho de realidade para Lula - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Tarifaço prejudicou bolsonarismo, mas não resultou numa volta por cima política para o governo

A mais recente pesquisa Datafolha deveria funcionar como um "reality check", um banho de realidade, para o governo Lula. Pelo que o instituto apurou, a crise em torno do tarifaço de Trump contra produtos brasileiros beneficiou o petista, mas de forma menos direta e menos definitiva do que se poderia supor.

O bolsonarismo sofreu abalo importante com a estripulia de Dudu, se é lícito chamar assim a campanha contra o Brasil que Eduardo Bolsonaro deslanchou nos EUA. É de 57% a proporção de brasileiros que repudia a tentativa de interferência da Casa Branca no sistema de Justiça brasileiro.

Outro dado interessante é que 61% dos entrevistados dizem que não votariam de jeito nenhum num candidato que prometesse livrar o capitão reformado e seus apaniguados de punições pelo 8/1. Mas isso nem de longe significa um golpe fatal no bolsonarismo. Nada menos do que 36% apoiam as ações do presidente americano. E, como vimos no domingo, a direita radical ainda é capaz de levar bastante gente às ruas.